20 de jul de 2019

Pequena história ilustrada sobre o fim da Lava Jato


Peça 0 – a título de introdução: com PGR, com Supremo, com tudo

O adesismo faz parte do comportamento histórico na vida nacional. Talvez a maior marca do subdesenvolvimento seja a ausência de caráter público, o conjunto de valores que deveriam nortear as ações públicas, operando como freio aos espíritos mais oportunistas.

Exemplos significativos dessa carência são os Ministros Luis Roberto Barroso e Edson Fachin, progressistas quando os ventos sopravam para os direitos; impiedosos quando os ventos enfunaram as velas das galés punitivistas; perdidos quando há ventos em várias direções.

O mesmo ocorreu com Procuradores Gerais que eram adesistas, como Geraldo Brindeiro, oportunistas ocupando vácuos de poder (que o PT chamava de republicanismo) – como Antonio Fernando de Souza e Rodrigo Janot – ou subservientes, quando o Poder exigiu subserviência, como Raquel Dodge.

Salve Cláudio Fontelles, ave rara nessa criação de corvos.

Peça 1 – o fenômeno Lava Jato




Já apresentei este mapa esquemático no YouTube para explicar o fenômeno Lava Jato. É simples.

Poderes tradicionais – Executivo, Legislativo, Judiciário, mais duas corporações de Estado, as Forças Armadas e a Procuradoria Geral da República. O 4º poder, a mídia, articulando uma opinião pública que influenciava os demais.

A conspiração –juntando STF, PGR, Congresso, PSDB-PMDB e mídia visando derrubar a presidente da República. A espoleta inicial é a campanha diuturna de mídia burilando o discurso de ódio em torno do mote histórico de sempre – denúncias de corrupção – esperando instrumentalizar a ultradireita adormecida.

Lava Jato – se valendo de vazamentos e delações para alimentar a campanha da mídia e, através dela, obter adesão popular.


Milícias digitais –Com o fenômeno das redes sociais, e com boa tecnologia externa, surgem as milícias digitais, as redes de WhatsApp, conferindo autonomia à ultradireita, que ganhar vida própria e leva os Bolsonaro ao poder.


Milícias reais –  o país passa a ser comandado, então, por um oficial da reserva, ligado aos porões da ditadura, e com estreitas ligações com as milícias reais.

Como ficarão os demais agentes do Poder? Aí entra a síndrome do adesismo que marca os centros secundários de poder no país.

Peça 2- o Mapa do Poder


O Mapa do Poder fica assim, com vários protagonistas enfeixados na caracterização genérica de Sistema, Oposição, Direita, Ultra Direita, Crime Organizado e influência de Donald Trump.

Ao mesmo tempo, com a prisão de Lula e a derrota do PT, dilui-se o tema unificador do golpe e aparecem os pontos de dissenso e novos pontos de confluência:
  1. Base x cúpula
  2. Democracia x ditadura
  3. Pauta de costumes
  4. Luta de classes
Peça 3 – os dissensos e a conformação de forças

O que marca o momento atual é o predomínio de dois dissensos principais que operam como agentes aglutinadores de uma das divisões.

Cúpula x base

Explica a recente decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), José Dias Toffoli, proibindo que o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) repasse dados para a Polícia Federal e para os procuradores sem prévia autorização de um juiz.

A medida atendeu ao interesse imediato da família Bolsonaro, mas não apenas dela. Foi uma reação contra um fenômeno grave que emergiu da Lava Jato, a parceria entre órgãos de controle, como CGU (Controladoria Geral da União), TCU (Tribunal de Contas da União), procuradores e policiais federais, responsável por grandes tragédias recentes, como as invasões de Universidades, humilhação de reitores e professores, além de ter provocado o chamado apagão das canetas, o receio de funcionários públicos de assinar qualquer documento, dado a truculência e falta de discernimento dessa frente. Ganhou o apoio dos tribunais superiores, dos advogados, da oposição.

Após o aplauso da família Bolsonaro, a primeira corporação a se enquadrar foi a Polícia Federal de Sérgio Moro. A falta de de solidariedade de Moro à Lava Jato comprova a subserviência total a Bolsonaro e o clima do salve-se quem puder, permitindo adotar o vaticínio de Romero Jucá, “com Supremo, com Raquel, com Moro e com tudo”.


Luta de Classes

O segundo ponto a mover as alianças é a chamada Luta de Classes, que juntou empresários, mercado, o clube dos bilionários, Congresso, mídia, Ministros do Supremo, o silêncio da PGR, setores da alta burocracia pública em torno das reformas, do desmonte das redes de proteção social, da privatização selvagem.
É a grande âncora atual do governo Bolsonaro. Cessará de ser quando cair a ficha de que são falsas as promessas de pote de ouro no final do arco-íris das reformas.

Peça 4 – a permanência dos dissensos

Os embates atuais não fazem submergir os demais dissensos.

De um lado, Bolsonaro segue o receituário da direita, de Trump a Macri, de criar factoides diários como estratégia de mobilização das bases, de aprofundamento do desmanche do Estado e de disfarce da baixa capacidade operacional do seu governo.


Não são apenas factoides, mas decisões que afetam interesses setoriais e nacionais e ameaças explícitas à democracia. Como a história de proibir a Petrobras de abastecer navio iraniano que veio ao Brasil comprar milho. Ou a sequência inédita de bizarrices no Twitter ou nas coletivas.

De qualquer modo, o fisiologismo das corporações brasileiras tornou elástica a naturalização dos absurdos e a suspensão das investigações sobre as relações dos Bolsonaro com o crime organizado.

Luís Nassif
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A caixa registradora de Deltan

A Lava-Jato segue ladeira abaixo com a exposição de sua moral particular, pelo The Intercept, com a revelação da ensandecida cadeia de armações, ganância e desonestidade intelectual do grupo de procuradores que colocou o ex-presidente Lula na cadeia, com Moro, com Supremo, com tudo, e que agora queria, alegremente, faturar com isso. Faturar financeiramente, já que politicamente quem já faturou foi Jair Bolsonaro, que virou presidente, Sérgio Moro, o juiz que virou ministro e tem lugar cativo no coração do Supremo, e o mercado, que conseguiu manter o PT longe do Planalto. O The Intercept, o veículo de Glenn Greenwald – que, numa inversão completa da lógica, periga ele sim estar sendo investigado pela Polícia Federal -, revelou, como se sabe, a orquestração de um mercado de palestras de auto-ajuda corporativa-jurídica com que o procurador Deltan Dallagnol e seus acepipes de terninho 007 planejavam engordar suas contas bancárias. Deltan, por exemplo, recebeu cerca de R$ 300 mil como servidor e planejava com a criação da empresa de palestras e eventos faturar R$ 400 mil por aparição de 90 minutos – ou 400 k, na linguagem dos entendidos. Como lembrou Elio Gaspari, o valor de mercado para ouvir Dallagnol hoje é de R$ 35 mil por aparição – mas ele pode crescer. Como servidor público, o cidadão imberbe recebe mais ou menos isso por um mês de trabalho.

Se há coisa mais indecente a ser revelada, não consigo pensar, a não ser que partamos para o mundo do bizarro, como a criação de uma malharia dentro do Ministério Público em Curitiba que vendesse camisetas com Lula atrás das grades e com Moro como super-homem, ou, quem sabe, a inauguração de um museu da Lava-Jato, com peças como o famoso power point de Deltan, os terninhos dos procuradores, as algemas e as tornozeleiras eletrônicas já usadas por delatores. Os procuradores poderiam também encher a prisão de Lula de câmeras e transmitir ao vivo no melhor estilo BBB. Se soam ideias absurdas, espero que eles não estejam lendo. Como Deltan tem uma caixa registradora na cabeça, podem rapidamente virar um bom negócio.

É evidente que Deltan sabia, ao tentar montar sua empresa de palestras, a Lava-Jato S/A, que surfava nas ondas de seu trabalho como procurador, o que agora soa cômico quando se pensa que até isso eles combinaram pelo Telegram, a mesma fonte onde tramaram cada etapa da Lava-Jato, como mostrou o The Intercept, com Moro, com Fux, com tudo. O desmascaramento de Deltan, o carola esperto, é um dos achados da exposição pública dos atores canastrões do nosso Mecanismo real, não a ficção bobinha de Selton Mello. A mesma turma que antes, igualmente sem pudor algum, pretendia criar, embarcando num acordo entre a Petrobras e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, uma escandalosa fundação independente, e bilionária no nascedouro, com recursos oriundos da Petrobras, que distribuiria os rendimentos para projetos de combate à corrupção e promoção da cidadania.

Entenda bem, o conceito de ética de Deltan, já exposto no Telegram, é diferente do nosso, portanto sua régua é diferente. É a régua da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que recebeu na tarde desta terça, 16, oito membros da força-tarefa de Curitiba, entre eles Deltan, para – adivinhem? – reafirmar o apoio da PGR ao trabalho do grupo. Repare. Foi o primeiro encontro público da Chefe do MPF com o coordenador da Lava Jato desde a primeira revelação dos conteúdos aterradores pelo Intercept, há quase 50 dias. Não se sabe se comeram bolinhos de chuva e tomaram chocolate quente, apenas que não foram notificados do afastamento dos cargos para responder sindicância, nem receberam voz de prisão. Talvez Raquel Dodge, no calor da conversa, tenha confessado que ela mesma pretenda no futuro viver de palestras e debateram alegremente preços de cachês, comparando-os com os que ganha, por exemplo, Rodrigo Janot e, viajando, Barack Obama. Ou se falaram de consultorias e escritórios de lobby, outro destino comum a servidores desatinados do Estado depois que penduram as chuteiras.

Enquanto isso, o mundo político de Brasília discute se a Comissão de Relações Exteriores do Senado, em sabatina, confirmará o nome do cowboyfritador de hambúrguer Eduardo Bolsonaro, o deputado que anda armado, para a embaixada brasileira em Washington, algo absolutamente natural num país onde o presidente beija a bandeira dos Estados Unidos e o chanceler Eduardo Araujo baba o ovo de Trump, e o senador Flávio Bolsonaro, blindado pelo presidente do STF, Dias Toffoli, e agora devidamente desmilicianizado, cuida no Senado da reforma tributária, apresentando, com o apoio do Instituto Brasil 200, uma proposta de criação de um imposto único sobre movimentações financeiras. É de doer.

Ricardo Miranda
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TV ANPR confirma que vídeo publicitário das “10 medidas” teve parceria da Rede Globo

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Na página do Youtube da TV ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) ainda é possível assistir um vídeo intitulado “Juntos Contra a Corrupção”.

Se trata de uma propaganda onde um homem, vestido de terno, invade uma residência de classe média para destruir a comida, remédios, cadernos escolares, antes de entrar armado no quarto do casal, que dorme profundamente.

Para quem está acompanhando as últimas notícias sobre o vazamento das conversas entre o então juiz Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato, talvez esse roteiro não seja novidade. O material foi exposto nesta segunda-feira (15), no blog de Reinaldo Azevedo, que, em parceria com o site The Intercept Brasil, compartilhou novas mensagens apontando a relação irregular entre Moro e Dallagnol, chefe da força-tarefa da Operação Lava Jato.

No dia 16 de janeiro de 2016, Deltan enviou uma mensagem a Moro pedindo dinheiro da 13ª Vara de Curitiba para bancar uma propaganda “contra a corrupção, pelas 10 medidas”. O procedimento é ilegal em vários sentidos. Primeiro porque uma Vara da Justiça não tem liberdade legal para investir em propagandas, segundo de fazer propagandas para entidades terceiras e, por último, o fato de um juiz conversar sobre o repasse de recursos para um procurador federal com essa finalidade.

A seguir, acompanhe a troca de mensagens entre Moro e Dallagnol, onde o ex-juiz não nega o pedido e diz para aguardar sua decisão sobre o assunto. Em seguida, o vídeo da propaganda, destacando as informações da TV ANPR de que o trabalho foi realizado “em parceria com a Rede Globo”, confirmando um dos dados da conversa entre Dallagnol e Moro, de que a peça publicitária contava com o apoio do canal.


13:32:56 Deltan – Vc acha que seria possível a destinação de valores da Vara, daqueles mais antigos, se estiverem disponíveis, para um vídeo contra a corrupção, pelas 10 medidas, que será veiculado na globo?? A produtora está cobrando apenas custos de terceiros, o que daria uns 38 mil. Se achar ruim em algum aspecto, há alternativas que estamos avaliando, como crowdfunding e cotização entre as pessoas envolvidas na campanha.

13:32:56: Deltan – Segue o roteiro e o orçamento, caso queria [buscou escrever “queira”] olhar. O roteiro sofrerá alguma alteração ainda

13:32:56: Deltan – Avalie de modo absolutamente livre e se achar que pode de qq modo arranhar a imagem da LJ de alguma forma, nem nós queremos.

13:35:00: Deltan – pdf

13:35:28: Deltan – pdf.

No dia seguinte, 17 de janeiro de 2016, Moro responde:

10:20:56 Moro – Se for so uns 38 mil achi [quis escrever “acho”] que é possível. Deixe ver na terça e te respondo.

Segundo nota da redação do blog de Reinaldo, a sequência de mensagens de Deltan Dallagnol tem a mesma hora de envio porque fora retransmitidas ao mesmo tempo de um outro grupo ou interlocutor para Serguio Moro

Tocador de vídeo


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1. “Juntos Contra a Corrupção”
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TRANSCRIÇÃO DO ROTEIRO

Dez Medidas Contra a Corrupção

Roteiro 30″
“Engravatado”

Cena de madrugada, numa casa de família de classe média. O silêncio deixa claro que a família está dormindo. O trinco da porta da cozinha se mexe e um homem de terno e gravata entra na casa.
Ele mexe na geladeira e começa a jogar fora toda a comida da família. Ouvimos a locução em off:
– A corrupção atinge a sua vida de tantas formas que você nem percebe,
Fica apenas a marca do projeto:
– Não desista do Brasil.
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Decisão é provisória e deverá ser cristalizada em novembro próximo, quando será julgado o mérito do Recurso Extraordinário


O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, respondendo pelo plantão judiciário em decorrência de férias forenses, monocraticamente, ordenou a imediata suspensão do andamento de todas as investigações e processos criminais que estejam contaminados, em seu bojo, por dados bancários e fiscais de investigados ou réus, obtidos sem a devida autorização judicial, nos porões da Receita Federal, do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e do Banco Central.

A decisão é provisória e deverá ser cristalizada em novembro próximo, quando será julgado o mérito do Recurso Extraordinário, com repercussão geral reconhecida, em que proferida a liminar.

Desde já e até lá, apaixonados membros do Ministério Público destilarão seu veneno, com ares de paladinos da moralidade, de heróis da coisa pública. Entoarão a velha cantilena de que o país é vítima de recorrentes chicanas judiciárias, de que a Justiça privilegia os ricos e poderosos, de que certos ministros são comprometidos ideologicamente, que são lenientes e condescendentes com a criminalidade, com o colarinho branco, com a corrupção. Estimularão, também, o crescente descontentamento que vêm fomentando na população com as instituições da República.

O chororô sensacionalista já se faz ouvir em palavras fáceis, apelativas, populistas, num espetáculo de aterrorizante centrado na propagação desenfreada do terrorismo penal.

Os Xerifes de almanaque se colocam na posição de mártires e buscam cooptar ao papel de vítima toda a população: eles realizam um trabalho árduo e corajoso no combate à criminalidade e são sabotados pelos Tribunais Superiores, arrastando consigo toda a sociedade honesta.

Deslavada mentira.

A Constituição Federal protege a intimidade de todo cidadão brasileiro, a fiscal e a bancária inclusive.

Dados compartilhados com órgãos de investigação criminal, sem autorização judicial, são absolutamente imprestáveis.
O Ministério Público - órgão essencialmente acusador, esquecida sua função, que deveria ser precipuamente a de fiscal da lei - na sua sanha acusatória desenfreada requisita e recebe informações acobertadas por sigilo.

A intimidade é um imperativo civilizatório, um contraponto histórico às devassas medievais.

Impedidas estão, pois, investigações que se fundam em dados bancários, fiscais, grampos telefônicos ou telemáticos?

Não!

Havendo indícios prévios de prática delitiva que precisem ser aprofundados com quebras de sigilos, o Poder Judiciário, somente ele, na figura do Juiz de Direito, em despacho necessariamente motivado, pode afastar a garantia.

O Ministério Público, sem controle algum, jamais poderia ser – e não é – titular de tal prerrogativa, porque tem interesse na investigação ou no decorrente processo. É parte, é acusador, tem lado, não é isento.

Democracia só funciona com o cumprimento de determinados ritos e formas pré-estabelecidos.

O Ministério Público agora se descabela com a hígida decisão do ministro Tofolli. Vários processos poderão ser anulados. Imputam os Procuradores da República a culpa de seus próprios erros aos tribunais quando estes fazem valer a Lei Maior.

Foi assim em diversas operações importantes, anuladas por vícios de origem perpetrados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Os investigadores se precipitam no afã de gozar glória efêmera e, depois, reestabelecida a ordem legal, culpam o Judiciário, em especial o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal, deixando, é bom que se repita, na população leiga a impressão de que Ministros são cumplices de delitos graves e que as Instituições democráticas são um entrave à apuração dos crimes que assolam o país.

Nada disto. Quem impede que muitas Operações relevantes cheguem a bom termo, com a punição de quem deve ser punido, é o próprio Ministério Público que insiste em se investir de poderes que não tem. Se importantes investigações e processos vierem a ser anulados, confirmado pelo órgão colegiado a liminar ora concedida, a culpa será do Ministério Público.
Vaidade e múnus público não combinam.

Luiz Fernando Pacheco, advogado, conselheiro da seccional paulista da OAB e do IDDD – Instituto de Defesa do Direito de Defesa.

Enviado Por Veridiana Carvalho
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A farsa de Moro está nos autos; a alma, no Telegram

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A importantíssima divulgação, pelo The Intercept Brasil, das conversas secretas da Lava Jato no Telegram desnuda os baixos instintos de Sergio Moro, Dallagnol e seus comparsas. São conversas asquerosas entre falsos puritanos, mas não surpreendem quem leu antes os autos do caso Lula. Na busca pela verdadeira justiça, o mérito do Intercept é provocar a revisão dos atos parciais e criminosos de Moro, denunciados pela defesa técnica do ex-presidente e ignorados pelo sistema judicial e pela imprensa hoje escandalizada com o que foi varrido para debaixo do tapete.

Antes da Vazajato, provavelmente não tomaríamos conhecimento de que uma testemunha importante no processo do sítio de Atibaia disse a outro juiz que foi “quase coagido” e teve de “construir um relato” para a Vara de Curitiba. Está na Folha de hoje (16/07), que se interessou pelo depoimento de um ex-diretor de Odebrecht, Carlos Armando Paschoal, num caso relacionado ao governo Michel Temer.

Mudanças súbitas de depoimentos sempre foram apontadas pela defesa de Lula. Em quantas não teria havido coação e relatos construídos para condenar sem provas? Não é preciso saber o que contêm os grampos ilegais na cela do doleiro Alberto Youssef para verificar as constantes mudanças em seus relatos, ao sabor das conveniências dele, dos procuradores e do ex-juiz. Vamos esperar a revelação de novos diálogos ou vamos revisar os autos?

Pois além de “construir” depoimentos, a Lava Jato ergueu a lenda de que supostos pagamentos a Lula teriam sido registrados na contabilidade secreta das empresas investigadas. Para provar a falsidade da alegação, a defesa solicitou perícia das planilhas que trariam os tais registros. Está lá nos autos: Moro negou sistematicamente esse direito elementar do acusado e interditou a produção de provas sobre elemento central do caso.

Uma das perícias, porém, foi realizada, justamente para analisar cópia do sistema “MyWebDay”, aquele que conteria o “mapa” das propinas pagas pela Odebrecht a agentes públicos. E a perícia mostrou que não há ali qualquer referência a Lula ou a “Amigo”, que seria o codinome a ele atribuído. Mostrou também que os R$ 700 mil que os delatores disseram ter sido destinados a uma reforma no sítio de Atibaia foram, em realidade, sacados em favor do atual presidente do conselho de administração da própria Odebrecht, Ruy Lemos Sampaio.

Em depoimento de 25 de junho ao sucessor de Moro, juiz Antônio Bonat, o ex-presidente do Grupo OAS, Leo Pinheiro, chamou de “Controladoria” ao setor de pagamento de propinas da empresa. Mas não apontou nenhum registro de pagamento a Lula. Basta verificar nos autos: não há referência ao nome ou codinome de Lula em nenhuma contabilidade, secreta ou aberta, das empresas investigadas. Ou seja: não é preciso esperar novas revelações para saber que forjaram provas contra Lula.

E também está nos autos do caso do Guarujá que em todo o processo: 1) não se provou que Lula teve a posse a propriedade do tal tríplex, a ele “atribuído” na sentença de Moro; 2) nem que Lula assinou qualquer ato ou ordem que tenha gerado desvio de dinheiro público, o que levou Moro a condená-lo por “atos indeterminados”, e 3) que “este juízo (Moro) jamais afirmou, na sentença ou em lugar algum, que os valores obtidos pela Construtora OAS nos contratos com a Petrobras foram usados para pagamento da vantagem indevida para o ex-Presidente”.

Os advogados de Lula, Cristiano Zanin e Valeska Teixeira Martins especialmente, pagaram alto preço pela defesa técnica que fizeram da inocência do ex-presidente e por terem arguido, desde o início, a suspeição e parcialidade do ex-juiz Sergio Moro. Nunca desistiram dessa linha, que corresponde à visão histórica e ao argumento moral do próprio Lula diante das acusações que lhe fizeram. Essa coerência constrange um sistema judicial que até hoje não ousou enfrentar cabalmente as ilegalidades cometidas por Moro, de forma a provocar um novo e justo julgamento.

Não deixa de ser irônico que Moro esteja provando, junto com seus comparsas, o veneno de intimidade devassada. O ex-juiz bem sabe o quanto valeu intoxicar com grampos a opinião pública para emparedar a verdadeira justiça com a farsa da Lava Jato. A diferença, cruel para Moro, é que seus arapongas não captaram uma só palavra de Lula para comprovar a acusação. Já as mensagens reveladas pelo Intercept confirmam, diálogo por diálogo, o conluio, a parcialidade e as ilegalidades denunciadas nos autos, além de revelar a alma de uma gente sem escrúpulos.

Ricardo Amaral
No DCM
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Viva a burrice

Apesar dos tempos bicudos que vivemos, há uma maneira fácil de ganhar um dinheirinho: apostar que, na hora em que tomar qualquer decisão, o capitão Bolsonaro fará uma burrice. Problema talvez seja encontrar quem aceite a aposta inversa.    

A ridícula ideia de nomear um filho como embaixador é suficiente como exemplo. Estava vago o posto de embaixador nos Estados Unidos e o que faz Bolsonaro? Sai-se com uma invenção tosca.  

Perderia seu dinheiro quem apostasse que manteria o atual embaixador ou nomearia alguém à altura. Filho, desqualificado e em Washington, alguém imaginaria que o capitão fosse capaz de tanta burrice? Pois foi.   

A relação que com ele guarda uma parte da elite a obriga a procurar algum sentido em suas patuscadas. Não é que apareceu um diretor da Confederação Nacional da Indústria para declarar que o filhinho embaixador faria milagres, alavancando as exportações brasileiras? Pode haver quem tente tirar leite das pedras, mas o fato permanece: foi mais uma burrice, das grossas.  

E viva as burrices! O apetite do capitão para cometê-las é uma das razões para ter certeza de que sua passagem pelo primeiro plano de nossa vida politica será breve.  

Houve um momento em que era possível que Bolsonaro se tornasse uma liderança respeitável, capaz de representar uma parcela significativa de nossa sociedade, logo após a vitória no segundo turno da última eleição.   

Naquela altura, um político inteligente poderia, até com facilidade, agregar outro terço do eleitorado ao que votara em seu nome, constituído pelas pessoas menos politizadas e de menor participação. Estava a seu alcance chegar ao final de 2018 tendo-as a seu lado, o que o tornaria uma figura política de primeira grandeza. Bastava que não fosse o velho capitão Bolsonaro, sempre a fazer burrices, mas era.    

Completa seis meses de governo em situação frágil, com Moro e a Lava Jato desmoralizados, e o horizonte nublado. Não por acaso, põem-se a assobiar no escuro, tentando afastar os fantasmas da insignificância e da impopularidade, fingindo-se animado com as chances de reeleição. Faz o mesmo que seu amigo Michel Temer, que se pavoneou como candidato “forte” durante uns três meses em 2017, para terminar assistindo a eleição pela televisão, escondido no Palácio do Jaburu.  

As pesquisas mostram que Bolsonaro foi incapaz de expandir sua base de apoio desde a eleição. Os números da avaliação positiva que preserva sugerem que não conseguiu incorporar praticamente ninguém, nem entre as pessoas que votaram em Haddad, nem entre quem ficou indiferente a ambos.      

Há de haver várias razões para isso e uma delas é a burrice de Bolsonaro, que o faz achar que precisa dialogar apenas com seus eleitores, supondo que, com eles,  ganha toda eleição. Ou então que, à custa de mutretas como as que o beneficiaram em 2018, conseguirá impedir que qualquer adversário o derrote.  

O capitão, ao que tudo indica, acredita que seu eleitorado é estável e homogeneamente ideológico, constituído por pessoas movidas a chavões da ultradireita primitiva. Essa gente existe, fantasiada de verde-amarelo, falando besteiras e seguindo perfis que disseminam idiotices na internet. Mas não passa de uma pequena minoria, que se pode estimar em algo próximo a 10% da população.    

Muito mais que a metade dos eleitores que votaram em Bolsonaro nem sabe qual é sua ideologia, nunca ouviu falar em anticomunismo, anti-esquerdismo ou bobagens do gênero. São pessoas que acreditaram que o capitão entregaria, no curto prazo, três resultados palpáveis: a retomada do crescimento econômico, com mais renda e empregos, o aumento da segurança, com a derrota da criminalidade, e a regeneração dos costumes políticos. E, se há hoje uma certeza, é que nenhuma delas está acontecendo ou ocorrerá em seu governo.   

É apenas uma questão de tempo para que o terço de apoio do capitão comece a minguar. Com a qualidade de sua turma e da liderança que exerce, não há hipótese de que consiga, em prazo razoável, entregar aquilo com que se comprometeu. A cada nomeação canhestra, a cada escolha despropositada de prioridades, a cada iniciativa sem pé nem cabeça, a possibilidade de que faça um bom governo fica mais remota e menor sua sustentação.   

Não será pequeno o custo social em que implicará, nem bonito o espetáculo do fracasso administrativo do governo do capitão Bolsonaro, mas já entrou em cartaz e logo estará à vista de todos. Graças, em parte relevante, à sua burrice.   

Marcos Coimbra, é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
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