13 de jul de 2019

Uma entrevista imperdível com Nicolelis


Nicolelis mostra como a mania do compliance burocratizou completamente a pesquisa acadêmica nos Estados Unidos. E como o taylorismo educacional emburreceu a educação mundial

Miguel Nicolelis não é apenas um dos mais reputados neurocientistas do planeta. É também um pensador incansável da condição humana, a partir da análise do cérebro.

Nessa entrevista ele fala do cérebro humano como centro da criação. É o cérebro que desenvolveu os conceitos de religião, de Deus, das artes, da economia, da política.

O cérebro humano é profundamente maleável, diz ele. Nenhuma máquina poderá competir em inventividade, nas armas da intuição.

Acontece que nas últimas décadas, com o avanço da automação, e o dinheiro como centro das atenções, o cérebro humano foi condicionado a pensar de acordo com a nova lógica financeira, devido aos estímulos recebidos pelo cérebro.

Nicolelis mostra como a mania do compliance burocratizou completamente a pesquisa acadêmica nos Estados Unidos. E como o taylorismo educacional emburreceu a educação mundial.



Luís Nassif
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QuantoÉ novamente mente

capa da revista Istoé atacando a campanha Lula Livre
Diante de mais uma capa mentirosa da revista IstoÉ (11/06), contendo como de costume falsas acusações, o Partido dos Trabalhadores esclarece a verdade:

1) O recebimento de Fundo Partidário é um direito constitucional dos partidos políticos, que passam a ter a responsabilidade de utilizá-lo conforme o que determina a lei.

2) Ao contrário do que afirma a reportagem, as atividades partidárias por ela citadas, como as despesas com reuniões de órgãos de direção do PT, se enquadram perfeitamente na Lei dos Partidos Políticos (9.096/95).

3) Todos os documentos expostos na reportagem compõem o processo público de prestação de contas partidárias do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, apresentadas anualmente ao Tribunal Superior Eleitoral. Diferentemente do que faz crer a reportagem enganosa e sensacionalista, os gastos do PT podem ser acessados por qualquer pessoa, e deverão ser devidamente apreciados pela Justiça Eleitoral.

O PT avalia as medidas judiciais cabíveis contra a revista, reincidente em divulgar falsidades e afirmações caluniosas e difamatórias.
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Estudo mostra que apoio a Moro nas redes veio de robôs, boa parte do Irã

Ele
Mesmo respaldado pelo presidente Bolsonaro e família (veja a reportagem), o juiz Sergio Moro vem sofrendo seguidos desgastes com a divulgação de suas conversas enquanto comandava a 13ª Vara Criminal de Curitiba.

Na capa da última edição, VEJA, em parceria com o site The Intercept Brasil, revelou diálogos inéditos entre Moro e o procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa do Ministério Público em Curitiba. Num deles, o ex-juiz avisa que o procurador havia esquecido de incluir uma prova que reforçaria a acusação contra envolvidos na Lava-Jato.

(…)

Essas e outras informações da reportagem entraram para os trending topics do Twitter e geraram, entre os dias 5 e 9, 3,2 milhões de menções nessa rede social.

Realizado pela Diretoria de Análises de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV), um estudo mostra ainda que cerca de 220 000 dessas postagens foram provavelmente feitas por robôs, a maioria delas em tom crítico a VEJA.

Outro dado curioso: uma quantidade considerável dessas mensagens supostamente automatizadas veio do Irã. Lá da terra dos aiatolás houve o disparo de hashtags como #glenncomproumandato, #somostodosmoro e #pavaomisteriosovoltou.

Como apoios no Oriente Médio ao ex-juiz são pouco plausíveis, a hipótese de que esses perfis sejam robôs é, segundo os especialistas, a mais aceitável.

(…)

No Veja
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Dudu on the table


Não é cortina de fumaça, como insistem e querem os plantonistas de redes sociais. 

A indicação de Eduardo, pelo pai, Jair, à Embaixada do Brasil, em Washington, é uma ação coerente e, de certa forma, construída para dar certo dentro desse universo paralelo montado no Palácio do Planalto.

É, por assim dizer, uma prerrogativa dessa interface delirante onde Bolsonaro é, de fato, livre para governar. Tudo o mais - economia, saúde, educação, cultura, ciência, tecnologia - depende das decisões do mercado financeiro e de lobistas internacionais associados, basicamente, aos interesses dos Estados Unidos.

Donald Trump percebeu, desde o início, que o 03, por ser um adolescente intelectualmente limítrofe, exatamente como o pai, seria uma peça fácil de manipular. 

Tê-lo como embaixador será uma forma de manter o Brasil  preso a uma coleira diplomática inédita, submetido à força e às vontades das corporações americanas em troca de afagos, bugigangas e bonés. 

Ao mesmo tempo, a indicação do próprio filho, acima da lei e alheio ao ridículo, ao cargo de embaixador, dá a Bozo a sensação fantasiosa de poder. 

É um momento agregado ao teatro de fantoches do qual também fazem parte ministros, generais e o deputado Hélio Negão quando se perfilam, ao lado do presidente, em transmissões ao vivo.

Ali, sentado lado a lado com seus asseclas, como em um simulacro de inquisição com tradução em libras, Bozo tem permissão para brincar de presidente, ao mesmo tempo em que alimenta o gado que o idolatra com rações diversas de ódio, ignorância e preconceito. 

Nesse delírio permitido de República, Eduardo Bolsonaro é o nome perfeito para embaixador nos EUA. E não apenas pelo feito admirável de ter fritado hambúrgueres no frio glacial do Maine, aliás, no que parece ter sido uma ocupação ilegal, para um intercambista. 

Mas porque, no fundo, temos que viver essa experiência antes de, em um futuro próximo, nos debruçarmos sobre essa época e, finalmente, entender as razões que levaram quase 60 milhões de pessoas  a eleger um presidente da República demente cercado de filhos idiotas.

Leandro Fortes, jornalista
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Paulo Henrique Amorim, a televisão brasileira e suas mortes

A decadência do telejornalismo e da televisão é um drama ao qual se soma a triste despedida de PHA, um dos poucos profissionais que ainda dava a ela uma certa dignidade.


“A televisão é uma máquina de fazer doidos” dizia Sérgio Porto, o inesquecível Stanislaw Ponte Preta, lá pelos anos 60 do século passado.  Autor do Febeapá, o Festival de Besteiras que Assola o Pais, cutucava com o seu humor a ditadura da época e percebia na TV um instrumento que, ao contribuir para a burrice e alienação, dava ampla sustentação ao arbítrio.

Morto precocemente, Stanislaw não viu o crescimento da máquina fazendo e promovendo doidos, não apenas no público mas dentro de sua própria engrenagem. Entregues como concessões pelos sucessivos governos federais a aventureiros como Silvio Santos ou a políticos travestidos de empresários como Roberto Marinho, a TV foi se aviltando até chegar no lodaçal em que se encontra atualmente.

Nele acham-se figuras menores, mas não menos danosas, como os concessionários da Rede TV!, especialista em vulgaridades. Ou de um auto-proclamado bispo, fazendo da fé mercadoria. Pretensos milagres num canal, detalhes da vida íntima de pretendentes à fama em outro, entrevistas “chapa-branca” com políticos de extrema-direita, censura de informações relevantes, defesa de medidas antipopulares vão se sucedendo a cada toque no controle remoto. Esse é o quadro atual.

São quase 70 anos de decadência. Exceções existiram mas não sobreviveram. Aqueles que viram na TV a possibilidade de expandir conhecimento e sensibilidade sucumbiram. Nada sobrou, na dramaturgia, dos teatros de Comédia ou de Vanguarda da pioneira TV Tupi. Nem do bom momento das novelas escritas por autores como Dias Gomes ou Lauro Cesar Muniz, entre outros. Os grandes musicais da extinta TV Excelsior são uma lembrança que dói diante do que se vê hoje por ai.

No jornalismo a situação ganha contornos de tragédia. “Toda unanimidade é burra”, dizia Nelson Rodrigues, cada vez mais citado nestes tristes tempos. Se dermos razão a ele, mesmo lembrando o seu conservadorismo, o telejornalismo brasileiro é burro. Para as emissoras de TV das Organizações Globo, TV Globo e Globonews, a verdade é uma só. A defesa incondicional que fazem da destruição da Previdência pública é o exemplo mais atual e mais bem acabado dessa burrice. Para não falar da vergonhosa censura imposta ao noticiário produzido pelo The Intercept Brasil, revelador por meio da série Vazajato dos crimes cometidos pelos integrantes da operação policial, jurídica e midiática denominada LavaJato. 

Diante desse quadro sufocante, capaz de organizar amplas camadas da população segundo seus interesses, poucas vozes críticas conseguem ser ouvidas. No interior da máquina muitos tentaram, poucos conseguiram resistir. A inteligência critica não combina com a informação na TV.  

Voltando aos exemplos históricos, a referência jornalistica é o Jornal de Vanguarda da extinta TV Excelsior, criado e dirigido por Fernando Barbosa Lima. Bem feito, bem humorado e sério ao mesmo tempo, não deixou resquícios, só saudade para quem o conheceu. Como Barbosa Lima outros profissionais ainda tentaram trazer conteúdo de qualidade ao telejornalismo. Um deles acaba de nos deixar e serve como exemplo da incompatibilidade perversa criada ao longo do tempo entre inteligência e televisão: Paulo Henrique Amorim.

O jornalista carioca trouxe para a TV um conhecimento acumulado na academia e nas redações de jornais e revistas, sabendo-se que nem sempre foi fácil a adaptação à televisão dos profissionais formados nos meios impressos. Muitos sucumbiram. A busca da informação, a apuração precisa e o texto elegante, suficientes para o papel exigiam na TV a aproximação com arte de interpretar. Poucos transpuseram essa barreira. Paulo Henrique Amorim, PHA, como se identificava, foi um deles. 

Mostrou isso nas emissoras por onde passou mas a decadência do telejornalismo brasileiro não combinava com a sua competência. Seu derradeiro empregador, a Record do bispo, empenhada em adular o atual governo de extrema-direita, e pressionada por ele, o tirou no ar pouco antes de sua morte. 

Há nesse drama um simbolismo que, por certo, marcará a atual etapa da história da televisão brasileira. Sua decadência, a partir de agora, não se reduz apenas a mediocridade do conteúdo exibido. Marca também o desaparecimento físico de um dos poucos profissionais que ainda dava a ela uma certa dignidade.

Laurindo Lalo Leal Filho
No GGN
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Caso do suicídio do reitor: pequena ópera sobre a banalidade do mal

Em algum momento haverá uma justiça de transição que penetrará fundo nos crimes cometidos nesses anos de libações sangrentas. Mas, até lá, ainda haverá o estupro rotineiro da Justiça

Ato 1 – a banalidade do mal

Em 1950, Walt Disney produziu um desenho memorável, sintetizando exemplarmente as mudanças de comportamento de uma pessoa quando exposta ao trânsito caótico da era do automóvel.

O ator principal era Pateta, o mais bonachão dos seus personagens. Sai de casa leve, entra no carro e, ali, se processa a transformação. Vale a pena assistir porque é uma síntese perfeita da psicologia de massa do fascismo, da banalidade do mal descrita por Hanna Arendt, em um período em que a mancha do nazismo e do holocausto obrigara a humanidade a parar, pensar e analisar seus atos, no breve momento que antecedeu a volta da barbárie.


Ato 2 – o caso do reitor Cancellier

No episódio que resultou no suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a delegada da Polícia Federal Erika Melena, com síndrome de abstinência, decidiu promover um belo espetáculo de remake dos shows inesquecíveis da Lava Jato de Curitiba, convocando centenas de policiais de todo país a Florianópolis para prender professores universitários, com cobertura total da mídia, pela suspeita de desvios de verbas de cursos de extensão. Foi um dos episódios mais dantescos de um tempo de infâmia e de truculência, que acabou levando à morte, por suicídio, do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo.

A corregedoria da Polícia Federal considerou normal o trabalho da delegada Erika, o Conselho Nacional do Ministério Público não viu nada de mais na denúncia do procurador André Bertuol, o Conselho Nacional de Justiça nem analisou a sentença da juíza Janaina Machado. E a violência foi naturalizada pela mídia para não atrapalhar a parceria com a Lava Jato.  Aquilo, deu nisso, mas o Brasil institucional é por demasiado primário, descompromissado com valores, apegado ao imediatismo mais tosco, para imaginar as consequências dessa flexibilização dos direitos.

Ato 3 – o cidadão do bem

Este senhor é o procurador André Estefani Bertuol em seu ambiente de trabalho. Atrás dele, três retratos de familiares em lugar de destaque na estante, denotando um pai amoroso, um homem família do bem. O sorriso descreve um sujeito pacífico, afável, algo tímido. Os cabelos bem assentados, a gravata no lugar, a barba escanhoada, o terno discretamente elegante demonstram sua preocupação em não destoar do seu ambiente, do formalismo jurídico, sem ostentação.

A foto é tão reveladora do homem-família que pode-se imaginar que, no dia 2 de outubro de 2017, ele chegou em casa, deu um beijo nas crianças, afagou o cachorro. Depois tirou o terno e a gravata, provavelmente colocou um roupão, para ficar mais à vontade, jantou e foi com a família assistir no Jornal Nacional o coroamento de sua carreira: o suicídio do reitor Cancellier.

Graças a esse feito, o homem comum saiu da obscuridade do trabalho profissional e ganhou o reconhecimento dos seus pares.


Em um evento meigo, porque mesclado com a entrega de prêmios do 10º Concurso de Desenho e Redação do CGU, o convescote dos homens bons homenageou Bertuol por sua incessante luta contra a corrupção. A homenagem foi preparada pelo Ministério de Transparência e Controladoria Geral da União (CGU) nas comemorações do Dia Nacional contra a Corrupção, sintomaticamente no auditório da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) dos bravos ruralistas.

Ato 4 – como o cérebro se amolda ao ambiente

Respeitando a diferença de dimensão, esse sentimento do dever cumprido, e dos estímulos do reconhecimento social, também era comum nos principais carrascos do nazismo, como era comum nos delegados do DOI-CODI que matavam as pessoas de dia e à noite iam encontrar amigos no Bar do Leo para conversas amenas de pessoas normais, garantidores da paz e da ordem.

Significa que, antes desses tempos turbulentos, eram pessoas com instintos assassinos? Provavelmente não. Significa que os tempos moldam o seu caráter, induzindo-os a serem o que a sociedade da época esperava deles. Hoje em dia, a sociedade promove não mais os bravos defensores dos direitos humanos, mas os inquisidores cruéis, que usam o poder como instrumento de tortura, com a vantagem do sangue das vítimas não respingarem em seus ternos bem cortados.

Sugiro assistir (mais tarde, para não interromper a leitura) esse belíssimo depoimento no neurocientista Miguel Nicolelis.



Nele Nicolelis mostra como o cérebro humano vai se amoldando a cada situação, aos estímulos recebidos. Estímulos da religião, do respeito humano, ou os estímulos do dinheiro, neste que é o século do dinheiro, a tudo isso o cérebro vai se amoldando, se tornando mais claro, mais cinzento, mais generoso ou assassino.

Ato 5 – a guerra permanente

O homem bom recebeu estímulos variados, da mídia tratando a Lava Jato como operação heroica, de Ministros do Supremo avalizando o direito penal do inimigo, do clima de salvacionismo emanado de um jovem procurador, um tonto acreditando ser Jesus redivivo para salvar a humanidade dos cruéis inimigos venezuelanos, um clima tão feérico, orgiástico, cruel que, após assistir a morte do reitor Cancellier pelo Jornal Nacional, o procurador Bertuol provavelmente foi para a cama, tomou o chá quente e dormiu o sono dos justos. Não sem antes se despedir dos filhos com um beijo na testa. Acordou e prosseguiu em sua cruzada profilática.

Na ditadura, crianças foram mortas porque provindas de pais comunistas. Nos casos menos selvagens, eram tiradas dos pais e entregues clandestinamente a boas famílias, para se salvar do pecado. Na Inconfidência, salgou-se a terra por onde passou Tiradentes para que não nascesse nem grama. No nazismo, a mera menção ao sangue judeu era sentença de morte.

E o bravo Bertuol, envolvido pelo mesmo sentimento dos bravos oficiais da SS, sabendo que o preço da liberdade é a eterna vigilância, e que todos os frutos da árvore podre precisam ser extirpados, prosseguiu em sua cruzada para uma punição post mortem do reitor Cancellier, por sua atitude inominável de se imolar apenas para conspurcar uma operação tão linda quanto a Ouvidos Moucos, caprichosamente planejada até na escolha do nome.

E o homem bom prosseguiu obedecendo aos estímulos vingadores do seu meio, denunciando, agora, o filho do reitor. O motivo foi ter identificado um empréstimo de R$ 7 mil (atenção, sete mil reais) de um professor a ele, em três vezes. Ou seja, R$ 2.333,33 por mês, quase o custo de uma empregada doméstica. O professor havia dado aulas no curso de extensão que se tornou alvo da operação.

Como explicam os repórteres Guilherme Seto e Wálter Nunes, na Folha (aqui)

O professor da UFSC Gilberto Moritz, amigo de Luiz Carlos Cancellier, fez as transferências para a conta de Mikhail naqueles meses. Cancellier não era reitor na ocasião, mas coordenava alguns projetos acadêmicos e Moritz era bolsista em pelo menos um deles. O delegado, então, associou uma coisa à outra.

“Comenta-se que os recursos transferidos para Gilberto Moritz foram oriundos do projeto Especialização Gestão Organizacional e Administração em RH (TJ), coordenado por Luiz Carlos Cancellier, sendo este o ordenador de despesa do referido projeto. Após o recebimento dos recursos, Gilberto Moritz transferiu para Mikhail Vieira de Lorenzi Cancellier filho do ex-reitor Cancellier) o valor de R$ 7.102”, diz o relatório final da Polícia Federal.

O procurador André Bertuol não apresentou novas provas que incriminassem Mikhail, mas chegou à mesma conclusão do delegado de que ele teria se beneficiado de um suposto esquema.

Procurador é uma função derivada do “promotor de Justiça”. Segundo conceitos que se perderam pelos tempos, pelos desvãos da violência e da selvageria. Não são promotores de punição, mas de justiça. Analisam o inquérito. Se houver fundamento, denunciam; se não houver, arquivam. Por R$ 7 mil, em cima de meras ilações, abre-se o inquérito e se investe contra o filho do mal.

No suicídio do reitor, a mídia fez ouvidos moucos. Agora, expressa alguma indignação, pouca.

Ato 6 – a justiça de transição

Coube ao bravo Ministério Público Federal, em seus tempos de defensor das práticas civilizatórias, chamar a atenção para a importância da justiça de transição, de lições aprendidas desde os julgamentos de Nuremberg.

Se não se punirem os crimes do período de exceção, eles tenderão a se repetir indefinidamente. Foi esse argumento que levou o próprio Rodrigo Janot, antes dele, Roberto Gurgel, a encampar a tese, contra a opinião dos Ministros do STF que reconheceram a lei da anistia protegendo autores de crimes contra a humanidade. Gurgel foi convencido quando exposto ao drama de vítimas das torturas.

Um dos grandes sinais do nível de avanço de uma sociedade é sua empatia, sua capacidade de entender o sofrimento causado em terceiros, especialmente por práticas injustas.

Esse sentimento foi embotado na sociedade brasileira, após anos e anos de discurso de ódio penetrando em todos os poros da nação e sendo avalizados por Ministros da Suprema Corte, aí não mais agindo como soldados inebriados por reconhecimento, mas como o oficial nazista incumbido do endosso à selvageria. Quando os tempos demandavam juízes sensíveis, se comportaram como humanistas como escada para o topo. Quando os tempos demandaram vingança, se tornaram anjos vingadores. Quando a guerra se ampliou e o país necessitava de homens públicos referenciais para chamar ao bom senso, já tinham esgotado sua cota de caráter.

Em algum momento haverá uma justiça de transição que penetrará fundo nos crimes cometidos nesses anos de libações sangrentas. Mas, até lá, ainda haverá o estupro rotineiro da Justiça.

Luís Nassif
No GGN
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Pact, Pact, Pact

Era simples. Apenas uma mudança de acentuação, o samba depurado a uma batida nova. Fácil. Mas então por que era tão difícil? Me lembro dos anos 50, nós vivendo nossos dias de Cuba Libre e grandes ressacas, e tentando aprender. Como era mesmo? Pact, pact, pact, pact-pact, pact...

Não era só a batida, era outro mundo que se inaugurava. Um mundo novo, mas com precursores. Lúcio Alves, Dick Farney e Mário Reis foram exemplos de antitenores que cantavam do mesmo jeito suave do João Gilberto, embora não espaçassem as músicas à sua maneira revolucionária. Nada representava melhor o clima musical da época no Rio do que o Johnny Alf cantando e tocando na boate do Hotel Plaza, na Princesa Isabel, para uma plateia quase toda de músicos. Todas as madrugadas.

Elizete Cardoso, grande dama do samba tradicional, que se apresentava regularmente na boate “Cangaceiro”, contribuiu indiretamente para o nascimento da bossa nova. Foi ela que gravou Chega de Saudade, onde o violão do João fazia sua primeira aparição.

Acho que, forçando só um pouco a comparação, pode-se dizer que Elizete foi no samba o que Miles Davis foi no jazz, um líder de novidades e tendências. Depois do histórico Chega de Saudade ela gravou Elizete Sobe o Morro, inaugurando outra onda, a de sambistas autênticos, muitos esquecidos nos morros. Miles também inaugurou vários movimentos, o também histórico Birth of the Cool, depois uma reação ao “cool”, depois a fusão com o rock, etc. Sempre à frente.

Vi o João Gilberto ao vivo só uma vez. Um grande auditório lotado, em São Paulo. Umas três mil pessoas. Ele sozinho em cima do palco. Demora a começar. Um silêncio tenso da plateia. Nenhuma tosse, nenhum ranger de cadeira. Qual será o problema? Ele nos odeia, é isso. Ele vai nos ... Finalmente, João Gilberto começa a cantar. Todos voltamos a respirar, aliviados. E eu me pergunto que outra pessoa no mundo mereceria aquela reverência?

Luís Fernando Veríssimo
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