26 de jun de 2019

Prisão automática

O pensador setecentista italiano Cesare Beccaria, pioneiro da criminologia moderna, advertia seus coetâneos que as sanções penais devem ser aplicadas com a máxima parcimônia, limitadas sempre à manutenção daquilo que chamava de “depósito de salvação pública”. Para ele, qualquer punição “que desse fundamento se afaste constitui abuso e não justiça; é um poder de fato e não de direito; constitui usurpação e jamais poder legítimo”.

A partir dessa concepção, desenvolveu-se no direito penal o dogma, abrigado nas constituições das nações civilizadas, inclusive na nossa, de que não há crime nem pena sem prévia e expressa previsão legal. E mais: sedimentou-se a noção de que os magistrados são obrigados a motivar as respectivas decisões objetivamente com fundamento na lei, sendo-lhes proibido arrimá-las apenas em sua vontade pessoal.

Interessantemente, o decreto de 9 de outubro de 1789, editado na França revolucionária para reformar a legislação processual penal, já impedia que decisões condenatórias fossem motivadas de modo genérico, vedando aos juízes e tribunais o emprego da fórmula abstrata “pour les cas résultants du procès”, isto é: “em razão do que resulta do processo”.

Esse conceito foi incluído em nossa Carta com a seguinte dicção: “ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente”. Em complemento, consta do texto magno que “todos os julgamentos serão públicos, e motivadas todas as decisões, sob pena de nulidade”, sobretudo em atenção à exigência constitucional de individualização da pena.

A necessidade de motivação idônea dos mandados de prisão configura condição de validade destes na maioria dos ordenamentos legais democráticos. É que a obrigação imposta aos juízes de explicitar as razões que os levaram a determinar a segregação de alguém do convívio social permite que as instâncias jurisdicionais superiores controlem a legitimidade das detenções, particularmente à luz dos critérios da razoabilidade e proporcionalidade.

Não obstante, setores do Judiciário e do Ministério Público, embalados na bandeira do combate à corrupção, que identificam como mal prioritário do país, passaram a preconizar a decretação automática da prisão provisória, depois do julgamento de segundo grau, antes do trânsito em julgado da sentença condenatória, com base tão somente na jurisprudência ou em súmulas de tribunais, sem qualquer referência à situação concreta dos atingidos pela medida estatal extrema.

Com isso, não apenas contornam as cristalinas disposições legais que regem a matéria, as quais são fruto de renhidas lutas travadas ao longo da história contra o absolutismo e a autocracia, como também dispensam os magistrados — especialmente protegidos pelos predicamentos da vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade dos vencimentos — de assumir o grave e intransferível ônus funcional de privar uma pessoa da liberdade.

A prosperar esse entendimento, que representa um insofismável retrocesso institucional, o próximo passo será delegar essa sensível atribuição, inerente ao elevado múnus desempenhado pelos juízes, a computadores ou serventuários dotados de carimbos padronizados, permitindo assim que as prisões sejam decretadas sem maiores delongas ou formalidades.

Ricardo Lewandowski
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Beijos e abraços

Os franceses se beijam, e não apenas quando estão se condecorando. Mas dois franceses só chegam ao ponto de se beijarem no fim de um longo processo de desinformalização do seu relacionamento que começa quando um propõe ao outro que abandonem o “vous” e passem a se tratar por “tu”. Os russos se beijam com qualquer pretexto e dizem que lá a progressão não é do aperto de mão para o abraço e o beijo, mas de beijos protocolares para beijos cada vez mais longos e estalados. Na Itália, os homens andam de braços dados na rua, sem que isso indique que estão noivos.

Os anglo-saxões são mais comedidos e mesmo os americanos, que são ingleses sem barbatanas, reagem quando você, esquecendo onde está, ameaça abraçá-los. Ninguém é mais informal do que um americano, ninguém mais antifrancês na maneira em que vai do “vous” ao “tu” sem nenhum ritual intermediário. Mas a informalidade não se estende a demonstrações físicas, como aquele nosso hábito de bater no braço quando se aperta a mão de alguém, aquela a amostra grátis de abraço. Somos da terra do abraço, mas também temos nossas hesitações afetivas. O brasileiro é expansivo, mas tem, ao mesmo tempo, um certo pudor dos seus sentimentos. O meio termo encontrado é o insulto carinhoso.

Não sei se é uma característica exclusivamente brasileira, mas é uma instituição nacional.

– Seu filho da mãe!

– Seu cafajeste!

São dois amigos brasileiros que se encontram.

– Não! Só me faltava encontrar você. Estragou meu dia.

– Este lugar já foi mais bem frequentado!

Depois dos insultos, se abraçam com fúria. Os sonoros tapas nas costas – outra instituição nacional – chegam ao limite entre a cordialidade e a costela quebrada. Eles se adoram, mas ninguém se engane. É amor de homem. E, quanto maior a amizade, maior a agressão. Você pode ter certeza que dois brasileiros são íntimos quando põem a mãe no meio. A mãe é o ultimo tabu brasileiro. Você só insulta a mãe do seu melhor amigo.

– Sua mãe continua na zona?

– Aprendendo tudo com a sua!

– Dá cá um abraço!

E lá vêm os tapas.

Luís Fernando Veríssimo
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Aeroína


Bolsonaro tem claro, o benefício da dúvida. Afinal, contra tudo e contra todos, ele vetou a gratuidade de bagagens nos voos nacionais. No limite, portanto, ele não permitiria, ao menos de graça, o embarque de 39 quilos de cocaína pura no avião presidencial reserva (!?) que o acompanhava ao Japão.

Mas a tolerância com Bozo e sua trupe, rumo ao Oriente, para por aí.

Isso porque imaginar que apenas um militar da FAB, cujo nome ainda está providencialmente mantido em sigilo, montou sozinho um esquema com potencial de faturamento de quase 50 milhões de reais é ridículo, até para a lógica bolsonarista.

39 quilos de cocaína equivalem a, aproximadamente, 8 sacos de arroz de 5 quilos. Um sujeito qualquer, mesmo sendo da comitiva presidencial, não enfia uma carga dessas na esteira da Base Aérea de Brasília sem um amplo apoio logístico de outros criminosos, provavelmente, também fardados.

Há, certamente, mais gente envolvida dentro do Palácio do Planalto, talvez no Cerimonial, onde ficam os responsáveis pelas missões precursoras e de apoio às viagens presidenciais.

Para um governo que arrota, diariamente, o desejo de prender e matar bandidos, notadamente, traficantes de drogas dos morros cariocas, esse acontecimento é extremamente emblemático sobre a hipocrisia bolsonarista – sem falar no óbvio baixíssimo nível de toda gente que cerca Bozo e seus asseclas, dentro e fora dos quartéis.

Imagino que, ao ser abordado pelas autoridades aduaneiras de Sevilha, onde foi preso, o tal militar da FAB tenha sacado as arminhas de dedos e gritado “Brasil acima de tudo!”, certo de que essas palavras mágicas tinha validade universal.

Descobriu, talvez, estupefato, que fora da bolha de idiotas montada pelo governo, pessoas envolvidas em máfias, milícias e quadrilhas de tráfico de armas e drogas acabam no xilindró.

Leandro Fortes. jornalista
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Assincronia

Nelson Rodrigues chamava Didi de Príncipe Etíope. Didi dominava o meio-campo como se fosse sua herdade, olhos postos no horizonte. Um passe do Didi não era apenas um passe do Didi. Um passe do Didi era um presente, um lançamento do Didi era um ovo Fabergé.

Quando batia uma falta, Didi olhava fundo nos olhos do goleiro e anunciava que o gol seria no ângulo superior direito, e outonal. Significava que a bola entraria no ângulo superior direito, como anunciado, e cairia como uma folha seca de outono.

Descontada a hipérbole natural do Nelson Rodrigues, o Didi era mesmo um artista da bola. Me dou conta de que estou mergulhando num abismo de ignorância e tentando levar comigo esta triste irmandade, a dos que não estavam lá. A dos que nunca viram uma folha seca do Didi. A dos que ouviram falar, mas não acreditaram nos dribles do Garrincha.

A primeira visão do Maracanã lotado, jogo noturno. E o Pelé, no tempo em que qualquer estádio do País lotava para ver o fenômeno jogar.

Não é saudosismo, não. É que vi o jogo contra a Venezuela escrevendo esta coluna ao mesmo tempo que tive uma crise de assincronia, se é que existe a palavra. Saudades do Nelson Rodrigues.

Luís Fernando Veríssimo
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A corrupção da Lava Jato


“Canalhas! Canalhas!”, bradou o saudoso Tancredo Neves ao ver o Congresso ser utilizado como instrumento para o golpe de 1964. Em 2018, o Brasil viveu cenário análogo, só que o golpe se materializou pela atuação de um juiz, o que justifica indignação similar à manifestada por Tancredo naquela tenebrosa noite.

Não se trata de questionar a justa e necessária luta contra a corrupção — que também é nossa, desde muito antes da Lava Jato. Mas, sim, temos indignação com o uso desta causa como manto para ocultar e atender interesses políticos e ideológicos escusos, inclusive com grave violação à soberania nacional mediante “combinação com americanos”, conforme revelado em um dos diálogos publicados pelo site The Intercept.

Temos a certeza de que não foi um julgamento justo que ocorreu em 2018, na medida em que o objetivo principal era tirar Lula das eleições. Está evidente, mais do que nunca, que não houve tratamento igualitário às partes. O estranho andamento do processo estava à vista de todos: PowerPoint, condução coercitiva ilegal, escuta abusiva de advogados, correria desesperada para realizar os julgamentos. Tudo agora está explicado por intermédio das conversas publicadas pelo Intercept.

O juiz tinha animosidade pessoal contra o acusado, fornecia provas à acusação fora dos autos, combinava previamente petições e decisões. E havia um gritante desrespeito aos argumentos da defesa, que não eram verdadeiramente ouvidos. Afinal, tudo era um “showzinho”, nas palavras do então juiz.

Dizer que as condutas de Sergio Moro foram “normais” constitui uma agressão à Constituição, ao Código de Processo Penal e ao próprio Poder Judiciário. Não é normal um processo de fachada, em que o juiz presidia a investigação, ajudava a formular a acusação, indicava e produzia provas e, depois, sentenciava com base nos seus próprios conselhos e orientações transmitidos ao procurador amigo. Tampouco é normal um juiz atuar influenciando um resultado eleitoral e depois dele se beneficiar pessoalmente, ganhando o cargo de ministro da Justiça.

Flagrado nesse escândalo, Moro vive imerso em contradições. Ora diz que era tudo normal, portanto reconhece o teor dos diálogos; ora não confirma o teor das conversas. E se refugia, logo ele, na ilegalidade de interceptações e vazamentos.

Ocorre que não há provas, até o momento, de que os diálogos foram obtidos de forma ilegal, com ajuda de um hacker ou espionagem. Grupos de mensagens em aplicativos têm muitos participantes; qualquer um deles pode inclusive ter copiado arquivos e entregado legalmente, visto que o sigilo de fonte é garantido à imprensa. Ademais, a doutrina e a jurisprudência admitem o uso de qualquer prova, mesmo que tenha sido ilegalmente obtida, para preservar ou reestabelecer a liberdade de um acusado, em face do princípio da proporcionalidade.

Não se pode admitir que, escancarada a trama, permaneçam os envolvidos a ocuparem funções relevantes, podendo inclusive atrapalhar ou direcionar investigações. Moro perdeu completamente as condições políticas e morais de ocupar o Ministério da Justiça, que comanda a Polícia Federal. Deve ser imediatamente afastado do cargo.

Quanto ao ex-presidente Lula, este devia ter sido julgado por um juiz imparcial, que presidisse o processo e acompanhasse a produção de provas com seriedade e isenção.

Ninguém está acima da lei, mas também ninguém deve estar fora do seu âmbito de preservação de direitos. O processo que aconteceu em 2017 e 2018 é viciado desde a origem, e as “provas” usadas até aqui são totalmente nulas. Logo nulos são todos os julgamentos baseados no indevido conluio. Ódios políticos não podem ser maiores do que as leis. E, segundo as leis, a nulidade é imperativa, por ação dolosa e fraudulenta da dupla Moro e Dallagnol. Por consequência, Lula deve ser libertado e novamente julgado, desta vez segundo critérios justos.

A Lava Jato se ergueu em torno do tema da corrupção. Agora, mesmo os que a defendem têm o dever de afastá-la deste mesmo pecado: o da corrupção. Pois não há outra palavra para definir o que ocorreu nesse lamentável episódio. Os fins não justificam os meios. E fraudar os meios corrompe o direito e a Justiça.

Fernando Haddad
Candidato à Presidência da República (PT)

Flávio Dino
Governador do Maranhão (PC do B)

Guilherme Boulos
Candidato à Presidência da República (PSOL)

Ricardo Coutinho
Ex-governador da Paraíba (PSB)

Roberto Requião
Ex-senador da República (MDB)

Sônia Guajajara
Candidata à Vice-Presidência da República (PSOL)
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Glenn, o terrível


Glenn Greenwald deu um baile memorável na Câmara dos Deputados, onde se divertiu descaradamente diante da indigência intelectual da maior parte de seus interrogadores, mormente dos bolsonaristas do PSL, a legenda mais cheia de imbecis que já passou pelo Congresso Nacional.

Inteligente, bem humorado e com todas as respostas na ponta da língua, Glenn pairou sobre o show de ignorância, demência e homofobia que desfilou sob seu olhar, durante a audiência pública, na Câmara dos Deputados, na qual foi falar sobre os arquivos do The Intercept Brasil.

Mesmo sendo americano e sem saber falar português corretamente, tornou-se o mais importante jornalista do País. 

Vê-lo enfrentar a manada bolsonarista, a quem humilhou e trucidou com enorme elegância, nos deu a exata dimensão da pusilanimidade da nossa mídia e de seus miquinhos amestrados disfarçados de repórteres.

Sozinho, resgatou o orgulho e a dignidade do jornalismo pátrio. 

Vida longa a Glenn Greenwald.

Leandro Fortes, jornalista

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Só vamos reconstruir a democracia pondo pra correr esses generais covardes

Os generais, na ativa ou de pijama, esbravejam, gritam ameaças, dão murros na mesa. Dizem que não vão permitir que Lula seja solto. Falam abertamente em intervenção militar, quando não em guerra civil.

Se houvesse qualquer intenção de pelo menos manter as aparências, a essa altura o Estado-Maior do Exército já teria soltado uma nota garantindo que não se mete nas decisões do Judiciário, muito menos do Supremo, e que não tem posição sobre o pedido de habeas corpus.

Não estou pedindo muito - nem mesmo uma admoestaçãozinha verbal para os gorilas, muito menos a prisão que eles merecem. Só uma notinha pública, genérica.

Mas nem isso. Eles querem mesmo passar recado, o mais explicitamente possível.

Querem que os democratas fiquem com medo. Não acho que devamos ficar.

O que eles nos prometem em troca de nos curvarmos à sua vontade não é aceitável.

Manter Lula preso não é apenas privar injustamente da liberdade uma pessoa, o que já seria um absurdo.

É o simbolo de que as regras do jogo continuarão viciadas, de que a lei não impera, de que o campo popular não terá nenhuma chance.

É bom lembrar também que o Exército fala grosso contra os fracos, mas é para esconder o medo que tem do povo brasileiro.

Só vamos reconstruir a democracia pondo pra correr esses generais covardes.

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Xadrez dos 4 Ms: Moro, Mídia, Milícias e Ministros do STF

De algoz inclemente, Moro caminha para ser o bode expiatório do sistema. Será usado pela mídia para purgar seus pecados, de apoio à desestruturação do país.




Nosso Xadrez ganhou uma complexidade à altura do caos que se instalou no país.

Há quatro personagens diretamente envolvidos com a Lava Jato e, seguramente, fazendo parte do dossiê Intercept: a Lava Jato, o Supremo Tribunal Federal (STF), Mídia e Milícias (entendido aí, o grupo diretamente ligado à eleição de Bolsonaro).

Todos eles tiveram papel central na era da ignomínia da democracia brasileira, uma mancha na história de cada um, com exceção obviamente das milícias, as vitoriosas.

Em outros tempos, a revisão histórica se daria após o fim do período de exceção, com justiça de transição, obras desnudando os personagens. E, em geral, cobrindo de vergonha apenas os descendentes dos principais personagens.

No entanto, na era da Internet e das redes sociais, o tempo político acelera-se enormemente. A trágica resultante do jogo – a ascensão de Jair Bolsonaro, ameaçando jogar o país na era das trevas – acelerou enormemente o revisionismo. Jornalistas, celebridades, alguns veículos que foram peça central na desmoralização da democracia, trabalham, hoje em dia, em um aggiornamento a jato, menos de dois anos após delatarem adversários, estimularem o ódio, defenderem as ações de exceção da Lava Jato.

Especialmente porque emergiu dessa zona um Brasil do baixo clero, com a opinião se fazendo ao largo da mídia, das análises técnicas e da Bastilha dos poderes constitucionais. Abriram a jaula, liberaram os bárbaros. A recuperação da influência dependerá, portanto, da retomada da legitimidade perdida.

Por outro lado, a recuperação dos princípios democráticos poderia trazer Lula de volta à arena política. Como se equilibrar nesse dilema, entre a cruz e a caldeirinha? Especialmente porque o dossiê do Intercept, se divulgado na integra, revelará:
  • Pecados específicos da operação.
  • Acertos com jornalistas e veículos.
  • Conversas mencionando acertos nas instâncias superiores, podendo chegar até o STF.
É nessa arena que se dará os próximos embates entre os quatro Ms.

Vamos conferir como deverão se comportar, a partir da estratégia elaborada por Glenn Greenwald, da Intercept.

Protagonista 1 – Glenn Greenwald e o Intercept

Glenn se tornou um jornalista premiado internacionalmente não apenas por ser receptador de dossiês explosivos, mas, principalmente, por sua capacidade de viabilizar sua divulgação. No caso Snowden, houve a parceria com The Guardian e outros grandes veículos internacionais, conseguindo contornar até a enorme influência da CIA e do governo norte-americano.

Agora, monta uma tacada de mestre, com a parceria com a Folha de S. Paulo. Com a aliança, blinda-se contra eventuais tentativas de Sérgio Moro, de criminalizar a cobertura, ganha um alto-falante potente, junto a uma bolha extra-Internet.

Definiu claramente o alvo – Sérgio Moro e a Lava Jato -, enfrentou valentemente os grandões, inclusive a Globo, quando tentou criminalizar sua conduta, e os bolsominions que o ameaçaram

Há informações de que apenas 2% do dossiê Snowden foi divulgado, devido a alianças políticas de Greenwald. Não se condene. Fez o que era possível para viabilizar a divulgação de parte dos documentos, que se tornou um clássico do jornalismo contemporâneo. Mas pode explicar eventuais desdobramentos na divulgação do dossiê Intercept, como se analisará a seguir.

Protagonista 2 – mídia

A eleição de Bolsonaro consagrou definitivamente o novo ator das comunicações, as redes sociais, os “influenciadores”, com sua comunicação horizontal, os fake news e o trabalho absolutamente profissional de apoio a Bolsonaro. A única maneira da mídia mainstream recuperar o espaço é retomando os valores imemoriais do jornalismo.

Mas como apagar tantos anos de infâmia, o uso abusivo de fakenews até perder o controle sobre o produto?

Este ano, tem havido um esforço ingente para recuperação da legitimidade. Jornalistas que se lambuzaram até o pescoço atendendo à sede de ódio do período anterior, a legitimação das ilegalidades, a delação dos inimigos, de repente se tornam campeões do lado certo, na grande batalha civilização x selvageria. Sejam bem vindos.

Ao mesmo tempo, na classe média mais moderna, dos jovens de boa cabeça, há um movimento irresistível de adesão às críticas contra Moro, Dallagnoll e operação. Ora, se investir contra o poder constituído engrossou a campanha do impeachment, hoje em dia o poder constituído atende pelo nome de Sérgio Moro, e Lava Jato.

É um movimento que conquistou programas de humor, na própria Globo, corações e mentes da parte mais saudável dos jovens jornalistas – ainda que contidos pelas amarras da redação. E, especialmente, a classe média mais informada, blindada contra os fakenews das redes sociais.

Está em formação a tentativa de criar um pensamento progressista, tipo classe média intelectualizada, em substituição à esquerda tradicional.

Por outro lado, a divulgação de diálogos de procuradores com jornalistas poderá explicitar o óbvio, o fato de a mídia ter endossado todos os arbítrios da Lava Jato.

Nesse sentido, é interessante analisar o comportamento da Globo.

Começou pretendendo criar um Russiagate, para desmoralizar as denúncias. Recebeu reações à altura de Greenwald, valendo-se das redes sociais. Depois, se acalmou, a ponto de produzir uma matéria longa e isenta sobre o tema no último Fantástico, depois de anunciado a parceria Intercept-Folha.

O que a fez mudar de opinião? A constatação de que, indo contra o dossiê, comprometeria ainda mais sua imagem? A garantia de que apenas parte do dossiê seria revelado?

Lembrem-se das contas do HSBC. Quando o jornalista Fernando Rodrigues se viu com os dados na mão, incluindo contas de donos de empresas jornalísticas, amarelou e pediu ajuda à Globo. O jornal alocou bons repórteres, que levantaram alguns casos, para dar alguma satisfação ao distinto público, mas esconderam o restante do material. Até hoje é mantido nas sombras.

Greenwald informou estar fechando aliança com outros veículos. Ainda é cedo para avaliar a profundidade da cobertura do dossiê. Qualquer que seja o nível de concessão, já prestou um serviço inestimável à democracia brasileira.

Protagonista 3 – os milicianos

Jair Bolsonaro está se esbaldando com a agonia de Sérgio Moro. É só comparar sua desenvoltura, depois que se iniciou a descida de Moro aos infernos, com a postura anterior. O aclamado herói nacional, agora, come na sua mão, endossa todos seus esbirros e, a cada dia que passa, reduz seu próprio potencial eleitoral – embora ainda seja bastante popular.

Por outro lado, as tentativas da mídia de limpar as marcas do passado recente, o aumento da grita pela libertação de Lula, fortalecem Bolsonaro junto às suas milícias.

A cada dia que passa, seu governo mais se isola, mais nítidos ficam os sinais de descontrole sobre a economia e o isolamento do país no cenário global. Salva-se apenas pelo antilulismo.

Mas isso é tema para outro xadrez.

Protagonista 4 – os Ministros do Supremo

Hoje confirmou-se a regra suprema, que explicitei em artigo recente (aqui). Todo movimento do Supremo é ensaiado. A banda legalista vota, mas sempre com a garantia de que será minoritária na votação.

Mesmo assim, hoje em dia, o pouco que o dossiê Intercept revelou até agora escancara os desmandos da operação. Seguramente há material muito mais explosivo a caminho, explicitando de forma indelével o caráter político da operação.

Por outro lado, a maioria do Supremo continua firmemente alinhada à tese do sistema, de uma reconstituição da democracia, mas sem Lula. Qual o óbolo a ser pago? Provavelmente o pescoço de Sérgio Moro, depois de garantido que sua condenação não viabilizará politicamente Lula.

Protagonista 5 – Moro

Encerrou sua carreira de Ministro. No cargo, sua reputação será destruída dia a dia por três fenômenos:
  1. O vazamento continuado do dossiê Intercept.
  2. A blindagem ao no. 1 Flávio Bolsonaro e do lugar-tenente Queiroz. Ligado a isso, a impossibilidade de resolver o episódio da morte de Marielle.
  3. Sua total incapacidade de articular qualquer política pública consistente.
Ficando no cargo, gastará toda sua reserva de imagem e se arriscará a ser abandonado por seus seguidores, do MBL às alianças empresariais. Principalmente porque estará permanentemente subordinado a Jair Bolsonaro.

No momento, ainda goza de popularidade, ainda que descendente. Sua visita aos principais departamentos de segurança dos Estados Unidos mostram o desespero e a necessidade de apoio dos padrinhos.

Conclusão

O sistema – entendido como o conjunto de forças que influi nas decisões de poder – já rifou Sérgio Moro.

Confira-se o inexpressivo senador David Alcolumbre, alçado à presidência do Senado por uma articulação de anti-PMDB e partidos bolsonarianos, afirmando que, fosse político, Moro estaria sem cargo e preso. Usou Moro de escada para levantar sua reputação. Na Câmara, a cada dia que passa Rodrigo Maia atua mais e mais como freio às pirações de Bolsonaro. A própria Câmara, valendo-se das revelações do Intercept, ressuscitou a lei anti-abuso das autoridades, uma lei que, ao pé da letra, poderá comprometer até a parte saudável da atuação do Ministério Público Federal.

Ou seja, as duas casas legislativas recuperam seu protagonismo. Enquanto isto, as Forças Armadas dão um sinal forte de impedir a contaminação de sua imagem por Bolsonaro, recusando a promoção de um dos militares da ativa que foi servir o governo.

De algoz inclemente, Moro caminha para ser o bode expiatório do sistema. Será usado pela mídia para purgar seus pecados, de apoio à desestruturação do país. Pelo Congresso, como forma de recuperar seu protagonismo. Pelo Supremo, para mostrar-se defensor das leis e do direito, desde criancinha. Será mantido em formol por Bolsonaro, para mostrar-se solidário com os soldados caídos no campo de batalha.

Daí, começará uma segunda revisão desses tempos bicudos, demonstrando que Moro, Dallagnol, Janot e companheiros eram apenas instrumentos, pessoas sem dimensão intelectual e social, provincianos deslumbrados, brinquedos de um poder maior, daqueles que se usa e se joga fora.

Luís Nassif
No GGN
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