12 de jun de 2019

Bolsonaro é o primeiro presidente brasileiro a admitir a Operação Condor

"O capitão mais estúpido do planeta, arauto da truculência, se gaba de sua especialidade: matar"

Bolsonaro: o primeiro presidente a falar na Operação Condor... ...que Médici, Geisel e Figueiredo fingiam não conhecer
Jair Bolsonaro, o capitão-presidente eleito na democracia, acaba de fazer o que não fez nenhum dos generais-presidentes impostos pela ditadura de 1964: é o primeiro governante brasileiro a reconhecer publicamente a “Operação Condor” — a clandestina, secreta conexão multinacional de repressão montada na sangrenta década de 1970 pelos países do Cone Sul do continente, todos então submetidos a regimes militares que, a ferro e fogo, baniram a democracia da região sob o pretexto da cruzada anticomunista.

Em uma entrevista concedida ao jornalista argentino Alberto Armendáriz no Palácio do Planalto, — publicada como manchete principal na primeira página da edição de 1º de junho (sábado) do jornal La Nación, cinco dias antes do desembarque de Bolsonaro em Buenos Aires na quinta-feira passada (6), para uma rápida visita oficial à Argentina —, o presidente brasileiro avançou inesperadamente sobre o intocável tema da Condor.


A Operação Condor na visão do cartunista Latuff

Na última questão, o jornalista lembrou o presidente sobre uma polêmica afirmação dada à TV em 1999, quando ainda deputado federal, reclamando do "baixo" número de vítimas produzidas pela ditadura brasileira: “Mataram só 300? Deviam ter matado uns 30 mil, inclusive o Fernando Henrique Cardoso!...”, lamentou Bolsonaro, na ocasião. Para as combativas entidades de direitos humanos da Argentina, 30 mil é um número cabalístico e sensível, justamente a estimativa de mortos e desaparecidos na fase mais sangrenta da ditadura do general Jorge Rafael Videla — a chamada "Guerra Suja", que assolou o país entre 1976 e 1983. É nesse contexto, de repente, que Bolsonaro menciona na resposta a La Nación a operação clandestina que ainda é um tabu entre os militares brasileiros:

La Nación — 30 mil mortos, na Argentina, é uma cifra muito relevante. Você acredita que esse número de mortos mudou algo para melhor na Argentina?

Bolsonaro — Não, não. Tivemos a Operação Condor entre vários países e os militares daquela época evitaram que o país caísse no comunismo. Foi isso o que aconteceu. Quantas pessoas morreram ou desapareceram e por quais motivos? Que cada país escreva sua história...


Na primeira página do La Nación: 
Operação Condor ganha, enfim, reconhecimento público de um presidente brasileiro

A repentina referência de Bolsonaro à embuçada Operação Condor, sem que fosse perguntado sobre ela, não é um ato de contrição, muito menos uma tardia e compungida frase de remorso diante do terrorismo de Estado que assombrou o Cone Sul há cinco décadas. A citação em tom de elogio parece mais o escorregão habitual de quem tem a língua sem controle e um desapego incondicional à inteligência. Na verdade, o nostálgico capitão agora lembra da Condor pelo que ela tem de pior. Em março de 2014, quando era apenas um deputado do baixo clero no sétimo e derradeiro mandato de sua estéril carreira parlamentar (só dois projetos de lei e uma única emenda constitucional aprovados em 27 anos como deputado), ainda sem aparecer como um improvável e ameaçador presidente dali a quatro anos, Bolsonaro já clamava por uma nova "Mercosul do Terror", instigando uma ressuscitada conexão militar de repressão entre os vizinhos do Cone Sul: “Chegará o momento em que um novo 31 de março, ou uma nova Operação Condor, não serão suficientes para impedir o Brasil e a América Latina de serem lançados nos braços do comunismo”, suspirava.

Chumbo e suicídio

Pelo que diz reiteradamente — sem vergonha — nos últimos anos, Bolsonaro é provavelmente o governante mais letal, estúpido e grosseiro do planeta. Ninguém definiu melhor a grotesca figura do presidente brasileiro do que o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, liderando a rejeição da maior cidade americana à presença do capitão, em abril passado, onde seria homenageado com um jantar de gala: “Jair Bolsonaro é um ser humano perigoso. Seu racismo evidente, homofobia e decisões destrutivas terão um impacto devastador no futuro de nosso planeta”.

Algumas das frases rombudas com que ele mesmo se define, sempre transbordando os limites da vulgaridade e exalando paranoia: “Sou capitão do Exército, a minha especialidade é matar”(2017); “Prefiro filho morto em acidente do que vê-lo com um bigodudo por aí”(2011); “Mulher deve ganhar salário menor porque engravida”(2015); “O MEC é porta aberta para homossexualidade e pedofilia”(2011); “O governo deveria apoiar as milícias, já que não consegue combater o tráfico de drogas, e talvez legalizá-las no futuro”(2008); “Não entraria em avião com piloto selecionado por cota racial, nem aceitaria ser operado por médico cotista”(2011); “A PM tinha que matar mais no Brasil”(2015); “Quem não presta no Brasil é 70% do eleitorado”(2011); “O general Pinochet devia ter matado mais gente no Chile”(1998); “Sou preconceituoso, com muito orgulho”(2011); “Direita não, sou de extrema-direita” (2011). “O erro da ditadura foi torturar e não matar” (2016); “A [jornalista] Míriam Leitão estava chorando esses dias, na imprensa, porque foi torturada: 'Botaram uma cobra no meu quarto’. Eu tenho pena da cobra!" (2014); "Gastaram muito chumbo com o [capitão e líder guerrilheiro Carlos ] Lamarca. Ele devia ter sido morto a coronhadas" (1996); "Lamento a morte de Vladimir Herzog, se foi suicídio ou morreu torturado. Suicídio acontece, pessoal pratica suicídio" (2018).


Jair Bolsonaro, o capitão especializado em matar: “Gastaram muito chumbo”[Lamarca];
 “Suicídio acontece” [Herzog]

Cães e porcos

Durante três anos, entre 1972 e 1974, o país viveu a fase militar mais intensa de combate e extermínio à Guerrilha do Araguaia, concentrada em uma zona de densa mata no norte do Tocantins, que chegou a reunir até 8 mil soldados na caça a 80 guerrilheiros do PCdoB. Um episódio sufocado do conhecimento público por uma rígida censura à imprensa. Após três duras campanhas militares, 60 guerrilheiros estavam mortos, a maioria executada sob a tortura tão louvada por Bolsonaro, todos incinerados ou ocultos em covas na mata.

Em 2009, quando Bolsonaro cumpria o quinto de seus baldios sete mandatos como deputado federal, a Comissão de Direitos Humanos da OEA abriu uma ação contra o Governo brasileiro por detenção arbitrária, tortura e desaparecimento de 70 pessoas, entre guerrilheiros, camponeses e moradores da região do rio Araguaia. Em 2010, quando Bolsonaro se elegeu pela sexta vez, a Corte da OEA acatou a denúncia e condenou o Brasil por usar a Lei da Anistia para não julgar os militares envolvidos na repressão à guerrilha. Era um tema que, definitivamente, incomodava o capitão-deputado.

Para repelir as famílias dos mortos e desaparecidos na Guerrilha do Araguaia e desdenhar da denúncia da OEA, Bolsonaro, em acesso de inaudita boçalidade, mandou afixar em 2009 um cartaz grotesco na porta de seu gabinete na Câmara dos Deputados, tentando fazer piadinha com o que era apenas cruel, desumano: “Desaparecidos do Araguaia. Quem procura osso é cachorro”.

Ele mesmo, orgulhoso de sua gráfica patifaria, distribuiu a foto inacreditável.

Veja:


O Brasil foi condenado na OEA pela omissão aos crimes no Araguaia: 
Bolsonaro ficou do lado dos cachorros

Apenas quatro meses após assumir a presidência da República, em 11 de abril passado, Bolsonaro completou a cachorrada: com o Decreto 9.759, ele extinguiu dois grupos de trabalho (GTs) que procuravam cientificamente os ossos de vítimas da ditadura militar, em São Paulo e no norte do Tocantins. O GT Araguaia, integrado por entidades ligadas às famílias dos desaparecidos, investigava o destino de quase 350 pessoas supostamente executadas na repressão à guerrilha da década de 1970. “Sem o apoio dos arquivos do período, baseado apenas em informações de camponeses da região e antigos agentes da repressão, localizamos nove ossadas em 2012”, disse Paulo Fonteles Filho, membro do GT Araguaia, contrariando a estúpida tese canina de Bolsonaro, que garantia em 2009 não existir mais ossos. O capitão mostrou essa óssea convicção com uma suína conclusão: “Os porcos comeram. Tenho pena dos porcos! ”.

O GT Perus trabalhava na identificação de 1.047 caixas com ossadas localizadas em 1990, na gestão da prefeita Luiza Erundina, em uma vala clandestina no cemitério Dom Bosco, em Perus, um distrito no extremo norte da capital paulistana. Em dezembro passado, um mês após a eleição do capitão-presidente, o GT recebeu o resultado de um exame de DNA enviado por um laboratório de Haia, Holanda, identificando outro corpo enterrado em Perus como indigente: era o bancário Aluízio Palhano Pedreira Ferreira, militante da VPR, morto sob tortura aos 48 anos, em 1971, no DOI-CODI de Brilhante Ustra, o herói conspícuo de Jair Bolsonaro.

A fábula da cafetina

Um capitão extremista com esse doentio arquétipo mental, que se ufana de sua primordial especialidade matadora, certamente nunca lamentaria o rastro de sangue e violência que a lúgubre Operação Condor deixou para trás nos seis países do Cone Sul — Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Bolívia e Paraguai — que ela sobrevoou na década de 1970. O que é notável, na entrevista do La Nación, é a intempestiva menção de Bolsonaro à multinacional do terror, que os militares brasileiros, envergonhados, sempre evitam citar ou fingem desconhecer. Não existe, nos poucos arquivos conhecidos da ditadura, nenhuma menção oficial à Condor.

Em dois anos de intensa pesquisa em milhares de documentos oficiais de entidades civis e militares e órgãos de inteligência, a Comissão Nacional da Verdade (2012-2014) foi alvo de sistemática sabotagem por parte dos comandos das Forças Armadas, que desdenharam e afrontaram uma instituição criada por lei e aprovada pelo Congresso Nacional — uma desobediência desconsiderada pelo ministro da Defesa Celso Amorim e pela inusitada apatia da comandante-em-chefe, a presidente Dilma Rousseff, talvez inibida por sua condição de ex-guerrilheira da organização VAR-Palmares, presa e torturada no afamado DOI-CODI do II Exército, em São Paulo. Apesar do estorvo deliberado e da má vontade explícita de oficiais-generais do Exército, Marinha e Aeronáutica e seus comandados, a CNV conseguiu superar os obstáculos e produziu a mais abrangente, séria, documentada e contundente investigação já realizada sobre a ditadura de 21 anos que dominou o país a partir de 1964.

O capitão-presidente, é claro, discorda dessa avaliação. Entre 2010 e 2018, conforme minuciosa apuração do repórter Gustavo Fioratti, da Folha de S.Paulo, Bolsonaro fez 500 discursos no plenário da Câmara dos Deputados, 56 deles mirando a Comissão Nacional da Verdade — todos igualmente encanzinados, grosseiros, parvos. Transtornado com a qualidade irrespondível do relatório final da CNV, o capitão-deputado fez mais uma azeda arenga na Câmara, em outubro de 2014. Para tentar atingir os comissários da CNV (um ex-procurador da República, um ex-ministro do STJ, três advogados, uma psicanalista e um cientista político), todos mais qualificados intelectualmente e dotados da urbanidade que não tem o capitão, Bolsonaro recorreu a uma fábula beócia de sua obstruída veia literária: “Esse relatório lembra a história das sete prostitutas que, chamadas para escrever sobre uma cafetina, concluíram que ela tinha que ser canonizada!...”.

A alucinada oposição de Bolsonaro à CNV não era apenas retórica. Descambava também para a rebordosa física. Em 23 de setembro de 2013, ele resolveu se intrometer na vistoria que a CNV realizava em um quartel da rua Barão de Mesquita, no bairro carioca da Tijuca, sede do 1º Batalhão da Polícia do Exército. Ali funcionou entre 1970 e 1979 o DOI-CODI do I Exército, um dos maiores centros de tortura do regime, onde morreram pelo menos 30 presos, segundo o relatório da CNV. Bolsonaro tentou participar da visita, para tumultuar os trabalhos e manifestar seu protesto. Ignorando a presença de senadores na comitiva, o capitão começou a bater boca e a trocar empurrões, inclusive com o senador Randolfe Rodrigues, que disse ter levado um soco do capitão valentão. Apesar da baixaria, Bolsonaro não entrou no batalhão e ficou na rua, resmungando sozinho sua frustração.


Na porta do DOI-CODI do Rio, setembro de 2013: 
o capitão valentão agride o senador Randolfe Rodrigues.
Foto: Tânia Rêgo/ABr

O valioso relatório final da CNV — que muitos citam, poucos leram e o indecoroso Bolsonaro certamente nunca irá estudar ou sequer folhear, por deficiência ou preguiça — se distribui por três densos volumes que somam 3.388 páginas, uma rigorosa autópsia do regime militar de 1964-1985, mas ainda insepulto na desarranjada cabeça do capitão-presidente

A repressão coordenada

Na sua histórica conclusão, a CNV lista os nomes dos 377 responsáveis pela morte de 434 pessoas, 210 delas ainda desaparecidas. Sempre focado na cadeia de comando, que aponta os comandantes que instruíram a violência institucional dos comandados, o relatório aponta corretamente, por ordem de hierarquia, os autores de graves violações dos direitos humanos cometidos pela ditadura que tanto encanta o capitão Bolsonaro. Lá estão todos os seus ídolos: os cinco generais-presidentes (Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo) e os três comandantes da Junta Militar que governou país por dois meses em 1969, além de seis ministros do Exército, sete da Marinha e cinco da Aeronáutica, três chefes do SNI e 24 chefes dos serviços de inteligência das três Forças Armadas — CIE, CENIMAR e CISA —, o braço executivo da repressão.

Na sequência estão os nomes dos outros 324 agentes civis e militares que produziram as torturas e mortes do terrorismo de Estado brasileiro, incluído ali o maior herói de Bolsonaro — o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932-2015), que organizou e comandou por quatro anos o DOI-CODI da rua Tutoia, o mais sangrento do país. Ali, segundo a pesquisa da CNV, passaram 2.541 presos (a torturada guerrilheira Dilma Rousseff, inclusive), 51 não saíram vivos de lá (o "suicidado" jornalista Vladimir Herzog era um deles).

No minucioso trabalho de investigação da CNV, a Operação Condor louvada agora pelo capitão Bolsonaro mereceu um espaço generoso, o capítulo 6, sob o título “Conexões Internacionais: a aliança repressiva no Cone Sul e a Operação Condor”. Ocupa 55 páginas, com nomes, datas e fatos comprovados da colaboração clandestina entre os serviços da repressão militar na região, trocando informações, presos e técnicas de tortura que atravessavam fronteiras geográficas, limites legais e princípios éticos. Apesar disso, o que se constatou nos arquivos dos militares, da polícia política e do Itamaraty é que eles preservam o cirúrgico cuidado de nunca mencionar a palavra Condor, embora descrevendo sua típica conexão repressiva.

O abecedário letal

O Centro de Informações do Exterior (CIEx) do Itamaraty era um serviço clandestino da chancelaria brasileira, que não existia no organograma do ministério, mas tinha até verba secreta, criado para traficar informações e aliciar informantes nas embaixadas do país no exterior, especialmente nos centros que abrigavam os opositores exilados pelo golpe de 1964, concentrados exatamente na região do Cone Sul sobrevoada pela Condor. Ele atuava em conúbio com os agentes infiltrados nas embaixadas pelo CIE, CENIMAR, CISA e SNI — os serviços secretos do Exército, Marinha, Aeronáutica e Palácio do Planalto —, que formavam o abecedário letal do regime. Essa conexão produzia as informações e as decisões que tornavam a Condor operacional e eficaz. A cumplicidade de diplomatas e militares obrigou a Comissão Nacional da Verdade (CNV) a criar dois grupos de trabalho com áreas fronteiriças: o GT Operação Condor e o GT de Exilados e Estrangeiros.

Um grupo de 34 diplomatas, de conselheiros a embaixadores, esteve sob investigação no GT Estrangeiros, enquanto o GT Condor filtrava uma relação do Itamaraty com nomes de 194 adidos das Forças Armadas lotados em embaixadas brasileiras no santuário da Condor: 54 na Argentina, 49 no Uruguai, 48 no Paraguai e 43 no Chile. Os diplomatas e adidos militares desses postos tinham conhecimento, ou envolvimento ou participação ativa em pelo menos 17 casos de brasileiros desaparecidos no sul do continente (Argentina, Bolívia e Chile) em ações coordenadas da repressão regional. Adido não é uma função desprezível na carreira militar. Três ex-presidentes da ditadura passaram pelo cargo em diferentes embaixadas: Geisel em Montevidéu (1942), Costa e Silva em Buenos Aires (1950) e Médici em Washington (1964).

No ano do golpe, o Itamaraty possuía uma base de 86 embaixadas e 64 consulados que dariam o suporte para a rede internacional de vigilância e delação do regime. O repórter Cláudio Dantas Sequeira, que revelou a existência do CIEx em 2007 no Correio Braziliense, vasculhou 20 mil páginas de documentos com 8 mil informes ocultos nos arquivos do centro e descobriu que, das quatro centenas de mortos e desaparecidos da ditadura, 64 deles estavam lá, identificados nas pastas dedo-duro do CIEx.

O informe secreto

O secretismo que envolvia a Operação Condor só foi quebrado a partir da liberação de documentos secretos da CIA e do FBI no Governo Clinton, em 2000, revelando o nome e a existência da operação secreta. No entanto, em dois anos de pesquisa nos ralos arquivos a que teve acesso, a CNV encontrou um único, solitário documento do Itamaraty com a grafia da palavra maldita.

É o informe secreto nº 334, de 13 de setembro de 1977, produzido pelo Centro de Informações do Exterior (CIEx) Apenas esse informe ousa escrever a expressão "Operação Condor", assim mesmo, para falar sobre a Condor no Uruguai. O telegrama secreto informa sobre o Partido Comunista local e sua ação no meio universitário, documento integrado ao informe nº 333, da mesma data, que levanta os nomes de quatro uruguaios do PC com conexões na Europa — especialmente Itália, Áustria, Suécia e União Soviética. A informação coletada em Montevidéu pela base do CIEx foi difundida, como diz o informe, para a rede brasileira da inteligência militar, devidamente identificada: a agência central do SNI, os serviços secretos do Exército (CIE), Marinha (CENIMAR) e Aeronáutica (CISA) e a 2ª Seção (área de segurança) do EMAER, Estado-Maior da Aeronáutica.

Veja:


Raridade: o único documento oficial do Brasil, encontrado pela CNV, 
que fala em Operação Condor

Na época desse informe, Bolsonaro, com 22 anos, tinha acabado de se formar na Academia Militar das Aguas Negras e, como aspirante a oficial, foi servir no 21º Grupo de Artilharia de Campanha no bairro carioca de São Cristóvão. Ele, na época, provavelmente nem sabia da existência da secreta Operação Condor, que hoje exalta pelo "combate ao comunismo". Mas, a conexão repressiva no Cone Sul já existia, na prática, desde o governo Médici, no início da década. A Condor já tinha bico e garra em dezembro de 1970, só não tinha nome.

Sequestro com recibo

O ex-coronel de Cavalaria Jefferson Cardim de Alencar Osório, exilado no Uruguai, foi o primeiro insurgente armado contra a ditadura. Comandou em 1965 uma frustrada guerrilha de 23 guerrilheiros que durou 36 horas, no sul do país, até ser cercado e preso. Regressou ao exílio após torturas em três quarteis. Voltou a ser preso na Argentina na tarde de sexta-feira, 11 de dezembro, ao descer do ferry-boat que liga Montevidéu a Buenos Aires. A operação mostra a coordenação repressiva do Brasil em três países, marca singular da Condor. Jefferson ainda atravessava o Rio da Prata, junto com o filho de 18 anos e um sobrinho, quando começou a se mover a engrenagem da repressão.

O adido do Exército na embaixada em Buenos Aires, coronel Nilo Caneppa da Silva, informou sobre o trio de viajantes ao órgão de inteligência da Polícia Federal argentina, a Direção de Coordenação Federal. Com o carro cercado por quatro homens armados, Jefferson foi preso ao desembarcar, cena acompanhada de longe pelo coronel Caneppa. Os detidos foram levados até o gabinete do coronel Jorge Cáceres Monié, superintendente da inteligência, no último andar de um prédio na avenida Belgrano, no centro da cidade. Dali, já algemados e encapuzados, os presos desceram ao submundo do terror, no subsolo 4 do edifício. Lá, pai e filho apanharam, levaram choques, foram torturados inclusive com vela derretida no ânus.

Cáceres ligou para a embaixada brasileira e pediu a presença de Caneppa, que compareceu na companhia do adido da Aeronáutica em Montevidéu, coronel-aviador Leuzinger Marques Lima, justamente o homem que vigiava os passos de Jefferson no Uruguai. Na manhã de sábado, 12, Caneppa informou da prisão ao embaixador brasileiro, Antônio Azeredo da Silveira, a quem pediu um avião para levar os presos ao Brasil. Apenas 26 horas após a prisão, em pleno sábado, o ditador argentino de plantão, general Roberto Levingston — um presidente tampão entre os generais Juan Carlos Onganía e Alejandro Lanusse — assinou o decreto de expulsão. O embaixador descobriu em Buenos Aires, por acaso, um jatinho da FAB que servia ao ministro do Trabalho de Médici, Júlio Barata.

Esse foi um detalhe que salvou a vida de Jefferson e seu filho: o ministro era sogro de um sobrinho do preso e muito amigo de Corina, mãe do coronel. Assim que soube pelo ministro da prisão do filho, dona Corina avisou muita gente – e a notícia foi divulgada pelo mais famoso colunista social do país na época, Ibrahim Sued, que deu sua tradicional "bola branca" para a prisão de Jefferson. Prisão confirmada, assim, o preso já não podia mais ser "desaparecido".

Na noite de sábado, o adido aeronáutico em Buenos Aires, coronel-aviador Miguel Cunha Lanna, avisou que a Aeronáutica, em Brasília, tinha autorizado o embarque de Jefferson e do filho no jato do ministro. Às seis horas da manhã de domingo, 13, eles foram retirados da cela e, ainda algemados, embarcaram em um comboio de quatro carros que tomou o rumo da base de El Palomar, sede da 1ª Brigada da Força Aérea, na zona oeste da capital. Militares brasileiros e argentinos uniformizados aguardavam na pista, ao lado do jatinho branco com o brasão da FAB. Mas eles só embarcaram após a chegada do Mercedes-Benz preto, com chapa diplomática e bandeirinha verde-amarela, de onde desceu o embaixador Azeredo da Silveira. O diplomata recebeu um documento, que leu e assinou. A ditadura brasileira recebia os presos e passava o recibo.

Jefferson e o filho viajaram algemados, vigiados por dois funcionários da embaixada, dois sargentos (armados com metralhadora INA e pistolas Colt 45) e o adido aeronáutico, coronel Leuzinger. O jatinho foi recepcionado na pista da base aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, pelo comandante da 3ª Zona Aérea, João Paulo Moreira Burnier, o brigadeiro mais radical da Aeronáutica brasileira. Jefferson e o filho, de novo encapuzados, foram levados para a tortura de praxe nas celas do CISA, o serviço secreto da Força Aérea, comandado pelo brigadeiro Carlos Afonso Dellamora. Jefferson ficou sete anos preso. O filho ficou detido ainda dois meses, até ser libertado, de repente, sem qualquer processo.

O berço da Condor

O sucesso do primeiro voo da Condor, ainda sem nome, fez muito bem às carreiras de dois personagens centrais do sequestro em Buenos Aires. O coronel Caneppa ganhou como recompensa a promoção a general e, em 1973, foi nomeado diretor da Polícia Federal no Governo Médici, em Brasília. O embaixador Azeredo da Silva se deu ainda melhor: foi brindado com o posto máximo da carreira, assumindo o Itamaraty como chanceler do Governo Geisel, quando o Brasil ajudou a fundar oficialmente a Condor no Chile.

Em novembro de 1975, o abutre que já voava na prática ganhou nome e status formal como Operação Condor na reunião de cúpula da repressão das seis ditaduras do Cone Sul em Santiago do Chile, convocada pelo coronel Manuel Contreras, diretor da DINA, a Dirección Nacional de Inteligencia, a polícia política de Pinochet. Dissimulada como sempre, cínica como nunca, a ditadura do general Ernesto Geisel ainda assim tentava se manter oculta na reunião secreta de Santiago. Semanas antes, o coronel Contreras despachara ao exterior o seu braço-direito, coronel da Força Aérea Mário Jahn, para entregar pessoalmente os convites para a pomposa "I Reunião de Trabalho de Inteligência Nacional".

Jahn confirmaria anos depois, na Justiça chilena, que os destinatários eram os chefes da repressão na Bolívia, Paraguai, Uruguai, Argentina e Brasil, mas lembrou de um único nome: o do convidado que visitou em Brasília, o general João Baptista Figueiredo, chefe do SNI e amigo de Contreras. Geisel precisou conter o entusiasmo de seu general, pronto para embarcar rumo ao Chile. Contrariando o pedido de Contreras, Geisel mandou rebaixar a comitiva brasileira de três para dois representantes, com ordens estritas para ouvir mais do que falar. Geisel não queria envolver o Brasil em ações coletivas de repressão, mas desejava preservar o espaço para ações bilaterais, caso a caso, quando necessárias.

Figueiredo recebeu uma última ordem do presidente: reduzir a participação brasileira à condição de mero "observador", sem autorização para firmar nenhum documento. O Planalto corrigiu ainda um erro de destino no convite da DINA. O convidado não devia ser o SNI, por definição apenas um órgão de informação do presidente. A velada missão brasileira em Santiago cabia, por dever de sangue e de ofício, ao CIE — o Centro de Informações do Exército, o braço operacional no combate à luta armada. Dois oficiais do serviço secreto do Exército foram selecionados por Figueiredo, com a aprovação do general Confúcio Danton de Paula Avelino, chefe do CIE, e do general Sylvio Frota, ministro do Exército de Geisel.

Estranhamente, nem os documentos da CIA desclassificados no Governo Clinton conseguiram identificar os nomes brasileiros, ao contrário das delegações dos outros cinco países presentes no encontro do Chile. Após dois anos de intensa garimpagem a partir de 2005, vasculhando antigas fontes da repressão e ouvindo velhos serviçais da ditadura, o autor deste artigo conseguiu enfim descobrir a identidade da dupla brasileira na cúpula fundadora da Condor, revelada em 2008 com o lançamento do livro Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios — uma reportagem dos tempos da ditadura, ­publicada em 2008 pela editora L&PM.

O tio e o doutor

Os dois parteiros do Brasil no berço da Condor eram o coronel de Cavalaria Flávio de Marco (codinome Tio Caco) e o major de Infantaria Thaumaturgo Sotero Vaz (codinome Dr. Sabino). Eram do CIE, dois veteranos de ação decisiva no combate à Guerrilha do Araguaia, um preâmbulo perfeito da Condor. Em uma única operação de guerra interna, o Exército brasileiro executou em três anos no Araguaia, com êxito, o propósito que tinha a Operação Condor nas três fases com que assombraria o Cone Sul, na segunda metade da década de 1970: a coleta de informações na Fase Um, a caçada e a tortura em operações conjuntas na Fase Dois, o assassinato e o desaparecimento dos prisioneiros na Fase Três.


O Brasil no berço da Condor: coronel De Marco e major Thaumaturgo
Tio Caco e Dr. Sabino: enviados do CIE ao Chile por Geisel e Figueiredo

De Marco desembarcou no Araguaia em outubro de 1973, quando os 80 guerrilheiros estavam reduzidos a 56. Mandava e desmandava na 'Casa Azul', sede em Marabá do Estado-Maior do CIE, onde o coronel dispunha de duas equipes de matadores – códigos 'Zebra' e 'Jiboia' -, cada uma com seis homens, integradas por um capitão, um suboficial, dois sargentos e dois cabos. No total, os dois bandos mataram 19 guerrilheiros, nenhum deles em combate. O grupo remanescente de 56 guerrilheiros estava dizimado, reduzido a 10 combatentes, quando ‘Tio Caco’ deixou o Araguaia, em outubro de 1974. Um ano depois, em novembro de 1975, com a autoridade de um veterano na doutrina hunter-killer de contra-insurgência, De Marco estava em Santiago do Chile representando o Brasil no berço da Condor, mas sem autorização para firmar a ata de encerramento.

Ao seu lado estava o major paraquedista Thaumaturgo, um especialista em guerra na selva com curso na Escola das Américas, que desembarcou no Araguaia liderando 36 boinas-pretas da tropa de elite do Destacamento das Forças Especiais do Exército, do Rio de Janeiro. Dez anos depois, em 1984, Thaumaturgo assumiu o comando em Manaus do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), unidade de excelência nesse tipo de combate, frequentado por 103 oficiais estrangeiros entre 1966 e 1985, período mais crítico do combate às guerrilhas no Cone Sul. Alguns deles eram agentes chilenos da DINA, como reconheceu o próprio Manuel Contreras, revelando que a cada dois meses mandava oficiais para treinar na Escola Nacional de Informações (ESNI), em Brasília, complementando depois o curso no CIGS.

De Marco e Thaumaturgo não eram figuras acidentais na fundação da Condor. Foram escolhas diretas dos dois generais mais importantes da ditadura na época — o presidente Geisel e seu sucessor, Figueiredo —, o que define bem a hierarquia do envolvimento do Brasil com o bando criminoso que nascia no Chile. Ainda major, De Marco serviu com o coronel Figueiredo quando ele comandava o Regimento de Cavalaria de Guarda, no Rio de Janeiro. Tinha linha direta no Araguaia com o general Milton Tavares de Souza, o chefe mais temido do duríssimo CIE do Governo Médici. Voltou a trabalhar com Figueiredo quando ele assumiu a chefia do SNI, no Governo Geisel, e chegou a diretor administrativo do Palácio do Planalto no Governo Figueiredo. O coronel da Condor era da copa e cozinha no mais alto escalão da ditadura brasileira.

O major Thaumaturgo foi cadete na Academia Militar das Agulhas Negras e aluno do capitão Danilo Venturini. À época da fundação da Condor Venturini já era coronel em Brasília, comandante do Batalhão da Guarda Presidencial, que fazia a escolta do Planalto do general Geisel. Três anos depois, promovido a general, Venturini era o diretor da ESNI, a escola de informações do SNI, frequentada pelos rapazes da DINA do coronel Contreras. Durante todo o Governo Figueiredo, o instrutor de Thaumaturgo foi o ministro-chefe do Gabinete Militar.

O Brasil sai à francesa

De Marco e Thaumaturgo participaram ativamente da cúpula da repressão em Santiago. Obedientes a Geisel, mantiveram a postura discreta de "observadores" e, só por isso, o Tio Caco do CIE não pôde firmar o documento de encerramento do encontro, a que teria direito na condição de chefe da delegação brasileira. O coronel De Marco perdeu a chance de entrar na história e o Brasil saiu à francesa, envergonhado, do berço que deu asas multinacionais ao terrorismo de Estado no Cone Sul.  A ata final do encontro secreto, de fato, registra apenas as assinaturas dos chefes das comitivas da Argentina (capitão de navio Jorge Demetrio Casas, diretor de operações do SIDE, Servicio de Inteligencia del Estado ), Bolívia (major de Exército Carlos Mena Burgos, do SIE, Servicio de Inteligencia del Estado), Uruguai (coronel de Exército José A. Fons, subdiretor do SID, Servicio de Inteligencia de Defensa) e Paraguai (coronel de Exército Benito Guanes Serrano, chefe do G-2, Departamento de Inteligência do Estado-Maior das Forças Armadas) — além do jubiloso anfitrião do Chile (coronel de Exército Manuel Contreras Sepúlveda, diretor da DINA de Pinochet).

Embora sem assinatura na ata, o Brasil pegou logo o espírito da coisa. O entrosamento da irmandade da Condor era tão fluido que, menos de um ano depois, chamou a atenção da poderosa DIA, a Agência de Inteligência da Defesa, o braço de espionagem mais importante do Pentágono. Em setembro de 1976, agentes da DIA em Buenos Aires transmitiram a Washington um quadro mais claro da integração repressiva do Brasil com a Argentina e o Uruguai. O telegrama secreto de 22 de setembro do DIA, repassado à Casa Branca, Pentágono, Departamento de Estado, NSA e CIA, resume com clareza inédita o nível de coordenação, apesar dos trechos censurados. O documento relata a presença de três homens, em trajes civis, embarcando no setor militar do Aeroparque, o aeroporto a dois quilômetros do coração de Buenos Aires. Diz o telegrama:

Em 15 de setembro de 1976... Roberto Viola, chefe do Estado-Maior do Exército, o general brigadeiro Suarez Masón, comandante do I Corpo de Exército, e o coronel Juan Saa, Assistente G-2 do Exército [estavam] a caminho de Montevidéu... Um veterano coronel de Exército responsável pela Inteligência argentina... está viajando a Brasília em 17 de setembro de 1976 para discutir assuntos de inteligência com as Forças Armadas brasileiras... [uma fonte não identificada informa] que a missão era secreta e que o Exército argentino estava trocando informações sobre subversão... ele sugeriu que este tipo de coordenação não era nova, mas não estabeleceu qual era a extensão dessa coordenação, além da troca de informações de inteligência.

[...] muito do sucesso desfrutado recentemente na batalha contra a subversão pode ser atribuído à eficiência da organização e dos procedimentos de inteligência...[segundo] três oficiais militares [...], um de cada uma das Forças Armadas. Quando a informação de inteligência é recebida pela polícia ela é rapidamente disseminada para o Exército, Marinha e Força Aérea e vice-versa... [a fonte] descreveu a velocidade de disseminação dizendo que a informação literalmente voava de um quartel-general ao outro, assim, as operações são montadas, algumas vezes em questão de horas, para explorar a vantagem antes que os terroristas tenham tempo para reagir.

O comentário final do telegrama secreto da agência militar de inteligência americana é incisivo:

A visita do oficial do Exército ao Brasil fornece uma sólida informação de que os argentinos estão coordenando ativamente com seus vizinhos em temas de contra-insurgência. Embora o propósito da viagem de Viola não seja claro, ela pode ter sido para coordenar atividades antissubversivas. As atividades diárias de Viola são usualmente cobertas pela imprensa, mas desta vez não há menção à sua viagem.

 Os generais que matam

Na irmandade da Condor, como supõe corretamente o desbocado Bolsonaro na entrevista ao La Nación, a ditadura brasileira não era um primo distante, alheio, alienado. O Brasil era apenas o irmão mais velho, mais forte, mais influente — talvez o mais dissimulado, certamente o mais cínico —, que fez o que era necessário fazer para organizar e sustentar a máquina de morte montada pelas ditaduras irmãs do Cone Sul. O Brasil não fez menos do que ninguém e, às vezes, fez primeiro e fez pior. Com exceção do Paraguai, a ditadura no Brasil era mais antiga do que a dos vizinhos — nove anos mais precoce do que a do Uruguai e do Chile, 12 anos mais velha do que a da Argentina. Com a maioridade de seus 21 anos, o regime militar brasileiro durou quatro anos mais que o chileno, nove mais que o uruguaio, 14 mais que o argentino — e sem brandura. A Condor foi apenas a cereja desse bolo autoritário que derramou sangue, medo e pavor pelo sul do continente.

Incapaz de superar o seu pétreo fanatismo anticomunista, Bolsonaro dificilmente entenderá que a Operação Condor, com um saldo de morte e sofrimento que jamais poderá ser quantificado, tornou-se a mais articuladas e ampla manifestação de terrorismo de Estado na história mundial. Winston Churchill resumiu, em agosto de 1940, a bravura dos escassos pilotos da RAF ao enfrentar a esmagadora superioridade aérea da Luftwaffe de Hitler que tentava subjugar a Inglaterra no início da Segunda Guerra Mundial: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.

Por razões morais e circunstâncias históricas absolutamente opostas, algo semelhante se poderia dizer da Condor. Nunca houve, nem mesmo em períodos de guerras ou conflitos internos, uma coordenação tão extensa entre tantos países para um combate tão impiedoso e sangrento a grupos de dissensão política ou de luta armadas, confrontados à margem das leis por técnicas consagradas no submundo do crime. A Operação Condor trouxe para dentro do Estado ilegítimo das ditaduras as práticas ilegais da violência de bandos paramilitares, transformando agentes da lei em executores ou cúmplices encapuzados de uma política oficial de extermínio. Antes do próximo e açodado elogio, seria prudente que Bolsonaro entendesse que a Operação Condor — graças à especialidade matadora que ele tão bem conhece na condição de capitão — criminalizou os regimes militares do Cone Sul.

O Exército brasileiro não tinha apenas capitães, como Bolsonaro, especializados em matar. Os generais também mandavam matar. Em janeiro de 1971, o general Humberto de Souza Mello assumiu o comando do II Exército, em São Paulo, onde já funcionava a usina de morte do DOI-CODI. Em visita ao antro comandado pelo herói de Bolsonaro, o então major Brilhante Ustra, o general Souza Mello foi claro na diretriz assassina que deu ao delegado David dos Santos Araújo, codinome Capitão José Lisboa: “Matem os terroristas, matem os carteiros que entregam suas cartas. [Matem] os familiares, os amigos, seja o que for. Só não quero que morra nenhum de vocês”, ordenou o general ao delegado, segundo depoimento dele a Percival de Souza, no livro Autópsia do Medo, a melhor biografia do sinistro Sérgio Paranhos Fleury, o delegado do DOPS que não era capitão, mas também se tornara um especialista em morte na ditadura.

A obsessão assassina era de pleno conhecimento do general que comandava todos eles, o presidente Ernesto Geisel. O general Vicente de Paulo Dale Coutinho, ministro do Exército no início do governo, lembrou a Geisel três anos depois, em fevereiro de 1974: “Eu vi [o trabalho de Souza Mello] em São Paulo, e justiça se faça ao Humberto. Quando começou o comando do Humberto, começou a diminuir o terror, porque a ordem dele era matar. A ordem dele era matar”, repetiu Dale Coutinho [sem nenhuma contestação de Geisel]. O diálogo é relatado por Elio Gaspari em A Ditadura Escancarada.

O serial killer fardado

Aqui, mais uma vez, o Brasil chegou à frente da Argentina. A frase de 1971 do general Souza Mello, confissão demente de um serial-killer fardado e matriz do pensamento matador que contaminava o Exército brasileiro e seduziria o futuro capitão Bolsonaro, inspirou cinco anos depois uma boçalidade semelhante do general argentino Ibérico Saint Jean, nomeado interventor na província de Buenos Aires. Em maio de 1976, dois meses após o golpe de Videla, o general Saint Jean trovejou: "Primeiro, mataremos todos os subversivos. Depois, seus colaboradores. Mais tarde, os seus simpatizantes. Então, mataremos os que permanecerem indiferentes. E, finalmente, vamos matar os indecisos..." A intimidade nada retórica das ditaduras de Brasil e Argentina, base para a conexão da Condor entre os dois mais fortes regimes do Cone Sul, desmente a blandícia dos generais brasileiros e realça a face sangrenta dos argentinos.


O erro do Brasil de Bolsonaro que a Argentina dos generais Videla e Saint Jean
não cometeu: mortes de menos

As portas do inferno na Argentina abriram-se, de par em par, no vizinho Uruguai, um ano antes da frase truculenta do general Saint Jean. Montevidéu sediou, em cinco dias de outubro de 1975, a 11ª reunião da CEA, a Conferência dos Exércitos Americanos, com os comandantes fardados da repressão mais celerada do continente. Ali despontou um novato no encontro, o general argentino Jorge Rafael Videla, nomeado comandante do Exército há menos de dois meses pela presidente Isabelita Perón. O argentino não mostrou nenhum acanhamento pelo noviciado. Com a arrogância típica de uma força que não vê limites, ganhou as manchetes dos jornais ao antecipar em Montevidéu o futuro agourento que se abateria em breve sobre seu país: “Se for preciso, deverão morrer na Argentina todas as pessoas necessárias para alcançar a segurança do país...", avisou Videla, seis meses antes de liderar o golpe que matou e fez desaparecer 30 mil pessoas que "ameaçavam" a segurança nacional. Ou seja, Videla realizou na Argentina o projeto de sangue que Bolsonaro queria ver aos borbotões no Brasil...

O sonho do capitão, porém, acabou virando um pesadelo para os generais argentinos.

O general e o papel higiênico

O general Ibérico Saint Jean, que sonhava exterminar subversivos, colaboradores, simpatizantes, indiferentes e indecisos, caiu em desgraça com a queda da ditadura, em 1983. Foi preso e condenado por crimes de lesa humanidade e tortura em 61 pessoas. Já na democracia ainda se gabava de ser responsável pelo desaparecimento de "uns cinco mil subversivos". Cumpria pena em casa e morreu no Hospital Militar Central de Buenos Aires, em outubro de 2012, aos 90 anos.

O general Jorge Rafael Videla teve pior sorte.  Em dezembro de 2010 foi condenado à prisão perpétua por crimes de lesa humanidade e a morte de 31 presos políticos. Em 2012, ganhou mais 50 anos de prisão pelo sequestro de bebês durante seu governo, sendo encarcerado na base militar de Campo de Mayo, em Buenos Aires, onde ele instalara El Campito, o maior dos 380 centros clandestinos de detenção espalhados pelo país. Ali passaram 5 mil presos, apenas 43 sobreviveram. Em entrevista coletiva concedida na Casa Rosada em 1979, no auge de seu poder como ditador, Videla definiu a questão crucial dos milhares de desaparecidos que assombravam a consciência nacional, com uma frieza que deixaria o capitão Bolsonaro deslumbrado. Disse Videla: “Um desaparecido é uma incógnita. Não tem entidade. Não está nem morto, nem vivo. Está desaparecido. Frente a isso não podemos fazer nada...”.  Em 2012, em entrevista ao jornalista Ceferino Reato para o livro Disposición Final, admitiu ser o responsável direto pela morte e desaparecimento de algo “entre 7 mil e 8 mil pessoas”, reconhecendo: “Eu sabia de tudo o que estava acontecendo e autorizei tudo. Tenho peso na alma, mas não me arrependo de nada”.

A melhor descrição de sua morte inusitada, em 17 de maio de 2013, aos 87 anos, no cárcere onde cumpria pena perpétua, coube ao jornalista Ariel Palácios, brasileiro nascido em Buenos Aires e correspondente da GloboNews. Em texto que mescla o drama de um tango com o humor negro de uma tragédia argentina, ele escreveu:

Alguns generais morrem em campo de batalha. Outros falecem no leito doméstico, pronunciando supostas frases patrióticas. Alguns morrem assassinados em revoluções, golpes e complôs. Outros caem do cavalo (sem metáforas) e fraturam o pescoço. Mas, até agora, não havia registros de um ex-ditador/general sul-americano que tenha morrido sentado no vaso sanitário, ao lado de um prosaico rolinho de papel higiênico. Jorge Rafael Videla encerrou sua carreira desta forma, com um óbito digno de entrar nos anais da História.


O capitão Bolsonaro, as emanações dos intestinos e o general Videla: 
o presente do Brasil, o passado da Argentina

O ex-ditador, que havia tido disenteria na véspera, acordou após uma noite com problemas estomacais e intestinais e sentou-se no vaso. Ali, na posição clássica do Pensador de Rodin, o general viveu seus últimos momentos, como uma estátua sedestre que trabalhava mais com os intestinos do que com o cérebro. Às 6h40 da manhã, um dos guardas de plantão olhou pelo visor da cela e viu o general sentado no vaso, com as calças do pijama arriadas. Pouco depois, na segunda ronda, o guarda percebeu que Videla permanecia estático, na mesma posição, reclinado para a frente. Um médico foi chamado e, ao entrar na cela, perceberam que o general de mão pesada da ditadura não tinha pulso. Assim, dessa forma escatológica, finou-se o personagem da pior ditadura do país.

Os generais Videla e Saint Jean são a face mais indecente do passado da Argentina.

O capitão Jair Bolsonaro é a cara mais indecorosa do presente do Brasil.

Luiz Cláudio Cunha, jornalista, foi consultor do GT da Operação Condor na Comissão Nacional da Verdade e é autor de Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios(L&PM, 2008). E-mail: cunha.luizclaudio@gmail.com.
No Congresso em Foco
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Globo declara guerra ao Intercept e insinua até “ataque russo” à Lava Jato

Com a ajuda da PF de Moro, O Globo afirma que ataques foram "muito bem planejados" e podem ter custado de 2 a 3 milhões de dólares


Ao que tudo indica, a Globo decidiu declarar guerra ao site The Intercept Brasil nesta quarta (12).

De um lado, a emissora divulgou uma nota levando o embate com Glenn Greenwald para o campo pessoal. De outro, o jornal O Globo produziu uma reportagem, com a ajuda da Polícia Federal sob Sergio Moro e dos procuradores da Lava Jato, insinuando que todo o “coração” da operação foi vítima de um ataque hacking “muito bem planejado”, ao custo de milhões de dólares, com direito a envolvimento de russos no enredo.

A narrativa criada pela Lava Jato tenta tirar Sergio Moro e Deltan Dallagnol do centro das atenções. Jornalistas dos Intercept, de fato, confirmaram que muitas pessoas foram atingidas pelo vazamento.

Mas uma das principais questões que Globo omite de seus leitores é que em nenhum momento o Intercept expôs detalhes de como sua fonte (mantida em sigilo) obteve o material que compõe um dossiê superior, em volume, ao caso Snowden.

Foram Moro e Dallagnol que, em defesa própria, sacaram primeiro a história do “ataque criminoso” para tangenciar o mérito das conversas reveladas pelo Intercept. .

Agora, Globo e outros portais da grande mídia aliadas da operação – como o Estadão e O Antagonista – forçam ligações entre o ataque hacking e o vazamento ao Intercept.

E a nova narrativa publicada Globo é cinematográfica:

“Em meio à crise deflagrada pelos ataques, procuradores discutem entre si as mais variadas teses sobre as origens dos ataques. Alguns levantam suspeitas até sobre invasões de origem russa, o que não está comprovado”, afirma o diário.

O ATAQUE “MUITO BEM PLANEJADO”

De acordo com O Globo, o ataque foi “muito bem planejado” não se limitou a Moro e Dallagnol, entre outros procuradores de Curitiba, mas chegou também a outros nomes da Lava Jato, como a juíza Gabriela Hardt, que condenou Lula no caso Atibaia.

O desembargador Abel Gomes, relator da Lava Jato na segunda instância do Rio de Janeiro, o juiz Flávio de Oliveira Lucas (RJ), o ex-procurador-geral Rodrigo Janot e dois assessores mantidos sob anonimato também estão na lista.

Assim como os procuradores Paulo Galvão, Thamea Danelon, Ronaldo Pinheiro de Queiroz, Danilo Dias, Eduardo El Haje, Andrey Borges, Marcelo Weitzel e um jornalismo de O Globo.

Os procuradores do Rio, segundo O Globo, conseguiram evitar a invasão porque tinham “controles mais rígidos”.

O Globo dá a entender, com a reportagem, que levantou todas as ocorrências sozinho.

Mas há a informação de que alguns casos são investigados nos 4 inquéritos da Polícia Federal, divididos entre dois grandes grupos de investigação que atuam em 4 cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba.

Na tarde desta quarta (12), o site BR18, abrigado pelo Estadão, revelou uma suposta invasão em um grupo de procuradores do Conselho Nacional do Ministério Público.

O suposto hacker usou a conta do procurador militar Marcelo Weitzel para tirar sarro da situação da Lava Jato. Globo diz que o mesmo suposto invasor teria entrado em contato com José Robalinho, ex-presidente da Associação Nacional de Procuradores, se passando por Weitzel.

O hacker em questão teria se declarado um simples profissional de TI que não tem dificuldade de invadir qualquer celular, e afirmou que era responsável pelos vazamentos. Sua motivação seria que a sociedade brasileira e o próprio Judiciário deveriam conhecer o que ocorreu nos bastidores da Lava Jato.

A INVESTIGAÇÃO OFICIAL

Sobre o ataque hacker, a PF tem 4 inquéritos em andamento, e a PGR também abriu um procedimento para acompanhar os federais.

Ontem, a Folha publicou reportagem sobre como funcionam ataques desse tipo e explicou que seriam relativamente baratos, o que gerava a preocupação de que fossem disseminados mais facilmente.

Agora, O Globo vem com a teoria de que poderosos estariam por trás, pois “as suspeitas iniciais [na visão da PF de Moro] apontam para um mandante com capacidade financeira para bancar o esquema aparentemente sofisticado de ação.”

“Uma das hipóteses é a de utilização de equipamentos que custam entre US$ 2 milhões e US$ 3 milhões, segundo uma fonte da cúpula da PF ouvida pelo GLOBO. Há diversas empresas sediadas no leste europeu e no Oriente Médio que oferecem estes serviços por esses valores.”

A hipótese, contudo, não casa com a chacota do hacker que se passou pelo procurador Weitzel.

O ATAQUE PESSOAL DA GLOBO

Em outra frente, a Rede Globo divulgou uma nota à imprensa que leva a discussão com Glenn Greenwald – que tem criticado duramente a grande mídia pela cobertura acrítica da Lava Jato nos últimos anos – para o plano pessoal.

Em resposta a uma entrevista do editor do Intercept à Agência Pública, a emissora revelou o suposto bastidor de uma suposta tentativa de negociação de Greenwald para compartilhar o conteúdo do dossiê.

Globo acusou Greenwald de ter oferecido parceria na divulgação de uma “bomba” (ele não deu detalhes da pauta), mas antes queria saber se a emissora guardava contra ele alguma informação da época em que atuaram juntos no caso das invasões da NSA.

Segundo a nota, a aparição de nome de agentes americanos numa reportagem veiculada na Globo colocou a segurança de Greenwald em risco, porque o governo dos EUA poderia ter pedido sua prisão. Para evitar isso, a emissora admitiu sozinha a responsabilidade pela publicação da reportagem. Foi o que, segundo a nota, salvou Greenwald.

O jornalista do Intercept ainda não se manifestou sobre a nota.

Leia a nota completa aqui.

A IRONIA DO DESTINO

Não deixa de ser irônico que Moro e a Lava Jato – que passaram cinco anos vazando delações premiadas (inclusive as que não estavam homologadas) e informações seletivas e, às vezes, não devidamente apuradas à imprensa – agora se escondam atrás do vazamento e de um caso de ataque hacking para tangenciar a discussão do mérito das acusações feitas pelo Intercept.

O site já divulgou 3 matérias e 1 editorial expondo provas (conversas em chats privados e grupos de procuradores) do conluio entre o ex-juiz e o Ministério Público.

Essas provas podem não servir para punir a força-tarefa e o hoje ministro da Justiça, mas servem, em tese, para derrubar sentenças. Como a do caso triplex, contra Lula.

Greenwald, na entrevista à Agência Pública, também indicou que a relação promíscua da Globo com a Lava Jato também seria exposta.

Cenas dos próximos capítulos.

No GGN
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Não era só Moro quem vazava para os antas, o TRF-4 também


Não eram apenas Sergio Moro e seus subordinados no Ministério Público Federal em Curitiba que vazavam informações para os antas do site da Empiricus.

Há indícios de que o Tribunal Regional Federal da 4a. Região também privilegiou os jornalistas (sic) da organização com informações que deveriam ser mantidas sob sigilo.

Foi em 24 de janeiro de 2018, quando o TRF-4 confirmou a sentença de Sergio Moro e tirou Lula da disputa eleitoral.

Às 8:17, quando ainda não havia iniciado a sessão, o site da Empiricus postou uma nota com informações que só poderiam ter sido vazadas por quem já conhecia o resultado do julgamento:

“Dos resultados possíveis no julgamento de hoje, há um cenário novo: a possibilidade de Gebran Neto aumentar a pena de Lula.

Os votos de Victor Laus e Leandro Paulsen seriam idênticos, mantendo a sentença de primeira instância”.

Foi exatamente o que aconteceu, conforme se divulgaria no final da tarde, quando a sessão terminou: Gebran aumentou a pena de Lula de 9 anos e seis meses para 12 anos e um mês de prisão, e os votos de Victor Laus e Leandro Pausen foram idênticos.

Os antas do site tinham bola de cristal? Deram o chute certo? Claro que não. Alguém vazou. Resta saber se foi alguém da Vara de Moro, para a qual o resultado do TRF-4 também teria sido vazado, ou se foi alguém do próprio tribunal.

Só peixe graúdo é que tem informação desse tipo

O resultado também indicaria combinação entre os desembargadores para produzir um acórdão sem divergência e, portanto, que tirasse da defesa de Lula a possibilidade de apresentar embargos infringentes.

Dois meses e duas semanas depois, Lula seria preso e sua candidatura a presidente seria indeferida por conta dessa condenação em segunda instância, sem chance de recurso no TRF-4.

Naquele início da manhã em que O Antagonista vazou o resultado do julgamento de Lula, o dólar caiu — foi a R$ 3,19 e a Bolsa de Valores teve ganhos expressivos.

Tudo bem que, depois com Bolsonaro, o dólar ultrapassasse a barreira dos R$ 4,00 e a Bolsa caísse. Mas, naquele dia, quem soube com antecedência o resultado do julgamento do TRF-4 ganhou dinheiro.

O vazamento de informação sigilosa, como o voto de um desembargador, é sempre criminoso. Mas, para alguns, é um crime que compensa.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Vaza Jato revela apoio de Fux


Em conversa em um grupo de procuradores, Deltan Dallagnol conta ter conversado "mais uma vez com Fux hoje, reservado, é claro", e diz ter recebido apoio do ministro do STF; "Disse para contarmos com ele para o que precisarmos, mais uma vez. Só faltou, como bom carioca, chamar-me para ir à casa dele rs", escreve Deltan; a conversa foi encaminhada ao então juiz Sérgio Moro; "Excelente, in Fux we trust", respondeu Moro; a divulgação do diálogo inédito acaba de ser feita pelo editor do Intercept Leandro Demori na Bandnews

Um diálogo inédito entre Deltan Dallagnol e procuradores revela o apoio do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux à Lava Jato. A conversa foi revelada na noite desta quarta-feira 12 pelo editor do The Intercept Leandro Demori, na Bandnews. O diálogo foi lido por Reinaldo Azevedo.

Em um grupo de procuradores, Dallagnol conta ter conversado "mais uma vez com Fux hoje, reservado, é claro". "O ministro Fux disse quase espontaneamente que Teori Zavascki fez queda de braço com Moro e se queimou, e que o tom da resposta de Moro foi ótimo", escreveu, em referência à repreensão feita por Teori a Moro pelos grampos de Dilma Rousseff.

"Fux disse para contarmos com ele para o que precisarmos, mais uma vez. Só faltou, como bom carioca, chamar-me para ir à casa dele rs", acrescentou. "Mas os sinais foram ótimos, falei da importância de nos protegermos como instituições, especialmente no novo governo", completou.

As mensagens foram encaminhadas por Dallagnol para o então juiz Sérgio Moro, que respondeu, em tom de intimidade. "Excelente, in Fux we trust", escreveu Moro, em inglês, o que pode ser traduzido como "no Fux a gente confia".

Vale lembrar que Fux foi o ministro que barrou, no STF, a entrevista que o ex-presidente Lula concederia antes das eleições de 2018.

A partir dos 19min:

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Globo joga tudo na defesa da Lava Jato, mas corre o risco de afundar abraçada a Moro

https://www.balaiodokotscho.com.br/2019/06/12/globo-joga-tudo-na-defesa-da-lava-jato-mas-corre-o-risco-de-afundar-abracada-a-moro/

Ao jogar tudo na defesa da Lava Jato, a Globo dobrou a aposta e agora corre o risco de afundar abraçada ao ex-herói nacional Sergio Moro, que acaba de ser desmascarado.

Na verdade, a Globo está também atuando em causa própria, pois desde o primeiro momento apoiou e bancou a força-tarefa de Curitiba comandada pelo ex-juiz, hoje ministro da Justiça do governo de extrema-direita.

“A Globo é sócia, agente e aliada de Moro e da Lava Jato”, disse o jornalista Glenn Greenwald, autor das denúncias publicadas no site The Intercept, o que não chega a ser uma grande novidade para quem acompanha há cinco anos a operação casada da Lava Jato com jornalistas e donos da mídia amiga.

Em entrevista a Thiago Domenici, da Agência Pública, Greenwald lembrou que “o tempo todo, a grande mídia não estava reportando sobre a Lava Jato, ela estava trabalhando para a Lava Jato”.

Segundo o jornalista, há exceções como a Folha de S. Paulo, e jornalistas independentes.

“Preciso falar que depois de publicar o que publicamos, acho que com uma exceção, que é a Globo, a grande mídia está reportando o material de forma mais ou menos justa, com a gravidade que merece”.

De fato, o restante da mídia já rifou o ex-juiz solenemente, porque sabe que novas denúncias virão nas reportagens do site The Intercept.

Mas só o que já foi divulgado seria suficiente para Moro ser demitido do governo, e Deltan Dallagnol afastado da operação e investigado pelo Ministério Público Federal.

Até o presidente Jair Bolsonaro, que de bobo não tem nada, está se fingindo de morto diante do maior escândalo da história da Justiça brasileira que envolve o seu superministro.

Na terça-feira, o capitão convidou o ministro para passear de lancha e depois o condecorou com uma medalha da Marinha, mas quando foi perguntado sobre os vazamentos das conversas de Moro virou as costas e encerrou a entrevista.

Passadas 72 horas, Bolsonaro continua em obsequioso silêncio sobre o assunto que provocou o maior abalo no seu governo até agora.

Sem em nenhum momento desmentir a veracidade das mensagens trocadas com Dallagnol e outros procuradores, Moro e a Globo continuam insistindo em reduzir o caso a um “vazamento criminoso” de conversas particulares feito por “hackers”, como se não tivessem usado os mesmos métodos durante a Operação Lava Jato.

Greenwald já desmentiu a história dos “hackers”, garante que recebeu as gravações de uma fonte anônima e promete novas revelações sobre as conexões espúrias da Lava Jato com a mídia conservadora.

“Os jornalistas pararam de investigar e questionar a Lava Jato e simplesmente ficaram aplaudindo, apoiando e ajudando”, afirma o jornalista na entrevista à Pública.

No caso da Globo, que só comenta o crime praticado pela fonte de Greenwald, e não mostra interesse no conteúdo das gravações, chega a ser patético o comportamento dos seus profissionais.

É até um desperdício: para que tantos comentaristas globais, se todos repetem sempre a mesma coisa, de acordo com o script da emissora?

O noticiário parece um realejo que toca em todos os telejornais do grupo, tentando distrair a platéia sobre o que realmente interessa nessa história: o modus operandi do crime cometido por agentes públicos para condenar Lula e tirá-lo da disputa presidencial.

Num momento em que a empresa enfrenta dificuldades financeiras e perde bons profissionais para a concorrência, não dá para entender a postura arrogante da Globo, na mesma linha de Moro e Dallagnol.

Para sair dessa encruzilhada, voltar a fazer bom jornalismo, que a Globo sabe fazer, respeitando a verdade factual, com pluralidade de opiniões, talvez ainda seja a melhor estratégia.

Moro, Dallagnol e todos os procuradores da força-tarefa de Curitiba que cuidem das suas próprias defesas.

E vida que segue.

Ricardo Kotscho
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Os isentões tomam a frente do golpe

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A divulgação das conversas da força-tarefa da Lava Jato com o então juiz Sérgio Moro adquiriu tal magnitude que se tornou impossível, para o establishment político e midiático, ignorá-las. A direita extremada manda suas hordas, nas redes virtuais, redobrar a virulência nos ataques ao “petismo” (categoria ampla que engloba todo o campo democrático), lançar acusações contra Glenn Greenwald e preparar falsificações para, a partir delas, tentar desmoralizar os diálogos autênticos. Ações de quem está na defensiva e não vê como sair dessa posição.

No início relutantes, os meios de comunicação corporativos acabaram tendo que noticiar o vazamento, mesmo que de forma tímida e enviesada. A tentativa de minimizar o episódio, emblematizada pela reação inicial de Fernando Henrique Cardoso (”tempestade em copo d’água”), logo mostrou fôlego curto. A natureza dos crimes cometidos por Moro, Dallagnol e seus asseclas faz com que eles, mesmo que não pareçam tão espetaculosos para os desavisados, sejam imediatamente identificados como gravíssimos nos meios jurídicos. A corregedoria do Ministério Público iniciou investigação sobre Dallagnol e mesmo a OAB, cuja postura ao longo de todo o processo do golpe sempre foi de cumplicidade ativa, pediu o afastamento dos implicados.

Os jornalões, que ontem tentavam esconder o episódio, hoje começaram a se render. O Estadão ainda arranja uma manchete fora do tema, mas O Globo diz “Conversas de Moro com procuradores e ação de hacker serão investigadas”. Tenta o difícil caminho de colocar os malfeitos da Lava Jato e o trabalho jornalístico do Intercept Brasil no mesmo saco. A Folha escancara a crise: “Governo Bolsonaro se blinda e adota cautela com Moro”.

Abre-se, então, a possibilidade de sacrificar Moro. Até agora, o ex-juiz não conseguiu inventar uma linha de defesa razoável. Primeiro, lançou uma nota cujo efeito principal foi confirmar a autenticidade dos diálogos. Agora, esconde-se atrás de um insustentável “não vi nada demais” - mas se alguém que era juiz não via “nada demais” em orientar um dos lados de um caso que ia julgar, das duas uma: ou é mentecapto ou é cínico. Em Manaus, ontem, deu chilique e interrompeu entrevista em que foi indagado sobre o assunto.

O ex-justiceiro de Curitiba mostra, uma vez mais, despreparo. E a posição de bode expiatório casa como uma luva para ele, por dois motivos. Primeiro, embora sempre tenha sido apenas um peão, tornou-se símbolo da Lava Jato e “herói” nacional. Se cair, dará a impressão de que a justiça triunfa. Depois, porque todos já perceberam que é frouxo. Outro, em seu lugar, já teria batido a mão na mesa e dito “se eu cair, eu explodo essa zorra toda”. Moro não é desses. O primeiro e crucial dia da crise passou sem uma manifestação vibrante de solidariedade do governo no qual ele teria entrado como “avalista”.

É aí que os “isentos” se apresentam, para sugerir um caminho. Trata-se de afastar Moro, mas manter de pé suas decisões. Um folclórico colunista conservador da Folha de S. Paulo escreve hoje que, embora esteja demonstrado que “o ex-juiz e os procuradores estabeleceram uma relação de proximidade absolutamente inadequada, que dá substrato à suspeita, desde sempre levantada pela defesa do ex-presidente, de que Moro não atuava com imparcialidade”, os julgamentos não devem ser anulados, já que “não há sugestão de que Moro e os procuradores tenham interferido na realidade fática das provas”. Se o raciocínio dele tivesse lógica, poderíamos abolir a magistratura: a “realidade fática das provas”, por si só, condenaria ou absolveria. Mas, na verdade, a “realidade fática das provas” exige interpretação; por isso é que se cobra imparcialidade do juiz. Quando esse juiz colabora com um dos lados e mesmo, detalhe que o jornalista convenientemente ignora, reconhece privadamente que as provas que vai usar para condenar são muito frágeis, não há como salvar o processo.

Do Twitter, vem a contribuição daquele que é a encarnação brasileira da personagem de Macedonio Fernández, “el hombre que será Presidente y no lo fue“: “Antes que as paixões contra ou a favor do ex-presidente Lula - o mais notável atingido pela Lava Jato - venham aqui defender cegamente seus interesses, lembrem-se de Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Palocci… todos esses poderão se beneficiar com o que está acontecendo“. Portanto, para Ciro, a manutenção de “homens maus” presos compensa a violação de todas as regras do correto processo judiciário. Falando para um público diferente, ele admite que a prisão de Lula pode ser injusta, embora seja o preço a pagar pela punição dos outros, mas na essência sua postura não difere do amoralismo da extrema-direita punitivista.

Os diálogos publicados até agora mostram com clareza uma conspiração entre Judiciário e Ministério Público para condenar Lula. Caso mostrem trama igual contra outras pessoas, as condenações precisam também ser revogadas - mesmo que se trate de Eduardo Cunha. Ao contrário do que Ciro insinua, a campanha “Lula livre” não se baseia numa suposta imunidade do ex-presidente, mas na defesa do direito de defesa e das regras do justo processo penal.

Também a ex-senadora, ex-ministra e ex-líder política se manifestou. Uma longa nota, resumida, num tuíte, à ideia de que “não se pode ter dois pesos e duas medidas“. Enigmático, como de costume, mas a leitura da nota, com ênfase em evitar que “possíveis erros sirvam de pretexto para desconstruir a luta anticorrupção”, mostra que a opção é também afastar ou até punir Moro e Dallagnol, mas manter Lula preso. A “luta anticorrupção” é alçada à posição de valor máximo; em nome dela, todos os direitos podem ser atropelados.

Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, no final do dia de ontem abandonou o discurso da “tempestade em copo d’água” para, quem diria, aderir à linha de Marina Silva. Em um tuíte que aparentemente não diz nada, conclama - ou seria cancloma? - um “grande acordo nacional”: “É hora de juízo: sem entendimento perderemos o bonde da história“. O “entendimento”, parece claro, é entre os artífices do golpe, para evitar que a exposição da podridão da Lava Jato prejudique os frutos alcançados até aqui.


São palavras bonitas, mas carentes de sentido. O que foi revelado pela conspiração Lava Jato é indissociável de seus métodos. Se o julgamento estava enviesado, se havia predisposição para condenar mesmo com evidências frágeis e impermeabilidade aos argumentos da defesa, não há caminho possível exceto a anulação do processo. Ortellado ridiculariza o fato de que a esquerda apresenta os diálogos publicados no Intercept Brasil como provas cabais “da parcialidade da Lava Jato, do caráter político do julgamento do ex-presidente Lula e de que o impeachment de Dilma Rousseff foi efetivamente um golpe parlamentar”. Ele pode falar à vontade em “disputa de narrativas”, mas não muda o fato de que, sim, os diálogos provam tudo isso.

O caminho sugerido agora pelos pretensos isentões é esse: punir os punitivistas para manter o punitivismo. Isso não serve para o campo democrático. É preciso restaurar a vigência dos direitos e das garantias. É preciso anular as condenações tendenciosas e injustas. E é preciso desmitificar o discurso do “combate à corrupção”, que convenientemente esquece o caráter estrutural da relação entre capital e Estado e serve apenas para destruir a democracia.

Luís Felipe Miguel
No Demodê
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Congresso quer Moro zumbi e cabeça de Dallagnol


O caso Vaza-Jato está longe de um desfecho, e seus rumos vão depender das próximas revelações sobre as conversas indecorosas da força-tarefa interceptadas pelo The Intercept. Nesse momento, o establishment político olha com cautela a ofensiva do ministro Sérgio Moro junto ao Congresso para dar grau máximo de politização ao assunto – e se manter na pasta da Justiça – e aposta suas fichas na previsão de que a primeira cabeça a rolar será a de Deltan Dallagnol. A corda arrebenta do lado mais fraco, e este é agora o do procurador, alvo de ações no Conselho Nacional do Ministério Público.

Uma punição a Deltan livra a cara de Moro, o outro lado das conversas impróprias captadas? Não necessariamente, mas distrai a platéia.

Moro não teve o apoio explícito do presidente Jair Bolsonaro nas primeiras horas do escândalo, mas teve dos filhos do presidente e – bem importante – da ala militar do governo, traduzido num twitter de seu guru máximo, general Villas Boas. Isso quer dizer que o ex-juiz se safou? Também não.

O destino de Moro está hoje nas mãos do Congresso Nacional, onde boa parte dos parlamentares há tempos acalenta o sonho de pegar o ex-juiz da Lava Jato na esquina. Curiosamente, foi esse mesmo – Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre à frente – que ontem ofereceu a mão a ele, concordando em marcar para a próxima semana uma audiência na amena Comissão de Constituição e Justiça do Senado e brecando, a princípio, as iniciativas para criação de uma CPMI para investigar as relações impróprias dentro da Lava Jato.

Como dizia Ulysses Guimarães, ali no Congresso não tem bobo – os bobos ficaram para suplente. E o que vai ficando claro é que o Legislativo, em vez de reduzir a pó o ex-super Moro, quer mantê-lo em seu colo, bem quietinho, imobilizado, quem sabe como uma dócil criatura de estimação.

Se Moro sobreviver no cargo, ficará tão fraco politicamente que não vai mais oferecer perigo para os acusados da Lava Jato e de outros casos. Seu pacote dificilmente sairá do lugar, sua indicação para o STF pode ser barrada pelos senadores – se é que será feita por Bolsonaro – e agora terá grandes chances de prosperar e ser aprovado o projeto que pune o abuso de autoridade de juízes e procuradores.

É esse o script que estava sendo escrito ontem: um filme no qual o super herói vira zumbi.

Helena Chagas
No Os Divergentes
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Barroso e a miséria da “lógica miliciana”


Existe, no Código Penal Brasileiro uma figura, tipificada no art. 345, chamada “exercício arbitrário das próprias razões”:

Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite.

É críme, punido com detenção, multa e, se implicar violência, com a pena correspondente à que for praticada.

A atitude do Sr. Luís Roberto Barroso, ao dizer que há “euforia dos corruptos” com a revelação da ilegalidade (sim, é ilegal epressamente) dos diálogos entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol no curso do processo contra o ex-presidente Lula é, mesmo com a melhor das boas-vontades, a defesa deste crime.

Barroso diz que a corrupção existe. Existe, existiu e existirá; a questão é quem, como e em que circunstâncias ocorreu. É isso o que se investiga no processo e, por isso, o processo jamais dispensa a garantia de que não se possa formar um conluio entre acusação e magistrado para arbitrar, por sua vontade, este “quem e  como”.

Não se discute, como no crime do art. 345, a legitimidade do combate a corrupção. Mas é a lei que diz que não basta que seja legítima para ser legal. O devido processo legal cuida que seja, através de procedimentos regulados de igual forma para todos (a lei) e, portanto, não arbitrária.

O Doutor Barroso certamente já explicou aos seus alunos a diferença entre árbitro e juiz e que a  primeira figura, exatamente por não ter de seguir necessariamente as formalidade legais, so é permitida na solução de conflitos de direito privado – até porque as partes escolhem o árbitro, de comum acordo –   jamais no que se refira à lei pública.

Barroso, como todo autoritário, reduz tudo a uma questão moral: “na vida, o que é certo é certo, o que é errado é errado”, disse a Andrea Sadi, no G1.

Qualquer vovó racional dirá aos seus netos que “certo” ou “errado” já são valores subjetivos, no campo moral, e estritos, no campo legal.

Do contrário, bastaria achar-se “certo” para punir aquele que se acha “errado”, sem que isso exija regras e formalidades para que se dê apenas dentro da lei.

Senão, Doutor, é exercício abritário das próprias razões.

Vou dar um exemplo que talvez ofenda os seus punhos de renda: esta é a lógica do miliciano.

“Bandido bom é bandido morto”, não é? Pois então, que se os mate, sem delongas.

Para o pistoleiro, ele está fazendo um bem à sociedade que, afinal, livra-se do mal da bandidagem daquele sujeito, Afinal, ali no loteamento todo mundo sabe que ele é bandido, dizem que ele roubou o armazém, falam que ele bateu no vizinho…

É inacreditável que o Brasil tenha na mais alta corte do país alguém com tanto desprezo pelo cumprimento da lei, inclusive a lei da Magistratura e a lei penal, que exige expressamente o distanciamento do juiz das partes.

O certo e o errado de um juiz é a lei, nada mais. Para julgamentos morais, usa-se um padre, um pastor, um sacerdote, porque é o intérprete de Deus.

Condição que  Luís Roberto Barroso pretende, mas não tem.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Glenn Greenwald: “a Globo e a força-tarefa da Lava Jato são parceiras”

Em entrevista à Pública, jornalista coautor das reportagens do The Intercept Brasil diz que “a grande mídia não estava reportando sobre a Lava Jato, ela estava trabalhando para a Lava Jato” e que a “arrogância de Sergio Moro causou seu comportamento antiético”


“Se você não quer esses riscos, você não deve fazer jornalismo”, afirma Glenn Greenwald sobre a série do The Intercept Brasil que revelou no último domingo trocas de mensagens nada republicanas entre o então juiz federal Sérgio Moro e a força-tarefa da Lava Jato.

As revelações, frutos de documentos enviados por uma fonte anônima, podem ter influenciado os rumos das últimas eleições no país e seu conteúdo dinamitou uma série de reações em todas as esferas de poder e da opinião pública.

Na entrevista à Pública, Greenwald fala sobre as reações dos envolvidos e trata da cobertura da imprensa sobre a Lava Jato antes e depois das reportagens do The Intercept Brasil. “Quando a grande mídia transforma Moro e a Força Tarefa em deuses ou super heróis, se torna inevitável o que aconteceu. Os jornalistas pararam de investigar e questionar a Lava Jato e simplesmente ficaram aplaudindo, apoiando e ajudando”, avalia.

Segundo ele, há exceções como a Folha de S. Paulo e jornalistas independentes. E pondera: “preciso falar que depois de publicar o que publicamos, acho que com uma exceção, que é a Globo, a grande mídia está reportando o material de forma mais ou menos justa, com a gravidade que merece”.

Durante o processo de recebimento do material da fonte anônima e da própria produção das reportagens quais foram os momentos mais complicados na tomada de decisão jornalística? Como foi esse processo para vocês?

Para mim foi muito parecido com a reportagem que fizemos com o caso Snowden. Quando você recebe um arquivo gigante, é muito difícil, num primeiro momento, entender o que você tem e o contexto dos documentos que estão nesse arquivo. Segundo, quais os principais documentos que você vai usar, porque, obviamente, estamos lendo conversas privadas entre pessoas, e tem a questão do direito à privacidade mas, por outro lado, essas pessoas estão usando o poder público, então também precisam de transparência — exatamente o que eles fizeram quando interceptaram e divulgaram as conversas privadas do Lula.

Como você avalia a repercussão a partir da própria imprensa brasileira? Hoje, por exemplo, você disse que “a estratégia da Globo é a mesma que os governos usam contra aqueles que revelam seus crimes” e que “a Globo é sócia, agente e aliada de Moro e Lava Jato”.

É incrível porque, para mim, o tempo todo, a grande mídia não estava reportando sobre a Lava Jato, ela estava trabalhando para a Lava Jato. Com uma exceção que é a Folha de S. Paulo. A Folha, para mim, manteve uma distância, uma independência, estava criticando, questionando… Mas a Globo, Estadão, Veja, o tempo todo estavam simplesmente recebendo vazamentos, publicando o que a Força Tarefa queria que eles publicassem. Mas, na realidade, preciso falar que depois de publicar o que publicamos, acho que com uma exceção, que é a Globo, a grande mídia está reportando o material de forma mais ou menos justa, com a gravidade que merece.

Por exemplo, o editorial de hoje do Estadão — que era um dos maiores fãs do Moro — falando que ele deve renunciar e Deltan ser afastado. Isso mostra a gravidade das revelações.

A única exceção é a Globo mas essa é uma exceção enorme por causa do poder do Jornal Nacional que está quase tratando a história somente como um crime — e o único crime que interessa é o da nossa fonte, que eles acham que ela cometeu. Eles não têm quase nenhum interesse nas gravações e no comportamento do Moro, do Deltan. Eles estão falando sobre o comportamento da fonte e, na realidade, eles não sabem nada. Mas é interessante por que isso é comportamento de governo.

Como assim?


Quando você denuncia ações de corruptos ou trata de problemas sobre o governo, ele sempre tenta distrair falando somente sobre quem revelou essa corrupção, quem divulgou esses crimes para criminalizar pessoas, jornalistas ou fontes que revelaram o material. Essa estratégia, não dos jornalistas, é o que a Globo está usando. Porque a Globo e a força-tarefa da Lava Jato são parceiras. E os documentos mostram isso, né? Não é só eu que estou falando isso por causa da Globo. Os documentos mostram como Moro e Deltan estão trabalhando juntos com a Globo e nós vamos reportar, então eu sei disso já e a reportagem está mostrando. Mas o resto da grande mídia está tratando a história com a gravidade que merece. É impossível para todo mundo que está lendo esse material defender o que Moro fez. Impossível!

Se eu entendi, Glenn, você está me dizendo que os documentos que vocês ainda estão trabalhando vão apontar uma relação mais próxima da Globo nesse processo com Dallagnol e Moro, é isso?

Eu não posso falar muito sobre os documentos que ainda não publicamos porque isso não é responsável. Precisa passar pelo processo editorial mas, sim, posso falar que exatamente como disse hoje, a Globo foi para a Força Tarefa da Lava Jato aliada, amiga, parceira, sócia. Assim como a Força Tarefa da Lava Jato foi o mesmo para a Globo.

Muita gente está querendo saber qual vai ser o próximo passo do The Intercept Brasil, as próximas reportagens. Queria que você esclarecesse o que é fundamental para essa apuração estar pronta jornalisticamente, para que vocês soltem novas revelações.

Não somos o Wikileaks. Não estamos simplesmente publicando material que nós temos, sem contexto ou reportando sem entender, sem analisar, sem pesquisar. Estamos fazendo jornalismo. E esses documentos são complexos. Entendo que todo mundo queira ver o que nós temos porque esse material tem interesse público e eles [o público] têm o direito de ver. Mas, por outro lado, nós temos a responsabilidade jornalística para usar o tempo que precisarmos para confirmar que tudo que nós estamos reportando é verdade. Por que se nós cometermos um erro, eles vão usar isso contra a gente para sempre, para atacar nossa credibilidade, da reportagem, de tudo. Por exemplo, todo mundo está falando: “onde estão os áudios?”. É muito complicado reportar áudios. Precisa confirmar quem está falando, precisa confirmar o contexto sobre o que estão falando. Precisa conectar isso com outros materiais, outros documentos e isso leva tempo. Nós vamos publicar logo, mas nós não vamos correr. Nossa prioridade é confirmar que tudo que estamos reportando está informando o público e não enganando o público, como eles fizeram.

Na sua avaliação, até pelo fato de você também ser advogado, se um escândalo como esse, que envolve um ministro da Justiça, fosse nos Estados Unidos, por exemplo, você acha que o ministro conseguiria se manter no cargo? E, pessoalmente, você acha que o Moro deveria renunciar ao Ministério da Justiça?

Eu tenho um amigo, dos meus melhores amigos da vida desde os 11 anos, agora um advogado na Flórida, que depois de ler nosso material, disse: “Se um juiz fizesse o que Moro fez, sem dúvida, esse juiz seria retirado, provavelmente não seria promovido porque é uma infração muito grave, colaborando com um lado e fingindo ser neutro”. Ele me disse ainda que todas as decisões desse juiz ficariam sob dúvida e que é impensável que o juiz pudesse manter qualquer cargo público, muito menos ser ministro da Justiça. Porque agora todos nós sabemos, porque nós lemos exatamente o que ele fez, o que ele disse, que ele vai quebrar qualquer regra de ética que ele quiser para realizar os objetivos dele.

Advogados brasileiros — que não são muito políticos — ficaram chocados e ofendidos quando olharam o material e eu também — porque o juiz tem muito poder, e com esse poder vêm muitas responsabilidades, muitas regras éticas. É um poder enorme para condenar alguém e botar alguém na prisão. E o Moro não quebrou uma regra uma vez, mas o tempo todo ele estava mostrando que ele não se importa nem um pouco com essas regras. Ele achou que era totalmente acima da lei e das regras, e é impossível ter alguém como juiz ou como Ministro da Justiça com essa mentalidade.

Como você avaliou a reação do Moro? Por exemplo, o primeiro pronunciamento escrito foi tuitar sua própria nota oficial via site do Antagonista. O que isso significa?

Primeiro, ele está usando o Antagonista para muitas coisas, o tempo todo. Ele está sempre citando o Antagonista, vazando para o Antagonista, todo mundo sabe disso…

O fato de ele usar o Antagonista mostra, para mim, que agora ele sabe que é o único apoio que vai ter — a identidade dele não é mais de juiz apartidário, agora Moro sabe que é uma figura da direita extremista.

E ele vai continuar assim porque todo mundo sabe que Moro não é uma pessoa contra a corrupção mas uma pessoa que faz corrupção quando quiser. E usar o Antagonista mostra que a única preocupação é o que a direita está pensando sobre os comportamentos dele.

E a reação dele, o que achou?

Foi totalmente arrogante, ele está quase falando: “Está me incomodando ter que responder isso”. E achei muito interessante a arrogância porque é exatamente: “Eu sou Sérgio Moro, eu não devo ser questionado, muito menos acusado”. É justamente essa arrogância que causou esse comportamento antiético: porque ele acha que está acima de tudo.

O vazamento do The Intercept Brasil demonstrou mais uma vez a importância de informações vazadas para jornalistas. O caso de pedido da extradição de Julian Assange foi pouco tratado na imprensa brasileira [Assange está com pedido de extradição para os Estados Unidos com 17 acusações como de espionagem e conluio para obter informações secretas]. Isso pode abrir precedente, com implicações até mesmo fora dos EUA?

Com certeza. Esse é o perigo principal que estão mostrando outros países que tentam criminalizar o jornalismo falando que, se você publica documentos secretos, que é o papel do jornalista, você pode ser processado criminalmente como parte dessa teoria de que está conspirando com a sua fonte. Antes desses episódios, sempre os jornalistas tiveram o direito de publicar qualquer material que eles recebessem, independentemente de como a fonte conseguiu obter os documentos. E esses casos, essas apreensões, são perigosas exatamente porque eliminam essa separação entre jornalista e fonte.

Você acha que a imprensa brasileira cobriu mal a Lava Jato durante esses mais de 5 anos? Queria que você me dissesse se sim ou se não e se você acha que foi falta de capacidade de investigação ou opção política?

Não. Acho que tiveram boa intenção. Corrupção é muito comum aqui no Brasil na direita, esquerda e no centro. Todo mundo chegou no limite e não aguentava mais. Eu entendo o apoio a Lava Jato ao ver políticos poderosos e bandidos finalmente na prisão, é natural. Eu também elogiei a Lava Jato, às vezes, por causa disso. Mas, exatamente como acontece com todos os humanos, qualquer grupo de pessoas que têm poder, como a Lava Jato, também tem a capacidade de abusar desse poder. E quando a grande mídia transforma Moro e a Força Tarefa em deuses ou super heróis, se torna inevitável o que aconteceu. Os jornalistas pararam de investigar e questionar a Lava Jato e simplesmente ficaram aplaudindo, apoiando e ajudando.

Como eu disse, com exceção da Folha, que ficou sempre um pouco mais distante e mais independente e, obviamente, muitos jornalistas independentes. Estou falando sobre a grande mídia.

Eu vi que o Antagonista publicou que “uma denúncia anônima foi protocolada junto ao Ministério Público Federal contra o The Intercept”. E a gente está vendo desde a publicação da reportagem inúmeros ataques a você, ao seu companheiro David Miranda [deputado federal pelo PSOL], ataques homofóbicos, gente pedindo a sua deportação. Enfim, questões que te atingem pessoalmente. Você, sua família e também a equipe do The Intercept Brasil têm uma estratégia de defesa legal e digital? Como vocês estão pensando a questão da segurança daqui para frente?

Sim. Eu e meu marido estivemos juntos no caso do Snowden e nós lutamos contra os governos mais poderosos do mundo e a CIA, NSA Reino Unido… Estávamos sendo ameaçados o tempo todo. Então, nós já conhecemos essas questões muito bem. Eu moro aqui no Brasil há 14 anos, então conheço o Brasil muito bem. Eu sei como funciona.

Nós ficamos muitas semanas planejando como proteger a nos e a nossa fonte contra os riscos físicos, riscos legais, riscos políticos, riscos que vão tentar sujar a nossa reputação. Nós estamos prontos. Mas não existe nenhuma vida sem riscos. Não se pode eliminar riscos, pode-se tomar medidas para minimizar. Então, a equipe do The Intercept Brasil, que não tem a proteção como alguém com a minha visibilidade, que é casado com um deputado federal… Eles são jovens, 25, 30 anos, e são muito corajosos fazendo esse trabalho destemido. Sim, é muito perigoso, obviamente, e sou alvo dessa campanha para me expulsar do país, chamando-me de inimigo do Brasil, ameaça a segurança nacional e que devo ser preso.

Mas nós sabíamos que tudo isso iria acontecer, mas o que podíamos fazer? Têm jornalistas cobrindo guerras. Têm jornalistas sem visibilidade investigando corrupção contra pessoas muito perigosas.
Se você não quer esses riscos, você não deve fazer jornalismo.

Thiago Domenici
No A Pública
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