6 de jun. de 2019

Bolsonaro: militar ou miliciano?

O “projeto bolsonarista” é destruir a plataforma civilizatória que vinha sendo construída até antes do golpe de 2016.


As Forças Armadas têm na hierarquia a viga de sustentação da organização militar, sem a qual desmoronam.

A hierarquia militar é a ordenação da autoridade, em níveis diferentes, dentro da estrutura das Forças Armadas (art. 14 da Lei nº 6.880/80). É a hierarquia que legitima a autoridade de quem manda e o dever de obedecer de quem recebe a ordem.

Como diz Hannah Arendt, “A relação autoritária entre o que manda e o que obedece não se assenta nem na razão comum, nem no poder do que manda; o que eles possuem em comum é a própria hierarquia, cujo direito e legitimidade ambos reconhecem e na qual ambos têm seu lugar estável predeterminado. (ARENDT, 1992, p. 129).

Quando militar, Bolsonaro atentou contra a hierarquia e a disciplina. Foi preso e respondeu a inquérito.

“Punido por ter elaborado e feito publicar, em uma revista semanal, de tiragem nacional, sem conhecimento e autorização de seus superiores, artigo em que tece comentários sobre a política de remuneração do pessoal civil e militar da União; ter abordado aspectos da política econômica e financeira fora de sua esfera de atribuição e sem possuir um nível de conhecimento global que lhe facultasse a correta análise; por ter sido indiscreto na abordagem de assuntos de caráter oficial, comprometendo a disciplina; por ter censurado a política governamental; por ter ferido a ética, gerando clima de inquietação no âmbito da OM (Organização Militar) e da Força e por ter contribuído para prejudicar o excelente conceito da tropa paraquedista no âmbito do Exército e da Nação (NR 63, 65, 66, 68 e 106 do anexo I, com agravantes do NR 2 e letra “C” NR 6 do artigo 18, tudo do RDE, fica preso por 15 (quinze) dias”. (Relatório secreto do Centro de Inteligência do Exército (CIE), nº 394, de 1990, com 96 páginas, publicado pelo DCM pela primeira vez).

“Canalha”; “covarde”; “contrabandista”. Era a reputação de Jair Bolsonaro no tempo em que serviu o Exército.

“Ao invés de fazer croqui de bombas, escreva quantas vezes você foi ao Paraguai trazer muamba. Conte sobre os seus problemas no Mato Grosso. Verifique qual é o seu conceito na Brigada Paraquedista.”, diz a missiva, em parte referindo-se ao episódio narrado pelo próprio Bolsonaro à Veja, de que preparava atentados à bomba para promover sua campanha por aumentos de salários. (Informações em reportagem no site Pragmatismo Político)

Em uma outra carta revelada pela imprensa em maio de 91, o então chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Jonas de Morais Correia Neto, o chama de “embusteiro, intrigante e covarde”, acusando-o de “inventar e deturpar visando aos interesses pessoais e da política”, como mostra reportagem abaixo, de 16 de abril de 1991.


Em outubro daquele mesmo ano, quando Bolsonaro já era deputado federal então pelo PDC-RJ (Partido Democrata Cristão), suas frequentes visitas ao antigo emprego para fazer propaganda política e angariar votos contrariaram de tal maneira seus ex-comandantes que estes proibiram a entrada de Jair Bolsonaro nos quartéis do Rio de Janeiro. É que, de acordo com o Comando de Operações Terrestres (Coter) do Exército Brasileiro, Jair Bolsonaro estava insuflando a revolta na tropa.

O general Alberto dos Santos Lima Fajardo, então comandante do Coter, explicou a punição em entrevistas à imprensa. Disse que Jair Bolsonaro estava “insuflando oficiais superiores e sargentos com panfletos criticando exaustivamente o comando da tropa”.


A vida pregressa do ex-capitão Bolsonaro demonstra que a sua estada no Exército foi mais de agitador e terrorista do que de um militar, conforme o manual da corporação. Ele vai para a vida pública política mostrando ressentimento e não amor à farda.

Bolsonaro é um recalcado por não ter continuado no Exército e um ressentido pelo que o Exército lhe fez, pois, a rigor, pela hierarquia da tropa, ele fora expulso, e conseguiu manter-se indo para a reserva pela via jurídica – STM.

E quanto a ser miliciano?

Em 2008, como deputado federal, defendeu as milícias: “Elas oferecem segurança e, desta forma, conseguem manter a ordem e a disciplina nas comunidades. É o que se chama de milícia. O governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes de drogas”.

Abro aspas para a reportagem do jornalista Gil Alessi no jornal El País.

“Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega. As duas mulheres são o elo entre o senador eleito Flávio Bolsonaro e o grupo miliciano Escritório do Crime, um dos mais poderosos do Rio. O grupo é também suspeito de envolvimento no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. Segundo o jornal O Globo, Raimunda e Danielle são, respectivamente, mãe e mulher do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, vulgo Gordinho, tido pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como uma das lideranças do Escritório do Crime. As duas foram lotadas no gabinete do então deputado estadual Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, mas o filho do presidente diz não ter sido responsável pelas nomeações.

Foram presos cinco suspeitos de integrar a milícia que agia nas comunidades de Rio das Pedras e Muzema. Além do suposto envolvimento no assassinato de Marielle e Anderson, o grupo é acusado de extorsão de moradores e comerciantes, agiotagem, pagamento de propina e grilagem de terras.

Entre os detidos está o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira, vulgo Tartaruga, que irá a júri popular no caso da chacina da Via Show, ocorrida em 2003. Apesar disso, em 2004 o deputado Flávio Bolsonaro propôs uma “menção de louvor e congratulações” ao então capitão Pereira. Adriano também foi homenageado. Tanto Ronald como Adriano foram ouvidos em 2018 pela Delegacia de Homicídios como parte das investigações do caso Marielle.”

Atualmente ele é governo!

Eis uma síntese, cronológica, extraída do site Forum:

2011

A juíza Patrícia Acioli é assassinada com 21 tiros no Rio por milicianos. No Twitter, Flávio Bolsonaro coloca a culpa na vítima.

2015

A juíza Daniela Barbosa é agredida por milicianos presos durante uma inspeção no Batalhão Especial Prisional no Rio. Flávio Bolsonaro defende os agressores.

Fevereiro de 2018

Jair Bolsonaro volta a elogiar as milícias.  “Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência.”

14 de março de 2018

A vereadora Marielle Franco é executada no Rio de Janeiro. Jair Bolsonaro é o único pré-candidato à Presidência a não se manifestar.

13 de abril de 2018

Deputados do Rio votam a concessão da medalha Tiradentes a Marielle. O único voto contrário é do deputado Flávio Bolsonaro.

30 de setembro de 2018

Candidatos do partido de Bolsonaro quebram placa de homenagem a Marielle Franco.

2010 a 2018

Flávio Bolsonaro emprega mãe e esposa de Adriano Magalhães da Nóbrega (aquele homenageado em 2003).

6 de dezembro de 2018

Reveladas movimentações suspeitas do ex-assessor de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, que se esconde em uma casa em RIO DAS PEDRAS.

22 de janeiro de 2019

Bolsonarista, cabo da PM de Minas gerais é preso por tráfico de drogas

Ronald Paulo Alves Pereira, aquele que foi homenageado por Flávio Bolsonaro em 2004, é preso em RIO DAS PEDRAS acusado de ser um dos líderes da milícia no Rio e suspeito de envolvimento no assassinato de Marielle.

22 de janeiro de 2019

Adriano Magalhães da Nóbrega, homenageado DUAS VEZES por Flávio Bolsonaro, tem mandado de prisão decretado e está foragido. Ele é chefe do Escritório do Crime, organização suspeita do assassinato de Marielle.

Prossigo.

A famiglia Bolsonaro tem ligações estreitas com as milícias. Quem matou matar Marielle e onde está o Queiroz, são indagações inquietantes para as quais o Ministério Público e o Judiciário silenciam.

Bolsonaro defendeu o atentado ao Riocentro, ocorrido na noite de 30 de abril de 1981, quando ali se realizava um espetáculo comemorativo do 1º de maio da classe trabalhadora. Teria sido um genocídio caso a bomba não tivesse estourado no colo dos militares terroristas.

Bolsonaro tem por ídolo o coronel Brilhante Ustra, notório torturador, reconhecido pela Justiça como tal, e responsável por graves crimes de lesa-humanidade, conforme o relatório da Comissão Nacional da Verdade.

Pelo exposto é crível reconhecê-lo como um miliciano e ex-militar recalcado e ressentido.

A sociedade brasileira está sob o jugo de um Estado policial de militares e milicianos, acumpliciados por parte da toga do judiciário e do MP.

O governo fede. O astrólogo guru do presidente manda o general Ministro tomar na bosta, o general devolve bosta para o guru da famiglia. Sem equívoco é um governo de bosta, que quer levar o Brasil a ser um país de merda submetido à geopolítica dos EUA e aos interesses do mercado financeiro. Por isso, querem atrofiar a educação para comprometer o devir do país.

Cortar investimentos da educação é castrar o futuro do país e levar o Brasil para esse excremento que tanto apreciam.

Por que não taxam lucros, dividendos e as grandes fortunas? Por que não cobram dos sonegadores as suas dívidas com a previdência?

O “projeto bolsonarista” é destruir a plataforma civilizatória que vinha sendo construída até antes do golpe de 2016.

É imprescindível que as amplas forças democráticas deem um Basta a esse governo de bosta, cujas mãos fedorentas e sangrentas estão enforcando a juventude e o futuro do Brasil.

Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).
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A covardia de Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho abriu uma queixa-crime em reação à minha coluna aqui no Blog da Boitempo. A petição jurídica é um documento de autoconfissão da miséria intelectual que assola nosso país. É disso que é feita essa empáfia bélica baseada na retórica das armas: a covardia.


Olavo de Carvalho abriu uma queixa-crime contra mim por calúnia, difamação e injúria baseando-se em uma coluna, publicada aqui no Blog da Boitempo, na qual eu o apresento como “ideólogo de Bolsonaro”. A queixa baseia-se na suposta afirmação de que Olavo não tem diploma universitário. Diz ela:

“o querelado, num revezamento macabro, em tese, com outros mercenários, incautos ou subservientes aos podres poderes populistas bolivarianos, aduzem com ênfase que; o Mestre Olavo não teria curso reconhecido, como se isso nos impedisse de admirar Jô Soares, Silvio Santos, Pelé, Ronaldo Fenômeno, Santos Dumont e tantos outros gênios em suas áreas.”1

A petição é um exemplo estético-jurídico do tosco brasileiro, que testemunha o rigor textual que encontramos nas argumentações de Olavo de Carvalho, pois na coluna em questão eu afirmava justamente que:

“O fato de que ele não tem nenhuma formação regular, como uma graduação em ciências humanas, nem mestrado nem doutorado, não deveria ser um empecilho, afinal existem muitos bons pensadores que vieram de fora do sistema universitário ou permaneceram em sua periferia.”

Christian Dunker, “Olavo de Carvalho, o “ideólogo de Bolsonaro”, contra o professor Haddad”, Blog da Boitempo, 15 out. 2019.

Ou seja, a paranoia de Olavo o faz repetir meu argumento em sua própria queixa, como que a antecipar uma crítica que eu não fiz, mas que quiçá o atormenta. Isso é o que se chama de falta de rigor. Em filosofia, rigor é critério de método, seja na precisão, seja na compreensão, interpretação e crítica de textos. Em vez disso, abundam termos desqualificativos como “mercenário” e “bolivariano”, assim como a típica “humildade” que coloca a si próprio ao lado de… “Ronaldo Fenômeno”. A comparação é simples: Olavo estaria para a filosofia assim como Santos Dumont está para a aviação. Complemento: Eike Batista e os donos da JBS “não têm formações acadêmicas basais”. Só faltou dizer: “o Palmeiras não tem mundial, e daí?”

Mas o que declaro aqui em primeira mão é que Olavo de Carvalho perdeu o processo que movia contra mim, como perdeu todos os sete outros processos que foram julgados até aqui. Vai ter que pagar advogado, custas e tudo mais. Estes foram os termos da juiz que que me deu ganho de causa:

“Mostra-se incompatível, com o pluralismo de ideias (que legitima a divergência de opiniões), a visão daqueles que pretendem negar, aos meios de comunicação social (e aos seus profissionais), o direito de buscar e de interpretar as informações, bem assim a prerrogativa de expender as críticas pertinentes.”

Posso traduzir para você, Olavo, aqui no nosso cantinho da verdade, em síntese quase dialética entre seu estilo e o meu: chupa que é de uva, senta que é de menta.

Mas voltemos à causa. Argumentei, no referido artigo, que o problema não estava na ausência de diploma, mas na irrelevância da produção de Olavo, segundo critérios quantitativos que valem para qualquer pesquisador e que qualquer leitor pode verificar por si mesmo em bases informáticas de dados que contam quantas vezes a obra de alguém é mencionada por outros, indicando sua consequência ou importância para aquela área. O livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota foi citado 39 vezes por especialistas; O imbecil coletivo, apenas 28 vezes; e O jardim das aflições, 36 vezes – na maior parte dos casos como exemplos da ascensão do novo irracionalismo brasileiro. Para ter uma base de comparação, Paulo Freire, que o governo quer destituir como patrono da educação é, atualmente, o autor brasileiro mais citado, com 342.711 menções. Marilena Chaui, uma das autoras preferencialmente atacadas por Olavo, e que tem idade comparável à dele, possui 24.095. Ou seja, leia com atenção, agora por extenso: vinte e quatro mil e noventa e cinco trabalhos a mencionam como fonte fidedigna de pesquisa.

A petição jurídica de Olavo é um documento de autoconfissão da miséria intelectual que assola nosso país. Dele passo agora a extrair os termos vexatórios da peça jurídica a que fomos expostos:
  1. Amiguismo intelectual. Presente em expressões como “ao nosso sentir: meu e do Mestre Olavo”, repetida três ou quatro vezes, combinando a elitização provinciana da linguagem com a grandiloquência da cultura de bacharel passadiço.
  2. Citacionismo. Uso de referências eruditas feitas para impressionar. Por exemplo: Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Sócrates e Aristóteles, autores que teriam sido lidos por Olavo. Frases de efeito do tipo: “o que fazemos em vida ecoa pela eternidade”, de Marcus Aurelius (com nome em latim em vez do usual Marco Aurélio, um caso de exibicionismo para incautos).
  3. Intimidação. Exemplificada pela interrogação ao juiz: “de qual o lado o meritíssimo quer passar para a história?”. Pérolas do mau gosto retórico combinam-se com referências totalmente estranhas à matéria em juízo: “pústulas, que não passam de traidores da pátria, que por intermédio de expedientes heterodoxos, vem lesando os cofres públicos e a nossa pátria mãe gentil. Faz parte de um plano macabro para assassinar reputações […]”; ou: “canalhas, canalhas e canalhas nada mais do que subservientes aos poderes populistas bolivarianos”.
  4. Defesa contextual. Aqui entra de tudo: “Lula, o chefe de uma organização criminosa”, “notinhas contra Deltan e Moro”, “IBOPE e Instituto Vox”, “fome e sede na Coréia do Norte, Cuba e Venezuela”.
  5. Ausência de volumetria egóica. A acusação arrola como testemunhas para um caso de disputa textual nada menos do que o ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, a ministra Damares Alves e o ex-ministro Ricardo Vélez Rodrigues.
O conjunto da obra é um exemplo maiúsculo do tosco brasileiro na área do marketing jurídico. O autointitulado “maior pensador do Brasil” tinha a seu dispor vários argumentos. Ele poderia ter dito que a contagem de citações é um índice muito tecnocrático, mas aparentemente ele não conseguiu entender a crítica e transformou isso em uma “contagem de palavras” ou de livros publicados. Ele poderia ter dito, ainda, que a quantidade de menções refletiria simplesmente aquilo que já sabíamos: todos os universitários, não só os brasileiros, estão envolvidos nesta grande conspiração vermelha que tomou conta do mundo. Ele poderia ter mostrado textualmente como a Escola de Frankfurt defende a erotização das relações entre mãe e filho, contrariando ao que objetei em minha crítica. Mas, em vez disso, o “vacilão” escolhe partir para a intimidação jurídica. Ou seja, confessa assim que seus argumentos não são suficientes e se acovarda no plano das ideias. Arrega como arregou no desafio lançado por Débora Diniz para que ele viesse debater no Brasil. É disso que é feita esta empáfia bélica baseada na retórica das armas: a covardia.

O ideólogo de Bolsonaro xinga e esperneia, mas quando é confrontado no texto apela para o papaizinho jurídico. Perdeu na bola, grita e recorre à justiça. O parecer do Ministério Público comenta da seguinte maneira a queixa de Olavo:

“Não há como cogitar, portanto, que o querelado, ao proferir suas críticas, estivesse no afã de atingir a honra objetiva do querelante.”2

Será que se poderia dizer o mesmo das afirmações alopradas de Olavo, do tipo:

“Pegue um garoto alfabetizado pelo método socioconstrutivista e aplique-lhe um enema de Jacques Lacan na faculdade. Ele vira o Christian Donkey.”

Parece que depois da “mamadeira de piroca”, o “enema de Lacan” tornou-se o novo fetiche da fixação anal que tomou conta do governo.

A prática compulsiva de processos jurídicos é uma espécie de compensação sintomática, como que levar a sério o que o outro diz para ocultar sua própria inconsequência com a própria palavra. Isso ocorre com Olavo, isso ocorre com Bolsonaro: a cada semana digo algo diferente e oposto no Twitter e tudo bem. No meio da confusão, ninguém paga a conta. Essa inconsequência com as palavras é a cláusula de isenção para o programa eleitoral de Bolsonaro e suas sucessivas inequidades discursivas no governo. Quando alguém responde na mesma moeda, ou um pouco menos, a pessoa se sente ofendida e processa seu opositor. O acusacionismo tomou conta do país e, com ele, os acusões. Quando sua filha, Heloisa Arribas, denunciou o descaso e abuso sexual sofrido na infância, a resposta de Olavo foi a mesma: processar e acusar a própria filha.

É essa nuvem contagiosa e imbecilizante que estamos enfrentando. Olavo de Carvalho processou Daniel Tourinho Perez, professor de filosofia da UFBA, porque este mostrou como ele não sabe ler Kant. Processou Gilberto Dimenstein quando este apresentou dados sobre sua suspeita situação econômica. Pede dinheiro aos discípulos para despesas médicas e o emprega em despesas jurídicas. Morando fora do Brasil, esconde-se da réplica jurídica, mas foi surpreendido por Caetano Veloso que o processou de volta, em solo americano, tendo em vista o uso ofensivo de expressões como: “delinquente travestido”.

O sistema discursivo de Olavo de Carvalho, cujo único interesse é estar assimilado ao poder conferido pelo presidente e seus filhos, baseia-se em projetar nos outros aquilo que ele mesmo está a praticar. Calunia a honra dos generais, acusando-os de conspiradores. Difama professores brasileiros, como corruptores e ignorantes. Injuria a honra de adversários, recorrendo a palavrões e ofensas. Ao agir assim, cria-se uma espécie de balbúrdia calculada. O efeito “briga de marido e mulher” equaliza fatos e argumentos estimulando a sensação de incerteza que faz cada qual reforçar seus próprios preconceitos e estereótipos. Ao fim e ao cabo, Olavo acusa um, acusa outro, e se mostra mesmo um “acusão”.

Não posso mais que refazer a pergunta que coloquei lá atrás em minha primeira coluna aqui no Blog da Boitempo, desde meus debates com Rodrigo Constantino, discípulo de Olavo: o que aconteceu com a direita brasileira que ela se tornou incapaz de argumentar? É certo que desde então o número de deslocamentos nesse campo da direita aumentou: Reinaldo Azevedo mudou de postura, Villa experimentou um solavanco de deslealdade, Pondé ensaia uma abertura de conversa com a democracia, e até Lobão parece ter largado a Vida Bandida.

Será que só você, Olavo, continuará na covardia em vez de defender seus pontos de vista a céu aberto como um verdadeiro filósofo?

Notas

1 Processo 1000175-60.2019.8.26.0050 conforme Petição Inicial ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo: Vara do Juizado Especial Criminal. Grifos nossos.

2 Juizado Especial Criminal do Foro Central da Capital, auto 1000175-60.2019.8.26.0050.



Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012 e um dos autores da coletânea Bala Perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação (Boitempo, 2015). Seu livro mais recente é Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015), também vencedor do prêmio Jabuti na categoria de Psicologia e Psicanálise. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.
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Auditoria acha R$ 385 milhões com Guedes, sem explicação

O BNDES bancou tudo! Viva o neolibelismo!


Da Fel-lha:

Auditorias veem ágio sem justificativa em compras de fundos geridos por Guedes

Auditorias da Funcef — entidade de previdência complementar dos funcionários da Caixa — afirmam que FIPs (fundos de investimento em participações) geridos pelo hoje ministro da Economia, Paulo Guedes, pagaram, sem justificativa técnica adequada, R$ 385 milhões de ágio para adquirir empresas.

Os investimentos foram feitos com recursos captados de fundos de pensão patrocinados por estatais e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Guedes montou, por meio de sua empresa de gestão de ativos, FIPs que receberam, entre 2009 e 2014, R$ 1 bilhão em recursos dos institutos que administram os planos de pensão e aposentadoria dos empregados de empresas públicas.

Entre eles estão Funcef, Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Postalis (Correios), além do BNDESPar — braço de investimentos do BNDES.

O agora ministro fundou a gestora BR Educacional em 2007, empresa que, em 2013, passou a integrar o grupo Bozano, que ele deixou no ano passado, após a eleição do presidente Jair Bolsonaro.

As auditorias da Funcef, de fevereiro deste ano, foram feitas a pedido do MPF (Ministério Público Federal), que conduz duas investigações sobre fraudes nos negócios, supostamente praticadas em consórcio por Guedes e dirigentes dos fundos de pensão.

A principal suspeita, baseada em relatórios da Previc (Superintendência Nacional de Previdência Complementar), é de que eles tenham gerado ganhos excessivos ao ministro, em detrimento dos cotistas dos FIPs.

Um dos fundos, o Brasil de Governança Corporativa, pagou R$ 278 milhões de ágio ao comprar participação em quatro empresas cujos valores patrimoniais somavam R$ 210,9 milhões.

Outro FIP, o BR Educacional, desembolsou extra de R$ 107 milhões por três companhias, enquanto o patrimônio delas somados era de R$ 73 milhões.

Os relatórios da Funcef, obtidos pela Folha, registram que, para justificar o ágio pago, a gestora de ativos de Guedes deveria ter apresentado laudos de avaliação técnica de escritórios especializados, o que não ocorreu.

Eles atestariam se, de fato, houve "fundamento econômico-financeiro" para o pagamento do valor sobressalente.

Um documento da própria empresa do ministro registra a necessidade dos estudos, mas só foram apresentados levantamentos que ela mesma produzira. (...)
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Defesa de Lula diz ter sido monitorada pela Lava Jato e pede fim de pena a petista

Diálogos entre advogados e de defensores com seus clientes são sigilosos


A defesa de Luiz Inácio Lula da Silva diz que, além de ter feito a interceptação telefônica do escritório de advocacia representante do petista, a Lava Jato produziu relatórios que detalharam ao menos 14 horas de conversas entre os defensores do ex-presidente, em uma afronta à legislação. 

Essa é a base da principal aposta de Lula para tentar anular no STF (Supremo Tribunal Federal) a condenação do ex-presidente no caso do tríplex de Guarujá (SP). 

O petista está preso desde abril de 2018, após ser condenado em segunda instância a 12 anos e um mês de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro nesse caso. Em abril deste ano, a pena foi reduzida para 8 anos, 10 meses e 20 dias pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça), abrindo caminho para uma progressão ao regime semiaberto ainda neste ano.

A defesa do ex-presidente, porém, ainda tenta a anulação do processo no STF com base em uma ação ingressada no ano passado e que traz como base um relato do advogado Pedro Henrique Viana Martinez.

O defensor não faz mais parte da equipe contratada pelo petista, mas diz ter visto na 13ª Vara Federal de Curitiba os relatórios produzidos a partir das interceptações telefônicas do ramal-tronco do escritório Teixeira Martins & Advogados, responsável pela defesa técnica de Lula.

Era na 13ª Vara que atuava o então juiz e hoje ministro Sergio Moro (Justiça).

Diálogos entre advogados e também de defensores com seus clientes são sigilosos e protegidos por lei. O Estatuto da Advocacia determina, no seu artigo 7º, "a inviolabilidade de seu escritório ou local de trabalho, bem como de seus instrumentos de trabalho, de sua correspondência escrita, eletrônica, telefônica e telemática, desde que relativas ao exercício da advocacia". 

O ministro Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo, já rejeitou no mês passado um recurso da defesa de Lula que questionava a imparcialidade de Moro como juiz nos processos contra o petista.

Essa ação ainda pendente no Supremo trata da interceptação autorizada em 2016 por Moro no telefone do escritório de advocacia onde atua Cristiano Zanin, advogado do ex-presidente, nos meses de fevereiro a março daquele ano.

À época, a decisão de Moro de grampear os advogados de Lula foi questionada pelo ministro Teori Zavascki, do STF, morto em janeiro de 2017. Moro respondeu que houve equívoco dos procuradores da Lava Jato, que teriam identificado a linha telefônica como sendo da empresa de palestras do ex-presidente.

O advogado Viana Martinez, porém, diz ter visto as provas de que esse material, incluindo análises de estratégias da defesa, foi usado pela Lava Jato. 

Ele diz que, em 2017, quando ainda fazia parte do escritório que defendia Lula, esteve na 13ª Vara Federal de Curitiba, onde havia mais de 110 mil arquivos de áudio derivados de diversas linhas telefônicas de pessoas do círculo íntimo do ex-presidente. 

Segundo Martinez, cerca de 14 horas foram captadas diretamente do ramal-tronco do escritório Teixeira Martins & Advogados. Ele disse que não teve permissão para copiar esse material da investigação, sendo permitida por Moro apenas a consulta no local, "em computador previamente preparado e sob a vigilância dos servidores da vara”.

O advogado descreveu em um documento aquilo que encontrou. “Cada ligação era separadamente identificada, sendo possível visualizar número de origem e destino da chamada, bem como a sua duração. Com um clique, era possível ouvir cada áudio interceptado”, disse.

“As listas contavam, ainda, com uma última coluna. Em tal coluna estavam inseridos comentários de análise realizada por agentes da Polícia Federal. Destaca-se que nem todas as chamadas continham comentários inseridos, ao contrário, a maioria delas apresentava esse campo em branco”, completou.

Martinez disse que as ligações geradas por meio do ramal-tronco do escritório traziam ao lado comentários a respeito do conteúdo do áudio. "Ou seja, com certeza tais chamadas telefônicas foram analisadas por agentes da Polícia Federal.”

Entre os exemplos registrados em relatórios estavam conversas entre os advogados Cristiano Zanin e Roberto Teixeira e também com Nilo Batista a respeito de estratégias jurídicas a serem adotadas.

O monitoramento telefônico do escritório estava vigente na época em que Lula foi levado em condução coercitiva para prestar depoimento, por ordem de Moro, em 4 de março de 2016.

A defesa de Lula usa dois comunicados da empresa de telefonia responsável pelas linhas como prova de que Moro foi informado se tratar de um escritório de advocacia --apesar de ele ter alegado equívoco com a avaliação de que pertenciam à empresa de palestras do petista. 

O material da gravação de conversas entre advogados foi parar no STF porque, entre os diálogos, havia também conversas de Lula com a então presidente Dilma. Depois do impeachment da petista, o material voltou para as mãos de Moro, na primeira instância da Justiça.

Apesar de admitir erro e pedir desculpas ao ministro Teori, Moro não destruiu os áudios das conversas entre os advogados e ainda deu acesso do material a outras pessoas que faziam parte do processo.

O material com grampo considerado ilegal, o que incluiria as horas de conversas entre os defensores do ex-presidente, só foi inutilizado em março de 2018, após decisão do juiz João Pedro Gebran Neto, relator da Lava Jato no TRF4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região).

O professor de direito penal da USP Pierpaolo Bottini avalia que, em casos assim, os juízes devem considerar que todas as provas produzidas em decorrência dessa quebra de sigilo sejam consideradas nulas. As demais, porém, podem seguir no processo.

Outro lado

O ministro Sergio Moro não quis comentar os questionamentos da defesa de Lula. Já a Superintendência da Polícia Federal no Paraná apresenta uma justificativa para os grampos diferente da que foi usada pelo ex-juiz na ocasião em que Teori Zavascki pediu explicações ao magistrado.

Moro disse que determinou uma escuta no escritório porque pensava se tratar de um telefone da empresa de palestras de Lula — e que foi levado ao erro pela Procuradoria. Já a PF diz que a interceptação foi feita porque um dos advogados era suspeito de cometer crimes. 

A assessoria da PF diz que "as conversas interceptadas envolvendo um número fixo de um escritório de advocacia contratado pelo ex-presidente Lula na época da 24ª fase da Operação Lava Jato eram decorrentes da suspeita do cometimento de crimes praticados por advogado daquele escritório".

Segundo a PF, tal advogado figurava como investigado e não apenas como defensor constituído de um investigado, tornando-se réu em ação penal e sendo, na sequência, condenado por tal crime. 

O sócio do escritório que defende o ex-presidente, Roberto Teixeira, compadre de Lula, foi realmente investigado, mas no caso do sítio de Atibaia. Na ocasião, Moro de fato determinou uma interceptação telefônica contra ele, mas o alvo foi seu aparelho celular, não o escritório de advocacia. Teixeira foi condenado neste caso a 2 anos de prisão por lavagem de dinheiro. 

O advogado Cristiano Zanin, que defende Lula, diz que a interceptação do telefone "para acompanhar em tempo real a estratégia de defesa do ex-presidente Lula, como ficou provado, foi um verdadeiro atentado contra a advocacia e o Estado de Direito no nosso país". 

"A iniciativa revelou o desprezo de algumas autoridades com o direito de defesa e com a função constitucional do advogado na administração da Justiça. É lamentável que a despeito da gravidade da conduta os envolvidos ainda ocupem relevantes cargos públicos e não tenham sofrido qualquer consequência jurídica."

Versões para o grampo

O que disse Moro

Em ofício ao STF, em 2016, o então juiz declarou que desconhecia que o ramal grampeado era do escritório: 

"A autorização concedida por este Juízo tinha por pressuposto que o terminal era titularizado pela empresa do ex-presidente e não pelo escritório de advocacia"

O que diz a PF em nota

A interceptação foi feita porque um dos advogados era suspeito de crimes

"As conversas interceptadas envolvendo um número fixo de um escritório de advocacia contratado pelo ex-presidente Lula na época da 24ª fase da Operação Lava Jato eram decorrentes da suspeita do cometimento de crimes praticados por advogado daquele escritório"

Wálter Nunes
No FSP
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Modelo diz como Neymar a violentou

Laudo médico é devastador

Najila Trindade concedeu entrevista ao SBT ontem, 05/VI
Da Fel-lha:

Mulher diz que Neymar ignorou apelo e forçou ato sexual sem camisinha

A mulher que acusa Neymar de abuso sexual afirmou ter sido vítima de agressão e estupro no quarto do hotel em que estava com o jogador, em Paris, no dia 15 de maio. Najila Trindade Mendes de Souza concedeu entrevista ao SBT, nesta quarta-feira (5).

"Eu fui vítima de estupro. Agressão juntamente com estupro", disse.

Najila diz ter alertado Neymar que não queria ser penetrada, já que ele estava sem preservativo. Ela afirmou que o atleta da seleção brasileira a agrediu e ignorou seus apelos.

É a primeira declaração pública da suposta vítima desde que o caso foi revelado, no sábado (1º). Ela contou ter conhecido Neymar por meio de redes sociais e foi convidada para ir à capital francesa encontrá-lo.

​"Eu conversei com ele com intuito sexual. Era um desejo meu. Ficou até claro para ele isso. Ele perguntou quando eu poderia ir. Disse 'no momento não posso por questões financeiras'. Não poderia ir. Também por agenda do meu trabalho. E daí ele sugeriu: 'eu posso resolver isso'", afirmou.

Segundo a modelo, Neymar chegou agressivo ao hotel onde ela estava. Najila disse que, além de agredi-la com tapas, o jogador do PSG consumou o ato sexual mesmo após apelo dela para que ele parasse.

"Ele estava agressivo, totalmente diferente daquele cara que conheci nas mensagens. A gente começou a trocar carícias, ficar e se beijar. Ele me despiu. Até aí, tudo bem. Só que depois ele começou a me bater", afirmou.

"Nos primeiros [atos agressivos], ok. Só que depois começou a me machucar muito. Falei: 'para, está doendo'. Ele falou: 'desculpa, linda'. Continuamos. Falei: 'você trouxe preservativo?' Ele disse que não. 'Então não vai acontecer nada além disso'. Ele não respondeu nada. Ele me virou, cometeu o ato [sexual] e continuava batendo na minha bunda, repetidamente. Foi rápido, eu me virei e saí do quarto. Eu falei: 'para, para, para'. Ele não se comunicava. Só agia", explicou Najila.

Mais de uma vez, ela afirmou que Neymar havia entendido o pedido para parar.

"Ele tinha entendido que não poderia ir além. Depois, quando me levantei e fui ao banheiro, não acreditei. Fiquei estarrecida. Não consegui falar nada para ele, não consegui xingar, não consegui falar nada para ele. Depois ele levantou, foi para o banheiro. Ele entrou por uma porta, eu saí pela outra", completou.

Najila disse estar com problemas financeiros, mas negou ter intenção de ser indenizada pelo jogador da seleção brasileira.

"Eu quero justiça. Ele me fez muito mal. Eu quero que ele pague pelo que ele fez. Eu tenho consciência do que o que aconteceu representa para mim. Era uma questão de honra. Não precisava ser do jeito que foi. Era um desejo meu, eu sou livre, desimpedida", afirmou a modelo, que explicou ter continuado as conversas no dia seguinte para tentar reunir provas da agressão. (...)

Em tempo: leia, abaixo, o laudo médico de Najila Trindade, elaborado após consulta no dia 21/V:


(se a imagem não abrir, veja aqui)

No CAf
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Bob Fernandes entrevista Luiz Eduardo Soares


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Vem aí a CPI das Fake News, uma ameaça a Jair Bolsonaro


As redes sociais são a fonte de poder de Jair Bolsonaro. Foi graças às milícias digitais que ele se elegeu, são elas que mobilizam seus apoiadores radicais para ir às ruas e acuam o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). Pois vem aí uma CPI que promete minar as milícias digitais do presidente. E o pior para Bolsonaro: uma investigação capaz de pôr em risco seu mandato.

Por obra do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foi protocolada nesta terça-feira 4 a proposta de criação de uma CPI das Fake News, ou do Ciberbullying. Uma comissão do tipo “misto”, uma CPMI, com deputados e senadores. Após a checagem das assinaturas dos parlamentares favoráveis à investigação, instalar a comissão dependerá de acertos partidários.

O objetivo da CPI, conforme o documento protocolado, é apurar “ataques cibernéticos que atentam contra a democracia e o debate público”, “a prática de cyberbullying” sobre crianças, usuários vulneráveis da internet e agentes públicos. Essa é a parte que ameaça o uso das milícias digitais bolsonaristas contra o Congresso o STF.

Há ainda uma outra linha de investigação proposta, “a utilização de perfis falsos para influenciar os resultados das eleições de 2018”. Eis a ameaça ao mandato de Bolsonaro.

Eventuais descobertas da CPMI poderão engrossar uma ação existente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que questiona fake news na campanha bolsonarista. Essa ação pode terminar em cassação da chapa Bolsonaro-Hamilton Mourão. Os advogados proponentes da ação em nome do PT não têm estado animados, segundo apurou CartaCapital, mas agora o horizonte pode mudar.

Em 22 de maio, durante uma reunião em Brasília dos presidentes de cinco partidos de oposição (PCdoB, PDT, PSB, PSOL e PT), o governador do Piauí, o petista Wellington Dias, defendeu que a CPI era necessária e poderia influenciar o TSE, quem sabe levar à cassação de Bolsonaro.

Bolsonaro estará em apuros se for provado que sua campanha beneficiou-se de dinheiro privado que pagou robôs para disseminar mentiras via Whatsapp, Facebook e Twitter. A Folha noticiou na eleição que empresários bolsonaristas bancaram desinformação anti-PT. Se for verdade, um crime. Em 2018, doação eleitoral empresarial estava proibida. A CPI das Fake News, ou do Ciberbullying, talvez possa achar provas disso.

Reforço para um inquérito do Supremo

Se sair do papel, a CPI tem tudo para reforçar um polêmico inquérito aberto em março pelo STF. O inquérito apura a suspeita, levantada pelo presidente da corte, Dias Toffoli, de um complô movido a grana para desmoralizar o Supremo. Um complô que funcionaria através de milícias digitais.

O juiz que cuida do caso, Alexandre de Moraes, já declarou que Whatsapp e Twitter têm sido usados em campanhas de ódio para atingir o tribunal, por meio de uma rede de robôs “que alguém paga, alguém financia, por algum motivo”. Toffoli desconfia até de dinheiro estrangeiro.

A criação da CPI vinha sendo articulada discretamente, há algum tempo por Rodrigo Maia. Não foi por acaso que o coletor das assinaturas para criar a comissão tenha sido um deputado do mesmo partido dele, o paulista Alexandre Leite.

André Barrocal
No CartaCapital
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Linhas

A situação no Brasil, em resumo, hoje, é a seguinte: Marielle presente, Queiroz ausente.

E o Trump, que só faltou perguntar para a rainha se é verdade o que dizem do pipi dos ingleses?

Pelo menos o Bolsonaro desistiu de saber o que é “golden shower” depois que as ofertas de aulas práticas passaram do limite, e ele continuou não entendendo.

Bolsonaro ligou para cumprimentar Trump assim que soube que o presidente americano, em visita oficial à Inglaterra, tinha se ajoelhado diante do cachorro da rainha e feito cafuné na sua cabeça. Pediu para Trump mantê-lo informado sobre tudo o que fazia em visitas oficiais, para estreitar os laços entre seus países. Trump pediu para Bolsonaro mantê-lo informado sobre a situação no seu país, a Bolívia, ou era a Guatemala? Bolsonaro disse que qualquer que fosse o nome do país, a inspiração seria a mesma.

Estaria havendo uma luta pelo poder no âmago do governo entre a linha militar, reconhecida pelos ternos amassados, e os chamados ideólogos, uma briga que Bolsonaro se recusa a aceitar até descobrir o que quer dizer “âmago”.

Os ideólogos leem Olavo de Carvalho no original e, triste ironia, os militares pregam uma linha menos dura, juram que nunca defenderam tortura ou intervenção militar na política e até simpatizam com o regime da Costa Rica, onde, como se sabe, não existe Exército. Os ideólogos pregam um conservadorismo moderno e reúnem-se em conchavos, geralmente nos Estados Unidos, onde discutem as bases intelectuais do conservadorismo moderno e frequentemente sacrificam animais em rituais sangrentos, quando comem morcegos e lesmas. Bolsonaro ainda não decidiu que linha seguir até saber ao certo o significado de “conchavo”.

Quanto à esquerda, sua única tática consiste em apoiar o Maia para chatear os Bolsonaros, uma tática perigosa, como bem sabe quem irrita a família.

E a situação no Brasil continua a mesma, Marielle presente, Queiroz ausente.

Luís Fernando Veríssimo
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No carro desgovernado de Trump. Sem cadeirinha


Os EUA têm déficit comercial contínuo desde 1975. Assim, há 43 anos que que a economia norte-americana importa mais do que exporta.

Embora esse déficit venha crescendo muito, isso não impediu que a economia dos EUA tenha triplicado de valor, em termos reais, durante esses anos.

Na realidade, tal déficit surgiu fundamentalmente de uma decisão do governo do EUA, que, em 1971, abandonou o padrão ouro como reserva de valor. Com o abandono do ouro, o dólar e os papéis a ele associados, como os títulos do Tesouro norte-americanos, se tornaram a grande reserva mundial de valor.

Isso fez com que empresas e países passassem a inundar os EUA com investimentos, o que aumentou a disponibilidade financeira para importar.

Assim, o déficit comercial dos EUA surgiu, em grande parte, não de uma fraqueza estrutural da economia norte-americana, mas justamente do contrário: da hegemonia do dólar como moeda de intercâmbio planetária e como reserva mundial de valor.

Os dólares que a economia norte-americana perde com seu déficit comercial acabam voltando para ela quer, em menor escala, via importações dos EUA, quer via investimentos, especialmente os investimentos em títulos do Tesouro norte-americano, que compõem boa parte das reservas internacionais de países e empresas.

A complementariedade entre as economias dos EUA e da China se baseia, ou se baseava, em grande parte, nesses mecanismos financeiros.

Os EUA “desterritorializaram” parte significativa da sua produção industrial, que se deslocou para China, em busca de custos mais baixos e lucros bem mais altos. Em compensação, a China passou a ser a principal compradora de papéis do EUA, compondo reservas internacionais de mais de US$ 3 trilhões, além de investir muito em empresas privadas norte-americanas e no seu mercado acionário.

Saliente-se que boa parte do déficit comercial que os EUA têm com a China (US$ 419 bilhões, em 2018) é resultado de ações de firmas norte-americanas. Apenas em 2017, a norte-americana Apple importou 61 milhões de iPhones montados na China para serem vendidos no mercado dos EUA, a um custo de cerca de US$ 16 bilhões. Não entra nesse cômputo tudo o mais que a Apple monta na China, como tablets, computadores, etc. Em contrapartida, a Huawei, tão criminalizada por Trump, importou dos EUA, em 2018, cerca de 11 US$ bilhões em chips e software de empresas norte-americanas.

Assim sendo, o déficit comercial dos EUA com a China, embora tenha crescido de ao redor de US$ 80 bilhões, em 2001, para os atuais US$ 419 bilhões, não parece ser, em si mesmo, uma grande ameaça aos interesses norte-americanos.

De fato, a ameaça não vem do déficit comercial em si, mas da mudança do papel na China na economia mundial.

A relação de complementariedade econômica entre EUA e China era, até pouco tempo, uma típica relação centro-periferia.

Os EUA, assim como outros países, desenvolviam as inovações tecnológicas, depositavam as patentes, fabricavam os componentes mais caros, como chips, e usavam a China para montar seus produtos a um preço muito baixo. No caso dos iPhones, por exemplo, em um custo total desenvolvimento e fabricação de US$ 240 por unidade, a China agregava apenas cerca US$ 8 a esse valor.

O problema é que a China rompeu com esse paradigma e passou a fazer o contrário do que o Brasil de Bolsonaro está fazendo: começou a investir maciçamente em educação e ciência e tecnologia. Apenas entre 2006 e 2014, os gastos da China com educação quadruplicaram.

Em 2017, a China enviou 608 mil estudantes para se aperfeiçoarem nas melhores universidades dos EUA e da Europa. Hoje, a China tem cerca de 1,5 milhão de estudantes nos melhores cursos de pós-graduação do planeta.

Além disso, a obrigatoriedade de os investidores estrangeiros fazerem joint –ventures com empresas chinesas permitiu que os chineses desenvolvessem tecnologia em suas próprias empresas. A China jamais teria vendido uma Embraer para a Boeing. Ao contrário, teria obrigado a Boeing a investir na sua Embraer.

Como resultado, a China aumentou exponencialmente seu número de patentes. Em 2000, a China depositou 51.906 pedidos de patentes em todo o mundo. Apenas 17 anos depois (2017), tais pedidos aumentaram para 1.381.594.

Já os EUA, que em 2000 depositavam seis vezes mais pedidos de patentes que a China (cerca de 300 mil), em 2017 depositaram 606 mil, menos da metade dos pedidos depositados pela China.

Entre 2013 e 2017, a China duplicou o número de suas patentes em vigor, as quais passaram de 1.033.908 para 2.085.367. Continuando nesse ritmo alucinante, a China deverá ultrapassar, até 2020, o número de patentes em vigor dos EUA (2.984.825).

Ora essa ascensão meteórica da China no campo da ciência, tecnologia e inovação rompe com o paradigma centro-periferia que caracterizava sua relação com os EUA e demais países desenvolvidos.

A China não será mais a fábrica barateira que montava os produtos de outros países. A China será, em breve, a grande inovadora do planeta. Ela será o centro dinâmico do capitalismo mundial, dominando todo o processo de desenvolvimento e fabricação de novos produtos, bens e serviços.

É por isso que nessas negociações “comerciais”, os Estados Unidos sinalizaram que a China teria não apenas interromper a transferência de tecnologia das corporações americanas que fazem negócios naquele país, mas de compartilhar seu desenvolvimento tecnológico com os EUA, se quisesse um acordo.

Isso incluiria as tecnologias de nova geração sensíveis a interesses militares, como 5G, IA (inteligência artificial) e segurança cibernética, que hoje vêm sendo dominadas por firmas chinesas, como a Huawei.

Assim, os EUA não querem simplesmente um acordo para reduzir o “déficit comercial” dos EUA com a China. O que eles realmente desejam é interromper o desenvolvimento da tecnologia chinesa, especialmente naquelas tecnologias-chave para a hegemonia econômica futura.

Mas essas não são apenas as novas indústrias das próximas décadas na economia. Elas são também as novas tecnologias com grandes implicações militares. Se a China alcançar a paridade ou ultrapassar os EUA nessas áreas, isso poderia perturbar também o domínio militar do império dos EUA.

Por isso, desde o início das negociações com a China, em março de 2018, a questão da tecnologia era central.

O neocon e chefe da equipe de negociação dos EUA, Robert Lighthizer, o United States Trade Representative, emitiu, em agosto de 2017, um relatório de alerta de que o plano estratégico da China para 2025 visava superar os EUA nessas três áreas de tecnologia.

Esse relatório pretendia mostrar que a China estava “roubando” tecnologia dos EUA, nessas áreas. O relatório subsequente de Lighthizer, datado março de 2018, supostamente “provou” isso.

A guerra “comercial” EUA-China foi então lançada naquele mês.

Assim, a suposta “guerra comercial” entre EUA e China é, na verdade, uma guerra tecnológica e militar. E, também é, óbvio, uma guerra geoeconômica e geopolítica.

Mas, além dessa questão tecnológica crucial, há também uma questão financeira e monetária perturbadora. Desde 2011, a China vem diminuindo suas reservas internacionais em dólares como proporção do PIB. Naquele ano, as reservas internacionais da China equivaliam a 47,56% do PIB. Hoje, equivalem a 22, 71% do PIB. Em termos absolutos, tais reservas também vêm caindo. Assim, em 2013, elas somavam mais de US$ 3,8 trilhões. Atualmente, elas não passam de US$ 3 trilhões.

Tal diminuição é causada por dois movimentos simultâneos. Um maior investimento no mercado interno chinês e em projetos estruturantes ao redor do mundo, principalmente o da Nova Rota da Seda, e um deslocamento de suas reservas de valor do dólar para títulos lastreados em ouro.

Recentemente, a China lançou títulos para contratos futuros de petróleo em yuans, lastreados em ouro. Assim, países como Rússia e Irã poderão exportar seu petróleo para China sem necessidade de usar dólares para tanto.

Desse modo, a China, a Rússia e outros aliados vêm realizando ações para reduzir sua dependência em relação ao dólar e criando alternativas para realizar comércio internacional em outras moedas.

Embora ainda incipientes, essas alternativas representam potenciais ameaças concretas à hegemonia do dólar. Em um futuro novo contexto de outras moedas mundiais, como alternativas viáveis à moeda norte-americana, o atual déficit comercial dos EUA passa a ser, sim, um problema sério.

Por conseguinte, a atual ofensiva de Trump contra a China está baseada em receios justificados, o que não significa dizer que essa estratégia de confronto seja a melhor, ou mesmo que produzirá algum resultado.

Na realidade, o tiro vem saindo pela culatra. O déficit do ano passado (US$ 891 bilhões) foi o maior da história e as compreensíveis retaliações chinesas ameaçam jogar o PIB mundial para baixo, com consequências negativas para todos os países, inclusive o Brasil.

Ademais, a ascensão da China parece inevitável. Quem investe na educação do seu povo e em ciência e tecnologia nunca perde. A ofensiva de Trump parece fútil.

Se tivéssemos alguma inteligência estratégica no governo Bolsonaro, estaríamos debatendo ações e medidas destinadas a melhor posicionar o Brasil nesse embate mundial, aproveitando as oportunidades que inevitavelmente surgirão desse conflito.

Não temos. Temos um astrólogo terraplanista e um chanceler pré-iluminista a nos guiar pelo terreno mutável e traiçoeiro do cenário mundial com base numa aliança incondicional ao patético Trump, a qual agride nossos interesses objetivos.

Temos um governo vira-lata que aposta no vira-latismo. É um perdedor que aposta num perdedor.

Aposta na submissão contra a soberania. Aposta no rico contra o pobre. Aposta na ignorância contra a educação e a cultura. Aposta na violência contra a paz. Aposta na intolerância contra a tolerância e os direitos humanos. Aposta na morte contra a vida.

O governo Bolsonaro colocou o Brasil no carro alucinado dirigido pelo maníaco Trump. E sem cadeirinha.

Chegou a hora da nação apostar na sua salvação.

Marcelo Zero
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Lula com Eleonora de Lucena e Joaquim de Carvalho


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