4 de jun de 2019

Os truques do mercado para justificar o fracasso de suas políticas

Para Platão, os sofistas rejeitavam a verdade e relativizavam a realidade resumindo o universo
a partir, somente, de seus aspectos fenomenais.
Truque 1 – o conceito de interesse nacional.

Trate como antinacional toda medida econômica que não beneficie seu grupo. Esse truque existe desde a República Velha. O custo das políticas de sustentação do café era tratado como benefício para o país. O custo de políticas econômicas para outras regiões, como sendo contra o interesse nacional.

Truque 2 – o conceito de populismo.

Com todos seus equívocos, a vantagem da democracia é permitir que o interesse geral se sobreponha aos interesses particulares. É a única força que induz governantes a implementarem políticas universais em áreas essenciais.

Historicamente, populismo se referia a medidas de alcance imediato visando conquistar eleitores, sem nenhuma preocupação com a construção do futuro.

Com o tempo, todos os recursos que voltam ao cidadão, na forma de serviços, mesmo os essenciais, passaram a ser tratados como populismo.

O ápice dessa manipulação foi o brilhantíssimo ex-Ministro da Educação Cristovam Buarque afirmando que Lula abriu inúmeras universidades federais com propósitos eleitorais.

Truque 3 – o sucesso e o truque da defasagem.

Um governante adota uma série de medidas desastrosas, que impede a economia de crescer. Entra outro governante que toma uma série de medidas reativando a economia. O discurso passa a ser que o primeiro se sacrificou, trabalhando com responsabilidade, para que o segundo levasse a fama.

É histórico. Campos Salles renegociou a dívida externa brasileira, irresponsavelmente ampliada por Ruy Barbosa, em condições ultrajantes. Com o país quebrado e, portanto, em condições de negociar deságios, aceitou todas as imposições da Casa Rotschild. E ainda levou na comitiva de beija-mão jornalistas que reportaram os elogios do banqueiro à seriedade do futuro presidente. Ou seja, no seu beija-mão a Donald Trump, Bolsonaro teve antecedentes ilustres.

Depois, Rodrigues Alves fez um governo vitorioso. A história, segundo o mercado, foi de que a virtude maior foi de Campos Salles, preparando o terreno para seu sucessor.

Do mesmo modo, Fernando Henrique Cardoso implementou uma política monetária ruinosa, que jogou o nível de endividamento público e privado nas nuvens, provocou a estagnação da economia, comprometeu o ganho de mercado obtido com a estabilização da moeda. No período em que adotou uma política econômica pró-ativa, Lula conseguiu índices de crescimento inéditos, em plena crise global.

Mas o sucesso de Lula é atribuído ao trabalho prévio de FHC.

Truque 4 – o fracasso e o truque da defasagem.

O segundo governo Dilma Rousseff foi um desastre. O pacote Joaquim Levy afundou ainda mais a economia, quebrou as pernas políticas do governo que, a partir dali, foi sufocado pelas pautas-bombas do Congresso. Ponto.

Entre Henrique Meirelles, pelo governo Temer, Paulo Guedes, pelo governo Bolsonaro, e mantem as mesmas políticas restritivas anteriores. Ou seja, tudo passou a ser de sua estrita responsabilidade, mesmo tendo apoio expressivo do Congresso.

Depois de quedas do PIB, a recuperação costuma ser rápida, porque há capacidade instalada a ser ocupada. No entanto, até hoje não ocorreu a recuperação da economia brasileira, configurando o mais longo período sem recuperação da história.

Mas a culpa continua sendo da Dilma.

Truque 5 – o golpe da lição de casa.

Foi aplicado sistematicamente, de Pedro Malan a Henrique Meirelles, com a contribuição luxuosa de Antônio Palocci e Joaquim Levy.

Consiste em impor um conjunto de medidas amargas – para os outros -, acenando com o pote de ouro no final do arco íris. Se tirar o leite das crianças, a aposentadoria dos idosos, se reduzir os direitos trabalhistas, se reduzir os gastos com saude e educação, a economia voltará a ser pujante e todos ganharão.

Começa o ano com tais promessas. Chega-se ao final com os sacrifícios impostos e nada de aparecer o pote de ouro. Alega-se, então, que o sacrifício foi insuficiente e toca a apertar mais ainda o torniquete em cima da rapa.

Como garantia o sábio Ministro Luis Roberto Barroso: se a legislação trabalhista tirar os torniquetes sobre as empresas, haverá abundância de emprego. Mudam-se as regras, o emprego cai por conta da recessão e a informalidade explode, por conta da nova legislação.

Truque 6 – o golpe do fim do mundo.

Utilizado desde tempos imemoriais. Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. Ou o Brasil acaba com esses velhinhos que sugam a Previdência, ou esses malandros que teimam em ficar doentes para conseguir o auxílio-doença, ou eles acabam com o Brasil.

Imposto sobre grandes fortunas? Não, porque é de difícil aplicação. Sobre ganhos financeiros? Não, porque irá desestimular os investimentos. Contenção da engenharia fiscal dos grandes grupos? Não, porque embotará o empreendedorismo.

Truque 7 – a impossibilidade do impossível.

Analise-se o pacote Joaquim Levy-Dilma. Aplicou simultaneamente choque tarifário, choque monetário, restrição de crédito, corte drástico de despesas prometendo a quadratura do círculo: se cortar toda a demanda, haverá o equilíbrio fiscal e instantaneamente os investimentos voltarão para a economia.

O resultado óbvio seria: se cortar toda a demanda, com a economia em queda, acelerará a queda do consumo. Com isso não haverá a volta do investimento, mas a queda vertiginosa da atividade econômica.

Alegação do mercado: o ajuste não foi suficientemente severo.

O mesmo ocorrerá com a reforma da Previdência. O Congresso vai entregar uma parte da reforma e a economia continuará em profunda recessão. A alegação futura do mercado será a de que a reforma não foi suficientemente radical.

Truque 8 – o truque do denominador.

O país tem uma receita fiscal de 100 e uma dívida pública de 50. Aí, implemento uma política recessiva que derruba a receita em 10%. E uma política de juros que custa 6% ao ano. Mantidos todos os demais fatores, em apenas dois anos a relação dívida/PIB passará de 50/100 = 50% para 56/90 = 62%. Mas, aí, explico que a culpa do déficit foi das despesas.

É o que acontece com todos os cálculos de déficit primário e déficit da previdência. O déficit seria menor se as políticas econômicas não tivessem derrubado a receita.

Truque 9 – o truque da relação causal no déficit.

É primo irmão do Truque 7. O país tem 100 de receita e 100 de despesa primária, portanto orçamento primário equilibrado. Aí derruba a receita que cai para 90. As despesas continuam as mesmas. Dir-se-á que a causa do desequilíbrio são as despesas.

Truque 10 – o golpe da identidade contábil.

Os manuais de economia costumam recorrer a identidades contábeis para medir os fatores econômicos. Uma das identidades consiste em estimar que o gasto privado corresponde ao total produzido, menos o gasto público. É apenas uma medida.

Por ser apenas uma conta não leva em consideração, por exemplo, que gasto público significa ganho privado. Se o governo paga salários, ou contrata serviços, ou adquire bens, esse dinheiro será injeção na veia das empresas privadas, que produzem bens de consumo, bens de investimento e serviços. Se corta o gasto público, automaticamente diminui a renda privada.

Mas os cabeções sacam impavidamente a identidade contábil e garantem que bastará cortar o gastos público para o lugar ser imediatamente ocupado pelo setor privado.

Truque 11 – a falsa eficiência.

Parte do pressuposto de que se um gasto é mal aplicado, basta corta-lo para melhorar a eficiência do serviço. O SUS (Sistema Único de Saúde) é um milagre brasileiro, porque consegue determinado nível de universalização pagando merreca pelos procedimentos médicos. A lógica dos cabeções é simples. O aumento da eficiência de qualquer serviço, especialmente os serviços públicos, depende de modelos gerenciais, implementação eficiente, criação de indicadores. Para os cabeções a lógica é outra. Se um serviço não é suficientemente eficiente, basta reduzir seu orçamento que a eficiência aparece.

Luís Nassif
No GGN
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Whistleblower: o que é, e teriam os EUA usado na Lava Jato?


É possível que delatores compartilhados com os Estados Unidos em investigações contra a Petrobras tenham sido remunerados pelas autoridades americanas?

Foram mais de 5 anos de Lava Jato, até que veio à tona mais uma polêmica envolvendo as delações: ex-executivos da OAS e Odebrecht admitiram que receberam dinheiro das empresas como estímulo à colaboração premiada.

O argumento das empresas é que os delatores merecem uma “compensação” pela perda do cargo e outros danos decorrentes da Lava Jato, como a exposição midiática.

O Ministério Público já criou uma “comissão especial” para lidar com a crise, e afirmou à imprensa que não tinha condições de monitorar a relação das empresas com seus delatores.

Fica a dúvida: teria a Lava Jato assistido ou participado de outras situações do gênero? É possível, por exemplo, que delatores emprestados aos Estados Unidos para ajudar em investigações contra a Petrobras tenham sido remunerados por autoridades americanas?

A FIGURA DO WHISTLEBLOWER

Na semana passada, o Conjur noticiou que a Securities and Exchange Commission (SEC) pagou 4,5 milhões de dólares a um cirurgião brasileiro que denunciou um esquema de corrupção no setor esportivo.

Para evitar um processo em solo americano, a empresa delatada aceitou um acordo com a SEC e o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) no valor de 30 milhões de dólares. O prêmio do cirurgião é um percentual dessa multa.

A troca de informações e o pagamento pela delação se deram dentro do programa Whistleblower, ligado à SEC, que administra as denúncias enviadas ao departamento, confere se os colaboradores estão habilitados para receber a remuneração (paga somente àqueles que ajudaram em investigações bem sucedidas) e protege a identidade de todos, ainda que vivam em outros países.

Whistleblower, que remete à palavra “assoprador”, ainda não tem uma tradução consensual dentro do mundo jurídico brasileiro, mas há quem use os termos “dedo-duro” ou “informante confidencial” para fazer referência aos que entram no programa.


Embora não haja confirmação – e seja difícil de obtê-la por vias oficiais, graças ao sigilo em torno do programa Whistleblower – há fortes indícios de que os EUA tenham aplicado o método na Lava Jato, logo no início.

CLASS ACTION CONTRA A PETROBRAS 

Em dezembro de 2014, Sean McKessy, homem à frente do Whistleblower Program desde 2010, respondeu à revista Época que esperava utilizar seus métodos na ação coletiva de acionistas americanos contra a Petrobras (class action), por conta dos “prejuízos” decorrentes do esquema de corrupção revelado pela Lava Jato.

A ação coletiva foi liderada pelo escritório do advogado americano Jeremy Lieberman, o Pomerantz, que chegou a enviar ao Brasil um investigador particular, ex-agente do FBI, para levantar informações com potenciais delatores, e documentos com as autoridades brasileiras [veja página 91 deste arquivo aqui].

O acordo da class action impôs à Petrobras o pagamento de quase 3 bilhões de dólares em indenizações.

Sean disse à revista, 4 anos antes deste acordo, que “certamente” tinha “autoridade” para fazer valer o FCPA sobre a Petrobras, e acrescentou: “Nosso programa terá um papel relevante em casos de corrupção estrangeiros, porque manda uma mensagem: esse tipo de corrupção não será tolerado.”

O FPCA também levou a Petrobras a fechar outros dois acordos – com a SEC (cease and desist) e com o Departamento de Justiça (non prosecution agreement) – para evitar mais processos em solo americano.

A multa decorrente desta negociação rendeu à Lava Jato 2,5 bilhões de reais que seriam divididos igualmente entre uma instituição privada anticorrupção, a ser criada sob a influência dos procuradores de Curitiba, e um fundo de ressarcimento aos acionistas brasileiros. Esta parte do acordo foi suspensa para análise do Supremo Tribunal Federal.

QUEM PODE ADERIR AO PROGRAMA?

No programa de whistleblower da SEC, os candidatos a “informante confidencial” são pessoas que trabalham na empresa delatada, mas não enriqueceram ou tiveram participação no esquema.

Se as informações compartilhadas por este informante levarem a um processo em que a empresa terá de pagar uma multa superior a 1 milhão de dólares, então uma fatia – de 10% a 30% – desse dinheiro será transformada em “bônus” para o whistleblower, em agradecimento pela cooperação.

Além do pagamento, a SEC se compromete a manter o nome do informante em absoluto sigilo.

O CASO VENINA VELOSA

Há um nome na Lava Jato que se encaixa no perfil de whistleblower: Venina Velosa da Fonseca.

Ex-gerente da Petrobras, Venina ganhou os holofotes da mídia quando, em entrevista ao Fantástico, disse que apresentou a seus superiores (entre eles, Paulo Roberto Costa e Graça Foster) indícios de corrupção na empresa.

Ela contou também que o alerta foi desconsiderado e que acabou ameaçada e retaliada com uma transferência para Cingapura.

Venina é um “case” de whistleblower na Lava Jato em um artigo acadêmico assinado pelo advogado Gustavo Carvalho Kichileski, que ainda fez referência a outros casos famosos, todos nos EUA: Edward Snowden, Chelsea Manning e Enron.

Mas Venina também aparece em um documento oficial da class action nos EUA contra a Petrobras. Em abril de 2018, o advogado Jeremy Lieberman, no âmbito da class action liderada pelo escritório Pomerantz, escreveu que Venina era uma “whistleblower”.

Pelos relatos do advogado americano, ela depôs em seu escritório, em Nova York, em duas datas: primeiro em fevereiro de 2016; e depois de um “acordo entre seu advogado e o advogado das Partes”, retornou para um segundo depoimento, em março daquele ano.

Lieberman considerou a participação de Venina no processo uma “vitória”.

Outro nome aparece na lista de “testemunhas” do Pomerantz marcado como “whistleblower”: Otávio Lavocat Cintra, ex-dirigente da Petrobras America, convocado para falar sobre a compra de Pasadena na CPI da Petrobras depois de ter procurado a Lava Jato para levantar suspeitas sobre o valor da operação. O caso foi divulgado pela revista Veja, citada pelo advogado na class action.

Em outra passagem, Lieberman também assinalou que Mauro Rodrigues da Cunha (ex-membro do Conselho Administrativo da Petrobras, representando acionistas) foi “whistleblower” no processo.

Cunha, segundo Lieberman, participou da auditoria na Petrobras quando a Lava Jato estourou, e “havia criticado publicamente a metodologia adotada para calcular a perda de US$ 2,5 bilhões registrada pela Petrobras em conexão com a Operação Lava Jato. Ele se recusou a assinar as Demonstrações Financeiras de 2014 e em uma carta ao Conselho de Administração, escreveu que a acusação apenas reduziu parcialmente a sobrevalorização das refinarias.”

Há ainda um quarto nome citado como “whistleblower” na class action, Fernando Castro de Sá, um ex-gerente jurídico da Petrobras que também alegou ter sido punido por denunciar fraudes.

Mas o fato de Fonseca, Cunha, Sá e Cintra terem seus nomes atrelados ao termo “whistleblower” não confirma a entrada deles no programa de remuneração de delatores da SEC.

Não é possível descartar que Lieberman pode ter usado “whistleblower” de maneira mais aberta, apenas para fazer menção a um “delator”.

Em outro documento, de maio de 2018, o advogado americano chama Alberto Youssef de “whistleblower”. O doleiro, em tese, não preenche os requisitos para ser um informante confidencial pago pela SEC.

Neste mesmo documento, entretanto, Lieberman reafirmou a condição de Venina e Cintra como dois “whistleblowers”.

Cíntia Alves
No GGN
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De Luís Bonaparte a Bolsonaro: as coincidências de um Estado burguês


O cardeal Pierre d’Ailly, um francês da Idade Média, vendo a Igreja Católica em crise considerou: “o único que ainda pode salvar a Igreja Católica é o diabo em pessoa e vós rogais por anjos”, constatação que se aproxima em realidade ou sátira do momento histórico brasileiro. Desde o golpe do impeachment de Dilma Roussef, em 2016, muitos discursos convocam Deus, santos e valores em contradição com a obra em movimento.  Eventos que nos fazem pensar sobre o caráter limitado e contraditório da democracia burguesa que se coloca a serviço da satisfação de interesses demarcados pelas elites.

Nessa reflexão, a revolução de 1848 e o golpe de 1851, na França, guardam semelhanças em termos de tramas políticas e disputas de classes, com o desencadear de fatos desde o golpe de 2016 no Brasil, até a ascensão de Jair Bolsonaro como presidente. Na França, esse intervalo de tempo, marca a liquidação do período liberal idealizado pela burguesia em benefício da manutenção da estrutura de dominação e realização de interesses privados. A burguesia, quando se vê em confrontos de poder com oligarquias, com militares e com os anseios de camponeses e proletários prefere apoiar um líder carismático que lhe tira das mãos as decisões que ela já não está conseguindo executar com suas próprias forças. Na queda de braços da república parlamentarista francesa só restava à burguesia despotismo ou anarquia.

No caso brasileiro, desde a vitória do Partido dos Trabalhadores em 2014, que seria seu quarto mandato na presidência, com a recusa da oposição em relação ao resultado do pleito, origina-se uma saga de impedimentos ao governo eleito. Gera-se um caldo produtivo para todas as insatisfações de classe colocadas em evidência a cada conquista popular em termos de políticas públicas e por algumas falhas no projeto econômico que tentava superar a crise internacional do período. Disso decorrem as condições para empresários, banqueiros, industriais, agropecuaristas, profissionais liberais, a classe média rancorosa, a mídia e interesses internacionais trabalharem as condições para a retirada do PT do poder. Muito foi alimentado por abordagens dos jornais diários sobre escândalos cuidadosamente apresentados em prol de desconstruir a imagem de figuras do Partido dos Trabalhadores e do próprio partido, com apoio e protagonismo do judiciário na construção das narrativas. Esse era um projeto que se ligava a acontecimentos do governo Lula, como o processo do Mensalão, que culmina com a prisão de alguns políticos, dentre eles José Dirceu, uma importante liderança do PT.

Nessa sequência, o incentivo midiático às manifestações de 2013 foi determinante em termos da construção de uma pauta com cara popular, ainda que tocasse de modo mais significante as camadas médias liberais e seus representantes. Os movimentos iniciam com a bandeira de repúdio ao aumento do preço das passagens do transporte público e se disseminam por todo o país. Eles transformam-se, com o passar do tempo, em protestos direcionados a políticos, até chegarem ao movimento verde e amarelo, que protestava a favor do impeachment. As manifestações foram o apoio que os parlamentares necessitavam para votar a favor do impeachment da presidenta eleita evocando Deuses, santos e suas famílias, concretizando sua deposição.

A partir daí inicia-se um processo de seleção de um nome significativo o suficiente para ser representativo dos interesses burgueses e elitistas. Contudo, as manifestações de rua acenderam um lado turvo nos anseios desses estratos que saíam às ruas com a coragem necessária para protestar contra a política, contra os direitos conquistados pelos pobres, contra o pagamento de impostos, a favor do aumento da repressão impostas aos estratos populares, favoráveis às armas, com fortes toques conservadores puritanistas, contra liberdades sexuais, contra grupos em condições de minorias, a favor de uma família de tipo tradicional, pela desregulamentação do mercado de trabalho, dentre tantas outras questões na contramão do processo civilizatório.  Bolsonaro é o candidato que melhor se enquadra na pauta que vai se alinhando dentro de um projeto fascista e intransigente a todas as ideias que se coadunam aos direitos humanos. Num quadro de recusa e demonização da política, Bolsonaro, apesar de cumprir quase 30 anos de mandatos eleitorais, apresenta-se como um outsider, um não político, compondo o personagem ideal para esse papel.

Nos pontos onde essas experiências dialogam, a brasileira e a francesa, está claro o papel das massas para a conquista e manutenção do poder no Estado burguês. A burguesia é muito bem sucedida na transformação de seus interesses em ideais universais que passam a ser defendidos por todos. A liberdade e a igualdade são dois desses valores, talvez os mais contraditórios, porque se propõem numa lógica interna e são ameaças para os propósitos burgueses quando extrapolam e se tornam valores numa dinâmica externa. Um dos casos onde a liberdade e a igualdade tem dificuldade de se fixar é o parlamento, onde costumam ser sufocados em prol dos interesses das elites. Dessa forma, os defensores da propriedade e dos negócios rebelam-se contra benefícios e instituições populares, mostrando que a democracia somente é estável quando os interesses burgueses e oligárquicos se sobrepõem aos demais.

Nas apostas em Luís Bonaparte e Jair Bolsonaro, havia em comum uma realidade permitida que significava sacrificar direitos civis, liberdade de imprensa e liberdade de reunião em favor de um governo que propiciasse as condições para que as elites pudessem se dedicar aos negócios, abrindo mão do domínio político, desviando-se dos perigos que os cenários impunham. Não porque tivessem planejado dessa forma, mas porque eram esses nomes que detinham as condições para chegar ao poder, ainda que não fossem representantes legítimos da dominação tradicional. Assim, como vemos em “O 18 de brumário de Luís Bonaparte”, “os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles que escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram”.

Nívea Carpes, Doutora em Ciência Política e mestre em Antropologia Social
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Carta alerta contra desmonte da Educação por gestão Bolsonaro


Nós, ex-ministros da Educação que servimos o Brasil em diferentes governos, externamos nossa grande preocupação com as políticas para a educação adotadas na atual administração. Nas últimas décadas, construiu-se um consenso razoável sobre a educação, que se resume numa ideia: ela é a grande prioridade nacional.

Contingenciamentos ocorrem, mas em áreas como educação e saúde, na magnitude que estão sendo apresentados, podem ter efeitos irreversíveis e até fatais. Uma criança que não tenha a escolaridade necessária pode nunca mais se recuperar do que perdeu. A morte de uma pessoa por falta de atendimento médico é irreparável. Por isso, educação e saúde devem ser preservadas e priorizadas, em qualquer governo.

Uma educação pública básica de qualidade forma bem a pessoa, o profissional e o cidadão para desenvolverem, com independência e sem imposições, suas potencialidades singulares.

A educação é, ainda, crucial para o desenvolvimento social e estratégico da economia do Brasil. A economia não avança sem a educação, que é a chave para nosso país atender às exigências da sociedade do conhecimento.

O consenso pela educação como política de Estado foi constituído por diferentes partidos, por governos nas três instâncias de poder, fundações e institutos de pesquisa, universidades e movimentos sociais ou sindicais. Em que pesem as saudáveis divergências que restaram, foi uma conquista única, que permitiu avançar no fortalecimento da educação infantil, na universalização do ensino fundamental, na retomada da educação técnica e profissional, no esforço pela alfabetização e educação de adultos, na avaliação da educação em todos os seus níveis, na ampliação dos anos de escolaridade obrigatória com aumento expressivo das matrículas em todos os níveis de ensino, na expansão da pós-graduação, mestrado e doutorado e, consequentemente, na qualidade da pesquisa e produção científica realizada no Brasil.

É impressionante que, diante de um assunto como a educação que conta com especialistas e estudiosos bem formados, o governo atue de forma sectária, sem se preocupar com a melhoria da qualidade e da equidade do sistema, para assegurar a igualdade de oportunidade.

Em nenhuma área se conseguiu um acordo nacional tão forte quanto na da educação. A sociedade brasileira tomou consciência da importância dela no mundo contemporâneo.

Numa palavra, a educação se tornou a grande esperança, a grande promessa da nacionalidade e da democracia. Com espanto, porém, vemos que, no atual governo, ela é apresentada como ameaça.

Concordamos todos que a educação básica pública deve ser a grande prioridade nacional, contribuindo para superar os flagelos da desigualdade social gritante, da falta de oportunidades para os mais pobres e do atraso econômico e social. Ela implica o aprimoramento da formação dos professores, do material didático, a constante atenção à Base Nacional Curricular Comum, a valorização das profissões da educação, inclusive no plano salarial, a reforma do ensino médio, o aperfeiçoamento da gestão educacional, a construção de diretrizes nacionais de carreira de professores e diretores do ensino público. Requer a constante inovação nos métodos, deslocando-se a ênfase no ensino para a aprendizagem, que deve ser o centro de todos os nossos esforços.

Exige também o empenho na educação infantil e na alfabetização na idade certa, a melhora das escolas e dos laboratórios e bibliotecas e, mais que tudo, o respeito à profissão docente, que não pode ser submetida a nenhuma perseguição ideológica. A liberdade de cátedra e o livre exercício do magistério são valores fundamentais e inegociáveis do processo de aprendizagem e da relação entre alunos e professores. Convidar os alunos a filmarem os professores, para puni-los, é uma medida que apenas piora a educação, submetendo-a a uma censura inaceitável. Tratar a educação como ocasião para punições é exatamente o contrário do que deve ser feito. Cortar recursos da educação básica e do ensino superior, no volume anunciado, deixará feridas que demorarão a ser curadas.

Não menos importante é o fortalecimento da cooperação e da colaboração entre União, Estados, Municípios e o Distrito Federal e o respeito à autonomia das redes, como determinam a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e a própria Constituição Cidadã de 1988. Não podemos ignorar o Plano Nacional de Educação, aprovado por unanimidade pelo Congresso Nacional, os Planos Estaduais e os Planos Municipais de Educação, já pactuados entre a sociedade, os governos e a própria comunidade escolar. Ele decorre de iniciativas que já vinham de longe, como o Plano Decenal de Educação para Todos (1993/2003), elaborado pelo MEC com apoio dos estados, dos municípios, do Distrito Federal, de entidades representativas da área educacional e que atendia a compromisso internacional assumido pelo Brasil na Conferência realizada em 1990 em Jomtien (Tailândia), de que o Brasil participou, promovida pela UNESCO, pelo UNICEF, pelo PNUD e pelo Banco Mundial.

Enfim, e para somar esforços em vez de dividi-los, é indispensável que se constitua e se organize um efetivo Sistema Nacional de Educação.

Ademais, a prioridade à educação básica demanda que cresçam os repasses do governo federal para os estados e municípios, responsáveis pelo ensino infantil, fundamental e médio, sendo prioridade a renovação e, se possível, ampliação do FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, que expira em 2020. Sem ele, a situação do ensino nos municípios e estados mais pobres, que já é inadequada, se tornará desesperadora.

No tocante à expansão do ensino superior, é fundamental se assegurar o ingresso e permanência dos estudantes, especialmente dos egressos das escolas públicas e das famílias de baixa renda. O ensino superior necessita ter qualidade, o que requer tanto constantes avaliações quanto recursos, garantindo seu papel insubstituível na formação de profissionais qualificados para um mercado de trabalho cada vez mais exigente, impactado pelos desafios das inovações e das novas tecnologias. A autonomia universitária é uma conquista que deve ser mantida para garantir a liberdade e qualidade na pesquisa, formação e extensão.

O Brasil dispõe, hoje, de uma lista de políticas devidamente estudadas e estruturadas, de medidas e instrumentos que permitem progredir significativamente na educação. Nada disso é ou será fácil, mas o consenso obtido e o aprimoramento das medidas clamam pela junção de esforços em prol de uma educação que se equipare, em qualidade, à dos países mais desenvolvidos.

Muito tem de ser feito, tudo pode ser aprimorado, mas a educação depende da continuidade ao que já foi conseguido ou planejado. Educação é política de Estado: nada se fará se a ênfase for na destruição das conquistas, no desmonte das políticas públicas implementadas e no abandono dos planos construídos pela cooperação entre os entes eleitos e a sociedade.

Vimos a público defender esta causa estratégica para as futuras gerações e propomos a formação de uma ampla frente em defesa da educação. Nós, neste momento, estamos constituindo o Observatório da Educação Brasileira dos ex-ministros da Educação, que se coloca à disposição para dialogar com a comunidade acadêmica e científica, sociedade e entidades representativas da educação, com parlamentares e gestores, sempre na perspectiva de aprimorar a qualidade da política educacional.

José Goldemberg
Murílio Hingel
Cristovam Buarque
Fernando Haddad
Aloizio Mercadante
Renato Janine Ribeiro
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Ex-assessores de Carlos Bolsonaro não têm registro na Câmara do Rio

Indicados por Fabrício Queiroz, funcionários nunca emitiram crachás, apesar de lotados no gabinete do vereador


Os dois ex-funcionários ligados a Fabrício Queiroz empregados no gabinete do vereador carioca Carlos Bolsonaro (PSC), filho do presidente Jair Bolsonaro, nunca emitiram crachá funcional ou registraram entrada como visitantes na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. O órgão afirma que qualquer servidor da Casa precisa fazer uma das duas coisas para comprovar que tem frequência, mesmo que exerça funções externas – um deles era motorista.

Documentos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que Claudionor Gerbatim de Lima e Márcio da Silva Gerbatim, investigados pelo Ministério Público do Rio, passaram o período em que estavam lotados no gabinete de Carlos sem ter a presença atestada pelo sistema da Câmara.

“Se for servidor da CMRJ, para qualquer função que exercer, deverá utilizar o crachá funcional”, diz a nota enviada pela assessoria da Casa ao Estado. “Para nomeado para cargo em comissão ou efetivado via concurso público, o crachá funcional será emitido para acesso às dependências do Legislativo, seja qual for a atividade a ser exercida.”

Claudionor e Márcio tiveram sigilos bancário e fiscal quebrados na investigação que apura suposto esquema de lavagem de dinheiro no gabinete do hoje senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) entre 2007 e 2018, além da prática de “rachadinha” – por meio da qual assessores “fantasmas” devolvem parte do próprio salário para o parlamentar que os nomeou. Eles já estiveram lotados em gabinetes dos dois irmãos na Alerj, quando Flávio era deputado estadual, e na Câmara municipal, com Carlos.

Claudionor e Márcio são, respectivamente, sobrinho da atual mulher de Fabrício Queiroz e ex-marido dela. Queiroz é o pivô da investigação sobre repasses suspeitos na Alerj. Ele era, oficialmente, motorista de Flávio, quando movimentou em sua conta cerca de R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016 e o mesmo mês do ano seguinte. O valor foi considerado “atípico” pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) – caso revelado pelo Estado.
Os parentes da ex-mulher de Queiroz fizeram uma espécie de rodízio entre os gabinetes dos dois irmãos.

Empregado como motorista pelo vereador entre abril de 2008 e abril de 2010, Márcio foi nomeado logo depois como assessor-adjunto no gabinete de Flávio na Alerj, onde ficou até maio de 2011. No mesmo dia, Claudionor ganhou a vaga no gabinete de Carlos na Câmara Municipal.

Para o especialista em direito administrativo Carlos Ari Sundfeld, professor da FGV-SP, o fato de não haver registro de entrada dos assessores de Carlos é um “indício sério” de que eles “não exerciam função nenhuma”. Isso pode configurar, afirma Sundfeld, improbidade com dano ao erário, já que os servidores recebiam salários por funções que supostamente não exerciam. “Ainda é um indício, mas um indício sério”, disse.

Por telefone, o chefe de gabinete de Carlos Bolsonaro, Jorge Luís Fernandes, disse que a Câmara do Rio já havia respondido aos questionamentos da reportagem, e garantiu que Claudionor e Márcio foram funcionários efetivos do vereador. Ele, no entanto, não explicou qual era função que Claudionor exercia – Márcio estava registrado como motorista. O chefe de gabinete também afirmou que, se os crachás não foram emitidos, quem tem de responder por isso é a Câmara, que é a responsável pelo cadastro, e não o gabinete do vereador.

Caio Sartori
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Maioria rejeita as armas. O presidente é selvagem; o povo, não


Estranhamente inédita, até que o colunista Lauro Jardim, de O Globo, a divulgasse, uma pesquisa do Ibope feita em meados de março – antes, portanto, do “liberou geral” do porte de armas decretado por Jair Bolsonaro- mostra que a maioria dos brasileiros não quer a permissão nem para ter armas e menos ainda para portá-las em via publica.

A noite O Globo publicou os números detalhados e o gráfico que resumo acima.

Como seria de se esperar, o grupo mais vulnerado pela violência, as mulheres, apresenta taxas de  rejeição tanto à posse quanto ao porte de armas.

Entre as regiões, só no Sul o direito de possuir arma de fogo aproxima-se da maioria, com 48% a favor. Aproxima-se, apenas, porque 51% são contra.

Nas periferias das grandes cidades, areas com maior índice de violência no país, 70% dos entrevistados da periferia são contrários à posse de armas e 75% rejeitam o porte. Nas capitais, a rejeição e de 62% e 72%, respectivamente. No interior,  58% e 72% rejeitam posse e porte de arma.

Resta agora saber quantos dias mais o Supremo dormirá sobre o pedido de anulação do decreto “bangue-bangue” de Jair Bolsonaro.

Ah, a propósito, será que o Ibope vai explicar porque escondeu esta pesquisa durante dois meses e meio e “limpou a barra” para Bolsonaro liberar o armamento dizendo que fazia “a vontade do povo”?

Fernando Brito
No Tijolaço
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Ministros da Justiça repudiam política de armas de Bolsonaro

Ter arma não dá segurança


Carta aberta pelo controle de armas

Aloysio Nunes Ferreira
Eugênio Aragão
José Carlos Dias
José Eduardo Cardozo
José Gregori
Luiz Paulo Barreto
Miguel Reale Jr.
Milton Seligman
Raul Jungmann
Tarso Genro
Torquato Jardim

Nós, ex-ministros da Justiça e da Segurança Pública, que em diferentes momentos da história fomos responsáveis por conduzir a política de segurança pública no âmbito federal, demonstramos nossa profunda preocupação com os retrocessos no controle de armas e munições e com o impacto dos decretos federais no desmantelamento dos principais pilares desta agenda.

A efetividade das políticas públicas depende de sua continuidade, monitoramento e avaliação constantes para que possamos aperfeiçoá-las e dar respostas a seus novos desafios. O controle de armas e munições no Brasil é uma agenda central para o enfrentamento do crime organizado e para a redução dos homicídios. Por essas razões, seus ganhos não podem ser colocados em risco. Precisamos trabalhar para o seu fortalecimento, impedindo retrocessos.

No período em que exercemos nossas funções de ministro, cada um de nós trabalhou para que fosse estabelecida no país uma política de regulação responsável de armas e munições. Em 2003, o Congresso aprovou o Estatuto do Desarmamento, um importante passo nesta trajetória. Resultado de mobilização entre diferentes partidos, organizações da sociedade civil e lideranças de diversos setores da sociedade, além de quase um ano de debates no Congresso, o estatuto definiu alguns dos pilares centrais desta regulação: proibição do porte civil, restrições à posse e o estabelecimento de mecanismos de controle de produção, circulação e comercialização de armas e munições.

Atuamos para fortalecer as capacidades nacionais de controle e fiscalização, reduzindo as armas em circulação. Também trabalhamos para enfrentar desvios e o tráfico de armas e munições. Resistimos às pressões de grupos no Congresso e de categorias que buscavam flexibilizar as condições da posse e as restrições ao porte de arma de fogo.

Independentemente dos partidos que estavam no poder e da orientação dos governos dos quais fazíamos parte, nosso compromisso sempre foi o de fortalecer avanços que consolidassem o Brasil como uma referência de regulação responsável de armas e munições para a América Latina e para o mundo.

Conquistamos avanços importantíssimos, incluindo a queda da taxa de crescimento de homicídios nos primeiros anos da legislação em vigor e a desaceleração no crescimento de mortes por armas de fogo nos anos posteriores. De acordo com o Mapa da Violência, na década seguinte à sua aprovação, o Estatuto do Desarmamento ajudou a salvar a vida de cerca de 133 mil brasileiros. Apesar desses avanços, agora se articula o desmantelamento de uma lei largamente discutida, democraticamente votada e universalmente executada por diferentes governos.

A consolidação de uma regulação responsável de armas e munições no país é uma ação de longo prazo e é preciso orientar todos os esforços para superar os desafios com os quais ainda somos confrontados. Tais esforços precisam ser feitos em contínua colaboração com os estados e quadros técnicos e profissionais que se dedicam ao enfrentamento dos desvios e tráfico ilegal de armas e munições, à redução da criminalidade e à prevenção da violência no país.

Neste sentido, precisamos aperfeiçoar, por exemplo, os mecanismos de marcação de armas e munições e a qualidade das informações necessárias para permitir o rastreamento de armas desviadas para a ilegalidade e utilizadas na criminalidade, o que contribuirá para o esclarecimento de delitos.

Como ex-ministros e cidadãos, estamos convencidos de que ampliar o acesso às armas e o número de cidadãos armados nas ruas, propostas centrais dos decretos publicados pelo Executivo federal, não é a solução para a garantia de nossa segurança, de nosso desenvolvimento e de nossa democracia.

Ao invés de flexibilizar os principais pilares do controle de armas e munições de nosso país, precisamos proteger o legado das conquistas que protagonizamos e concentrar nossos esforços na função primordial do Estado: garantir o direito à vida e a segurança para todos.
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A frase

Há frases que sobrevivem aos seus autores – em muitos casos porque são atribuídas a autores errados. Nem o Humphrey Bogart nem a Ingrid Bergman pediram ao pianista Sam que tocasse As Time Goes By outra vez, no Casablanca, o que não impediu que fosse a música mais lembrada do filme. Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, deixou uma penca de frases para a posteridade. Estranhamente, a autenticidade das suas citações está só agora sendo debatida. O verdadeiro autor da tirada “sempre que ouço falar em cultura, pego o meu revólver” seria não o magro Goebbels, mas o gordo Hermann Goring, que disputava com Goebbels um lugar no coração do Führer. E agora surge outra revelação: a frase faria parte de uma peça intitulada Schlageter, lançada em Berlim em 1933. Enfim o autor.

Goebbels nunca reivindicou a autoria da frase famosa porque, de certo, achava que merecia todas as glórias de uma boa sacada, mesmo as emprestadas. Também, como intelectual do regime e atento a tudo que desmoronava à sua volta, inclusive o sacrifício dos seus próprios filhos e o seu suicídio no bunker de Hitler, Goebbels deve ter visto seu final como um misto de castigo pelos seus crimes e triunfalismo trágico pela sua fidelidade. Se todas as vezes que ouvisse falar em cultura tivesse sido mais rápido no gatilho, talvez o delírio nazista tivesse durado mais um pouco, ou menos. Para as crianças no bunker não faria diferença.

A frase de Goebbels que não era de Goebbels teve várias versões. Groucho Marx: “Sempre que ouço alguém falar em cultura, pego a minha carteira”. Possível outra versão da frase do Groucho: “Sempre que ouço falar em cultura, escondo minha carteira”. No Brasil do governo Bolsonaro, a escolha Cultura/revólver já foi feita.

Luís Fernando Veríssimo
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Mídia tenta esconder Festival Lula Livre

Foto: Ricardo Stuckert
Nem a chuva chata e incessante reduziu a energia e a alegria dos milhares de participantes no domingo (2) do Festival Lula Livre. Segundo os organizadores, cerca de 80 mil pessoas passaram pela Praça da República, no centro de São Paulo, para manifestar seu repúdio à prisão arbitrária do ex-presidente e contra os abusos de poder da midiática operação Lava-Jato.

No meio daquela multidão encharcada era fácil verificar que a maioria era constituída de jovens – que cantarolaram inúmeras músicas e gritaram palavras de ordem em defesa da libertação de Lula e contra o “capetão” Jair Bolsonaro. Artistas de renome exibiram suas canções e sua arte de forma generosa e solidária. O festival foi belíssimo, emocionante.

Apesar do êxito, a mídia monopolista escondeu a atividade. A festa da solidariedade não teve os holofotes das emissoras de tevê e nem foi capa dos jornalões. As poucas notinhas publicadas ou postadas sobre o evento tentaram estimular a cizânia entre as forças que organizaram o festival, amplificando a falsa tese de que a luta por Lula Livre atrapalha outras batalhas – como a jornada em defesa da educação.

A mídia monopolista sempre nutriu um ódio de classe visceral ao ex-presidente. Ela nunca tolerou o ciclo político aberto com a vitória de Lula. Ela fez de tudo para desestabilizar os governos democráticos e populares. Com o falso e seletivo discurso ético, a mídia udenista foi protagonista da demonização da política – o que pavimentou o terreno para o golpe dos corruptos que derrubou Dilma Rousseff e alçou ao poder a quadrilha de Michel Temer.

Essa mesma negação da política ajudou a chocar o ovo da serpente fascista no país, o que explica a vitória do truculento Jair Bolsonaro e a formação do seu governo de laranjas e de milicianos. Parte da mídia não morre de amores pelo “capetão”, temendo principalmente a regressão nos costumes e o autoritarismo na política. Mesmo assim, teme ainda mais o ex-presidente Lula, e faz de tudo para invisibilizar sua existência ou os atos em seu apoio.

Diante dessa censura, a nova mídia – constituída por milhares de ativistas digitais – tem sido decisiva para furar o bloqueio. As emissoras de rádio e televisão, os jornalões e os sites da mídia monopolista sabotaram e censuraram o festival Lula Livre desse domingo. Mas os site e blogs alternativos e as redes sociais divulgaram ao vivo o emocionante ato de solidariedade e generosidade.

* * *

Carta do ex-presidente Lula aos participantes do Festival Lula Livre: 

“Agradeço de coração a cada uma e a cada um de vocês, artistas e público, que nesse 2 de junho fazem da praça da República a Praça da Democracia. Embora tenha o nome de “Festival Lula Livre”, sei que esse é muito mais que um ato de solidariedade a um preso político. O que vocês exigem é muito mais que a liberdade do Lula. É a liberdade de um povo que não aceita mais ser prisioneiro do ódio, da ganância e do obscurantismo.

Esse ato é na verdade um grito de liberdade que estava preso em nossas gargantas. Mais que um grito, um canto de liberdade. O canto dos trabalhadores que não aceitam mais o desemprego e a perda de seus direitos. O cantos dos estudantes, que não aceitam nenhum retrocesso na educação. O canto das mulheres, que não aceitam abrir mão de nenhuma conquista histórica. O canto da juventude, que não aceita que lhe roubem os sonhos, e da juventude negra em particular, que não aceita mais ser exterminada. O canto dos que ousam sonhar, e transformam sonhos em realidade.

Boa parte de vocês que aí estão, artistas e público, felizmente não viveram os horrores da ditadura civil e militar instalada em 1964, essa que alguns querem implantar de novo no Brasil. Foi um tempo em que a luta contra a censura podia ser traduzida em canções que diziam assim: “Você corta um verso, eu escrevo outro”.

Foi com muita luta que conseguimos acabar com a censura neste país. E não vamos aceitar essa outra forma de censura, que é a tentativa de acabar com as fontes de financiamento da arte e da cultura. Que não vamos aceitar a tentativa de censurar o pensamento crítico, estrangulando as universidades.

Se eles arrancam nossas faixas, nós escrevemos e botamos outras no lugar. E vamos continuar ocupando as ruas em defesa da educação, da saúde, públicas e de qualidade; das oportunidades para todas e todos; contra todas as formas de desigualdade e de retrocesso.

Nossos adversários querem mais armas e menos livros, menos música, menos dança, menos teatro e menos cinema. E nós insistimos em ler, escrever, cantar e dançar, insistimos em ir ao teatro e fazer cinema.

Nada mais perigoso para nossos adversários que um povo que canta e é feliz. Que faz da arte e da cultura instrumentos de resistência. Vamos então à luta, sem medo de sermos felizes, com a certeza que o amor sempre vence.

Um abraço, com muita saudade e a vontade imensa de estar aí,

Lula

Altamiro Borges
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Xadrez de Guedes e Moro, as âncoras levadas pelo vento

Um não faz nada, esperando as dez medidas. O outro nada faz, esperando a Previdência.


Peça 1 – a impaciência e a economia

O nível de paciência da opinião pública com o governante é diretamente proporcional ao bem-estar econômico. Com a economia indo bem, há paciência até com governantes ligados a milícias. Com a economia indo mal, nem Dom Pedro 2º resistiu.

Com suas pirações, Bolsonaro gastou mais cedo do que se esperava o bônus de início de mandato. Além disso, as consideradas duas âncoras do seu governo – os Ministros Paulo Guedes e Sérgio Moro – se mostraram despossuídos de qualquer peso político.

No front do combate ao crime, o Ministro Sérgio Moro, é incapaz de qualquer articulação operacional. No front do combate à crise, Paulo Guedes, incapaz de qualquer atuação pro-ativa.

Ambos se refugiam no álibi da responsabilização de terceiros, no caso o Congresso. Sérgio Moro nada faz e diz aguardar a votação do tal pacote das dez medidas – criticado pela maioria dos juristas e especialistas. Paulo Guedes, menos ainda, aguardando a reforma da Previdência.

Sendo aprovadas ou não, as duas propostas desnudarão definitivamente a falta de estatura de ambos os Ministros. Nem a reforma da Previdência resolverá a questão da crise econômica, nem os dez mandamentos de Moro deterão o avanço das organizações criminosas, piorando ainda mais a imagem de Bolsonaro, estreitamente ligado à mais barra-pesada de todas as organizações, as milícias.

Não é por outro motivo que os templários do liberalismo, como Marcos Lisboa, começam a alertar que a reforma da Previdência não será suficiente para tirar o Brasil do sufoco.  Em breve aparecerão outros álibis para a não recuperação da economia.

Com 13 milhões de desempregados, o desalento tomando conta do país, não tem foro de São Paulo, marxismo cultural, lavagem de pênis que fortaleça o governo. A cada dia que passa aumentará a intolerância com a incompetência de Bolsonaro.

Peça 2 – investimentos externos

A manutenção do governo Jair Bolsonaro compromete profundamente a entrada de capital estrangeiro no país. A atuação internacional da dupla Bolsonaro e Ernesto Araújo, os vínculos de Bolsonaro com as milícias, sua retórica antidemocrática, o aumento estrondoso da violência policial, com os fatores Sérgio Moro-Wilson Witzel, as maluquices do Ministro da Educação, o terraplanismo do Ministério, o desmonte das leis de proteção ambiental, tudo isso  transformou o Brasil em um pária internacional.

Quem irá investir em um país governado por terraplanistas sanguinários?

A miragem das reformas durará até o momento em que forem aprovadas (ou não). Aí acontecerá o mesmo que na reforma da legislação trabalhista. Foi prometida a volta do emprego, e o desemprego aumentou por conta da política econômica, e a informalidade explodiu, por conta da mudança legal. Caindo na real, a opinião pública se dará conta da mediocridade generalizada do governo.

Dificilmente haverá muito espaço para novos blefes.

Peça 3 – a desfuncionalidade da política interna

Hoje em dia, o Congresso se tornou avalista da reforma da Previdência, muito mais do que Bolsonaro. Na política interna, ele se comporta como macaco em loja de louças, atrapalhando todas as articulações com uma falta de discernimento que beira a idiotia.

A queda vertiginosa de sua aprovação no mercado é prova maior dessa perda de referência. O mercado tem pouca importância econômica, como proporção do PIB, mas grande importância na geração de expectativas. O pessimismo do mercado está se alastrando por outros setores do empresariado. Cada vez mais, Bolsonaro passa a ser visto como impedimento para a normalização da economia.

Peça 4 – o desmonte do país

Por outro lado, todas as políticas públicas estão sendo submetidas a um desmonte irresponsável. Educação, segurança, vigilância sanitária, meio ambiente, saúde, tudo coroado por essa irresponsabilidade de fixar uma Lei do Teto inviável.

Peça 5 – o fator Bolsonaro

Em alguns momentos, Bolsonaro toma a dose de remédios adequada, segura o caçula Carlos, e permite alguns dias sem crise. Mas logo em seguida tem recaídas. Não adianta esperar que ele ganhe juízo. Um presidente não pode permanecer permanentemente em silêncio, ainda mais uma pessoa como Bolsonaro, que se fez pelas redes sociais. Tendo de falar, Bolsonaro é irremediavelmente idiota. Não há a menor possibilidade de uma frase inteligente, uma observação de bom senso. E há o efeito potencializador de neuras, do ambiente familiar. Pai e três filhos são inseparáveis e a única maneira de se sentirem vivos, enquanto clã, é provocando conflitos a torto e a direito.

Finalmente, leve-se em conta que, cessado de vez o período de carência de alguém recém-eleito – e o período de graça de Bolsonaro foi encurtado pelas impropriedades cometidas – haverá bem mais de um motivo para ser impichado, das ligações com milícias ao recebimento de parte do dinheiro arrecadado pelos assessores do filho Flávio Bolsonaro.

Duas coisas podem prorrogar um pouco sua vida política. A primeira, a percepção de que sua saída poderá atrapalhar a aprovação da reforma da Previdência. A segunda, o fator Lula.

Por outro lado, levar Bolsonaro nas costas durante todo seu mandato será comprometer definitivamente, para as próximas eleições, a bandeira do antilulismo – a única que mantem coeso o grupo que se articulou para o impeachment.

Por tudo isso, a probabilidade maior continua sendo de queda de Bolsonaro.

Luís Nassif
No GGN
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