3 de jun. de 2019

Inebriados pelo poder, militares avalizam a liquidação do Brasil


No mundo desenvolvido e nas nações medianamente civilizadas, os militares cumprem em geral um papel de protetores da fronteira. No Brasil, desde a Proclamação da República, as Forças Armadas exercem, com mais ou menos intensidade, o protagonismo na vida política. Fuzis sempre apontados em direção à nuca dos civis, os fardados pairam como uma ameaça, enquanto fingem ser os garantidores da ordem institucional. Não é diferente agora. Com mais de 100 representantes aboletados nos ministérios e autarquias, os generais são a força mais visível a sustentar no poder um presidente desprovido de ideias e pudor. Há uma agravante. Em troca das sinecuras associadas ao poder, o comando joga na lata de lixo os compromissos com a defesa da soberania e do patrimônio nacional.

O ministro de Minas e Energia, almirante Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Júnior, estabeleceu um marco simbólico do novíssimo pensamento militar ao tratar das reservas de urânio, último minério do território nacional com monopólio da União assegurado pela Constituição. O Brasil, resume Albuquerque Júnior, deveria abrir mão da exploração exclusiva do mineral, rara fonte de energia, posição que agrada a muitos dos “parceiros” estrangeiros, a começar pela China.

“Depois da Embraer e da base de Alcântara, o monopólio do urânio está por um fio”

A relação esquizofrênica do governo atual com os chineses é um capítulo à parte. O Brasil só não mergulha em um colapso total por causa da voracidade do “Império do Meio”, cujas compras de produtos nacionais garantem um superávit anual no comércio entre os países de 30 bilhões de dólares. As Forças Armadas, a exemplo do chanceler Ernesto Araújo, parecem convencidas, porém, de que a China representa a mesma “ameaça” encarnada pela União Soviética no século XX e que a única maneira de evitar o avanço do Mal seria uma submissão aos Estados Unidos, única potência capaz de defender os valores ocidentais e cristãos. Em nome dessa visão de mundo equivocada, a defesa de um projeto nacional torna-se secundária e démodé.

A posição de Albuquerque Júnior reflete essa virada de 180 graus no pensamento militar e nacionalista que levou à criação da Petrobras no segundo governo de Getúlio Vargas 66 anos atrás, passando por proezas como a fundação da Embraer há 50 anos. A adesão à ideologia neoliberal que não vê problema em ceder o patrimônio mineral, energético e tecnológico a potências estrangeiras por um almirante antes visto como um defensor dos interesses pátrios, ex-diretor-geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha, é representativo dessa metamorfose. A independência dos militares evidenciada, por exemplo, no rompimento do acordo militar Brasil-Estados Unidos pelo ditador Ernesto Geisel em 1977 foi substituída por uma postura semelhante à de um síndico diante de um condomínio a ser administrado, sugerem alguns analistas. A prioridade passou a ser adaptar-se a uma certa realidade econômica e optar por um modelo muito mais gerencial-contábil do que estratégico.

É o que indica também esta resposta dada pelo próprio Albuquerque Júnior a CartaCapital em 2017, quando perguntado sobre o risco de a onda de desnacionalização resultar em interferência econômica prejudicial ao patrimônio do pré-sal: “Eu não vou entrar nesse aspecto econômico de desnacionalização ou não. O aspecto mais importante não é se é meu ou se é seu, mas, se está aqui, eu tenho que ter condições de defendê-lo e de protegê-lo”.

A mesma postura de administrador de condomínio ou de empresário de olho apenas na linha de custos do balanço preponderou também na decisão de abrir a base de Alcântara aos EUA diante da escassez de recursos locais para o programa espacial.

Dados da Marinha evidenciam a importância do urânio brasileiro no cenário mundial. Entre os países com as maiores áreas, populações e PIBs, só os Estados Unidos, a Rússia e o Brasil possuem o mineral e dominam todas as etapas tecnológicas para o uso pacífico da energia nuclear. O monopólio do minério é estrategicamente importante à segurança energética e militar, como combustível do submarino de propulsão nuclear em construção pela Marinha, arma de grande poder de dissuasão, indispensável à defesa eficaz do pré-sal e demais riquezas marítimas.

A justificativa do ministro para abrir as minas aos estrangeiros é que “não adianta dizer que esta riqueza é sua se o Brasil não tem condições de explorá-la e protegê-la”, afirmou o almirante ao jornal Valor. O argumento é singular, pois a história mostra que essas condições nunca são dadas, mas conquistadas e construídas pelos países em longos processos políticos e econômicos.

A exploração das minas de urânio de Caetité (BA) e Santa Quitéria (CE) passará, segundo o ministro, por parcerias externas. “Durante todo esse período de monopólio houve uma dificuldade muito grande na extração do urânio. A exploração da mina de Caetité realmente apresenta muitas dificuldades, mas, em vez de definir uma política para reorganizá-la, o que o governo faz? Propõe a entrega da exploração. É um equívoco. Se está malfeito, então vamos corrigir em vez de achar que o problema é não ter capital estrangeiro ou capital privado”, argumenta o deputado federal Carlos Zarattini, do PT.

MOURÃO ESTEVE COM XI JINPING
FOTO: ADINILTON FARIA/VPR

Segundo Albuquerque Júnior, a China reafirmou à delegação brasileira chefiada pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão, durante visita recente àquele país, ter grande interesse em todas as áreas de geração de energia, em especial na nuclear. Em atitude inédita, o presidente Xi Jinping recebeu pessoalmente o vice Mourão e confirmou a sua vinda ao País, em novembro, para a cúpula dos BRICS. Abrir mão do monopólio do urânio não é, entretanto, a única solução. “Os chineses queriam muito fazer um acordo para obtenção de urânio, mas o Brasil, durante o governo Lula, nunca aceitou”, compara o ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa Celso Amorim. A recusa visou “preservar essa riqueza para nós, porque é muito estratégica. É complicado você fazer uma parceria e depois não saber bem onde vão parar as coisas. Nesse caso é o Estado que tem de incorporar. São coisas básicas e você não pode entregar para outros”. O grande interesse de Pequim deve-se ao fato de os chineses não terem urânio suficiente. “Não tenho nada contra o chinês, o americano, eu sou a favor do Brasil, só isso. E certas coisas têm custo, não há como escapar e o Estado tem de arcar com esse custo”, sublinha Amorim.

O ministro Albuquerque Júnior apoia inclusive a assinatura do protocolo adicional do Tratado de Não Proliferação Nuclear, que ampliaria as inspeções internacionais às quais o Brasil teria de se submeter, desde que sejam negociadas salvaguardas. A hipótese, com ou sem salvaguardas, é repelida por vários ex-colegas de farda do atual ministro. A questão do monopólio é tão importante que foi um dos motivos do mencionado rompimento do acordo militar Brasil-Estados Unidos, assinado em 1952 pelos presidentes Getúlio Vargas e Harry Truman para a defesa do Hemisfério Ocidental. Não foi a única causa da ruptura porque havia também a questão dos direitos humanos. O presidente Jimmy Carter era muito crítico das torturas e assassinatos de presos políticos pela ditadura e ao programa nuclear, ameaçando, inclusive, com sanções. General mais nacionalista das últimas décadas, Geisel foi também o primeiro presidente da República a comandar a Petrobras e teria consolidado aquela visão à frente da estatal quando percebeu a dimensão estratégica e geopolítica do petróleo. “Diante da realidade da companhia, ele viu a necessidade do reconhecimento de Angola e da Organização para a Libertação da Palestina porque um dia poderia precisar do petróleo angolano e dos países árabes”, analisa um ex-diretor da empresa.

Albuquerque Júnior engrossa o coro dos defensores da venda das refinarias da Petrobras, na contramão de todas as grandes produtoras mundiais estatais de petróleo. Controlar as estruturas de refino, transporte e distribuição permite, por exemplo, moderar o impacto interno das variações da cotação externa do petróleo, mas o atual governo aparenta minimizar o risco de dolarização do preço pago pelo consumidor nos postos de diesel e gasolina. “Levaram as refinarias a operar com a metade da capacidade, nós estamos importando derivados idiotamente e o presidente do conselho de administração da Petrobras, almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira, deveria estar vendo isso e levantando essas questões. Caso as refinarias sejam vendidas, ele vai ser responsável também, na proporção da importância do seu cargo. Mas a gente não vê nenhuma visão estratégica em relação a isso. Hoje os Chicago Boys dominam a Petrobras e fazem o que bem entendem. Estão esquartejando a empresa e, principalmente, o setor fundamental das refinarias”, critica Zarattini.

Diante de um governo presidido por um capitão e integrado por mais de cem militares, empenhado na desverticalização e enfraquecimento da Petrobras, parece inverossímil que um grupo de generais, entre eles Ciro do Espírito Santo Cardoso, Pedro Aurélio de Góis Monteiro e Horta Barbosa, alarmado com o problema da segurança energética do País, tenha sido decisivo para a criação dessa empresa por Getúlio Vargas. Foi, no entanto, precisamente o que ocorreu, registra a história da companhia.

A questão da Petrobras é chave para o futuro do País e das Forças Armadas, mostra um estudo da Universidade Federal de São Carlos. Quase 70% do crescimento do valor da transformação industrial entre 1996 e 2010 deve-se a apenas dois grupos de setores, os intensivos em recursos naturais e os intensivos em escala e 57% resultam da expansão do complexo petroleiro. Sem a Petrobras verticalizada no centro da cadeia produtiva de óleo e gás não há, portanto, indústria e este é um assunto capital para os militares, pois “uma força armada que não tem indústria vai ficar dependente de forças armadas de países com indústria”, conforme alertou o professor da Universidade Federal do Ceará Manuel Domingos Neto em debate no site SOS Brasil Soberano. Nesse aspecto, o Brasil configura um caso exótico, pois já teve uma indústria que possibilitou a criação e o desenvolvimento de empresas líderes desenvolvedoras de tecnologia própria como a Petrobras e a Embraer, mas desnacionalizou a última e esfacela a primeira.
“Os militares comportam-se como meros síndicos, sem visão estratégica”
A falta de visão estratégica abrangente e a atenção quase exclusiva ao aspecto gerencial provocou, no caso da Embraer, danos estarrecedores à companhia e ao País quando da venda do principal negócio, o da aviação comercial, para a estadunidense Boeing, mostra um estudo do economista Marcos José Barbieri Ferreira, coordenador do Laboratório de Estudos das Indústrias Aeroespaciais e de Defesa da Unicamp. “A operação com a Embraer, a principal empresa estratégica de defesa do Brasil e que tem domínio de tecnologias sensíveis utilizadas em aeronaves, radares, satélites e sistemas de monitoramento foi claramente comandada pela Boeing e surgiu de um interesse e de uma necessidade da fabricante estadunidense de entrar no mercado de aeronaves a jato com capacidade abaixo de 150 assentos, no qual ela não opera”, dispara Ferreira. O ingresso nesse segmento tornou-se crucial para a companhia dos EUA desde o momento em que a sua maior competidora, a europeia Airbus, fez uma joint venture com a canadense Bombardier para a produção de aeronaves comerciais do porte das fabricadas pela Embraer.

A comparação dos dois negócios revela absurdos da transação com a empresa brasileira, autorizada pela Força Aérea e pelo governo Bolsonaro. “Em primeiro lugar, para a Bombardier o negócio da aviação comercial é pouco representativo. Enquanto na Embraer essa área representa de 58% a 60% da receita (e 90% do lucro), para a Bombardier significa cerca de 25% da receita. Além disso, o acordo com a Airbus envolveu um projeto específico, o do avião inicialmente denominado C-Series, que teve muitos problemas financeiros e algumas dificuldades operacionais. Ao contrário do caso da Embraer, que tem uma família de jatos no mercado desde 2004 e que são um sucesso mundial, com quase 1,5 mil unidades vendidas e é líder global na categoria”, detalha Ferreira.

A EMBRAER AGORA SE CHAMA COMMERCIAL.
FOTO: WANEZZA SOARES

Há outros diferenciais importantes, prossegue o economista. “Para a Bombardier, a aviação comercial não é importante. Para a Embraer, é o principal negócio. Para a canadense, esse segmento era deficitário, enquanto para a Embraer é o grande sucesso. A empresa conquistou 60% do mercado mundial nesse segmento, o que não é pouca coisa. Um ponto importante é como foi feita cada operação. No Canadá criou-se uma joint venture com sede nesse país, na qual a Bombardier tem 33,55% do capital e o governo de Quebec, 16,44%, enquanto a Airbus tem 50,01%. Aqui a Boeing tem 80% do capital e a Embraer, 20%. Olha a diferença. E há ainda a questão mais importante, que é o controle da joint venture. No caso canadense, há quatro integrantes do conselho de administração indicados pela Airbus, dois pela Bombardier e um pelo governo de Quebec. Lá há de fato uma joint venture e o controle sobre o que é produzido, onde e de que forma é compartilhado. Aqui nem o governo federal nem o de São Paulo, este o homólogo do de Quebec, entrou e a Embraer terá direito a apenas um integrante no conselho, observador, sem direito a voto.”

A decisão brasileira chega a ser desconcertante. “Mesmo a Embraer numa situação muito melhor que a Bombardier, por que não se fez um acordo ao menos tão bom quanto o dessa empresa?”, indaga Ferreira. Claramente, diz, no caso da Bombardier e da Airbus houve a constituição de uma joint venture e, aqui, uma aquisição dos negócios da aviação comercial da Embraer e isso fica muito claro no novo nome dado à empresa, Boeing Brasil – Commercial, que reflete com precisão a operação feita. Ela deixa o negócio da aviação comercial, seu core business, que passa a ser um pedaço da Boeing. Agora o centro das decisões da Embraer não é no Brasil, mas nos EUA. O que vai ser produzido, desenvolvido, de que maneira será alocada a produção, como é que vai ser feito, isso tem a ver com as decisões que vão ser tomadas de acordo com a estratégia e os interesses da Boeing.

O que restou sob controle brasileiro consiste essencialmente nos negócios de aviação militar e executiva e representa cerca de 10% do lucro e em torno de 40% da receita, calcula Ferreira. A aviação militar poderá beneficiar-se no aspecto mercadológico com a transferência da produção para os EUA e a associação ao nome Boeing, mas a aviação executiva continuará a enfrentar as dificuldades de um mercado internacional extremamente disputado. “O maior problema dessa operação é que vão cindir a empresa, desmontar uma companhia única e as unidades produtivas, os centros de pesquisa mais avançados vão ficar com a Boeing, não com a Embraer. Como dividir, por exemplo, o laboratório de realidade virtual? A capacidade de inovação e desenvolvimento da Embraer que vai sobreviver fora da área comercial ficará altamente comprometida. Há uma sinergia muito grande entre as várias áreas”, ressalta Ferreira.

Entre o desmonte acelerado e a desnacionalização da estrutura produtiva e de recursos minerais do País, a onda de tensões e o aumento da violência estimulados pela ação governamental desastrosa em todas as frentes multiplicam-se as aparições na mídia do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, na lacuna deixada pelo general Mourão após sucessivos ataques do bolsonarismo, preocupado com a acolhida do vice-presidente por parcelas do mercado. Autor de tiradas dignas de um Olavo de Carvalho, a exemplo da comparação da liberação da venda de fuzis à livre comercialização de geladeiras e televisores, Heleno parece às vezes tão exótico quanto seu chefe, apesar da patente mais alta. No fim do ano passado, referindo-se ao governo Bolsonaro, disparou outra pérola: “Se esse troço aí der errado, a única coisa boa da minha geração foi ter visto o Pelé jogar”.

HELENO, VERSÃO FARDADA DE OLAVO, AO LADO DE SANTOS CRUZ.
FOTO: MARCOS CORRÊA/PR

No Comando Militar da Amazônia entre 2007 e 2009, mostrou uma visão nacionalista a respeito da necessidade de defesa desse território. Com a decisão do STF, em 2013, favorável à manutenção da reserva indígena Raposa Serra do Sol homologada antes pelo presidente Lula, Heleno voltou-se, entretanto, contra o governo por entender que aquela proteção abria espaço para um ataque aos interesses nacionais ao criar territórios autônomos no País. Na reserva desde 2011, teve papel ativo no impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Com uma visão de soberania restrita, ao que tudo indica, à questão territorial, Heleno é um dos responsáveis pela política governamental de desmanche do Brasil e de omissão no enfrentamento dos graves problemas da economia e do desemprego, enquanto aposta todas as suas fichas no projeto de reforma da Previdência que arrisca, entretanto, chegar desidratado à votação pelo Congresso e, além disso, só resultará em economia daqui a anos. “Embora tenha chegado a general de quatro estrelas e exerça uma certa liderança na tropa, ele não representa o pensamento mais equilibrado do Alto-Comando”, analisa um militar que trabalhou com o atual ministro-chefe do GSI.

FOTO: SAULO CRUZ/MME

No contexto atual de dilapidação acelerada, custa acreditar que a economia brasileira chegou a ter, no início dos anos 1970, praticamente o mesmo perfil estrutural da indústria dos países desenvolvidos. A proeza fez parte do chamado “milagre econômico”, período de crescimento significativo durante a ditadura. O avanço só foi possível porque contava com a base industrial e as principais instituições do capitalismo brasileiro criadas por Getúlio Vargas, entre os anos 1940 e 1950, e desenvolvidas por Juscelino Kubitschek, entre a última década mencionada e o início dos anos 1960. O aço da Companhia Siderúrgica Nacional, o combustível da Petrobras, o financiamento de longo prazo do então BNDE e a Consolidação das Leis do Trabalho, entre outros requisitos providos no período varguista, colocaram a economia no rumo da modernidade. Kubitschek levou adiante a tarefa, ao impulsionar a indústria automobilística e grandes obras públicas multiplicadoras de investimentos e postos de trabalho. Nesse período, surgiram algumas das grandes construtoras nacionais que seriam beneficiadas com recursos públicos nos anos 1970, realizadoras de empreendimentos de porte no Brasil e no resto do mundo. “Em 1973, por exemplo, o peso do valor adicionado pela manufatura ao PIB foi de 29,8%, superior ao da França, de 22,1% e ao dos Estados Unidos, de 21,9%. A indústria doméstica contribuiu com 39% do PIB e a francesa, com 32,4%. A produção de máquinas, equipamentos e produtos metalúrgicos no País era superior a 30%, inferior à dos Estados Unidos, de 49,5%, mas quase igual à da Europa Ocidental”, segundo estudo da Facamp, de Campinas, que mostra o grande potencial da estrutura econômica doméstica.

O êxito econômico do regime militar não o isenta, é óbvio, da responsabilidade pelo aumento da corrupção praticada pelas construtoras, que prosseguiu nos governos civis. Assim como o sucesso na promoção do crescimento não o exime da destinação de dinheiro público a obras questionáveis como a Rodovia Transamazônica e o “Minhocão” paulistano. Nada justifica também a violência do período e o mesmo critério deve ser usado para discernir entre a barbárie do Estado Novo e todos os efeitos positivos da edificação do capitalismo nativo sob Vargas.

Os feitos econômicos dos períodos nacionalistas dos militares deveriam inspirar o comando atual do País quando se acumulam indícios de que o “troço”, na designação do general Heleno, tem tudo para não dar certo.

Carlos Drumond
No CartaCapital
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Na manhã da Globo, favela e previsão do tempo viram "matérias inspiradoras" pelas reformas


Todas as manhãs, os diversos “Bom Dia” (SP, Rio, Minas etc.) do telejornalismo local da Rede Globo desempenham uma função semiótica bem distinta dos telejornais de rede (JN, Hoje etc.) e da TV fechada. Nos telejornais de rede e GloboNews há uma repetição hipodérmica da expressão “Reforma da Previdência” (em torno de 20 a 30 vezes por hora) e más notícias econômicas como chantagem a uma categoria especial de telespectadores: os líderes de opinião. Enquanto nos telejornais locais a estratégia semiótica é outra: exibir “reportagens inspiradoras” e “boas notícias” para elevar a moral da patuleia desempregada, desalentada ou subempregada – “uberizada”. Diferente dos líderes de opinião, a massa dispersa e desatenta precisa ser motivada para elevar o moral no começo do dia. Nesse esforço motivacional nada escapa. Nem a previsão do tempo ou o evento esportivo da “Taça das Favelas”.

Sobe a música tema do telejornal Bom Dia Rio

Flávio Fachel - “Bom dia! Tá na hora do Bom Dia Rio de terça-feira!”

Priscila Chagas– Bom dia!... O sol nascendo daqui um pouquinho... vai brilhar hoje, vai rachar, a máxima de 33.

Fachel – O dia ontem foi bonito...

Chagas – O dia ontem foi lindo e hoje vai ser bonito. Vai ser uma semana sem chuva... uma notícia boa!

Fachel – A gente precisa de dias bonitos... a gente precisa dar um up!... prá cima... é ou não é?

Essa foi a abertura do telejornal local Bom Dia Rio de 28/05. Em postagem anterior discutíamos como o telejornal da poderosa emissora (que vem bancando a aventura Bolsonaro em troca da entrega da Reforma da Previdência aos seus interesses rentistas) vem sentindo o impacto do baixo astral nacional de tragédias (Brumadinho, feminicídios, desemprego, desmoronamento do PIB etc.) e tenta filtrá-lo linguisticamente ao tentar encontrar a “boa notícia” na “má notícia” – clique aqui.

Seguindo a orientação estratégica do ministro Paulo Guedes (transformou sua incapacidade em articular um plano econômico em chantagem para aprovar as “reformas”), o jornalismo global vem sistematicamente transformando imagens de filas de desempregados nas portas de empresas, os cortes na educação pública e as próprias manifestações de rua contra o “contingenciamento” em discurso de chantagem: Vejam isso! Se a reforma da Previdência não for aprovada será o caos!

Por isso, os telejornais de veiculação nacional partiram para a clássica técnica hipodérmica da repetição. Por exemplo, só na edição do JN de 30/05 repetiu-se a expressão “reforma da Previdência” 26 vezes.


Pauta binária

Segundo a observação empírica do, por assim dizer, “DataCinegnose” desse humilde blogueiro, o canal fechado GloboNews (voltado principalmente aos líderes de opinião) repete a expressão “reforma da Previdência” de 20 a 30 vezes por hora!

Numa brutal estratégia binária, a pauta do jornalismo global está dividida entre “meganhagem” (operações policiais federais ou militares contra corruptos, feminicidas etc. – sobre o conceito de “meganhagem” clique aqui) e terror/chantagem para defender as “reformas” – não só previdenciárias, mas também o “projeto anticrime" de Sérgio Moro.

Repetição e toscas interpretações de números de pesquisas. “A maioria dos brasileiros é a favor da Reforma da Previdência”, diz com um olhar sério William Bonner. Mas esconde do infográfico os números de que apenas 6% sabem do quê se trata a “Reforma da Previdência”.

Até aqui, nenhuma novidade. A função principal da mídia na sociedade é de alarme: exortar os receptores a interiorizar uma determinada pauta ou agenda.

Porém, as coisas não são assim tão simples. Desde as pesquisas de campo sobre recepção da programação de rádio e sua influência sobre o comportamento (de Paul Lazarsfeld nos anos 1930) o pesquisador da Universidade de Colúmbia descobriu que nove em cada dez receptores não assimilam as mensagens ou pela falta de interesse, ou pelos ruídos e interpretações equivocadas motivadas pela recepção dispersa e desatenta.

Seja na TV aberta ou fechada, Globo martela a expressão “reforma da Previdência” para aquele receptor único em cada dez, o emissor atento – o chamado “líder de opinião”, liderança espontâneas que no dia-a-dia repassa esta mensagem midiática martelada para a sua rede de relações sociais formada pelos receptores dispersos.


“Two-step-flow”

É um processo lento e demorado – o chamado “two-step-flow”, fluxo de transmissão em dois níveis. Por isso, a neurótica repetição discursiva global. Porém, como ficam os outros nove desatentos receptores, enquanto não forem influenciados pelos líderes de opinião?

Aqui entra o papel cada vez mais assumido pelos telejornais locais, principalmente aqueles das primeiras horas da manhã (Bom Dia SP, Rio, Minas etc.) – um papel motivacional através de “reportagens inspiradoras” - estranha categoria jornalística, expressão que de vez em quando âncoras dos telejornais pronunciam.

Principalmente no Bom Dia SP, nota-se nos últimos meses o desaparecimento das chamadas “hard news” - notícias relevantes que necessitam de abordagem mais aprofundada, principalmente nas áreas econômicas e políticas.

A pauta tornou-se bifásica: de um lado, zeladoria: links ao vivo sobre buracos nas ruas, ciclovias, mato que ocupa praças, atrasos de trens da CPTM ou defeitos em linhas do metrô (sempre sob o viés de “problemas pontuais”).

E do outro, ocupando a maior parte do tempo, o tautismo (Tautologia + autismo midiático) televisivo dos quadros fáticos (vinhetas com telespectadores alegres gritando “Bom Dia São Paulo!”; as “opiniões” das redes sociais, geralmente frases motivacionais com fotos do sol nascendo, um lindo céu sem nuvens e enunciados “construtivos” e “prá cima”) e metalinguísticos – conversas, brincadeiras e provocações jocosas entre os apresentadores Rodrigo Bocardi e Gloria Vanique.

Ou ainda as “notícias” sobre o evento promovido pela Central Única das Favelas (CUFA) desde 2012 e encampado este ano pela própria emissora (transformando-se num “evento-encenação”, Umberto Eco), a “Taça das Favelas”, cujas matérias abandonam a área esportiva para virarem “reportagens inspiradoras”. Como fossem espécie de contos de superação.

Como podemos observar nas linhas de diálogo do Bom Dia RJque abrem essa postagem, a função hardhipodérmica dos telejornais nacionais é substituída pela motivacional e inspiradora dos programas locais que abrem o dia: enquanto os líderes de opinião ainda não influenciaram esses receptores ainda dispersos em relação à pauta-chefe (Reforma da Previdência), estes precisam receber estímulos ou mensagens de esperança para começar o dia – a esperança no empreendedorismo, na superação, na livre iniciativa, na força de vontade.


Se não, vejamos dois exemplos recentes: (a) o tom moral dado à previsão do tempo e (b) o evento-encenação da “Taça das Favelas”.

(a) O “up” meteorológico

Observa-se na previsão do tempo dos diversos “Bom Dia” da Globo uma espécie de moralização das condições meteorológicas. Sol com tempo firme é “boa notícia” e chuva uma notícia incômoda, como evidencia a o tom discursivo, por exemplo, de Gloria Vanique. No Bom Dia RJ visto acima, o apresentador Flávio Fachel ainda fala que precisamos de “dias bonitos para dar um “up”.

Coincidência ou não, verificou-se em diversas vezes (o DataCinegnose não tem os números exatos...) erros nas previsões do tempo – por exemplo, Gloria Vanique se apressa nas primeiras horas do dia em dizer (em curioso tom ansioso) que “o Sol vai sair!”, “vai fazer calor e chegar a 27 graus!...”, para depois tudo continuar nublado ao longo do dia. Parece haver algum tipo de ansiedade em ter que dar “boas notícias” para levantar ao astral no contexto atual de ansiedade e preocupação.

(b) Favelas inspiradoras

Mas o evento criado pela CUFA, a Taça das Favelas, que a Globo decidiu abraçar esse ano é o evento mais acabado dessa estratégia motivacional tautista, fática e metalinguística. Explicitamente, o evento tem a função ideológica de levantar o moral de desempregados e subempregados (“uberizados”) das periferias urbanas. Escopo: transformar o campo de futebol em metáfora de superação, determinação, esperança e otimismo.

A história do demitido que pegou a verba da rescisão para ajudar a comprar a van que conduz os jogadores do time finalista Complexo Parque Santo Antônio é uma dessas “reportagens inspiradoras” – vemos imagens dele se emocionando enquanto dirige a van, lembrando de todos esforços e dificuldades que teve que passar para estar ali, diante das lentes da Globo.


Não é por menos que o time campeão foi patrocinado por um aplicativo de débito/crédito e pelo próprio Uber, uma empresa que gera tamanha precarização do trabalho que virou até categoria sociológica – “uberização”.

Se a CUFA criou o torneio em 2012 com o propósito de inclusão social por meio do esporte, o telejornalismo da Globo ressignificou, transformando o evento em um conjunto de contos de superação e esforço meritocrático para tentar elevar o moral da patuleia – colocar desempregados e uberizados para jogar bola, criando uma vitrine de esperança para telespectadores.

Globo e a guerra criptografada

Muitos analistas ainda acreditam que a Globo perdeu a paciência com o clã Bolsonaro e partiu para guerra (principalmente, depois que deu espaço às manifestações de rua contra os cortes na educação em 15 de maio). Perde-se de vista como a emissora vem sistematicamente participando da guerra semiótica criptografada do Governo: produção em massa de dissonâncias para ocupar a pauta midiática, desviando a atenção da sistemática política de criação de terra arrasada.

Globo transforma protestos contra cortes na educação em chantagem pela Reforma da Previdência
Pelos seus interesses rentistas, a Globo fecha integralmente com a reforma da Previdência (a privatização da aposentadoria pelos bancos). No máximo, opõe-se à pauta de costumes e meio ambiente dos anti-ministros do capitão da reserva. Mas, mesmo assim, é mais uma dissonância criada pela guerra criptografada.

Por isso, a dupla estratégia semiótica: primeiro, a pura e simples tática hipodérmica de repetição e manipulação tosca de número e chantagem através dos telejornais de rede, cujos alvos são os líderes de opinião.

Enquanto para a massa dispersa e desatenta que acorda a cada dia para ingloriamente trabalhar, empreender ou desalentar, mais “reportagens inspiradoras” nos telejornais locais. Com muitas imagens do helicóptero da emissora (o “Globocop”) mostrando lindos cenários do sol nascendo enquanto o radar meteorológico busca “boas notícias” ...

Wilson Ferreira
No CineGnose
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A entrevista do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto

Foto: Mariana Alves/The Intercept Brasil
O chanceler Ernesto Araújo é “ridículo” e “um louco”. O governo Jair Bolsonaro não deve passar de julho e uma eventual presidência de Hamilton Mourão não deve causar receios de uma nova ditadura militar. É assim que o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto, ex-secretário-geral do Itamaraty durante o governo Lula, avalia o atual cenário político brasileiro.

Pode causar surpresa que um embaixador renomado, com profundas ligações com o PT – Guimarães foi o número dois do Itamaraty no governo Lula, entre 2003 e 2009, abaixo apenas do então chanceler Celso Amorim – relativize a ascensão de um militar à presidência. Mas Guimarães, aos 79 anos, faz a avaliação com tranquilidade: “[Os militares] passaram 30 anos tentando limpar os aspectos negativos da ditadura para eles”, ele nos disse.

Guimarães trabalhou no Itamaraty de 1963 a 2009 e depois foi professor de política internacional e política externa do Instituto Rio Branco, a escola de formação dos diplomatas brasileiros, até 2016. Muito ligado ao PT – mas respeitado por colegas como Paulo Roberto de Almeida, crítico feroz do que chama de “lulo-petismo” –, ele defendeu, ao longo de quase duas horas de conversa, as bandeiras da política externa do governo Lula, inclusive o alinhamento com o chavismo na Venezuela.

“Jeffrey Sachs, economista americano, um comunista conhecido, calculou que 40 mil pessoas morreram na Venezuela por causa das sanções americanas”, disse, irônico – Sachs é conhecido por ter introduzido o plano econômico capitalista em países soviéticos. “Isso foi causado pelo governo do Maduro?”
O que um contínuo vai fazer no country club do Rio de Janeiro? Talvez ser garçom. A OCDE é um clube de ricos.
Guimarães, que costuma pontuar suas afirmações elevando a voz e repetindo os argumentos que acabou de tecer, direcionou suas principais farpas contra Bolsonaro. A tentativa brasileira de intervir na crise política venezuelana, para ele, é “um erro enorme”, e os comentários do ex-militar sobre uma eventual volta de Cristina Kirchner à presidência da Argentina, “um absurdo”.

“Não se dá palpite [em assuntos internos de outras nações], cada país tem sua evolução histórica, suas características, sua autonomia”, ele argumentou. Para Guimarães, Bolsonaro se esquece de que o Brasil é um país subdesenvolvido ao negociar a entrada na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE. “O que um contínuo vai fazer no country club do Rio de Janeiro? Talvez ser garçom. A OCDE é um clube de ricos”, falou. Ao comparar o sistema internacional a um avião, ele disse que o Brasil não tem sequer assento na classe econômica. “Está no compartimento de bagagens.”

Guimarães nos recebeu em seu escritório, uma sala acanhada num prédio comercial simples da Asa Norte de Brasília, a poucos minutos do prédio em que mora – que também já foi endereço, na cidade, de Bolsonaro e Mourão. Leia os principais trechos da conversa.


Sob Ernesto Araújo, o Itamaraty tem “uma visão simplista, ingênua, equivocada” sobre a geopolítica internacional, diz Pinheiro Guimarães.
Foto: Mariana Alves/The Intercept Brasil

– Em março, em Washington, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que o Brasil passaria a abrir mão do Tratamento Especial Diferenciado, o TED, na Organização Mundial do Comércio em troca de uma indicação para a OCDE. O que significa para o país abrir mão do TED?

Samuel Pinheiro Guimarães – O Tratamento Especial Diferenciado é uma reivindicação histórica dos países subdesenvolvidos. Parte do princípio de que existem países desenvolvidos e países subdesenvolvidos. Vocês já foram ao aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro? Já viram como é ali perto? Já foram ao aeroporto de Zurique? É diferente, né? Aqui é um país subdesenvolvido. Já os desenvolvidos querem extrair o máximo possível das relações de troca. O Brasil se transformou em um país totalmente exportador de produtos primários e importador de manufaturados. Quem é que exporta produtos manufaturados? Os EUA, a Inglaterra, a França, a China. Eu quero saber onde é que vão ser empregados os 13 milhões de desempregados hoje em dia. No campo? Mas o campo é altamente automatizado. Tem que ser na indústria. A maioria desses 13 milhões moram na cidade, e na cidade não se planta nada. Agora, o governo parte do princípio de que [o Brasil] é igual aos EUA, é um país desenvolvido.

Num artigo recente, o senhor disse que a luta pela redistribuição de quotas e de poder de voto no FMI e no Banco Mundial foi abandonada pelo governo brasileiro. Como isso se deu?

Nunca mais ouvi falar nisso. Porque os EUA são contra, o congresso americano é contra, isso diminui o poder americano. Você acha que o presidente Bolsonaro vai lutar para diminuir o poder americano? Eu tenho a impressão que não é bem o caso. Isso, como eles dizem, é confrontação do Brasil com os EUA. Os EUA têm uma estratégia de natureza mundial, que é impedir que em qualquer região do mundo surja um estado ou grupo de estados que possa reduzir a influência deles. Outro ponto interessante: os EUA têm mil bases no exterior, mas nenhuma no Atlântico Sul. É óbvio que a [cessão da] base de Alcântara (no Maranhão, com o acordo de salvaguardas tecnológicas) não tem nada a ver com o lançamento de foguetes. Nós iríamos receber uma quantia irrisória para termos uma parte do território fora do alcance das autoridades brasileiras. Você instala uma pista [de pouso de aviões], de grande dimensão, a pretexto de transportar o material. Uma vez que os EUA entram [num país], não saem mais, não.
‘O Ernesto é uma coisa deste tamanho. Uma coisa ridícula. É ridículo. Ri-dí-cu-lo.’
Desde que assumiu o posto, o chanceler Ernesto Araújo tem se desentendido com o setor militar do governo Bolsonaro sobre a Venezuela. A crise chegou ao auge com a ida de Araújo aos EUA para um encontro com o secretário de estado Mike Pompeo um dia antes da mal sucedida operação liderada por Juan Guaidó, e a determinação de Bolsonaro de que qualquer decisão envolvendo o país vizinho deve passar pelo Conselho de Defesa Nacional…

O presidente da Câmara já disse que a declaração de guerra é uma competência exclusiva do Congresso. Se você fosse eleito presidente da República, teria que ter a curiosidade de ler a Constituição, né? Para saber quais são os poderes do Executivo, Legislativo, Judiciário, saber que é o presidente da Câmara quem autoriza os pedidos de impeachment. Sozinho. Aparentemente, essa curiosidade não acometeu o presidente Bolsonaro.

Quanto ao chanceler Ernesto Araújo…

(Interrompendo) Eu só falo sobre política, não falo sobre o Ernesto. O Ernesto é uma coisa deste tamanho (sinaliza algo pequeno com a mão). Uma coisa ridícula. É ridículo. Ri-dí-cu-lo (enfático, separando as sílabas). No discurso de formatura dos alunos do Instituto Rio Branco, o ministro Ernesto Araújo comparou o presidente Bolsonaro a Jesus Cristo. E chorou quando fez isso. Isso não existe na história do Brasil e nem na história do mundo, um ministro ter comparado o chefe de Estado a Jesus Cristo.

Várias coisas parecem ser inéditas no governo.

Em parte. Porque o acordo de salvaguardas tecnológicas [de Alcântara] foi negociado na época de Fernando Henrique Cardoso, que teve como seu precursor Fernando Collor. Teve uma pequena interrupção com Itamar Franco, que foi ridicularizado. Por que ele foi ridicularizado? Porque não seguia a mesma política [externa] de Collor. Depois FHC assinou um ato de não-proliferação [de armas nucleares] que é, digamos, o ato mais grave da história do Brasil na política externa.

Por quê?

Porque nós não éramos membros do tratado e [assim] poderíamos, teoricamente, desenvolver armas nucleares. O mundo é dividido em duas classes de Estados: os de primeira classe, que podem deter armas nucleares e são membros permanentes do Conselho de Segurança, e os demais, que não eram obrigados a assinar o tratado de não-proliferação. A pretexto de que isso ia gerar um desarmamento mundial, o Brasil assinou sem que ninguém houvesse pedido.

Um embaixador bastante experiente relatou ter ouvido de um político de alto coturno do Legislativo que Ernesto Araújo é “esquizofrênico”. O que senhor acha dele?

Não tenho capacidade para inferir se ele é uma pessoa esquizofrênica ou não. Eu acho que ele parte de princípios equivocados, que o Brasil enfrentava os EUA [durante os governos do Partido dos Trabalhadores], só se relacionava com governos de esquerda. Isso é um absurdo. O Brasil fez um contrato de compra de caças com a Suécia. Ao que me consta, a Suécia não é um país comunista de esquerda. Fez o contrato do submarino nuclear com a França. É tudo ignorância.

Voltando a Ernesto Araújo, ele tem sido continuamente desautorizado pelos militares. O senhor se lembra de algum governo, no período democrático, de um chanceler se submeter dessa forma ao setor militar do governo?

Não. No período em que eu estava na secretaria-geral [do Itamaraty], nós tínhamos as melhores relações com o ministro da Defesa, os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica, [eles eram] extremamente cooperativos. Não havia nenhuma dificuldade, nunca houve.

Na sua visão, o que há hoje entre o Itamaraty e os militares, em um governo que é formado basicamente por militares?

Não, não é formado basicamente por militares. São sete militares de 23 [ministros].

Mas o núcleo duro, por assim dizer, é militar.

O núcleo duro do governo é o ministro da Economia.

Nesse caso, qual é o papel do Itamaraty?


Não sei, não sou ministro das Relações Exteriores, não sou secretário-geral, não me interesso…

Mas o senhor deve acompanhar, naturalmente.


Quem tem a maior influência no Itamaraty, diz a imprensa, é o deputado [federal pelo PSL de São Paulo] Eduardo Bolsonaro, o assessor Filipe Martins, que tem 35 anos (na verdade, tem 31) e uma vasta experiência em política externa sem ter jamais exercido cargo nesta área. São pessoas com visão [de mundo] baseada em seu orientador espiritual, Olavo de Carvalho, que se expressa no Twitter com palavrões seguidos.

O senhor já escreveu que, dado o número de vizinhos, a disparidade de dimensões, os ressentimentos históricos do processo de formação do território brasileiro são motivos para o Brasil nunca interferir nos processos políticos dos Estados vizinhos. Qual o tamanho do erro que pode estar sendo cometido pelo Brasil ao tentar interferir em assuntos internos venezuelanos?
‘Se você for uma pessoa que não tem experiência, para os outros países é uma festa.’
Tentar, não. Está interferindo, sem poder e sem força para tal. Servindo apenas como ajudante dos EUA. É um erro enorme. O Brasil é 50% da América do Sul em território, mais ou menos. Dos outros países, o que tem maior dimensão territorial é a Argentina, que tem um terço do território brasileiro. Os outros são ainda menores. A população do Brasil é cerca de 50% [da do continente], 210 milhões, os outros têm 40 milhões. O Chile tem 15 milhões de habitantes. [Mas] Todo dia nos jornais dizem que nós temos que seguir o modelo do Chile, um país pequeno. O Brasil é um país diferente. Quem já foi ao Paraguai e leu o jornal ABC sabe o que eles pensam do Brasil, que eles foram espoliados, destruídos (na Guerra do Paraguai). E há os ressentimentos entre eles, entre Argentina e Uruguai, entre Argentina e Chile, entre Chile, Peru e Bolívia, entre a Colômbia e o Equador, entre a Colômbia e a Venezuela. Esses países às vezes procuravam a ajuda do Brasil, a mediação do Brasil, o que é uma coisa muito delicada. Isso permitiu ao Brasil, por exemplo, ter ótimas relações com a Colômbia durante o mandato do presidente [Alvaro] Uribe, e depois aquele outro, [Juan] Manuel Santos. (Irônico) E não me consta que o presidente Uribe fosse marxista cultural, nem que fosse ao Foro de São Paulo, e nem que o Foro de São Paulo tivesse essa importância toda. O Foro de São Paulo era uma reunião dos partidos democráticos de esquerda.

O PT não cometeu esse mesmo erro ao dar suporte ao chavismo e, posteriormente, a Maduro?


Na Venezuela, foram realizadas 23 eleições. Todas, exceto as mais recentes, com aprovação do Centro Carter, todas consideradas legítimas, tudo direitinho.

A última não.

Eu fui observador ali, havia candidato da oposição, teve 5 milhões de votos, e os jornais dizem aqui que não houve candidato de oposição. [Houve] Os que não quiseram concorrer!

Alegando que as condições eram desiguais.


Eu estive na Venezuela, toda a imprensa é livre. As televisões, os jornais circulam livremente, esculhambam – esculhambam não, criticam o governo ferozmente. Você deve consultar um estudo do Jeffrey Sachs, economista americano, (irônico) um comunista conhecido, não é? [Dele] e do Mark Weisbrot, que calcularam o número de vítimas decorrentes das sanções americanas. São 40 mil pessoas que morreram por causa das sanções. Isso foi causado pelo governo do Maduro? Só o governo Trump não cometeu erros. Ele [e os presidentes Emmanuel] Macron e [Mauricio] Macri, aliás, muito populares na França e na Argentina. O Macri com 38% da população abaixo da linha de pobreza! (Na verdade, segundo levantamentos mais recentes, são 32%).

Mas o governo Maduro também cometeu erros, não?


Mas quais são os erros de Maduro? Eu quero que você me diga quais são. Você não sabe, porque não tem. É tudo uma onda de propaganda extraordinária que parte do seguinte princípio: o governo é autoritário. Quantos políticos estão presos na Venezuela?

Leopoldo López estava preso.


Leopoldo López! Um!

Mas um preso político já é muita coisa, não?


Esse sujeito é um criminoso, estava preso por razões criminais. Cometeu crimes e depois foi solto. Se você tem num país um sujeito que diz que vai derrubar o governo, o que acontece em geral? Você acha que é uma infração à lei. Acho que é, né? E agora foi solto. Mas quero que você me dê a lista dos presos políticos na Venezuela. (A ong venezuelana Foro Penal estimou, há alguns dias, que mais de 2 mil pessoas foram presas por motivos políticos no país, das quais 857 seguem detidas.)

O senhor acha então que é tudo uma armação contra Maduro?


Mas é claro que é!

Os venezuelanos que chegam ao Brasil, em Roraima, relatam que passavam fome.


Eles podem relatar o que for, inclusive para receber abrigo. Porque, se disser: “Olha, eu estou muito bem lá…”

Mas quem pede abrigo está passando necessidade, não?
‘Ele [Araújo] disse que a Polônia é um país de enorme potencial econômico. No reino da fantasia, tudo é possível.’
Eu acho que o 1,5 milhão de brasileiros que foram para o exterior deviam estar numa situação muito séria também, não? [A Venezuela] É um país que está sob intervenção! Há uma série de sanções, que naturalmente criam grandes dificuldades para a economia, dificuldades de emprego e assim por diante. Você quer o quê? Se fizessem isso com o Brasil, em meia hora o país já tinha se entregado. Meia hora. Tem que entender como funciona o sistema internacional, que não é formado por estados soberanos e iguais. Existe um império, um só, o império americano. Dentro dele, há os Estados Unidos, o centro do império, e os estados que são soberanos, entre aspas, que são províncias de diferentes níveis. Então, sempre que há uma província rebelde, o império tem que reenquadrá-la. Você acha que a Venezuela representa algum risco de segurança para os EUA? Que o exército venezuelano apresenta risco de segurança ao exército americano? Que a Venezuela pode invadir os EUA? Mas é preciso ser exemplar, compreende? Como na escola, quando um menino joga uma bolinha de papel na professora, ela tem que reagir com firmeza, botar de castigo. Senão, amanhã vai estar todo mundo jogando bolinha de papel. Depois de amanhã, apagador de giz; depois, pedra. Há três províncias rebeldes hoje em dia: a Venezuela, o Irã e a Coreia do Norte, onde tem que haver mais cuidado, porque [o país] tem arma nuclear. Se o Iraque tivesse armas de destruição em massa, como foi anunciado na época, não teriam invadido. Há também as províncias de primeiro nível, que têm capacidade legal de ter armas nucleares: Inglaterra, França, China e Rússia – essas duas estão fora do império, são adversárias dele. Se você ler as declarações do (chefe do Comando Sul das forças armadas norte-americanas,) almirante Craig Faller, ele nomeia quem são os países adversários dos EUA. Achar que a Venezuela é um adversário dos EUA é uma coisa absurda.

O senhor acredita que acabará havendo uma intervenção militar estrangeira na Venezuela?


Em hipótese alguma. Para invadir o Iraque, os EUA concentraram na fronteira [do país do oriente médio] 600 mil homens. Antes de invadir. Não se invade um país assim. É complicado. (Na verdade, foram 177 mil soldados, dos quais 130 mil eram norte-americanos. Ainda assim, é quase um terço da população de todo o estado de Roraima, estimada em 576 mil pessoas em 2018.) Isso que houve ataques aéreos antes para destruir as defesas e depois a invasão. E até hoje não se conseguiu dominar a situação. Eles [os EUA] querem montar uma força multilateral, com o Brasil e outros Estados da região, eles naturalmente fornecendo tudo e liderando e querem provocar dentro da Venezuela, com as dificuldades humanitárias e econômicas de todo tipo – eles cortaram tudo, até acesso aos bancos. Para lá enfrentar a China e a Rússia. Tudo isso é um jogo muito difícil, muito complicado, muito delicado.

Qual o risco para o Brasil de ter um tabuleiro dessa nova guerra fria na sua fronteira?


Não tem nenhuma vantagem para nós. Vamos supor que o Macri perca na Argentina, o que é uma probabilidade, segundo os jornais. E o presidente Bolsonaro já aproveitou a oportunidade para intervir na política interna da Argentina, ao declarar que [a eventual eleição de Cristina Kirchner] seria criar “uma nova Venezuela ao sul do Brasil”. Um absurdo, contraria todos os nossos interesses. A Argentina é um dos principais parceiros comerciais, de investimentos, grande parte do turismo no Brasil é de argentinos. Não se dá palpite, cada país tem sua evolução histórica, suas características, sua autonomia. Isso é que permite haver um certo sistema internacional, ou pelo menos a aparência dele, para organizar certas coisas até um certo limite. Então, tudo isso só nos prejudica no longo prazo. [O Brasil] Não ganha nada, não ganhou nem a questão da OCDE agora, apesar de fazer uma concessão enorme. O que um contínuo vai fazer no country club do Rio de Janeiro? Talvez ser garçom. A OCDE é um clube de ricos. Tem o México, que os EUA botaram para dentro devido ao Nafta. Mas não é um país desenvolvido, basta acompanhar o noticiário.

Mostramos, há alguns dias, que o BID tem um plano preparado para irrigar a Venezuela com bilhões de dólares assim que Nicolás Maduro seja derrubado. É uma notícia que o surpreende? Qual a força do governo dos EUA num organismo multilateral mas sediado em Washington e do qual os próprios EUA são os principais acionistas? Até que ponto instituições como o BID são usadas pela Casa Branca para atingir seus interesses?
‘[O Brasil] está no compartimento de bagagens.’
[O governo dos EUA é o] Principal acionista e comandante da área operacional, tanto do Banco Mundial quanto do BID. Há muitos anos atrás, creio que no governo [do republicano Ronald] Reagan, se falou em mudanças sobre o Fundo Monetário Internacional. Daí o secretário do Tesouro norte-americano foi ao congresso de lá dar um depoimento sobre a importância do FMI e explicou o seguinte: o Fundo permite que os EUA imponham a sua política sem aparecer. O Departamento do Tesouro tem enorme influência sobre esses organismos. Nada é aprovado sem os EUA, nada. Sempre foi assim. (Irônico) Desculpe, eu estou muito radical hoje (ri). Deveria estar menos radical. Mas você viu o editorial da Folha de hoje? É de uma violência extraordinária: [fala em] ‘bando de lunáticos” que cercam o presidente. Bando de lunáticos!

O senhor concorda?

Estou só dizendo o que diz o editorial da Folha. Os editoriais da Folha, do Estado, têm sido muito críticos, muito contundentes. Como eu dizia lá atrás, há províncias de primeiro grau, que se sentam na classe executiva. Mas o piloto não vai à classe executiva perguntar como deve conduzir o avião. Nunca os EUA perguntam à França, à Inglaterra, o que fazer. Vão lá e fazem. Depois vem um pessoal tipo Japão, Alemanha, que foram adversários na guerra, mas também não são muito escutados. Em seguida, aqueles europeus tipo Itália, Espanha, Portugal (novamente irônico), aquele lixo mestiço, católico, papista. Depois a Europa oriental, que [para os EUA] não têm a menor importância…

Usando a metáfora que o senhor fez há pouco, o Brasil está na classe econômica do avião?

Não. Está no compartimento de bagagens.

Um veterano embaixador nos disse que Ernesto Araújo promoveu uma “revolução cultural como a chinesa” no Itamaraty, ao subverter a hierarquia colocando gente com menos tempo de carreira para comandar diplomatas veteranos. São ministros de segunda classe mandando em embaixadores, ou coronéis mandando em generais. Qual o efeito disso num órgão afeito à tradição e à hierarquia como o Itamaraty?

Não é que é afeito à hierarquia, é que [em relações exteriores] experiência conta. Quando você entra no Itamaraty, ainda que seja um gênio, você será um subordinado. Depois, vira chefe de divisão, depois de departamento, depois subsecretário. Ao exterior, primeiro se vai como secretário, depois conselheiro, depois ministro, e vai adquirindo experiência observando os outros, vendo as diferentes situações. Se você for uma pessoa que não tem experiência, para os outros países é uma festa.

Tem sido?

É claro, é só você observar. Uma festa. Nenhum ministério tem uma visão global [do governo] além do Itamaraty e, um pouco, das forças armadas. A chancelaria desenvolve a experiência no trato com os outros estados, que têm os seus interesses. Existe a experiência na negociação. Se você chega e tira as pessoas mais experientes, enfraquece o órgão central de contato com outros estados. Isso prejudica o país, e é tudo que os outros querem.

O atual Itamaraty está sendo ingênuo, então?


Não. Se você parte de uma visão de mundo em que existe o marxismo cultural e que a ONU está aí (começa a rir) para prejudicar o Brasil… É uma visão simplista, ingênua, equivocada.

O chanceler Ernesto Araújo tem um auxiliar de fora do Itamaraty: Filipe Martins, indicado por Olavo de Carvalho.


Não o conheço, nunca o vi na minha vida…

O papel de Marco Aurélio Garcia, que ocupou o mesmo cargo no governo Lula, não foi o mesmo?


Não, não. Ele nunca influiu no Itamaraty, nunca pretendeu [fazer isso], que eu saiba, sempre teve uma posição muito cooperativa. Tinha grande influência junto ao presidente [Lula], desde 1980, na área internacional do PT.

O governo Bolsonaro e seu chanceler dizem que as relações brasileiras com os EUA foram “negligenciadas” nos últimos anos, que a política sul-sul era movida por ideologia. O que o senhor pode dizer a respeito?

Que não é verdade. O presidente Lula conhecia perfeitamente a importância dos EUA – o que não significa subserviência. Ele foi várias vezes aos Estados Unidos, foi recebido com a maior consideração, houve manifestações de [Barack] Obama sobre Lula, antes por [George W.] Bush. Mas as pessoas inventam coisas. O Brasil sabia, em sua campanha por um assento permanente no Conselho de Segurança [da ONU], que o apoio dos EUA era fundamental, assim como da França, Inglaterra, Rússia e China, os cinco membros permanentes. Pode ver os números de comércio com os EUA, a Europa, não caíram. O ministro Celso Amorim tinha as melhores relações com os secretários de estado, inclusive com [a republicana] Condoleeza Rice.

O governo brasileiro tem negado a importância da ONU e de organismos multilaterais surgidos após o fim da segunda guerra. Em fevereiro, Ernesto Araújo foi à Polônia participar de um encontro convocado pelo governo Trump para pressionar o Irã. Lá, ele expressou interesse em “desenvolver relações próximas com outros países do Grupo de Visegrado e com a Itália”, países governados pela extrema direita ou por coalizões de que ela faz parte…

(Irônico) Ele [Araújo] disse que a Polônia é um país de enorme potencial econômico. No reino da fantasia, tudo é possível.

O senhor acha que há, agora, um grau inédito de politização da política externa brasileira?


Eles fazem o que acusam os outros de fazerem! O sogro dele (de Ernesto Araújo, o embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa) exerceu altas funções [no Itamaraty] durante o governo do PT, um homem conservador – e meu amigo, aliás. Um homem correto, educado, conservador, que exerceu funções normais. Ninguém foi perseguido.

Já ouvimos que Seixas Corrêa está bastante embaraçado com o que Ernesto Araújo vem dizendo…


Claro, com um louco dentro de casa… Ele não me disse nada, nem eu ia perguntar, é uma coisa constrangedora. O marido da filha, você tem que defender minimamente.

Um embaixador graduado com quem conversei me disse ver organismos multilaterais como a ONU em risco como nunca desde seu surgimento. O senhor concorda?


A carta das Nações Unidas é o único tratado que estabelece as normas da convivência internacional: autodeterminação dos povos, soberania, igualdade entre os Estados, assim por diante. A gente sabe que não é bem assim, mas está lá. E tem mecanismos de negociação e cooperação em prol da segurança e da paz internacional, aos quais também podemos fazer observações. Os países, na ONU e nas agências especializadas, negociam acordos, muitos dos quais são do interesse do Brasil: sobre florestas, meio ambiente em geral, acordos comerciais. Então, você precisa de apoio de outros países.

Um Itamaraty que é parte de um governo que visa combater o comunismo pode azedar a relação do Brasil com a China, o país comunista que é nosso principal parceiro comercial?
‘No cardápio político, hoje em dia, Bolsonaro está sendo servido. O prato alternativo que se pode escolher é Mourão.’
Acredito que os chineses sabem da importância que tem para eles a relação com o Brasil, a importância do comércio, a perspectiva de investimentos chineses no Brasil, até para garantir o abastecimento deles com produtos primários como minério de ferro, soja. Eles não vão criar nenhum caso. Nenhum. Sabem que tudo é passageiro, e pode ser até que passe mais depressa do que se pense.

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O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães durante audiência sobre a entrada da Venezuela no Mercosul, em novembro de 2007. Ele foi o número 2 do Itamaraty durante o governo Lula.
Foto: Sérgio Lima/Folhapress

O senhor acha isso? Qual sua impressão?


Julho.
O que, em julho? Um impeachment? E aí assume Mourão.


Naturalmente. No cardápio político, hoje em dia, Bolsonaro está sendo servido. O prato alternativo que se pode escolher é Mourão. Outros pratos, como revolução socialista e proletária, estão em falta. Assembleia nacional constituinte? Também não está sendo servido. O que tem é o Mourão. Você pode não gostar, achar que é a volta dos militares, achar o que quiser.

Não o preocupa uma eventual volta dos militares ao poder?


De forma alguma. Por várias razões. Primeiro porque temos um governo ideológico e que divide o país, promove o antagonismo social todos os dias. Agora, liberou as pessoas a transitarem com armas carregadas. É uma coisa inacreditável. Temos 63 mil mortes por ano, em toda a Guerra do Vietnã os EUA não perderam o que morre no Brasil por ano. É um governo que promove ódio racial, todo tipo de confronto na sociedade. Isso é uma coisa muito perigosa. O governador do Rio subiu num helicóptero para acompanhar uma ação em que sujeitos iam matar pessoas. Isso é uma loucura. O general Mourão, desde que tomou posse – antes, não – só fala a coisa certa. Até julho o governo tem que aprovar a [reforma da] previdência, alguma coisa tem que aprovar, porque estão achando que vai ser um milagre, se aprova a previdência e tudo vai se resolver.
‘[Os militares] Passaram 30 anos tentando limpar os aspectos negativos da ditadura para eles. Veio o Bolsonaro e o tempo todo relembra a ditadura.’
Vamos supor que Bolsonaro de fato deixe o cargo, sofra um impeachment. Não é arriscado termos os militares de volta no comando do país?

Não. Em qualquer país do mundo que se respeite, os militares fazem parte da sociedade, não são contra a sociedade. Nos EUA, você acha que o establishment critica os militares? Na França? Na Alemanha? Na Inglaterra? Mas aqui criou-se essa ideia de sociedade civil de um lado e os militares do outro. Foi o príncipe dos sociólogos quem fez isso (irônico, se referindo ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso). Isso criou uma situação em que, primeiro, se tirou a responsabilidade dos civis que apoiaram a ditadura e que muito se beneficiaram, mais do que os militares, que ficaram com a culpa, mas não ficaram ricos. A Globo se criou durante a ditadura, são multimilionários. Os bancos, a mesma coisa. Esse conceito permitiu dizer: “Olha, a ditadura foi uma coisa militar. Aqui estamos nós, os civis, que nunca nos beneficiamos com ela, nunca enriquecemos nela.” Enriqueceram, e muito. Com aquele crescimento muito alto (da economia nos primeiros anos da década de 1970, época do chamado “milagre econômico” brasileiro) com arrocho salarial, eles ficaram milionários, empresários como Gerdau ficaram milionários.

O senhor não vê nenhum risco de uma “recaída” dos militares, um novo AI-2 (o segundo ato institucional decretado pela ditadura, de 1965, que acabou com as eleições diretas para presidente, extinguiu partidos políticos e permitiu uma intervenção do poder Executivo no Judiciário)?


Para quê? Não vale a pena. [Os militares] Passaram 30 anos tentando limpar os aspectos negativos da ditadura para eles. Veio o Bolsonaro e o tempo todo relembra a ditadura. Eles ficam horrorizados com isso. As pesquisas de opinião mostram que os militares são um dos grupos que têm mais confiança da população brasileira. Conseguiram isso, e o Bolsonaro passa o tempo todo lembrando da ditadura, do [ditador chileno Augusto] Pinochet, do [ditador paraguaio Alfredo] Stroessner, do [coronel Carlos Alberto] Brilhante Ustra (um dos principais comandantes da tortura de adversários do regime militar).

Mourão também fez elogios a ele.

Antes de ser vice-presidente. De lá para cá, ele é monitorado pelo alto-comando. Ele não fala por ele, tanto que não é contestado, reparou? Não há nenhum general, da ativa ou da reserva, que tenha contestado Mourão publicamente. Pode ser que eles discutam [internamente], mas publicamente não vi nenhuma declaração. Porque eles sabem que [um eventual fracasso do governo Bolsonaro] vai bater lá neles, entende? Essa confusão que o Bolsonaro está armando, esse caldo de antagonismo, vai bater neles. E não interessa a eles [uma nova ditadura], porque não é mais moda no mundo, não é? Teve a moda das ditaduras militares na América Latina, Brasil, Argentina, toda parte. Hoje em dia, não é mais assim.

Rafael Moro Martins, Amanda Audi
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Prepare-se: vem aí uma explosão social

Xavier: Greve Geral de 14 de junho promete ser o estopim


O Conversa Afiada publica artigo sereno (sempre!) do colUnista exclusivo Joaquim Xavier:

Não adianta os acólitos de sempre tentarem jogar panos quentes. Tampouco o capital abutre e a mídia gorda baterem na tecla da tal reforma da previdência, eufemismo para o fim da aposentadoria. Como se mesmo essa excrescência tivesse algum efeito a médio prazo.

Todos, absolutamente todos os elementos convergem para uma desordem social de grandes proporções.

Começando pelo primeiro e mais importante: desde o golpe de estado de 2016, o povo brasileiro retrocede a padrões de miséria com uma rapidez inédita. O desemprego aumenta a jato, disfarçado com estatísticas que encobrem a penúria com vendedores de quentinhas, mercadores de bolos em calçadas e motoristas de uber.

Um exemplo cotidiano: aqueles que frequentam bares, padarias, restaurantes, lojas notam que os antigos funcionários não existem mais. Foram substituídos por boias frias instituídos pela reforma patronal, apelido da reforma trabalhista.

A chamada classe média despenca. A inadimplência bate recordes, as ameaças de despejo e “luxos” como algum lazer, comer uma pizza aos domingos e as despesas elementares da família viraram um suplício, quando não simplesmente eliminadas. O carvão e a lenha agora são combustíveis obrigatórios para 25% das famílias.

A indústria brasileira está literalmente “passando o ponto”. Um cenário de escombros. A construção civil definha, não contrata, só demite.

Programas como o Minha Casa, Minha Vida foram incinerados. Obras públicas estão paralisadas. Investimentos, nem pensar. Basta ver os números do pibinho no vermelho.

Nem sequer é preciso falar da Educação. Os ataques econômicos, ideológicos e truculentos a um setor estratégico desenham o tipo de país que este governo pretende. Um ministro que propõe a caça às bruxas a reitores, professores, alunos, pais de família que discordam de suas políticas e posa debaixo de um guarda-chuva não passa de um palhaço de circo mambembe.

Muito tempo se tem perdido com o lado pitoresco desta administração. Um presidente como Bolsonaro que chama manifestantes de idiotas úteis, diz que não nasceu para mandar no país, afirma a um jornal argentino que é enviado de Deus, quer transformar o Supremo em uma salada de religiões, defende um filho acusado de meliante contumaz e se orgulha de não entender nada de economia definitivamente é um desequilibrado patológico – aliás, o que já se desconfiava nos 30 anos de nulidade como parlamentar. Chegou ao cúmulo de dizer que a culpa do desemprego é dos... desempregados!

Já o Posto Ipiranga Paulo Guedes é uma provocação. Não passa de agente assumido do sistema financeiro internacional. Quer vender tudo. Mesmo suas ideias são anacrônicas e imprestáveis.

Numa entrevista imperdível ao programa Contraponto, da rádio Trianon de SP, Paulo Nogueira Batista Jr., um dos mais brilhantes economistas da sua geração, lembrou que mesmo os velhos “Chicago Boys”, do tempo de Pinochet e do qual Guedes é idólatra, já mudaram de posição.

Numa economia despencando, o gasto público é impulso indispensável para fazer a máquina rodar. Guedes quer o contrário. Cortar tudo, vender a mãe, fechar o BNDEs, entregar a previdência aos bancos, eliminar os subsídios à indústria local para entregar a prataria ao capital internacional – do qual ele é beneficiário notório.

Um país de mais de 200 milhões de habitantes, por mais que os articulistas sabujos torçam, não conseguirá suportar tamanho desgoverno. É questão de bolso, de tempo e de orgulho pela soberania nacional. As gigantescas manifestações pela defesa da educação deram o sinal.

A greve geral de 14 de junho promete ser um marco. Que as forças progressistas e democráticas deixem as picuinhas de lado, empenhem-se na preparação e se unam num movimento capaz de mudar o rumo do precipício.

Joaquim Xavier
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Mais de 70% dos brasileiros são contra a flexibilização do porte de armas

Dois últimos decretos editados por Bolsonaro facilitando o porte de armas não condiz com os anseios da maioria, mostra pesquisa feita em todas as regiões


O governo Bolsonaro editou nos primeiros cinco meses de gestão três decretos de armas, dizendo cumprir uma promessa de campanha. Dois decretos foram publicados depois de uma pesquisa do Ibope, realizada em março, mostrando que 73% dos entrevistados são contrários à flexibilização do porte de armas para cidadãos comuns e 26% são favoráveis – 1% não quiseram ou não souberam responder.

Isso mostra o quanto Bolsonaro ainda trabalha no Planalto como se estivesse numa constante campanha eleitoral. O Ibope mostra ainda que 51% da população discorda da afirmação de que o aumento de pessoas armadas torna a sociedade mais segura.

Além disso, 37% discordam que ter uma arma em casa a torna mais segura, enquanto
31% disseram sentirem-se mais seguros com a ideia. Quanto ao porte, 47% discordam totalmente que carregar uma arma de fogo deixa a pessoa mais segura, contra 18% que discordaram em parte.

O porte de armas diz respeito a poder transitar com o equipamento, já a posse de armas de fogo é o direito de ter o equipamento na casa ou no local de trabalho.

O levantamento mostra que 61% são contrários a facilidade legal para possuir armas de fogo em casa ou no local de trabalho, e 37% são favoráveis – 2% não souberam responder ou não responderam.

O Ibope fez as entrevistas entre 16 e 19 de março com 2.002 pessoas em 443 municípios de todas as regiões do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou menos.

No dia 15 de janeiro, Bolsonaro publicou o primeiro decreto, flexibilizando as regras para ter a posse de armas. Na prática, brasileiros de qualquer região do país acima de 25 anos, sem antecedentes criminais e após teste de aptidão técnica e laudo psicológico passaram a poder ter armas apenas apresentando à Polícia Federal uma declaração de “efetiva necessidade”.

No dia 8 de maio, o presidente assinou outro decreto com normas para facilitar o porte e compra de munições. Após questionamentos na Justiça, Bolsonaro publicou um terceiro decreto, dia 22 de maio, alterando alguns pontos como impedir que o cidadão comum possa comprar e portar alguns tipos de equipamentos, como fuzis, porém, o último decreto aumentou o direito de comprar mais munições. Na ocasião, Bolsonaro disse que o decreto de armas é para “legítima defesa” da população.

Por região, o Ibope mostra que existe um maior apoio a flexibilização do posse de armas na região Sul:

48% – Sul
43% – Norte/Centro-Oeste
35% – Sudeste
33% – Nordeste

Homens (50%) aceitam mais a flexibilização da posse do que as mulheres (27%).

O levantamento mostra também que a flexibilização do porte de armas também varia por região, mas em todas elas a minorria é favorável ao porte:

34% – Norte/Centro-Oeste
29% – Sul
27% – Nordeste
22% – Sudeste

Novamente, homens (34%) são mais favoráveis a flexibilização do porte de arma de fogo do que as mulheres (18%).

No GGN
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Do Estadão:

Desde que o presidente Jair Bolsonaro tomou posse, há cinco meses, pesquisas mediram aumento em sua taxa de desaprovação. O mais recente levantamento doinstituto Ideia Big Data mostra que o desembarque do bolsonarismo tem sido mais significativo em parte expressiva do eleitorado que votou no então candidato do PSL apenas no segundo turno da eleição presidencial de 2018. Essa parcela de eleitores, em tese, aderiu a Bolsonaro com o objetivo de evitar a volta do PT ao governo federal.

A desaprovação da atual administração tem como eixo central a persistência da crise econômica e do desemprego em níveis elevados.

Segundo a pesquisa da Ideia Big Data, a maior parte dos eleitores que optaram por Bolsonaro e hoje rejeita o governo é formada por mulheres com idade entre 25 e 40 anos, integrantes das classes B e C, não evangélicas e que vivem em cidades com mais de 200 mil habitantes nas regiões Norte e Nordeste.

Eles votaram no presidente apenas no segundo turno e representam cerca de 10 pontos porcentuais dos 18 que Bolsonaro perdeu desde a posse, conforme a série mensal de pesquisas do Ideia Big Data.

Um dos argumentos apresentados para o recuo no apoio a Bolsonaro é o desconhecimento das propostas do então candidato durante a campanha eleitoral, segundo o economista e pesquisador Maurício Moura, fundador do instituto.De acordo com Moura, a este argumento se somam outros fatores: os ruídos provocados por integrantes do governo nas redes sociais e a ausência de medidas para gerar empregos e combater a crise econômica.

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