2 de jun de 2019

A psicologia de massas do fascismo ontem e hoje: por que as massas caminham sob a direção de seus algozes?

Mauro Iasi revisita as teses de Wilhelm Reich sobre a psicologia de massas do fascismo para compreender os impasses políticos do presente.


“o fascismo, na sua forma mais pura, é o somatório
de todas as reações irracionais do caráter do homem médio”
W. Reich

“queriam que eu falasse do agora
mas, o presente que procuro
está preso em um passado
que insiste em ser futuro”
M. Iasi

O psicólogo marxista Wilhelm Reich (1897-1957) escreveu o livro Psicologia de massas do fascismo em 1933 (o estudo se estendeu de 1930 até 1933), no contexto da ascensão do nazismo na Alemanha. O autor se refugiou em Viena, depois Copenhagen e Oslo, onde iniciou seus estudos sobre as couraças e depois do que denominou de “energia vital”, levando-o a teoria do “orgon”. Desde 1926 acumulava divergências com Freud, com o qual trabalhou como assistente clínico, e em 1934 seria expulso da Sociedade Freudiana e da Associação Psicanalítica Internacional, sairia da Noruega em direção aos EUA, onde seria também perseguido com a acusação de “subversão”. Acabou preso em 1957 e morreu no mesmo ano na prisão. Toda sua obra, incluindo livros e material de pesquisa, foram queimados por ordem judicial nos EUA em 1960.

Ainda que possamos questionar as teorias reichianas fundadas na teoria do “orgon” e a relação que esperava estabelecer entre “soma e psiquismo”, temos que ter muito cuidado ao tratar as considerações que esse importante autor tece sobre o fascismo e o caráter das massas analisados na obra citada. Em vários aspectos, considero que as reflexões de Reich sobre o tema podem ser extremamente úteis em nossos tumultuados dias, principalmente pelas questões que levanta, mais do que pelas respostas que encontra.

O autor coloca da seguinte maneira o problema. Se assumirmos que a compreensão da sociedade realizada por Marx esteja correta – isto é, que o desenvolvimento da sociedade capitalista e suas contradições leva à possibilidade de sua superação revolucionária (o que implica a conformação do proletariado como um sujeito consciente de sua tarefa histórica) –, a questão que se coloca é como compreender o comportamento político de amplos setores da classe trabalhadora que efetivamente estão servindo de base para a reação política que emergia com o fascismo.

Chamar atenção aos efeitos da exploração capitalista, como a miséria, a fome e o conjunto das injustiças próprias do sistema capitalista para ativar o “ímpeto revolucionário”, dizia Reich, já não era suficiente. Tampouco acusar o comportamento conservador das massas de “irracional”, de constituir uma “psicose de massas” ou uma “histeria coletiva” – algo que em nada contribui para jogar luz sobre a raiz do problema, a saber, compreender a razão pela qual a classe trabalhadora respaldava o discurso fascista que em última instância atacava exatamente seus próprios interesses.

Na base dessa incompreensão se encontrava um sentimento de espanto. Os marxistas acreditavam que a crise econômica de 1923-1933 era de tal forma brutal que produziria “necessariamente uma orientação ideológica de esquerda nas massas por ela atingidas”. Entretanto o que se presenciou foi, nas palavras do autor, uma “clivagem entre a base econômica, que pendeu para a esquerda, e a ideologia de largas camadas da sociedade que pendeu para a direita”. O autor conclui com a constatação de que a “situação econômica e a situação ideológica das massas não coincidem necessariamente”. (Wilhelm Reich, Psicologia de massas do fascismo, São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 7).

Nesse ponto, Reich afirmará que – e a observação dele aqui me parece profundamente pertinente hoje – essa não correspondência não deveria surpreender aos marxistas, uma vez que o materialismo dialético de Marx não compreende a relação entre a situação econômica e a consciência de classe como sendo algo mecânico, ou seja, como se a situação material determinasse esquematicamente sua expressão ideal na consciência dos membros de uma classe social. Somente um “marxismo vulgar” concebe uma antítese na relação entre economia e ideologia, assim como entre a “estrutura” e a “superestrutura”, uma perspectiva precária que não leva em conta o chamado “efeito de volta” da ideologia, isto é, as formas pelas quais a ideologia incide sobre a própria base material que a determina. Presa a essa visão esquemática e pouco dialética, resta a essa modalidade de marxismo vulgar apenas recorrer ao chamamento moral para que os trabalhadores correspondam em sua ação às condições objetivas em que se inserem, clamando pela “consciência revolucionária”, às “necessidades das massas” ou ao “impulso natural” para as greves e a luta (p. 14). Melancolicamente, Reich conclui então que essa versão esquemática do marxismo:

“Tentará, por exemplo, explicar uma situação histórica com base na ‘psicose hitleriana’ ou tentará consolar as massas, persuadindo-as a não perder a fé no marxismo, assegurando-lhes que, apesar de tudo, o processo avança, que a revolução não pode ser esmagada, etc. O marxista comum acaba por descer ao ponto de incutir no povo uma coragem ilusória, sem, no entanto, analisar objetivamente a situação em sem compreender sequer o que se passou. Jamais compreenderá que uma situação difícil nunca é desesperadora para a reação política ou que uma grave crise econômica tanto pode conduzir à barbárie como a liberdade social. Em vez de deixar seus pensamentos e atos partirem da realidade, ele transporta essa realidade para a sua fantasia de modo que ela corresponda aos seus desejos.” (pp. 14-5)

A miséria econômica causada pela crise atualiza a disjuntiva “socialismo ou barbárie”, mas o que faria com que os trabalhadores optem pela alternativa socialista? Reich está convencido de que em uma situação como essas os trabalhadores escolhem em primeiro lugar a barbárie. O marxismo vulgar compreende a ideologia como um conjunto de ideias que se impõe à sociedade e, portanto, aos trabalhadores. Dessa maneira, os partidários desse tipo de perspectiva acreditam que as ideais marxistas ganham força na crise porque desmentem na prática as ideias conservadoras. O que foge à compreensão dessa análise é exatamente o modo de operação da ideologia, muito mais do que a definição escolástica do “que é” ideologia.

Assim, o psicólogo comunista fará a pergunta decisiva: se uma ideologia se transforma em força material quando se apodera das massas, como afirmava Marx, a pergunta é “como é possível que um fator ideológico produza resultado material”, seja na direção de uma política revolucionária ou na direção de uma “psicologia de massas reacionária”? (p. 17)

Se compreendermos a ideologia na chave de ideias dominantes em uma sociedade – isto é, as ideias das classes dominantes que expressam as relações sociais que fazem de uma classe a classe dominante (Marx e Engels, A ideologia alemã, Boitempo, p. 47) –, a pergunta se formula da seguinte maneira: como é que relações sociais se convertem em expressões ideais, valores, juízos e representações interiorizadas pelas pessoas que constituem uma determinada sociedade? A resposta é que isto se dá na vivência de instituições no interior das quais as pessoas formam seu próprio psiquismo, neste caso, fundamentalmente, na família.

É aqui que as relações sociais dadas são apresentadas pela pessoa em formação como “realidade”, onde se desenvolve a transição do “princípio do prazer” para o “princípio da realidade” e se produz um complexo processo de identificação com aquele que representa o limite, a ordem e a norma social a ser imposta, mas, o que é essencial ao nosso tema, que é incorporada pela pessoa como se fosse sua (autocontrole) e não uma imposição oriunda de uma ordem social. O fundamento desse processo de interiorização, na formação daquilo que Freud denominou de “superego”, está a repressão à sexualidade infantil, o seu recalque e a volta como sintoma nos termos de Reich (Materialismo Dialético e Psicanálise. Lisboa: Presença/São Paulo: Martins Fontes, 1977).

É mister lembrar neste momento que o resultado desse processo de interiorização das relações sociais na forma de valores e normas de comportamento implica na identidade com o agende da imposição das normas externas, no caso do complexo de Édipo descrito por Freud na formação de uma identidade com o pai.

Dessa maneira, Reich localizará a base de uma determinada expressão de uma psicologia de massas (a do fascismo) em dois pilares: uma certa forma de família tendo no centro a repressão à sexualidade infantil; e o caráter da “classe média baixa”. Para ele, a repressão à satisfação das necessidades materiais difere da repressão aos impulsos sexuais pelo fato que a primeira leva à revolta enquanto a segunda impede a rebelião, uma vez que o retira do domínio consciente “fixando-o como defesa moral”, fazendo com que o próprio recalque do impulso seja inconsciente, seja visto pela pessoa como uma característica de seu caráter. O resultado disso, segundo Reich, “é o conservadorismo, o medo a liberdade, em resumo, a mentalidade reacionária” (Psicologia de Massas do Fascismo, p. 29).

Os setores médios não são os únicos a viverem esse processo (que é de fato universal para nossa sociedade) mas o vivem de maneira singular. Trata-se de uma classe ou segmento de classe espremido entre o antagonismo das classes fundamentais da sociabilidade burguesa (a burguesia e o proletariado), desenvolvendo o curioso senso de que estão acima das classes e representam a nação. Seus impulsos jogam os setores médios ora para a radicalidade proletária (a luta contra as barreiras da realidade que se levantam contra os impulsos), ora para o apelo à ordem da reação burguesa (a defesa das barreiras sociais impostas como garantia da sobrevivência). Como o indivíduo teme seus impulsos e clama por controle, os segmentos médios temem a quebra da ordem na qual se equilibram precariamente e pedem controle e repressão.

Não é acidente ou casualidade que no campo dos valores reacionários vejamos alinhados à defesa abstrata da “nação” características como o “moralismo” quanto aos costumes (que vem inseparavelmente ligado a preconceitos, a homofobia, etc.) e a defesa da “família”, assim como o chamado “irracionalismo”, a “violência”, o mito da xenofobia e do racismo como constituintes da nação, e o clamor pela “ordem”. A recente cena dantesca de “manifestantes” enrolados na bandeira do Brasil, de joelhos e mãos na cabeça, pedindo uma intervenção militar é a imagem que condensa todos esses elementos. Por incrível que pareça, essa não é uma sociedade “doente”, mas a sociedade “normal” exposta sem os filtros que rotineiramente a oculta.

Os argumentos de Reich estão longe de dar conta da totalidade do fenômeno do fascismo. Ainda que justificada, sua crítica aos marxistas oficiais (em 1931 Reich criou a Sexpol Verlag que aglutina mais de 40 mil membros discutindo uma política sexual e suas relações com a luta revolucionária, o que causou preocupações no Partido Comunista austríaco e redundou na sua expulsão do partido em 1933) não pode dar conta de todos os elementos históricos, políticos, sociais e culturais do tema que foram abordados em inúmeras obras de competentes marxistas (de Gramsci a Adorno e Benjamin, passando por Togliatti, Polantzas e tantos outros). Ele apenas aponta para um aspecto que normalmente é desconsiderado. O que nos parece pertinente é que o comportamento fascista não pode ser reduzido a manipulação e engodo, mas encontra profunda raízes na consciência imediata das massas e seus fundamentos afetivos, seja nos segmentos médios, seja na classe trabalhadora.

O fascismo é, na sua essência, uma expressão política da crise capitalismo em sua fase imperialista e na etapa do domínio dos monopólios, como define Leandro Konder (Introdução ao fascismo, São Paulo, Expressão Popular, 2009). Ele disfarça sob uma máscara modernizadora seu conteúdo conservador, sendo antiliberal, antissocialista, antioperário e, principalmente, antidemocrático. A dificuldade do fascismo reside exatamente em juntar esses dois aspectos contrários em sua síntese – isto é, uma intencionalidade à serviço do grande capital (imperialista, monopolista e financeiro) e uma base de massas que permita apresentar seu programa reacionário como alternativa para a “nação”. Creio que o estudo de Reich nos dá aqui uma pista valiosa. A ideologia fascista conclama à revolta dos impulsos reprimidos (seja das necessidades materiais, seja aqueles relativos à repressão da sexualidade) e depois oferece a ordem como alternativa, dialogando assim diretamente com o fundamental da estrutura do caráter universalizado pela sociabilidade burguesa, principalmente das chamadas classes médias. É, portanto, uma política da pequena burguesia que mobiliza massas trabalhadoras para defender os interesses do grande capital monopolista. Acreditem, realizou-se esta façanha com eficiência e sucesso naquilo que conhecemos por nazifascismo.

Na luta contra o fascismo, a burguesia democrática é sempre a primeira derrotada e junto a ela a pequena burguesia que acredita no seu próprio mito de um Estado acima dos interesses de classe. A única força social capaz de enfrentar o fascismo é a revolução proletária, por isso são os trabalhadores o alvo duplo do fascismo, seja no sentido da cooptação, seja na repressão brutal e direta. Quando a luta de classes se acirra e qualquer conciliação é impossível, a burguesia se inquieta, os segmentos médios entram em pânico e os fascistas vendem seu remédio amargo para a doença que ajudaram a criar. Se nesse momento os trabalhadores se movimentarem com autonomia em direção ao seu projeto societário – o socialismo –, impelidos inicialmente pelos impulsos mais elementares e ainda não conscientes, eles podem colocar toda a sociedade em torno de sua luta e se constituir como alternativa à barbárie do capitalismo em crise. Se, por razões várias, esse segmento não se movimentar com a força necessária, uma longa noite de terror se impõe com seus cadáveres e cortejos fúnebres.

Ainda que tenham particularidades em seu processo de consciência, os trabalhadores não podem escapar ao fato de que são socializados nas instituições de uma ordem burguesa, portanto, que os valores, princípios, representações ideais desta ordem constituam o fundamento de sua consciência imediata. Diante do caos que emerge da crise do capital vive uma contradição entre os impulsos materiais que os impulsionam à luta e à identidade com os opressores que os mantêm presos às correntes da ideologia. Na ausência de uma política revolucionária se somam às “classes médias” conclamando pela ordem e se prestam a ser a base de massas para as aventuras fascistas.

Toda a esperança da psicanálise é tornar possível que o inconsciente emerja, em parte, para que seja compreendido o sintoma. Guardadas as mediações necessárias, a luta de classes torna possível que as determinações ocultas pelos mecanismos da ordem se façam visíveis e que o sintoma se torne exposto. No primeiro assim como no segundo caso isto não significa a resolução do sintoma, mas o início de uma longa luta para enfrentá-lo. O novo que pulsa vigoroso nas entranhas do cadáver moribundo do velho mundo, não pode ser detido a não ser pela violência. Não pode se libertar sem quebrar violentamente a ordem que o aprisiona.

“Veintiuno veintiuno
firmamento del dos mil
en el cielo la paloma
va en la mira del fusil”
Silvio Rodriguez

* * *

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.
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Os “Valle do laranjal” e a bomba-relógio do “Filho 01”


Juliana Dal Piva, em O Globo, publica hoje um extenso relato da vida da família Valle, da qual faz parte Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro. Não teriam interesse algum se a família Valle não tivesse nove parentes contratatados no gabinete dele e de Flávio Bolsonaro, no período em que este foi deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Aparentemente, trata-se de gente com vida modesta, até com dificuldades para sobreviver, unidos apenas pelo fato que nunca foram, de fato, assessores de coisa alguma.

Dificilmente pode ter embolsado tudo sem fazer nada, durante anos, sem ter enriquecido. Uma década recebendo quase R$ 9 mil, morando nos fundos da casa dos pais e tendo de fazer faxinas para viver?

Juliana foi atrás de todos eles. Foi atrás, porque todos fogem do assunto, porque não tem uma “história plausível” para contar.

De pouco adiantará o silêncio, agora que seu sigilo bancário foi quebrado e tranferências ou saques em dinheiros sistemáticos serão documentados.

O ex-sogro de Bolsonaro, um dos parentes que bateu o telefone à reporter, chegou a dizer que vai “acabar em pizza”.

Certamente não para Fabrício Queiroz, dificilmente para Flávio Bolsonaro. E é bom Jair já ir torcendo para não haver sido deixado algum “rabo de palha” para ele.

Bolsonaro, como se viu, não era apenas uma família, mas uma franquia de mandatos para resolver as necessidades da troupe.

O “ZeroZero” também vai dizer que não sabia que seu filho sustentava toda a família de sua ex-mulher?

Que é uma bomba-relógio, todos estão vendo. Que vai estourar, também. Só resta saber o seu potencial destrutivo.

Fernando Brito
No Tijolaço



Assessores de Flávio Bolsonaro ganhavam e não trabalhavam


Serão da turma da "rachadinha"?

O Conversa Afiada reproduz do Globo Overseas deste domingo, 2/VI, trecho de reportagem de Juliana Dal Piva:

O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) empregou nove parentes de Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro, no período em que foi deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) . A maioria deles vive em Resende, no Sul do estado do Rio e todos tiveram o sigilo fiscal e bancário quebrado por decisão do Tribunal de Justiça do Rio.

Nas últimas semanas, O Globo apurou que ao menos quatro deles têm dificuldades para comprovar que, de fato, assessoraram Flávio. Em Resende, o vendedor aposentado José Procópio Valle e Maria José de Siqueira e Silva, pai e tia de Ana Cristina, jamais tiveram crachá funcional da Alerj. Ele ficou lotado cinco anos e ela, nove.

Apesar de ter nascido em Resende, a cidade não é reduto eleitoral de Flávio. Ele também não possui escritório político lá.

Já a irmã Andrea Siqueira Valle e o primo Francisco Diniz constaram como funcionários por mais de uma década e só há registro de crachá para o ano de 2017.

Diniz é o que ficou mais tempo lotado, um total de 14 anos. Durante esse tempo, ele cursou a faculdade de veterinária, em período integral, em Barra Mansa, também no Sul do estado.

Andrea é conhecida por participar de concursos de fisiculturismo. Segundo pessoas que a conheceram na academia em Resende, ela chega a malhar três vezes ao dia. Desde o fim do ano passado, ela mora em Guarapari (ES), onde se sustenta fazendo faxinas, apesar de ter recebido salários de até R$ 7,3 mil por pelo menos quatro anos.

O grupo de familiares é alvo da investigação que apura a prática de “rachadinha” no gabinete, devido às movimentações atípicas, em um total de R$ 1,2 milhão, de Fabrício Queiroz, outro ex-assessor.

Em Guarapari, no litoral do Espírito Sаnto, a fisiculturista Andrea Siqueira Valle, de 47 anos, é uma mulher com medo. Ao encontrar a reportagem na esquina de sua casa, Andrea começou a correr em direção ao portão de entrada do pequeno prédio onde aluga uma quitinete a R$ 800 por mês. Questionada se trabalhou para Flávio Bolsonaro, repetiu, insistentemente, que “não tinha nada a declarar”.

Quem conhece Andrea agora não imagina que, até agosto de 2018, ela tinha um salário bruto de R$ 7.326,64, além de receber um auxílio educação de R$ 1.193,36. Ela esteve lotada no gabinete de Flávio Bolsonaro desde 2008, sendo que, por nove anos, jamais teve identificação funcional. Apenas em 2017 foi pedido um crachá da Alerj em seu nome. Nesse período, ela sempre viveu em Resende, na casa dos fundos dos pais.

Na cidade, Eliane Montaglione, dona da Academia Physical Form, disse que, no passado, ela era conhecida por participar de concursos de fisiculturismo e malhar várias vezes ao dia. O Globo apurou que Andrea trabalhava com faxina para residências.

— Ela malhava duas, até três vezes ao dia. Lembro que em época de concurso ela malhava mais — contou Eliane.

Questionada se soube que ela trabalhava na Alerj, Eliane demonstrou surpresa:

— Nossa, nunca soube.

Atualmente, em Guarapari, as dificuldades financeiras de Andrea não são segredo. A três quadras de casa, ela malha na academia Sports Center. A proprietária Renata Mendes contou que tem permitido que ela use a academia de graça como meio de patrocínio e diz que a contratou para faxinas.

— Ela também me ajudou com faxina na academia. Ela faz esse tipo de serviço aqui na academia — contou Renata. — A filha dela já foi morar com o pai, para poder ajudar ela também — afirmou Renata.

A única lembrança de uma pessoa próxima da família sobre a vida política de Andrea é vê-la distribuindo santinhos em período eleitoral.

Lotado no gabinete de Flávio Bolsonaro por 14 anos, o veterinário Francisco Siqueira Guimarães Diniz, de 36 anos, é primo de Ana Cristina e filho de Marina Siqueira Diniz, tia da ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro e também ex-assessora de Flávio. Tanto mãe como filho tiveram os sigilos fiscal e bancário quebrados pela decisão judicial.

Chico Diniz é conhecido em Resende por estar sempre no campo com cavalos e outros animais, exatamente como mostra sua página no Facebook. Ele foi lotado inicialmente no gabinete de Flávio quando tinha 21 anos, em fevereiro de 2003.

Dois anos depois, em 2005, ele começou a cursar a faculdade de Medicina Veterinária no Centro Universitário de Barra Mansa, cidade a 140 quilômetros do Rio e próxima a Resende.

Dalila Fernanda Manduca cursou faculdade junto com Diniz e contou ao Globo que ele frequentava as aulas e se formou com ela. A faculdade era integral, as aulas ocupavam manhã e tarde. A turma concluiu o curso no fim de 2008 e Diniz se formou.

Em 2016, o primo de Ana Cristina também apareceu em uma foto da equipe H.G.VET Comércio de Produtos Agropecuários e Veterinários. A empresa, com sede na cidade paulista de Cruzeiro, confirmou que Diniz trabalhou lá por um período, mas não quis detalhar por quantos anos.

Diniz chegou a ganhar um salário bruto de R$ 7.326,64, com direito ainda a auxílio-educação de R$ 1.052,34. Ele só foi exonerado em fevereiro de 2017. Apesar de estar lotado por 14 anos, somente em 2017, quando ele só constou como funcionário por dois meses, é que foi pedido um crachá funcional da Alerj para ele.

Procurado pelo Globo, Diniz disse que trabalhou para Flávio Bolsonaro, mas não recordava por quanto tempo.

— Trabalhei, sim. Não lembro de cabeça (o tempo) — disse ele, por telefone.

Ao ser questionado como trabalhava quando estava na faculdade em Barra Mansa, desligou o telefone.

A professora aposentada Maria José Siqueira e Silva, de 77 anos, enfrenta depressão há anos. Tia de Ana Cristina, ela é educadora do ensino fundamental e trabalhou no Colégio Estadual Antonina Ramos, em Resende. Devido à doença, foi deslocada para atuar na secretaria da escola. Essa situação perdurou até outubro de 2003, quando o deputado estadual Flávio Bolsonaro, em seu primeiro mandato, a requisitou para seu gabinete na Alerj.

Nessa época, já com 61 anos, Maria José deixou de vez a escola. Ficou lotada no gabinete até maio de 2012 e chegou a receber um salário bruto de R$ 4.400,06. Nunca teve crachá funcional da Alerj.

Ex-vizinha de Maria José, Maria Helena Correia trabalhou como diarista na casa da professora em 2010, quando ela estava lotada no gabinete. Disse, porém, que nunca soube que Maria José trabalhasse para Flávio.

— Ela nunca saiu daqui para trabalhar fora não — contou a ex-vizinha.

Maria José se aposentou em 2012, logo depois da exoneração no gabinete de Flávio. Procurada, Maria José disse que não iria se pronunciar.

O vendedor aposentado José Cândido Procópio da Silva Valle, de 76 anos, é pai de Ana Cristina Valle, ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro. Ele foi nomeado no gabinete de Flávio em 2003. Lá, teve um salário bruto que chegou a R$ 6.322,28 em 2007. Ele foi exonerado um ano depois. Durante todo o período jamais teve crachá da Alerj.

Questionado se trabalhou para Flávio Bolsonaro, ele disse que não queria falar:

— Olha não tenho nada a declarar nesse momento.

Valle, no entanto, não desligou o telefone propriamente e continuou conversando com pessoas a seu redor sobre o telefonema recebido pelo Globo.

— Bati o telefone. Mas toda hora ligam quando não é um é outro (jornalista) — disse. Depois emendou: — Eu não ligo para isso não, que isso vai acabar em pizza mesmo. Vai dar em nada — disse.

Valle disse temer grampos:

— Não posso falar muito nisso que posso estar grampeado — disse. — Falei para a (Ana) Cristina, para a Henriqueta (sua mulher), não vamos falar antes do tempo. Talvez não aconteça nada.

(...)
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The Economist: milícias controlam 1/4 do Rio!

Bolsonaro não derrotará as milícias se continuar a tolerá-las

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Moro, cadê o Queiroz?
A revista inglesa The Economist, a bíblia do "mercado" e dos bancos globais, dá destaque desde a capa às milícias do Rio e à tolerância do Governo Bolsonaro (e seus filhos...) em relação aos grupos criminosos.

The Economist diz que o numero de assassinatos no Rio, em 2017 foi de 40 por mil pessoas, 14 (14!) vezes maior do que o de Nova York.

As milicias controlam - diz a reportagem - um quarto da região metropolitana do Rio, área de que Duque de Caxias é o centro, o que corresponde a uma população de dois milhões de pessoas!

The Economista lembra também que o 01, o Flávio Bolsonaro empregou a mulher e a mãe de um policial foragido, acusado de chefiar uma milícia de nome "Escritório do Crime"!

Dois dos membros dela são acusados de matar uma vereadora do Rio, Marielle Franco.

Se Bolsonaro quer reduzir a criminalidade, diz The Economist, não deveria permitir que policiais dirigissem milícias!

Nem o governador do Rio deveria mandar a polícia atirar na "little heads", na cabecinha dos criminosos...

Lamentavelmente, a conceituada revista não faz a pergunta que está na cabeça de todos os brasileiros: Moro, cadê o Queiroz?

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No episódio da campanha do BB, a pequena estatura da equipe de Guedes


Mede-se o caráter e a dimensão de uma pessoa pública por seu comportamento no exercício do cargo. Há pessoas com biografia – e caráter –, cujo zelo pela própria imagem impede a pusilanimidade. E aqueles que nada têm a perder, apenas os cargos, que se curvam a qualquer pressão.

Mede-se a dimensão do chefe, aliás, pela qualidade de seus subordinados. Chefe que se cerca de “yes, man” demonstra insegurança e incapacidade de comando.

No governo Temer, Paulo Rabello de Castro assumiu a presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) exposto ao tiroteio abusivo do Ministério Público Federal. Assumiu corajosamente a defesa do banco e da corporação.

Nomeado presidente do BNDES, no governo Bolsonaro, Joaquim Levy fez o mesmo, protegendo a instituição e a corporação.

Independentemente de se concordar ou não com suas posições, são pessoas de caráter.

Já os homens de confiança do Ministro da Economia Paulo Guedes não permitem avaliações positivas sobre ele, o chefe.

Todos sabem que seu chefe não tolera não. E todos sabem que o chefe de seu chefe é um tremendo ignorante, sem compreensão dos fatos mais banais, e que não gosta de ser contrariado. No entanto, cada pum de Bolsonaro é tratado, por essa corte de fracos, como se fosse perfume francês ou um “insight” divino.

Foi vergonhosa a maneira como o presidente do Banco do Brasil, Rubens Novaes, rifou seu diretor de marketing. O banco decidiu montar uma campanha para atrair jovens. Foi uma campanha brilhante, mostrando a diversidade e a abertura que marcam a nova geração de filhos da classe média – os bancarizáveis – muito melhor, aliás, que seus pais. Além da campanha de TV e redes sociais, montaram-se eventos nas principais agências do banco, com a rapaziada espalhando alegria e o discurso da diversidade, trazendo um sopro de juventude para o banco.

Ai, Bolsonaro chiou. Como o universo de jovens que conhece são apenas os filhos da milícia, viu na campanha o marxismo cultural. Imediatamente, Novaes endossou as críticas do chefe do chefe e rifou o diretor de marketing – a ponto de ele pedir demissão do banco. E se tornou um guerreiro contra o marxismo cultural, seja lá isso o que for.

Disse ele, parafraseando o grande pensador Bolsonaro: “Durante décadas, a esquerda brasileira deflagrou uma guerra cultural tentando confrontar pobres e ricos, negros e brancos, mulheres e homens, homo e heterossexuais etc, etc.  O ’empoderamento’ de minorias era o instrumento acionado em diversas manifestações culturais: novelas, filmes, exposições de arte etc., onde se procurava caracterizar o cidadão ‘normal’ como a exceção e a exceção como regra”.

A regra, de fato, não é o questionamento, é o puxa saquismo. É só conferir a quantidade de indicados, ou candidatos a indicação, que se tornaram crentes desde criancinhas.



Luís Nassif
No GGN
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Curumins


Uma característica intrínseca da direita, em todo o mundo, é o distanciamento racional em relação ao outro, o que pode ser interpretado como falta de empatia, mas é algo ainda mais cruel.

Uma vez, eu disse a alguém muito próximo que para entender a pobreza, a dor da miséria, é preciso fazer, minimamente, um exercício de aproximação do outro. Veja bem: aproximar-se é menos que se colocar no lugar, mas já nos dá uma dimensão emocional bastante razoável da dor alheia. Falei: "Ande, ao menos, na periferia, uma vez na vida, para entender as diferenças".

Ele me respondeu: "Eu estudei para, justamente, não ter que frequentar a periferia".

Nem a periferia, nem a cozinha, nem o pátio da fábrica, muito menos uma tribo indígena onde crianças morrem por falta de médicos.

E não porque eles não existam, mas porque os que existiam de lá foram tirados, e os que ainda existem, para lá não querem ir.

O fato é que, sem que as pessoas boas percebessem, a maldade entrou nas escolas disfarçada de excelência em competição e fez delas antros de formação de líderes nas aulas de cada-um-por-si.

As crianças mortas no Xingu não são "indiozinhos", como informam esses tarefeiros de redação em tom complacente.

São brasileiros assassinados pela estupidez de um governo fascista apoiado, justamente, por essas pessoas motivadas por coaches e idiotas do mesmo calibre que acreditam ter estudado para não ter que se importar com ninguém, além de si mesmo.

Leandro Fortes, jornalista
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A imprensa é o câncer da Democracia Brasileira

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Neymar pode ser inocente, mas Datena não: ele estuprou o direito e a decência


No caso da brasileira que acusa Neymar de estupro, não há dúvida de que houve uma violação. E ele foi cometida pelo jornalista José Luiz Datena, do Brasil Urgente, da TV Bandeirantes.

Não se está falando sobre as violações previstas no Código Penal, mas nas condutas éticas. Datena ouviu o pai de Neymar e deu o seu veredito: a moça é culpada.

E ali mesmo, no tribunal da mídia que ele comanda sem ter que dar satisfação a ninguém, decidiu aplicar a pena: o linchamento da mulher.

Divulgou o seu nome duas vezes, apesar do boletim de ocorrência registrado por ela omitir a identificação, de acordo com o que prevê um medida do Tribunal de Justiça de São Paulo, o provimento 32/2000, que estabelece:

“Quando vítimas ou testemunhas reclamarem de coação, ou grave ameaça, em decorrência de depoimentos que devam prestar ou tenham prestado, Juízes de Direito e Delegados de Polícia estão autorizados a proceder conforme dispõe o presente provimento.

As vítimas ou testemunhas coagidas ou submetidas a grave ameaça, em assim desejando, não terão quaisquer de seus endereços e dados de qualificação lançados nos termos de seus depoimentos. Aqueles ficarão anotados em impresso distinto, remetido pela Autoridade Policial ao Juiz competente juntamente com os autos do inquérito após edição do relatório. No Ofício de Justiça, será arquivada a comunicação em pasta própria, autuada com, no máximo, duzentas folhas, numeradas, sob responsabilidade do Escrivão.”

Como a mídia brasileira não está submetida a nenhum tipo de controle, Datena decidiu passar por cima de um norma legal, que se aplica ao rito do processo, não o da imprensa. A consequência foi imediata. A mulher, apresentada como modelo, está sendo achincalhada na rede social.

Um exemplo é o de Tadeu Ramos, aposentado que mora em Cabo Frio. Ele postou a foto da jovem e escreveu:

Por motivo de extorsão estou sendo obrigado a expor minha vida e família…Neymar.

Para quem quiser saber, Najila Trindade o nome da menina, foto dela ai !!

Um detalhe não menos importante, porque revelador de sua personalidade: o sujeito é um bolsonarista, conforme conta em seu facebook.

A matilha foi atrás da presa e começaram os comentários agressivos.

“Pois é! A freirinha pega um avião em São Paulo para Paris com a ideia de ler a Bíblia para o cara .GOLPE”, disse um.

“Vadia!”, gritou outra.

“Sai Maria chuteira..Querendo mamar nas tetas teve uma dessas que rodou feio heim”, agrediu mais um.

A repercussão foi grande, na mesma linha.

Pelo teor das conversas divulgadas por Neymar, neste domingo, percebe-se que houve de fato um relacionamento virtual em que fica claro o propósito de ambos: sexo.

Há indicações de que se conheceram pela rede social, já que ela pergunta a ele, mais de uma vez, se não é um perfil fake.

Neymar ri. E as conversas evoluem. A modelo diz:

“Já pedi pra Deus pelo menos uma oportunidade pra amar vc. Por um dia inteirinhoooooooo”.

Ele responde:

“Vem pra Paris”.

Ela comenta:

“Vou pra Alemanha em abril. Vou tentar fugir pra Paris. Ahahah”.

“Tentar?”, pergunta Neymar.

Mais adiante, dias depois, o jogador pergunta:

“Quando vem me ver?”

“Meio do ano. Se vc merecer”, responde ela.

Em outro momento, a modelo diz:

“A baianinha aqui tá juntando grana pra isso. Qm sabe vc não aparece pelo Brasil antes”.

Neymar, então, propõe:

“Posso te ajudar nisso”.

“Sou um pouco orgulhosa quanto a isso, mas opor em ir te ver eu não vou. Confesso rs”, ela responde.

Neymar posta uma figurinha e arremata:

“Então bora”.

As conversas seguem até que ela avisa que já está em Paris.

Pelo que Neymar postou, faltam conversas, como as informações sobre como ela recebeu as passagens e as reservas.

Talvez o jogador tenha querido preservar alguém. Segundo relato prestado por ela à Polícia, foi o ex-jogador Gallo quem intermediou tudo.

Há um um ex-jogador de nome Gallo que foi treinador das categorias de base da Seleção Brasileira e deu demonstrações públicas de amizade com Neymar, através de postagens na rede social.

Na conversa que divulgou, Neymar expões fotos íntimas da modelo e um diálogo no dia seguinte ao do primeiro encontro deles, no hotel. Fica claro que fizeram sexo, depois de Neymar, a caminho do encontro, contar que estava bebendo.

“Meio bêbado”, avisa.

No dia seguinte, combinam de se encontrar de novo.

A última mensagem divulgada por ele é da modelo:

“Vc não vem e tá dando mancada me deixando esperando”.

Ainda que seja verdadeira a hipótese de que Neymar está sendo vítima de armação, não caberia a Datena sentenciá-la.

É compreensível a preocupação do pai dele, expressa na entrevista, de que precisava reagir dura e rapidamente para preservar a imagem do filho — que significa muito dinheiro.

Do ponto de vista dele e de Neymar, divulgar o conteúdo da conversa é um procedimento aceitável para quem está sendo acusado de um crime grave, estupro.

Incompreensível, sob qualquer ponto de vista, é o comportamento do jornalista Datena. Ele, sem dúvida nenhuma, estuprou o direito da modelo de não ser exposta.

A tentativa de que ela tentou extorquir dinheiro do jogador é, por enquanto, uma denúncia, a de Neymar e do pai dele. E não justifica divulgar o nome dela.

Datena se antecipou à Justiça e fez o que se tornou rotina em programas como os dele: uma arena para a barbárie.

Se Neymar fosse pobre e acusado de estupro, Datena já estaria pedindo a prisão dele, independentemente das provas.

Joaquim de Carvalho
No DCM



Neymar nega ter estuprado brasileira em Paris e divulga mensagens e imagens íntimas da suposta vítima

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Uma grande mentira

Até antes da semana passada, a tolerância do presidente Bolsonaro em relação aos insultos de Olavo de Carvalho feitos contra os generais Villas Bôas, Santos Cruz, Hamilton Mourão e mesmo aos militares em geral era explícita. Nos últimos sete dias, porém, finalmente houve um silêncio por parte da trupe olavista, incluindo do próprio presidente.

“Não podendo ser um dos limitados à comunicação privada, Bolsonaro refluiu as suas provocações e a falta de senso, também como efeito das cobranças e conversas afinal mais responsáveis no Planalto”, destaca Janio.

“Passou a semana buscando eventos em que se mostrasse simpático, quis entrevistas, culminando com o espetáculo do enlace a que atraiu dois incautos”, completa o articulista se referindo ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Na terça-feira (28), o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, articulador do governo no Congresso, disse que os presidentes da República, Câmara, Senado e STF, após uma reunião, haviam concordado em assinar um pacto pela governabilidade do país. Mas ao longo da semana, a proposta gerou mal-estar entre os representantes dos poderes e seus representados.

“O primeiro [Dias Toffoli] não tem como comprometer por sua conta, em pactos ou no que seja, os demais magistrados do Supremo Tribunal Federal. Até os desvalorizou no tal pacto político com Bolsonaro em nome do tribunal. O outro [Rodrigo Maia], sonhando sempre com a Presidência, pensou subjugar às pretensões do Executivo a independência do Legislativo ditada pela Constituição. Ambos demonstraram mais presunção pessoal do que noção dos limites de suas funções”, analisa Janio.

O colunista pontua que o silêncio da trupe bolsonarista ligada à Olavo de Carvalho, cessando os ataques contra os militares, e o anúncio do Planalto em construir um pacto com os demais poderes, apenas buscaram “falsificar a índole do governo”. Mas, quando o cenário parecia apontar para a harmonização das forças, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, protagoniza episódios revelando o real caráter do governo bolsonarista: autoritário e néscio.

“A construção ou, no nosso caso, a salvação do regime medianamente democrático precisa de quem o defenda. À falta de oposição organizada e incisiva, estudantes coadjuvados por professores entregam-se com altivez a esse papel. Weintraub é quem os incita”, reforça Janio se referindo à última nota oficial publicada pelo MEC, no dia 30 de maio, ameaçando professores, estudantes e pais por participarem e divulgarem manifestações contra o governo.

Nesse cenário, Janio destaca a postura dos meios de comunicação. Todos “clamam sem cessar por melhor sistema de ensino, sua única ou maior bandeira de benefício com amplitude absoluta”, porém, ao mesmo tempo, “recorrem a métodos conhecidos para depreciar as manifestações contra o corte de 30% dos recursos do ensino superior público”.

“É o famoso tiro no pé. Há informações sobre esforços de organização para manifestações várias, já em junho, de outros segmentos prejudicados”, completa o articulista. A tendência de novos atos contra o governo, prossegue, “é o esperado de um país que se degringola”.

“Ao se completar apenas o quinto mês de governo, os 3% de crescimento neste ano, previstos antes da posse pelo novo ministro da Economia, já estão reduzidos à faixa do zero vírgula”, continua.

Enquanto isso, o governo e setores financeiros aponta as mudanças da Previdência como a grande chave para retomar o crescimento da economia. Nada mais descaradamente enganos que isso, dada a complexidade da economia.

“Estamos vivendo dentro de uma grande mentira. Não há sinal de que os militares do governo se inquietem além das bagunças da trupe bolsonara”, pontua Janio. Os bolsonaristas econômicos já começam a demonstrar preocupação.

“Por ora, pacificam-se na sua catedral, a Bolsa. Não falta muito, porém, para que se sintam premidos a liberar as palavras ainda retidas em ambientes restritos, como fizeram em ocasiões passadas. Sem que isso permita, necessariamente, vislumbrar uma saída saudável de dentro da grande mentira”, conclui Janio. Para ler sua coluna na íntegra, clique aqui.

Janio de Freitas
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