27 de mai. de 2019

Justiça de transição para juiz, procurador e Fantástico por assassinato de reputação

Pergunto: como ficam os autores desse claro episódio de abuso de autoridade? O MPF consagrou a Justiça de Transição, como vacina contra a repetição do arbítrio. Precisa se voltar para seu próprio umbigo e mostrar dignidade. E o que seria dignidade?


Na grande noite de São Bartolomeu, em torno do impeachment da presidente da República, nenhum episódio foi mais infame do que a detenção de cerca de quarenta funcionários do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), dentre os quais mulheres grávidas, sendo expostos à sanha da mídia. E a denúncia contra cinco deles.

Qualquer pessoa medianamente informada conhece a governança no BNDES, um banco exemplar, como o próprio Banco do Brasil, que passou ileso pela corrupção política.

Mesmo assim, na gana por protagonismo, o procurador do Distrito Federal Anselmo Lopes solicitou e o juiz Ricardo Leite autorizou a humilhação pública dos funcionários do banco. Cerca de 40 deles foram detidos, sob os holofotes da mídia, conduzidos para a cadeia.

Não apenas humilharam cidadãos exemplares, como provocaram o chamado apagão das canetas, um receio generalizado de funcionários em assinar qualquer operação, sabendo o risco que corriam em uma Justiça sob o comando dos hunos.

Mais que isso.

Procuradores vazaram para o Fantástico que um determinado funcionário, aposentado, era o infiltrado da JBS no banco. A pessoa em questão era o representante do BNDES no Conselho da JBS, já que o banco detinha participação acionária no grupo.

Com a bestialização do jornalismo, o Fantástico marcou uma entrevista com o funcionário para falar de abelhas – ele é apicultor. Câmera ligada, colocaram-no no pau-de-arara jornalístico, para que falasse de suas ligações com a JBS. O entrevistado deu as costas, com a indignação dos justos, saiu de cena e a câmera foi acompanhando, com quem persegue um ladrão que foge da cena do crime.

No dia 21 de maio de 2017, a reportagem foi apresentada com acusações frontais do apresentador. Dizia que o Fantástico localizou um agente duplo da JBS no BNDES acusado de favorecer a empresa em bilhões.

Mesmo depois de ficar claro que todos os procedimentos dos funcionários foram decisões técnicas, tomadas de forma colegiada, o MPF do distrito Federal prosseguiu em uma sanha persecutória. Era uma ofensiva irracional, que afrontava qualquer conhecimento mínimo sobre os processos decisórios do banco.

Na semana passada, o juiz federal Marcus Vinicius Reis Bastos, da 12ª Vara Federal Criminal da Justiça Federal do Distrito Federal, rejeitou a denúncia contra cinco funcionários do banco.

Para o juiz Bastos, “os depoimentos colhidos na fase investigativa, repito, negam peremptoriamente qualquer interferência, influência, orientação, pressão, constrangimento ou direcionamento na tramitação dos processos de aporte financeiro do BNDES (…) A participação de agentes do BNDES em conselhos de administração de empresas privadas e o relacionamento institucional entre o Banco e essas empresas clientes, estavam previstos nos seus regulamentos e eram necessários para a defesa dos interesses e do dinheiro público envolvidos nos aportes financeiros, não sendo por si só atos ilícitos, ao contrário do que parece crer a acusação”.

Pergunto: como ficam os autores desse claro episódio de abuso de autoridade? O MPF consagrou a Justiça de Transição, como vacina contra a repetição do arbítrio. Precisa se voltar para seu próprio umbigo e mostrar dignidade. E o que seria dignidade?
  1. Em vez de negociar com Jair Bolsonaro, e manter a blindagem sobre o motorista Queiroz, a Procuradora Geral da República Raquel Dodge teria um momento de grandeza, se fizesse um pedido público de desculpas aos inocentes atingidos pelo episódio.
  2. Os autores dessa truculência serem no mínimo advertidos pelo Conselho Nacional do Ministério Público.
Toda solidariedade aos colegas jornalistas alvos das manifestações de rua dos bolsominions, vítimas do ódio que ajudaram a plantar. Mas como fica a reparação? O Fantástico fará um pedido público de desculpas ao funcionário exposto como criminoso a milhões de brasileiros?
"Meninos, eu vi" (yuca pirama) Tenho visto barbáries como o assassinato dos 111 presos do Carandiru, mas nem se compara os crimes contra a reputação cada dia mais em voga no nosso país através da mídia. São milhares e milhares jogados na lixeira da infâmia e o pior, fica por isso mesmo. Até quando?


Olyrio
Luís Nassif
No GGN
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As ligações perigosas de Moro: ele defende os radares, cujo fabricante é cliente do amigo Zucolotto, sócio de Rosângela

Zucolotto, atrás de Moro, Samuel Rosa e Rosângela: nesta foto, só o líder do Skank
não tem nenhuma conexão com radar
Ao enviar para a Câmara dos Deputados um estudo em que defende radares nas estradas, o ex-juiz Sergio Moro, ministro da Justiça, foi na contramão de Jair Bolsonaro, seu chefe, que quer acabar com esse sistema de controle de velocidade.

Este foi o aspecto da notícia destacado pela imprensa, que deixou de mencionar que a indústria dos radares tem conexão com o escritório de advocacia de sua mulher, Rosângela Moro, e também com a atividade do padrinho de seu casamento e amigo de longa data, Carlos Zucolotto Júnior.

Zucolotto, que se tornou lobista de carteirinha ao pedir sua inscrição na Associação Brasileira de Relações Governamentais, é advogado da Perkons S/A, fabricante de radares.

A empresa também é representada na Justiça por outra advogada, Thaís Milena Ribeiro, que foi sócia de Zucolotto e hoje trabalha no escritório de Rosângela Moro.

Zucolotto e Thaís também foram sócios na empresa Etoile Assessoria Ltda, fundada em 2015 e já fechada, segundo registro da revista Veja.

Mundo pequeno demais para que todas essas conexões se estabelecessem.

Moro pode ter todos os motivos do mundo para defender radares.

O estudo da Polícia Rodoviária Federal que ele enviou à Câmara dos Deputados, atendendo a requerimento de informações apresentado pelo deputado Ivan Valente (PSOL-SP), associa a instalação de radares à redução de mortes nas estradas.

Mas, no caso dele, a proximidade da indústria com Zucolotto e Rosângela torna a manifestação suspeita. A Perkons já disputou sete licitações do governo federal, todas antes da gestão de Moro, mas ainda não conseguiu nenhum contrato.

A investida de Bolsonaro contra os radares também pode ser a fachada de uma disputa por poder no governo federal. Ao criticar os  radares e prometer acabar com eles, Bolsonaro contraria interesses muito próximos da esposa e do amigo de Moro.

Bolsonaro levantou o assunto radar do nada, durante uma transmissão ao vivo pela rede social na última quinta-feira.

“Eu conversei com o ministro Tarcísio [Freitas], da Infraestrutura, e estava na mesa dele, por coincidência, pedidos para 8 mil e poucos novos pardais, novas lombadas eletrônicas. Falei pra ele: Tarcísio, engaveta esse ‘trem’ aí“, disse.

Moro já foi envolvido em uma articulação para atender a lobby de outro grupo muito próximo de Zucolotto e dele próprio. É o caso do registro sindical obtido pelo Sindicato das Empresas de Gastronomia, Entretenimento e Similares de Curitiba (SindiAbrabar).

Responsável pelo setor de registro sindical do Ministério do Trabalho, durante o governo Temer, Luciano Cabral contou à Polícia que o SindiAbrabar só conseguiu ser reconhecido como entidade  representante do setor depois da interferência do próprio Moro, na época juiz em Curitiba.

Luciano Cabral prestou o depoimento depois de ser preso na Operação da Polícia Federal Registro Espúrio.

Cabral tem uma foto em que aparece com Moro e dirigentes do Sindicato durante a festa para comemorar a obtenção do registro depois de muitos anos de tentativa.

A revista Veja, que fez este relato em reportagem, procurou defender Moro. “É difícil até tentar imaginar que o juiz responsável por uma gigantesca investigação de corrupção no país tenha pegado um telefone, ligado para Brasília e usado o peso de seu nome para pedir um favor a um grupo criminoso”, escreveu.

E o que Moro estaria fazendo na festa para comemorar a obtenção do registro? Difícil imaginar. Em tese, sua relação com bares e restaurante se limita a frequentar o Paraguassu, bar da família de Zucolotto.

Zucolotto tem uma empresa de consultoria empresarial — que faz lobby — que funciona no mesmo endereço do escritório de Rosângela Moro, a CZJ Assessoria e Consultoria Empresarial.

Ali também está instalada a HZM2 Cursos e Palestras, empresa aberta em 2018 que tem como sócios a esposa de Sergio Moro e Carlos Zucolotto Júnior.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Fake news: Bolsonaro usa foto de 2015 em post sobre protestos do dia 26; mulher morreu em novembro


Jair Bolsonaro continua oferecendo mamadeira de piroca em diferentes formatos para seu público.

No domingo, enquanto seus seguidores pediam o fechamento do Congresso e do STF, ele postou uma mensagem demagógica e chantagista nas redes.

Como legenda da foto de uma senhora idosa vestindo verde e amarelo, enrolada em uma bandeira do Brasil, usando um andador, ele — ou Carlos — escreveu um “apelo”.

Presidente, Ministros, Senadores, Deputados, Governadores, Prefeitos, Vereadores, Juízes: OLHEM A NOSSA RESPONSABILIDADE.”

A cena, porém, é de um protesto pelo impeachment de Dilma datado de 15 de março de 2015.
A capixaba Maria Nina Rattes, que morava no Rio de Janeiro, morreu em novembro passado.




Kiko Nogueira
No DCM
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Desconversa

Reflexões ao ouvir o Paulo Guedes explicar mais uma vez por que ainda não deu certo.

É um problema de linguagem. Os números falam uma língua, a gente fala outra. A linguagem dos números é o oposto intraduzível da linguagem das coisas, portanto o contrário da linguagem humana.

Na língua dos números não há retórica, nem jargão, nem duplo sentido – e nem diálogo. Você pode contestar os números com outros números, mas não pode tentar ser mais brilhante ou mais convincente, ou questionar o caráter e as motivações dos números.

Com números não existe interlocutor, ou crítica irrespondível. Um interlocutor que não pode ser ridicularizado, desprezado, desmentido ou acusado de má vontade ou má-fé, e para o qual nenhum tipo de explicação é possível. Porque ele simplesmente fala outra língua, incompatível com a língua da desconversa.

Os mesmos números que dizem que anos de modelo neoliberal não fizeram diferença nos índices sociais brasileiros, a não ser diminuir o valor aquisitivo do salário mínimo, nos desafiam a buscar alguma forma de diálogo entre as duas línguas refratárias, para se entenderem. Boa parte da tragédia brasileira se resume nessa separação entre a matemática e a dura língua da realidade, dizendo sempre o mesmo. Os economistas querem nos convencer que o que falam é matemática castiça e consequente, quando o que as duas repetem sem parar é que nada muda, nada muda, nada muda...

Doris

Nenhuma loira americana era tão loira americana quanto a Doris Day. Mas ela não era apenas um tipo ou um protótipo, era uma cantora mais do que apenas agradável e – surpreendentemente – uma boa atriz. Seu repertório pop era desculpável, e desconfia-se que o Hitchcock a tenha forçado a cantar Que Sera, Sera durante todo o filme O Homem Que Sabia Demais como parte do seu programa de infernizar as loiras.

Luiz Fernando Veríssimo
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A situação de Bolsonaro é muito mais grave do que parece



Após o sucesso das manifestações em defesa da educação no dia 15 de maio, Bolsonaro convocou sua tropa para ir às ruas neste dia 26. Havia muita expectativa acerca do tamanho delas, principalmente depois que movimentos como MBL e Vem Pra Rua, entre outros, decidiram não apoiar a decisão do presidente.

Se os atos não foram um mico total, o resultado geral é mais negativo do que positivo para Bolsonaro. Só no Rio de Janeiro e em São Paulo que as manifestações tiveram alguma relevância. E mesmo na avenida Paulista, local que concentrou mais gente, a frase que melhor define o que ocorreu é a do colunista da Folha, José Simão.

“Paulista! Apertando dá dois quarteirões! Muito vácuo, se fosse escola de samba já tava desclassificada”.

Os espaços em branco também foram grandes na orla de Copacabana. E imensos em Brasília, que talvez tenha sido o grande fiasco do dia. A esplanada ficou vazia.

Voltando ao ato da Paulista que tem sido apontado como um enorme sucesso pelos bolsonaristas, ele foi menor, por exemplo, que os convocados pelo PT para defender Dilma do impeachment. Isso quer dizer muita coisa, principalmente para um governo que ainda não completou cinco meses.

Dilma já era presidente há 4 anos quando os atos contra ela foram grandes. E o PT já estava à frente da presidência há 12 anos.

Algumas pessoas têm feito outra relação. Dizem que Bolsonaro se mostrou muito mais forte do que Fernando Collor que fez um pronunciamento à nação em 13 de agosto de 1992 pedindo para que as pessoas fossem às ruas no domingo seguinte usando verde e amarelo para defenderem seu governo. Naquele dia 16 o Brasil se vestiu de preto e tomou as ruas. O impeachment passou a ser questão de tempo.

De fato isso não ocorreu com Bolsonaro e ele teve gente para lhe defender, mas naquele momento Collor já tinha 1 ano e meio de governo. Bolsonaro não tem sequer meio.

O fato é que se a questão da conta do número de pessoas nas ruas é importante e não pode ser ignorada, há uma outra conta que talvez seja mais relevante e que está sendo pouco debatida. A conta que o pessoal que foi alvo da tropa de Bolsonaro está fazendo hoje.

Os alvos dos “patriotas” que usaram verde, amarelo e a bandeira dos EUA para desfilar foram Rodrigo Maia, o centrão, o STF, o MBL e o general Mourão.

Se quem ataca às vezes esquece, quem é atacado costuma anotar a agressão.

Ou seja, os alvos de hoje estão putos e vão querer dar o troco amanhã.

E se a situação de Bolsonaro não está fácil no Congresso ela tende a ficar muito pior a partir de hoje. Consequência direta é que sem o Congresso um governo que ainda tem três anos e meio de mandato não pode fazer muita coisa.

O país fica instável e os investimentos tendem a não voltar. Com a ampliação da crise a paciência daqueles que não são seus eleitores fundamentalistas vai acabando. Nesta toada não demorará muito para que sua base volte a ser algo entre 15% e 20%, que é o seu verdadeiro eleitorado. Aquele que lhe prometia voto antes da facada.

Se Bolsonaro voltar a este patamar os que foram alvos dele hoje vão comer o prato frio da vingança. E aí o atual presidente vai perceber com clareza que definitivamente não foi uma boa ideia para o governo convocar as manifestações de hoje.
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No day after da farra dos bolsominions, PIB cai, lojas fecham e Brasil derrete

https://www.balaiodokotscho.com.br/2019/05/27/no-day-after-da-farra-dos-bolsominions-pib-cai-lojas-fecham-e-brasil-derrete/

Cessada a farra de domingo, recolhidas as faixas e bandeiras e guardadas as camisetas amarelas da CBF, voltamos à vida real.

Como as manifestações a favor do governo não geraram nenhum emprego, a segunda-feira de ressaca começa com novos números negativos na economia.

Segundo o Boletim Focus do Banco Central, a previsão de crescimento do PIB para este ano caiu pela 13ª vez e está em 1,23%, um colosso produzido pelos frentistas do Posto Ipiranga. A China que se cuide…

Estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC) revela que estão novamente fechando mais lojas do que sendo abertas no país.

De janeiro a março, já em plena era bolsonarista, 39 pontos de venda lacraram suas portas.

“O número é pequeno, mas emblemático, pois indica grande mudança de rota. E confirma o quadro de estagnação da economia, já apontado por outros indicadores”, relata Marcia De Chiara, no Estadão.

Com o entusiasmo provocado no mercado pela posse de Bolsonaro, estimava-se que esse ano terminaria com a abertura líquida de 22 mil lojas, segundo Fabio Bentes,  economista-chefe da CNC e responsável pelo estudo (no último trimestre de 2018, o saldo positivo foi de 4,8 mil unidades).

“Essa previsão vai derreter, como todas as previsões de indicadores têm derretido. Seguramente, não vamos ter crescimento no número de lojas e há o risco de que o ano termine com um número negativo”, diz o economista.

Derreter é o verbo mais ouvido no mercado nas últimas semanas, sem previsão de que algo possa mudar tão cedo.

Nova pesquisa divulgada nesta segunda-feira pela XP Investimentos, mostra que, em menos de cinco meses de governo, acabou o amor dos milionários por Bolsonaro.

A reversão de expectativas dos investidores, quer dizer, a turma da grana gorda, é maior do que a observada na população em geral.

A percepção ótima ou boa do governo do capitão desabou de de 86%, em janeiro, para 14%, este mês. E o nível de ruim ou péssimo deu um salto de 1% para 43% no mesmo período.

Foram ouvidos 79 investidores institucionais entre grupos de consultores nacionais e estrangeiros antes das manifestações de domingo.

Se piorou a avaliação do Executivo, houve uma melhora na percepção dos investidores sobre o Congresso Nacional.

Em resumo, os muito riscos que embarcaram na canoa furada do capitão já estão trocando Jair Bolsonaro por Rodrigo Maia quando se trata de planejar seus negócios.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
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Manipulação da Folha

A Folha quer nos fazer acreditar que as manifestações de ontem foram predominantemente em favor de Guedes e do fim da previdência.

Mesmo no próprio jornal, não há uma foto que corrobore essa afirmação. A custo, em toda a cobertura, aparecem dois depoimentos nesta direção – um deles de um jovem ajudante de pedreiro que afirma estar na rua “pelo pacote do Moro, pela reforma da previdência e contra os ministros do STF”.

A última parte do discurso do ajudante de pedreiro é, na verdade, a que dominou as ruas. Ele mesmo desenvolve a ideia, na continuação de sua fala: “Bolsonaro está tentando governar, mas tem interferência do Parlamento”.

O jornal nem escondia sua frustração com o fato de que Rodrigo Maia, “um dos principais defensores da reforma da Previdência”, era “contraditoriamente” criticado nos atos.

O fato é que o desmonte dos direitos e do que nos resta de Estado social tem dificuldade de ganhar as ruas. Guedes faz sucesso entre ricos e wannabes, mas pouco fora deste círculo tão minoritário. A destruição da democracia se mostra bem mais popular. Justamente por isso, o programa ultraliberal costuma se acoplar a projetos autoritários.

No Brasil, muitos que sonharam com uma restrição contida das instituições liberal-democráticas (retirar a Dilma, criminalizar o PT, sanitizar o processo eleitoral) agora estão torcendo o nariz para Bolsonaro. Em parte, talvez, por uma sincera repulsa ao autoritarismo explícito do ex-capitão. Mas em grande parte porque ele está falhando em seguir a prioridade “certa”, que é o desmonte do sistema previdenciário.

A parcela da direita que quer se dissociar do governo tem uma tarefa difícil pela frente. Os rapazes do MBL podiam se pôr à prova agora e chamar uma passeata com a palavra de ordem deles: “Pela reforma da Previdência, com o Centrão, com o Supremo, com tudo”. Vamos ver quanta gente vai.

Luis Felipe Miguel
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As disputas de rua e a hora de avançar nos espaços de mediação

Eu sei o que ele fizeram no último verão. Mas o que importa, agora, é o rascunho do mapa do inferno que se desenha, caso a parte racional da sociedade civil não se junte em fortalecimento do chamado centro democrático.


As manifestações em favor de Jair Bolsonaro, independentemente das avaliações sobre a quantidade de pessoas que compareceram, levam definitivamente a luta política para as ruas. Entra-se em uma nova fase do fascismo, na qual os principais veículos de mobilização da etapa anterior – veículos de mídia – perdem o controle sobre as massas. Pouco importa se lideradas por um estadista ou por um imbecil, a besta das ruas ganha vida própria, mas não o suficiente, ontem, para o autogolpe.

Hoje, as manifestações propuseram explicitamente o fechamento do STF (Supremo Tribunal Federal). Dias atrás, o Ministro Luís Roberto “Iluminista” Barroso deu novamente carne fresca à matilha alegando que as raras decisões da casa, em defesa dos direitos individuais, justificariam a selvageria das ruas. Para se poupar, atiçava os mastins contra seus adversários, mesmo sabendo que as mordidas seriam em cima de uma democracia claudicante.

A pusilanimidade de Barroso é um indício claro da dificuldade em recompor o centro democrático visando impedir o avanço da barbárie nesses tempos de cólera. Ainda haverá necessidade de mais massa crítica contra a barbárie, até os homens bons terem certeza de que é um bom negócio pular de volta para o barco da democracia.

A falta de noção de perigo é tamanha que a Globonews colocou todos seus jornalistas instrumentalizando as manifestações, apresentadas como em defesa da reforma da Previdência e do pacote de encarceramento em massa do Ministro Sérgio Moro. Pouco importa se esse endosso significou um reforço extra para um governo que está desmontando o país. A síndrome do imediatismo é uma praga inarredável.

O pacto

O impeachment se deu quando o principal adversário do PT, o PSDB, se viu sem condições de recuperar o poder. Não apenas pela derrota de Aécio Neves por Dilma Rousseff, mas também pela perspectiva de, em 2018, ter Lula novamente como candidato.

Foi uma reedição dos golpes políticos-midiáticos-jurídicos que marcaram a América Latina desde a redemocratização dos anos 80. A maneira como advogados legalistas tardios, Ministros garantistas retardatários, jornalistas que se tornaram democratas de nascença desde o ano passado se uniram, no pré-impeachment, para tentar legitimar o golpe é assunto para a história.

Eu sei o que ele fizeram no último verão. Mas o que importa, agora, é o rascunho do mapa do inferno que se desenha, caso a parte racional da sociedade civil não se junte em fortalecimento do chamado centro democrático.

Se não chegarem a um acordo, a alternativa Bolsonaro será Hamilton Mourão, com duas forças disputando o controle do país: ou as milícias, com Bolsonaro, ou o poder militar, com Mourão. E ninguém se iluda com os militares. A exemplo de outras instituições contemporâneas, trata-se de uma força incapaz de pensar o país até nos aspectos que lhe dizem respeito direto: a noção de defesa nacional, desestruturada com a venda da Embraer, sem um sinal sequer de resistência das Forças Armadas, ou o decreto das armas, ameaça direta aos soldados, quando a anarquia se impuser.

A defesa da democracia não poderá depender de nenhuma dessas alternativas, mas de um grupo democrático forte, que vá acumulando massa crítica para se antepor ao avanço do autoritarismo.

Daí a necessidade premente de um rearranjo do centro democrático.

O fator Lula

Maior líder da história, Lula padece de um dilema paradoxal. Seria o personagem público mais qualificado para conduzir o grande acordo nacional, não fosse o desequilíbrio que impõe ao jogo pela absoluta ausência, no campo tucano-mercado-liberal, de um interlocutor à sua altura.

Transformado no grande mote da polarização política, no entanto, não há espaço para Lula ser protagonista principal. Basta colocar a cabeça de fora para Imediatamente acender o antilulismo, resultando no impasse político. Não adianta deblaterar contra essa democracia condicionada, hipócrita: ela é um dado na realidade, em um país em que a defesa da democracia é tratada de forma utilitarista.

Mesmo sem Lula em primeiro plano, o polo progressista tem se aglutinado em torno de Fernando Haddad, como representante do principal partido de oposição, o PT e o político respeitado por outras lideranças significativas do arco da esquerda.  A maneira como está sendo recebido em várias partes do país, o modo como foi tratado pela juventude estudantil paulistana nas passeatas pela educação, a coerência e, ao mesmo tempo, a interlocução com forças modernas da esquerda e do centro, o qualificam como o grande interlocutor do lado do PT.

Já o Partido de Jorge Paulo Lehmann e os Novos da vida estão trabalhando mercadologicamente nomes novos. Em vez de apostar desde já em uma improvável eleição em 2022, deveriam esquecer um pouco a miragem Luciano Huck e se empenhar nesse grande acordo e, principalmente, em diluir a pesada demonização dos adversários, plantada no período pré-impeachment.

No Senado, há remanescentes da razia produzida pela Lava Jato em condições de conduzir negociações junto aos demais poderes. Há um grupo de governadores nordestinos de espírito democrático comprovado. Se o PSDB conseguir se libertar do imediatismo de João Dória Jr poderá agregar os políticos históricos com jovens promessas comprometidas com a democracia e a tolerância.

O importante é que um pacto dessa dimensão tem que ser equânime, respeitando o conceito de frente cuja bandeira maior tem que ser a defesa da democracia.

Luís Nassif
No GGN
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A revolução dos brancos


Desde 2013, já era possível notar que essas manifestações de fascismo urbano eram, por assim dizer, piqueniques cívicos da classe média branca, racista e iletrada do Brasil.

O antipetismo alimentado pela mídia fez os pobres apoiá-las, mas não conseguiu manchá-las de pardo: durante todo o processo que resultou no impeachment de Dilma Rousseff, a histeria das ruas manteve-se branca, alva, em fantasias verdes e amarelas.

Mesmo fracassada, as manifestações de apoio a Bolsonaro mantiveram esse padrão intacto. Mais ainda, filtraram esse fenômeno até o limite de qualquer percepção.

Nas ruas, nos pequenos e grandes grupos, eram sempre brancos e brancas em máscaras de ódio, rancor e tristeza. Uma gente tão infeliz que não causa espanto nenhum as opções que faz.

Essa gente horrível, plena de desgosto, ainda vive seu momento, embora seja óbvio o seu ocaso.

Ainda assim, me embrulha o estômago ver essa turba ignorante empunhando banners de vinil expondo a própria ignorância, disseminando ódio e intolerância, erguendo bonecos infláveis para disfarçar uma vida inteira de insignificância.

Leandro Fortes, jornalista
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Qual o futuro da mídia impressa?

Os leitores do papel acabarão se tornando leitores digitais? Será que eles vão gastar tanto tempo consumindo jornalismo em seus smartphones quanto gastavam lendo o papel? Será que a atenção deles continua focado no jornal ou vagueia pela Internet?


A transformação dos negócios pela revolução digital afeta todo e qualquer setor. Vamos olhar as revistas e jornais impressos, que estão sofrendo sangria em assinantes e anunciantes. Perdem leitores e consequentemente, perdem interesse dos anunciantes. Embora apostem nas versões digitais para se manterem funcionando, a receita do digital não vem recompondo a perda das receitas originais. Mais cedo ou mais tarde os “custos de impressão” (parques gráficos são caros) serão bem maiores que a “receita de impressão” e será a hora de parar as impressoras de vez. A única questão é quando, se em 2, 5 ou 10 anos?

O que vai acontecer quando os jornais impressos desaparecerem? Os leitores do papel acabarão se tornando leitores digitais? Será que eles vão gastar tanto tempo consumindo jornalismo em seus smartphones quanto gastavam lendo o papel? Será que a atenção deles continua focado no jornal ou vagueia pela Internet? Na minha opinião sinto que a tendência é serem distraídos, pulando de um link para outro, alérgicos à profundidade.

Por outro lado, vemos que o tempo gasto pelas pessoas conectadas à Internet é muito maior que o tempo que era gasto lendo jornais. Este tempo está sendo gasto nas redes sociais (que hoje é a maior fonte de notícias) e em apps de uso geral.

Somando tudo vemos que a maioria das pessoas que deixam o impresso não vão para assinatura digital, pois tem acesso a informações gratuitas na Internet, usam redes sociais e estão pouco afeitos à profundidade, preferindo pular de notícia superficial em notícia superficial. Portanto, para que pagar por assinatura?

Como os jornais não conseguem acompanhar a velocidade da Internet e das redes sociais, seu apelo a jornalismo genérico mais aprofundado não desperta interesse. Ao optarem por serem rasos, também perdem, pois a Internet tem milhões de jornalistas, os próprios usuários, que geram muito mais informações que as redações. Nenhuma redação teria tanta gente quanto as redes sociais. Lembrem-se que as redes sociais não produzem notícias, apenas disseminam notíciais produzidas pelos próprios usuários.

Existe a opção de se concentrar em nichos. Por exemplo o britânico Financial Times atende a um público de nicho com conteúdo diferenciado. A lição é que, se você atender bem seus leitores com algo original que eles não conseguirão em outro lugar, eles pagarão por isso. A receita de conteúdo de qualidade da FT é direcionada para um grupo de leitores fiéis que se interessam pelos temas publicados, e está atraindo anunciantes premium, que querem se comunicar com este público específico. Mas, para isso, é preciso manter uma equipe de caros jornalistas especializados e contar com staff de pesquisa e apoio.

O mercado mudou e as empresas que publicam jornais não entenderam. No impresso, os jornais tinham poucos ou nenhum concorrente. Na Internet a concorrência é infinita. Muitos jornais não evoluíram seu digital. A maioria é um simples pdf da versão impressa. Não são atrativos. Os jornais também não entenderam como é o consumo de informações em um mundo muito mais rápido e urgente. Os jornais continuam sobrecarregados com informações como faziam no passado. Jornais diários têm em média de 30 a 40 páginas, várias centenas de artigos e umas 150 mil palavras. Ler toda essa informação é inviável, considerando a quantidade de dados e informações que uma pessoa comum já está exposta a cada dia. Quando um consumidor paga por um jornal, ele paga por informações e/ou entretenimento. Quando uma grande porcentagem dessas informações é irrelevante e requer que os leitores analisem uma quantidade desnecessária de dados para encontrar os artigos e tópicos que lhes interessam, isso gera um enorme desperdício de tempo para o leitor, o desestimulando a continuar a ler o jornal.

Os jornais foram apanhados na armadilha tecnológica, ao não reconhecerem em tempo hábil a importância disruptiva das mídias sociais, que estão levando embora seus leitores e receitas, mudando o comportamento do consumidor e, sugando toda a publicidade que antes era destinada a jornais e TVs.

O gráfico abaixo, produzido pelo Banco Mundial mostra a divisão gritante entre como os leitores de diferentes faixas etárias obtêm suas notícias. É óbvio que as gerações mais jovens recebem suas informações de diversos meios, principalmente da web e mídias sociais, enquanto os grupos de pessoas mais velhas tendem a se ater a mídias tradicionais, como a televisão e jornais. Claramente a mídia tradicional não está satisfazendo a demanda da sociedade mais jovem.


O gráfico sugere que, nos próximos anos, as pessoas receberão suas informações não de poucas fontes, como um ou dois jornais e uns poucos canais de TV, mas de uma variedade de fontes. Anteriormente, os leitores se mantinham leais a uma ou poucas empresas de mídia, aquelas que estavam mais aderentes de suas opiniões políticas, interesses e localidades. Agora, os usuários têm muito mais liberdade para sintonizar seletivamente os artigos de notícias que desejarem ler, de qualquer fonte. Toda vez que entramos no Facebook ou completamos uma busca no Google, somos os editores de nossos próprios jornais porque podemos escolher de onde vem nossa informação.
Qual será o futuro dos jornais? Muitos afirmam que o jornal se tornará uma relíquia do passado, enquanto outros acreditam que o setor precisa se reposicionar e se reinventar para permanecer relevante nos tempos de hoje.

Ter uma visão digital é fundamental. Muitas vezes o que vemos nas versões web dos jornais é uma simples digitalização dos jornais impressos. Não foram pensados para a era digital, mas simplesmente digitalizados.

O mundo gera cerca de 2,5 quintilhões de bytes por dia. Com tantos dados disponíveis à nossa disposição, o que fazemos com isso? Há várias décadas, os acessos aos dados eram controlados por um oligopólio, as empresas de mídia, que detinham a maior parte das informações e filtravam o que queriam repassar para a sociedade. Agora, qualquer pessoa tem poder para publicar informações. Somos produtores e consumidores de informações. No entanto, como sabemos que alguma dessas informações é confiável ou vale a pena ser lida?

É aí que entra a proposta de curadoria. A curadoria de um bom conteúdo é importante porque os leitores buscam garantir que qualquer conteúdo que eles consumam seja preciso, confiável e de alta qualidade. O que os jornais estão fazendo, tentando lutar uma guerra frontal contra a Internet e as redes sociais, é uma guerra perdida. As empresas de mídia para sobreviverem, precisam se destacar em termos de capital humano, tecnologia e estratégia de longo prazo para poder competir com alguma chance de sucesso no mercado competitivo e sobrecarregado de informações de hoje. Precisam reinventar o jornal. Não precisam eles mesmos gerarem as informações e notícias. Elas surgem de todos os lugares, instantaneamente. Com algoritmos de IA podem vasculhar a Internet, blogs e mídias sociais, procurando conteúdos, aglutinando-os e os publicando de forma individualizada. Os algoritmos podem, por si mesmos, publicarem notícias, quase que ao mesmo tempo que foram produzidas em algum lugar e capturadas pelos outros algoritmos que vasculham a Internet. Um exemplo interessante de agregador de notícias controlado por IA é a chinesa Toutiao, considerada pela Fast Company uma das empresas mais inovadoras de 2018.

Cada leitor tem preferências únicas. O papel primordial da versão digital é interagir com os leitores, entender seus gostos e através de algoritmos de recomendação publicar as notícias que será de seu interesse. Os algoritmos podem identificar e separar fake news com mais precisão que humanos. Os jornalistas passam então a assumir papel de curadoria. Não escrevem notícias simples, mas analisam e escrevem artigos analíticos.

O jornalismo continua, a dúvida é se os jornais continuarão. Como estão, não irão sobreviver. O que isso significa para os atuais modelos de jornais impressos? Significa aceitar seu declínio dramático no alcance, influência e impacto. Perderam a relevância. Os únicos que ainda dizem que continuam relevantes são os próprios jornais. Noticiam em causa própria…

Cezar Taurion – Partner de Digital Transformation da Kick Corporate Ventures, Presidente do i2a2 (Instituto de Inteligência Artificial Aplicada). Mentor e investidor anjo.
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Isolar o Fascismo


A tarefa fundamental e inadiável das forças que ainda têm um compromisso mínimo com a democracia é isolar politicamente o neofascismo tupiniquim.

A total ausência de real compromisso democrático das nossas forças políticas conservadoras tradicionais foi o que permitiu a ascensão de um mentecapto extremamente perigoso, que ameaça acabar com o que restou da nossa democracia, após o golpe de 2016 e a prisão política de Lula.

As últimas manifestações, apesar de seu volume apenas mediano, mesmo nos maiores redutos bolsonaristas, foram convocadas pelo capitão com o objetivo principal de emparedar as instituições democráticas, especialmente o Congresso Nacional, que demonstra alguma independência, face ao festival inacreditável de absoluta incompetência do governo.

Nisso, não há surpresa alguma. Bolsonaro fez toda a sua longa carreira política de deputado do baixo clero como opositor ferrenho da democracia. Sempre elogiou a ditadura e os torturadores. Sempre defendeu, sem pejo algum, o extermínio, físico ou político, dos diferentes.

A imprensa sabia disso, os partidos políticos conservadores sabiam disso, os “formadores de opinião” sabiam disso, Sérgio Moro e seus procuradores sabiam disso, a justiça sabia disso, os donos do capital, mais que ninguém, sabiam disso perfeitamente. Até as capivaras do Lago Paranoá tinham conhecimento do assunto.

Contudo, todos resolveram apoiá-lo, com intuito de derrotar o professor universitário e implementar uma agenda ultraneoliberal de destruição de direitos e da soberania. Inocentes, nessa história sórdida, só as pobres capivaras e as forças políticas progressistas que brava, mas isoladamente, se opuseram à tragédia anunciada.

O que causa alguma surpresa, no entanto, é o apoio tácito que boa parte da imprensa conservadora e comercial deu às novas manifestações contra a democracia. Em nome da “necessidade” de se aprovar o fim da Previdência e as demais pautas destrutivas da agenda ultraneoliberal, transmitiram as manifestações ao vivo e buscaram inflar o fascismo nas ruas. Mais uma vez, demonstram que não têm compromisso efetivo com a democracia.

Tentaram disfarçar as manifestações pelo fechamento do Congresso e do STF como manifestações contra a “velha política”, e tentaram justificá-las dizendo que a vertente antidemocrática foi minoritária.

Não foi. O cerne das manifestações foi antidemocrático. Sob a desculpa do combate à “velha política” e à “corrupção”, o querem mesmo é abolir ou levar à inanição às instituições democráticas e instaurar um Estado policial.

Nesse sentido, as manifestações foram tão democráticas quanto as que o partido nazista promovia na Alemanha, na década de 20 e 30 do século passado. “Povo na rua” nem sempre é sinal de democracia. Pode ser o contrário. Naquela época, as manifestações nazistas também eram apresentadas como manifestações contra a velha política e a corrupção. Nazismo e fascismo eram o “novo”.

Alguns argumentam que as manifestações, por seu volume modesto, foram um fracasso, que Bolsonaro cometeu um erro tático, etc.

É possível. Bolsonaro, por absoluta mediocridade e incompetência, e também por seu claro vínculo com as milícias, perde popularidade em ritmo de blitzkrieg.

Não obstante, seria um erro crasso menosprezar seu potencial destrutivo.

Estamos em época de crise extremamente grave e crônica. Em cenários semelhantes, a volatilidade política é imensa.

Nas eleições de 1928, o partido nazista teve menos de 3% os votos. Julgaram que Hitler estava acabado. Bismarck até revogou a proibição de Hitler fazer comícios na Prússia, pensando que o perigo havia passado.

Quatro anos depois, no entanto, Hitler fez um retorno triunfal, obtendo mais de um terço dos votos. Poucos meses depois, chegou ao poder. Bastou o agravamento da crise econômica, a partir de 1929, para que os inimigos da democracia triunfassem.

A persistência do impasse econômico e político no Brasil pode, sim, levar a “soluções” autoritárias”. Há o risco sério de que o ressentimento e a frustração da população sejam dirigidos não contra o governo fascistoide, mas contra o que restou da democracia e suas instituições. Sob a desculpa de se acabar com a “velha política”, pode-se acabar, de vez, com a política.

A atual tutela militar sobre o poder civil, a falta de compromisso democrático de boa parte das nossas oligarquias, a ânsia por aprovar a agenda ultraneoliberal, a crise persistente e a criminalização da atividade política promovida pela Lava Jato compõem um cenário propício para aventuras de todo tipo.

A última pesquisa feita no Brasil pelo Latinobarômetro (2018) demostra que o apoio popular à democracia em nosso país é atualmente muito tênue. Ante a pergunta, você considera que a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo?, apenas 34% responderam afirmativamente. Ou seja, praticamente dois terços dos brasileiros admitem apoiar ou, ao menos, suportar um regime autoritário, caso julguem que a democracia (ou a “velha política”) tenha fracassado.

Bolsonaro demonstrou que está disposto a jogar a população contra as instituições democráticas. Está saindo da retórica para a ação. À medida que a crise avança e seu governo se paralisa, cresce a tentação de se apostar numa solução autoritária.

Nesse quadro, há de ocorrer uma reação firme das forças democráticas. Já passou do tempo de haver uma articulação, no Congresso e na sociedade civil, de todas as forças que ainda tem compromisso com a democracia.

Dizem que a grande astúcia do Diabo foi convencer de que ele não existia.

O neofascismo ou protofascismo brasileiro em senso lato existe. Está no poder e demonstra ser extremamente perigoso.

A democracia brasileira ainda existe, parcialmente. Mas o que restou dela corre o risco de não mais existir.

Marcelo Zero
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