25 de mai de 2019

Sobre a estupidez à la Brasil ou, na verdade, sobre o efeito Dunning-Krueger

Bertrand Russell diria: “A causa fundamental do problema é que, no mundo moderno, os estúpidos são arrogantes, enquanto os inteligentes estão cheios de dúvidas”


“A ignorância gera mais confiança do que o conhecimento”. (Charles Darwin)

Desde as jornadas de junho de 2013, vivemos uma estranha sensação de habitar uma distopia! Relembrando: devido ao aumento de R$ 0,20 nas passagens de ônibus metropolitanos, fomos transportados para uma espécie de dobra do espaço-tempo e caímos num mundo de antimatéria que poderíamos batizar de “antiBrasil” …

Mais tarde, descobriríamos que as frases pichadas em muros e paredes – “Não é só pelos R$ 0,20!” -, encerrava um plano dantesco de pulverizar a Razão e substituí-la pela Mentira ou, como se usa falar em tempos contemporâneos, pela “Pós-Verdade”. Em síntese, e em palavras que o brasileiro mediano “entende”: “FakeNews”!

Este primeiro passo na escadaria do fosso, que cavaríamos e desceríamos de forma paulatina, e cada vez mais profundamente encerrava a vontade de grupos de direita em desestabilizar econômica e socialmente o país para dar como fruto a vitória de grupos neoliberais nas eleições de 2014.

Como o plano fez água, iniciou-se o ‘plano B’: as famosas pautas-bombas de Eduardo Cunha em conluio com o candidato perdedor de 2014, Aécio Neves. O plano correu como o desejado desembocando no golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016, com o afastamento permanente da presidenta legitimamente eleita pelo pleito de 2014, Dilma Vana Rousseff.

Tudo ia bem nas mentes golpistas quando, no novo pleito presidencial de 2018, foi engendrado o “plano C”, que consistia em entronizar um Governo Neoliberal de “confiança do mercado financeiro nacional e especulativo internacional com a desnacionalização progressiva das empresas estatais e contínua erosão dos direitos sociais e trabalhistas”. Este plano tinha nome: “Geraldo Alckmin”.

Porém, a proposta também fez água, pois o candidato não empolgava e não subia nas pesquisas, e aí seria necessário embarcar num novo e mais temerário plano: o “plano D” (e “D” de DESASTRE…) – eleger um candidato miliciano, do baixo-clero, indiciado por crimes de incitação ao estupro, homofobia e racismo e totalmente incompetente!

Mas era quase impossível que isso pudesse dar certo diante de um candidato como Luiz Inácio Lula da Silva. Porém, com a ajuda de um juiz fascista, Sérgio Fernando Moro e de um procurador corrupto, Deltan Dallagnol, logo aquele candidato seria posto fora de cena por uma prisão arbitrária e completamente ilegal. No entanto, o perigo de não eleger o candidato miliciano continuava graças à bravura e valor do opositor escolhido pelo preso-político Lula.

Foi aí que foi posto em ação um derivado do “plano D”: usar e abusar do efeito Dunning-Kruger. Este efeito de doença mental socialmente construída pode ser assim descrita: “Fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; é a sua incompetência que os restringe da habilidade de reconhecer os próprios erros (in: https://pt.wikipedia.org/wiki/Efeito_Dunning-Kruger).

O efeito pode ser sintetizado pela frase “ilusão de superioridade”. Este fenômeno foi descrito por Justin Kruger e David Dunning e publicado, em 1999, na revista Journal of Personality and Social Psychology. Após muitas experiências e observações clínicas, Dunning e Kruger puderam estabelecer que, diante de uma determinada habilidade, as pessoas que sofrem do transtorno psíquico descrito, falhariam em reconhecer: I) sua própria falta de habilidade; II) as habilidades genuínas em outras pessoas; III) a extensão de sua própria incompetência e, finalmente, IV) sua posterior falta de habilidade, mesmo após terem sido treinadas para aquela habilidade inicial.

Para comprovar suas hipóteses, a dupla de cientistas, realizou uma pesquisa de campo (entre alunos das Universidades de Cornell) aplicando auto-avaliações, compondo um quadro de diferentes habilidades: lógica, gramatical e de humorismo. Após a avaliação, os pesquisadores requisitaram que os candidatos estimassem seus níveis de desempenho confrontando-os com os dos outros colegas. O resultado foi o que o grupo mais competente em cada habilidade avaliou seu desempenho dentro do quadro esperado (bem avaliado). Já o grupo incompetente superestimou seu desempenho de forma totalmente anormal, num índice quase cinco vezes superior ao seu real desempenho.

Este experimento e os quatro passos do efeito “Dunning-Kruger” definiriam o que hoje denominamos, em palavras pobres, de “coxas” (ou “coxinhas”), “bolsomínions” ou “idiotas úteis” (não na acepção que Bolsonaro deu ao criticar os quase dois milhões de estudantes que saíram às ruas no dia 15 de maio para protestar contra o acelerado sucateamento da educação pública brasileira).

O conhecimento deste efeito por agências de propaganda eleitoral e, especialmente, com o auxílio da perigosa “Cambridge Analytica”, aliadas à rede extremamente poderosa de igrejas neopentocostais e dos ultraconservadores católicos, a eleição de um imbecil à presidência do Brasil não somente seria possível, como também, garantida!

As agências reconheceram os universos das diversas incompetências na população e as tingiram de “habilidades inversas” que as enquadravam nos medos interiores de cada pessoa afetada dessa patologia e potencializada pelas pregações em templos e Igrejas de todos os matizes. Com a patologia psicológica equacionada e controlada pelo ópio da religião, só faltava o necessário veículo de inculcação mais veloz que poderia existir: o Whatsapp.

Em história que já conhecemos, contada pela Folha de S.Paulo, mais de 150 grandes empresários brasileiros financiaram o impulsionamento massivo de mensagens deslavadamente mentirosas e difamatórias contra o adversário do miliciano candidato Jair Messias Bolsonaro. Isto criou rapidamente milhões de focos epidêmicos de seres Dunning-Krugerianos: a incompetência foi-se multiplicando à velocidade estonteante.

Esta consequência foi medida pelas análises do Instituto Vox Populi que localizou nos 10% do eleitorado feminino neopentecostal a maior vítima da indução da incompetência travestida de competência da “verdade”. Destituído de seu próprio reconhecimento de incompetente, o incompetente passou a reconhecer no outro o erro que não lhe pertencia.

Configurou-se, pois, o grande desastre: a consequência natural e patológica de uma sociedade doente gerida por instituições parasitas ávidas pelo poder a qualquer custo e ao preço da desumanização do homem!

Já em 1930, Bertrand Russell diria: “A causa fundamental do problema é que, no mundo moderno, os estúpidos são arrogantes, enquanto os inteligentes estão cheios de dúvidas.

Para os arrogantes seres Dunning-Krugerianos brasileiros, um pouco de conhecimento consistirá sempre numa coisa perigosa e que deverá ser suprimida. Porém, na década de 30 de Bertrand Russel, não existia a internet e as redes sociais, e os malefícios destes seres seriam relativamente pequenos e fáceis de serem enfrentados. Porém, hoje, podemos reconhecer, graças à eleição de Trump, ao Brexit e à eleição do presidente miliciano Jair Bolsonaro, que os estúpidos seres de Dunning-Kuger habitam todo o planeta e o nosso poderoso e sufocante Inferno neo-Dantesco! Venceu a estupidez!”

Marcos Cesar Danhoni Neves é professor titular da Universidade Estadual de Maringá, autor do livro “Do Infinito, do Mínimo e da Inquisição em Giordano Bruno”, entre outras obras
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Com Trump e Bolsonaro, o video game molda a política


Depois de Trump e Bolsonaro a política nunca mais será a mesma: são duas figuras que despontaram na superfície de um movimento mais profundo que vem intrigando pesquisadores que estudam as transformações da política através da tecnologia: como na nossa sociedade os elementos lúdicos vem invadindo diversas esferas com a proliferação dos jogos, principalmente os eletrônicos. O cinismo e desilusão com a democracia representativa combinados com elementos inerentemente lúdicos das tecnologias digitais, plataformas e aplicativos estariam gerando uma “gamecracia”, “casual política” ou simplesmente uma “neodemocracia”. Assim como nos games, a política estaria sendo moldada por uma irresponsabilidade lúdica, como se tudo fosse apenas um jogo eletrônico no qual as consequências do erro são minimizadas para dar fluência à partida. Afinal, num videogame temos muitas vidas para perder. E até aqui, no espectro político, a direita é aquela que está mais antenada nessas transformações.

Foi no extinto programa de humor da Globo Tá no Ar: a TV na TV (2014-19). Em um esquete vemos uma cliente, acompanhada pelo vendedor, procurando itens de compra em uma espécie de loja de departamentos. Ela se detém diante de um estande no qual posa um general ombreado por dois soldados empunhando fuzis. Todos eles trajados com modelos antigos de uniformes do exército brasileiro antigos. Alguma coisa datada dos anos 1960.

“Gostei desse... ele é bom?” - pergunta a entusiasmada consumidora. O vendedor é cuidadoso com as palavras, dizendo que “pode ser” sem muita convicção. “Ah... mas, qualquer coisa, eu posso trocar, né?”, pergunta a mulher, insegura. O general, até então imóvel como uma estátua, intervém irritado: “Trocar nada! Vai ficar com a gente por 21 anos!” ... E ordena aos soldados armados: “podem prendê-la!”, arrastando a assustada consumidora que não entende nada.

O esquete era uma evidente ironia não só ao tempo que durou a ditadura militar brasileira, como ao estranho nostalgismo pós-moderno de pessoas que não viveram aquele período, mas são capazes de acreditar que foram os melhores momentos da recente história brasileira. E certamente serão esses que estarão nas manifestações convocadas pelo capitão da reserva dublê de presidente, para esse domingo, clamando por intervenção militar no Congresso e STF

Irresponsabilidade lúdica

A felicidade desse esquete é que ele retrata uma certa maneira de focar a política que cresce na atualidade – apresenta de forma engraçada uma espécie de irresponsabilidade lúdica, como se a Política fosse um jogo eletrônico (“qualquer coisa, a gente troca...”) que permite diversas tentativas, minimizando os erros e dando fluência ao game e passagens de níveis na partida.

Nesse curto e simples esquete encontramos uma síntese preocupante daquilo que muitos pesquisadores atuais como Alex Gekker (“Gamocracy: Political Communication in the Age of Play”), Alexander Galloway (“Protocol: How Control Exists After Decentralization”) ou Jodi Dean (“Why the Net is not a Public Sphere”) chamam de “neodemocracia”, “política casual” ou, simplesmente, “gamecracia” (“Gamocracy”).

O ponto em comum em todos esses pesquisadores é que o elemento inerentemente lúdico está se tornando proeminente na sociedade atual pela grande proliferação de jogos (principalmente eletrônicos) e que as teses em torno dos estudos culturais sobre jogos e entretenimento seriam fundamentais para compreendermos as atuais estratégias de comunicação na política.

Alex Gekker e o aplicativo da campanha de Obama em 2008
Casual política

A confluência das mídias de convergência com as mídias tradicionais, junto com a perda da legitimidade das formas tradicionais de representatividade na política (partidos, sindicatos etc.) transformariam o espaço midiático num decisivo campo onde o poder se confundiria com o lúdico. Em outras palavras, o elemento lúdico, presente nos jogos formais e incorporado nos designs de jogos, estariam contaminando campos que, por sua natureza, não se constituem como “games” – política, economia, processos seletivos corporativos etc. – sobre a gameficação corporativa, clique aqui.

Por exemplo, para Gekker os meta-processos dos games resultam na “casual política”: além da utilização de aplicativos (vide o caso de aplicativos desenhados exclusivamente para a campanha de Obama em 2008 ou o papel das redes sociais e WhatsApp no caso Trump e Bolsonaro) a política passa a priorizar interfaces tecnológicas marcadas pela imediaticidade visual, controle intuitivo, simplificação das tarefas e clara definição de objetivos. A “usabilidade” passa a ser um dos principais quesitos para esse novo ativismo político, assim como nos designes de jogos.

A casual política é pensada para um tipo de ativismo bem distinto da velha militância centrada por motivações político-ideológicas – ela é desenhada para intervenções rápidas (“short bursts”), em pequenas ações de acordo com o tempo ou expertise que o ativista tem disponível.

Mas principalmente, assim como nos jogos, o engajamento ocorre em um game que exibe uma atitude de perdão em relação ao erro. Permite diversas tentativas, sempre no sentido de manter a fluidez e a ininterruptibilidade do jogo – o game pode ser sério ou difícil, mas permite em caso de erro não ser necessário repetir fases anteriores do jogo.


Minimização do erro

Esse humilde blogueiro jamais esquecerá as primeiras experiências perceptivas ao passar de uma máquina de escrever para um editor de texto em um computador. Tudo parecia lúdico, como fosse um jogo. Mas, principalmente, percebi assombrado que as consequências do erro eram minimizadas: enquanto numa máquina de escrever, diante do erro datilográfico, ou você pacientemente tentava bater a tecla sobre o corretor para encobrir a letra errada, ou arrancava o papel, amassava, jogava na lixeira e começava tudo de novo.

Para meu assombro, num computador bastava apertar a tecla “delete” ou dar um “backspace”.

Lembro-me que naqueles anos 1990, muitos pesquisadores (prontamente qualificados como “tecnofóbicos”) apontavam as consequências ético-morais para essa espécie de irresponsabilidade do erro. Por exemplo, Michel Heim no livro “Metaphisics of Virtual Reality” (Oxford Press, 1993) apontava para essa perda do peso erro: bastaria apertar a tecla “esc” ou “delete” e poderíamos abandonar uma tarefa, eliminar um erro, sem enfrentar consequências de perder tudo e recomeçar um trabalho.

Nesse simples evento corriqueiro no qual a tecnologia nos salvaria de nós mesmos, estaria a eliminação das âncoras que nos prenderiam ao mundo real: finitude, temporalidade e senso de fragilidade corporal. Em outras palavras, esse alívio frente as consequências do erro gerariam uma visão de mundo amoral.

Claro que poderíamos afirmar que a tecnologia é regida pela lei do menor esforço, desempenho e praticidade. O problema é quando esse paradigma começa a contaminar as outras esferas de natureza não-tecnológica da sociedade, como a Política.


Da estética à gameficação

Sabemos que, no espectro político, a extrema-direita historicamente sempre foi mais antenada com a aplicação das novas tecnologias do momento no campo político. Desde o nazi-fascismo no século XX, no qual a política foi estetizada por meio da propaganda política através do cinema e do rádio.

No século XXI, mais uma vez, a extrema-direita inova com a verdadeira blitzkrieg através dos algoritmos das redes sociais. Os casos do Brexit e as eleições de Trump e Bolsonaro mostram que foi dado mais um passo à frente: da estetizaçãodo século passado, agora temos a gameficação da política– a política levada a termo através dos paradigmas dos jogos eletrônicos: usabilidade, ininterruptibilidade e, principalmente, a irresponsabilidade do erro.

“Qualquer coisa, a gente troca!”, dizia a incauta compradora sem entender as consequências da sua opção. A política reduzida à interface dos aplicativos parece ter reduzido a complexidade político-ideológica em um simples jogo, com tarefas facilmente identificadas (por meio da polarização do espectro político) e a possibilidade de desbloquear etapas e subir nos níveis da partida – através do incremento dos laços nas redes sociais através do compartilhamento de fotos, memes etc.

Essa irresponsabilidade feliz (típica de gamers que sabem ter infinitas tentativas e várias vidas a perder) é certamente o que está por trás das galhofas da chamada “direita alternativa” (alt-right): mãos fazendo arminha, fetichização de revólveres, fuzis, balas, munições e meganhagem (sobre esse conceito, clique aqui).

Como falam nas “raids” (ataques de surpresa em sites, fóruns e salas de bate papo), é tudo “zoeira” ou “for the lulz” – apenas “por diversão”.


O pesquisador canadense Arthur Kroker, em 1994, parece ter pressentido esse caráter lúdico regressivo, próprio da adolescência, na crescente virtualização das relações sociais:

“A masculinidade burguesa sempre foi pré-adolescente: pensamentos de pequenos garotos achando que poderão controlar o mundo, mas agora o mundo é ciberespaço. O sonho de ser deus do ciberespaço – ideologia pública como fantasia de garotos pré-adolescentes: uma regressão do sexo para uma autística forma de poder” (KROKER, Arthur & WEINSTEIN, Michael. Data Trash: the theory of the virtual class.N. York, St. Martin Press, 1994, p. 11.)

Diante de tudo isso, passamos a desconfiar da função ideológica diversionista de todo o debate sobre a suposta influência ou efeitos negativos dos videogames no comportamento dos jogadores como ações violentas ou doenças emocionais. A questão não são os videogames em si, mas como os meta-processos dessas plataformas está moldando múltiplas esferas sociais que passam a acomodar uma certa lógica midiática.

Na política, o cinismo e desilusão com a representação e engajamento políticos combinados com essa espécie de “democracia direta” pelas plataformas digitais produz essa gameficação: a transformação do drama político num mero jogo de ganha/perde no qual as consequências são desprezadas. Afinal, temos muitas vidas para perder...

Wilson Roberto Vieira Ferreira
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Queiroz cai na boca do povo, de novo


A capa do jornal Extra, do Rio, hoje, prova que os embrulhos escandalosos e inexplicáveis de Fabrício Queiroz, o sumido, viraram conversa de botequim, o que sempre foi mais corrosivo que soda cáustica para qualquer político.

Os R$ 133 mil pagos em espécie ao hospital e aos médicos que o trataram é só um dos episódios mórbidos que irão surgindo, um a um, até que venha a confirmação do que todos já intuem: ele era o provedor de recursos para o dia a dia do clã e seu contato com o mundo obscuro das milícias.

Simplesmente não poderia existir, ao longo de tantos anos, um esquema de contratações tão, digamos, familiar sem que os chefes da família – mandato parlamentar é negócio de família, para os Bolsonaro – tivessem interesse direto.

O povão já compreendeu isso.

Fabrício Queiroz é um câncer que não foi extirpado do organismo do clã e, cada vez mais, não pode ser sem comprometê-lo em partes vitais.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Protestos a favor: capitão assustado, direita rachada e país em ponto morto

https://www.balaiodokotscho.com.br/2019/05/25/protestos-a-favor-capitao-assustado-direita-rachada-e-pais-em-ponto-morto/

Em sua primeira viagem ao nordeste, o capitão presidente parecia um homem assustado, acuado, sem norte.

De quem ou do que ele tem tanto medo, sempre olhando para o chão ou para os lados?

Pelo seu semblante sempre cansado, dá a impressão de não dormir direito, apesar de ter uma arma ao lado da cama, como já contou.

Neste sábado de véspera das manifestações de protesto a favor do governo, que ele mesmo incentivou nas redes sociais, e depois desistiu, o país vive um estranho clima de calmaria nas ruas e nas redes sociais.

Agora não temos mais nós contra eles, nem eles contra nós, mas eles contra eles, devorando-se uns aos outros num ritual macabro.

Mal saiu do armário, e a direita já está mais rachada do que a esquerda, acreditem.

Frotas e Janaínas, olavetes e milicos, ministros e herdeiros, estão todos se estranhando.

Ficou tudo muito estranho desde que esta seita esquisita assumiu o poder.

Muita gente, arrependida ou envergonhada, simplesmente parou de falar de política.

Em São Paulo, são os velhos malufistas e os ex-tucanos que, na falta de outra opção conservadora, embarcaram na canoa do capitão, sem saber direito de quem se tratava.

Hoje, parecem tão assustados quanto o próprio, com o rumo que as coisas tomaram, deixando o país em ponto morto, com viés de baixa.

Os chamados “quatrocentões” das tradicionais famílias paulistas ficaram órfãos, depois que até o Estadão velho de guerra passou a esculhambar diariamente o governo Bolsonaro, que ajudou a eleger.

Restaram unicamente os reacionários mais trogloditas e marombados para defender a “nova ordem”, não com argumentos, mas na base de ameaças, agora que as armas foram liberadas.

Do outro lado da calçada, o que sobrou da esquerda também não sabe mais o que falar nem para onde ir, depois de esgotados todos os xingamentos.

Vivemos um tempo de completa anomia social.

No mesmo dia, Paulo Guedes, o todo poderoso ministro da Economia, ameaça pedir o boné se a reforma dele não passar, e depois jura “total compromisso” com o projeto de Bolsonaro.

Os dois acenam com o apocalipse, caso o Congresso não aprove logo a “reforma do trilhão” — nem mais nem menos, não importa como.

A figura mais patética nesta encenação mambembe é a do ex-juiz Sergio Moro, que Brasília tratou de amansar em seu devido lugar, sem choro nem vela.

Nem vamos falar das outras tristes e patéticas figuras deste governo.

Pobres editores e colunistas da imprensa, que já não encontram mais sinônimos para descrever o total desmantelo dos três poderes, anulando-se um ao outro.

Sem projetos nem ideias para romper o marasmo geral, discute-se o varejo das miudezas, seguindo os passos errantes do capitão, que está deixando seus generais assombrados.

Basta ver a cara desconsolada do general Heleno, que não acredita no que está vendo e ouvindo, e do inoxidável general porta-voz ao tentar explicar o que o capitão queria dizer, também com olhos arregalados.

Com o vice general Mourão em sorridente vilegiatura pela China, não temos nem o contraponto para animar as discussões.

Bolsonaro teve o mérito de revelar uma cara do Brasil que a gente fingia não ver, moldada pela profunda ignorância e intolerância, capaz de assustar o mundo civilizado.

Amanhã saberemos quantos são os idiotas úteis ou inúteis que irão às ruas, os “patriotas” de verde-amarelo, as “pessoas de bem”, que ainda acreditam nesta pantomina.

Para distrair a platéia, teremos logo mais o casamento do filho 02, com pompa e circunstância, fazendo a festa das colunas sociais da nova ordem unida.

Que fim levou aquele Brasil cheio de si que tinha vergonha na cara e acreditava no futuro?

Sem querer ser nostálgico, mas ando com uma saudade danada do Brasil sem sair do Brasil.

Quando a segunda-feira chegar, aconteça o que acontecer no domingo, nada será diferente.

É tudo muito triste o que estão fazendo com nosso país.

E vida que segue.

Ricardo Kotscho
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Bolsonaro é o líder da Ku Klux Klan brasileira?


O professor e sociólogo Jessé Souza fala sobre o ódio e a maldade gerados por Bolsonaro. Quais fatores nos ajudam a entender a origem do racismo no Brasil?

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Adeus às asas

http://www.maurosantayana.com/2019/05/adeus-as-asas.html


Como se vê pelos sucessivos golpes sofridos pelo Brasil nos últimos anos, Deus não dá asa a cobra, nem muito menos os gringos.

Se uma nação depende delas para elevar seus sonhos, daquelas com que fantasiava Santos Dumont às que decoravam nossos caças na Segunda Guerra Mundial ou os aviões da Panair, às que foram pintadas na fuselagem de nossos mísseis e foguetes, em tantos projetos gerados no ITA e no INPE e testados em bases como Barreira do Inferno, foi criminosa, para dizer o mínimo, a estúpida aprovação pelo Congresso, neste mês particularmente maldito para a História brasileira, da lei temerista de abertura de 100% do mercado nacional de aviação civil a empresas estrangeiras, à véspera da abertura dos portões da Base Espacial de Alcântara para os EUA.

Se nos países mais desenvolvidos fosse praticado esse tipo de ignomínia, travestida de pseudo liberalismo, os Estados Unidos, como já dissemos aqui, não teriam limitado por lei a no máximo 49% a participação estrangeira nesse mercado, e a União Europeia não exigiria, também por lei, a presença de capital europeu majoritário - estatal ou privado - para explorar esse tipo de atividade.

Considerando-se outro crime de lesa-pátria, a permissão para a venda da Embraer para a Boeing, uma empresa agora profundamente desacreditada - e ameaçada de processos bilionários por parte de clientes de todo o mundo - devido ao retumbante fracasso do projeto 737 Max, com o veto da decolagem de centenas de aviões já vendidos e entregues em razão da alta possibilidade de despencaram do céu como jacas, completa-se a acelerada e abjeta rendição, em poucos meses, da indústria aeronáutica brasileira, do mercado nacional de aviação de passageiros e do programa espacial brasileiro aos estrangeiros, transformando-nos cada vez mais naquilo que para os EUA e os europeus, jamais deveríamos deixar de ter sido: uma colônia atrasada, submissa e acanalhada, controlada por um bando de babaquaras apátridas, entreguistas e irresponsáveis.

E que não nos venham com discursos mentirosos e austericidas.

Com todos os seus problemas, graças a governos anteriores, o Brasil continua tendo as décimas maiores reservas internacionais do mundo, no valor de 380 bilhões de dólares, e continua sendo, apesar de tudo, o quarto maior credor individual externo, depois da China e do Japão e coladinho na Inglaterra, dos Estados Unidos.
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Greg News | Coach


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Espiões da Abin: Bolsonaro brinca com fogo

Quem tem telhado de vidro...


Da newsletter do Intercept Brasil:

Um guarda-costas de Bolsonaro na Abin

A newsletter desta semana é assinada pelo nosso colaborador Lucas Figueiredo. Jornalista premiado, Figueiredo é autor de "Ministério do Silêncio: a história do serviço secreto brasileiro de Washington Luís a Lula (1927-2005)" e já publicou no Intercept algumas histórias sobre a espionagem no Brasil, como a do megabanco de dados de redes sociais e sobre a reestruturação da Abin pós-Olimpíadas. Neste texto, ele conta aos nossos leitores, em primeira mão, os bastidores da atuação da agência de espionagem no complexo xadrez que sustenta – ou não – o governo Bolsonaro. Boa leitura.

Nas últimas semanas, um questionamento se impôs no cenário político: Jair Bolsonaro conseguirá concluir seu governo? Por enquanto, só é possível dizer uma coisa: depende. Depende por exemplo de como se dará a evolução da dinâmica que sincroniza (ou desalinha) movimentos sociais, elites, imprensa e Congresso. Ou, numa outra vertente, depende também do comportamento dos serviços secretos (civil e militares), órgãos inclinados, como se viu nos últimos 60 anos, à sabotagem de governos por meio de atividades clandestinas. Se essa segunda hipótese vai prosperar, não se sabe. Uma coisa certa, porém: as peças estão no tabuleiro e já começam a ser movimentadas.

Partiu do presidente o gesto mais ostensivo que mostra que o tabuleiro se agita. No início do mês, foi anunciada a troca do diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin. Sai o veterano Janér Tesch Hosken Alvarenga, forjado no famigerado Serviço Nacional de Informações, o SNI, um dos pilares da ditadura civil-militar de 1964-85 – sim, alguns deles ainda continuam por lá. Em seu lugar, entra o delegado da Polícia Federal Alexandre Ramagem Rodrigues, cuja principal credencial é ter sido coordenador da segurança pessoal do então candidato Jair Bolsonaro após o atentado a faca em Juiz de Fora (MG) em setembro de 2018.

Em tempos de fraquejada no estado democrático de direito e de intervenção no cenário político por parte de aparatos estatais das áreas de defesa e de segurança pública, a Abin ganha um caráter ainda mais estratégico no organograma do Estado. Ninguém que trabalha no órgão gosta que se diga, mas ele é o serviço secreto. Resultado de uma transição democrática que começou em 1985 e se perdeu no caminho, o órgão é uma aberração institucional: a rigor, é civil, mas está subordinado aos generais do Gabinete de Segurança Institucional, o GSI (a nova nomenclatura do velho Gabinete Militar). Atua tanto no campo interno quanto no campo externo, um raio de ação gigantesco, coisa impensável nos congêneres de países como Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha.

E, como é da natureza dos serviços secretos em todo o mundo, a Abin se move nas sombras e por caminhos clandestinos (e praticamente sem fiscalização externa).

Nascida de uma costela do Exército em 1956, quando a Guerra Fria começava a entrar em um de seus momentos mais tensos, o serviço secreto civil do Brasil sempre foi tangido pelos militares. A partir de 1994, quando o ingresso no quadro funcional da Abin passou a ser feito exclusivamente por meio de concurso público, surgiu uma nova ala, a dos concursados, majoritariamente civil. Aos poucos, essa ala ganhou alguma força interna, porém até hoje não conseguiu conquistar a direção do órgão, como é sua aspiração.

Militares e concursados abancados na Abin atuam em canais próprios e com interesses muitas vezes divergentes, mas sempre se uniram para sabotar os indicados a diretor-geral do órgão que eram estranhos no ninho. Que o digam Mauro Marcelo de Lima e Silva (delegado da Polícia Civil de São Paulo) e Paulo Lacerda (delegado da Polícia Federal aposentado), até hoje os dois únicos forasteiros que comandaram a Abin, ambos no governo Lula, e que foram demitidos em meio a crises estimuladas artificialmente pelo próprio serviço secreto.

Não é de se estranhar, portanto, conforme apurei, que militares e concursados do condomínio Abin/GSI não tenham gostado de saber que Bolsonaro colocará um delegado da Polícia Federal no comando do serviço secreto.

O presidente certamente sabe do vespeiro em que pode se meter, mas está decidido a ir em frente por um motivo simples: ele acredita que o delegado Rodrigues, até poucos meses atrás responsável por sua segurança pessoal, é o homem mais indicado para protegê-lo da potencial força desestabilizadora do serviço secreto. Uma estratégia arriscada, bem ao estilo Bolsonaro.

O presidente pisa em terreno movediço conforme sugere o histórico dos casos de mandatários sabotados pelos serviços secretos. Juscelino Kubitschek, que criou o serviço secreto civil em 1956 (na época, a repartição respondia pela sigla SFICI, Serviço Federal de Informações e Contra-informação), teve seus telefones sistematicamente grampeados pelo órgão a partir de 1961. Quando o ditador Ernesto Geisel demitiu o radical comandante do Exército Sílvio Frota, em 1977, uma ala do Centro de Informações do Exército, o CIE, cogitou atacar o Palácio do Planalto e chegou a produzir 300 coquetéis molotov.

A ruína moral e política do governo do general João Baptista Figueiredo começou em 1981, quando agentes do CIE e do SNI se meteram no frustrado atentado do Riocentro. Em 1984, o serviço secreto do Exército acionou cinco de seus agentes (Monstrengo, Pavão, Pudim, Zé Gatão e Marcão) para armar uma operação de sabotagem da candidatura presidencial de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. Quatorze anos depois, o então presidente Fernando Henrique Cardoso se enrolou no caso do grampo do BNDES, quando agentes da seção fluminense da SSI (Subsecretaria de Inteligência, antecessor da Abin) grampearam clandestinamente uma conversa telefônica em que FHC e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, André Lara Resende, faziam acertos nada republicanos em torno da venda da Telebrás (na maior privatização realizada até hoje no Brasil, a empresa foi queimada por R$ 22 bilhões, em preço da época).

Já o primeiro escândalo do governo Lula também contou com o envolvimento dos serviços secretos: em 2003, Waldomiro Diniz, assessor da Casa Civil ligado ao então todo-poderoso ministro da pasta, José Dirceu, foi flagrado por câmeras ocultas em duas ocasiões embaraçosas. Na primeira, pedia propina a um bicheiro; na outra, fazia uma suspeita troca de valises no saguão do aeroporto de Brasília. Os vídeos, providencialmente vazados na imprensa, tinham sido produzidos numa operação da qual haviam participado um informante da Abin e um agente do serviço secreto da Aeronáutica.

A opção de Bolsonaro por botar seu guarda-costas-chefe na direção da Abin pode não ter o efeito esperado, já que o órgão continuará subordinado ao GSI – leia-se, ao general quatro estrelas Augusto Heleno Ribeiro Pereira. Curiosamente, Heleno é um dos poucos militares da cúpula do governo que ainda não se pronunciaram publicamente sobre a disputa escatológica travada pelo escritor Olavo de Carvalho contra a ala militar do Planalto. Carvalho, que prega aos berros o fim da suposta tutela militar sobre o presidente – e o faz com o apoio de Jair, Eduardo e Carlos Bolsonaro – já foi peitado pelos generais Hamilton Mourão (vice-presidente), Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo) e Eduardo Villas Bôas (atual assessor do GSI e ex-comandante do Exército). Heleno, contudo, está calado. Por enquanto.

Caso decidam abrir seu saco de maldades contra Bolsonaro, os militares não contam apenas com a Abin, mas também com os três serviços secretos militares, o Centro de Inteligência da Marinha, o Centro de Inteligência do Exército e o Centro de Inteligência da Aeronáutica. Não seria uma atitude inédita o uso dos serviços secretos militares em ações clandestinas para influir no cenário político em meio a crises. Isso já ocorreu diversas vezes no período pós-ditadura, e não é preciso ir muito longe para citar um caso.

Em 2016, o CIE infiltrou o capitão Willian Pina Botelho em movimentos populares que lutavam contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Fazendo-se passar por ativista, o agente, sob o falso cognome de Balta Nunes, conquistou a confiança de organizadores de protestos de rua e passou a atuar como espião. Por obra do acaso, o militar infiltrado acabou desmascarado num ato anti-impeachment realizado na avenida Paulista, em São Paulo, em setembro daquele ano.

A cúpula do Exército, contudo, não se encabulou. Três meses depois do episódio, mesmo sendo investigado pelo Ministério Público por conta de sua conduta como espião de movimentos sociais, o agente foi promovido a major por ninguém menos que o próprio comandante do Exército na época, Eduardo Villas Bôas – sim, ele mesmo, o general que hoje está lotado no GSI e que trava a batalha pública contra o ideólogo bolsonarista Olavo de Carvalho.

Ao rifar os generais que lhe deram suporte para chegar ao Palácio do Planalto, o presidente parece desconhecer os calcanhares de Aquiles que ele e sua família têm (uma carreira militar salpicada de casos mal explicados, a relação de proximidade com milicianos, uma penca de funcionários fantasmas em gabinetes parlamentares, os “rolos” financeiros milionários do faz-tudo Fabricio Queiroz, a malha subterrânea que opera fake news nas redes sociais etc.). Com a estrutura, o know-how e os contatos que têm, não seria difícil para agentes da Abin ou dos serviços secretos militares levantarem informações que, nas mãos certas, poderiam ser desastrosas para Bolsonaro.

Alheio a tudo, o presidente permanece botando pressão nos militares entrincheirados na Praça dos Três Poderes e na Esplanada dos Ministérios. Morde muito, mas de vez em quando assopra. No início do mês, ao baixar o polêmico decreto que facilita o porte de armas, Bolsonaro incluiu a Abin na relação de órgãos cujos funcionários contarão com facilidades para andar com revólveres na cintura, uma demanda antiga dos agentes. Na prática, eles não precisam disso. Com apenas uma chave de fenda e os contatos certos, eles já podem causar um bom estrago.
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Xadrez da escolha de Sofia, impeachment ou não impeachment

A grande vantagem da oposição é que a queda de Bolsonaro depende muito mais dele, Bolsonaro, do que dela, oposição.


Peça 1 – impeachment, teoria e realidade

Em meu longo trajeto no jornalismo econômico, aprendi uma verdade comprovada: no campo das ciências sociais (dentre as quais se inclui a política) só existe teoria aplicada à realidade. Não existe a teoria solta no ar, como um passarinho. Vale para a economia, a política, o direito.

Um dos grandes dramas brasileiros que impediu, aliás, que o país deslanchasse no período das grandes transformações globais, dos anos 90 em diante, foi a teoria econômica se impondo sobre a realidade.

Digo isso a respeito das discussões sobre o impeachment ou não de Bolsonaro.

Parte dos cientistas sociais diz que um novo impeachment consolidaria a ideia do golpismo no país. Foi o golpismo que trouxe para a política os vultos que habitavam as profundezas do tecido social, instaurou a selvageria, a quebra total de regras. Logo, a melhor maneira de sanar o mal é não mexer na ferida, esperar que se cicatrize pelo voto e que, nas próximas eleições, o eleitorado reconheça o erro e traga o país de volta à normalidade, em um fenômeno que poderia ser denominado de fé na mão invisível da democracia.

Fernando Collor foi vítima do golpe do impeachment. Lula foi vítima do golpe do “mensalão”. Dilma, vítima do golpe das “pedaladas”. No dia em que ouvi o Ministro Luis Roberto Barroso alegar que o fato de ter perdido a base parlamentar justificava, por si, o impeachment percebi que o golpismo se espalhara por todos os poros do Judiciário.

Agora se volta ao dilema do impeachment e a análise exige que se traga a realidade para a mesa: Bolsonaro é um presidente pesadamente envolvido com o crime organizado, com os militares egressos dos porões da ditadura, que enveredaram pelo mundo do crime. Não se trata de um detalhe, mas de uma questão central.

Vamos detalhar um pouco o universo habitado por Bolsonaro.

Peça 2 – o exército das profundezas

Não se pense em velhos matadores aposentados. O grupo continua em plena atividade. Eram militares de baixa patente que foram convocados pelo Alto Comando do regime militar para compor forças de extermínio. Em seus livros, Elio Gaspari conta que o próprio Ernesto Geisel avalizava suas ações.

Foram para a linha de frente, com a ordem de exterminar os inimigos.

Quando veio a redemocratização, parte deles foi recompensada pelos serviços prestados e para garantir seu silêncio. Foi o caso do Major Curió, que recebeu áreas de garimpo em Serra Pelada. Parte se perdeu pelos desvãos da vida, levando para sempre os traumas provocados pela selvageria da repressão.

Procuradores envolvidos com a justiça de transição aprenderam que, no final da vida, muitos torturadores sentem necessidade de falar. Vamos a três casos que mostram a maneira como a “tigrada” ainda atua.

Caso Paulo Manhães

Paulo Manhães foi na Comissão Nacional da Verdade (CNV) e deu depoimentos importantes que ajudaram a esclarecer algumas das mortes da ditadura. Logo depois, foi assassinado. No dia seguinte ao do anúncio da sua morte, o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro pediu busca e apreensão em sua casa. Chegaram até um diário que ajudou a desvendar o atentado do Rio Centro, comprovando que o carro utilizado no atentado era de um dos militares dos porões.

O assassinato de Manhães, não foi interpretado como queima de arquivo – pois já tinha denunciado o que sabia -, mas como aviso.

Caso Cláudio Guerra

Cláudio Guerra virou pastor, se converteu à Igreja Evangélica e começou a falar. Pouco depois da morte de Manhães, divulgou a informação de que os mortos na Casa da Morte, em Petrópolis, foram queimados nas usinas de açúcar de Campos. A Comissão Nacional da Verdade foi até lá e nada encontrou.

Deu depoimentos, foi protagonista do filme “O Pastor que Assassinava e Queimava Corpos”. Não se sabe se era uma verdade que vinha a conta gotas ou se era contra informação.

Logo depois, sua mulher foi assassinada, assim como o filho. E os homicídios foram atribuídos a ele. Por ter mais de 70 anos e estar doente, conseguiu transformar a pena em prisão domiciliar. Foi punido, mas não pelos crimes da ditadura. Provavelmente, foi vítima de uma armação.

Caso Chico Dólar

Chico Dólar escreveu livro Macaba, nome de uma serra do Araguaia. Contava histórias macabras, como a exigência dos oficiais de que a morte dos guerrilheiros fosse comprovada com a entrega das suas cabeças e dedos – para reconhecimento pelas impressões digitais e não identificação dos corpos. Depois, alguns dos “tigrões” faziam colar com os dedos decepados dos guerrilheiros mortos.

No livro, ele cita mais de 200 colegas que participaram desse movimento e, hoje em dia, querem anistia. Chico acreditava piamente que fez um trabalho relevante para a República e, assim como os colegas, ficou com distúrbios emocionais pelo resto da vida.

Logo depois apareceu morto. A alegação foi de suicídio, em um caso raríssimo de suicida com tiro na testa.

Os três casos comprovam que as forças dos porões estão vivas, ativas. Parte delas migrou para as milícias, assim como os delegados que se tornaram bicheiros nos anos 70. É nesse ecossistema que se deu a formação de de Jair Bolsonaro. Portanto, está corretíssimo Janio de Freitas ao ver a ligação permanente de Bolsonaro com a morte.

Peça 3 – o caso Marielle Franco e Bolsonaro

Já publicamos diversos artigos mostrando o envolvimento dos Bolsonaro com as milícias, especialmente aquelas ligadas à morte da vereadora Marielle Franco.



Há uma hipótese de investigação que sugere envolvimento direto de Bolsonaro, a partir das seguintes evidências:
  • Quando começou a abertura política, a “tigrada” planejou o atentado do Riocentro dentro de uma lógica de disfarce: a idéia seria atribuir o atentado à esquerda.
  • Bolsonaro se mostrou vivamente contrário à intervenção militar no Rio de Janeiro. Provavelmente por atrapalhar as ligações históricas das milícias com as forças policiais.
  • Ronie Lessa, o assassino de Marielle, pesquisou pelo Google nomes de vários vereadores que se colocaram contra a intervenção. Marielle era o nome em mais evidência, por ter sido indicada para presidir uma comissão incumbida de fiscalizar a intervenção. Há elementos para uma tática diversionista, de atribuir o atentado aos defensores da intervenção militar.
  • O principal acusado, além de comerciante de armas era vizinho de condomínio do próprio Bolsonaro. O motorista que o levou era ligado a Flávio Bolsonaro. Outro integrante do Escritório do Crime – grupo de matadores profissionais das milícias – , capitão Adriano Magalhães, teve mãe e esposa empregadas por Flávio Bolsonaro.
Peça 4 – Bolsonaro e o golpe

Há inúmeras manifestações dos Bolsonaro, pai e filhos, sobre a importância de armar a população para resistir ao Estado. A liberação das armas foi um movimento nítido de fortalecimento da economia das milícias – que têm no tráfico de armas seu principal negócio – e de armar grupos aliados para uma futura resistência a qualquer tentativa de impeachment.

Abordamos várias vezes essa possibilidade.






Peça 5 – Cenários: Bolsonaro ou Mourão

Não se tenha dúvidas sobre os propósitos democrático do vice-presidente, general Hamilton Mourão: decididamente, ele não é um defensor da democracia como sistema de governo. Ele é da linha do general Augusto Heleno. Este é intelectualmente medíocre, assustadoramente medíocre, diria. Mourão, não.

Não são pequenos os riscos de um futuro governo Mourão. Ele avançaria, com estratégia, empunhando quase todas as bandeiras defendidas por Bolsonaro.

Há poucas evidências de que tenha um projeto de nação na cabeça, que trabalhe o conceito de interesse nacional, que impeça os negócios que estão sendo montados pelos negocistas que aproveitaram a onda Bolsonaro.

Mas impediria o desmonte total perpetrado pelo hospício que Bolsonaro levou ao governo, dos quais os principais são o desmonte da Eletrobrás e da Petrobras, da diplomacia, do sistema de meio ambiente, da Anvisa, da educação. Principalmente, barraria o controle do país pelas milícias.

Trata-se de uma autêntica “escolha de Sofia”:

Cenário 1 – a manutenção de Bolsonaro, que prosseguiria em sua política de terra arrasada até o final do governo, tentando armar suas milícias particulares e tentar o auto-golpe. A esperança da oposição é que, ao final dos quatro anos, o governo estaria tão desmoralizado que abriria espaço para o grande pacto nacional em torno de eleições livres e diretas. Não há condições de avaliar o tamanho do estrago produzido até lá. Os hunos de Bolsonaro destroem e salgam a terra.

Cenário 2 – impeachment e governo com Hamilton Mourão. Haveria racionalidade e lógica na estratégia implementada. No final do governo, o país estaria menos destruído, mas também seriam reduzidas as possibilidades do sistema de abrir espaço para eleições livre.

Cenário 3 – queda do governo e novo governo mediado pelo presidente da Câmara Rodrigo Maia. Aí, se trata do imponderável. Antes de apostar no fator Mourão, dificilmente o sistema aceitaria a hipótese Rodrigo Maia.

Confesso minha total incapacidade para apontar o melhor caminho. Não tenho a menor pretensão a demiurgo.

A saída se dará por pequenos solavancos, pequenas aproximações entre o lado civilizado da Nação, até que haja massa crítica para, em algum momento do futuro, se chegar ao grande pacto civilizatório nacional.

Quanto tempo levará? Sou um mero jogador de xadrez, não uma pitonisa. Limito-me a olhar as nuvens e tentar prever sua próxima formação. Sem me descuidar do fato de que o chefe da polícia, Sérgio Moro, e a chefe dos procuradores, Raquel Dodge, são os principais avalistas do chefe das milícias na Presidência.

A grande vantagem da oposição é que a queda de Bolsonaro depende muito mais dele, Bolsonaro, do que dela, oposição.

Luís Nassif
No GGN
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A entrevista de Lula à Der Spiegel


Spiegel: Senhor Presidente, como você está? Você sofre de solidão?

Lula: Eu posso lidar com ela. Além disso, sou saudado três vezes por dia por meus seguidores que acampam do lado de fora em uma esquina. Se eu sair daqui, serei eternamente grato a essas pessoas. Espero poder sair deste prédio pela entrada principal e beber um drinque decente com eles.

Você sempre foi uma pessoa muito comunicativa e sociável. Como você se mantém em uma pequena cela?

Vou te contar uma coisa que ainda não disse em ninguém. Quando comecei minha carreira no sindicato muitos anos atrás, eu era muito tímido. Quando falava em um evento, ficava nervoso. Para me preparar, colava fotos de muitas pessoas na parede do meu quarto e praticava meu discurso na frente delas. Falava com um público imaginário. Quando estou na minha cela hoje com o desejo de falar a uma platéia, também coloco fotos na parede.

Seu aprisionamento também é um fardo para sua família. Suas contas estão bloqueadas e sua filha está vendendo produtos de confeitaria pela Internet.

Isso é tudo muito difícil para ela, mas eu não quero reclamar. Quando criança, quando morava com minha mãe, muitas vezes a via acocorada ao lado do fogão aos domingos. Não havia absolutamente nada para preparar uma refeição, mas ela não reclamava. Pelo menos meus filhos têm o suficiente para comer. Claro que eu gostaria que eles não tivessem que passar por isso. Mas com o tempo, a verdade mostrará seu rosto.

Você foi condenado a doze anos por corrupção e lavagem de dinheiro em segunda instância e, recentemente, a sentença foi reduzida para quase nove anos. Você é acusado de ter recebido um apartamento de uma construtora, que, por sua vez, teria sido preferida na aquisição da Petrobras. Como você quer provar sua inocência?

Eu não tenho que provar que sou inocente, eu chamo o Judiciário para provar minha culpa. Fui condenado em primeiro lugar sem qualquer prova. O promotor fez uma apresentação em PowerPoint para justificar a ação contra mim. A manifestação disse que não há provas claras de que as acusações foram baseadas em “crenças”. Mesmo o juiz Sérgio Moro, que me condenou, não apresentou nenhuma prova, fala em “fatos indeterminados”. O tribunal de apelação me condenou sem ler os arquivos do caso; eles queriam impedir minha candidatura o mais rápido possível.

Os promotores acusaram você de atuar como chefe de uma organização criminosa.

Alguém tem que finalmente provar que eu sou dono deste apartamento e que recebi dinheiro da construtora ou dinheiro da Petrobras. Não importa que alguém esteja sob custódia, esperando que o Judiciário produza provas. Eu luto para que a verdade finalmente chegue à tona.

Você pode ter que passar anos na prisão.

Isso pode demorar um pouco, não tem problema. É difícil, eu prefiro estar em liberdade, mas não vou desistir de uma coisa por um preço único: minha dignidade.

Pouco antes de sua prisão, você estava a caminho do Uruguai na campanha eleitoral. Naquela época, você disse que só precisava dar um passo para se salvar do Judiciário. Você se arrepende de não ter sido exilado?

Não, havia algumas coisas que eu não queria desistir. Tenho 73 anos, fui presidente do Brasil e sou muito conhecido. Eu não me via como refugiado. Pessoas importantes discutiram comigo se eu preferiria sair do Brasil ou procurar refúgio em uma embaixada. Eu decidi ficar no país. Eu luto pela verdade. Eu quero provar que aqueles que me acusam são mentirosos. E se eu tiver que fazer isso em detenção – tenho uma consciência limpa. O juiz Moro e os promotores que me colocaram atrás das grades não estão dormindo tão bem quanto eu, estou convencido.

Você esperava sua prisão?

Desde que a “Operação Lava Jato” começou, eu estava convencido de que na verdade ela tinha apenas um objetivo: eu. Eu disse para mim mesmo naquela época, não é possível para meus oponentes substituir minha sucessora, Dilma Rousseff, que também vem do Partido dos Trabalhadores, e depois permitir que eu seja reeleito presidente. Isso não se encaixa.

Você se vê como um prisioneiro político?

O juiz Moro, que me condenou, foi nomeado ministro da Justiça, pelo novo presidente, Jair Bolsonaro. Poucos dias atrás, Bolsonaro anunciou publicamente que havia concordado com Moro para içá-lo no próximo posto vago na Suprema Corte. Isso prova que tudo foi um jogo bem organizado.

O próprio Moro se protege contra tais acusações…

Moro garantiu que Bolsonaro fosse eleito presidente impedindo minha candidatura.

Sob o seu governo, a economia cresceu e milhões de pessoas saíram da pobreza. Seguiu-se um choque político e econômico. No ano passado, o direitista Bolsonaro foi eleito presidente. O que há de errado com o seu país?

A política econômica não é mágica. Você tem que ter credibilidade para ser respeitado. É por isso que tive o apoio de Gerhard Schröder e Angela Merkel, George W. Bush, Barack Obama, Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy, Tony Blair e Gordon Brown. O Brasil estava a caminho de se tornar a quinta maior economia do mundo e agora temos esse desastre. Bolsonaro é como o imperador romano Nero: ele incendeia o país inteiro. As palavras emprego, crescimento, investimento e desenvolvimento não são utilizadas. Ele não quer construir, apenas destruir. Nós temos um presidente que bate as enxadas na frente da bandeira dos EUA. O Brasil não merece isso.

O seu partido, o PT, não é responsável pelo declínio? Uma vez prometeu combater a corrupção, agora o próprio partido está envolvido em vários escândalos de corrupção.

Não há partido na história do Brasil que tenha criado mais ferramentas anticorrupção que o PT. Nós não apenas criamos leis mais rígidas, mas também demos mais transparência. Então a corrupção veio à luz. Cometemos erros e pagamos por eles. Mas apenas o tesoureiro do nosso partido está na cadeia, embora todos as partidos tenham recebido dinheiro da mesma maneira. O PT não foi punido por seus erros e erros, mas pelo que fez certo.

Como é isso?

A elite brasileira não aceita a ascensão dos pobres. Meu crime era permitir que os pobres estudassem, usassem a mesma calçada que os ricos, para ir aos shoppings e aeroportos de uma só vez. Esta terra pertence a todos. O PT foi generoso com aqueles que precisavam do estado brasileiro, mas não negligenciou os ricos. Eu carrego minha cruz, mas os pecados foram cometidos por outros.

A acusação alega que houve um gigantesco sistema de corrupção em torno da Petrobras para financiar os partidos.

Isso é mentira. Pode ter havido um ou outro caso. A Petrobras é uma grande empresa, que movimentou 30 bilhões de reais, o equivalente a 6,6 bilhões de euros no ano. Acabei de ler um livro sobre a história do petróleo e as políticas associadas de poder. Desde então, estou convencido de que o que acontece no Brasil tem a ver com os interesses das companhias petrolíferas americanas.

Você está falando sério?

Os americanos e a elite brasileira não queriam permitir que os recursos petrolíferos descobertos durante meu governo fossem promovidos apenas por uma participação majoritária na Petrobras. Eles se opõem a investir 75% dos royalties no sistema educacional, para que o Brasil possa finalmente alcançar a diferença de 200 anos. Isso financiará a pesquisa, a tecnologia e o sistema de saúde. É por isso que eles expulsaram minha sucessora, Dilma Rousseff. Então todas as manobras ilegais se seguiram para me impedir de correr novamente. Eles sabiam que eu seria eleito presidente mesmo se estivesse na prisão. O promotor Deltan Dallagnol, que está me perseguindo, é um fantoche do Departamento de Justiça dos EUA.

Mas nem todas as alegações são feitas no ar: diz-se que o grupo brasileiro de construção Odebrecht, que está no centro das investigações de corrupção, subornou políticos em toda a América Latina. Você tem um relacionamento muito próximo com a Odebrecht?

Não. E não me arrependo de qualquer relacionamento que tive com empresas, bancos, empresários e trabalhadores. Eu sempre soube da importância da Odebrecht no Brasil. É bem possível que as pessoas que queriam tirar Rousseff e destruir a Petrobras também estivessem interessadas em esmagar as grandes construtoras brasileiras. Você pode perfeitamente investigar denúncias de corrupção, descobrir corrupção e, se o proprietário da Odebrecht praticar corrupção, ele deve ser preso. Mas a empresa deve continuar trabalhando para criar empregos e prosperidade. Quem se beneficia se as empresas de construção desmoronarem? Quem se importa com o fato de as empresas brasileiras não estarem ativas na África ou em outros países da América do Sul? Os concorrentes na Europa e nos EUA.

A elite brasileira que você critica tão duramente cortejou você quando estava no governo.

Eu sempre disse: eu governo para os ricos e os pobres. Mas todos devem saber que minha preferência pertence àqueles que são os mais necessitados. No final do meu governo em 2010, eu tinha índices de aprovação de mais de 80%. Houve união nacional sobre a minha pessoa.

Então, como você explica que hoje você é tão odiado por uma parte da sociedade?

A mídia do Brasil tem alimentado o ódio desde 2005. Mário Soares, o antigo presidente português, disse-me numa visita: Lula, não entendo isso, você é deus na imprensa estrangeira, você é o diabo na imprensa brasileira. Após as manifestações em massa em 2013, esse ódio tornou-se ainda mais forte. Após a eleição de 2014, que minha sucessora Rousseff venceu por pouco, a oposição inicialmente se recusou a aceitar o resultado. A direita sempre prega: nosso inimigo é o Partido dos Trabalhadores, devemos destruí-lo. Mas eles não tiveram sucesso.

Bolsonaro não é um representante da oposição tradicional…

Ele não é capaz na presidência. Por que ele ganhou de qualquer maneira? Vou citar uma frase do autor moçambicano Mia Couto: “Em tempos de terror, escolhemos monstros para nos proteger”. Lá vem um cara que tem sido um membro do parlamento por 28 anos, mas nunca conseguiu nada e consegue se vender como o “novo”. Ele não foi eleito porque seus seguidores acreditam que ele é a melhor alternativa, mas porque ele é contra o PT, foi uma eleição de protesto.

A democracia está em perigo no Brasil?

Bolsonaro não acredita em democracia. Ele e seu pessoal sabem apenas uma coisa: armas. Em quase todas as fotos ele simula uma pistola com a mão. Em primeiro lugar, ele enviou os médicos cubanos para casa, os únicos a garantir assistência médica em muitas regiões pobres. Então ele fez política ambiental e corroeu os direitos dos trabalhadores. Agora ele está falando de uma grande reforma previdenciária. Pode ajudar os bancos, mas não as pessoas. Esse homem é um perigo para o Brasil. Ele destrói tudo o que construímos.

Afinal, ele gosta do apoio das forças armadas.

Os militares que o apóiam parecem ter esquecido todos os princípios nacionalistas. Na minha opinião, isso não significa apenas proteger nossas fronteiras, mas também nossa biodiversidade, nossa água, nossa região amazônica, nossa indústria.

Você teve um bom relacionamento com as forças armadas durante o seu governo. Por que os generais estão se voltando contra você agora?

Eu também gostaria de saber disso. Se eu sair daqui um dia, quero ter uma conversa séria com vários oficiais. Eu não entendo porque o chefe do exército antes da eleição sugeriu ao Supremo Tribunal Federal a minha condenação, a fim de impedir a minha candidatura. Eu sempre tratei bem os militares durante o meu governo.

Os militares ameaçam tomar o poder se o governo Bolsonaro falhar?

Eu não quero que isso aconteça. O povo brasileiro não merece isso. Espero que Bolsonaro caia em si e ganhe o respeito como presidente deste país. Ele deveria aprender a se comportar civilizado. Se Bolsonaro cai, o vice deve assumir, isso é um general.

A sociedade brasileira está profundamente dividida …

Isso é verdade não só para o Brasil, mas também para a Alemanha, os EUA e outros países. Em todo lugar o ódio é alimentado. Quem semeia vento, vai colher tempestade. O Brasil está nessa situação.

A Venezuela está em uma crise ainda mais séria que a do Brasil. A líder do seu partido PT viajou para apoiar Nicolás Maduro. Por outro lado, o governo brasileiro, como a Alemanha e muitos outros, reconheceu Juan Guaidó como presidente interino.

Foi um erro que a Alemanha reconheceu Guaidó, você pode fazer isso com Angela Merkel. Que Donald Trump faz isso, tudo bem, mas a Alemanha não era obrigada a obedecer aos americanos. Ninguém pode se proclamar presidente. Tal ação destrói as instituições.

Guaidó se refere à Constituição.

Por que a oposição não desafiou a vitória eleitoral de Maduro no ano passado?

A eleição foi considerada manipulada.

Se ela foi manipulada, por que eles não a desafiaram? Eu não concordo com o que está acontecendo na Venezuela. Mas é um problema venezuelano. Eu sou pelo direito de autodeterminação dos povos. Quem quer governar na Venezuela, deve sentar-se com seus adversários e negociar, isso não está pronto. Guaidó é um pavão, ele não é confiável.

Você poderia imaginar concorrer à Presidência de novo?

Na minha idade – tenho 73 anos agora – nem sei se estou vivo em quatro anos. Temos que procurar novos candidatos, há pessoas boas dentro e fora do PT. Eu não estou pensando em uma candidatura agora. Eu me concentro na minha vida e minhas provações.

Senhor Presidente, agradecemos por esta entrevista.
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