22 de mai de 2019

Desvendada ampla rede de fake news na Europa

Na véspera da eleição europeia, estudo expõe existência de redes de extrema direta que espalham notícias falsas e discurso de ódio na UE. Conteúdo somava mais de 500 milhões de visualizações nos últimos três meses.


Na véspera do início das eleições legislativas europeias, que vão desta quinta-feira (23/05) até o domingo, a ONG Avaaz publicou um estudo no qual afirma ter identificado mais de 500 páginas e grupos de extrema direita no Facebook suspeitos de disseminar informações falsas dentro da União Europeia (UE). 

O relatório apresentado nesta quarta-feira (22/05) permitiu a remoção de conteúdo que totalizava mais de 500 milhões de visualizações nos últimos três meses, segundo a organização. Entre estas contas também estão perfis relacionados à legenda populista de direita alemã Alternativa para a Alemanha (AfD).

A Avaaz diz ter relatado mais de 500 páginas e grupos suspeitos, que são seguidos no total por quase 32 milhões de usuários e geraram mais de 67 milhões de interações – comentários, curtidas e compartilhamentos – nos últimos três meses.

No mesmo período, os conteúdos relacionados a essas páginas e grupos geraram 533 milhões de visualizações, segundo cálculo da Avaaz. 

A organização acrescentou que o Facebok já removeu 77 páginas e contas reportadas em abril e maio "que juntas tinham três vezes mais seguidores (5,9 milhões) do que os seis principais partidos europeus de extrema direita ou anti-UE" – Liga, AfD, VOX, Partido Brexit, Reunião Nacional (ex-Frente Nacional) e PiS, que somam 2 milhões.

"O Facebook permitiu que muitas atividades suspeitas e conteúdo malicioso se espalhassem. É preciso excluir e realizar imediatamente verificações em toda a UE para detectar outras atividades suspeitas em sua plataforma", como contas duplicadas que ajudam a amplificar uma mensagem ou páginas que mudam seus nomes, afirmou a Avaaz.

As análises da Avaaz detectaram cerca 131 contas e oito páginas suspeitas na Alemanha. É o país mais afetado, seguido pela Polônia, com 43 perfis e 27 grupos. Ao compartilhar sempre a mesma mensagem, como, por exemplo, "Merkel mentiu", estas páginas conseguiram enganar o algoritmo do Facebook e posicionar melhor suas mensagens na rede social.

Estas contas apoiavam amplamente a AfD e também espalharam conteúdo e desinformação extremista de direita. Sob o nome da política alemã Laleh Hadjimohamadvali, da AfD, existiam quatro contas pessoais, conectadas entre si e que, em parte, postavam conteúdo idêntico.

A política da AfD confirmou o fechamento de pelo menos uma destas contas e afirmou não ter sido a primeira vez. Hadjimohamadvali afirmou também que já teve inúmeras postagens deletadas ou bloqueadas.

No ano passado, Hadjimohamadvali foi condenada por um tribunal a ´pagar uma multa por disseminar retratos violentos. Ela publicou uma postagem sobre abuso infantil no mundo islâmico. "Estou sendo privada da liberdade de expressão", disse Hadjimohamadvali à emissora pública SWR.

A investigação da Avaaz também encontrou conteúdo ilegal na Alemanha, como suásticas e postagens que apoiam os negadores do Holocausto. Estes conteúdos foram divulgados por contas que seguem a AfD no Facebook.

A ONG americana especializada em ativismo online lançou uma campanha chamada "Corrigir o registro", que visa forçar o Facebook a mostrar para todos os usuários textos que contradizem aqueles conteúdos vistos e identificados como falsos pelos serviços de checagem de fatos.

No DW
Leia Mais ►

Órfãos na passarela, uma monstruosidade com patrocínio judicial


Viramos monstros?

Ontem, no Pantanal Shopping, de Cuiabá, com o apoio do Poder Judiciário de Mato Grosso, a Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso (OAB-MT), Governo do Estado e do próprio shopping, realizou-se o “evento” Adoção na Passarela.

Vinte crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos, órfãs ou abandonados,  acolhidos em instituições de Cuiabá e Várzea Grande  desfilaram ante uma plateia de classe média, encantada como quem vai a um pet shop, para ver se alguém se interessava em adotá-las.

Os promotores festejam a cena maravilhosa: as crianças ganham “roupas novas, um dia de beleza, incluindo penteados e maquiagem, tudo isso para se divertirem no desfile que pode resultar no encontro de uma família”.

Adoção, algo personalíssimo, decisão íntima da família, aceitação emocional da criança, vira, assim, um desfile como o de Kennel Club, onde a beleza das carinhas, o estilo do penteado e o andar gracioso passam a ser os critérios de “pegar ou largar”. Ajudados, claro, pela “roupinha gourmet’.

São, certamente, “homens de bem” e “senhoras virtuosas” os que estavam na plateia, prontos a escolher um menino ou menina como se fossem um cocker spaniel ou um bichon frisé. Tão imbuídos do bem que até poderiam escolher uma criança mulatinha, para provarem que não têm preconceito.

Aproveitam, também, para se promoverem na high society cuiabana – “high society’ de shopping, vê-se – como bons cristãos, generosos e, claro, com um “projeto social” de levarem para casa um dos “bichinhos”.

Onde estão a Justiça, a OAB e o Ministério Público, que deveriam estar proibindo esta exposição desumana de pequenos seres humanos, indefesos e dependentes de alguém que os cuide com proteção e carinho?

Ah, sim, estão promovendo o “evento”…

Fernando Brito
No Tijolaço
Leia Mais ►

Míriam Leitão reagiu como Bolsonaro à merecida carraspana moral que Jean Wyllys lhe aplicou

Miriam Leitão, Moro e Vladimir Netto: tudo em família
Míriam Leitão acusou o golpe.

Escreveu uma coluna dizendo que “o presidente Jair Bolsonaro não sabe governar” e “é essa a razão da sua performance tão errática nestes quase cinco meses”.

Jean Wyllys apontou o óbvio: “Onde você estava nos quase 30 anos de nulidade de Bolsonaro no parlamento brasileiro?”

Míriam bolsonarizou.

“Deixa de ser bobo e mal informado. Vai ler minhas colunas antes de falar. Pessoa pública fala com mais seriedade”, atacou.

Jean está corretíssimo.

Míriam passou três décadas vizinha aos Bolsonaros e nunca deu um pio.

Sua obsessão, atendendo aos empregadores, era o “lulodilmismo”, o petismo, qualquer traque dos governos petistas.

Fez carreira assim.

Quando pôde confrontar Bolsonaro numa sabatina na GloboNews, ouviu-o calada defender torturadores, tendo sido ela vítima de sevícias nos anos 70.

Ao final do programa, leu, bovinamente, o famoso editorial dos Marinhos fazendo o mea culpa por ter apoiado a ditadura.

Agora é fácil bater em Bolsonaro.

Bolsonaro deve seu sucesso, em parte, a Míriam e seus colegas com suas perorações demagógicas nos últimos anos, demonizando pessoas e ideias.

Cadê a autocrítica tão cobrada?

Sintomaticamente, Sergio Moro é poupado por ela.

Vale lembrar que o ex-juiz, atual ministro da Justiça, foi biografado pelo filho de Míriam, Vladimir Netto, repórter da emissora.

Isso é uma aberração em qualquer lugar do mundo, menos no Brasil.

Hora dessas Míriam começa a criticar Moro.

Mas só quando ele estiver no chão e os Marinhos tiverem dado o ok.





Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Tábata Amaral desmascara Abraham Weintraub e diz que vai entrar com processo contra o ministro

"Eu cobrando planejamento estratégico, falando de coisas sérias, com respeito e o senhor me responder com isso. Que falta de maturidade, pelo amor de Deus”, exclamou a deputada


A deputada Federal Tábata Amara (PDT-SP) afirmou, nesta quarta-feira (22), durante reunião da Comissão de Educação da Câmara, que contou com a presença do ministro da Educação, Abrahão Weintrab, que está entrando com processo por danos morais contra o ministro por “distribuir em uma comissão pública, prints do seu número pessoal, da minha equipe com mentiras, o que é pior”.

Veja o vídeo abaixo:



A deputada fez a declaração após cobrar do ministro o planejamento estratégico do ano, com os cortes anunciados. “Isto é um constrangimento, isto não é uma atitude de um ministro, e eu tenho vergonha da gente estar aqui, eu cobrando planejamento estratégico, falando de coisas sérias, com respeito e o senhor me responder com isso. Que falta de maturidade, pelo amor de Deus”, exclamou.

O ministro alegou, durante o encontro, que havia feito quatro convites à deputada, através de sua equipe, para visitar o ministério e tomar pé da situação. Tabata mostrou os convites que, segundo ela foram três e vieram, na verdade da administração anterior, do então ministro Ricardo Vélez. “O senhor tomou posse dia 9 de abril e compartilha com o público três convites, sendo que o último foi feito dia primeiro de abril. Pelo menos faça as contas pra não passar constrangimento também”, afirmou.

No Fórum
Leia Mais ►

Suspeito de executar mendigo foi preso bêbado brandindo arma em bar e liberado em seguida

Marcelo Pereira de Aguiar
O colecionador de arma, no jargão dos seus conhecido como CAC (colecionador, atirador esportivo ou caçador), Marcelo Pereira de Aguiar, suspeito de executar um morador de rua em Santo André (SP) no último dia 11, foi preso em flagrante por porte ilegal de arma no dia 1 de março deste ano.

Isso foi divulgado pela imprensa nos últimos dias. Também se informou que o suspeito, antes de ser preso, tentou se passar por autoridade policial (delegado da Polícia Federal), assim buscando criar uma justificativa para estar armado no meio da rua.

Na ocasião, acabou preso em flagrante delito por porte ilegal de arma, crime (Lei 10.826/03, Art 14) pelo qual responde até hoje, em liberdade, após ter pago fiança de R$ 6.000.

O que a Polícia Civil do Estado de São Paulo não informou é que a prisão de Aguiar se deu na madrugada do dia primeiro de março, quando o suspeito de homicídio, após ter ingerido duas garrafas de vinho, segundo ele mesmo narrou e um laudo pericial confirmou, parou em um bar para tomar uma dose de uísque, e então passou a brandir uma pistola com 14 balas no pente, em frente a um bar na rua Dr. Baeta Neves, em São Bernardo do Campo(SP), visivelmente embriagado, ameaçando quem por ali passava, ao ponto de fazer desmaiar de medo um cidadão, e ao ver este homem no chão, passou a dizer que era policial, no que chamou a atenção e a desconfiança de mais pessoas, que ligaram para a polícia, que foi ao local e constatou que ali se dava uma ocorrência, qual seja, um homem bêbado, armado, ameaçando pessoas e causando pânico.

No último dia 20, Aguiar teve sua prisão preventiva decretada no âmbito deste processo (além  de ter tido prisão ordenada na investigação da morte do morador de rua), evidenciando que a Justiça reconheceu o erro no relaxamento da prisão em flagrante.

Os fatos acima estão narrados no Inquérito 206620, lavrado no Primeiro Distrito Policial de São Bernardo do Campo, ao qual o DCM teve acesso.

Também se lê nos mesmos autos que o colecionador de armas e empresário alegou, já na Delegacia de Polícia, após ser preso em flagrante por porte ilegal de arma, que portava sua pistola Sig Sauer .380 com 14 cartuchos, ainda que não tivesse direito para tanto, porque se sentia inseguro sem ela nas ruas, dada a violência que se vê no Brasil.

Já no distrito policial, afirmou que estava arrependido de tudo, e afirmou que não faria mais uso indevido da sua arma.

Hoje, é o principal e único suspeito da execução inexplicável de um morador de rua.

A embriaguês de Aguiar, o desmaio por medo da vítima e as ameaças armadas de Aguiar com sua arma não são hipóteses.

São fatos narrados por testemunhas e por laudos periciais, como se vê nos documentos presentes nesta reportagem.

O presidente Jair Bolsonaro assinou decreto no último dia 7 permitindo que colecionadores de armas registrados – como Aguiar – possam ir de casa ao lugar de treinamento (ou participar de competições) com as suas armas carregadas de munição, desde que tenham posse de seu certificado de Registro de Colecionador, Atirador e Caçador.

A maior liberdade para os CACs comprarem, portarem e fazerem uso de armas e munições é uma bandeira manifesta do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), ele próprio um CAC orgulhoso.

De acordo com o parlamentar, os colecionadores de armas não devem ser tratados como bandidos ou assassinos.

Tá certo.

Vinicius Segalla
No DCM
Leia Mais ►

A Lava Jato produziu o governo Bolsonaro


Os antigos defensores da Lava Jato, que festejaram quando a prisão de Lula impediu sua vitória eleitoral, reagem com perplexidade às estultices do governo Jair Bolsonaro. Ignorando a óbvia relação causal dos fenômenos, fingem que o jabuti subiu na árvore sozinho, como se a tragédia anunciada fosse um mero acidente de percurso na Cruzada Anticorrupção.

É fácil notar que a Lava jato enriquece delatores, advogados e multinacionais estrangeiras. Já considerá-la benéfica para o povo que a financia depende do repertório de valores de cada um. Se derrotar o lulismo compensa quaisquer sacrifícios, colapsos e prejuízos, maravilha, deu certo. Se nada justifica eleger milicianos e dementes obscurantistas, a conta não fecha.

O meio-termo, usado por muitos para fugir do dilema, disfarça a escolha pela primeira opção. Um dos apelos do imaginário fascista reside justamente em prender (e matar) bandidos. Não é outra a origem do discurso de que a corrupção supera negativamente a desigualdade social, a incompetência administrativa e o racismo institucionalizado. Ou o próprio fascismo.

E precificar os lados da balança não ajuda a equilibrá-la. Quantas fortunas recuperadas pagam a destruição da universidade pública, da cultura, dos direitos individuais? Quantos larápios aposentados ou irrelevantes compensam a inelegibilidade de um candidato favorito a presidente da República, o único capaz de impedir a escalada reacionária?

A agenda saneadora jamais precisaria da Lava Jato e do resultado eleitoral que ela gestou. As condenações de burocratas e políticos metidos em esquemas antigos e notórios seriam resolvidas há décadas, sem rótulos espalhafatosos, desde que policiais, procuradores e juízes cumprissem suas prerrogativas básicas. Todos esses casos dispensariam os arbítrios aplicados a Lula em nome da impunidade alheia. Só a excepcionalidade atingiria o petista.

Nisso a Lava Jato, porque ideológica, foi eficaz: partidarizou a constitucionalidade, tornando o antipetismo um alento moral para a naturalização do arbítrio. Nada mais explica o silêncio das cortes superiores diante dos métodos aplicados a Lula, cheios de vícios primários, que teriam derretido qualquer processo “comum”. O fato de não criar precedentes, mas exceções pontuais irrepetíveis, mostra o caráter deliberado e sistemático dessa covardia.

Basta resumir a trajetória de Sérgio Moro para sabermos que não houve mera coincidência entre as suas atividades e a ascensão fascista. O juiz vazou grampos ilegais para derrubar um governo, condenou por “crime indeterminado” o candidato do mesmo partido, manteve-o incomunicável na disputa eleitoral, ajudou a campanha do seu maior adversário e se tornou ministro da chapa vencedora. A de Bolsonaro, que lhe prometeu uma vaga no STF.

Esse pragmatismo oportunista só faz sentido como estratégia de poder. Não há justificativa técnica para encenações midiáticas e vazamentos de dados sigilosos. E é ilustrativo o gosto contraditório pela publicidade numa operação que resguarda seus próprios segredos tão bem, inclusive negando às defesas o acesso a documentos dos inquéritos.

A evidência final de que a Lava Jato pariu o monstro está na afinidade ética de ambos. O recurso de Moro ao espetáculo obscurantista e a manobras clandestinas sempre que algo ameaça seus interesses é típico do governo que o abriga. As pressões de militares sobre o STF na campanha e a desobediência às ordens de soltura de Lula têm a mesma essência.

Refém da desgraça bolsonariana, incapaz de sobreviver a uma CPI bem feita, a Lava Jato virou parte do sistema viciado que prometia destruir. É impossível separar cruzados judiciais e administrativos, pois o elo populista que os une também lhes confere sua única fantasia de legitimidade. Eles dependem do mesmo contingente raivoso e vingativo.

A normalização do país exige, portanto, que todos os articuladores do golpe que tirou Lula da disputa presidencial respondam juntos pelo desastre resultante. Permitir que os indignados tardios reciclem a agenda salvacionista, quiçá em torno do próprio Moro, seria um aval para novas aventuras tenebrosas da “gente de bem” que o idolatra. Os arrependidos de hoje sabiam, desde o início, aquilo que a Lava Jato preparava.

Guilherme Scalzilli
Leia Mais ►

Como fica a vida de quem já não consegue mais andar e a doença não tem cura

https://www.balaiodokotscho.com.br/2019/05/21/como-fica-a-vida-de-quem-ja-nao-consegue-mais-andar-e-a-doenca-nao-tem-cura/

Como cidadão e repórter, participei de quase todas as principais manifestações contra a outra ditadura militar (1964-2019).

Agora que a desgraça ameaça voltar pelas mãos de um presidente kamikase, o capitão Bolsonaro, não tenho mais pernas nem saúde para ir às ruas.

Embora more a poucas quadras da avenida Paulista, senti muito não poder participar dos protestos da semana passada, mas fiquei feliz porque meus netos foram.

Depois de quebrar quase todos os ossos do corpo em acidentes variados, já não consigo andar nem ficar de pé por muito tempo.

Não poder caminhar sobre as próprias pernas é uma das limitações mais dolorosas para quem passou a vida viajando por todo o Brasil e metade do mundo.

Já fiz todo tipo tratamento, anos de fisioterapia,  mas estou cada vez mais “com dificuldades de locomoção”, como falam nos aeroportos.

Estacionado na minha casa, de onde pouco saio, só pude ver as manifestações pela TV e no computador.

Por coincidência, ou não, estou lendo por estes dias o maravilhoso e comovente livro do meu amigo Nirlando Beirão, um dos melhores textos e dos mais decentes jornalistas do país, que vai lançar domingo “Meus Começos e Meu Fim” (Companhia das Letras), no restaurante Frontera, a partir das 16 horas.

Nirlando tem uma trajetória profissional parecida com a minha, começamos na mesma época e temos a mesma idade, e também passou a vida viajando e pousando nas nossas melhores redações.

Fomos os dois, sob o comando do bravo Hélio Campos Mello, cofundadores e repórteres da revista “Brasileiros”, que tanta falta nos faz nos tempos atuais.

Ao mesmo tempo, trabalhamos juntos, como comentaristas políticos, por sete anos, no Jornal da Record News, do Heródoto Barbeiro, e fomos demitidos no mesmo dia, sem maiores explicações.

Já estou terminando de ler o livro, mas sem pressa, porque é tão bom que não quero que acabe.

Uns três anos atrás, ainda na Record News, Nirlando começou a andar mancando, mas ninguém podia imaginar o motivo, nem ele.

Certo dia, apareceu na redação de bengala, depois de andador, por fim numa cadeira de rodas, onde está até hoje, precisando de ajuda de bombeiros para chegar ao estúdio.

Depois de mil exames, o amigo foi diagnosticado com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), uma doença rara, que vai enfraquecendo os músculos cada vez mais, e ainda não tem cura.

No livro, o jornalista e escritor ainda tem forças para brincar com ele mesmo, com seu texto finamente irônico, sem nunca descambar para o piegas nem se fazer de vítima do destino.

Conta a sua história e a da família como se estivesse falando de personagens de um romance ficcional, sempre com leveza, pesando cada palavra, apesar do enredo dramático.

Um desses personagens parece mesmo ter saído de Eça de Queiroz, mas era de carne e osso:  seu avô paterno, Antonio Cabral Beirão, nascido na Beira Alta, daí o nome.

É em torno dele, um padre que se apaixonou por uma beata, na pequena cidade mineira de Oliveira, largou a batina e criou uma bela família, que gira toda a narrativa.

Corintiano e mineiro, acima de tudo, o autor deste belo livro nos mostra como é possível viver sem ceder às pedras do caminho, empurrando-as com sutileza, na maciota.

NIrlando é um artista da palavra, capaz de transformar um caso banal do cotidiano em obra prima, com economia de letras. Tenta sempre arrancar pelo menos um sorriso do leitor.

Quem melhor resume o que Nirlando viveu e está vivendo é um dos seus médicos e também nosso amigo, Drauzio Varela, na contra-capa do livro:

“Os textos de Nirlando Beirão sempre estiveram entre os melhores do jornalismo brasileiro. Neste livro, reúne histórias do passado para confrontá-las com as adversidades enfrentadas por alguém com uma doença que impõe debilidade muscular progressiva, com graves limitações físicas. O resultado é uma reflexão profunda sobre o significado e a fragilidade da existência humana”.

Outro dia, no ano passado, o malandro com jeito de lorde nos deu um belo susto.

Após um almoço no mesmo restaurante aonde será lançado o livro, sem mais, ele acionou sua cadeira de rodas motorizada e avisou que estava indo embora para casa.

Apenas disse que tinha chamado um táxi especial que o costumava transportar com a cadeira.

Saímos à calçada e não vimostáxi nenhum, nem o Nirlando, que tinha sumido sem deixar vestígios.

Até hoje, não sabemos se pegou um táxi invisível ou se foi pilotando seu veículo até em casa, a muitos quarteirões de distância.

Nirlando sempre foi assim: uma figura imprevisível e adorável, com seu sorriso matreiro de matuto das gerais.

Pena que não será mais possível nos encontrarmos nas manifestações em defesa da democracia. Vamos ficar só torcendo de longe, sem parar de escrever…

Apesar das limitações e de só trabalhar em casa, Nirlando Beirão ainda é o redator-chefe da Carta Capital, uma revista de resistência do Mino Carta, que não se entrega nunca, a cara dos dois amigos.

Sucesso, garoto!

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
Leia Mais ►

A cidade tem de ser para todos


Quem em sã consciência gosta de pobreza? Ninguém. Cada ser humano no mundo só tem uma proposição: viver a vida em alegria, sendo amado e saciado. Ademais, a pobreza não é uma coisa natural, que acontece na vida por obra de deus ou do destino. Não. A pobreza é coisa construída historicamente. Ela acontece quando algumas pessoas, pelo uso da força, da mentira ou da persuasão, se apropriam da vida do outro, relegando-o a uma existência sem fartura. No caso da pobreza do nosso tempo, ela é fruto da forma como se organiza a vida no modo capitalista de produção. 

Nesse modo há uma pequena fatia que se adona dos meios de produção e uma grande maioria que vende sua força de trabalho como única saída para sobre/viver. O trabalhador, em verdade, não vive. Ele apenas mantém a cabeça fora da lama da miséria. E os que, por algum motivo não conseguem ou não querem vender sua força de trabalho estão fadados ao abandono ou à morte. 

Quando o capitalismo começou com suas grandes fábricas moendo gente, era tanta família saindo do campo, expulsa pelos pretensos donos da terra, que não havia como as fábricas absorverem tantas pessoas com empregos. Então, o povo que conseguia trabalho, era obrigado a aceitar as condições absurdas de 18 ou mais horas de labuta, parcos salários e casebres imundos para viver. E os que não conseguiam emprego, vagavam pelas ruas, causando constrangimento aos abastados. Foi por isso que criaram leis contra a “vagabundagem”, e essas leis tornavam legal, inclusive, a escravidão. Se fossem pegas vagando pela rua, sem trabalho, as pessoas eram presas e vendidas, quando não mortas. A pobreza dos desgarrados da terra era vista como uma doença, que precisava ser escondida dos olhos das “pessoas de bem”. 

Então, não é novidade esse nojo e horror que os pobres causam aos abastados. Desde o começo do capitalismo foi assim. Basta ler os textos do velho Marx, lá no “Capital”. 

Hoje, em Florianópolis, vivemos esse momento doloroso, no qual as vítimas do capital são tidas como uma doença contagiosa. Vivendo um crescendo vertiginoso no número de moradores em situação de rua, a capital do estado de Santa Catarina, conhecida como Ilha da Magia, busca punir aqueles e aquelas que, na verdade, só precisariam de uma chance para colocar a cabeça acima da linha da miséria. 

Com as “pessoas de bem” reclamando muito dessa multidão de desgraçados dormindo nas ruas, a solução encontrada pela prefeitura foi colocar tapumes nos lugares onde o povo da rua busca abrigo para dormir. E isso é feito bem agora, quando o inverno está vindo. No nosso provinciano jogo dos tronos, os reis da cidade decidiram que o povo da rua é feio demais, fede demais, atrapalha demais e como não para de se multiplicar, a solução é simples: impedir que vivam. Já que não podem ser presos por “vagabundagem”, então que se tire tudo deles, os pequenos abrigos, a possibilidade da comunhão, a sociabilidade. 

O terror do nosso tempo é ter de vir escrever um texto no qual o que se tem a dizer é que tirem os tapumes, para que as pessoas possam dormir embaixo das marquises. Isso é, deveras, inaceitável. Pessoas há, é verdade, que vivem na rua por querer. São poucas. No geral, os que estão em situação de rua são pessoas quebradas psicologicamente, abandonadas, sem chances de trabalho, alguns dependentes químicos (que é uma condição de falta de saúde). E são consequência desse sistema que explora e mantém a pessoa no limite da vida. A rua é sua casa porque ainda que, desprovidos de tudo, eles querem viver. Querem desfrutar do jardim que deveria ser a vida. Querem a alegria e a felicidade. 

Impedidos de dormir nas marquises da Deodoro, os moradores em situação de rua se mobilizaram, porque afinal de contas também são pessoas com direito à cidade, e foram reivindicar junto à prefeitura. A ação dos moradores, juntamente com representantes de outros movimentos sociais e vereadores, exigiu da prefeitura um espaço digno para que as pessoas possam se abrigar. Hoje, os espaços que têm são poucos e cheios de regras que muito pouco podem ser cumpridas.

A batalha segue sendo travada. Os moradores da cidade, que têm casa para morar, olham os moradores de rua com intolerância. “Eles que vão trabalhar, deem duro como eu dou”, diz uma mulher no ônibus, enquanto vai apontando as dezenas de pessoas deitadas embaixo das árvores. Não há compaixão. E não há compaixão porque não há entendimento. Mergulhados na sua própria luta para não morrer, até mesmo os trabalhadores, que deveriam ser solidários, apoiam as ações higienistas. “Aquela rua lá (a Deodoro) é um fedor só. Tá certo”.

A Deodoro fede sim. Fede a gente que não conseguiu se inserir no “mercado”, fede a pobreza. Uma pobreza que é fruto da nossa própria incapacidade de construir uma sociedade justa. A saída é “limpar”, tirar o problema do caminho. Esconder. Deixar o centro saneado para os compradores de mercadorias. Não há espaço para a empatia. São os tempos do capital.

A triste notícia é que num modelo de sociedade que gera pobreza, é impossível escondê-la, domá-la, impedi-la. Enquanto a máquina do capital moi uma parte do povo, outra parte vive à margem. E luta. Porque também quer compartilhar do banquete. 

Em Florianópolis, o povo da rua não se cala, se junta e reivindica. A vida boa e bonita tem de ser para todos.

Elaine Tavares
No Palavras Insurgentes
Leia Mais ►

Manifestações de domingo são jogo de perde-perde para Bolsonaro


Jair Bolsonaro parece ter percebido que entrou numa fria, e agora tenta sair de fininho das manifestações convocadas por movimentos de direita para domingo. Alguém levou ao presidente o raciocínio repetido nos gabinetes do Congresso: a convocação para o povo ir  às ruas no dia 26 em apoio ao governo e seus projetos, e contra o Congresso e o STF, é um jogo de perde-perde para o Planalto. Se for um fracasso e aparecerem poucas pessoas nas ruas, enfraquece ainda mais o governo; se for um sucesso, provocará reação implacável e imprevisível dos outros poderes contra o Executivo.

Pena que Bolsonaro tenha demorado um pouco para perceber isso. Ele foi longe demais, dedicando os últimos dias a atos de provocação pura com o Legislativo, acirrando os ânimos com a propagação de texto considerando o Brasil “ingovernável” por causa do Centrão e afirmando em discursos que o problema do país é sua classe política.

Fiel a seu estilo vai-e-vem, foi alertado e recuou nas ofensas ao Congresso, que, diante do cenário esquisito, tratou de botar em pauta as medidas provisórias que relutava em votar. Nesse mini-acordo de paz, Bolsonaro ensaiou elogios a seus dirigentes e aproveitou a reunião ministerial da manhã de terça-feira para orientar seus ministro a não comparecerem aos protestos de domingo – determinação repetida depois pelo porta-voz da Presidência. Foi avisado inclusive que o próprio presidente decidiu não ir mais à manifestação – como se, em algum momento, alguém tivesse dito que ele iria.

Desde o início, havia sérias dúvidas na própria base bolsonarista em relação a essa iniciativa. Estrelas de seu próprio partido, o PSL, como Joice Hasselman e Janaína Paschoal, já haviam se colocado contra a convocação, assim como integrantes do MBL e de outras organizações de direita especializadas em mobilizar coxinhas para ir às ruas. Mas, dentro da desorganização que caracteriza essas forças, a mobilização continuava sendo feita nas profundezas das redes sociais ativadas pelos bolsominions.

A quatro dias do protesto, pode ser tarde demais para Bolsonaro se livrar do abacaxi. O movimento poderá ser esvaziado, com pouca gente nas ruas, sem chegar aos pés das manifestações dos estudantes da semana passada – o que, por si só, já provocará um contraste desfavorável às forças da direita governista. Mas, a não ser que o próprio Bolsonaro e seus filhos digam explicitamente que não é para ninguém sair de casa – o que, a esta altura, seria um vexame e uma desfeita para seus seguidores – as manifestações do domingão vão ocorrer.

Quatro dias depois, no dia 30, está programado um novo protesto com sinal contrário, convocado pelos movimentos de esquerda de estudantes, centrais sindicais e outras categorias. E se tiver o impacto do último, que em 15 de maio levou muita gente às ruas, em todo o Brasil? A situação já anda desconfortável para Bolsonaro, mas pode ficar muito pior.

Helena Chagas
No Os Divergentes
Leia Mais ►

A marcha da loucura


A anunciada manifestação para o domingo 26 dos seguidores do presidente Jair Bolsonaro contra os que teriam transformado esse país em “ingovernável” poderá ter consequências difíceis de se calcular.

Cresce o medo sobre os resultados dessa marcha sobre Brasília para defender o “mito” que se sente encurralado pelos que pretendem impedi-lo de realizar a missão que Deus lhe encomendou de devolver ao país corrompido sua pureza perdida. Medo que começou a preocupar até políticos de seu partido e muitos que votaram nele e hoje se sentem assustados e tentam dissuadi-lo dessa manifestação chamada de “marcha da loucura”.

E eu acredito que não existem precedentes na história das democracias mundiais de um Governo que cinco meses após sua eleição e que deveria viver sua lua de mel decide mobilizar o país em sua defesa ao se sentir sitiado pelos que, segundo ele, tentam impedi-lo de governar.

As manifestações, normalmente, são organizadas pelas oposições para exigir que as promessas de suas campanhas eleitorais sejam cumpridas. Curiosamente, no Brasil, até agora, a oposição parece na verdade muda e desunida contra um Governo que se apresenta incapaz de entender o que a sociedade pede dele.

Não é de se estranhar que a manifestação que está sendo organizada nas redes sociais pelas hostes mais aguerridas e violentas de Bolsonaro seja batizada também como “a marcha do medo”. Parece que de repente os demônios foram liberados e se fala sem pudor de “incendiar Brasília”, de “fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal”, que seriam a grande meretriz da política. Há até um general da reserva, Luiz Eduardo Rocha Paiva, que acha natural que se não deixarem Bolsonaro governar “estaríamos dispostos a pegar em armas para defender a liberdade e a justiça”, incitando a uma guerra civil. Curiosamente o general destoa da atitude de moderação que até agora demonstrou o restante de seus colegas militares.

Essa ideia de incendiar os outros poderes que dividem com o presidente a liderança e governabilidade do país nos faz lembrar como, já entre os romanos, imperadores como Nero usaram da artimanha de provocar incêndios de verdade, como o que destruiu meia Roma, para jogar sua responsabilidade sobre seus supostos inimigos.

No caso de Nero, o imperador aproveitou o incêndio de Roma para acusar os cristãos de sua autoria, considerados como inimigos do Império. Conhecemos os resultados: aqueles cristãos, dentre os quais estavam os apóstolos, Pedro e Paulo, foram martirizados, queimados na fogueira, crucificados e jogados aos cachorros para que fossem devorados vivos.

É difícil encontrar no Brasil precedentes de uma alucinação semelhante à que esse Governo vive, que vê por todos os lados inimigos e intrigas para derrubá-lo antes ainda de ter iniciado seu caminho. É difícil encontrar no passado um clima de política baseado na negatividade, na raiva e no ódio, como se de repente o Brasil e os brasileiros tivessem se transformado em monstros irreconhecíveis e inimigos de seu próprio país.

É difícil encontrar um grupo político tão apaixonado pela força das armas em guerra contra inimigos imaginários. Sua bandeira é a da desconfiança e da caça aos que não se ajoelharem diante de seus novos preceitos mortificadores de liberdades, que pretendem calar os que tentam ver o mundo e a vida com olhos que não sejam os seus.

A manifestação prevista para domingo não será mais uma. Deixará marcas profundas, triunfando ou fracassando. O Brasil ficará perigosamente dividido. No caso de o Governo conseguir encher as ruas do país gritando contra os pilares que hoje sustentam a democracia, não é difícil prever que os conflitos se agravarão. Seria um passaporte para que um Governo autoritário imponha suas leis com mão de ferro.

E se fracassar? Se não forem capazes de mobilizar mais gente do que o fizeram os jovens estudantes, e se não conseguir ser pacífica? Nesse caso, o mito Bolsonaro deveria ter a grandeza de admitir seu fracasso, de renunciar e passar o comando a alguém que seja capaz de reunificar um país cada dia mais perigosamente cético da política e da democracia.

Existe o perigo real de que essa guerra ideológica e essa desconfiança nas regras democráticas também acabem arrastando o país a uma crise econômica que quebraria a já martirizada caravana de milhões de pobres e desempregados que acabam sendo sempre o alvo das loucuras dos que deveriam protegê-los.

Juan Arias
No El País
Leia Mais ►

Mourão é orientado por cientistas sociais a agir como estadista


Não é que os apoiadores que chancelaram Bolsonaro presidente tenham se arrependido. Eles já conseguiram cumprir seu primeiro projeto, o principal: neutralizar Lula, encarcerá-lo em Curitiba, debilitar nossas maiores empresas de construção e a classe política como um todo.

Previam, sim, que tais medidas provocariam desemprego em massa, que haveria uma reação internacional, que Lula de líder seria alçado a mártir, e que tamanha ousadia, condenando o ex-presidente por "atos indeterminados" e o prendendo sem trânsito em julgado fragilizaria a Lava Jato, o Moro, o Judiciário, o MPF, o STF, a grande Mídia. Mas foi um risco calculado. As vantagens seriam maiores que os prejuízos. E assim fizeram.

Agora, se preparam para cumprir a Etapa 2 do projeto: livrar-se de Bolsonaro & prole, entronizando Mourão, que vem sendo diligentemente preparado para isso. Ouço de boa fonte que há dois cientistas sociais, jovens e competentes, assessorando Mourão. As reações sóbrias do militar de agora, os comentários racionais, a postura contida e reservada, na contramão do que ele demonstrou na campanha, e adequados a um chefe de Estado, vêm sendo orientados e lapidados com cuidado por essa força-tarefa em dupla. Tudo do jeito que Bolsonaro não faz.

Diante de tal quadro, é compreensível o desespero de se convocar às ruas, para o dia 26, o exército bolsominion, formado pelos militares de baixo escalão, olavistas de baixo calão, polícias, milícias, as bolsonaretes em chamas e, enfim, os ainda iludidos em geral.

Atentem que não é por mero acaso que MBL e Janaína Paschoal neste momento unem suas vozes contra a manifestação do 26. Ambos servem ao mesmo propósito e à mesma esfera de poderes internos e externos - via Instituto Millenium e outras forças da elite - que articularam o golpe contra Dilma, a prisão de Lula, e que pretendem aprovar as reformas neoliberais e a entrega total do país. Forças que se ocultam na escuridão, e que impedem, por exemplo, as prisões dos tucanos master envolvidos até a testa em corrupção, malas de dinheiro, contas na Suíça e em paraísos fiscais, tudo já devidamente demonstrado, mas que seguem impávidos colossos.

Ao desfecho dessa queda de braço assistiremos nos próximos dias.

Quem se dispõe a lutar para que o Brasil volte ao seu eixo, o pensamento democrático seja retomado, a mídia corporativa devidamente enquadrada, o Judiciário saia da política e retorne aos tribunais, as nossas riquezas naturais permaneçam nossas, e sejam preservadas, assim como nossas universidades, a ciência, a cultura, as conquistas sociais e o desenvolvimento retomado... bem, quem se dispõe a se empenhar por isso, saiba que os embates serão duros, e em todos os campos. Haja pernas saudáveis para encher as ruas, haja habilidade para não cutucar onças com vara curta, haja fôlego nas mídias sociais e coragem, sobretudo ela.

Hildegard Angel, jornalista
Leia Mais ►

“Remendão” tenta salvar decreto das armas


Um imenso “remendão”, publicado hoje no Diário Oficial, tenta salvar o monstruoso decreto que liberou o porte de armas pesadas para, em tese, milhões de pessoas.

É quase inintelegível, de tantos “onde se lê, leia-se” que traz.

Em resumo, cria a estranha caracterização de que  “arma de fogo de porte” é a que pode ser disparada com uma só mão e “arma de fogo portátil” aquela que uma pessoa possa transportar, “tais como fuzil, carabina e espingarda”.

Embora as definições sejam um bom assunto para o Professor Pasquale, servem para dizer que as primeiras continuam liberadas para todas as situações colocadas no primeiro decreto e as últimas só para quem possuir uma propriedade rural. Isto é, fuzil, “só” para fazendeiros e sitiantes.

O “remendão” é tão extenso que será preciso gastar horas para entender o que, além do “agrofuzil”, está permitido ou restrito.

Uma vergonha. porque, tal como no primeiro ato de Bolsonaro, acaba descendo a especificações técnicas, próprias de portarias expedidas por serviços especializados, no afã de tornar permitido o que a lei proíbe.

Veremos se o Supremo Tribunal Federal vai se dar por satisfeito com esta burla evidente e vai legalizar a morte a granel.

Fernando Brito
No Tijolaço
Leia Mais ►

Bolsonaro some com o tratamento gratuito de HIV/Aids

Serra tentou se apropriar dele


Deu na colona "Painel", na Fel-lha, que trata o Serra como se fosse Winston Churchill:

Desce - Reconhecido mundialmente, o programa brasileiro de tratamento de HIV/Aids foi rebaixado no Ministério da Saúde. O antigo departamento que era dedicado à doença, outras enfermidades sexualmente transmissíveis e hepatites foi reestruturado.

Desce 2 - O setor de combate à Aids foi reduzido a uma coordenação, dividindo espaço com doenças cujo enfrentamento é diferente, como tuberculose e hanseníase.

Palavra proibida - O novo departamento evitou menção ao nome HIV/Aids e foi batizado de “doenças de condições crônicas e infecções sexualmente transmissíveis”.
O programa de distribuição gratuita de remédios para combater - e curar - o HIV/Aids é magnífica obra do Governo Sarney.

No auge da crise mundial da Aids, o programa brasileiro foi uma inovação, copiada por toda parte.

Quando Ministro da Saúde no Governo (sic) FHC - era uma plataforma para ser Presidente, com a ajuda de um Serviço de "Inteligência" do inesquecível delegado Itagiba - o Careca, o maior dos ladrões, tentou se apropriar do programa do Sarney, como se fosse o autor.

Blogueiros - que ele, Serra, chama de "sujos" - denunciaram a fraude e ele retirou do currículo de "candidato".

(Como se sabe, ele foi duas vezes derrotado fragorosamente - pelo Lula e a Dilma.)

Bolsonaro faz pior que o Serra: vai acabar com o programa!

Leia Mais ►

Raio X do comércio com a China e a diplomacia fundamentalista bolsonariana


A desmoralização internacional do país, pelo governo Bolsonaro, não tem implicações apenas morais. A respeitabilidade centenária do Itamarati está sendo corroída por um Ministro aloprado. Há uma reorganização internacional da economia, mudanças radicais no modelo de industrialização, o embate feroz entre dois gigantes – Estados Unidos e China =, políticas protecionistas sendo implementadas pelas maiores economias, e a única estratégia brasileira é um acordo com Israel que unifique as religiões cristãs permitindo a volta do Salvador.

As definições de política comercial de um país começam pela análise dos indicadores de comércio para, a partir deles, montar as estratégias comerciais, que vão desde acordos bilaterais até a promoções comerciais. É uma política que exige pleno conhecimento dos interesses nacionais e dos interesses dos parceiros, para se obter os melhores acordos.

Quando se compara a complexidade das políticas comerciais com as conversas de Jair Bolsonaro com Donald Trump ou com os arrufos fundamentalistas do chanceler Ernesto Araújo, percebe-se que o país está totalmente fora do jogo.

De qualquer modo, uma análise da balança comercial permite identificar estratégias óbvias, que serão retomadas assim que os fanáticos se apearem do poder.

O fator China

A China é um parceiro comercial importante, país com quem o Brasil ostenta o maior saldo comercial, de US$ 30 bilhões no acumulado de 12 meses até abril de 2019, e com crescimento consistente desde outubro de 2015.


É de longe o maior saldo comercial e o maior destino das exportações brasileiras. Confira o acumulado de 12 meses até abril.


Mesmo assim, a pauta de exportações brasileiras para lá é extremamente pobre, sendo basicamente de produtos primários. Enquanto as importações brasileiras da China são de produtos de alto valor agregado.


Comparativamente, a pauta de exportações brasileiras para os Estados Unidos é muito mais diversificada, com preponderância de produtos semimanufaturados de ferro, manufaturados, máquinas e aparelhos de terraplanagem. Enquanto as importações brasileiras são de produtos de baixo valor agregado além de uma gama relevante na categoria de “demais produtos”.


Aliás, quando se analisa a pauta de exportações de manufaturas brasileiras (os produtos de maior valor agregado) percebe-se a relevância dos mercados vizinhos da América do Sul.


É só conferir a pauta de exportações para a Argentina.


As estratégias

A partir daí, governos inteligentes teriam um corredor pela frente para definir as estratégias de políticas comerciais.

Com os Estados Unidos, por exemplo, haveria a necessidade de acordos que blindassem os produtos brasileiros da alta de tarifas de importação anunciadas pelo governo Trump. Em vez disso, Bolsonaro se contentou com a promessa vaga, talvez, quem sabe, de apoio de Trump ao ingresso do Brasil na OCDE. Qual o ganho que o país teria com esse ingresso? Nenhum.

Em relação à China, há um interesse estratégico pelas matérias primas brasileiras. Mas que isso, pela exploração dos mercados de energia, de alimentos e minerais. Em outros tempos, governos mais inteligentes se valeram da disputa de hegemonia entre nações para conseguirem grandes saltos no desenvolvimento brasileiro. Vargas conseguiu a Companhia Siderúrgica Nacional e os planos da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos.

Em um momento de profundas transformações tecnológicas, com os gigantes chineses de tecnologia buscando alianças no Ocidente, uma estratégia inteligente poderia arrancar concessões relevantes, ou da China ou dos EUA. Em um mundo em que os maiores países, como Estados Unidos, China e Alemanha, montam políticas industriais visando fortalecer a produção interna, a burrice diplomática só tem olhos para o acordo final com Israel, que abriria espaço para o fim do mundo e a salvação das almas.

Não se trata apenas de excentricidades de circo. Mas de um atraso que vai se consolidando, enquanto se tolera a manutenção do imbecil coletivo no governo.



Luís Nassif
No GGN
Leia Mais ►