20 de mai de 2019

Bolsonaro vira pó e, no desespero, parte para o confronto. O que virá depois dele?

https://www.balaiodokotscho.com.br/2019/05/20/bolsonaro-vira-po-e-no-desespero-parte-para-o-confronto-o-que-vira-depois/

A leitura dos jornais e portais desta segunda-feira, além de uma rápida olhada nas redes sociais, deixa claro que o governo Jair Bolsonaro é finito. Virou pó.

Com a base parlamentar esfacelada, depois de perder o apoio no mercado e na mídia, o capitão reformado resolveu partir para o confronto com as instituições e o povo que saiu às ruas na semana passada.

No desespero, publica seguidas mensagens para insuflar seus seguidores contra o Congresso e o Supremo no ato marcado para o próximo domingo pelas milícias do zap-zap.

Me lembra muito o que Fernando Collor fez em 1992, pouco antes de ser impichado, ao convocar a população para ir às ruas de verde amarelo em defesa do seu governo.

O povo saiu às ruas, mas vestido de preto, contra o seu governo.

É imprevisível o que poderá acontecer domingo, mas uma coisa é certa: Bolsonaro já perdeu as condições mínimas para continuar à frente do governo.

O que Bolsonaro está buscando é a anarquia de que falava o general Mourão na campanha, ao justificar a possibilidade de um autogolpe.

Se os “protestos a favor”, algo como um carnaval fora de época, forem um fracasso, será a pá de cal no governo.

Afinal, quem costuma protestar é a oposição. Governo serve para governar.

Se as manifestações pró-Bolsonaro e contra o Judiciário e o Legislativo forem um grande sucesso, mobilizarão ainda mais os que são contra o governo, com novos protestos já marcados e uma greve geral anunciada para 14 de junho.

O cenário ficará ainda mais radicalizado nas ruas e no parlamento, com o país dividido ao meio e a economia afundando cada vez mais.

Bolsonaro não deve se esquecer que seus seguidores mais fieis nunca passaram de 20% nas pesquisas quando Lula ainda era candidato e tinha o dobro de intenções de votos, antes da facada de Juiz de Fora.

Num eleitorado total de 140 milhões aptos a votar, ele teve pouco mais de um terço dos votos (57 milhões).

Nem todos os que votaram nele, no entanto, concordam com suas políticas para liberar as armas, destruir o meio ambiente e os direitos sociais, rifar a soberania nacional e fazer do Brasil uma servil colonia americana.

Ao criminalizar toda a classe política e os partidos, ficou isolado no Palácio do Planalto com seus três filhos, porque até a tropa de generais de pijama à sua volta está agora observando um obsequioso silêncio.

Sem ter até agora apresentado um programa de governo ou qualquer política pública para pelo menos minorar o drama do desemprego, que não para de crescer, o que ainda se pode esperar de Bolsonaro?

O que se discute agora é como se dará o desenlace, preservando as instituições e a democracia.

Perto dele, o vice general Mourão já é apresentado como uma opção mais razoável.

E tem gente achando que seria melhor os dois pedirem logo o boné ou serem convidados a sair para Rodrigo Maia assumir e convocar novas eleições.

Sonhar, não custa nada, mas seria a melhor forma de unir novamente o país. Só não dá para continuar tudo como está. O Brasil não aguenta mais.

Se um novo impeachment seria traumático, muito pior é corrermos o risco de um novo golpe militar.

Convocar a população para sair às ruas em apoio ao governo Bolsonaro, a essa altura, é mais do que um tiro no pé. Pode ser um tiro na testa.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
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Mourão é rima, mas não é solução


A partir dos últimos acontecimentos envolvendo o governo Bolsonaro, parece cada vez mais claro que ele está inviabilizado. A palavra impeachment voltou às bocas. Porém, substituí-lo não é tão simples assim. Em política tem fila e a senha do General Mourão está longe de ser a próxima. Sobra o que, então?

Todo mundo é incompetente, inclusive você

Bolsonaro não foi capaz de viabilizar minimamente uma base de apoio no Congresso, isso apesar de seu partido ter a segunda maior bancada na Câmara dos Deputados – ou talvez, paradoxalmente, por isso – “O congresso Youtube”. Bolsonaro montou um ministério que dá ao seu governo características de insânia. E seus dois “superministros”, Sergio Moro e Paulo Guedes, não resistiram ao teste da realidade administrativa. O núcleo militar que lhe serviria de ponto de equilíbrio foi torpedeado pelo “núcleo filosófico-familiar” que o desequilibra.

Sintam-se à vontade para completar a lista acima, caberiam muitas outras características do governo Bolsonaro que o tornam disfuncional. Inclusive problemas familiares com o Ministério Público.

Porém, aqui não se deve fazer a leitura automática de que Bolsonaro, enquanto fenômeno político, é fraco. Não o é.

Para entender Bolsonaro é preciso ter lido “Todo mundo é incompetente, inclusive você” – um clássico da administração de Laurence J. Peter e Raymond Hull. Lá está estabelecido o “Princípio de Peter”:

“Em um sistema hierárquico, todo funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência”.

Descreve claramente o Governo Bolsonaro, não? Bolsonaro foi eleito para seu nível de incompetência. Simples assim. Foi necessário somente cinco meses para isso se tornar consenso.

Incompetente, mas não fraco

Bolsonaro atingiu seu nível de incompetência, mas, de modo algum é fraco.

Bolsonaro mantém-se com um piso de 35% de aprovação, desde o primeiro turno das eleições. Pelo menos isso é o que mostram as pesquisas de vários institutos. Mais do que isso, mostrou uma interessante capacidade de resiliência. Perdeu aceitação nas camadas mais abastadas e escolarizadas que o apoiavam antes das eleições, ganhou apoio nas camadas menos escolarizadas e de menor renda – camadas estas que antes apoiavam Lula.

O problema é a radicalização que Bolsonaro provoca. Os que são contra Bolsonaro são em número quase igual ao dos que apoiam – sem um significativo colchão de amortecimento de uma faixa intermediária que evitasse confrontos diretos entre os extremos.


Mas Bolsonaro é um personagem forte no imaginário do brasileiro medíocre.

O grupo de Bolsonaro montou uma poderosa rede de comunicação direta com a população usando as redes sociais. É o único político, desde Brizola, que peita a Globo e não cai instantaneamente fulminado por um raio.

Em política tem fila

Não tenhamos dúvidas, a agenda político-econômica com força para fazer o governo ainda é a do conservadorismo. Bolsonaro será tirado do comando por ser incapaz de implantá-la. Mas uma agenda minimamente de esquerda não se mostra viável. Mesmo uma mais ao centro, seria uma concessão.

É nesse cenário que começa a chamar atenção a “alternativa Mourão”.

Mas Mourão – o vice-presidente agregado por Bolsonaro à chapa justamente por parecer, à época, ser tão mais radical que desencorajaria um golpe – teria competência política para implantar a agenda que Bolsonaro não foi capaz?

Essa agenda necessariamente deverá ser negociada com o Congresso. Bolsonaro tem 30 anos de vida parlamentar – de atuação insignificante, mas é alguém vindo do parlamento. Mourão vem diretamente da caserna, sem nenhum traquejo no trato com o Congresso – ou no trato com quem quer que seja, inclusive superiores hierárquicos.

Mourão tem – e não se acredite que mudou em tão pouco tempo – os mesmos pendores autoritários que Bolsonaro. Ainda que com momentaneamente mais continência verbal, tolice seria acreditar que se mostraria um moderado – ou tutelável – após assumir o comando. E Mourão tem cacoete e posto de comandante – coisa que Bolsonaro não tem.

Mas Mourão não está no coração e mente de ninguém. Mourão é um neófito e um outsider.

O Poder Econômico deve estar analisando com muito cuidado o seu perfil, antes de decidir por afastar definitivamente Bolsonaro e substituí-lo por Mourão. O que Mourão pode acrescentar que já não temos com Bolsonaro? Pode acrescentar, isso sim, o que já temos com Bolsonaro. E isso pode não favorecer a sua escolha.

A Solução Collor e a Solução Itamar

A “Solução Collor” deriva da tentativa que foi feita no governo Collor para salvá-lo através de uma tutela. Quem ainda se lembra do “Ministério Ético” que foi colocado no poder nos estertores do governo Collor? Os ministros foram escolhidos a dedo com o aval do mercado e acordo com o Congresso. Collor aceitou o cabresto. Mas o ministério não resistiu às novas denúncias, agora vindas diretamente do irmão – Pedro Collor – publicadas na capa e nas “páginas amarelas” da revista Veja. E na Isto É, o motorista entregando o caminho para dos cheques.

Bolsonaro, no entanto, não dá sinais de que aceita tutela. Creio até que, por traço de personalidade, aceitaria – sabe ficar quietinho, quando lhe convém. Mas tem os filhos – e aí, não há acordo – é tudo ou nada.

Chamaram manifestações de apoio para o próximo domingo – 26 de maio de 2019. Conhecemos a “turma”. Já a vimos em ação na greve dos caminhoneiros. Muito “grupo de Whatsapp” e muita radicalização.

Pode dar merda, pode dar em nada. Não parece que farão a “revolução”. Até porque ninguém faz uma revolução em um domingo.

Mas é uma clara sinalização de que a “Solução Collor” é inviável com a “família Bolsonaro” no poder.

E ainda que, após o “fatídico” 26 de maio de 2019, houvesse uma capitulação e a tutela parecesse algo aceitável para os Bolsonaro, as investigações sobre as traficâncias de Flavio Bolsonaro e Queiroz e as milícias cariocas fatalmente alcançariam Jair Bolsonaro – o presidente – e o inviabilizariam de qualquer modo. O mesmo aconteceu com Collor e PC Farias.

Mourão é rima, mas não é solução

Restaria a “Solução Itamar”. Itamar Franco – vice-presidente de Collor – aceitou ser presidente em um governo de um “parlamentarismo branco”. FHC foi seu primeiro-ministro. FHC era o chefe do governo de facto. FHC tinha o aval do Poder Econômico e implantou elegantemente a sua agenda.

Costurar um acordo com Rodrigo Maia e com a banda fisiológica do Congresso para substituir Bolsonaro é ação de “manual de procedimentos padrão”. O impeachment sairia, ainda que fosse desgastante mais um impeachment em tão pouco tempo. Ocorre a questão não é essa.

As questões que realmente importam: Morão tem o perfil de Itamar? Quem seria o FHC de Mourão? Sobrou um líder político à direita ou ao centro para conduzir a transição e negociar a agenda conservadora? Qual o seu nome? Qual o seu partido?

E o que fazer com Sergio Mouro e Paulo Guedes, em um governo Mourão? Como mantê-los superministros sob as ordens de um tutor?

Sobram rimas, falta uma solução. Ou ela existe, mas está presa, o que dá no mesmo.

De qualquer modo, a solução não parece ser Mourão. Ainda que rime. Para se viabilizar a ponto de impor a agenda do Poder Econômico, um governo Mourão não parece que rimaria com negociação – parece que rimaria melhor com “dura”.

PS: duas datas a se aguardar antes de abrir o dicionário de rimas na letra “D”.

26 de maio de 2019 – para ver o tamanho do apoio de Bolsonaro nas ruas. Nas redes sociais é grande – mas operar robô no asfalto é diferente.

23 de maio de 2019 – para ver se Lula convida Carlos Lupi – presidente do PDT – para ser padrinho do seu casamento.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia
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A entrevista de Sarney, o conceito de verdade e as mentiras que antecederam os fake news

Enfim, antes que a “verdade” fosse destruída pelas “verdades” dos fake news , o país já estava exposto ao imediatismo, ao pensamento primário, a ponto da “racionalidade” do mercado apostar em um completo imbecil para dar ao Brasil o destino manifesto.


Foi excepcional a entrevista do ex-presidente José Sarney a Ana Dubeux e Denise Rothenburg, do Correio Brasiliense. Sarney é um dos melhores analistas dos ventos políticos, não apenas o dia-a-dia da política, mas das modificações trazidas pelas transformações sociais e tecnológicas.

Sarney tem uma capacidade de análise que, por exemplo, falta a Fernando Henrique Cardoso.  Em cada tema, sabe identificar o ponto central e ter a explicação lógica para encaixá-lo no cenário mais amplo. É até curioso esse paradoxo, do político tido como paradigma do coronel político formular a análise mais sofisticada, enquanto o “Príncipe”, representante da inteligência paulistana não consegue sair dos bordões midiáticos, nesse jogo de “in” e “out” que caracteriza a pauperização do debate político. Falar em combater a pobreza é “in”. Combater a pobreza é “out”.

Em 2009 tive uma conversa com Sarney, na qual analisou com maestria a perda de influência do político para as organizações que surgiam da sociedade e da mídia para as novas formas de comunicação. Em plena pré-campanha eleitoral de 2010, cantou o fim do PSDB, por usar como única arma o discurso do ódio. O fenômeno das redes sociais ainda não se alastrara, não havia Lava Jato nem a epidemia dos fake news, presentes na nova análise de Sarney.

Na entrevista ao Correio Braziliense, Sarney coloca no centro da crise o desmanche institucional dos três poderes e a ascensão deletéria do 4º poder, o Ministério Público, e da pós-verdade, os fake news das redes sociais, que acabaram com a “verdade”.

Não aprofunda o que seria esse conceito, a “verdade” antes dos fake news. E reside nesse conceito, da transformação de dogmas em “verdades”, da incapacidade de se ter uma visão sistêmica dos problemas nacionais, a raiz dos problemas brasileiros, a enorme dificuldade de renovar conceitos, de sofisticar análises, de interpretar a realidade.

A discussão pública brasileira jamais conseguiu ir além do bordão, do alvo único. Governar é abrir estradas; ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil; se um ajuste fiscal rigoroso derruba a economia, um mais rigoroso ainda trará o desenvolvimento.

As análises dos “especialistas” sempre se moldaram aos interesses imediatos dos patrocinadores, pautando todas as discussões no período. E, como sempre havia uma intenção política por trás do debate público, amoldava-se a realidade e as teorias aos interesses dos patrocinadores.

Falácia da composição

Em seu livro sobre a riqueza no mundo, Thomas PIketti identificou como maior fator de acumulação financeira, e de desigualdade, na taxa de juros dos investimentos, superior aos índices de crescimento do PIB.

Há décadas, a discussão econômica fixou-se na pauta única do ajuste fiscal, na intocabilidade das políticas monetária e fiscal, na minimização dos temas prioritários, como educação, inclusão social, na demonização de qualquer direito social e trabalhista. E no primado da taxa de juros de equilíbrio, sempre superior aos índices de desempenho da economia.

E transformaram em ciência o chamado sofisma da composição: se reduzo os encargos trabalhistas, as empresas ficam mais produtivas; se as empresas ficam mais produtivas, logo a economia ficará mais produtiva.

É a imbecilidade crônica do chamado sofisma da composição, de intelectuais de baixíssimo nível pretendendo criticar o baixíssimo nível das redes sociais.
  • Se desmonta o mercado de trabalho, reduz a formalidade;
  • A informalidade reduz a capacidade de tomada de crédito pelo consumidor, seja pela ausência de carteira de trabalho, seja ela imprevisibilidade dos rendimentos.
  • Com a redução do trabalho formal, haverá menos arrecadação fiscal e previdenciária (INSS e Imposto de Renda) e menos recursos para investimento (FGTS).
  • Com menos FGTS, haverá aumento no custo médio do financiamento, encarecendo os investimentos futuros.
Outro exemplo da falácia da composição foi o Minha Casa Minha Vida. Em 2007 havia um déficit de 7 milhões de moradias. O MCMV entregou 4 milhões. E o déficit aumentou.

Pensou-se no programa exclusivamente do ponto de vista de mecanismos de financiamento. A explosão do programa provocou especulação urbana e, com ele, a explosão dos aluguéis. Para milhões de pessoas, o aluguel, que não era peso excessivo, passou a ser. E elas foram expulsas para a periferia mais distante, para a submoradia ou para favelas.

Toda tentativa de se criar fóruns de discussão, que permitissem diagnósticos mais abrangentes de problemas, foi demonizada pela mídia, como sendo bolivarianas ou o raios que os parta!. Conferências de saúde, de educação, de ciência e tecnologia, não era aceito nada que sofisticasse as discussões, um argumento a mais que colocasse em curto circuito o pensamento monofásico presente nas discussões públicas.

O PDP (Programa de Desenvolvimento Produtivo), o melhor programa industrial jamais elaborado no país, contribuição da Fiocruz, e que poderia ser matriz de uma revolução no planejamento brasileiro, foi sacrificado pela mídia por razões políticas.

Ele invertia a lógica meramente financeira dos demais programas. Definia um objetivo claro: a melhoria no atendimento da saúde. A partir daí juntava todas as peças, a produção de medicamentos, o estímulo aos serviços, as novas práticas terapêuticas, cada qual tendo um desdobramento econômico. Foi sacrificado porque um doleiro tinha recursos aplicados em um laboratório, que dificilmente teria passado pelos filtros criados pelo programa.

Por aqui, jogam-se fora as ideias, os conceitos, como se fosse matéria prima abundante. E tudo isso para ter o conforto do sapo em caldeirão de água fervendo. Cria-se a “verdade”, de que bastará a reforma da Previdência para todos os problemas serem resolvidos. A cada dia que passa, a temperatura da água aumenta um grau. E só quando houver a fervura final aparecerá o estadista único, o Sr. Crise, trazendo alguma saída para uma economia em cacos.

O mito do CEO genérico

Nem o fato da inclusão social ter criado um mercado interno poderoso foi suficiente para que se aceitasse a mudança de padrão de análise.

Na Fazenda – e nas empresas -, criou-se o mito do CEO genérico, o sujeito que trata todos os problemas pela ótica estritamente financeira e dos resultados de curto prazo, de olho nos bônus de desempenho. Esses gênios quebraram empresas como a Sadia, comprometeram o futuro da Vale, da BRF, inviabilizaram o Unibanco pela desconsideração absoluta sobre as características específicas de cada setor. Luiz Furlan, da Sadia, encantava-se com a economia trazida para a empresa na lavagem de uniformes, enquanto seu financeiro montava, madeira a madeira, o caixão para o enterro da companhia.

Principalmente, esse padrão linear de dar sobrevida a dogmas manteve a economia brasileira em crescimento pífio desde o Plano Real. O único momento de crescimento mais vigoroso foi justamente durante a crise de 2008, inspirado pelo Senhor Crise, único personagem político a tirar a política econômica da inércia. E, depois do sucesso inicial, cria-se uma nova verdade, dos subsídios incontroláveis, que é repetida a exaustão, até a crise se impor novamente. E, vindo a crise, radicaliza-se ainda mais o receituário anterior.

Não há o menor compromisso da política econômica com a realidade e com o longo prazo.

Quando o receituário de Joaquim Levy fracassou, uma loucura de impor choques tarifários, cambial, fiscal, trancamento de crédito e explosão de juros simultaneamente, a alegação dos economistas é que não havia radicalizado o suficiente. E essa “verdade” era aceita pelo sistema, sem nenhuma necessidade de impulsionamento pelas redes sociais.

Derruba-se Dilma, porque bastaria sua queda para tudo ser resolvido, e impõe-se a loucura draconiana da Lei do Teto, do desmanche da legislação trabalhista, sempre com a promessa futura de entregar o crescimento.

De lá para cá, aplicou-se a fórmula mágica do ajuste fiscal pró-cíclico. A economia atravessa o mais prolongado processo de recuperação da história e insiste-se na mesma fórmula mágica.

Enfim, antes que a “verdade” fosse destruída pelas “verdades” dos fake news , o país já estava exposto ao imediatismo, ao pensamento primário, a ponto da “racionalidade” do mercado apostar em um completo imbecil para dar ao Brasil o destino manifesto.

Luís Nassif
No GGN
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Tuítes relevam relação de apoiadores de Bolsonaro com religião

Pesquisa com mais de 2,2 milhões de postagens apontam citações a Deus, Jesus e Satanás em citações relacionadas ao presidente

Eles
No dia 6 de setembro de 2018, Aline entrou em sua página do Twitter, indignada com os comentários que lia sobre a facada que o então candidato à Presidência Jair Bolsonaro tinha acabado de levar, durante um ato de campanha que fazia em Juiz de Fora (MG). “Você que tá comemorando a facada no Bolsonaro, só digo uma coisa, que Deus perdoe sua alma”, escreveu.

As 17 palavras usadas em sua frase não incluíam qualquer menção a termos ligados à saúde ou à segurança do presidente. O contexto, basicamente, era religioso. A jovem Aline não era a única que faria clamores divinos pela internet. Naquele dia e nos que se seguiriam, dezenas de milhares de postagens similares invadiriam as redes sociais, envolvendo citações de fé e o nome de Bolsonaro.

As publicações chamaram a atenção da AP/Exata, empresa de inteligência em comunicação digital, que decidiu pesquisar quais são as palavras mais usadas por pessoas nas redes sociais, quando estas citações envolvem o nome “Bolsonaro”. O levantamento se baseou em 2,287 milhões de tuítes, todos geolocalizados em 145 cidades, em todos os Estados do País. O trabalho foi feito em dois períodos: pré-eleitoral, entre 1.º de maio de 2018 e 3 de outubro de 2018; e pós-eleitoral, de janeiro a 9 de abril deste ano.

O resultado revela que, em publicações com o termo Bolsonaro, palavras ligadas à religião sempre estiveram à frente de assuntos centrais em qualquer campanha eleitoral ou programa de governo, como educação, saúde, emprego ou transporte. O único termo que, nas citações que envolvem Bolsonaro, chega a fazer frente a menções religiosas é segurança.

Os dados apontam que, em 2019, de cada 100 tuítes analisados que continham a palavra Bolsonaro, quatro também traziam citações a Deus, Jesus ou Cristo. Entre os mais citados também apareceu Satanás, como fez questão de mencionar, em sua postagem de 13 de março, o usuário do Twitter Beto Silva. “Satanás e seus asseclas amam a mentira. O problema é que a mentira nunca prevalece sobre a verdade. Resumindo: eles continuarão fracassando e Bolsonaro continuará cavalgando no lombo deles.”

Rede social

Do total de 2.287.450 tuítes analisados, 374.417 (16,4%) se referiam a um dos temas abaixo, na seguinte proporção


Para Sergio Denicoli, diretor da AP/Exata, os dados explicam o fato de a religião ter sido incorporada à política do governo. “É um governo fervorosamente cristão e que tem dado à religião um peso grande para desenvolver suas políticas”, disse. “O governo Bolsonaro é reativo em relação ao que acontece nas redes sociais, é plenamente sensível ao que se passa nelas.”

Ao comparar as citações religiosas mais associadas ao nome de Bolsonaro, o levantamento apontou que algumas palavras apareciam com grande frequência antes das eleições, mas que depois perderam muito espaço. Foi o caso de termos como Bíblia, Inri, mandamento, pecador, pecadores e cristianismo.

Por outro lado, após as eleições, surgiram termos religiosos novos, como Abraão, crucificação, divino, gênesis, Jacó, salmos e satanás. “De maneira geral, o aparecimento de ‘satanás’ na lista remete a uma radicalização do discurso, no que diz respeito ao fato de que há uma relação entre o termo ‘Bolsonaro’ e a ideia de que ele é um presidente que luta contra ‘satanás’”, diz Denicoli.

Já o surgimento dos termos como “Abraão”, “Gênesis” e “Jacó” são reflexos da aproximação do presidente com Israel e sua viagem ao País. “É no livro de Gênesis que esta a base bíblica que sustenta o apoio dos evangélicos a Israel”, comenta Denicoli.

André Borges
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Com menos de cinco meses de governo, a era Bolsonaro estaria no fim?

Em Dallas, Bolsonaro em imagem simbólica: com poucos aliados, metade deles não visíveis e sob
foto de Willie Nelson, ídolo musical americano que foi defensor da causa LGBT, da legalização da
maconha e neto de índia
“O governo passa por uma corrosão acelerada da base eleitoral e social, do apoio dos partidos e das forças políticas institucionais, e também do mercado. Sem os partidos e sem o mercado vai ser difícil construir governabilidade.” A opinião é de William Nozaki, professor de ciência política e economia da Fundação Escola de Sociologia e política de São Paulo (FespSP). Esse cenário, que abriu o debate para um possível impeachment do presidente, não é simples, mas não teria sido construído sem a colaboração do próprio governo Jair Bolsonaro.

No final da semana passada, o presidente fez a enigmática previsão de que um tsunami chegaria, mas que seu governo venceria “o obstáculo com toda certeza”. Nos dias seguintes, Bolsonaro se tornou uma ilha e o tsunami veio de todos os lados. A começar do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que declarou na terça-feira (14) a investidores, em Nova York, que a aprovação da reforma da Previdência não é suficiente para o país crescer. Disse também que o chamado “teto de gastos” (da Emenda Constitucional 95) poderia levar o país ao “colapso social”.

Na quarta-feira (15), cerca de 2 milhões de pessoas protestaram em todo o país contra os ataques à educação e às universidades. Isolado, no mesmo dia Bolsonaro estava em Dallas, no Texas. Mesmo longe do país, conseguiu alimentar a onda de protestos ao chamar os manifestantes de “idiotas úteis” e agredir uma jornalista verbalmente.

De Dallas veio a foto que simbolizou a semana do tsunami: Bolsonaro numa lanchonete junto com Hélio Negão e o general Augusto Heleno (atrás de Negão). Acima deles, uma enorme foto do cantor e compositor Willie Nelson, defensor da causa LGBT, neto de uma índia cherokee e defensor da legalização da maconha.

Editoriais da imprensa tradicional nos últimos dias têm sido duros com o presidente. “O obscurantismo agressivo do governo Jair Bolsonaro (PSL) converteu o crucial debate sobre o financiamento do ensino superior público, já tardio no país, em um confronto de bandeiras ideológicas”, publicou, por exemplo, a Folha de S. Paulo.

Finalmente, nesta sexta-feira (17), o presidente da República divulgou texto de um suposto “autor desconhecido” que lembra o episódio da renúncia de Jânio Quadros, em 1961.

No mesmo dia, em debate com o ministro Paulo Guedes no Rio de Janeiro, Rodrigo Maia voltou ao palco, defendendo políticas que gerem emprego. “Nós estamos caminhando para o aumento do desemprego, para o aumento da pobreza e no final do ano voltamos a ter fome no país”, disse o deputado.

Diante do cenário, muitas pessoas se perguntam: com menos de cinco meses de governo, sem capacidade de articulação no Congresso e talvez incapaz de fazer as reformas prometidas ao mercado, a era Bolsonaro estaria no fim?

Para Nozaki, ainda não é possível prever um desfecho porque “o jogo está sendo jogado”, mas a situação ficou muito mais difícil para Bolsonaro esta semana, devido a uma conjunção de fatores.

No último mês ficou claro que há duas lógicas contraditórias no interior do governo, que até aqui estavam coesas: “de um lado, as demandas por reformas oriundas das alas financista e lavajatista, que exigem articulações institucionais e parlamentares, e que precisam de emendas constitucionais ou projetos de lei, ou seja, da relação entre Executivo e Legislativo. De outro lado, a agenda dos bolsonaristas e olavistas, com uma disputa ideológica sistemática que exige um governo por medidas provisórias e decretos”.

Segundo Nozaki, no ciclo da Nova República como um todo, o governo Bolsonaro é o que mais editou medidas provisórias por dia e o que mais emitiu decretos nos três primeiros meses de mandato. Foram mais de 80 decretos e uma medida provisória a cada 7,4 dias. A título de comparação, Dilma Rousseff, no começo do primeiro mandato, valeu-se de cerca de 34 decretos.

Politicamente, o governo “arbitrou” esse conflito em favor da ala bolsonarista e olavista, na avaliação do professor. Exemplos disso foram os repentes autoritários de Bolsonaro, o comportamento de seus ministros ao participar das sabatinas no Congresso ou as discussões entre os generais (Santos Cruz e Mourão) e Olavo de Carvalho.

“Todos esses elementos somados revelam que o governo é incapaz de gerir crises e, além disso, tem alta capacidade de aprofundar as crises que ele mesmo gera. Isso provocou uma reação por parte das forças institucionais que agora colocam o governo contra a parede, junto com o mercado, abrindo a possibilidade de ele ser inviabilizado.”

Tudo isso sem falar das acusações contra Flávio Bolsonaro e a explicitação de suas relações mais íntimas com as milícias, lembra Nozaki. O que se soma à parcela da sociedade organizada em torno do movimento nacional contra o desmonte da educação, e a uma parcela não organizada cada vez mais insatisfeita por conta das revelações feitas sobre a família Bolsonaro.

Impeachment?

Na opinião de Nozaki, embora o jogo esteja “sendo jogado”, não está claro que caminho o governo vai tomar diante da instabilidade. “Mas o conjunto das forças políticas e econômicas tem essa opção (o impeachment) posta no tabuleiro como uma das possíveis.”

O mercado, o centrão e as forças institucionais podem ter concluído que a instabilidade permanente provocada pelo bolsonarismo pode inviabilizar até mesmo a reforma da Previdência. Não há como Bolsonaro obter os 3/5 dos votos na Câmara.

Para Oswaldo Amaral, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), não se pode dizer no momento que o governo Bolsonaro está no fim. Mas é evidente que sua agenda vai fracassar se ele não souber negociar com o Congresso.

O impeachment ainda não é visível no horizonte de Bolsonaro, na opinião do professor da Unicamp. “O governo vai durar até o momento em que os vários agentes políticos e econômicos perceberem que ele não vai mudar de comportamento, e então vão pensar numa alternativa. Acho que esse momento não chegou e que o mercado ainda acredita numa composição com o Rodrigo Maia e o centrão, para aprovar a reforma da Previdência.”

A adesão do centrão dependeria de o governo saber negociar politicamente, o que até agora o Planalto e seus líderes demonstraram não entender como se faz.

Eduardo Maretti
No RBA
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Manifestação a favor do governo deve ser ‘tiro no pé’, diz professor

"Messianismo evangélico" pode ainda agravar relação de Bolsonaro com militares
Acuado com o escândalo de corrupção que atinge um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), sem o mínimo de articulação com os partidos no Congresso Nacional e tendo enfrentado as maiores manifestações até agora contra o seu governo – os protestos em defesa da Educação – , o presidente, Jair Bolsonaro (PSL), recorre a um roteiro batido, com final já conhecido. Ainda na sexta-feira (18), divulgou um texto que faz alusão a “forças ocultas” de um “Brasil ingovernável”, remetendo à famosa carta renúncia do ex-presidente Jânio Quadros. No final de semana, convocou seus apoiadores a saírem às ruas no próximo domingo (26) em apoio a propostas do governo, como a “reforma” da Previdência.

O risco, segundo o cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) Paulo Niccoli Ramirez, é a maioria da população se voltar contra e transformando a data em mais um protesto contra o governo. A situação remete a Fernando Collor quando, em 1992, o então presidente, também acuado por uma forte crise econômica e escândalos de corrupção, sugeriu que a população saísse às ruas com as cores da bandeira. Em vez disso, as pessoas escolheram o preto para manifestar a generalizada insatisfação.

O “tiro no pé” não é um alerta apenas do professor, entrevistado da Rádio Brasil Atual nesta segunda-feira (20). Integrantes do próprio PSL, como a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL), e grupos de extrema-direita que trabalharam pela eleição de Bolsonaro e sempre se mostraram simpáticos ao governo, como o MBL,  também criticaram a convocatória do presidente.

Outra “trapalhada” do governo, também no fim de semana, foi a hashtag #BoldonaroNossoPresidente, com o erro de grafia denotando o uso de “robôs” para fazer aparecer o termo no topo das expressões mais utilizadas no Twitter. Se não bastasse, outro filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), ao participar de um game num programa da Rede TV, pronunciou, por duas vezes, o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “dica” para uma outra participante da brincadeira associar à  palavra “livre”.

A última iniciativa de Bolsonaro, que postou vídeo de um pastor congolês que o intitula como “enviado de Deus” também não ajuda, segundo Ramirez. Ele diz que o messianismo evangélico pode estimular ainda mais atritos com os militares do governo, de tradição positivista, que preza pela rígida separação entre Igreja e Estado.

Para o professor da Fespsp, com todas essas ações que apontam para uma total falta de inabilidade política, Bolsonaro perde peças a cada rodada política. O principal erro foi ter chamado os professores e estudantes de “idiotas úteis“. “Quando um governo ataca seu povo, a tendência é que seu povo ataque também”, diz o professor, que afirma que Bolsonaro, com a sua falta de habilidade política, “perde peças” a cada rodada do xadrez da política.

O presidente ainda reiterou a declaração, voltando a se referir aos manifestante, no fim de semana, como “este movimento do pessoalzinho aí que eu cortei verba”. Bolsonaro ainda foi alvo, no último domingo, de editoriais negativos dos três principais jornais impressos do país – Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo.

Segundo Ramirez, a tendência é que Bolsonaro renuncie ou busque uma guinada mais autoritária para o seu governo. Para a primeira hipótese, que em caso de renúncia ou impeachment nos dois primeiros anos de mandato, a Constituição prevê a convocação de novas eleições. Já para efetivar o plano autoritário, Bolsonaro precisaria ainda mais do apoio dos militares e setores da população, o que também não parece o caso. Voltando à metáfora do xadrez político, ele chama o presidente de um “rei messiânico” que está encurralado por boa parte da sociedade. “A questão agora é aguardar o xeque-mate.”

Ouça a entrevista na íntegra:



No RBA
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O ministro da Economia de um governo tão insano quanto ele

Só agora vi o vídeo do Paulo Guedes no Texas dizendo que vai vender todo o Brasil. É espantoso o tom debochado, leviano, com que ele fala. Ele parece um adolescente exibindo suas façanhas para os amigos. Ou então uma criança que alinhou todos os seus bonecos e está jogando uma bola de boliche sobre eles, brincando de apocalipse.

Mas ele é o ministro da Economia de um governo tão insano quanto ele e a brincadeira é destruir o futuro de um país e condenar seu povo à miséria e à submissão.



Luís Felipe Miguel
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Bolsonarismo apela ao gado


As hordas do PSL estão mobilizando os robôs de internet para criar, em 26 de maio, um ambiente de ódio e mentiras capaz de, outra vez, levar às ruas a mesma gente verde e amarela que destruiu o País.

Como Collor, Bolsonaro tenta passionalizar a política com esse apelo sujo ao emocional do lumpesinato que o elegeu, justo quando o abismo se aproxima.

São outras as circunstâncias, porém.

Collor era um desvairado, um rei louco que vivia atormentado por delírios de grandeza, mas tinha de berço instrumentos básicos de sobrevivência intelectual.

Bozo é um idiota patológico, um demente com sérias restrições mentais que fazem dele motivo de riso e pavor. Um Calígula com pitadas de Nero cercado de três Incitatus a regurgitar, dia e noite, absurdos nas redes sociais.

Em comum a ambos, a negação da política e a impostura de salvador da Pátria.

A História se repetindo como tragédia.

Leandro Fortes, jornalista
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Capitalização: donos de fundos lucram 100% e repassam apenas 2% a aposentados no Chile


“São cifras siderais de uma indústria imoral que se beneficia com as poupanças dos idosos”, diz sindicalista

Somente nos três primeiros meses do ano, as Administradoras de Fundos de Pensão (AFP), que controlam o sistema de capitalização chileno, lucraram US$ 196 milhões, um aumento de 100,1% (cem vírgula um por cento!) em relação ao mesmo período de 2018, com ganhos diários de US$ 2,17 milhões.

No ano passado, este mesmo cancro especulativo repassou tão somente 2% como “rentabilidade” às aposentadorias dos trabalhadores, pagando benefícios 80% inferiores ao salário mínimo, 44% abaixo da linha da pobreza.

Ao mesmo tempo em que as AFP multiplicaram seus lucros, advertiu o economista Marco Kremerman, representante da Fundação Sol, 50% dos aposentados que ingressaram no sistema em março estão recebendo benefícios inferiores a US$ 66,00. Isso tudo, vale lembrar, num país em que pipocam os casos de suicídio de idosos, que passam a ganhar espaço mesmo na mídia conservadora, e onde o número de anciãos morando nas ruas cresce a olhos vistos.

Conforme estudo da prestigiada Fundação, o lucro da gigantesca estadunidense AFP Habitat variou 68,1%, obtendo US$ 55 milhões no trimestre, o equivalente a US$ 602,5 mil diários, enquanto a também norte-americana ProVida (MetLife), alcançou 234,1%, com ganhos de US$ 45,2 milhões, US$ 502 mil diários. O percentual da italiana Plan Vital foi ainda mais obsceno: 802,5%, abocanhando US$ 13,9 milhões de lucro, US$ 150,27 mil diários.

As fórmulas utilizadas pelas AFP contra as vítimas do seu mercado cativo foram elaboradas pelos Chicago boys após o assalto ao Palácio de la Moneda pelo genocida Augusto Pinochet, com a derrubada do presidente Allende, e vitaminadas pelos sucessivos governos neoliberais. O poder econômico conferido pela privatização do sistema previdenciário lhes rendeu cadeira cativa na sala do poder político. Com a certeza de estarem blindadas pela lógica da “socialização dos lucros e privatização dos prejuízos”, sob o manto da impunidade, se lançaram aos mais descabidos desvarios. E crimes.

“Para capturar este montante absurdo de recursos, que é totalmente questionável, a Plan Vital, que cobrava uma comissão de 0,44% dos trabalhadores que ingressavam no mercado de trabalho, multiplicou da noite para o dia esta comissão duas vezes e meia, subindo para 1,16%. São cifras siderais de uma indústria imoral que se beneficia com as poupanças dos nossos idosos”, sintetizou o coordenador do movimento Não Mais AFP (No+AFP), Luis Mesina.


Montanha de dólares

“Vale destacar que, atualmente, as AFP estão administrando cerca de US$ 220 bilhões, o equivalente a 75% do Produto Interno Bruto (PIB) do país”, assinalou Marco Kremerman. Manejando o grosso desta montanha de dólares, as três principais AFP são estadunidenses: Habitat, US$ 57,7 bilhões; Provida, US$ 53 bilhões; e Cuprum, US$ 41,1 bilhões. A seguir vem a Capital, com US$ 40,6 bilhões, e a Plan Vital, com US$ 7,2 bilhões. Única chilena, a Modelo administra US$ 10,6 bilhões.

Reduzindo os benefícios a tão somente 30% do último salário dos homens e 25% do das mulheres, o sistema de capitalização chileno, que o ministro Paulo Guedes quer a todo custo implantar no Brasil, equivale a um jogo de cartas marcadas, para deleite das grandes companhias especuladoras, fundamentalmente estrangeiras.

Na avaliação de Marco Kremerman, “os números da concentração e da desigualdade falam por si e demonstram que a capitalização e o seu sistema de contas individuais é inviável e fracassou socialmente”. “A quantidade de pessoas que não conseguem quitar suas dívidas é extremamente alta na terceira idade fazendo com que muitos aposentados, por conta dos baixos benefícios, precisem continuar trabalhando”, acrescentou.

“Neste momento, o Congresso está discutindo um projeto de reforma previdenciária proposto pelo governo de Sebastián Piñera, que é totalmente contrário ao nosso, pois busca manter um negócio espúrio, transferindo ainda mais recursos, cerca de 40%, para estes fundos especulativos. Portanto, é nossa obrigação exigir dos deputados rechaçar qualquer tentativa de prosseguir neste descaminho”, frisou Luis Mesina. De acordo com o dirigente, “acabar com as AFP é possível e, para isso, é necessário pressionar os parlamentares que votam permanentemente a serviço das grandes corporações para que fiquem ao lado das grandes maiorias e não se submetam à chantagem do governo”.

Leonardo Wexell Severo
No Diálogos do Sul
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A opção Mourão: Kant contra Bolsonaro

Foto: Alessandro Dantas
O velho Kant não deixaria por menos se escrevesse sobre o Presidente Bolsonaro. Usaria certamente a sua definição da “Crítica da Razão Prática” de “fanatismo moral”, para caracterizá-lo como pessoa que pensa estar fazendo o bem, “por inspiração, por entusiasmo, por um impulso que naturalmente satisfaça sua própria natureza”, que tem o direito de “substituir a virtude, que é a intenção moral em luta” (…) pela “santidade, de quem se crê possuído pela pureza perfeita das intenções da vontade”. O fanático moral se imagina um santo e portanto se julga um ser superior que pode celebrar a tortura, adorar a morte e chamar de idiotas àqueles que a ele se opõem dentro do rito democrático.

O Presidente vai, cada vez mais, para o isolamento e não se corrige. Porque a sua inspiração e entusiasmo ao que tudo indica não conseguem adquirir racionalidade política. A esfera das políticas de estado na democracia é a esfera dos contratos, das oposições de pensamento, das sínteses superiores para debelar impedimentos: é a esfera da luta e dos consensos, onde os organizações e instituições políticas e as pessoas, perseguem objetivos pautados por determinados princípios. Quem escolhe declinar de demonstrar escolhendo se apresentar – sem demonstração possível – como santidade e pureza, foge dos caminhos da razão e pode chegar (ou já chegou) à loucura.

O que espanta foi a escolha irracional, seguindo a trilha da autoflagelação, que as classes dominantes fizeram açoitadas pela mídia oligopólica, ao tentar promover seus interesses “reformistas”, imaginando que Bolsonaro – sempre transtornado e alheio a qualquer formulação política coerente – pudesse resultar em algo positivo para os seus negócios. Somente pessoas com graves limitações de cognição política poderiam pensar que o atual Presidente poderia unir e melhorar o país, para termos um pouco do reconhecimento global que recuperasse algo do prestígio que Lula nos legou.

A opção Mourão começa a se apresentar como factível no cenário político, e não é uma invenção da oposição. O Vice-Presidente tem feito seguidas manifestações de sensatez mínima para se opor a Bolsonaro, porque a doutrina da Escola Superior de Guerra – que ele certamente aprendeu – valoriza extremamente a “paz social”, seja ela obtida de forma autoritária, seja ela conseguida pelas vias democráticas. No presente, Bolsonaro tanto é uma má possibilidade de obtê-la de forma autoritária, como o é pelo consenso mínimo que uma democracia com líderes respeitados pode construir.

O Presidente disse, no seu país preferido, que a imprensa brasileira é um ninho de esquerdistas e os seus milicianos virtuais ou reais apontam a Rede Globo como comunista. Talvez isso possa inocular neste pessoal um pouco de senso prático kantiano pelo menos, e eles comecem – como alguns jornalistas já começaram – a se dar conta que se o insano chegar ao poder absoluto eles vão conosco para as trevas da violência sem limites, onde a tortura e a morte não são apenas bravatas de fanáticos.

Se me perguntassem num processo eleitoral em quem eu votaria se a opção fosse Bolsonaro e Mourão eu diria que em nenhum dos dois. Não votaria no primeiro por razões de sanidade mental, aliadas a outras razões políticas de princípio, vinculadas à questão democrática. E não votaria em Mourão, por motivos vinculados à questão democrática e às reformas que ele apoia. No concreto, todavia, poderá se configurar nos próximos meses uma nova linha divisória na nova política do país pós-golpe: você apoiaria uma solução ou o “impeachment” de um insano, em favor de um outro que não é? É bom ir pensando sobre isso.

Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, Prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.
No Sul21
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Superávit de R$ 1 tri não impediu que dívida crescesse 46 vezes

Maria Lúcia Fattorelli
Desde 1995 o Brasil gerou R$ 1 trilhão em superávit primário. Apesar disso, a dívida interna subiu de R$ 86 bilhões para quase R$ 4 trilhões, denuncia a coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, Maria Lucia Fattorelli.

A atual crise, segundo Fattorelli, foi fabricada pelo custo da política monetária. Para ela, a economia de R$ 1 trilhão pretendida pela reforma da Previdência é apenas um valor que deixará de ser pago em aposentadorias, a maior parte (cerca de R$ 870 bilhões) do regime geral da Previdência, no qual 9 entre 10 aposentados recebem até dois salários mínimos.

“Essa reforma não é para combater privilégios; R$ 870 bilhões vão sair dos mais pobres, do Regime Geral da Previdência. Os outros 20% que se pretende economizar vão sair de servidores públicos porque ele pretende aumentar a alíquota”, alertou, segundo a Agência Câmara.

A coordenadora participou de audiência pública nesta semana na Comissão de Seguridade Social. A reforma da Previdência, alerta Fattorelli, foi proposta para resolver uma falsa crise provocada pelo Banco Central, que realiza elevadas despesas com juros. Ela acrescentou que, ao tirar R$ 1 trilhão da economia, o governo vai aprofundar a crise.

Também na Câmara, o técnico de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) José Celso Júnior afirmou que a proposta de reforma do governo foi feita em bases conceituais equivocadas. “A aprovação dessa reforma gera não só um aumento desmesurado da desproteção social, uma catástrofe humana em potencial, como ela joga a economia brasileira numa trajetória de longo prazo de estagnação”, criticou.

Segundo ele, o governo passa a impressão equivocada que, aprovada a reforma da previdência, vai se acordar “a fada da confiança do mercado” e tudo vai ser resolvido. Celso Júnior também criticou os “objetivos ocultos” do governo com a reforma como retardar o acesso à aposentadoria e demais direitos previdenciários e reduzir o valor e a duração dos benefícios.

No DCM
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Bolsonaro no centro de tsunamis e Mourão à espreita


No dia 10 de maio, dispondo de informações privilegiadas, Bolsonaro prenunciou: “Talvez tenha um tsunami na semana que vem. Mas a gente vence esse obstáculo aí, com toda a certeza, porque somos humanos”.

Ficou implícito que o tsunami estava relacionado à confirmação do esquema multi-criminoso do filho Flávio, como se depreende da declaração enigmática: “Alguns erram. Uns erros são perdoáveis, outros não. Assim é na nossa vida familiar também”.

A tormenta se confirmou na segunda-feira, 13 de maio, com a notícia da autorização judicial para a devassa fiscal e bancária do filho Flávio, do seu comparsa Queiroz e de quase uma centena de pessoas contratadas pelos gabinetes parlamentares da FaMilícia, inclusive do Jair, no longo período de janeiro de 2007 a dezembro de 2018.

Até então, Deltan Dallagnol bem que tentara, por todas as maneiras, abafar e evitar a apuração do esquema criminoso do Flávio, poupando-o da operação Furna da Onça, que levou à cadeia colegas do Flávio e do Queiroz [ler aqui]. O MP e o judiciário do RJ, porém, furaram a blindagem da turma do Deltan Dallagnol ao filho presidencial.

As apurações já divulgadas revelam uma coleção nada desprezível de crimes praticados: organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, desvio de dinheiro público, corrupção, negócios fraudulentos e enriquecimento ilícito.

De largada, as apurações ligam Bolsonaro e a primeira-dama ao esquema. Em seguida, mostrarão com clareza a conexão dos Bolsonaro com o submundo das milícias do Rio, em particular com o Escritório do Crime, o bando de assassinos de aluguel chefiado pelo foragido Adriano da Nóbrega e cuja esposa e mãe trabalharam durante anos no gabinete de Flávio.

Este escândalo, sozinho, tem o poder de derrubar Bolsonaro; é altamente devastador. Tanto que Carlos Bolsonaro, num raro instante de realismo e de uso correto da língua portuguesa, reconheceu num tweet que “o que está por vir pode derrubar o capitão.

A crise que Bolsonaro enfrenta, contudo, é tão mais séria e grave que esta podridão toda, porque o presidente está no centro de uma conjunção de tsunamis ameaçadores.

O protesto multitudinário pela educação que tomou o Brasil no 15 de maio, catalisou a insatisfação generalizada da população com o governo. Além disso, representa o marco do início da contraofensiva popular contra a política austericida e racista de destruição dos direitos sociais, da soberania nacional e das riquezas do país [ler aqui].

Ao mesmo tempo, é perceptível o aumento da decepção, do desencanto e do arrependimento de eleitores do Bolsonaro [que não são, automaticamente, bolsonaristas]. Eles perceberam, nestes 5 meses de desatinos e loucuras governamentais, o terrível engano cometido.

Por outro lado, a economia em profunda recessão se encaminha para a estagnação e, como desdobramento, causará um nível assombroso de desemprego – que será exponenciado pela ausência de estímulos estatais ao crescimento e ao desenvolvimento.

A pauta monotemática da contrarreforma previdenciária desnudou o compromisso exclusivo com o rentismo, com os bancos e com a orgia financeira em prejuízo da economia nacional e da geração de emprego e renda. Aliás, desde a eleição, passando pela transição e durante todo este breve e desastroso período de governo, a palavra emprego raramente foi proferida.

Analistas avaliam que não somente o ano de 2019, mas também 2020 está perdido, em decorrência da continuidade do receituário ultraliberal imposto ao país desde o golpe de 2016.

No plano internacional, Bolsonaro é desprezado e tratado como uma aberração [ler aqui]. O reacionarismo extremado, o obscurantismo acerca das questões ambientais, climáticas e indígenas, ao lado da total subserviência a Trump, afastam o Brasil das oportunidades para sua reconstrução no contexto de uma inserção internacional ativa e altiva.

Os segmentos de centro-direita e de direita do espectro ideológico, que teoricamente apoiariam Bolsonaro, acompanham com cada vez mais estupefação e cada vez menos paciência o descalabro do governo e, sobretudo, os delírios do próprio presidente.

Caso os caminhoneiros confirmem a paralisação prometida para este mês de maio, o cenário será de caos e ingovernabilidade, com riscos notórios para a já débil autoridade de Bolsonaro, que poderá ser derrubado num processo de impeachment ou de renúncia estimulado pelos militares.

O trágico é que o desdobramento do impeachment ou da renúncia, ou seja, a assunção do general Mourão como presidente “legítimo”, não trará nada de positivo ao povo brasileiro.

Mourão empresta ao regime de exceção a racionalidade que Bolsonaro jamais conseguirá ter. Sob sua eventual presidência, portanto, se observará a aceleração da barbárie prescrita fora do país e à qual os vassalos do império – tanto civis como militares – se dedicam com fidelidade canina.

Jeferson Miola
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Jair Messias Bolsonaro: “O Eleito de Deus”


Constantino Magno foi o primeiro potentado que atribuiu seu triunfo ao Deus cristão. Com efeito, no dia em que ele enfrentou o imperador usurpador Magêncio, na Batalha da Ponte Mílvia, em 312, mandara pintar, ao amanhecer, uma cruz sobre os escudos de seus soldados depois de ter sonhado durante a noite ter visto uma cruz com a inscrição “In hoc signos vences”. A partir disso, o cristianismo se tornou religião oficial do Império e, ao longo dos tempos, imperadores, reis e governantes não se cansaram de massacrar povos, cometer atrocidades, escravizar e regar a terra com rios de sangue em nome de Deus e de Cristo Jesus, pois seriam escolhidos por Eles.

No início da Era Moderna, provavelmente o mais famoso “eleito de Deus” foi Oliver Cromwell, líder da Revolução Inglesa, tão bem retratado pelo historiador Christopher Hill. Chefe da primeira revolução burguesa moderna, Cromwell foi capaz de grandes feitos militares e políticos e de grandes vilanias. Regicida, em 1649 mandou executar Carlos I “com a coroa na cabeça”. Morto em 1658, e com a restauração monárquica em 1661, teve seu corpo desenterrado, exumado e enforcado em praça pública.

Ele mesmo, Oliver Cromwell, considerava-se um predestinado, um eleito de Deus, e se definia como um Moisés dos puritanos. Teria a missão de liderar os povos do mundo sob a bandeira inglesa. Baluarte da defesa das liberdades individuais, foi amado e odiado pelas multidões. Lançou os alicerces do império britânico, mas sob seu governo a Inglaterra fez as guerras coloniais, construiu o monopólio do tráfico de escravos, saqueou a Índia, oprimiu a Irlanda, tudo isso para tornar-se um império mundial. Por qual razão Deus teria escolhido Oliver e a Inglaterra para derramar tanto sangue e cometer tantas atrocidades tendo como contrapartida tantos sofrimentos e mortes de pessoas de outros povos? A presunção dos “eleitos de Deus” tem o tamanho de seus crimes.

Jair Messias Bolsonaro vinha se apresentando e era apresentado, principalmente por pastores neopentecostais, como um “eleito de Deus” ainda durante a campanha eleitoral. É possível encontrar vídeos de pregadores da Congregação Cristã, postados antes das eleições, anunciando que Bolsonaro era escolhido por Deus. Logo depois das eleições, o próprio Bolsonaro e vários pastores, dentre eles Silas Malafaia, anunciaram que sua vitória foi manifestação da vontade de Deus. Esse mesmo Deus impediu que Bolsonaro perecesse ao receber a facada. Antes mesmo de receber a facada, em agosto de 2018, Messias anunciou numa sabatina da GloboNews: “Estou cumprindo uma missão de Deus”. Em janeiro de 2019, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes Freitas, também anunciou que “Bolsonaro é um escolhido de Deus”. E, finalmente, agora, Bolsonaro posta um vídeo de um pastor desconhecido, gravado há um mês, anunciando que ele “é um eleito de Deus”, o líder de uma grande revolução, de uma grande transformação, um liberador de povos comparável a Ciro o Grande, fundador do Império Persa. Esse pastor não terá o perdão de Deus e nem do espírito de Ciro por tamanho despropósito.

Com essas atitudes e presunções fantasiosas, a situação do Brasil torna-se ridícula e desesperadora, risível e assustadora, ao mesmo tempo. Bolsonaro, junto com seus devotos, parece oscilar entre a insanidade e o messianismo. Ou melhor: quanto mais se torna evidente o seu desgoverno, quanto mais o Brasil caminha para o abismo, quanto mais a economia trava, quanto mais o desemprego cresce, mais Bolsonaro é possuído por um messianismo insano.

Os “eleitos de Deus” do passado, de alguma forma ou de outra, foram líderes fortes e audazes. Foram capazes de grandes feitos e de grandes crimes. Construíram a grandeza de seu poder e de seus Estados e promoveram tragédias sangrentas contra parte de seu povo e de outros povos. Bolsonaro não é capaz de nada disso porque é um incapaz como líder e como político. Dissipou quase 30 anos no Congresso sem ter feito nada de significativo. Como militar, não foi um grande general, não comandou exércitos, não venceu uma guerra. Chegou apenas a capitão e quase foi expulso do Exército por atos de indisciplina e deslealdade. Como esperar ou acreditar que uma pessoa com este histórico e este perfil poderia ser um grande líder, um grande presidente? O que fez de mal o povo brasileiro, sempre explorado e oprimido, para merecer tal presidente? Ou será que Deus deu ao povo brasileiro este presidente para que ele acorde de seu sono eterno e faça a sua revolução?

De acordo com os evangelhos “os eleitos de Deus” são aquelas pessoas escolhidas por Ele para cumprir os propósitos divinos. São pessoas predestinadas para, através de suas obras, realizarem os planos do Senhor. Se Bolsonaro é o “eleito de Deus” então isto significa que Deus quer a destruição do Brasil, a destruição da economia, dos direitos, dos empregos, do meio ambiente, da cultura, da educação, do ensino, da pesquisa, das universidades e da civilidade. Significa que Deus quer a desmoralização do Brasil no mundo por ter um presidente desprezado e rejeitado por todos.

O grave de tudo isto é que muitos pastores enganam os seus fiéis fazendo-os crer na insanidade de que Bolsonaro é um “eleito de Deus”. Esta mistificação conservadora e enganadora, patrocinada por muitos pastores e igrejas neopentecostais, precisa ser enfrentada, desmascarada e desnudada. O grande mal contra as liberdades, o mal da enganação, está infiltrado em muitas igrejas e na boca de muitos pastores, padres e bispos. Combater esses enganadores, estes vendilhões do Templo, não significa combater a religião e a fé das pessoas. A liberdade religiosa é um pilar da democracia. Mas a mistificação e a enganação não é liberdade religiosa. É destruição da democracia. É exploração despudorada de fiéis pobres que vão à busca de uma esperança, de um apoio, de um conforto no mundo para suas almas angustiadas. Ao mesmo tempo em que se combate os mistificadores da fé é preciso dialogar com os pastores e as igrejas sérios, que fazem um trabalho honesto em benefício do povo. É preciso organizar as periferias, fazer política nas periferias, buscar saídas concretas para aqueles abandonos e abandonados.

A prudência recomenda que se desconfie sempre daqueles que dizem agir com mandato divino, que se anunciam “eleitos de Deus”. Veja-se o caso de João, que se dizia João de Deus. Um grande pecador, um predador sexual, um covarde despudorado que provocou a infelicidade e a dor de centenas de mulheres.

Aqueles que misturam fé e política devem ser colocados sob suspeita. Maquiavel, secundado por Max Weber, recomendava que aqueles que querem salvar almas se afastem da política. A política é o lugar da perdição das almas.  A política, geralmente, conduz ao reino do pecado, do demônio, e, em última instância, da violência, da violação dos mandamentos. O mais provável é que os arautos de Deus na política sejam lobos em pele de cordeiros, sejam obradores do demônio.

A política deve ser o lugar do laicismo, da civilização terrena, da humanização dos seres humanos e da conquista liberdade. Deve ser o lugar da imaginação e da esperança. Deve ser o lugar dos direitos, da justiça e da igualdade. Nenhuma religião, nenhum pregador e nenhum “eleito de Deus” tem o direito de revogar o sagrado conteúdo laico, profano e pagão da política. Por isso, Bolsonaro, com seu séquito de enlouquecidos, precisa ser exorcizado, combatido e barrado no seu messianismo demencial dos que não conseguem governar e não conseguem produzir o bem-estar para o povo. O povo organizado e mobilizado, nas ruas, deve construir os diques de contenção para impedir que a fúria destruidora de um governo sem propósitos devaste as poucas conquistas civilizatórias do Brasil.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).
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Bolsonaro encheu-se do vazio


Poucas vezes na história um presidente foi eleito com tantas possibilidade políticas como as que se abriram para Jair Bolsonaro.

A maioria eleitoral foi expressiva, os grandes partidos – em geral – aniquilados, o seu próprio partido, neófito, podendo ser moldado à sua imagem e semelhança e o país, arruinado pelos anos de crise, ansioso por medidas econômicas que, ainda que duras, pudessem restabelecer um mínimo de dinamismo para a vida brasileira.

O presidente tomou posse e, em menos de cinco meses, malbaratou este potencial político. Está reduzido a nada e vai, esta semana, submeter-se à vergonha de implorar para manter seu “enxugamento” do  Ministério, para que não se recriem cargos que, paradoxalmente, ninguém com importância política quer.

Reage com a ameaça de sublevação de suas falanges, na qual ninguém – nem os seus – acredita e fogem, apelando por pedidos de moderação impossíveis, dada a naturezsa de odio e fascismo em que estão mergulhados seus remanescentes bolsões.

Até seu “Posto Ipiranga” e seu “Lava Jato” se apavoram com o estado de “boneco de posto” a que chegou o presidente, como capta hoje, na Folha, num resumo impiedoso, o cartunista João Montanaro.

Jair Bolsonaro decaiu de esperança de mudança para a insignificância e, agora, vai atravessando a solitária estrada que leva à rejeiçao e à repulsa populares.

Com seu espalhafato oco, não conseguiu atrair ninguém, muito embora Congresso, Justiça, militares e sociedade estivessem num estado de excitação autoritária em que talvez jamais tenham estado nas últimas décadas.

Agita-se, empurrado pelo vento das redes sociais, mas só consegue afigurar-se patético, desesperado, inacreditável.

Deixaram-no só.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A grande mentira da vitimização dos neofascistas

A pequena república da Áustria está em polvorosa. Uma gravação de vídeo pôs a nu intenções rasteiras da cúpula do FPÖ – o Freiheitliche Partei Österreichs (trad. “Partido Liberal da Áustria”), que, apesar de carregar o adjetivo “liberal” no nome, não passa de um ninho de nazistas saudosistas – de vender ativos estratégicos da economia do país a oligarcas russos, em troca de apoio financeiro e eleitoral. A interceptação conspirativa teria se dado em julho de 2017, às vésperas das eleições federais austríacas, que levariam o FPÖ ao poder, como parceiro minoritário do governo de coalizão com o conservador ÖVP – Österreichische Volkspartei (trad. “Partido Popular Austríaco”).

Os protagonistas do animado convescote regado a muito álcool e clandestinamente interceptado – ocorrido numa vila de veraneio em Ibiza, alugada a quase mil euros por noite – são o presidente do partido (o estridente Heinz-Christian Strache, hoje vice-premiê na coligação de centro-direita que governa a Áustria), o atual líder da bancada do FPÖ no Conselho Nacional, o parlamento austríaco (o pau-para-toda-obra de Strache, Johann Gudenus, filho de um negador do holocausto condenado) e a suposta sobrinha de um oligarca russo de nacionalidade letã. A bilionária é apresentada a Strache por Gudenus, como quem tencionaria investir no mínimo meio bilhão de euros na economia da república alpina. Para tanto, propõe-se a ajudar o FPÖ em troca de facilidades em contratos públicos.

A conversa gira em torno da lavagem de ajuda financeira por meio de uma entidade de utilidade pública não vinculada ao partido, como forma de desviar das exigências legais de registro de doações partidárias no tribunal de contas e de limitação de doações estrangeiras. Afinal, lembra Gudenus a Strache, o dinheiro não seria de procedência “completamente regular”.

A investidora confidencia que estaria prestes a adquirir metade das cotas do principal periódico austríaco, a Kronen-Zeitung, com conversas já bem avançadas com os herdeiros do fundador do jornal. Sugere-se que a compra poderia acontecer antes das eleições para ajudar o FPÖ na campanha. Strache se entusiasma com a perspectiva de, segundo o próprio, poder fazer 34 porcento dos votos ao invés dos 27 porcento previstos, se contar com ajuda de um diário desse porte. Em compensação, a bilionária poderia dar como certo o controle sobre as concessões de autoestradas, hoje com a concessionária Strabag, controlada por um desafeto do chefe do FPÖ. Segundo Strache, se o FPÖ ganhasse com ajuda da russo-letã, “todos os contratos seriam seus”.

Strache adora se apresentar para o público como o único político limpo, diferente dos demais, um cumpridor das leis, que não se mistura com a lama da política dominante. E, na sua conversa indecente com a bilionária faz questão de dizer que “tudo tem que ser de acordo com a lei”, ainda que proponha negócios francamente escusos e fale em limpar a mídia de jornalistas que se oponham ao FPÖ, tratando a classe como a das “maiores prostitutas do planeta”. Elogia o premiê direitista húngaro, Victor Orbán, que, com apoio de um empresário endinheirado, conseguiu assumir todo controle sobre a imprensa de seu país.

A divulgação do vídeo pela bávara Süddeutsche Zeitung e pela revista alemã Der Spiegel desencadeou uma tormenta na política austríaca, já bastante abalada com a parceria entre conservadores e neonazistas que se intitulam de liberais. O jovem premiê Sebastian Kurz, do ÖVP, foi obrigado, diante da comoção pública, a por fim à coalizão e pedir ao Presidente Alexander van der Bellen a dissolução do parlamento e a convocação de novas eleições.

Strache, aos costumes, pediu desculpas a seu eleitorado pelo passo em falso, mas não mostrou propriamente arrependimento, preferindo atacar forças do establishment que não querem uma nova forma de se fazer política.

O discurso é sempre o mesmo entre direitistas que não se conformam com as regras da democracia verdadeiramente liberal-burguesa.

Chegam ao poder pelas regras dessa democracia, mas a tacham de “injusta” e “desleal” para com sua forma “diferente” de governar. Acusam a democracia e suas instituições de “sabotar” a direita no poder.

Strache não é diferente de Jair Bolsonaro, sempre à espreita de inimigos, ao invés de se colocar argumentativamente contra os que contestam, dentro do jogo democrático, suas ideias e iniciativas simplórias e rasteiras. E nisso ambos têm longa tradição.

Matéria do Der Spiegel lembra hoje da forma de agir dessa direita desde a época da chegada ao poder de Adolf Hitler, em 1933. A comparação com o que acontece no Brasil de hoje é inevitável. Diz-se na revista alemã:

“Strache permanece Strache. Depois de o mundo inteiro poder testemunhar sua tentativa, inspirada no modelo húngaro, de remodelar o panorama da mídia em seu país com investimentos russos, queixa-se – em sua coletiva de imprensa no sábado – duma campanha “jogada a partir do exterior”.

Em completa distorção da situação, trata como escândalo o fato da interceptação clandestina, sem admitir o óbvio: que não teria havido nada para interceptar, se não tivesse formulado tais planos concretos para a transformação da Áustria. A única fonte daquilo que corretamente chama de “lixeira” é ele mesmo. É por isso que nenhum poder no mundo poderia salvá-lo: afundou-se num barco que ele mesmo construiu.

No entanto, toda sua declaração de renúncia foi uma tentativa de dividir a responsabilidade com os outros.

Alguns, como o conselheiro político israelense Tad Silberstein e o satirista alemão Jan Böhmermann, mencionou pelo nome, mas, acima de tudo, entregou-se a insinuações. Apontou para redes e agrupamentos, num tom sinistro, com um horizonte cheio de nuvens cinzentas escuras, em que cada qual da audiência que lhe é simpática pode reconhecer outra coisa.

O poder capaz de mudar – e até de explodir – todas as regras, que tanto fascina a extrema direita, depende de tais projeções. É preciso ser apontado um motivo pelo qual o sistema deve ser derrubado e este é melhor identificado ao atribuir a si o papel da suposta vítima.

Somente quando se puder provar que, na relação com um poder superior hostil, todos os meios anteriores de compromisso e de solução de controvérsias são injustos e ameaçadores, é que se pode criar uma situação de emergência legal capaz de legitimar medidas mais extremas. Dificilmente alguma outra imagem pode mobilizar melhor tais energias e aliviar os escrúpulos que a da ameaça de poderes omnipotentes a agirem clandestinamente.

Após a Primeira Guerra Mundial, essa função foi cumprida pela lenda da adaga nas costas, segundo a qual a Primeira Guerra Mundial teria sido vencida pela Alemanha, se, no foro doméstico, imprensa, os políticos e os judeus não tivessem traído os soldados. Durante décadas, os judeus, comunistas e social-democratas foram, aos olhos da direita, os agentes de uma sempre subestimada ameaça – o que alimentou um ódio irracional a desencadear impiedosamente sua atividade cruel e a praticar os maiores crimes da história da humanidade.

Hoje, os tempos e os movimentos são outros, mas os padrões pelos quais se justificam atitudes radicais permanecem semelhantes. Eles [n.t. – a direita radical] não confiam na troca de razões e argumentos, no discurso público, mas apenas na mecânica do poder. Se você demitir jornalistas críticos, estará livre das críticas nesta visão de mundo mecânica. Eis que a ameaça nunca diminui – a possibilidade que a direita tem, na Europa, de alcançar o sucesso eleitoral e assumir a responsabilidade, de acordo com esta lógica, não é prova da fairness do sistema. Qualquer falha dos planos da direita, como o Brexit, não é prova de sua inadequação. Tudo aponta para poderes superiores e ocultos que exigem resposta adequada. Não se trata de concepção, de propostas políticas e possibilidades, mas de proteção e necessidade…”

Bolsonaro e sua tropa de choque, capitaneada por seus filhos incultos, atrevidos e agressivos, adotam o mesmo padrão. Criam crises para, nelas, se fazerem de vítimas. Tudo – as “corporações”, o “sistema”, permeados do “marxismo cultural” – conspira contra “a nova forma de governar”, contra “o projeto escolhido pelos eleitores”, como se projeto houvesse que “eleitores” pudessem conscientemente escolher.

Ainda antes das eleições e durante a campanha, era a Justiça Eleitoral que não prestava, ao adotar um sistema de votação, a urna eletrônica, talhada para “roubar” a vitória de Bolsonaro. O partido adversário foi demonizado como pervertido, com a mentira da “mamadeira de piroca” e o “kit gay” para as crianças nas escolas. Quando ganharam as eleições, já no governo, se puseram a “despetizá-lo”, mesmo que houvesse dois anos que o governo já não era do PT. A partir daí, não se passou uma semana sem uma declaração polêmica de Bolsonaro ou de seus ministros, a causar rebuliço no espaço político. Tem sido tanto vento na farinha, que não se conseguiu cozer um único pão. O governo da direita tem sido um vazio de ideias e projetos e um ataque permanente a todas as instituições e aos atores públicos, como se nada prestasse e tudo tivesse que ser destruído para levar adiante “uma nova forma de governar”, que ninguém, ao certo, sabe o que é.

Para deixar bem claro, os eleitores de Bolsonaro não votaram em projeto nenhum. Votaram contra “tudo que aí está”, mas não votaram a favor de nada, até porque seu candidato fugiu do debate de ideias como o diabo foge da cruz, com medo, de certo, de ser posta à evidência a grande fraude que era sua candidatura. Não pode, por isso, o Sr. Bolsonaro dizer que faz isso ou aquilo porque “o eleitor” assim escolheu. Ele, o eleitor, não escolheu nada. Apenas repudiou. E não se faz um governo somente com repúdios.

Mas agora que percebe dilapidado todo seu ativo político, com a insatisfação contra seu governo crescendo de semana a semana e sem qualquer apoio sólido no legislativo para dar curso a seus projetos de lei mal elaborados e não negociados com a sociedade, quer dar a entender que é impossível governar com as instituições – chamadas de modo pouco definido de “corporações” – porque todas conspirariam contra seu mandato.

É a ladainha de sempre: incapaz de ver que causou ele mesmo sua vulnerabilidade, Bolsonaro distribui a responsabilidade aos outros, “às corporações” que infestam o estado e “tornam o Brasil disfuncional”. Não há diferença entre o Sr. Strache e o Sr. Bolsonaro, afora que o primeiro foi flagrado com a mão na botija e o segundo talvez ainda espere sê-lo, o que não é difícil, dadas as tortas relações de sua família com o submundo do crime carioca. É só uma questão de tempo. E aí veremos se pedirá para sair, como o Sr. Strache, ou se conclamará sua turba para tentar o golpe no grito e na marra.

Esperemos as cenas dos próximos capítulos.

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça
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