18 de mai. de 2019

Entrevista Especial com Bob Fernandes e José Dirceu


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Pensamento único e destruição do futuro. O papel da mídia nessa coisa toda

Mídia atua em peso para ajudar governo a convencer o povo que sem implodir direitos garantidos pela Previdência, o país irá à falência


Nem nos golpes contra Getúlio Vargas, em 1954, e Jango, em 1964, vimos a mídia tão unida como agora. E desta vez não é para depor um presidente, mas para arruinar um país. Trato da destruição da previdência social, assumida como projeto prioritário do atual governo e encampada sem restrições pelos meios de comunicação.

Chegam a ser constrangedores os raros momentos em que um convidado de um programa de TV foge da linha oficial da emissora. As expressões dos apresentadores beiram o pânico, a contenção imposta ao entrevistado é evidente e seu nome, com toda certeza, retirado da lista da produção. No entanto esses momentos são raros.

A regra é de que todos rezem pela mesma cartilha. O objetivo é inculcar na população a ideia de que sem implodir os direitos dos trabalhadores, garantidos pela atual Previdência, o país irá à falência. O sucesso dessa estratégia pode ser visto em depoimentos de pessoas, futuras vítimas dessa política, defendendo as pretensas “reformas”. Sou testemunha disso.

Se nos chamados programas de debates, que de debates não têm nada, ainda ocorrem descuidos dos produtores, no noticiário a linha oficial é rigorosamente cumprida. Discordâncias podem resultar em demissões. Seria ingênuo admitir a possibilidade de que esses funcionários das emissoras, sem dúvida escolarizados, não conheçam os inúmeros trabalhos existentes mostrando a falácia da tal reforma. Só que uma referência a eles pode representar o fim do emprego. E isso não ocorre só com a TV. Vale para o rádio e para os meios impressos.

Outro exemplo notável do pensamento único veiculado pela mídia brasileira é a cobertura a respeito da situação da Venezuela. Apesar das sucessivas eleições realizadas nos últimos anos, a mídia brasileira decidiu que lá vigora um regime ditatorial e o presidente da República, eleito democraticamente, é chamado de ditador. Inúmeras horas de transmissão de rádio e TV, páginas e mais páginas de jornais e revistas são usadas para desqualificar o governo e exaltar golpistas que surgem periodicamente, impulsionados por interesses externos.

Há casos extravagantes. Correspondentes baseados em Buenos Aires ou Nova York falam sobre acontecimentos ocorridos em Caracas. Revelam muito mais as suas opiniões e as de seus patrões sobre o que ocorre na Venezuela do que informam. Outro dia foi possível saber o que ocorre naquele país, não através desses correspondentes, mas de uma jornalista entrevistada pela FoxNews. Ela surpreendeu o apresentador revelando fatos até então escamoteados pela emissora estadounidense. Vozes como essa passam longe da mídia brasileira.

Apologia ao crime

Mas o pensamento único não se restringe a esses fatos evidentes. Há questões mais sutis como a da violência, tratada hoje como programa de governo. Na mídia ela aparece como algo intrínseco à sociedade brasileira, quase sempre desvinculada de suas causas estruturais, pobreza, abandono, desigualdade. Na televisão assume ares de espetáculo mórbido capaz de alavancar índices elevados de audiência. Explorada por apresentadores histriônicos incentivadores de mais violência. Não por acaso gestos simulando armas na última campanha eleitoral foram recebidos com naturalidade por parcela considerável da população.

A possibilidade aberta pelo governo ao permitir o porte legal de armas para quase 20 milhões de pessoas decorre desse longo processo de embrutecimento da sociedade através da mídia. Não se trata de um fenômeno recente. Nos primórdios da televisão, O Homem do Sapato Branco, interpretado por Jacinto Figueira Junior, já apelava para o grotesco no trato de supostos pequenos contraventores.

Nas últimas décadas esse tipo de programa espalhou-se pelo país alçando ao estrelato figuras como Ratinho ou Wagner Montes. Personagens semelhantes apareceram em inúmeras cidades brasileiras enraizando a ideia de que a violência necessita de valentões para combatê-la e, claro, de muitas armas.

Se dessa forma a apologia ao crime disfarçada de informação já era um incentivo à barbárie, com o aval do governo os limites da decência se ampliaram. A Rede Bandeirantes deixou de lado qualquer prurido de sensatez e colocou no ar um editorial apoiando o decreto que praticamente libera o porte de armas no país. Fez isso com dupla motivação: adular um governo do qual depende financeiramente para sobrevier e fortalecer o uso da violência para defender os seus próprios interesses, especialmente no campo.

Para reverter o embrutecimento existente na sociedade brasileira, gerado pelo secular processo de escravização de pessoas sequestradas na África, seria necessário um longo programa civilizatório de cunho político-cultural. Nesse sentido a Constituição de 1988 foi um alento. Apontava-se para uma sociedade mais justa e humanizada. Indicava-se um futuro um pouco mais promissor que passou a ser sistematicamente destruído a partir do golpe de 2016. Com o apoio aberto e incondicional da mídia unificada.

Laurindo Lalo Leal Filho
No RBA
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O regime híbrido inaugurado pelo golpe tem dificuldade para se sustentar a longo prazo

O que significa o "momento Jânio Quadros" de Jair Bolsonaro?

A divulgação do estapafúrdio manifesto tem como objetivo evidente insuflar a base bolsonarista contra o que possa existir de Estado democrático de direito no país: respeito à lei, independência dos poderes, vigência de direitos.

Mas qual é o objetivo: fortalecer o ex-capitão, mostrando que ele mobiliza uma militância aguerrida grande o suficiente para inviabilizar outro governo, impedindo que a parcela cada vez maior da classe dominante insatisfeita com seu desempenho o apeie do poder? Ou pavimentar o caminho para um golpe pessoal, que lhe permita instaurar uma ditadura aberta e mergulhar o Brasil de vez no desvario?

Há dois fatores que precisam ser lembrados para tentar entender esse movimento de Bolsonaro. Um, evidente, é o caso Queiroz, que avançou com a quebra dos sigilos fiscais e promete logo tornar insustentável não apenas a posição de Flávio, mas de todo o clã.

O outro fator é a massiva mobilização da quarta-feira. Até então, com a oposição desorientada e com baixíssima capacidade de reação, parecia que a política brasileira seria protagonizada por três grupos: o clã Bolsonaro com os olavistas, os generais no governo e o centrão sob a liderança de Rodrigo Maia, guindado ao improvável papel de guardião da república.

O 15M mostra que isso está mudando e que o campo democrático está de novo entrando no jogo. Ao compartilhar o manifesto conspiratório neste momento, Bolsonaro passa o recado de que é necessário fechar o regime para impedir que as forças derrotadas com o golpe de 2016 retornem à cena.

Seja qual for a interpretação, está ficado claro que o regime híbrido inaugurado pelo golpe tem dificuldade para se sustentar a longo prazo. Ou se aprofunda a transição à ditadura ou teremos que reencontrar o caminho da democracia.

Luís Felipe Miguel
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Como impedir que a rede Globo desvirtue novamente a luta popular?

Como o sociólogo Jessé Souza deixa bem claro em seus mais recentes livros, a existência de Bolsonaro como uma figura importante no cenário político nacional é devida em grande medida ao papel desempenhado pela rede Globo e o conjunto da máfia midiática no Brasil.

A rede Globo e o grosso das corporações máfio-midiáticas que a seguem, em seu intuito de extirpar da mente de nosso povo a constatação de que um cidadão de origem muito humilde e um partido surgido das bases trabalhadoras foram capazes de chegar ao governo da nação e realizar um trabalho superior a tudo o que anteriores representantes das elites econômicas e os partidos a elas afinados tinham conseguido fazer até então, dedicaram muito esforço para disseminar uma descrença total em relação com as atividades políticas.

Não era uma tarefa fácil, visto que Lula transferiu a faixa presidencial a sua sucessora gozando da aprovação de mais de 85% da opinião pública nacional. Por isso, a intensidade do trabalho teria de corresponder à imensidão do objetivo a alcançar. E assim foi feito. Daí que a demonização de Lula, do PT e da participação popular na política de modo geral se tornou a atividade principal de todos os grandes veículos de comunicação corporativos do país.

O trabalho feito em tabelinhas muito bem entrosadas entre os coordenadores da operação Lava Jato e os órgãos de comunicação sob o domínio da rede Globo exerceu um papel importante para gerar em cada momento específico as manchetes e o clima que a ocasião pedia para atender os interesses dos que comandavam o processo.

Não se pode negar que o resultado foi muito favorável para eles. Para muita gente, a política passou a ser sinônimo de safadeza, de corrupção, de roubalheira. E a única solução seria tirar de vez do centro do jogo todos os que fossem vistos como políticos e, logicamente, substituí-los por “gente técnica” indicada por eles. No entanto, apesar de tudo o que alcançaram, Lula permanecia sendo a imagem de maior brilho a nível nacional, seu nome aparecia disparado na liderança de toda e qualquer sondagem de opiniões realizada no período pré-eleitoral.

Portanto, seria preciso eliminar este último entrave. Para tal, uma vez mais foram buscar ajuda naquele juiz que se havia destacado por fazer o entrosamento Lava Jato – rede Globo funcionar como por música. Sim, nosso infatigável Sérgio Conge Moro não iria deixar na mão aqueles com quem vinha trabalhado tão afinadamente nos últimos anos. O resultado todos já conhecem bem: condenação de Lula, sua prisão e a cassação de seu direito a disputar a eleição. As provas sobre os crimes cometidos por Lula… Bem, quem precisa de provas?

Agora bem, é preciso deixar claro que Bolsonaro não era o perfil ideal para a rede Globo, nem para nenhum grande capitalista que tenha algo de seu cérebro no lugar. Uma pessoa ignorante, incapaz, imprudente, insana mentalmente (e podem adicionar muitos outros in- a esta lista) não seria jamais o nome de preferência de ninguém para defender com firmeza os interesses do grande capital.

Mas, como diz o ditado popular, “como só tem tu, vai tu mesmo”. E foi assim que Bolsonaro virou o nome de consenso do grande capital financeiro, das multinacionais e de todos os reacionários do Brasil e do exterior. Que podiam eles fazer se seus nomes preferidos (Alckmin, Aécio, Serra, Marina, etc.) não conseguiam chegar nem aos 3% de preferências nas pesquisas eleitorais? O importante para eles naquele momento era impedir que o candidato de Lula vencesse. O resto, como de costume, eles acertariam depois.

Na verdade, a incapacidade e a bestialidade de quem eles optaram por apoiar surpreenderam até mesmo os que se mostravam mais otimistas quanto a seu desempenho no exercício da função. Está quase impossível aguentar! O homem montou uma equipe de trabalho que, seguramente, significa o que de pior já tivemos em toda nossa história republicana. Um bando de energúmenos e energúmenas que mete medo em qualquer um. Não é à toa que a economia vai de mal a pior, a imagem do Brasil no exterior serve de chacota para deixar claro o que um país de respeito não deve ser.

Mas, se as elites do dinheiro estão insatisfeitas, imaginem como estão se sentindo os milhões e milhões de cidadãos não privilegiados. E esta insatisfação está começando a ser exibida nas ruas. E parece que não vai ser possível coibi-la. Portanto, uma vez mais (como se deu no caso de Fernando Collor e no caso das manifestações de junho de 2013), eles precisam canalizar toda esta indignação, todo este clima de revolta, para um leito que lhes favoreça. Livrar-se do paquiderme que eles colocaram no governo? Sim, isto todo mundo deseja. Mas, o programa de governo que o mesmo paquiderme propõe é preciso ser mantido. Ou seja, é fora Bolsonaro, mas que permaneça o programa de Bolsonaro!

A rede Globo, seus vários órgãos associados e seus profissionais opinadores já estão em ação para levar adiante esta nova fase de seu plano. O plano agora é: Troca sem mudança. Em outras palavras, trocar o nome no comando (Mourão, presente) para manter os mesmos objetivos.

Dito isto, vem a pergunta: O que aqueles que estão na luta por motivos diferentes dos das elites devem fazer? A resposta (que não deve ser de fácil implementação, admito) é lutar para pôr fim ao governo da barbárie bolsonariana, mas não deixar que vingue a proposta da assunção de seu vice e a manutenção do programa antipovo e antinacional que ele também representa.

A campanha para um impeachment deve exigir que seja destituída a chapa que foi eleita por meios fraudulentos, não apenas o cabeça da mesma. Bolsonaro e Mourão foram eleitos com os mesmos votos, obtidos por meio das mesmas trapacearias.

O caso da facada milagrosa deve ser investigado com rigor por uma comissão de nomes idôneos e não comprometidos com interesses em jogo. É quase que uma certeza de que houve uma simulação de agressão, um plano orquestrado para interferir no resultado eleitoral. Os dados que dispomos até agora permitem fazer esta suposição. Mas, uma comissão digna de respeito poderia deixar tudo bem esclarecido. Os votos desta treta serviram para eleger o presidente e seu vice, não se esqueçam.

O mesmo se pode dizer com respeito ao apoio das regiões controladas por milicianos, nas quais houve os maiores percentuais de votos favoráveis à chapa vencedora.

Resumindo, não devemos nos deixar levar para o caminho escolhido pela rede Globo. Sei que não é fácil se livrar disto. A atração que os holofotes da Globo representam para quem está num embate político é um canto de sereia difícil de resistir. Mas, resistir é preciso! Devemos levantar com clareza a bandeira de que o que queremos é a realização de nova eleição presidencial para a escolha de novo presidente e novo vice, e não a simples substituição do atual pelo nome do vice de sua chapa.

Tarefas gigantescas. Podem ser alcançadas? A resposta não é um produto já terminado. Tudo vai depender da luta de cada um nos próximos dias, semanas e meses.

Jair de Souza, Economista formado pela UFRJ e mestre em linguística também pela UFRJ.
No Viomundo
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Bibo Nunes Show


As maracutaias do deputado federal e apresentador de TV que rachou o PSL gaúcho

O PSL era só mais um partido nanico de direita com uma representação irrisória no Congresso. Depois que foi alugado pelo bolsonarismo, virou o bunker oficial da extrema direita, abrindo espaço para as figuras mais bizarras da chamada nova política.

A sigla foi catapultada para o centro do debate político e rapidamente derreteu as ilusões de quem sonhava com uma renovação das práticas políticas. O que se vê é um amontoado de reacionários oportunistas que desprezam o jogo democrático — o qual chamam de velha política — e pisam fundo no acelerador da politicagem mais rasteira. Em pouco mais de três meses, os neófitos do PSL têm se destacado pela falta de projetos, pelos arranca-rabos e pelos esquemas de corrupção que criaram candidatos-laranja em vários estados.

No Rio Grande do Sul, o partido mal nasceu (era irrelevante antes de Bolsonaro) e já trocou de presidente duas vezes. Como é padrão no PSL, a escolha do primeiro presidente foi feita nas coxas. A ex-apresentadora de TV e empresária Carmen Flores “não sabia o que era o PSL” quando os então deputados Onyx Lorenzoni e Jair Bolsonaro “jogaram a presidência do partido no seu colo”. Dali pra frente foi só confusão. Carmen não viu problema em usar parte das verbas do fundo partidário para contratar sua filha e sua neta para trabalhar na campanha. Outra parte ela usou para mobiliar a sede do PSL-RS comprando móveis em uma loja da rede “Carmen Flores”, da qual é proprietária.

Em dezembro do ano passado, o vice-presidente do PSL gaúcho Bibo Nunes, que também ganhou fama como apresentador de TV no Rio Grande do Sul, atuou para derrubar sua amiga da presidência. Carmen perdeu força ao ficar de fora do Senado, enquanto Bibo foi eleito deputado federal. Ele passou a dizer em entrevistas que ela não seria mais presidente do partido em 2019. Carmen negou e disse ter o apoio do presidente do PSL nacional.

No fim do mês, Carmen não aguentou a pressão e decidiu se desfiliar do partido, alegando ter sido traída. “O PSL é pior do que muitos partidos”, disse Carmem à época. Bibo Nunes respondeu: “essa senhora está com problemas mentais há muito tempo”. As duas celebridades de TV, representantes da nova política, mal haviam estreado e já estavam se engalfinhando pela disputa do poder.

O PSL gaúcho, então, passou a ser presidido pelo Tenente Coronel Zucco, o deputado estadual mais votado do estado, enquanto Bibo Nunes se manteve como vice. Quando a crise no PSL nacional estourou, Bibo, sempre buscando protagonismo, subiu no púlpito da Câmara para acusar Bebianno. O ex-ministro e ex-presidente nacional do PSL teria ameaçado barrar a candidatura de Bibo e expulsá-lo do partido caso continuasse expondo as maracutaias de Carmen Flores.

Não satisfeito em derrubar a antiga presidente, Bibo Nunes passou a trabalhar para derrubar Zucco. Abriu guerra contra ele e iniciou lobby para tornar o deputado federal Nereu Crispim o novo presidente. Um áudio vazado deflagrou a crise. Nele, Bibo fala como se fosse dono do PSL e ataca o presidente e membros da direção:
 “O Zucco tá fora, não é mais o presidente, tá fora. Ele, o Sanderson, todos, tão fora, foram expulsos. Não estão mais na executiva, tá? E eu vou tomar conta. Mas espera dois meses que eu vou tomar conta, vou botar o Nereu (Crispim) agora, depois eu vou ajeitar tudo. Esse palhaço do Zucco, aí, quem ele tá pensando que é? Zucco tá na rua. Sanderson também. Tão tudo fora, tá? Deixa que nós vamos ajeitar tudo isso aí, fica tranquilo. Te falei. Esses palhaços aí se deram mal, tão fora, desmoralizados.”
Zucco recorreu ao Conselho de Ética do partido para que Bibo fosse punido por quebra de decoro. Como o Conselho não se pronunciou, Zucco e a cúpula do PSL gaúcho renunciaram. A Executiva Nacional do partido decidiu que o novo presidente do partido no estado é Nereu Crispim, o nome desejado por Bibo Nunes. Crispim está no seu primeiro mandato e já tem um currículo de fazer inveja ao que eles chamam de “velha política”: é réu no TRE e corre sério risco de ter o mandato cassado por abuso de poder econômico, caixa 2 e captação ilícita de votos.

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Nereu Crispim em visita ao gabinete do então deputado Jair Bolsonaro.
Foto: Reprodução/Facebook

Bibo Nunes Show

Antes de chegar a Brasília, o deputado Bibo Nunes era um radialista e apresentador de TV falastrão e carismático, um Ratinho dos pampas. Está no ar desde os anos 80 e apresentou durante 10 anos o Bibo Nunes Show, um programa de variedades dos mais sensacionalistas. Todo gaúcho conhece o episódio em que o mentalista Kardini, figurinha carimbada no Bibo Nunes Show, interrompeu uma briga no estúdio apenas com o poder da mente. Tudo forjado, óbvio, o que dá para ter uma ideia de como Bibo subestima a inteligência da população.

Em 2016, o Bibo Nunes Show ajudou a promover o então deputado Jair Bolsonaro, que começava a se lançar como candidato à Presidência com uma entrevista de mais de 15 minutos. Apesar de jornalista, Bibo Nunes fez papel de cabo eleitoral e passou a entrevista levantando bolas para Bolsonaro cortar. Nem Carluxo faria melhor. A conversa terminou com Bolsonaro elogiando, quem diria, a imprensa: “Estou sendo muito bem tratado pela mídia aqui do Rio Grande do Sul”.

Em pouco tempo de mandato, Bibo já provou que, como deputado, é um excelente apresentador do Bibo Nunes Show. Antes de tomar posse na Câmara, fez parte do trem da alegria bolsonarista que foi para a China bancada pelo regime comunista. Também integrou um outro trem da alegria para Portugal, esse pago pelos cofres públicos, com a missão de conhecer mais sobre turismo religioso, esportivo, patrimônio histórico e legalização de cassinos. Até o Santuário de Fátima ele foi visitar. No carnaval, Bibo aproveitou para emendar um feriadão. Saiu da Câmara no dia 29 de fevereiro e só foi voltar a pegar no batente no dia 12 de março. Na segunda-feira de carnaval, Bibo usou verba pública para bancar uma pizza grande, sorvetes e bebidas em um restaurante no litoral gaúcho. A nova política é um museu de grandes novidades.

A campanha de Bibo recebeu apenas duas doações. Um dos doadores é ele próprio, que colocou R$ 207.216,90 na campanha. A outra doação foi de R$ 30 mil, feita por um estrangeiro, o que é ilegal. O Ministério Público Eleitoral recomendou a desaprovação das contas da campanha. O caso chegou ao TSE e segue sob discussão jurídica.

Bibo jura desconhecer a única pessoa além dele que contribuiu para a sua campanha. “Eu não conheço esse cidadão, ele colocou na minha conta. Ele me deu doação, nunca vi ele na minha vida. Eu não queria que ninguém me desse dinheiro, a minha campanha quem banca sou eu, toda doação foi minha”, contou ao jornal Zero Hora depois que a área técnica do TSE recomendou a desaprovação das contas. Após conversar com advogados, voltou a falar com o jornal: “Está tudo resolvido. O cara é empresário, tem várias empresas no Brasil, tem imposto de renda, tudo certinho. Não há nada de errado na doação.”

Não é bem assim. O doador misterioso se chama Juan Antonio Bruno Perroni, um uruguaio não naturalizado que fez a doação como pessoa física. A campanha de Bibo Nunes foi a única que contou com o apoio financeiro do empresário. Perroni é um empresário da indústria fumageira que já foi condenado em duas instâncias pela Justiça Federal por falsificar selos de controle de IPI de embalagens de cigarro.

Segundo o inquérito, Perroni e um filho foram presos em flagrante em 1997 com mais de 30 mil selos de controle de cigarros, “dos quais 80% falsos”. Eles também tinham mercadorias estrangeiras sem nota fiscal e blocos de notas fiscais com numeração repetida. A Polícia Federal concluiu que 88,6% dos 140 mil maços de cigarro analisados em perícia continham selos falsos.

Considerado culpado pelo crime de falsificação e absolvido pelo de descaminho (mercadoria estrangeira introduzida clandestinamente no Brasil), Perroni teve a condenação confirmada em segunda instância. Porém a pena foi substituída por prestação de serviços à comunidade e multa. Perroni e os outros réus apelaram para o STJ, mas o crime prescreveu antes e a pena foi extinta.

Como se vê, o homem forte do PSL gaúcho está enrolado até o pescoço. Assim como a maioria dos representantes do engodo da nova política, Bibo Nunes está rapidamente queimando o capital político adquirido nas eleições ao surfar a onda bolsonarista.

O paladino da moral já derrubou de forma sorrateira dois presidentes do diretório regional do seu partido, trabalhou para colocar um réu em processo de caixa 2 na presidência, esticou o carnaval na praia comendo pizza às custas dos cofres públicos e teve a campanha financiada por um empresário condenado por falsificação. Bem-vindos à nova era.

João Filho
No The Intercept
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Greg News | B de Balbúrdia


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Assessores de Flávio Bolsonaro investigados têm uma franquia da Kopenhagem em nome deles

Flavio e o shopping Via Brasil
A quebra dos sigilos bancário e fiscal de assessores e ex-assessores de Flávio Bolsonaro pode revelar muito mais do que a prática da chamada rachadinha, apelido que os políticos cariocas dão a uma modalidade do crime de peculato — no caso, a transferência de parte dos salários pagos com dinheiro público para a conta do filho de Jair Bolsonaro.

É que pelo menos dois deles atuam no mesmo ramo de atividade empresarial de Flávio. Victor Granado Alves e Mariana Teixeira Frassetto Granado, que eram lotados no gabinete dele na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, são donos da Damas de Chocolate, a pessoa jurídica por trás de franquia da Kopenhagem no shopping Via Brasil em Irajá, no Rio de Janeiro.

Flávio Bolsonaro é dono de uma franquia da Kopenhagem em um shopping na Barra da Tijuca.

Pode ser apenas coincidência que ele e dois ex-subordinados atuem no mesmo ramo de negócio, com contratos com a mesma franqueadora, mas é um fato que merece atenção dos investigadores.

Não é exagero suspeitar que Victor e Mariana sejam laranjas de um esquema maior, levando-se em consideração que o Ministério Público do Rio de Janeiro apura indícios de que assessores nomeados por Flávio Bolsonaro tenham sido usados para a prática de lavagem de dinheiro.

Se não houvesse essa suspeita, os sigilos não teriam sido quebrados, inclusive os dos donos da Kopenhagem no shopping Via Brasil.

Se Mariana e Victor Granado eram proprietários de uma franquia, por que precisariam ocupar cargo político?

Mariana chegou a ser nomeada para a assessoria de Flávio Bolsonaro no Senado, mas a portaria de sua nomeação como secretária parlamentar foi tornada sem efeito no dia 28 de fevereiro, depois que o Supremo Tribunal Federal autorizou a investigação no Rio de Janeiro.

No dia 15 de março, ela voltou a ser nomeada no gabinete de Flávio Bolsonaro, desta vez para o cargo de assessora parlamentar.

Victor, sócio de Mariana na Kopenhagem, não foi nomeado para o Senado, mas mantém uma ligação muito próxima com o ex-chefe e também com o pai deste, Jair.

Mesmo quando era funcionário público, ele atuava na defesa de Jair Bolsonaro em processos que não têm nenhuma relação com a atividade parlamentar.

Victor foi advogado de Bolsonaro na ação movida para anular a multa aplicada a Bolsonaro por causa de pesca ilegal em Angra dos Reis.

Ele também defendeu a mulher de Flávio Bolsonaro, a dentista Fernanda, num processo que buscava anular a multa aplicada pela Polícia Militar porque ela se recusou a fazer o teste do bafômetro em uma blitz no Rio de Janeiro.

Bolsonaro e os filhos costumam alardear que são defensores dos valores da família brasileira. Nos gabinetes do clã, irmão e irmãs, pais e filhos, nora e sogra dividem a mesma portaria de nomeação — para não dizer espaço, já que há indícios de que muitos são fantasmas.

Os negócios fora do serviço público também são conectados — vide o cheque de Queiroz depositado na conta de Michelle Bolsonaro.

A investigação do Ministério Público pode revelar que a família a que os Bolsonaros fazem referência seja, na verdade, “famiglia”.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Justiça amplia quebra de sigilo e manda Receita passar notas fiscais de Flávio

Ele
O juiz Flávio Itabaiana determinou que a Receita Federal envie ao Ministério Público do Rio de Janeiro todas as notas fiscais emitidas entre 2007 e 2018 em nome do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), de seu ex-assessor Fabrício Queiroz e outros sete investigados no caso.

A decisão assinada na quarta-feira (15) é uma ampliação das quebras de sigilo bancário e fiscal determinadas no fim do mês passado.

O Ministério Público apura a prática dos crimes de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa no gabinete de Flávio quando ele exercia o mandato de deputado estadual na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

Também são alvos da nova medida a mulher de Flávio, a dentista Fernanda Bolsonaro, a empresa do senador e cinco parentes de Queiroz.

Ao solicitar a medida, o Gaecc (Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção) afirma que, “em razão das peculiaridades da investigação, torna-se necessário obter as notas fiscais a fim de possibilitar o cruzamento de dados bancários”.

A determinação do magistrado foi endereçada à Receita Federal, que deve entregar os documentos ao Ministério Público fluminense.

As notas fiscais aprofundam as informações a que o Ministério Público terá acesso. Com os dados bancários, os investigadores visualizariam apenas as transferências de recursos. Os novos documentos permitem identificar mercadorias e serviços adquiridos com esses pagamentos.

Segundo a Folha apurou, uma das hipóteses a ser checada é se Queiroz pagava contas e serviços pessoais do senador. Não há evidências, por enquanto, de que isso ocorria.

No mês passado, Itabaiana deferiu a quebra de sigilo bancário e fiscal de 86 pessoas e 9 empresas. Além do próprio senador, sua mulher e empresa, foram alvos todos os seus ex-assessores, nomes ligados a Queiroz e pessoas físicas e jurídicas que fizeram transações imobiliárias com Flávio nos últimos 14 anos.

O pedido de quebra dos sigilos bancário e fiscal foi o primeiro passo judicial da investigação após um relatório do governo federal ter apontado, há 500 dias, a movimentação suspeita de R$ 1,2 milhão na conta de Queiroz.

Além do volume movimentado na conta de quem era apresentado como motorista de Flávio, chamou a atenção a forma com que as operações se davam: depósitos e saques em dinheiro vivo.

As transações ocorriam em data próxima do pagamento de servidores da Assembleia Legislativa, onde Flávio exerceu o mandato de deputado por 16 anos (2003-2018) até ser eleito senador.

Queiroz já admitiu que recebia parte dos valores dos salários dos colegas de gabinete. Ele diz que usava esse dinheiro para remunerar assessores informais de Flávio, sem o conhecimento do então deputado.

Flávio Bolsonaro afirmou, por meio de sua assessoria, que o pedido para envio de notas fiscais “não significa que houve crime”.

“Decisões judiciais devem ser respeitadas. Isso, porém, não significa que eu ache correto o que estão fazendo contra mim com essa campanha caluniosa”, afirmou o senador.

“Reafirmo que não são verdadeiras as informações vazadas pelo Ministério Público. Continuo sendo vítima de seguidos e constantes vazamentos de informações contidas em processo que está em segredo de justiça. Movimento que deixa evidente a campanha contra mim para atingir o governo de Jair Bolsonaro”, completou, em nota.

A defesa de Fabrício Queiroz afirmou, em nota, que “acredita que a decisão de ampliação do objeto de devassa na vida pessoal dele e de sua família só releva e reforça o caráter desmedido e ilegal com que vem sendo tratada a questão.”


Catia Seabra | Italo Nogueira
No Folha
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Facebook bane empresa de Israel que disseminou fake news para interferir em eleições


Segundo despacho da agência Associated Press, o Facebook baniu na quinta-feira uma empresa israelense que promovia campanhas para influenciar eleições em vários países.

Dezenas de contas foram suspensas por disseminar desinformação.

O chefe da política de cibersegurança do Facebook, Nathaniel Gleicher, informou que foram banidas 265 páginas, grupos, eventos e contas do Instagram.

Por trás das páginas estava o Grupo Archimedes, uma empresa de consultoria política e lobby de Tel Aviv que publicamente promovia sua capacidade de lidar com as mídias sociais e de “mudar a realidade”.

O Grupo Archimedes gastou o equivalente a U$ 800 mil em suas campanhas e pagou em reais brasileiros, shekels (a moeda israelense) e dólares americanos.

Gleicher disse à AP que as páginas “coordenavam comportamento falso”.

A atividade da empresa estava focada em países da África subsaariana, como Nigéria, Senegal, Togo, Angola, Níger e Tunísia, mas também no Sudeste Asiático e na América Latina.

Gleicher não informou se a empresa promoveu ações durante as campanhas eleitorais de 2016 e 2018, no Brasil.

As páginas fake somaram 2,8  milhões de seguidores.

O anúncio oficial da ação, postado por Gleicher, não explica o motivo de o grupo israelense ter pago postagens em reais brasileiros, nem se a empresa terceirizou pagamentos a candidatos.

“As pessoas por trás desta rede usaram contas falsas para organizar páginas, disseminar seu conteúdo e artificialmente aumentar o engajamento. Eles também se faziam passar por locais, criando inclusive sites de notícias, e publicavam informação alegadamente vazada sobre políticos. Os administradores das páginas e donos das contas frequentemente postavam sobre política, inclusive tópicos sobre eleições de vários países, posição política de candidatos e críticas a seus oponentes”, escreveu Gleicher.

No Viomundo
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Os bastidores da entrevista com Lula


Encravada em um pacato bairro residencial de Curitiba, a sede da Superintendência da Polícia Federal do Paraná funciona em um prédio moderno, de vidro, que contrasta com os arredores de casinhas bucólicas. No saguão, uma placa de ferro exibe o ano de inauguração, 2007, e os nomes dos responsáveis pela construção daquele lugar: o ex-ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pouco mais de uma década depois, Lula voltou ao prédio. Desta vez, como presidiário.

A ironia da placa que ostenta o nome do ex-presidente foi a primeira coisa que reparamos ao chegar no prédio em que Lula está preso desde 7 de abril do ano passado. Estivemos lá na quarta-feira para que, depois de mais de um ano de tentativas, o ex-presidente fosse finalmente entrevistado por Glenn Greenwald. Não foi fácil. O Intercept, assim como outros veículos, precisou entrar no STF para que Greenwald pudesse falar com o ex-presidente. A resposta demorou quase um ano – mas, no final de abril, o ministro Ricardo Lewandowski finalmente liberou a entrevista. Depois que as eleições passaram, é claro.

O esquema com a Polícia Federal é rígido. O horário marcado era 9h30, mas exigiram que chegássemos às 8h para montar os equipamentos. Mais de cinco agentes foram envolvidos no processo. A equipe inteira passa por uma revista minuciosa – quem tem mais de um aparelho celular precisa deixá-lo do lado de fora. Quando faltavam poucos minutos para que Lula chegasse, policiais colocaram um biombo do lado de fora da sala para que o ex-presidente não fosse visto pelo corredor. "Cinco minutos!", disse o policial, avisando que só os nomes autorizados poderiam ficar no local quando Lula chegasse. Dali para frente, só quatro pessoas se encontrariam com o ex-presidente: os três membros da equipe técnica de filmagem e o próprio Glenn.

Enquanto a entrevista acontecia – Glenn foi o primeiro jornalista estrangeiro a conversar com o ex-presidente desde que ele foi preso –, a ordem era que deixássemos o prédio. Nos arredores, desde que Lula chegou, a vida mudou. A começar pelo acampamento de militantes, montado desde o primeiro dia da prisão. São eles que ainda gritam "bom dia!" e "boa noite!" todos os dias para o ex-presidente. Hoje, a convivência é pacífica. Eles alugaram o terreno e, mesmo que os vizinhos e a polícia queiram, não podem ser retirados de lá. Mas um militante do MST contou que a convivência já foi difícil – especialmente na virada do ano. "Eles ficavam passando aqui com carro de som, tripudiando mesmo", nos disse, lembrando dos apoiadores de Bolsonaro que comemoravam a vitória. Uma pequena barraca vende a produção de famílias assentadas – geleias, mel, arroz, feijão e o leite achocolatado industrializado infantil Terrinha, além de livros sobre socialismo, marxismo e outras ideologias capazes de abalar a estrutura de uma universidade federal. A vigília só acaba, disse o militante, quando Lula sair dali.

O dia no acampamento estava atípico, mais calmo do que o normal. A maioria dos militantes tinha ido aos protestos contra os cortes da educação, que aconteceriam por todo o Brasil naquele dia.

Do lado de dentro do prédio, a entrevista seguia para seus momentos finais. Embora o tempo estivesse frio e chuvoso do lado de fora, o lado de dentro também não parecia convidativo – não pudemos sequer entrar de novo no prédio da PF para pegar os equipamentos antes que terminasse a entrevista seguinte, com a revista alemã Der Spiegel, e Lula estivesse fora de vista. Greenwald contou que, conforme o tempo se esgotava, o policial responsável pela escolta ia se aproximando de Lula. O ex-presidente não pareceu se abalar. "Você não vai ser preso não, eu é que posso ficar mais um tempo aqui", ele disse sorrindo ao Glenn, que tentava avisá-lo que o tempo havia esgotado.

A caminho do aeroporto, o taxista do bairro, Ronildo, ria discretamente ouvindo a nossa conversa no carro sobre a entrevista que havia acabado de acontecer. Vizinho da PF, ele está acostumado a levar advogados e parentes dos envolvidos nas investigações da Lava Jato. "É um tal de 'vamos aproveitar essa brecha' aqui", ele lembra, narrando as conversas que costuma escutar de dentro do carro. Não mencionou nomes, claro. E também evitou adjetivar os militantes acampados na frente da PF – disse apenas que não entende esse negócio de endeusar político. "Você acha que Lula merece estar preso?", perguntamos. Ele disse que sim. Acha que o ex-presidente teve três fases: uma ótima, uma segunda em que começou a se vender e o final, em que estragou tudo. "Ele tinha tudo para fazer diferente e desperdiçou a chance." E Moro? "Chegou dando esperança, mas também virou velha política."

Na entrevista, Lula falou sobre o ex-juiz, hoje ministro, responsável por o colocar na prisão. Disse ter suspeitas sobre o envolvimento dos EUA na Lava Jato. Mas falou, sobretudo, sobre as razões que levaram a esquerda, e seu partido, a fracassarem tão retumbantemente nas eleições a ponto da população preferir eleger Jair Bolsonaro em seu lugar.

No The Intercept

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Xadrez para entender o manifesto de Bolsonaro em Dallas


Era previsível o lance de Jair Bolsonaro, conclamando suas milícias digitais a enfrentar as instituições. Ontem mesmo previmos esse movimento. Aliás, não há nada de mais previsível que Jair Bolsonaro, justamente por sua incapacidade de planejar qualquer movimento.

Aliás, o mesmo ocorre com seu guru Olavo de Carvalho. Ambos se assemelham a boxeadores que lutam de cabeça baixa distribuindo murros a granel. Como deu certo até agora, devido a imbecilização coletiva do país, continuaram acreditando no seu toque de Midas-reverso – que transforma em merda tudo o que tocam – até toparem pela frente com o muro da realidade.

Ontem, Olavo recuou admitindo que exagerou nas suas invectivas contra militares. Bater em militar é um pouquinho mais arriscado do que atacar Marilena Chauí.

Bolsonaro baixou a cabeça e saiu esmurrando, difundindo em sua rede o tal manifesto. Assim como no episódio Marielle, já se sabe quem é o assassino. Faltou saber quem mandou, ou seja, quem foi o autor do manifesto. E aí entra o nosso Xadrez

Peça 1 – o fator mercado

É evidente que o artigo compartilhado por Bolsonaro foi produzido por alguém ligado ao mercado financeiro. É uma análise de cenário, mostrando um Bolsonaro derrotado e a recomendação final de “vender” o Brasil.

É nítido que o mercado financeiro se encantou com as possibilidades de negócios abertas pela eleição de Bolsonaro.

É o caso da Eletrobrás, alvo do G3, de Jorge Paulo Lehman. Ou a maluquice-mor de Paulo Guedes, de promover a fusão do Banco do Brasil com o Bank of America (BofA). Ou ainda, os acordos de leniência fechados entre Departamento de Justiça e grandes empresas brasileiras, como a Petrobras, com a Lava Jato se comportando como agente auxiliar do DoJ. E os contratos de compliance fechados entre Petrobras, Eletrobras, Embraer com grandes escritórios norte-americanos, em um lobby coordenado por Ellen Gracie, ex-Ministra do Supremo Tribunal Federal. Definitivamente, com o aval da Lava Jato, o Brasil se tornou uma mina de ouro para esses grupos.

Peça 2 – os grupos de lobby

Prevendo esse campo para grandes negócios, muitos centros de lobby norte-americanos resolveram investir no grande negócio da parceria com Ministérios Públicos de vários países e autoridades regulatórias. Foi o caso do Atlantic Council e suas ligações com procuradores gerais latino-americanos. E de duas empresas interligadas.
  1. A tal Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos (Brazilian-American Chamber of Commerce) – não confundir com a respeitada Amcham, a Câmara de Comércio Brasil-EUA sediada em São Paulo. Seu presidente é Alexandre Bettamio, presidente do Bank of America (BofA) para a América Latina.
  2. O Milken Institute, um centro de lobby criado por Michael Milken, operador americano que melhor explorou os fundos abutres e terminou condenado e preso nos anos 90 por informação privilegiada e proibido de operar no mercado.

Ambos são amigos e trabalham na mesma linha de lobby: grandes eventos anuais, que lhes permitem se aproximar de autoridades norte-americanas e de outros países. E têm uma especial predileção pela Lava Jato.

Aqui, um evento da Brazilian-American Chamber of Commerce com Sérgio Moro.


Aqui, outro evento com o juiz Marcelo Bretas, da Lava Jato carioca.



O patrocinador é o escritório de advocacia Debevoise & Plimpton LLP, um dos grandes escritórios nova-iorquino participantes da ampla promiscuidade com procuradores do DoJ. No mês passado, ele se vangloriava de ter contratado Lisa Zornberg, ex-Chefe da Divisão Criminal da Procuradoria dos Estados Unidos no Distrito Sul de Nova York.

O escritório tem um leque de produtos para clientes brasileiros, desde assessoria em casos de denúncia até trabalhos de compliance.

Já o Milken Institute armou eventos com grandes players brasileiros, dentre os quais Jorge Paulo Lehmann, Henrique Meirelles e o indefectível Betammio.


Aqui, foto do evento da Brazilian-American Chamber que premiou Sérgio Moro e Mike Bloomberg. Na foto, o próprio Bettamio com o casal Moro, Bloomberg e João Dória.


Peça 3 – Bettamio, Guedes e Bolsonaro

E, assim, entramos no nosso personagem principal, Alexandre Bettamio.

Assim que Bolsonaro foi eleito, foram empinados alguns balões de ensaio indicando Bettamio para a presidência do Banco do Brasil. Ele declarou que havia recusado. Mas passou a investir pesadamente no governo Bolsonaro e na parceria com Paulo Guedes, com quem conviveu nos tempos em que trabalhou no USB-Pactual.

Á frente da Câmara de Comércio, Bettamio tratou de aprofundar relações não só com a Lava Jato como com Bolsonaro.

Foi ele que insistiu no evento em Nova York, para homenagear Bolsonaro, que acabou se convertendo no maior mico de um governo coalhado de micos.

Antes de Bolsonaro assumir o governo, Paulo Guedes já difundia a ideia da fusão entre BB e BofA. Ontem, Guedes voltou a insistir na fusão BB-BofA e a acenar com venda de ativos da Petrobras.

Peça 4 – a reversão de expectativas

É esse horizonte, propício para alguns dos maiores negócios da história, que ficou coberto pelos raios e trovoadas da ingovernabilidade.

De um lado, o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro avançando nas investigações sobre Flávio Bolsonaro, que inevitavelmente baterão no pai. As ruas, tomadas por estudantes protestando contra os cortes do MEC. E, na economia, o aprofundamento da crise, com os últimos dados sobre desemprego, mostrando a total inoperância de Paulo Guedes, na política econômica, e de Onix Lorenzoni, na articulação política.

Guedes é incapaz de uma ideia criativa sequer. Todo seu talento, em outros tempos, se resumia a montar cenários econômicos em momentos de grande inflexão da economia. Mesmo como gestor de fundos de equity, jamais demonstrou visão prospectiva. Limitava-se a ir atrás de empresas familiares em setores tradicionais, demonstrando enorme aversão a risco. Além de cultivar uma relação frutífera com fundos de pensão de estatais.

Levou esse travamento para o Ministério da Economia. A crise se aprofunda e o Ministério é incapaz de qualquer coisa além de prometer o céu se a reforma da Previdência for aprovada, um blefe óbvio. A inércia chegou a tal a ponto que o Congresso resolveu assumir para si a responsabilidade de definir políticas anticíclicas – uma excrescência fruta exclusivo do desespero com a inoperância de Guedes.

É nesse quadro que surge o tal manifesto replicado por Bolsonaro, cuja última linha manda “vender” Brasil.

Foi um manifesto de mercado, que chegou a Bolsonaro em plena ida a Dallas, provavelmente entregue a ele por seu anfitrião. E, com o manifesto, a explicitação da intenção de Bolsonaro de insuflar suas milícias – digitais e provavelmente as armadas – contra as instituições.

Não poderia ter escolhido melhor cenário. Dallas foi local em que foi planejado e executado o assassinato de John Kennedy, o presidente americano visto como de esquerda pelos supremacistas brancos.

Luís Nassif
No GGN

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