15 de mai. de 2019

Empresário falsifica legenda de foto para atacar Toffoli, Maia e Alcolumbre

O empresário Winston Ling decidiu atacar Judiciário e Legislativo com uma mentira só. Divulgou em seu perfil no Facebook uma foto em que o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), posam junto com o presidente o Bank of America no Brasil, Eduardo Alcalay. Mas inventou que Alcalay é o prefeito de Nova York, Bill De Blasio, notório democrata.

Além da foto, um comentário: “Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre e Dias Toffoli, tirar essa foto com o prefeito de Nova York, Bill De Blasio, após este ter ofendido Jair Bolsonaro e o povo brasileiro é algo muito lamentável!”.

Ling faz parte da comissão de empresários conservadores que defendem o governo. Embora more em Hong Kong desde 2001, fala bastante sobre a realidade brasileira. Em entrevista ao Estadão, por exemplo, disse que, se a reforma da Previdência passar, “o Brasil será a nova China”. Ao site O Sul, disse que Bolsonaro enfrenta interesses poderosos para refundar o Brasil. A investigação contra o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) por lavagem de dinheiro, para ele, é um exemplo de movimento de forças para inviabilizar o governo.

Winston Ling é conhecido do empresariado brasileiro. Investidor, ele comanda uma agência de revenda de produtos brasileiros na China. É filho do do empresário Sheun Ming Ling, fundador do Instituto Ling, um fundo de financiamento de bolsas de estudos para jornalistas em universidades norte-americanas para formar lideranças conservadoras no Brasil. O Instituto Ling é parceiro do Instituto Millenium, que faz a mesma coisa, mas nos EUA.

Segundo o Estadão, foi Winston quem aproximou Bolsonaro do economista Paulo Guedes. Hoje ministro da Economia, Guedes se vendeu ao mercado como fiador do então candidato Jair Bolsonaro, até então conhecido apenas pelas polêmicas em que se envolvia.

Winston conheceu Bolsonaro por meio da deputada Bia Kicis (PSL-DF). Ela era candidata e quis conhecer o empresário que mora na China e acha que o Estado interfere demais na economia nacional. Já eleita, Kicis passou a defender uma “renovação” no Supremo Tribunal Federal. A forma seria revogar a “PEC da Bengala”, que mudou a idade da aposentadoria compulsória dos ministros de 70 para 75 anos.

A medida atingiria os ministros Celso de Mello, Marco Aurélio, Ricardo Lewandowski e Rosa Weber. Para a deputada, seria uma forma de deixar o tribunal “mais liberal e conservador”, medida que ela aprendeu com Winston que é necessária para a vida nacional.

No ConJur
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Há três hipóteses para a morte de Marielle: uma implica diretamente Jair Bolsonaro


Um mês antes da morte de Marielle, os matadores Ronnie Lessa e Elcio Vieira de Queiroz pesquisaram vários nomes no Google, dentre eles todos de parlamentares que votaram contra a intervenção militar

Há três hipóteses sobre a morte de Marielle. A de maior impacto tem sido mantida sob sigilo, e aponta diretamente para o presidente da República Jair Bolsonaro.

Hipótese 1 – levantada pela Polícia Civil.
Marielle teria sido executada pela milícia, devido a interesses imobiliários em áreas de atuação da vereadora.

Hipótese 2 – levantada preferencialmente pelo PSOL.
Marielle teria sido executada pela milícia a mando de políticos do MDB, que atuavam nos territórios ocupados pelos milicianos.

Hipótese 3 – a morte de Marielle foi uma reedição dos atentados do Riocentro.

Como se recorda, quando os porões da ditadura se sentiram alijados do processo político, com a derrota de Silvio Frota, seguiu-se uma série de atentados, visando reverter o processo democrático que se aproximava. No caso de Marielle, a intenção foi reagir contra a intervenção militar no Rio de Janeiro.

As evidências em favor da Hipótese 3

Evidência 1 – Um mês antes da morte de Marielle, os matadores Ronnie Lessa e Elcio Vieira de Queiroz pesquisaram vários nomes no Google, dentre eles todos de parlamentares que votaram contra a intervenção. Ou seja, a intenção explicita de Lessa era jogar a morte de Marielle na conta da intervenção. Marielle era relatora da comissão instalada na Câmara dos Vereadores justamente para fiscalizar a intervenção militar. Nas primeiras investigações, procuradores aventaram a possibilidade da morte ter sido um recado para os militares.

Evidência 2 – da direita, a voz mais enfática contra a intervenção era a de Jair Bolsonaro, que reclamava que os militares não tinham sido ouvidos. Bolsonaro defendia uma intervençao militar pura. Aquela intervenção militar, decretada por Michel Temer, parecia a ele uma jogada de gabinete.

“É uma intervenção decidida dentro de um gabinete, sem discussão com as Forças Armadas. Nosso lado não está satisfeito. Estamos aqui para servir à pátria, não para servir esse bando de vagabundos.”

Evidência 3 – O principal suspeito da morte de Marielle, Ronnie Lessa, é vizinho de Jair Bolsonaro no condomínio. Apanhado de surpresa pela notícia, Bolsonaro afirmou a jornalistas não se lembrar do vizinho.

O DCM mapeou as casas através do Google.


As apurações

As evidências contra Jair Bolsonaro são muito fortes para serem ignoradas:

1. Ele participava dos grupos que articularam atentados no período do Riocentro. Continuou mantendo ligações estreitas com esse grupo.

2. Tinha interesse claro de que a intervenção militar no Rio não fosse adiante, seja por prejudicar o trabalho das milícias, seja por colocar os militares sob decisão dos “vagabundos”. Tinha interesse público de botar fogo no circo.

3. A família tem uma tradição explícita de relações com as milícias.

4. O principal suspeito da morte de Marielle é um membro do Sindicato do Crime, comerciante de armas e vizinho de condomínio.

Mas é possível que a Polícia Civil fluminense se aferre a outra versão.

As investigações sobre Ronnie Lessa flagraram conversas com o delegado Allan Turnowski, chefe das delegacias da capital carioca. Eleito, o governador Wilson Witzel levou Allan de volta à cúpula da polícia civil.

No almoço com Flávio Bolsonaro, Élcio Vieira de Queiroz, o suspeito de dirigir o carro que conduziu os assassinos de Marielle.


Luís Nassif
No GGN
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O Irã e os Idiotas Úteis

Mais uma vez, o governo Bolsonaro demonstra que está disposto a atirar contra os interesses do Brasil para satisfazer os delírios psicopatas de assessores de Trump e os interesses do governo Netanyahu.

A notícia de que o Brasil e Israel promoveram reunião sigilosa no Itamaraty para que o nosso país se some aos esforços para desestabilizar o Irã, inteiramente crível, face às fantasias ideológicas do presidente e do seu folclórico chanceler, indica que está em andamento outro gigantesco tiro no pé do Brasil.

Não bastassem as agressões à China, à Rússia, aos países árabes, a membros do Mercosul, etc., chegou agora a vez do Irã.

Essa gente vive, definitivamente, fora da realidade, num mundo irracional e pré-iluminista.

O Irã é o quinto maior mercado para os produtos agrícolas do Brasil, mesmo com o embrago comercial imposto pelos EUA. O nosso país é o principal fornecedor para o Irã de complexo de soja, milho, açúcar, carne bovina, papel e celulose. Merece ainda destaque a exportação de produtos de confeitaria, resíduos das indústrias alimentares, alimentos para animais e, por fim, veículos aéreos, automóveis, tratores e ciclos.

Nos últimos 10 anos (2009-2018), o Brasil exportou para o Irã, ainda que com crise e embargo, US$ 19, 611 bilhões, com um superávit de incríveis US$ 19, 234 bilhões. Para Israel exportamos, no mesmo período, US$ 3, 941 bilhões, com um déficit de US$ 5,485 bilhões. Ou seja, exportamos para o Irã cerca de 5 vezes mais que para Israel, com enorme superávit a nosso favor, ao contrário do que acontece com esse último país.

O mais importante, contudo, é que o potencial das relações bilaterais entre Brasil e o Irã é muito maior do que deixam entrever esses números. O Irã tem apenas 11% de seu território de terras agricultáveis. Assim, as nossas exportações para lá poderiam aumentar muito, caso não houvesse o embargo imposto pelos EUA.

Quando Ahmadinejad esteve no Brasil, em 2010, foram feitos planos para quintuplicar nossa corrente de comércio em 5 anos. Também foram realizadas parcerias na área de energia, cooperação tecnológica, agricultura, educação, etc. Dada à complementariedade das duas economias, o potencial é, de fato, imenso.

Tal ampliação dependia e depende, contudo, do fim do embargo e do relacionamento político entre as duas nações.

Mas o governo Bolsonaro está jogando tudo isso fora apenas para satisfazer os interesses geopolíticos de Trump e Netanyahu.

E o pior é que governo Bolsonaro está comprando uma briga importada que já está perdida.

Quem está impulsionando a nova ofensiva contra o Irã é gente como Bolton, Pompeo e Abrams, psicopatas com pouco contato com realidade. Os militares do Pentágono sabem que uma guerra “quente” contra o Irã seria um atoleiro trágico. Possivelmente foram eles, aliás, que vazaram para o New York Times a informação de que os EUA estariam reunindo 120 mil homens para uma possível invasão do Irã.

Trata-se de um cenário de guerra encomendado pelo maluquete Bolton. Um cenário ridículo também. São demasiados homens para uma invasão por ar e mar e pateticamente insuficientes para uma invasão por terra. O Irã reúne, entre forças armadas e a Guarda Revolucionária, 530 mil homens na ativa, fora os reservistas, que somam 350 mil. Ao todo são, portanto, cerca de 880 mil homens fortemente armados que poderiam ser mobilizados no curto prazo, mais de sete vezes que as forças do maluquete. Além disso, o Irã dispõe de 40 milhões de homens aptos a combater.

Na realidade, o Irã tem o exército convencional mais poderoso do Oriente Médio. O Irã é a quarta força mundial em termos de lançadores móveis de foguetes e a oitava, no que tange à artilharia convencional. Possui também 1.634 tanques de combate e 165 caças.

Mas a força maior do Irã vem de seus aliados, como China e Rússia.

O Irá é um país chave para o domínio da Eurásia, o supercontinente cujo controle, como já previa Zbigniew Brzezinski em o Grande Tabuleiro de Xadrez, propiciará hegemonia na ordem mundial.

China e Rússia sabem disso.

A China depende do petróleo e do gás do Irã e vem fazendo pesados investimentos naquele país. Os chineses, em contratos de centenas de bilhões de dólares, conseguiram acesso exclusivo a partes significativas dos campos de gás e óleo do Irã. Em contrapartida, prometeram investir na infraestrutura energética do país e, mais do que isso, comprometeram-se a defender essas áreas petrolíferas contra agressões estrangeiras, “como se fossem território chinês”. O acesso a essas jazidas iranianas, complementado por uma rede de gasodutos, permitirá à China amenizar sua dependência energética e é fundamental para a sua estratégia de constituir uma nova rota da seda. O Irã, por sua vez, poderá bloquear o estreito de Ormuz, por onde passam os grandes petroleiros que vêm do Golfo Pérsico, sem que isso impacte as suas exportações.

Já a Rússia vê o Irã como um parceiro geopolítico muito importante no Oriente Médio. O Irã é aliado do governo da Síria, apoiada pela Rússia, e adversário da Arábia Saudita e Israel, principais aliados dos EUA no Oriente Médio. Com a recente e injustificada ofensiva da administração Trump contra o Irã, contrariando abertamente o texto do acordo Joint Comprehensive Plan of Action, ou J.C.P.O.A., que colocou o programa nuclear iraniano sob controle dos EUA e Europa, em troca do levantamento das sanções, a Rússia aproximou-se muito do Irã. Na última reunião entre Putin e Khamenei, realizada em novembro do ano passado, o mandatário russo afirmou ao líder iraniano que a “Rússia não trairá o Irã”.

Assim, China e Rússia estão dispostos a defender o Irã por todos os meios, inclusive os militares. E a Europa, mesmo amedrontada com as pressões de Washington, não quer embarcar nessa nova loucura de Trump.

Resta, portanto, aos EUA buscar apoio em suas colônias.

Quando o Brasil defendia seus interesses próprios no cenário mundial, tínhamos boas relações com o Irã e com todos os países do Grande Oriente Médio, independentemente das orientações políticas de seus governos. Tanto é assim que conseguimos, com Lula, um acordo que solucionava a questão do programa nuclear do Irã, infelizmente bombardeado a posteriori por Obama, que havia dado o sinal verde para as negociações.

Agora, no entanto, nos limitamos a ser massa de manobra de psicopatas que fazem a geopolítica da insanidade.

Coisa de idiotas úteis e de imbecis.

Marcelo Zero
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PIB cai, recessão à vista e Guedes joga a toalha: boçalnarismo quebrou o país

https://www.balaiodokotscho.com.br/2019/05/15/pib-cai-recessao-a-vista-e-guedes-joga-a-toalha-bocalnarismo-quebrou-o-pais/

Com as mãos trêmulas, sem conseguir segurar os papéis, o superministro Paulo Guedes era o próprio retrato do fracasso do governo que mal completa hoje 135 dias, uma eternidade de lambanças.

Em discurso terça-feira na comissão mista de orçamento do Congresso, o Posto Ipiranga de Bolsonaro jogou a toalha e passou a bola para o Congresso: agora depende de vocês salvar o Brasil.

Guedes falou que chegamos “ao fundo do poço, ao abismo fiscal” e, mais uma vez, repetiu que só com a reforma da Previdência o país poderá sair do buraco.

Ainda que a reforma seja aprovada este ano, não se sabe quando, a esta altura é preciso saber o que vai sobrar do projeto original, já que o poderoso Centrão está em confronto aberto com o governo e assumiu o comando dos trabalhos, de braços dados com Rodrigo Maia, o herdeiro de Eduardo Cunha.

Na manhã de hoje, o Banco Central anunciou que a prévia do PIB no primeiro trimestre caiu 0,68%. A projeção de crescimento já caiu 11 vezes este ano e agora se fala até na volta da recessão. A indústria sofreu uma queda de 1,3% em março na comparação com fevereiro.

Desemprego em alta e PIB em baixa é a combinação perfeita gerada pela ausência de qualquer política econômica.

O fato concreto é que a grana do Tesouro Nacional está no fim e o país quebrou. Não tem mais milagre.

No mercado financeiro, já se comenta o atraso no pagamento de fornecedores de insumos básicos e serviços essenciais para o funcionamento do governo.

A bateção de cabeças no Palácio do Planalto e as refregas entre o grupo militar e olavetes certamente não permitem criar um clima de confiança entre investidores daqui e de fora.

Houve uma completa reversão de expectativas desde o início do ano, quando reinava um forçado clima de otimismo com o novo governo, e a palavra de ordem era “tem que dar certo, estamos todos no mesmo barco”.

Não deu certo, e agora já tem muitos aliados querendo pular desse barco antes que ele naufrague.

A única estratégia visível de Bolsonaro é provocar o caos, como ele mostrou na última reunião com parlamentares antes de embarcar para o Texas.

Delegado Waldir, líder do PSL na Câmara, saiu apressado da reunião, anunciando aos jornalistas que Bolsonaro tinha ligado para o ministro da Educação, na frente deles, dando ordens para cancelar o corte de verbas, diante das manifestações de estudantes e professores marcadas para esta quarta-feira.

Meia hora depois, o ministro e a Casa Civil desmentiram a informação. E Bolsonaro embarcou sem se manifestar sobre o recuo do recuo, já uma rotina nas decisões do governo.

Do outro lado da praça dos Três Poderes, também ninguém se entende. É um ambiente de barata voa, que mais parece uma mistura de quartel, templo e delegacia de polícia, tantos são os nobres representantes da “nova política” chamados de pastor, delegado, sargento, tenente, coronel, general, que tomaram conta do plenário.

Agora que os parlamentares poderão andar armados no Congresso, periga acontecer uma carnificina neste baile de fantasia em que ninguém é de ninguém.

Com o povo nas ruas, o capitão presidente em Dallas e o vice general Mourão na China, estamos nas mãos de sua excelência, o imponderável.

Não arrisco prever como vai acabar esta quarta-feira, 15 de maio de 2019, o dia em que o Brasil chegou ao fundo do poço, nas palavras do ministro Guedes, e a população resolveu dar um basta aos desmandos federais.

Entramos no modo salve-se quem puder, sem lideranças nacionais nem interlocutores da sociedade civil capazes de apontar um caminho.

Foi o que sobrou do Brasil.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
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Flávio Bolsonaro lucrou R$ 728 mil com investigados no caso Queiroz

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O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) lucrou R$728 mil em transações imobiliárias com dois alvos de quebra de sigilo bancário e fiscal do caso Queiroz. As informações são do jornalista Igor Mello, do site Uol, e foram publicadas na manhã desta 4ª feira (15).

O Uol obteve acesso a nove transações registradas em cartórios do Rio de Janeiro envolvendo a empresa MCA Participações e o norte-americano Charles Anthony Eldering. Os dois fazem parte dos 95 nomes de pessoas físicas e jurídicas que tiveram o sigilo bancário quebrado por decisão do juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Rio.

De acordo com a reportagem, o senador Flávio, que é filho do presidente Jair Bolsonaro, negociou 12 salas comerciais no prédio Barra Prime Offices –centro comercial de alto padrão localizado na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. Na época ele era deputado estadual.

De acordo com o jornal, todas as salas foram compradas por Flávio em 16 de setembro de 2010, por montantes entre R$192,5mil e R$342,5 mil. Ao todo, 7 salas custaram um pouco mais de R$1,5 milhão. Em 29 de outubro, Flávio vendeu os imóveis para a empresa MCA e obteve um lucro de R$318 mil.

O senador também se beneficiou ao negociar com o norte americano Charles Anthony Eldering. Em novembro de 2012, Flávio comprou de Eldering uma sala em Copa Cabana, zona sul do RJ, por R$140 mil. O valor é R$60 mil a menos do que foi pago pelo americano em março de 2011. O lucro que Flavio teve com esta sala foi de R$410 mil, quando vendeu o imóvel por R$550 mil em fevereiro de 2014.

Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade na compra e venda dos imóveis.

O Caso Queiróz

Relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), fruto do desdobramento da operação Furna da Onça, ligada à Lava Jato no Rio, apontou operações bancárias suspeitas de 74 servidores e ex-servidores da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro), entre eles, Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro.

Segundo o relatório, 8 assessores e ex-assessores de Flávio Bolsonaro fizeram depósitos na conta bancária de Queiroz, o que levantou a suspeita de recolhimento de parte do salário de funcionários do gabinete do filho mais velho do presidente. O senador negou a prática em seu gabinete.

O ex-assessor do filho mais velho do presidente também teria movimentado, de janeiro de 2016 a janeiro de 2017, R$ 1,2 milhão. Uma das transações era um cheque de R$ 24.000, que foi destinado à hoje primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Queiroz foi funcionário de Flávio Bolsonaro por uma década como motorista e segurança do parlamentar. Ele também é amigo do presidente Jair Bolsonaro desde 1984. Segundo o presidente, ele emprestou a Fabrício Queiroz R$ 600 mil e a movimentação aponta, na verdade, transferência de 10 cheques de R$ 4 mil.

Flávio Bolsonaro também passou a ser investigado no caso. A investigação iniciou no Núcleo de Combate à Corrupção da Procuradoria da República no Rio de Janeiro, determinada pela procuradora regional da República Maria Helena de Paula quando era coordenadora criminal do MP-RJ. Foi aberta com base em movimentações financeiras do filho do presidente.

No dia 18 de janeiro, o Jornal Nacional noticiou que um novo relatório do Coaf indicou movimentações bancárias atípicas nas contas de Flávio Bolsonaro:

R$ 1.016.839 – pagamento de um título bancário à CEF (Caixa Econômica Federal);

48 depósitos em espécie de R$ 2.000 – o dinheiro, no total de R$ 96.000, entrou na conta de Flávio no período de 9 de junho de 2017 a 13 de julho de 2017.

Em entrevista para a Record e para a RedeTV em 20 de janeiro, Flávio disse que o pagamento de R$ 1 milhão foi em transação com imóvel. No dia seguinte, o ex-jogador de vôlei de praia Fábio Guerra confirmou que pagou cerca de R$ 100 mil em espécie para o senador eleito para quitar parte da compra de um imóvel na zona sul do Rio de Janeiro.

No dia 17 de janeiro, Flávio Bolsonaro conseguiu durante o recesso do Judiciário uma liminar do ministro Luiz Fux, do STF (Supremo Tribunal Federal), suspendendo as investigações do MP do Rio. Ele acusou os procuradores de terem quebrado o sigilo do processo de forma irregular, o que foi negado pelo MP.

Já no dia 26 de janeiro, a revista Veja divulgou um novo trecho do relatório, em que aponta que o filho do presidente Jair Bolsonaro teria movimentado R$ 632 mil de agosto de 2017 a janeiro de 2018.

Em 1º de fevereiro, o relator do caso no STF, Marco Aurélio Mello, derrubou a decisão de Fux e as investigações foram retomadas.

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Kabengele Munanga, o antropólogo que desmistificou a democracia racial no Brasil

Professor recebe homenagens pela luta contra todas as formas de discriminação racial: ‘Todos os racismos são abomináveis e cada um faz as suas vítimas a seu modo. O brasileiro não é o pior, nem o melhor, apenas tem suas peculiaridades’

O professor Kabengele Munanga: “Não há democracia racial no Brasil”
Foto: Cecília Bastos / USP Imagens
O professor dr Kabengele Munanga, antropólogo brasileiro-congolês, é uma das principais referências na questão do racismo na sociedade brasileira. Seus estudos, realizados desde a década de 1970, foram responsáveis por romper a visão eurocêntrica da antropologia, repensar a participação dos negros na história do país e, ainda, consolidar os estudos preparatórios para a Constituição de 1988, no eixo que tange os Diretos Humanos e combate à toda a forma de racismo no Brasil.

Por conta desse engajamento, Munanga vem recebendo ao longo de sua vida diversos reconhecimentos. Em 2018, a Universidade de São Paulo concedeu a ele o Prêmio USP de Direitos Humanos.

O mais recente reconhecimento aconteceu neste 13 de maio, quando a Área de Direitos Humanos da Faculdade de Direito da USP realizou um encontro para marcar também os 50 anos da assinatura, pelo Brasil, da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial.

Em entrevista ao GGN, Munanga comentou sobre a importante articulação da sociedade e movimentos civis para não permitir o retrocesso dos avanços já conquistados contra as diferentes desigualdades.

“A luta pela mudança, da transformação da sociedade, demora muito. Já tivemos no Brasil algumas conquistas, sobre a questão da igualdade entre branco, negro, indígenas e outros diferentes e isso foi luta de gerações do movimento negro que vem desde Zumbi dos Palmares”, explicou.

Kabengele defende ainda que o embate por justiça social não pode ser levado adiante apenas por meio do discurso.

“As palavras são importantes, mas a luta se faz com políticas e essas políticas estão sendo destruídas. A consciência está lá, o discurso está lá, mas não as políticas públicas, que estão sendo destruídas por uma conjuntura onde parece que não entenderam”, nota o antropólogo em relação às posturas políticas do governo Bolsonaro.

“A gente se pergunta o que está por trás disso, porque a questão para mim não é ser de direita ou ser de esquerda, a questão importante é saber como se viver em uma sociedade que tem problemas, onde você deve construir políticas sociais”, destaca.

A grande preocupação do antropólogo é que, enquanto a formação e consolidação de políticas públicas de afirmação e combate às desigualdades partem de um processo de anos, a destruição desses mecanismos, pelo contrário, pode acontecer em um curto espaço de tempo. Em outras palavras, o que está em andamento no país é o desmonte de um processo de conquistas históricas.

“A luta pela liberdade não tem preço. A única saída é a população se mobilizar para defender seus direitos, para que esse retrocesso não aconteça mais e que possamos recuperar o que está sendo perdido rapidamente, construindo mais do que o que já foi feito”, concluiu.



No caminho do bem

Presente na homenagem ao professor Munanga, o fundador da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, explicou que a luta contra o preconceito racial tem como particularidade o fato de ser uma luta civilizatória: “é uma luta de homens e mulheres em qualquer lugar do planeta, uma luta pelo bem, elevação, engrandecimento e pela plenitude do indivíduo humano em qualquer parte do nosso globo”, ressaltou.



A seguir, os principais trechos do discurso de Kabengele Munanga, realizado durante o evento em sua homenagem:

O silêncio e o não dito sobre o racismo brasileiro marca o preconceito da educação e da formação da cidadania em toda as direções. Como escreveu Eliane Cavalleiro, esse silêncio começa no lar e se prolonga na educação infantil, desde a escola.

Foi com essa consciência, com a consciência dessa lacuna, que organizei o livro Superando o racismo na escola, a pedido do Ministério da Educação, cuja a primeira edição, em 1999, contou com o prefácio do então Ministro da Educação Paulo Renato Souza, e a segunda impressão, em 2001, com o prefácio do então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Outras edições certamente vieram no governo do ex-presidente Lula.

Desde então, os convites começaram a chover de várias escolas, para dar palestras e conferências sobre o tema. Me lembro de uma aula marcada com educadores de uma escola pública da periferia de São Paulo, acho que era em Capão Redondo, se não me falha a memória. Me chegou um convite da Unesco, para ir à Paris, na Semana da África, que cai em maio de cada ano, para participar de uma mesa sobre a negritude, por causa de um pequeno livro que escrevi a respeito do Brasil.

A data da minha aula na periferia coincidia, infelizmente, com a data do embarque para Paris. Naquele dia pesou a consciência. Eu preferi declinar o convite da Unesco para honrar meu compromisso com os educadores da escola da periferia de São Paulo.

Não conto isso como autopromoção, mas apenas como exemplo de como a consciência pode pesar quando se trata de escolher entre interesses individuais e coletivos.


Sem dúvida, todos os racismos são abomináveis e cada um faz as sua vítimas do seu modo. O brasileiro não é o pior, nem o melhor, mas ele tem as suas peculiaridades, entre as quais o silêncio, o não dito, que confunde todos os brasileiros e brasileiras vítimas e não vítimas.

Como disse Ali Wiesel, judeu Nobel da Paz, o carrasco sempre mata duas vezes, a segunda é pelo silêncio, prática característica do racismos brasileiro que sempre mata duas vezes: mata fisicamente, como mostra as estatísticas sobre a genocídio da juventude negra em nossas periferias; mata na inibição da manifestação da consciência de todos, brancos e negros, sobre a existência do racismo em nossa sociedade. É por isso que eu costumo dizer que o racismos brasileiro é um crime perfeito.



Eu poderia ficar indiferente, me esconder no mundo dos brancos onde tenho amigos, não apenas no Brasil, mas também em outros países ocidentais. Digo com muito orgulho que minhas relações de amizade não têm fronteiras raciais, mas nem por isso vou negar uma realidade crua e chocante que, infelizmente, muitos brasileiros não enxergam pois confundem mitos e realidades.

É claro que as coisas estão mudando, a consciência vem crescendo, como mostrado aqui nas falas do ministro Lewandowski, do ministro José Gregório e professor Celso Lafer.


Num trecho de entrevista em minha homenagem, publicado na revista USP de agosto de 2017, as intelectuais pesquisadoras Silvia Dantas, Lígia Pereira e Maura Véras, me consideram como um intérprete africano no Brasil, porque perceberam que eu tenho um olhar diferente, uma leitura diferente de muitos brasileiros sobre a questão racial no país.

Mas esse olhar não é distante, frio, neutro (como diriam alguns, um olhar objetivo), é um olhar subjetivo, engajado, afetivo e apaixonado, um olhar de solidariedade que me acompanha cotidianamente no meu estilo de vida, nas minhas aulas e, sobretudo, nos meus textos.


O mito da democracia brasileira, apesar de já ter sido destruído política e cientificamente, tem uma forma inercial difícil de desmantelar. Se perguntarmos hoje aos norte-americanos, sul-africanos, europeus e brasileiros sobre a existência de preconceitos e discriminação racial em suas respectivas sociedades, teremos respostas diferentes a serem interpretadas de acordo com a época, a história de cada país e sua estrutura de poder.

Os norte-americanos, brancos e negros, poderão dar respostas claras e diretas. Atualmente alguns deles podem até dizer que os preconceitos raciais recuaram porque elegeram um presidente negro, além de apresentar hoje mobilidade social, na qual nota-se uma pequena burguesia. O sul-africano também não teria dificuldade para confirmar a existência do racismo e de suas práticas em sua sociedade. Alguns podem até dizer que esse fenômeno recuou com a supressão das leis do apartheid e pelo fato de os negros estarem no comando político do país.

Alguns franceses, alemães poderão dizer que em sua sociedade exista apenas a xenofobia em relação aos imigrantes e, não necessariamente, o preconceito racial.

A mesma pergunta feita aos brasileiros pareceria inconveniente, incômoda e até mesmo perturbadora. Muitos, comparativamente aos americanos, sul-africanos, não teriam respostas claras e diretas, suas respostas seriam ambíguas e fugitivas.

Para muitos, o Brasil não é um país preconceituoso e racista, sendo as violências sofridas pelos negros e não brancos, em geral, apenas uma questão econômica ou de classe social, que nada tem a ver com os mitos de superioridades e de inferioridade racial. Nesse sentido, os negros, indígenas e outros, não brancos, são discriminados porque são pobres. Em outros termos, negros, brancos e pobres, negros e brancos da classe média, negros e brancos ricos (não sei quantos negros ricos tem nessa sociedade), não se discriminam entre si, tendo em vista que eles pertencem todos à mesma classe social. Uma bela mentira.


Para algumas pessoas mais esclarecidas, e mais sensíveis ao cotidiano brasileiro, existe sim preconceitos e práticas discriminatórias no Brasil, em relação aos negros, povos indígenas e outros.

No caso dos resultados de uma pesquisa realizada pelo Datafolha, de 1995, que resultou na edição do livro Racismo Cordial, de Cleusa Turra e Gustavo Venturi, publicado pela Ática, seria interessante interrogar-se como o racismo pode ser cordial apenas no Brasil, e não em outro canto do mundo.

Nessa pesquisa, 89% dos brasileiros aceitaram a existência do racismo no país, embora apenas 10% tivesse confessado que conhecem pessoas que discriminam, ou que eles mesmo já teriam sido discriminados.

Perguntaram para as mesmas pessoas se elas não se importariam se suas filhas, seus filhos se casassem com uma pessoa negra. As respostas revelaram contradições até entre as pessoas que declararam que não são racistas, na medida em que não viam com bons olhos casamento inter-racial entre pessoas brancas e negras. Elas mostraram preocupação em ter netos negros ou mestiços que sofrerão também preconceitos raciais na sociedade. Reprovaram o casamento inter-racial deixando claro a ambiguidade que permeia a apologia da mestiçagem como símbolo da identidade nacional brasileira.


A dificuldade de combater o racismo brasileiro está justamente nas suas peculiaridades, que o diferenciam de outras formas de manifestação de racismo, conhecida na história como, por exemplo, o regime nazista ou o apartheid na África do Sul, para citar apenas os mais conhecidos. Nesses modelos, o racismo foi explícito, institucionalizado e oficializado pelas leis naqueles países. Praticou-se o racismo do estado.

No Brasil o racismo é implícito. De fato, ele nunca foi oficializado nos princípios da pureza de sangue, da superioridade e da inferioridade racial. Por causa dessa ausência de leis segregacionistas, os brasileiros não se consideram racistas, quando se comparam aos demais países.

Os brasileiros se olham nos espelhos sul-africanos, americanos e nazistas e se percebem sem nenhuma mácula, em vez de se olharem em seu próprio espelho. Assim ecoa, dentro de muitos brasileiros, uma voz muito forte que grita ‘não somos racistas! racistas são os outros!’. Essa voz forte e poderosa é o que chamo inércia do mito da democracia racial.



Kabengele Munanga, em 1977 enquanto apresentava sua tese de doutorado na USP

Veja ainda trechos das falas de autoridades que participaram da homenagem ao professor Kabengele Munanga:

– Nós [o estamos homenageando neste encontro] não só pela sua importância acadêmica na área da antropologia, nos estudos e na contribuição bastante destacada que nos trouxe do conhecimento global na área de seus estudos [sobre a questão racial no Brasil], mas principalmente pela honra que ele nos brindou de ser um professor integrante no nosso programa de Direitos Humanos – destacou Floriano Azevedo Marques, diretor da Faculdade de Direito da USP.

– O professor Kabengele Munanga é um exemplo de acadêmico e foi, como todos nós sabemos, um pioneiro do estudo científico da questão do negro em nosso país, com a sua expertise científica -, compartilhou o ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski.

– É importante repetir o quanto seus estudos são relevantes, particularmente, na esfera do direito, porque nós, por mais que tenhamos nos esforçado, a implementação de políticas públicas e de inclusão ainda é muito limitada. E os estudos do professor Kabengele nos mostraram duas coisas: primeiro, a dureza da realidade, como a realidade não se amolda aos nossos belos princípios; e, segundo, é sua própria figura, além dos estudos do professor Kabengele, e tudo o que foi feito por ele numa sociedade em que, nós sabemos, criam limitações em matéria racial -, ponderou o professor dos cursos de pós-graduação da Faculdade de Direito da USP, Calixto Salomão.

– O professor Kabengele Munanga reúne duas condições extremamente salientes para que sua vida se tornasse absolutamente emblemática: o fato de ser um estudioso profundo, alguém especializado com um alto gabarito na questão da desigualdade e discriminação racial; e alguém que, pelo seu exemplo de vida, pela sua atitude concreta consegue, e conseguiu, continuamente acender uma luz para que nós possamos ver mais longe no âmbito da discriminação racial e tomar medidas efetivas com base na sua eliminação -, prosseguiu Alberto Amaral Jr, coordenador da área de Direitos Humanos dos cursos de pós-graduação.

– É uma oportunidade prestarmos homenagem a um grande professor que tem com seu conhecimento ampliado a nossa percepção de problemas demonstrando, uma vez mais, qual é o papel das ciências humanas para o entendimento da sociedade e sua melhoria -, reforçou o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer.

– O professor Munanga é um símbolo do significado dessa luta política de tornar o Brasil democrático e mais igualitário -, pontuou o ex-ministro da Justiça e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Universidade de São Paulo José Gregório.

– Acho que quem não está aqui não está apenas marcando uma ausência, mas um ato de omissão histórica. O Brasil vai ser outro, mas por obra de pessoas como o senhor [Kabengele], do que aqueles que detém um poder extremamente frágil, temporário e não entendeu da missa a metade, pensando que nós fizemos alguma coisa com intuitos meramente ornamentais -, continuou Gregório, concluindo:

– Eles não sabem que nós plantamos fundo, temos raízes e essas raízes não vão se soltar a nenhum tipo de oposição que acontecer. Portanto, os Direitos Humanos estão vivos, dispostos e sem dúvida nenhuma símbolos como do professor Munanga nos propele a ter cada vez mais fé nesses direitos -.

– O professor Kabengele rompeu com a epistemologia eurocêntrica, quando trabalhou com antropologia na África, sobre os colonialismos. Essa é uma importância crucial, diz respeito ao conhecimento e nós somos tributários dele. O caminho que o professor Kabe criou é um caminho, até certo ponto, solitário ou até mesmo com poucos acompanhantes -, refletiu Leila Maria Gonçalves Leite Hernandez, atual chefe do Centro de Estudos Africanos da USP.

– Não menos importante é o fato de lembrar que, desde 1950, pensa-se muito no Brasil a questão do negro, então são estudos vários e, mais uma vez, os estudos do professor Kabe também propiciam uma ruptura com o eurocêntrico, a partir do protagonismo desses estudos, com acento muito claro nos movimentos negros, na participação dos negros na história do Brasil, do nosso país. Mais uma vez, é uma postura que põe em questão a produção que se fazia, até então, com outras indagações -, explicou a pesquisadora lembrando ainda que os estudos e trabalhos de Munanga contribuíram para a construção das pautas incluídas pelos movimentos negros na Constituição de 1988.

– Nessa manhã, celebramos em grande medida também Zumbi dos Palmares, as nossas heroínas, Luiza Mahin e Dandara dos Palmares. Eles, sem equipamentos da tecnologia, conseguiram resistir e nos entregar uma nação em gestação, no que diz respeito aos seus valores estruturantes, e nós aqui em pleno início do milênio ainda temos todas as dificuldades de consolidar aquilo que era os sonhos dos nossos fundadores – avaliou o sociólogo e fundador da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente.

– De modo que, pensar Kabengele Munanga, é pensar que essa construção foi uma construção de grandes heróis que, tendo todas as adversidades contra si, ainda assim puseram como compromisso e propósito a criação de uma pátria justa. Foram heróis aqueles que fizeram isso no passado e são heróis os que fazem isso no presente, e por conta disso nós estamos, a bem da verdade, homenageando um herói brasileiro, um herói de todos nós que é o professor Kabengele Munanga -, completou Vicente.

Participaram também da homenagem Eunice Aparecida de Jesus Prudente, professora doutora da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, e que coordenou os trabalhos da mesa; além de Laura Arantes Quintino dos Santos, a quarta mulher a presidir o Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito da USP.

Lilian Milena
No GGN
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Como a milícia digital bolsonarista resgatou sua máquina de fake news para atacar universitários

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil
Fazia meses que o cientista da computação Fabrício Benevenuto não via nada de novo na sua ronda diária por grupos políticos de WhatsApp. Criador de uma ferramenta capaz de elencar os conteúdos mais compartilhados no aplicativo, o WhatsApp Monitor, o professor associado da UFMG via com tédio os mesmos tipos de montagens, áudios, notícias falsas, correntes e vídeos motivacionais percorrerem sua tela, dia após dia nos 350 grupos políticos abertos que acompanha.

Na tarde de 8 de maio, porém, Benevenuto notou algo estranho: quase todas as imagens mais compartilhadas no seu sistema mostravam universitários nus, teses com nomes esdrúxulos e desenhos irônicos sobre estudantes de humanas. Aquilo, percebeu, não era espontâneo. Checou os altos números e concluiu que se tratava de algo novo, orquestrado. Estava diante de uma nova ofensiva da milícia digital de Bolsonaro, grupo que andava pouco ruidoso após as eleições.

“Soou como ataque, uma tentativa de desconstruir a imagem das universidades públicas com conteúdos antigos ou tirados de contexto, como se todas fossem uma bagunça”, diz Benevenuto. “Como trabalho em uma, fiquei preocupado.” Os variados tipos de compartilhamentos chamaram sua atenção. Notou que, depois de alguns meses de marasmo, muitos grupos ociosos associados a Bolsonaro espalhavam as mensagens com afinco comparável ao do ano passado, quando operavam em sua capacidade máxima e com fortes indícios de disparo em massa. Era o despertar de uma engrenagem que havia feito grande estrago meses atrás.
Das 30 imagens mais compartilhadas no WhatsApp em maio, 17 são referentes ao que bolsonaristas chamam de depravação nas universidades federais.  
O levante das redes bolsonaristas não vinha por acaso. Duas pesquisas divulgadas em maio apontavam para um naufrágio do otimismo com o presidente, Jair Bolsonaro. A primeira, do instituto XP Ipespe, mostrou que, de abril para maio, o percentual de ruim e péssimo na avaliação do Bolsonaro subiu de 26% para 31%; já a segunda, uma análise de sentimentos de redes sociais feita pela startup Arquimedes, apontou que, nas últimas semanas, mais pessoas que se mostravam neutras ao novo presidente passaram a avaliá-lo negativamente. Para as duas empresas, os principais motivos foram o desgaste entre militares e Olavo de Carvalho e o corte na educação anunciado no dia 30 de abril pelo novo ministro da Educação, Abraham Weintraub.

As táticas de guerrilha soavam similares às das eleições de 2018. Pelo WhatsApp, centenas de grupos de apoiadores de Bolsonaro passaram a espalhar imagens que reforçavam a ideia, endossada pelo próprio Weintraub, de que as universidades públicas se tornaram lugar de “balbúrdia”. Montagens de gosto estético e moral duvidosos foram replicadas sem parar. Eram fotos e vídeos de performances artísticas, capas de monografias sobre sexualidade e paredes com pixações provocadoras. Em cada mídia, havia a legenda com o suposto nome da instituição federal e um texto que dizia: “Veja em que se transformaram nossas Universidades Federais! É UM ABSURDO”.

Surtiu algum barulho. Segundo a ferramenta de Benevenuto, nas duas primeiras semanas de maio, das 30 imagens mais compartilhadas no WhatsApp, 17 são referentes ao que bolsonaristas chamam de depravação nas salas de aula das universidades federais. (De resto, quatro associavam Marielle Franco ao tráfico de drogas a outros crimes, três eram denúncias de militantes petistas infiltrados em grupos, uma era uma defesa para fechar o STF e cinco eram imagens com tarja preta de conteúdo impróprio — provavelmente parte de uma mensagem em texto.)

Algumas das imagens mais compartilhadas no mês de maio.
Crédito: WhatsApp Monitor

Benevenuto ressalta que seu software dá apenas uma amostra do turbilhão de montagens fabricadas a todo vapor: os 350 grupos que monitora são uma parte ínfima dos mais de 127 milhões de usuários e dos incontáveis grupos fechados no país. “Damos acesso a jornalistas e agora a pesquisadores para terem uma noção do que é compartilhado lá dentro, mas sabemos que não é um número preciso”, me disse Benevenuto.

Imerso em dezenas de grupos pró-Bolsonaro nos últimos dias, conclui que o grosso das mensagens dos bolsonaristas vem de grupos fechados, em que, em grande parte, apenas administradores podem enviar conteúdos. Vários dos grupos também adotam uma estratégia de renovação, isto é, são encerrados e depois abertos com outro nome e endereço. “É uma tática comum: eles fecham um grupo, depois mandam o convite para as pessoas que estavam lá entrarem em outro, assim vão renovando”, me disse Sergio Denicoli, diretor da consultoria AP/Exata e pós-doutor em comunicação digital. Isso explica por que vários dos grupos importantes durante a época das eleições não funcionam mais. Eles só mudaram de cara para provavelmente fazer uma faxina em usuários inativos.

Estudioso das redes de Bolsonaro desde 2017, Denicoli também notou atividade incomum nos últimos dias. De primeira, diz, os militantes de direita iniciaram sua tática de testar narrativas. No caso, a de que universidades públicas são lugares repletos de nudez, performances e cursos inúteis. “Eles vão chegando, vão testando narrativa, ensinando como argumentar”, explica Denicoli. “A eleição foi uma guerra retórica. A rede do Bolsonaro foi muito inteligente, impôs os temas que queria, e as pessoas repetiam os argumentos, mas agora não estamos vendo o mesmo sucesso.”
‘Os movimentos começam nos grupos e se cristalizam no Twitter, mas isso pode levar dias ou semanas. O laboratório é o WhatsApp.’  
Na análise de Denicoli, o corte na educação desagradou e mobilizou muita gente, o que fez com que os grupos de WhatsApp pró-Bolsonaro tentassem mais esforços para reverter a opinião de massa. O tiro, no entanto, saiu pela culatra. “Notamos em nossos dados que o movimento da educação é o mais importante da oposição, tem uma capilaridade e uma autenticidade muito fortes. São muitos pais, alunos e funcionários que fazem parte do sistema educacional, eles sabem que a realidade não é como os memes. Algo parecido ocorreu no Carnaval, quando Bolsonaro tentou generalizar o Carnaval com a polêmica do golden shower. Algumas narrativas não funcionam.”

Baseada em recursos de inteligência artificial e conceitos da psicologia, a análise de Denicoli capta oito tipos de emoções nos textos deixados em redes sociais como Instagram, YouTube e principalmente Twitter. Sua plataforma consegue, pela combinação de palavras dos usuários, saber se uma mensagem possui sensações como indignação, raiva, tristeza, desgosto, alegria ou confiança. Sua conclusão, depois confirmada pelas pesquisas de opinião, é que, ainda que Bolsonaro ainda conte com grande confiança em parte do seu eleitorado, os índices de medo e tristeza subiram bastante. “A rede de Bolsonaro era o único discurso vigente, era a mais barulhenta, mas agora as redes de esquerda cresceram”, diz Denicoli. “Começou a ter uma mobilização das pessoas pedindo mobilização, as pessoas demonstraram interesse e aí surgiu a ideia de greve dos movimentos sindicais. Foram manifestações espontâneas, principalmente de estudantes, que ganharam adesão.” A referência de Denicoli é à greve e aos protestos que estão marcados por todo o país para esta quarta-feira com milhares de menções nas redes sociais.

Os dados de Denicoli lidam com a parte acessível, mais clara, das redes bolsonaristas. Segundo ele, o Twitter é onde ocorre a segunda etapa da estratégia, a parte final e concreta das pautas do clã de Bolsonaro. Lá é onde se consolidam as narrativas iniciadas na parte escura, mais difícil de mensurar e de rastrear, no WhatsApp. “Os movimentos começam nos grupos e se cristalizam no Twitter, mas isso pode levar dias ou semanas. O laboratório é o WhatsApp.” Isso significa que, daqui pra frente, no Twitter, no Facebook e no YouTube, provavelmente haverá uma enxurrada ainda maior de montagens a fim de desmoralizar as instituições públicas de ensino.

Os conteúdos são disseminados primeiro no WhatsApp
e depois espalhados para outras redes sociais.
Crédito: Viktor Chagas/ UFF

Nas esteiras da fábrica de fake news

O pesquisador Viktor Chagas, da Universidade Federal Fluminense, analisa desde o começo do ano passado como funcionam as redes bolsonaristas no WhatsApp. Com a ajuda de sua equipe, ele monitora mais de 150 grupos de apoio ao político do PSL. Chagas foi o primeiro a expor, no ano passado, a existência de variados tipos de grupo pró-Bolsonaro que integravam uma estratégia maior e calculada. De acordo com ele, havia ao menos três espécies: o de divulgação (que envia links, panfletos etc.); o de mobilização (que incentiva boicotes ou subidas de hashtags, bem como ações nas ruas); e os de debate (responsáveis pela elaboração das narrativas e trocas de conteúdos). Todos eles, afirma Chagas, seguiam uma hierarquia e eram divididos de acordo com localização. A lógica se mantém viva hoje, ainda que, ao menos até semanas atrás, houvesse uma escala bem menor de mensagens e produção.

“Houve uma latência na transição pro novo governo, em janeiro”, afirma Chagas. “Teve uma baixa de usuários e muitos grupos estavam aguardando sinal para retomar a força de antes. Em meados de janeiro, começaram a voltar os listões públicos e adesão em massa para desmobilizar a oposição.”
‘Há um claro indicativo de que se trata de trabalho profissionalizado, de disparos automatizados.’  
Os listões a que Chagas se refere são nomes e endereços de canais pró-Bolsonaro no WhatsApp de acordo com tema e região. Podem ser chats como “Lavatogas ZAP” (que busca uma limpeza no judiciário) e o “Rede Bolsonarista TO” (de militantes de Tocantins). Eles podem ser acessados em sites e plataformas específicas, como o zapbolsonaro.com e a rede social de extrema-direita Gab, em que moderadores informam quais grupos possuem vagas. A ideia, diz o pesquisador, é manter os grupos funcionando no limite da plataforma, de 256 membros. Também notei que existem espécies de mensageiros individuais que passam a enviar mensagens em separado para todos os integrantes dos grupos. Ao entrar em um grupo pró-Bolsonaro em SP, por exemplo, vários usuários pediram autorização para enviar conteúdos de direita diretamente via celular.

Os disparos em massa, muito falados durante as eleições, também continuam. “É possível reparar em padrões de disparo profissional para os mesmos grupos quatro vezes ao dia, em horários diferentes, pela manhã, à tarde, à noite e de madrugada”, afirma Chagas. “Há uma circulação bastante intensa de imagens e apelo persuasivo das mesmas fontes, reiteradamente acionadas. São vídeos de influenciadores, como Luciano Hang, dono da Havan, e de anônimos em situações cotidianas.”

Definir com precisão quem está no comando das operações não é possível. Hoje, a maior parte dos moderadores usa números internacionais — durante a apuração, quase todos os prefixos com que cruzei eram de cidades dos EUA. Ainda assim, há algumas pistas deixadas na época da eleição. O número público do celular de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República e deputado federal eleito ano passado, era um dos que mais liderava grupos de WhatsApp em setembro de 2018, segundo Viktor Chagas. Eduardo moderava mais de 30 grupos. Agora o número está desativado. Em seu lugar, entraram números internacionais sem nome ou foto para identificação.

“Há um claro indicativo de que se trata de trabalho profissionalizado, de disparos automatizados, mas isso por si só não é ilegal”, diz Chagas. O problema, claro, é quando essa profissionalização de envio de mensagens em massa se trata de uma fábrica de notícias falsas e informações tiradas de contexto. A Justiça Eleitoral, porém, ainda não encontrou meios de mapear ou rastrear os autores de conteúdos mentirosos e de má fé, como os memes que mentem sobre a questão estudantil.

O ponto destacado lá em cima nos dois gráficos é Eduardo Bolsonaro.
Crédito: Viktor Chagas/ UFF

A incidência de mensagens nos grupos bolsonaristas de WhatsApp é por certo menor do que na época das eleições. Pelo Monitor WhatsApp, a plataforma que serve como amostra de Trending Topics de grupos abertos do aplicativo, o número de compartilhamento dos principais conteúdos chega a ser dez vezes menor do que em outubro. Uma das hipóteses dos pesquisadores é que agora, após as eleições, há menos financiamentos de disparos em massa profissionalizados do que no segundo semestre do ano passado.

Em outubro de 2018, reportagem da Folha de S. Paulo mostrou que diversos empresários — entre eles Luciano Hang, da Havan — contrataram agências para espalhar mensagens contra o PT no WhatsApp. Cada contrato teria o valor de R$ 12 milhões. A prática, tida como ilegal por consistir em doação de empresas para campanha, ainda continuaria em ação nesses primeiros meses de governo, mas em menor escala. Para os pesquisadores, o levante das redes está crescendo aos poucos com três pautas principais: manter o COAF com Moro, os ataques ao Supremo e a deslegitimação dos movimentos estudantis.

Outro ponto de consenso entre os pesquisadores é que a equipe de Bolsonaro se planejou com antecedência para montar sua estratégia de WhatsApp. As principais evidências são a grande organização hierárquica das redes e, também, dois projetos de lei que o então deputado federal Jair Bolsonaro apresentou em 2017, claras demonstrações de sua preocupação com WhatsApp no futuro. O primeiro deles dizia que apenas juízes do STF poderiam derrubar aplicativos e redes sociais no Brasil e o outro impediria operadoras de oferecer planos de internet com dados limitados; em ambos os casos, a justificativa do parlamentar é a de que as medidas evitariam a ameaça à livre circulação de ideias no Brasil.
Bolsonaro agora tenta se apoiar numa máquina baseada em robôs e mentiras orquestradas — a mesma que o elegeu — para recuperar apoio popular.   
Para Denicoli, o ponto de partida da estratégia digital de Bolsonaro contou com uma imensidão de perfis automatizados no WhatsApp e, depois, no Twitter. “No começo da campanha, o número de robôs era muito alto. Eles estavam construindo narrativas em cima dos temas de modo experimental”, diz. “No final, eles conseguiram estabelecer um apoio real das pessoas, muitos compraram a ideia e viraram cabos eleitorais.”

De tanto serem replicadas, as mensagens encontraram seus receptores e adoradores. E a lógica segue no Twitter –um levantamento recente apontou que mais da metade dos seguidores de Bolsonaro é falso. A conclusão foi do Fake Followers Audit, uma ferramenta capaz de determinar a porcentagem de seguidores automatizados — isto é, robôs ou bots — que cada usuário tem. O método é estatístico: a empresa pega uma amostra aleatória de dois mil seguidores e analisa um a um. O software verifica dados que podem caracterizar ou não um perfil falso: número de seguidores, discrepância na localização, inexistência de foto de perfil, alta frequência de posts, baixo número de seguidores, data de criação da conta, dias de inatividade e a linguagem usada. Segundo esses critérios, cerca de 60,9% dos quatro milhões de seguidores de Jair Bolsonaro (mais de 2,5 milhões de usuários) são contas inativas. A companhia estima que, em cada post de Bolsonaro, 17% dos retuítes são feitos por perfis fakes. Embora os próprios autores da ferramenta reconheçam que ela não é infalível, o cálculo é eficaz para estimar porcentagens de seguidores falsos.

Bolsonaro agora tenta se apoiar numa máquina baseada em robôs e mentiras orquestradas — a mesma que o elegeu — para recuperar apoio popular. Mesmo depois de assumir a presidência, o político não se esforçou num discurso apaziguador, de união. No mundo real, ele segue com seu posicionamento contra minorias, numa fantasmagórica luta contra o comunismo e o que chama, sem saber articular, de ideologia de gênero. As redes o acompanham nisso e devem seguir essa lógica enquanto houver lenha para queimar. “A rede é toda mobilizada pela raiva, a gasolina é o conflito”, afirma Denicoli.

O problema que se expôs para o presidente é que nem sempre o WhatsApp pode instigar o ódio e criar uma realidade paralela endossada pela população. Boa parte dos brasileiros não acha que o Carnaval é sinônimo de golden shower e que a universidade é lugar em que todos assistem aula pelados. Ainda que lentamente, a máquina de mentira do clã bolsonarista parece perder sua força.

Guilherme Pavarin
No The Intercept
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Internet cristalizou o fascismo no Brasil!

Zeca Peixoto: vivemos sob um fascismo algorítmico!


O Conversa Afiada publica, com exclusividade, entrevista que o jornalista Antonio Nelson fez com Zeca Peixoto, jornalista e mestre em História Social:

Jornalista, mestre em História Social, pesquisador de História da mídia e professor, Zeca Peixoto nasceu há 55 anos no sul da Bahia, Itabuna. Antes de cursar Jornalismo, fez Sociologia. Em 2003, concluiu mestrado em História Social, quando estudou a propaganda nazista na imprensa brasileira. Leu os clássicos, lógico – Marx, Weber, Hegel. Confessa, no entanto, que Herbert Marcuse e William Reich estão em Zeca até hoje.

Atualmente Zeca tem se dedicado às pesquisas de cibercultura, jornalismo expandido, jornalismo de dados e repercussão de narrativas em ambientes digitais.

No Observatório da Imprensa já concedeu entrevista exclusiva, em que tratou da interferência do poder econômico e político na ética jornalística e no interesse público, da distribuição gratuita dos jornais impressos e da crise dos impressos no Brasil com o advento do jornalismo online.

Em 2013, Zeca Peixoto, ao lado dos jornalistas Adriano Ribeiro e Antonio Nelson, entrevistou o hacker Stanley Burburinho – que tem formação acadêmica no respeitável Instituto de Tecnologia de Massachusetts -, para o site do jornalista Luís Nassif. A entrevista tratou de temas como jornadas de junho e a então inicial experiência do coletivo Fora do Eixo, que abriga o movimento Narrativas Independentes de Jornalismo Alternativo, o Mídia Ninja.

Em sua dissertação de mestrado, Zeca estudou a propaganda nazista no Brasil no período de 1935-1941, com recorte no Diário de Notícias da Bahia, jornal que foi aparelhado pelo Partido Nazista. Esta pesquisa, hoje alojada na Biblioteca Online de Ciência da Comunicação da Universidade da Beira Interior, de Portugal, descortinou um lado desconhecido da historiografia baiana. O trabalho foi citado no livro Marighella, do jornalista Mário Magalhães. Há três anos Zeca também foi partícipe do livro Facebook e Educação, publicado pela Universidade Estadual da Paraíba. Este trabalho reuniu pesquisadores brasileiros e portugueses e foi indicado ao Prêmio Jabuti 2016 na categoria Pedagogia e Educação. E sua versão em inglês participou da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, em 2017. Aqui, numa entrevista exclusiva para o Conversa Afiada, soa um alerta para a reconquista da democracia brasileira com o jornalista Zeca Peixoto!

Antonio Nelson – Estamos vivenciando um projeto pós-neofascista?

Zeca Peixoto – Certamente está em curso um processo político-econômico-midiático que tem se apresentado hegemônico em diversos locais do mundo, e o Brasil não escapou desse enredo. Por vários motivos, seja pela sua importância na geopolítica internacional; seja pelo fato de que o projeto ultraneoliberal no país entendeu a necessidade de radicalizar. Recentemente, o juiz Rubens Casara, integrante do coletivo Juízes Pela Democracia, publicou trabalho que debate a questão da pós-democracia e o estado autoritário. Um trabalho denso, registre-se. Nele, o autor aponta, embora não textualmente, uma espécie de fascismo conduzido pelos interesses do mercado, o que difere do fascismo clássico como conhecido nas décadas de 20, 30 e 40 na Europa. Na prática, não tem absolutamente nenhum traço nacionalista, apenas no apelo narrativo e, via de consequência, emotivo. A pauta conservadora, dos costumes, que se apresenta a granel, não é o que está por detrás das coxias. No entanto, é uma estratégia muito inteligente de construir consensos sem debates e se ancora em formulações patéticas e risíveis que servem como animus e despiste para a execução de uma pauta política e econômica que violenta direitos sociais e vai gradativamente podando as liberdades coletivas e individuais.

– Este projeto pode ser caracterizado como uma doença?

– Olha, não me atreveria a responder se seria ou não uma patologia coletiva (risos), prefiro que os psicólogos sociais respondam. Mas me atreveria a resgatar o psicanalista alemão William Reich, em seu trabalho "Psicologia de Massas do Fascismo", e entender que há sim uma situação preocupante no rol de narrativas que têm ganho muitas adesões. É uma guerra semiótica sem igual com a finalidade de mobilizar mediante a polêmica. A ideia é atrair o foco para fatos que dizem respeito aos costumes e valores morais para desviar atenção e ganhar adesões das parcelas conservadoras da sociedade. Instala-se o baratinho por meio de pronunciamentos descabidos para prosseguir a agenda política e econômica de depredação dos direitos sociais. Dia desses a ministra da Mulher e Direitos Humanos declarou sobre cores que meninos e meninas deveriam usar. O ministro da Educação, por sua vez, mandou "recomendação" a diretores de escolas para que alunos cantassem o hino nacional ao tempo que seria lida carta escrita por ele a qual finalizava com o slogan da campanha eleitoral do atual presidente. E tudo deveria ser filmado e enviado ao MEC. Já o ministro das Relações Exteriores afirmou ser o desequilíbrio climático uma "invenção do marxismo cultural". Nem mesmo a tragédia do falecimento de uma criança de sete anos, neto do ex-presidente Lula, foi polpada. O fato serviu de chacota para políticos ligados ao presidente, a exemplo da atitude de um senador da República, filho do mandatário da nação. Posteriormente, de próprio punho, suponho, o presidente, no intuito de contra-atacar o mar de descontentamento com a sua pessoa registrado durante o carnaval, postou vídeo escatológico que associou à folia. Um episódio ocorrido num outro país e não no Brasil. São muitos exemplos. Foi escolhido um inimigo único, que é o pensamento à esquerda e quaisquer bandeiras que se posicionem como libertária ou de afirmação de minorias, e, sobretudo, de opção sexual, gênero etc. Traço clássico do fascismo. Não obstante, é, reitero, um projeto predador para os trabalhadores.

– Quais consequências este projeto predador vem ocasionado e pode ainda mais ocasionar no indivíduo e na sociedade?

– É um projeto no qual o Estado sai gradativamente de cena como garantidor de políticas públicas inclusivas e distributivas e o "mercado", com destaque para o setor financeiro, passa a gerir essas ações. É o lucro pelo lucro, apenas. Um exemplo é a Reforma da Previdência, cujo projeto de lei está em tramitação no Congresso. É mais ou menos a cópia do modelo chileno à época da ditadura do general Pinochet, quando a agenda econômica do Chile foi ditada pelos "Chicago boys", numa alusão aos integrantes da equipe que deu suporte às mudanças que resultaram no desmonte do Estado naquele país. Eram jovens técnicos norteados pelo pensamento da Escola de Chicago. E entre seus "gurus" estava Milton Friedman, um dos artífices da "doutrina do choque". No Chile, foram registrados centenas de casos de suicídios de idosos. O modelo de capitalização da previdência lá implantado favoreceu aos bancos. As pessoas se aposentavam e recebiam um valor poupado que lhes garantia apenas cerca de cinco, seis anos à frente para usufruir da aposentadoria. E os bancos usavam essas poupanças para aplicações financeiras que lhes rendiam lucros exorbitantes. É este o modelo que desejam implantar no Brasil. Talvez até mais cruel, uma vez que, caso o texto seja aprovado, não sei se sobrará tempo para alguém usufruir da aposentadoria.

– Como jornalista, mestre em História Social e pesquisador de História da mídia, em suas pesquisas você tem identificado o fascismo algorítmico? Como se deu essa descoberta e qual seu alerta para o bem-estar do indivíduo e da sociedade?

– Não que eu tenha identificado ou descoberto nada! (risos). Não tenho essa presunção e não sei se algum pesquisador ou teórico já utilizou esse termo. Não quero criar neologismos (risos). Mas o que comecei a entender como "fascismo algorítmico", sem querer lançar mão de conceito ou que valha, decorre da profunda mudança da economia política da mídia na qual o online está determinando a sociabilidade off-line. É um processo em curso. Pergunto: o que o tempo de televisão, por exemplo, determinou nestas últimas eleições? Ou mesmo na anterior? Nada, absolutamente nada. Nesta última, o processo foi movido com intensidade por aplicativos de comunicação instantânea, como o Whatsapp, e as redes sociais, que tiveram papel importante como escoadoras dos conteúdos viralizados. Quando Steven Bannon, ex-assessor de mídia do Donald Trump, decretou "o fim do jornalismo" muitos se puseram em alerta. A grande mídia corporativa, que sempre pendeu ideologicamente mais à agenda da direita liberal, também foi encurralada pelas fake news. Caiu em descrédito entre a maior parte dos seus antigos leitores, ouvintes, internautas e telespectadores, aqueles mesmos aos quais, no caso do Brasil, ela impregnou a ideia da culpabilidade seletiva ao campo político da esquerda. E o que verificamos no país em 2018? A cobertura das eleições foi para o ostracismo enquanto uma nuvem gigantesca de informações falsas conseguiu convencer milhões de pessoas de que, caso um candidato da centro-esquerda vencesse, bebês estariam vulneráveis à "mamadeira de piroca" e o Brasil se converteria numa "ditadura gay", entre outros absurdos. Se lembrarmos as orquestrações de mídia na Alemanha nazista, veremos que existem muitas pontes entre aquele momento e o atual do Brasil e em outros locais do mundo. Os esquerdistas, os LGBTs, as feministas e outras posturas afirmativas mais libertárias se constituíram nos bodes expiatórios. Um elenco de narrativas que afirma o que muitos gostariam de ouvir porque, no fundo, os receptores coadunavam com os pontos de vistas e atitudes de uma sociedade conservadora e que nada tem de "cordial". E esse fenômeno midiático abriu as portas à assunção de explícitas posturas ultradireitistas, racistas e homofóbicas. O sujeito cheio de ódio não pensava duas vezes em não apenas afirmar essa condição ideológica, como encaminhava conteúdos falsos sem quaisquer ponderações. E não eram grupos de pessoas sem nenhum conhecimento. Contrário. Eram advogados, médicos, entre outras categorias profissionais. E estas informações eram passadas por aquele "tio super gente boa e que sabia o que estava falando". O poder de persuasão desse "tio", em boa medida, se sobrepôs aos conteúdos advindos dos órgãos de imprensa. E por mais que os motores de busca da Internet, a exemplo do Google, tentassem atuar para neutralizar e eliminar conteúdos falsos, assim como as agências de verificação que proliferaram aos montes, era causa perdida. Estes conteúdos circulavam pelo Whatsapp, pelos robôs do Twitter e fanpages do Facebook. Vale lembrar que estas duas empresas ainda eliminaram páginas e perfis suspeitos e o jornal Folha de São Paulo denunciou o abuso econômico por parte de certa candidatura que inundou o Whatsapp de mentiras. Era tarde. O modelo de propagação de mentiras em massa, escolhendo o inimigo único e assumindo às claras a condição de ultradireitista, só foi possível no século XXI em decorrência da Internet. O constructo discursivo de que ser de direita representa um pacto moral entre as "pessoas de bem" e que todo os males residiam na esquerda, triunfou. Neste bojo, foi legitimado o discurso armamentista, uma das bandeiras de campanha da candidatura vencedora. No primeiro turno foram muitos os casos de eleitores que registraram seu voto empunhando armas para posteriormente difundirem as imagens nas redes sem nenhum prurido ou qualquer constrangimento. O que para muitos significava a barbárie, o horror, para milhões significou a vitória "moral". Foi registrado verdadeiro frenesi nas redes sociais com este tipo de conduta, que, não raro, incluía detratar negros, gays, nordestinos etc. Repito sem nenhum receio: a Internet foi o amálgama que cristalizou o fascismo no Brasil como movimento de massas.

- Qual o alcance das fake news e como funciona?

- Vale lembrar o que disse o professor Wilson Gomes, que coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), entidade sediada na Faculdade de Comunicação da UFBA, durante evento realizado no último mês de dezembro em Salvador. Gomes atesta o fenômeno da propagação de grande alcance de fake news com uma dinâmica de funcionamento interno e atores bem definidos – quem posta, quem organiza e quem consome os conteúdos que foram produzidos para as eleições de 2018 por parte da candidatura vencedora. Para o professor, foi uma campanha 3.0, orgânica, com produção profissional para disparos em massa. No mesmo evento, o pesquisador João Guilherme Santos, integrante do Grupo de Pesquisa de Comunicação e Política da UERJ, assegurou que a eficiência do WhatsApp na campanha eleitoral de 2018 pode ser atribuída à necessidade de alcançar segmentos propensos a acreditar em fake news. A hipótese de João Guilherme é de que “apenas os grupos mais propensos a acreditar numa notícia falsa deveriam receber a informação relacionada àquele tema”. E foi uma pesquisa de fôlego. O doutorando da UERJ analisou cerca de 400 mil mensagens circuladas em 90 grupos relacionados como de apoio ao candidato vencedor. Ele verificou a adesão às informações falsas e sua fácil disseminação. O mesmo foi identificado anos antes pelos pesquisadores Sinal Aral e Soroush Vosoughi, ambos do MIT. Num estudo profundo e que abrangeu a trajetória do Twitter desde seu início, eles coletaram 126 mil cascatas de tuites (cadeias de retuites com uma origem comum) que circularam nesse período e verificaram a veracidade ou falsidade do conteúdo espalhado. Segundo Aral e Vosoughi, as notícias falsas se propagavam mais longe, rápido, fundo e amplamente que as notícias verdadeiras em todas as categorias de informação. E as notícias políticas falsas se propagavam ainda mais longe, rápido, fundo e amplamente que qualquer outra categoria.

– As Fake News tratam-se também de um eufemismo?

– Fake news não é fenômeno novo como resultado de uma ação narrativa para desconstrução política ou de reputação. Sempre existiu. Um exemplo: a disputa entre o Vaticano e o emergente protestantismo nos séculos XV e XVI foi, grosso modo, uma guerra de informação no varejo muito mais do que um embate no campo da teologia. Tanto que no século XVII Roma constituiu um centro, o Colegio de Propaganda Fide, para que a narrativa da Igreja Católica recuperasse o espaço perdido em decorrência das ações de comunicação protestante. Martinho Lutero e seus seguidores sabiam muito bem se comunicar para desconstruir as teses católicas. E no século XXI, a Guerra do Iraque, a exemplo da circulação da existência de armas de destruição em massa naquele país com o endosso da maior parte da grande mídia mundial. Nunca existiram essas armas, mas a invasão estadunidense precisava ser justificada. No entanto, o uso da expressão fake news, a meu ver, decorre do expediente de espalhar notícias falsas contando com a catapulta dos algoritmos, com as novas tecnologias de comunicação. A abrangência é bem maior. De posse de um computador, um celular ou um tablet as pessoas se empoderam como receptoras e produtoras de conteúdos. E a emoção determina. O que chega ao seu grupo de afinidade no Whatsapp é a afirmação do sentimento. Tem que ser espalhado. Não há racionalidade. O fato de não ser verdade é irrelevante. Não há porque concentrar atenção para verificar a veracidade. É o dedo nervoso despachando o conteúdo como se estivesse com um gatilho de metralhadora. As retenções são rápidas, superficiais e pouco profundas. Não se dedica tempo. A time line corre e o que chega e se encaixa nas chaves emotivas das pessoas é prontamente repercutido, retuitado, compartilhado e encaminhado às listas.

– Neste oceano de informação, o que é verdade noticiosa? O que é Fake News? O que é o capitalismo cognitivo?

– No Jornalismo costumamos dizer que a verdade noticiosa é igual a vinho, toma a forma do vazo (risos). Mas aí você parte para a questão do capitalismo cognitivo. Vamos lá. Existe um campo relativamente novo que está sendo estudado de forma multidisciplinar, que é a economia da atenção. Diante da imensa quantidade de informação ofertada, a atenção é dispersa. E o que isso tem a ver com capitalismo cognitivo? Tudo. Informação é mercadoria, não importa a qualidade, o Facebook e o Google que o digam (risos). Todos trabalham de graça para estas empresas alimentando-as de conteúdos, e muitos são inverídicos. Um outro aspecto é sobre as tendências de consumo de mídia. Tem canal do YouTube com milhares de seguidores que entrega como conteúdo mãos abrindo presentes sem sequer mostrar o rosto do youtuber. Dia desses minha filha de 10 anos assistia um conteúdo o qual eu não entendia o que entregava. Perguntei do que se tratava: "sons, pai, zuadinhas". Ok! (risos). Friso, o teor do conteúdo é o que menos importa. Imagine então num aplicativo de comunicação instantânea, que é o caso do Whatsapp, que tem um campo visual bem menor? O dispositivo utilizado massivamente é o smartphone, é bom lembrar. Por vezes, são conteúdos com edições extremamente elaboradas que resignificam uma mensagem de vídeo, trabalhando um texto que não é o original numa imagem real. Os movimentos labiais da fonte não se alteram, tão pouco sua voz, mas a mensagem é completamente distorcida. É o que alguns pesquisadores têm denominado de "mídia sintética". Neste caso, nunca foi tão premente o papel do jornalismo profissional ante essa fissura na sua deontologia. Creio que o caminho consiste num amplo processo de reeducação dos consumidores de mídia. É o momento também dos cursos de Comunicação reverem seus currículos, extremamente ultrapassados ante este novo panorama da economia política da mídia. E vou mais além, a questão da verdade jornalística deve ser cadeira curricular nos ensinos médio e fundamental, muito embora ache improvável que esta questão seja refletida pelo atual grupo que está no poder no Brasil. Por motivos óbvios. Mas se algo não for feito, a "verdade" envelopada conforme os interesses dos emissores, que sempre existiu, vai ganhar proporções incontroláveis. Porque não se trata mais de lidar com os órgãos noticiosos, mas com milhões de pessoas que produzem conteúdos e são recrutadas, conscientemente ou não, para disseminar mentiras. Não estou querendo ser pessimista, mas entendo que é um problema que vai ser ainda mais agudo e não terá solução tão cedo. E nesta quadra histórica, a extrema-direita tem utilizado com maestria esse expediente, ganhando espaços em diversos locais do mundo. As fake news destroem a democracia e a economia. Por isso faço essa leitura inicial do fascismo algorítmico.

– Quais formas de se contrapor a este cenário?

- O que eu chamo, até como norte de visão, de fascismo algorítimico, é o tentáculo mais estratégico do fascismo contemporâneo ultraneoliberal. Acha que foi à toa que o ministro da Educação pediu para filmarem as crianças nas escolas cantando o hino nacional e entoando o slogan de campanha do presidente? Claro que não! Pode até parecer uma estapafúrdia nuvem de fumaça etc., mas tem sentido. Já imaginou o que pode ser feito com milhares de vídeos com este tipo de conteúdo e factíveis a edições extremamente sofisticadas? É Goebbels (ministro da propaganda de Adolf Hitler) com todas as letras! Vai, aos poucos, se consolidando uma espécie de mídia-gestão, na qual o baratinho proposital, mesclado a estratégias de propaganda bem montadas com suporte em aplicativos de comunicação instantânea e redes sociais, se encarrega de construir os mais horrendos consensos. E a forma de contraposição a estas ações é a educação e a construção de amplo debate no campo das esquerdas que parecem, em boa medida, ainda não entender este macabro enredo. É preciso partir pra cima.
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