11 de mai. de 2019

A política da mesquinharia: Bolsonaro se vinga do Exército, das universidades e do Ibama

Villas Bôas, ex-comandante do Exército, e Bolsonaro
Jair Bolsonaro instituiu a cretinice, a mesquinharia — e a vingança como políticas de estado.

O ataque às universidades tem como alvo o pensamento crítico. O objetivo é tentar destruir uma área de resistência aberta ao fascismo desde a campanha.

Limítrofes, Bolsonaro e os meninos odeiam coisas de esquerdistas como livros e professores.

Cabeça vazia é oficina do Olavo, mentor intelectual do ministro Abraham Weintraub, cujo boletim dos primeiros três semestres na USP é uma vergonha.

Nota 0,5 em “Introdução à Economia I”, 2,0 em “Contabilidade e Análise de Balanço” e 0,0 em “Complementos de Matemática”.

O ressentimento dessa turma com relação à vida acadêmica é claro como a água de Cayo Largo.

Eles nunca foram bem vindos ali, donde a campanha difamatória movida por milícias virtuais com vídeos e fotos de “orgias” com maconha, Chico Buarque e Paulo Freire.

O mesmo sentimento move o capitão em sua agressão ao Exército, fiador de sua vitória.

Sua carreira na caserna se encerrou precocemente depois de um plano terrorista frustrado para explodir uma adutora no Rio de Janeiro.

Foi afastado em 1988, com apenas 15 anos de serviço e 33 de idade.

Era um “bunda suja”. Geisel disse que se tratava de um “mau militar”. Jarbas Passarinho o desprezava.

A humilhação a que Olavo submete os generais tem o incentivo público de Jair.

O sujeito que, dos EUA, acusa Santos Cruz de ladrão e Villas Bôas de “doente preso a uma cadeira de rodas”, é um “ícone, verdadeiro fã (sic) para muitos”, segundo Jair.

O Ibama, que o multou por pescar em área protegida, está sendo sufocado.

Ricardo Salles, da pasta do Meio Ambiente, foi o pistoleiro de aluguel contratado para o serviço.

O funcionário que o pilhou em Angra foi exonerado.

No final das contas, o que Jair quer é se vingar do Brasil, especialmente à medida que o fracasso bate à porte.

Esse é o verdadeiro tsunami que ele promete.

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Um país dominado pela burrice institucional

Têm-se o caminhão sem freio em direção ao precipício e não há uma voz de racionalidade para apontar o desastre que vem pela frente.


A insistência de Paulo Guedes com a Lei “Mansueto” do Teto lembra, em muito, o Plano Cavallo e a maneira como a política econômica se subordinou à cegueira generalizada das agências de ratting.

Na época, a Argentina esvaindo-se em sangue, a miséria avançando de forma galopantes, o PIB despencando, e as agências de risco recomendando mais cortes fiscais. A cada nova recomendação aceita, o mercado festejava, os papéis da Argentina tinham uma pequena melhora para despencar alguns dias depois, por absoluta impossibilidade de sustentar os cortes.

Até que surgiu a ideia do currency board, a dolarização completa da economia argentina. A lógica era monovôltica. Com a economia dolarizada, o Banco Central não poderia emitir mais moeda. Não emitindo, não haveria mais tergiversação: haveria corte na veia, custasse o que custasse.

E, com o louco preso na camisa de força, voltaria a fé nos mercados.

Logo após o anúncio do currency board, a Standard & Poors brasileira armou um almoço do principal responsável pela área da América Latina na matriz com jornalistas econômicos.

Durante o almoço, sutilmente fiz ver ao nobre analista que ele tinha pirado na maionese.

Terminado o almoço, Regina, a simpática diretora da S&P no Brasil me telefonou perguntando se poderia levar o gringo no meu escritório para explicar melhor a lógica. Aceitei, é claro.

No dia seguinte, estavam ambos na minha sala, repetindo a explicação acima. Era a visão de contador analisando um balanço, sem a menor ideia sobre os mecanismos que movem a economia, sobre os efeitos dos cortes nas demandas, sobre as implicações sociais e políticas. Era nítido que o currency board argentino não duraria uma semana – aliás, explodiu antes de uma semana. No entanto, ficou o mercado inteiro balançando durante meses ao som da bandinha de três agências de risco.

Teoria conspiratória? Não: burrice! Incapacidade de pensar para além das planilhas!

A Lei do Teto é loucura igual, uma maneira de substituir o currency board sem a necessidade de dolarização a economia. Amarre o orçamento por 20 anos, e com isso não restará ao país alternativa senão obter o equilíbrio fiscal exclusivamente às custas dos cortes orçamentários. Simples assim!

O pai dessa loucura, Mansueto de Almeida, tem cabeça de contador que ignora depreciação e custos de reposição e sequer a lógica de funcionamento da empresa-Brasil, muito menos as consequências sociais, políticas desse torniquete.

Fosse um país racional, haveria um Ministro pensando estrategicamente e Mansueto apenas faria as contas solicitadas. Nesse país de burros, Mansueto tem acima dele, um Ministro perdido e, em seu pescoço, a espada de Dâmocles do impeachment: depois que o Supremo Tribunal Federal aceitou que a pedalada justificava um impeachment, o que significaria a desobediência à Lei do Teto?

Com o perdão da ofensa, nos tornamos um país institucionalmente burro, e por burros não se considere apenas a família Bolsonaro.

Tem o burro solene no STF, o burro histriônico na Casa Civil, a montanha do eco que ecoa todos os zurros, na imprensa, o burro Profeta Louco na Economia. E todos sendo julgados pelas palavras, pelas frases de efeito. Se Guedes dá uma boa resposta na sessão da Câmara, os burros ouvintes se alvoroçam e dizem: agora vai!

Têm-se o caminhão sem freio em direção ao precipício e não há uma voz de racionalidade para apontar o desastre que vem pela frente.

O que irão fazer até o desastre? O corte de gastos afunda a economia que, depois da mais profunda recessão da história, está ameaçada novamente por uma recessão técnica. O que faz Guedes? Planeja mais um corte, um contingenciamento, para adequar o orçamento à nova estimativa do PIB. Haverá mais queda na economia, mais contingenciamento, pouco importando os 13 milhões de desempregados, a queda generalizada da atividade econômica. E tudo isso como pano de fundo para as burrices perigosas do presidente.

Luís Nassif
No GGN
Leia Mais ►

Editorial do desespero

Band defende decreto pró-armas de Bolsonaro e fãs de Boechat se enganam dizendo que ele não leria o editorial




O Jornal da Band de sexta-feira, dia 10, exibiu um editorial do grupo a respeito das reações ao decreto do bangue-bangue assinado por Jair Bolsonaro.

Na opinião da emissora, o público entende de maneira errada a decisão.

“As armas já estão na vida do país, mas nas mãos dos bandidos”, afirma o âncora.

A Band está puxando o saco de Bolsonaro por causa do dinheiro da publicidade federal.


Nas redes sociais, internautas evocaram Ricardo Boechat, que apresentava a atração até morrer num acidente de helicóptero no início do ano.

Boechat, segundo essa gente boa, pediria demissão antes de ler esse lixo.

Balela.

Ricardo Boechat fazia o que lhe mandavam. Não vai aqui nenhum julgamento. É apenas uma constatação.

No pé, ei-lo defendendo Michel Temer no caso Joesley. A empresa ordenou que ele lesse e ele aquiesceu.

Se não fosse ele, seria outro.

Que Boechat seja celebrado pelos seus fãs pelo que era.

Só não dá para dizer que ele não era o que era.



Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Governo Bolsonaro padece da síndrome de Dunning-Kruger


Zezinho chega da escola e fala para a mãe: “Descobri que sou mais inteligente que a professora”. “Por quê?”. “Passei de ano e ela continua no mesmo”.

Lembrei dessa piada ao ler a notícia que o nosso querido ministro da Educação, Abraham Weintraub (pronuncia-se Vaintraubi), tirou nota zero em sociologia na USP.

Weintraub não deixa por menos. Confunde o autor Kafka com o prato árabe kafta. Com uma bela caneta Bic, assina o que ele chama de “contingenciamento” e tira 30% da grana das universidades federais. Vai explicar o corte, usando chocolates, e erra ao confundir 30% com 3% (uma tristeza). Paralisa pesquisas. Corta bolsas de estudo. Interrompe mestrados e doutorados. Destrói carreiras. Mata o conhecimento. O governo Bolsonaro é um devastador incêndio cultural de consequências nefastas.

Um psicoterapeuta freudiano diria que Weintraub está se vingando do mundo acadêmico. Está dando um tapa na cara daqueles velhos professores universitários que lhe deram zero na faculdade. “Cheguei no poder. Agora, vocês vão ver o que é bom pra tosse”.

Não acredito nessa versão. Li toda a obra de Freud e de autores neofreudianos, durante o doutorado, feito na USP com bolsa do CNPq. Graças ao CNPq, pude fazer o que se chama de “bolsa sanduíche” e estudei na Sorbonne, em Paris, tendo como orientador o renomado sociólogo francês Michel Maffesoli.

Nasci em uma família de classe média. Nos anos 60, tínhamos TV, fogão, geladeira e até carro (DKW). Aos 15 anos, a empresa onde meu pai trabalhava faliu e tive de ir à luta. Arrumei emprego em uma adega. Carregava caixas de bebida. Entre 16 e 18 anos, fui pesquisador de um instituto do tipo Ibope, indo de casa em casa, para saber o que os telespectadores tinham assistido na noite anterior. Aos 19, era auxiliar administrativo no Bradesco Vila Mariana.

Nunca parei de trabalhar, nem de estudar. Fiz duas faculdades à noite: letras e jornalismo. Achava meu conhecimento extremamente limitado, por isso fui para a pós-graduação, fazendo mestrado na Universidade Metodista, e posteriormente o doutorado na USP.

Sem bolsa de estudo, não poderia ter cursado a pós-graduação. Sem bolsa de estudo, não teria feito minha tese Espreme que sai sangue; hoje, felizmente, referência acadêmica na área de comunicações.

Esse pessoal, que ocupou o governo, não está se vingando dos acadêmicos. Como o Zezinho da piada, eles padecem da síndrome de Dunning-Kruger.

Aliás, lendo o jornal, com as últimas notícias do governo – sempre angustiantes – me sinto cercado desse pessoal.

Os efeitos de Dunning-Kruger parecem se espalhar como as sementes de dente de leão. Na semana passada, assisti a um documentário na Netflix sobre gente que acredita que a Terra seja plana. Os terraplanistas. Outros me param na rua e me explicam que o mundo foi construído em seis dias por um ser superior, o Criador, que descansou no sétimo dia. Tem aqueles que ficam no YouTube e querem me influenciar “digitalmente”, vendendo porcarias que eles ganham para veicular. É o famoso jabá normatizado.

Simultaneamente, indiferente aos terraplanistas, um robô chinês planta algodão em solo lunar. E o carro da Tesla já passou pelo planeta Marte.

Estou lendo A Dança do Universo, de Marcelo Gleiser. Ele faz um levantamento interessante sobre o conhecimento humano. Cita os gregos que fundaram a filosofia ocidental, como Tales de Mileto e seus seguidores Anaximandro e Anaxímenes, entre outros.

Quinhentos anos antes de Cristo, esse pessoal já falava do universo, da evolução das espécies pela água, previam eclipses solares, discorriam sobre o movimento das estrelas, mencionavam  a existência de planetas (“viajantes do espaço”, em grego) e ensinavam seus discípulos que toda a matéria era constituída de átomos (“aquilo que não pode ser dividido”).

Filósofo, matemático, astrônomo, Tales de Mileto fez fortuna, prevendo com um ano de antecipação uma safra recorde de azeitonas. Tales comprou dezenas de prensas e, quando as azeitonas se multiplicaram nas colheitas, ele enriqueceu alugando as prensas para os proprietários de terras.

Gleiser escreve que “se assumirmos que ‘algo’ criou ‘tudo’, caímos em uma regressão infinita; quem criou o ‘algo’ que criou o ‘tudo’?” Ele observa que a necessidade de entender a nossa origem e a do Universo é inerente a todas as culturas.

Todos os agrupamentos humanos fizeram o que ele chama de “A Pergunta”: De onde viemos, que pode se multiplicar em centenas de outras perguntas complementares: estamos sós no Universo? há outras vidas inteligentes em outros mundos? e por aí em diante.

O que estou querendo dizer com esse papo todo é que em determinados momentos da existência humana convivemos com homens e mulheres de inteligência acima da média. Gente que foi atrás de respostas e levou o conhecimento até onde ninguém jamais estivera, parafraseando Jornada nas Estrelas.

Ocorre que, na maior parte do tempo, somos obrigados a conviver com gente muito burra, antiquada, ultrapassada, conservadora, tacanha, que faz a sociedade regredir e não avançar.

Tenho pena daquele rapaz, que quer estudar e precisa de uma bolsa de estudos, e hoje vai dar de cara com a porta dos recursos universitários fechada.

Enquanto Weintraub fechava a porta para o conhecimento, na Alemanha, houve o repasse de 160 bilhões de euros para as universidades e pesquisadores.

Para encerrar, felizmente, temos uma boa notícia no Brasil: os nossos amados juízes do STF vão continuar comendo lagosta e tomando champagne. A Justiça liberou a licitação para a compra desses alimentos, sem dúvida, essenciais para o bom funcionamento das togas e paramentos dos deuses que habitam o Supremo.

Danilo Angrimani
No DCM
Leia Mais ►

Governo Federal trava 25 milhões de dólares para agricultores do Nordeste

Recursos do FIDA serviriam para apoiar projeto com atuação junto a agricultores familiares
Lianne Milton/FIDA
O governo de Camilo Santana (PT), no Ceará, foi impedido de receber US$25 milhões que chegariam através de empréstimo do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), uma agência especializada das Nações Unidas (ONU). Recursos serviriam para apoiar projeto com atuação junto a agricultores familiares em condições de extrema pobreza em 600 comunidades rurais cearenses.

Todos os projetos apoiados pelo FIDA no Brasil são em estados do Nordeste, iniciados entre os anos de 2013 e 2015 e com previsão de conclusão em 2020 caso não sejam estendidos. O FIDA normalmente não executa projetos, mas apoia projetos que são executados pelos governos estaduais ou nacionais. Entre os projetos no Brasil, o FIDA definiu que doaria recursos para dois estados – Pernambuco e Maranhão, enquanto nos demais seis o fundo empresta a juros bem baixos.

Como o Brasil é considerado um país de renda média-alta, o FIDA exige – para iniciar a parceria e no momento de renová-la – que os governos parceiros apresentem contrapartidas ao projeto, uma forma de mostrar que o país ou o estado também está comprometido em solucionar aquele problema para o qual o fundo está liberando recursos. Por exemplo, o projeto no Ceará receberia US$25 milhões, mas o Governo do Ceará precisaria aportar mais US$23,5 milhões.

Apesar de o projeto ser tocado pelo executivo cearense, ele precisaria da aprovação do Ministério da Fazenda, através da Comissão de Financiamento Externo (Cofiex), por se tratar de um apoio externo. O Governo do Ceará apresentou o projeto por três vezes em 2018, sendo rejeitado em todas elas. Segundo o Governo Federal, a comissão analisa apenas aspectos financeiros e técnicos, não políticos. Segundo a FIDA, a Cofiex respondeu negativamente, avaliando que o projeto no Ceará “não pontuou” o suficiente entre o que é prioridade para o desenvolvimento nacional. O financiamento do FIDA é aberto a cada três anos, período que se fechou em dezembro, impedindo que o Brasil tivesse acesso ao recurso.

O Ceará deixou de receber o empréstimo de US$25 milhões ao Projeto Paulo Freire, que oferece capacitação para estímulo à produção rural em 31 municípios. O programa é voltado para agricultores familiares em condições de extrema pobreza em 600 comunidades rurais com baixo índice de desenvolvimento humano (IDH).

Também foi cancelado, mas por escolha do FIDA, a doação de US$20 milhões que seria feita ao governo do Maranhão. Tal aporte já havia sido autorizado pelo Cofiex, mas foi avaliado que o estado não teria capacidade de arcar com a contrapartida. Os recursos iriam para o projeto Balaiada Maranhão Sustentável, que beneficia 43 municípios de várias regiões do estado, com foco nos povos originários (indígenas) e comunidades tradicionais, como quilombolas, ribeirinhos e ciganos.

Os US$45 milhões perdidos seriam utilizados para a instalação de cisternas e outras formas de apoio a pequenos agricultores e comunidades tradicionais. Um total de 100 mil famílias receberiam o apoio. O FIDA segue com seis projetos no Brasil, somando cerca de US$500 milhões.

O FIDA segue apoiando seis projetos no Brasil. Em cinco desses, o fundo empresta recurso ao poder público. Na Bahia o FIDA apoia o Pró-Semiárido. Executado pelo Governo da Bahia, o programa atua em 30 municípios e tem foco na ampliação da capacidade produtiva dos pequenos agricultores. No Sergipe, o projeto apoiado é o Dom Távora, também do governo estadual, focado no trabalho e renda em 15 municípios. Na Paraíba, o FIDA apoia o Procase, do governo do estado, atuando em 56 municípios das regiões do Cariri e Seridó paraibano e tendo centralidade no fortalecimento de redes da sociedade civil para atuar na redução de problemas ambientais relativos à desertificação. No Piauí, é o Viva o Semiárido, que atua em 88 municípios no compartilhamento de educação e tecnologias sustentáveis para o fortalecimento da produção agrícola.

Já em Pernambuco o FIDA apoia, em forma de doação, projeto focado na redução da pobreza, promoção da sustentabilidade e desenvolvimento inclusivo em 40 municípios da Zona da Mata e do Agreste. O único programa apoiado pelo FIDA em parceria com o Governo Federal – através de empréstimo – é o Projeto Dom Hélder, com atuação na região do semiárido de 7 estados nordestinos: Alagoas, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.

Vinícius Sobreira
No GGN
Leia Mais ►

A mídia e as regressões políticas no Brasil


Leia Mais ►

Procurador dos EUA revela que só conseguiu multar Petrobras graças à Lava Jato

O procurador norte-americano Daniel Kahn, parceiro de investigações de Deltan Dallagnol
O jornal “Estado de S.Paulo” traz em sua edição deste sábado (11) uma entrevista reveladora com o procurador norte-americano Daniel Kahn, chefe da área de investigações internacionais do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Muito embora o tratamento editorial concedido pelo centenário periódico paulista não foque nesta questão, o que a entrevista com o funcionário norte-americano evidencia é que os procuradores do Ministério Público Federal no Paraná, notadamente aqueles que tocam desde 2014 a Operação Lava Jato, o fazem desde sempre em fina sintonia com autoridades estrangeiras.

Em outras palavras, a concepção, a execução e a filosofia de trabalho encampadas no Brasil pelo procurador Deltan Dallagnol e seus colegas de MPF e Polícia Federal foram e são estabelecidas não apenas levando em conta as leis, o Direito e os interesses brasileiros, mas também o que é conveniente e juridicamente cabível para os Estados Unidos.

De resto, isso não é novidade para ninguém que acompanha os trabalhos da Lava Jato ao longo dos anos, aí incluindo a ação do ex-juiz Sergio Moro, que tem por hábito citar – seja em suas sentenças ou em suas postagens no Twitter – mais doutrinas e jurisprudências dos EUA do que de seu próprio país.

De qualquer forma, é reveladora a entrevista do procurador Daniel Kahn porque escancara a forma como a autoridade chefe norte-americana para investigações estrangeiras não se constrange em mostrar o grau de influência de seu país sobre o nosso.

Por exemplo, o procurador estrangeiro admite que escolhe a dedo com quais procuradores brasileiros ele deseja “cooperar”. No caso específico de que trata a entrevista, ele escolheu os procuradores da Lava Jato. Não fica claro se a autoridade estrangeira tem conhecimento de que, de acordo com a lei vigente no Brasil, esses procuradores não possuem autonomia para estabelecer tais “cooperações” sem antes levar o assunto ao Ministério da Justiça, ao Ministério das Relações Exteriores e à Procuradoria-Geral da República. O que fica claro é só que ele não se importa com isso. Pelo contrário, se regozija da situação:

Como temos um relacionamento bom e forte (com os procuradores da Lava Jato), podemos chamá-los e dizer se há evidências do que estamos procurando e vice-versa. O que isso permite é agilizar o processo de obtenção da prova do que se feita de uma maneira mais formal. O bom disso é que, se pudermos ter uma conversa antecipada, podemos começar reunir informalmente a coleta de provas e, em seguida, quando enviamos a solicitação formal, podemos encaminhá-la a um promotor específico no Brasil.

Assim, de informalidade em informalidade, as autoridades norte-americanas foram obtendo provas até multar a Petrobras em mais de R$ 14 bilhões, conforme já revelou o DCM.

Deltan Dallagnol.
Graças à sua “cooperação”, a Petrobras levou multas de mais de R$ 14 bilhões nos EUA
Assim, de cooperação em cooperação, Deltan Dallagnol tentou amealhar R$ 2,5 bilhões de dinheiro da Petrobras para uma inusitada fundação privada que seria gerida por ele mesmo, com o dinheiro da empresa brasileira passando pelo Departamento de Justiça dos EUA e voltando limpo e desempedido para o procurador da Lava Jato. Um verdadeiro vilipêndio à Constituição brasileira, que felizmente foi barrado a tempo pelas autoridades nacionais.

O procurador Daniel Kahn conta mais. Conta que, por mais que tenha desejo em “cooperar” com o Brasil, seu interesse é o interesse dos Estados Unidos, como o de Dallagnol deveria ser o do Brasil.

Sempre que estamos analisando um caso, temos de determinar quais são os interesses dos EUA. Então, se olharmos para a própria Petrobras, é uma empresa brasileira de petróleo (…), mas a própria Petrobras também é uma empresa de capital aberto nos EUA. Há vários acionistas americanos comprando ações da Petrobras sob falsos pretextos e vítimas de fraudes que estavam sendo realizadas.

Muitas empresas que estavam pagando propinas para a Petrobras também eram empresas com sede nos Estados Unidos ou que atuavam nos EUA. Não podemos nos afastar completamente quando empresas ou indivíduos cometem crimes que violam a lei dos EUA, mas o que podemos fazer é tentar reconhecer as ações significativas de países como o Brasil. 

Assim, fica fácil entender em qual base se deu o plano frustrado de Dallagnol de criar sua fundação privada com dinheiro da Petrobras: os procuradores dos dois países “cooperam”, as autoridades norte-americanas recebem provas para condenar a empresa brasileira em cifras bilionárias, e os procuradores da Lava Jato, “em reconhecimento às suas ações significativas”, recebem de volta grande parte do dinheiro que os norte-americanos só conseguiram tirar da empresa brasileira graças à “cooperação” de Dallagnol e sua equipe.

Por fim, o procurador norte-americano mostra que o melhor mesmo da parceria que ele montou com o MPF-PR é o fato de que, seja lá quem estiver governando o país, ele sempre continuará gozando de seu canal direto com os procuradores da Lava Jato. Então, avisa o estrangeiro, que não se espantem, vocês, brasileiros, se mais casos de corrupção surgirem em um futuro próximo:

Posso dizer que ainda temos um relacionamento extraordinário com os procuradores brasileiros e estamos trabalhando em vários casos em vários países e regiões. Não acho que seria surpreendente se aparecer outro caso envolvendo o Brasil. Mas além disso eu provavelmente não deveria dizer com qual país estamos trabalhando agora.

Viva a cooperação!

Vinícius Segalla
No DCM
Leia Mais ►

Estimulação por meio de computador recupera movimentos de paraplégicos

O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis é quem lidera o Projeto Andar de Novo


Três pacientes paraplégicos conseguiram andar por meio de uma estimulação elétrica não invasiva que conecta cérebro e máquina (IMC) e conseguiu dar comandos motores às pernas dessas pessoas portadoras de lesão medular (LM). O resultado dessa investigação brasileira do Projeto Andar de Novo foi publicado na revista “Scientific Reports”, neste mês de maio.

“Nosso sistema foi testado e validado com dois pacientes com paraplegia crônica. Esses pacientes foram capazes de caminhar com segurança com suporte de peso corporal de 65 a 70%, acumulando um total de 4.580 passos com essa configuração”, informou o estudo.

Com isso, o Projeto Andar de Novo, liderado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, trouxe mais um avanço nas pesquisas clínicas para pessoas que perderam o controle motor dos membros inferiores. Além da possibilidade de andar, as sessões também geraram aos pacientes uma recuperação neurológica parcial, que conseguiram retomar parte das habilidades motoras do corpo que haviam perdido.

“Observamos melhoras cardiovasculares e menor dependência na assistência à marcha, mas também recuperação neurológica parcial em ambos os pacientes, com taxas substanciais de melhora motora para um deles”, trouxe o estudo.

Leia a íntegra do artigo na revista “Scientific Reports”

No GGN
Leia Mais ►

Mino se despede do filho Gianni

O tempo não ameniza a dor


O Conversa Afiada reproduz editorial de Mino Carta na edição de Carta Capital que chega às bancas nesta sexta-feira, 9/V:

O abismo da perda

Sem Gianni, tudo muda para mim

A morte de Gianni muda a vida e o mundo, a dor é de pedra. Meu filho era desassombrado, letrado, culto bem mais que o pai. E era também um homem de bem, generoso, de cortesia refinada e sem jactância, com a contribuição de um senso de humor apurado. Sábio inclusive: aos 16 anos, depois de promover rebuliços políticos no Colégio Dante Alighieri, onde cursava o Clássico, saiu do Brasil ao vaticinar: “Isto nunca vai dar certo”. Voltava ao País para visitar a família. Fora leitor de Gilberto Freyre e Raymundo Faoro, de quem foi grande amigo, a despeito da diferença de idade. Gianni é que estava certo.

O passado roda à minha volta como um carrossel. Vejo o meninote de 3 anos que ao crescer pretendia ser “mostorista japonês” e alcanço o enviado especial a guerras, motins, levantes, revoltas, cenários tempestuosos, da Sérvia a Gaza, de Kiev a Trípoli, de La Paz a Bogotá. E o especialista na Rússia pós-URSS, e o entrevistador de personalidades e do anônimo frequentador das calçadas. Repórter completo voltado para a busca obsessiva da verdade factual, insuflada pelo scholar, um alter ego criado pelos estudos que de Los Angeles a Paris foram encerrados com Ph.D. em Ciências Políticas. Quando eu descia a campo à beira de um copo para afirmar que a política não é ciência, e sim, às vezes, excepcionalmente, arte, ele não hesitava em evocar algumas das inúmeras bobagens que pronunciei ao longo da vida. O seu primeiro livro reúne uma série de reportagens introduzidas por um substancioso ensaio sobre o “novo jornalismo” admirado nos Estados Unidos, e obviamente no colonizado Brasil, desde o momento em que Mailer, Capote, Talese, Tom Wolfe deram para tratar de assuntos jornalísticos. Neste prólogo iluminante ele demonstrava que na Europa sempre houve jornalistas habilitados a escrever com qualidade literária, e quanto a prática é estimulante para os leitores.

E de súbito Gianni aparece meninote, enverga quimono de judoca, ou o uniforme escolar a galgar impávido o palco do teatro do colégio para cantar, ele desafinado irremediável. Ou já moço em roupas imaculadas de tenista cercado de alunos adolescentes em um clube de Los Angeles, o futuro scholar a dar aulas ali ou a algum ricaço de Beverly Hills para sustentar os estudos na UCLA. O judoca não esqueceu a técnica dos golpes mais eficazes, o que o levou certa vez a enfrentar em uma briga de bar um valentão de 100 quilos: golpe perfeito, o brutamontes voou para cair sobre o próprio Gianni e quebrar-lhe o joelho esquerdo. Mas ele quebraria também o direito, na quadra.

A respeito de tênis foi seu segundo livro, uma história brasileira do esporte branco escrita em parceria com Roberto Marcher, ex-profissional que formou dupla com Thomas Koch. Assinaria mais três, entre eles um best seller, a biografia de Miguel Reali Jr., amigo querido e companheiro de belas jornadas parisienses. O mais notável, a meu ver, é aquele publicado pela Boitempo, ousado e revelador, descida com tocha e corda à procura da criação do mito garibaldino. Custou-lhe dez anos de pesquisa através do Rio Grande do Sul, Uruguai, Argentina e diversos países europeus. Nesta edição Nirlando Beirão relê uma obra profunda e insólita, potente como seu herói. Outro é o protagonista do quinto livro, este sim digno do scholar, retrato minucioso e demolidor de Silvio Berlusconi, volumosa tese de Ph.D.

Casado duas vezes, encontrou em Valérie a outra metade da maçã de Sócrates, e ela se tornou uma filha para mim. Escreve: “Como sobreviver a esta perda? Gianni foi o amor da minha vida, um ser excepcional”. Do primeiro casamento nasceram dois filhos encantadores, Sophia e Nicolas, ambos londrinos educados na França. Estavam em Paris quando o pai partiu para a sua viagem sem retorno. E agora estou com meu filho à beira do Danúbio. Chegamos a pé da praça central de Praga onde a música de Mozart ecoa para sempre, atravessamos a ponte que leva a Malastrana, o bairro de Franz Kafka, que o ministro da Educação de Bolsonaro confunde com um prato da cozinha árabe, estamos sentados à mesa, comemos um peixe do rio e os copos admitem conter um branco potável. A mesa sempre se ofereceu para os nossos melhores encontros, sobretudo em Roma, sua cidade preferida.

Quem diz que o tempo ameniza a dor se engana. Pelo contrário, aprofunda o abismo da perda.
Leia Mais ►

Greg News | Ideologia de gênero


Leia Mais ►

História e educação

Há muita polêmica na literatura sobre por que as nações se diferenciam tanto em seu desenvolvimento econômico. As causas apontadas são as mais variadas: geografia, religião, instituições, colonialismo etc.

O subdesenvolvimento brasileiro, por exemplo, é associado ao nosso peculiar processo de colonização que nos legou a escravidão, o patrimonialismo e a inquisição, dos quais a abolição, a independência e a república não nos permitiram livrar-nos inteiramente.

Existem alguns fatores, entretanto, que parte dos estudiosos considera pressupostos comuns a muitas das experiências nacionais bem-sucedidas de superação do atraso.

Democratização do acesso à terra, ao crédito e à educação são alguns exemplos comumente citados, e não é difícil perceber que, ao longo da nossa história, esses fatores têm sido restringidos a uma ínfima parcela da sociedade.

A rigor, a revolução democrática deveria ter sido feita por ocasião da libertação dos negros, mas nem terra nem crédito nem educação lhes foram assegurados. Tratou-se de soltura, não de libertação.

Poucas décadas atrás, os negros chegavam aos bancos escolares. Poucos anos atrás, aos bancos universitários. É sintomático que as universidades sejam um dos principais alvos de Bolsonaro neste início de “governo”.

O século 20 foi o século da educação em todo canto, menos aqui. Nenhum governo, neste período, seja progressista seja conservador, priorizou a educação. O tema não era sequer importante para os economistas, de qualquer matiz.

No início deste século 21, graças a um sem-diploma, tivemos a fortuna de, pela primeira vez, superarmos a média da OCDE de investimento público em educação como proporção do PIB.

Os que se calaram por cem anos, agora, exigem uma resposta imediata do sistema educacional, como se não tivéssemos acumulado uma dívida descomunal. Como se não estivéssemos, neste momento, educando os filhos de uma geração de semianalfabetos.

Querem, à vista, o que a inteligência, sabiamente, comprou a prazo longo e seguro. Desconsideram o tempo perdido transcorrido e se fixam no patamar de investimento só agora atingido.

Corte de recursos e guerra ideológica. Essa é a agenda do governo. O problema da educação brasileira não foi o subinvestimento crônico, mas o pensamento crítico. Não é a extrema desigualdade econômica, mas a doutrinação. Não é a indigência intelectual das classes dirigentes, mas Paulo Freire.

A comunidade educacional não ficará indiferente ao desmonte de estruturas que finalmente lhe garantem as oportunidades historicamente sonegadas a tantos de nós.

Fernando Haddad, Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo.
Leia Mais ►

Defesa de Lula pede anulação do processo do triplex ou que Lula cumpra pena em casa

Na noite de ontem (10/05) protocolamos no Superior Tribunal de Justiça recurso denominado “embargos de declaração” objetivando corrigir contradições, omissões e obscuridades do acórdão que acolheu em parte o recurso especial interposto pela defesa do ex-Presidente Lula na sessão de julgamento realizada no último dia 23/04. O objetivo do recurso é que tais erros sejam corrigidos e, como consequência, Lula seja absolvido ou o processo seja anulado.

O recurso demonstra que o STJ deixou de analisar (omissão) aspectos fundamentais das teses defensivas, como, por exemplo, o fato de que Lula não praticou qualquer ato inerente à sua atribuição como Presidente da República (ato de ofício) para beneficiar a OAS e não recebeu qualquer vantagem indevida. O que o Tribunal considerou como ato de ofício – a nomeação de diretores da Petrobras – é, por lei, atribuição do Conselho de Administração da petrolífera (Lei das Sociedades Anônimas, art. 143), e, portanto, jamais poderia ter sido praticado por Lula.

Demonstrou-se, ainda, que o STJ deixou de analisar (omissão) que ao condenar Lula pelo crime de lavagem de dinheiro por supostamente não ter transferido a propriedade do apartamento triplex para o seu nome, além de estar utilizando uma premissa incompatível com as provas produzidas, também está aplicando um conceito inconciliável com a lei, pois não se pode cogitar dessa modalidade de crime por omissão. O próprio acórdão do TRF4 reconheceu que Lula jamais teve a propriedade ou posse do apartamento, e isso somente ocorreu porque o ex-Presidente apenas foi uma vez ao local para visitá-lo para verificar se tinha interesse na compra, mas rejeitou a possibilidade.

No recurso também demonstramos que a pena imposta a Lula, embora já diminuída pelo STJ, apresenta diversas inconsistências, ora valorando por mais de uma vez o mesmo fato, ora reconhecendo aspectos que foram afastados pelo próprio Tribunal no julgamento do mérito.

Por fim, o recurso pede que o STJ, na hipótese de não afastar a condenação ou a nulidade do processo, permita ao ex-Presidente desde logo o cumprimento da pena em regime aberto, levando-se em conta o período em que ele está detido e, ainda, a ausência de estabelecimento compatível com o regime semi-aberto — que seria o regime em tese compatível com a quantidade de pena remanescente. No ponto, consta nas razões recursais o seguinte:

“Neste ponto destacamos que: (…) o Embargante não praticou nenhum dos crimes aqui imputados ou outros de qualquer natureza que seja. Não obstante, não se pode ignorar que essa Defesa Técnica tem o dever ético de buscar, por todos os meios legais, a liberdade do patrocinado sob todos os aspectos viáveis, sem prejuízo de preservar e reafirmar a garantia da presunção da inocência, mesmo quando relute o constituinte — eis que seus direitos fundamentais lhe pertencem imediatamente, é certo, mas, mediatamente, a toda coletividade dizem respeito.

Assim, o Embargante não deixará de acionar o Poder Judiciário para que esse reconheça sua inocência em relação aos fatos tratados neste processo. Não se busca somente a remodelação da pena, como fez esse Superior Tribunal, ou apenas a modificação do regime inicial de cumprimento: o que se quer, genuinamente, é a absolvição plena, retirando-se do Embargante o peso das sanções penais, extrapenais e etiquetas sociais que recaem injustamente sobre seus ombros, por força de um processo frágil e persecutório que um dia — e esse dia haverá de chegar— será visto como uma das páginas mais tristes de nossa história, mostrando, para as gerações como atuaram os protagonistas dessa monumental injustiça.

Enquanto a maré montante persecutória não reflui, carregando para longe os horrendos fantasmas do autoritarismo, anota-se que o Acórdão embargado se omitiu quanto ao tema, que é ordem pública, da detração penal e seus reflexos no regime inicial de cumprimento da pena”.

Cristiano Zanin Martins

O documento com o embargo pode ser visto neste link.
Leia Mais ►

Trecho da entrevista de Lula com Kennedy Alencar


Leia Mais ►

Parece o PSL, mas é a Lava Jato


Eu não estarei lá, mas sei exatamente como vai ser: haverá gente vestindo camisetas estampadas com o rosto das personagens sentadas à mesa, distribuição de adesivos com o nome delas, selfies, clima de ufanismo e auto-celebração. Também se verá, na plateia, peças em verde e amarelo da campanha presidencial de Jair Bolsonaro – natural, já que a estrela do evento é figura de proa do governo de extrema-direita – e, provavelmente, partidários empunhado o simpático "pixuleco", o boneco do ex-presidente Lula vestido de presidiário.

Não estou falando de uma reunião do PSL, o outrora nanico partido que foi inflado pela onda reacionária de 2018, mas do “Congresso Nacional sobre Macrocriminalidade e Combate à Corrupção”, promoção da Escola da Magistratura do Paraná, a Esmafe, uma entidade privada vinculada à associação que reúne juízes federais no estado e que fatura oferecendo cursos para “capacitar profissionais a conquistarem o cargo desejado, notadamente para o concurso de provimento de cargo de juiz federal".

Sergio Moro, ex-juiz, hoje político, é naturalmente a estrela do congresso, marcado para segunda-feira e com ingressos à venda num site que costuma vender entradas para shows e espetáculos. Além dele, estarão no teatro alugado pela Esmafe, o Positivo, maior de Curitiba, o juiz Marcelo Bretas, o procurador de Justiça e artista naïf Deltan Dallagnol, os delegados Márcio Anselmo e Igor Romário de Paula, o juiz de segunda instância João Pedro Gebran Neto (o relator da Lava Jato no Tribunal Regional Federal da 4ª Região que não viu problemas em caminhar quase de braços dados com uma política adversária de Lula, a deputada federal Joice Hasselmann, que no passado de jornalista era dada a plagiar colegas) e grande elenco. Todo ele, claro, ligado à Lava Jato – vozes críticas ficam para a próxima.

"Isso aí parece convenção de partido político dos Estados Unidos", zombou uma pessoa que por anos trabalhou lado a lado com Moro na Justiça Federal do Paraná, com quem falei por telefone. No prédio em que a instituição funciona, em Curitiba, o evento foi motivo de piada pelos corredores. "Não será exatamente um debate de ideias", me resumiu um funcionário graduado.

Não importa. Com a outrora inatacável reputação abalada por más notícias, declarações desastradas, recuos forçados, fotos constrangedoras e o embaraço de ter se tornado colega de um alvo da Polícia Federal, Moro talvez queira mesmo o carinho incondicional de seu público. Curitiba, cidade provinciana que julga receber menos atenção do que merece, se ufana da operação policial que a fez famosa e moradia – forçada – de gente importante.

Para seus fãs, tanto faz se Moro, ao aceitar se tornar ministro de Jair Bolsonaro, colocou em xeque a propalada isenção de toda a Lava Jato e tornou verossímil o discurso de Lula – que jamais conseguiu explicar por que não achou nada demais que empreiteiras com negócios bilionários com o governo dele decidissem reformar de graça um sítio que ele frequentava e um apartamento que pretendia comprar – de que a maior investigação brasileira sobre corrupção foi na verdade só um pretexto para tirá-lo da corrida eleitoral.

O problema é a que a coisa não parece se resumir a isso. Moro jura não ter ambições eleitorais, mas, dados os seus movimentos recentes, há quem só acreditará nisso em 2022 – se o nome dele não estiver na urna (ou nas cédulas de papel, a depender da vontade de Bolsonaro). Bretas, embora juiz, já se confessou picado pela mosca azul da política, defendeu o governo Bolsonaro e é amicíssimo do também ex-juiz, atirador e dublê de governador Wilson Witzel. Dallagnol, coordenador da operação, mandou que uma empreiteira espalhasse cartazes atribuindo à Lava Jato – e não ao Ministério Público, veja bem – a redução do pedágio no Paraná.

Em política, se diz que não há vácuo de poder. Com a incerteza que a guerra aberta entre olavistas e militares criou no governo federal, a Lava Jato – que há tempos já não faz questão de parecer apartidária – achou que é hora de colocar seu bloco na rua. Just in case.

Rafael Moro Martins
No The Intercept
Leia Mais ►