7 de mai. de 2019

Arpilleras


O filme “Arpilleras” conta a história de dez mulheres atingidas por barragens das cinco regiões do Brasil que, por meio de uma técnica de bordado surgida no Chile durante a ditadura militar, costuraram seus relatos de dor, luta e superação frente às violações sofridas em suas vidas cotidianas. A costura, que sempre foi vista como tarefa do lar, transformou-se numa ferramenta poderosa de resistência, de denúncia e empoderamento feminino. Por meio desse “fio” condutor, cada mulher bordou sua história, singular e coletiva, na respectiva região do mapa do Brasil. No final das filmagens, formou-se um mosaico multifacetado de relatos de dor e superação. Estes bordados, que segundo Violeta Parra “são canções que se pintam”, trazem ao público uma reflexão do que é ser mulher atingida. Se lá, no Chile, é seguir procurando suas memórias espalhadas como grãos de areia no deserto, aqui é buscar no fundo dos rios suas vidas alagadas, organizar-se, lutar e resistir.

O documentário, produzido pelo setor de comunicação do movimento e dirigido pelo Coletivo de Mulheres do MAB, foi possível por meio de financiamento coletivo no Catarse, e circulou por circuitos de festivais nacionais e internacionais.

No ano passado, "Arpilleras" ganhou o prêmio de melhor documentário nacional eleito pelo público no 44º Festival Sesc Melhores Filmes.

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O passo final do governo Bolsonaro: as disputas com os militares


Ao permitir os ataques aos militares, Bolsonaro derruba a última barreira à sua queda

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A hipótese fujimorista de Bolsonaro


Tríplice aliança formada pelo clã Bolsonaro, as Forças Armadas e a Operação Lava Jato, ancorada no capital financeiro, defende estratégia de transição para um novo regime político

No dia 5 de abril de 1992, o então presidente do Peru, Alberto Fujimori, dissolveu o Parlamento e interveio no Poder Judiciário, com o apoio decisivo das Forças Armadas. Proclamou um “governo de emergência e reconstrução nacional”, assumindo praticamente o controle de todos os poderes estatais.

Pressionado a oferecer alguma solução futura, convocou eleições para um Congresso Constituinte, que se realizariam sete meses depois do autogolpe. O Parlamento ordinário seria reinstituído em 1995, no curso de eleições gerais que reconduziriam Fujimori à Presidência.

Além de estar às voltas com a insurgência guerrilheira, Fujimori não tinha maioria parlamentar para aprovar medidas exigidas pelo Fundo Monetário Internacional, que supostamente ajudariam a sanear uma economia imersa em um combo de estagnação e hiperinflação.

O autogolpe foi a resposta a obstáculos sociais, parlamentares e judiciais erguidos contra as reformas pró-mercado, à concessão de maiores poderes repressivos e à outorga de certas funções legislativas ao presidente. Atualmente execrado e condenado, o ex-mandatário peruano satisfez a ansiedade das elites do dinheiro grosso: para adotar o programa que defendiam, profundamente antissocial e antinacional, era necessário suspender o sistema democrático-liberal.

O dilema de Fujimori tem semelhanças com o da coalizão liderada por Jair Bolsonaro (PSL). Sua agenda de dilapidação dos direitos da classe trabalhadora, dos serviços públicos e das riquezas nacionais não é compatível nem mesmo com a democracia restrita da 6ª República, fundada pela Constituição de 1988.

O conservadorismo tradicional de PSDB, MDB e DEM imaginava que o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, a criminalização de Lula e o estrangulamento do Partido dos Trabalhadores deixariam o terreno livre para as contrarreformas econômicas. Mas foi batido nas urnas.

Vitoriosa, a tríplice aliança formada pelo clã Bolsonaro, as Forças Armadas e a Operação Lava Jato, ancorada no capital financeiro, defende outra estratégia: a transição para um novo regime político, a bordo de uma contrarrevolução preventiva, que não se limita a bloquear estruturalmente o protagonismo dos partidos de esquerda, almejando controlar todos os espaços públicos nos quais possam despontar quaisquer formas de resistência e contestação.

A militarização do governo, as medidas de asfixia dos sindicatos, o despotismo judicial e o pacote anticrime de Moro, além da prisão arbitrária do ex-presidente Lula, são os sinais mais salientes da ordem antidemocrática que está sendo parida.

Ambas frações das classes dominantes, a tradicional e a bolsonarista, se unificam sob a perspectiva econômica e o objetivo de destruição da esquerda. Divergem, porém, sobre a melhor combinação entre os restos da velha institucionalidade liberal e o regime policial que está nascendo sobre seus escombros.

A direita histórica, contudo, por indisposição ou impotência, abraçada ao mesmo repertório rentista e igualmente chafurdada no lodaçal do golpismo, é incapaz de opor com firmeza à marcha autoritária.

Somente a mobilização popular, que tem no PT seu principal pilar potencial, pode impedir que a hipótese fujimorista vá além de um registro histórico.

Breno Altman
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Congresso para o sucesso


Universal deu altar a empresa de bitcoin acusada de sumir com dinheiro de clientes

No Templo de Salomão, os cultos diários contam sempre com fervorosos testemunhos. Às segundas-feiras, o tema é prosperidade na sede mundial da Igreja Universal do Reino de Deus, em São Paulo. Em uma das últimas reuniões do Congresso para o Sucesso de 2017, em 18 de dezembro, vários fiéis subiram ao palco para falar durante mais de duas horas sobre a prosperidade que Deus trouxe para suas vidas. Os testemunhos eram intercalados por citações da Bíblia e pela coleta do dízimo: mais de 50 obreiros com máquinas de cartão passavam recolhendo as doações.

De repente, o bispo Edson, que conduzia o culto, disse: “tá cansado de ler as histórias dos outros na Bíblia? Então, suba no altar e escreva sua própria história com Jesus Cristo!” O telão gigantesco que cobre toda a parede atrás do altar projetou fogo, e as pessoas foram incitadas a subir e sacrificar para Deus tudo que tinham para que ele abrisse seus caminhos no novo ano que se aproximava. Centenas de fiéis fizeram isso. Grandes sacos foram enchidos de envelopes e objetos e depois retirados por portas que ficam atrás do altar.

O bispo repetiu várias vezes: quem doasse poderia sair da igreja confiante porque, do lado de fora, estariam esperando oportunidades financeiras revolucionárias.

Nós saímos. Encostadas nos portões da igreja, pessoas entregavam cartões de uma tal Airbit Club. Achamos, na época, que talvez fosse uma coincidência. Depois, descobrimos que as maiores lideranças da empresa, uma mistura de clube de investimentos e marketing multinível, têm uma relação bem próxima e mal explicada com o império evangélico e colecionam reclamações de falta de contrato com os investidores e dificuldades para recuperar o dinheiro investido. O Ministério Público de São Paulo está investigando a empresa.

Cartões da Airbit Club entregues na porta do Templo de Salomão.

O maior ‘clube de investimentos do mundo’

A AirBit Club se apresenta como um clube de investimentos fundado para “educar com as melhores informações possíveis” sobre as criptomoedas bitcoin, ethereum e bitcoin cash. A empresa promete a seus participantes ganhar dinheiro com a valorização das moedas virtuais – a AirBit Club gera lucro com uma comissão na compra e venda. A missão da empresa, segundo o site, é popularizar o uso de criptomoedas.

Para ser um dos investidores do clube, é preciso comprar um pacote de adesão, que se divide em categorias. Os valores começam em US$ 1.000. A empresa diz que uma das formas de ganhar dinheiro com o investimento é com a flutuação dos valores das moedas, usando taxas de valorização e porcentagem de acordo com o plano de adesão. Na prática, porém, os participantes podem recuperar o dinheiro aplicado atraindo novos investidores, ganhando bônus por cada um que se juntar à plataforma por seu intermédio. Ou seja: quanto mais pessoas o investidor trouxer para o clube, mais dinheiro ele pode ganhar. Um mecanismo idêntico ao das pirâmides financeiras.

Os responsáveis por angariar novos investidores são os chamados “líderes”, que costumam ostentar nas redes sociais a prosperidade trazida pelos negócios. Um dos mais entusiasmados investidores da empresa foi o jovem milionário Gabriel Fonseca Reis, que costumava chamar o AirBit Club de “o maior clube de investimento em criptomoedas do mundo”. Em um vídeo gravado em 2017, o Reis explica como os interessados podem se tornar investidores: depositando em contas bancárias ou entregando dinheiro vivo diretamente nas mãos dos líderes.


Nascido em São José dos Campos, no interior de São Paulo, e filho de uma obreira da Igreja Universal, Gabriel Reis começou a carreira na Multiclick Brasil, uma empresa de “marketing multinível” – método de venda de produtos sem lojas, a partir de redes de distribuidores individuais, como Herbalife, Mary Kay e Hinode. Em um vídeo de propaganda da equipe, Gabriel, então com 17 anos, mostrou sua BMW recém adquirida. “Se apaixone por esse projeto porque é uma empresa séria, legal, ética, moral. É uma empresa que vem mudando vidas e realizando sonhos”, ele diz. No fim do discurso, o jovem – que não possuía permissão legal para dirigir – entra no veículo, cuja placa é ocultada por um pano branco, e parte por uma movimentada rua sem cinto de segurança.

Em novembro de 2013, a Multiclick Brasil teve suas atividades bloqueadas pelo Ministério Público de Santa Catarina por indícios de atividade econômica irregular. A suspeita é de pirâmide financeira: para receber, os membros deviam trazer novos membros ao sistema. Os promotores estimaram que mais de 300 mil pessoas tinham caído no esquema. Há ainda três processos em andamento contra a empresa no Ministério da Fazenda, outros três movidos pelo Ministério Público Federal, e 76 processos nos tribunais de Justiça de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.



Em 2015, já fora da empresa, aos 20 anos, Reis foi a estrela de um culto pela prosperidade no Templo de Salomão. No depoimento, gravado em vídeo, ele falou sobre como a igreja mudou a sua vida e como construiu sua fortuna trabalhando com bitcoin. No altar, Reis não detalhou como aplicava seu dinheiro nas criptomoedas ou como o investimento. Mas as suas redes sociais deixam pistas.

Em junho de 2016, Reis se reuniu com empresários no Trump Ocean Club, um hotel cinco estrelas na cidade do Panamá. O jovem postou uma foto no Instagram acompanhado do mexicano Pablo Renato Rodríguez e do brasileiro Gutemberg dos Santos, a quem chamou de “amigos e mentores”, e avisou que voltaria ao Brasil cheio de novidades. As hashtags evidenciam o assunto do encontro: a AirBit Club.


Carismático, o jovem se tornou o rosto da prosperidade na Universal – seja em entrevistas à Folha Universal ou apresentando o programa do Congresso Para o Sucesso – ao mesmo tempo em que se tornava um importante líder da AirBit Club.


Também apresentou o Futshow, evento esportivo da Força Jovem Universal que teve como missão conscientizar os jovens sobre os perigos do uso de drogas. Em campo, os Amigos da Record, em uniforme azul, perderam por 3×1 dos Amigos do Bispo Marcello Brayner, vestidos de branco, que ostentavam no peito o logo da Airbit Club.

Nessa época, a empresa patrocinava a equipe Telmex na prova da Nascar na cidade de Guadalajara, no México, em 2017. Os carros estampavam no capô o logotipo do clube – patrocínio que permanece até hoje. Gabriel Reis assistiu à prova do backstage, acompanhado da dupla de empresários Santos e Rodríguez.


Quando viajava para fora do país, o jovem líder aproveitava para visitar os templos da Igreja Universal. Esteve em pelo menos dois, em Portugal e na Rússia, e se reuniu com os bispos – tudo documentado em seus posts em redes sociais. Em Portugal, sua publicação termina com a hashtag #eusouauniversal.

Entramos em contato com Gabriel Reis para entender sua relação com a AirBit Club e com a igreja. Ele nos atendeu, mas, quando soube o assunto da reportagem, parou de responder. Questionada, a Universal nega qualquer relação com o jovem. Por meio de sua assessoria de imprensa, a igreja diz que Gabriel Reis é um “frequentador” assim como outras “7 milhões de pessoas pelo Brasil”. Também afirma que o patrocínio da Airbit Club ao time de futebol foi um “apoio pontual” e que não pode ser ligada a uma empresa que doa 22 camisetas. Mais tarde, descobrimos que esse patrocínio não foi o único.

Dono oculto

A AirBit Club tem presença intensa em vários países. No Brasil, porém, não encontramos o CNPJ da empresa. Os registros de domínio do site são ocultos. Reportagens já apontaram que a sede da empresa fica no Panamá, mas não conseguimos achar endereço físico e nem telefone de contato. Também não há informações oficiais sobre seus fundadores.

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‘Bitlionários': o carinho de Goreti Fonseca, mãe de Gabriel, pelo mentor do filho.
Reprodução/Facebook

Entretanto, Gutemberg dos Santos e Pablo Renato Rodriguez, os mentores de Gabriel, são constantemente apontados como fundadores em reclamações, blogs, vídeos e também por líderes da própria empresa nas redes sociais. Os dois também apresentam vários dos eventos da AirBit Club. Em entrevistas, Pablo se denomina diretor geral do clube, e Gutemberg se diz “master distributor”.

No Panamá, existe uma empresa chamada AirBit Club, mas nenhum dos dois são sócios. Eles comandam, na verdade, uma offshore com outro nome: a VZ Market S.A, que tem Renato Rodríguez como presidente e Gutemberg dos Santos como diretor e tesoureiro. Santos também tem negócios no Brasil: junto com seu irmão, Alysson dos Santos, ele é sócio de uma empresa com o mesmo nome, VZmarket, sediada em uma zona de preservação histórica no centro de Recife. O telefone de contato disponível no registro da empresa não funciona.

Mas os negócios da VZmarket, ao menos na teoria, nada têm a ver com bitcoin – sua atividade registrada é agenciar profissionais para atividades esportivas, culturais e artísticas. Nada relacionado a criptomoedas ou a atividades financeiras.

Tentamos contato com a AirBit Club pela única forma disponível, o formulário no site. Não tivemos resposta. Também tentamos falar com Rodríguez pelo Instagram, mas ele também não respondeu – assim como Alysson dos Santos, contatado por e-mail, WhatsApp e telefone. Gutemberg dos Santos não foi localizado.

Apontados diretamente pelos líderes como fundadores em vários posts, Renato Rodríguez e Gutemberg dos Santos vivem entre hotéis de luxo e palcos imponentes pelo mundo. Colecionam fotos com celebridades – Enzo Fittipaldi e Cafu, patrocinados pela empresa, estão entre elas – e elogios dos líderes. Em um post no Facebook de janeiro de 2017, Goretti Fonseca – mãe do líder prodígio Gabriel – posou no Panamá ao lado de Gutemberg e comentou: “juntos na AirBitClub somos mais abençoados, fortes, lindos e vamos ficar bitlionários!!!”

Os dois empresários viveram nos EUA – Gutemberg dos Santos é dono de uma casa em Las Vegas – e são conhecidos pela justiça americana. Em 2016, Rodriguez e Santos foram denunciados pela Securities and Exchange Comission – o equivalente americano do órgão que regula a bolsa de valores no Brasil, a CVM – por comandar uma pirâmide financeira chamada Vizinova. Eles fizeram um acordo e pagaram US$ 1,4 milhão de dólares de multa. Na Bolívia, a dupla foi denunciada pelo Ministério Público por estelionato. Como a justiça boliviana não os localizou, eles estão foragidos e podem ser presos se pisarem no país. Também há problemas na Colômbia: a Superintendencia Financiera, uma espécie de CVM da Colômbia, apontou que a atuação da AirBit Club no país é ilegal, assim como a operação de bitcoins. Atentou ainda para a possibilidade de se tratar de um “esquema piramidal”, segundo a API, uma agência de jornalismo investigativo colombiana.

No Brasil e em outros países, a AirBit Club, sem ligação clara com os dois sócios, segue funcionando a pleno vapor.

Clube de 171

No fim de março, Andressa Costa, uma das mais proeminentes líderes da AirBit Club, postou uma foto em seu Instagram dentro da Igreja Universal do Reino de Deus em Monterrey, no México. “Não só frequente uma igreja, seja a própria igreja”, dizia o texto da postagem. Costa estava na cidade para assistir a mais uma prova da Nascar do backstage, regalia dada aos líderes pela patrocinadora AirBit Club. Junto com os outros, ela se encontrou com bispo Renato, que toca a IURD na cidade, com a dupla sertaneja Junio e Cezar e com o ex-jogador Cafu, todos devidamente paramentados com os uniformes e logotipos da empresa.

Assim como outros líderes bem-sucedidos, Andressa Costa propagandeia seu sucesso pessoal para incentivar outras pessoas a aderirem ao clube – e é uma das mais conhecidas lideranças do litoral paulista. Seu marido, chamado Antonio Marcos Rodrigues e conhecido como Niko, é seu parceiro de negócios. O casal já foi tema de reportagem da Universal News, versão em inglês da Folha Universal, e já testemunhou algumas vezes em altares da igreja – uma delas ao lado do Bispo Edir Macedo, em Miami, nos EUA.


Em 2017, Antonio Marcos, marido de Andressa, comemorou uma “conquista” ao lado dela
no Instagram.

Ao lado de Gutemberg dos Santos, Andressa também já foi entrevistada em uma reportagem do Balanço Geral no final de 2017. Na ocasião, os dois acompanharam um jantar beneficente promovido pelo Instituto Ressoar, o braço filantrópico da Record. O evento, que contou com a cúpula de celebridades e executivos da empresa, foi patrocinado pela AirBit Club.

Mandamos perguntas para o Instituto Ressoar para entender melhor o patrocínio e o destaque dado aos líderes da AirBit Club no evento mais importante do ano da instituição. Eles não responderam.

Contatada por e-mail, a líder da AirBit Club minimizou sua importância. Ela nos disse que é só uma fiel da igreja.

Em um dos eventos da AirBit Club no litoral paulista, Carlos*, investidor que prefere não se identificar por medo de represálias, conheceu Andressa. Levado ao clube por uma amiga, seu ingresso na AirBit Club dependia da entrega do valor do pacote de adesão para um líder. Carlos diz que o pagamento foi feito em dinheiro vivo. Ele começou a perceber que havia algo errado quando reclamou que estava com problemas para receber seu saque. Foi retirado do grupo de WhatsApp do clube e perdeu o contato com as lideranças. Revoltado, ele denunciou o clube ao Ministério Público Federal.


Clientes lesados pela AirBit Club criaram até grupos no WhatsApp 
para falar sobre os problemas. Nós acompanhamos um deles.

Andressa nega depósitos em sua conta. “São [pessoas] maldosas ou trabalham em empresas que eu não aceitei entrar, resolvem através de denúncias vazias denegrir minha imagem e do negócio”, argumentou. Seu nome é citado em denúncias no Reclame Aqui – no total, são 31 no site envolvendo a empresa. Nenhuma delas foi respondida. A líder nos disse que vai “verificar a identidade” da pessoa que a mencionou no site e “tomar as medidas judiciais cabíveis”.

Os usuários se queixam, principalmente, da falta de registro no Brasil, das dificuldades para saque, da falta de transparência quanto às taxas para reaver o dinheiro investido, da ausência de contratos e da pressão para busca de novas pessoas para integrarem o clube. Também há acusações de que o esquema é uma pirâmide financeira – um crime que pode render até cinco anos de prisão.

As denúncias à Airbit Club chegaram à CVM, responsável por investigar crimes e fraudes financeiras. O Intercept teve acesso ao processo, com exceção de alguns ofícios e e-mails. O órgão chegou à conclusão de que não há “elementos de autoria e materialidade que permitam a apresentação de uma acusação por infração à legislação do mercado de capitais”, uma vez que a AirBit Club trabalha com criptomoedas, não regulamentadas no Brasil.

A CVM, no entanto, recomenda o encaminhamento do processo ao Ministério Público, por acreditar que “existem indícios de que estamos diante de uma fraude, que poderia ser de crime previsto no art. 171 do Código Penal”. Ou seja: estelionato. Além disso, atesta a inexistência de CNPJ da empresa e indica a relação de Gutemberg dos Santos e Pablo Renato Rodríguez com a operação da empresa no país.

A empresa foi investigada pela Polícia Civil, que finalizou um inquérito, e o caso está com Ministério Público de São Paulo desde setembro de 2018. A AirBit Club está sendo investigada por estelionato e crimes contra a economia popular.

Garoto bitcoin

No final do ano passado, Andressa Costa foi uma das escolhidas para apresentar a retrospectiva da AirBit Club em um vídeo institucional gravado no Panamá. Ela também revelou seu novo título: Master Council, espécie de super-representante da empresa ao redor do mundo. Foi apresentada pelos colegas como a “motivadora”. Ela falou sobre os mega eventos, cujos ingressos deveriam ser comprados diretamente com os “líderes”.

Gabriel Reis já está em outra empreitada. Em outubro do ano passado, ele divulgou em suas redes sociais a Yat Solutions, empresa especializada em cursos de investimentos e assessoria financeira. A página inicial da empresa no Facebook diz que se trata de um “Serviço financeiro em Malta” – país que, assim como o Panamá, é um paraíso fiscal. Sua mãe, Goretti, ainda se apresenta como “consultora de bitcoin”.

Cinco anos após o bloqueio da primeira empresa que fez parte, o garoto-propaganda da prosperidade na Universal parte para a terceira. Em sua publicação, amigos o parabenizam: “Garoto Bitcoin, onde vc estiver o sucesso é garantido pois você é bom no que faz!”.

Paulo Victor Ribeiro, Yuri Ferreira

Colaborou nesta reportagem: Eduardo Goulart.
No The Intercept
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Te cuida, Bolsonaro: prefeito de Dallas é pró-refugiados, contra as armas e já se fantasiou de Village People

Mike Rawlings, prefeito de Dallas, plano B de Bolsonaro após ser escorraçado de Nova York
Depois do vexame do cancelamento da viagem de Jair Bolsonaro a Nova York, o porta-voz da Presidência, general Otávio do Rêgo Barros, vendeu que há “vários convites” americanos.

“Nosso presidente está a decidir, mas provavelmente será no Texas”, declarou Rêgo Barros com seu pique de bilheteiro de trem fantasma.

Bolsonaro iria ser homenageado como “Pessoa do Ano” pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos.

Arregou por causa do prefeito Bill de Blasio, que o chamou de “ser humano perigoso” e comemorou a desistência do brasileiro reforçando que “o ódio não é bem-vindo”.

O convescote deve ser transferido para o Texas entre os dias 14 e 16.

“Há uma tentativa de que haja uma conjugação das atividades lá em Dallas, ainda a ser assentadas agora por meio das interlocuções”, falou Rêgo Barros.

A turminha não deve esperar um recepção calorosa. Ao contrário.

O prefeito Mike Rawlings é democrata e não é raro que o chamem de Mike “De Blasio” por suas posições parecidas com as do colega da Costa Leste.

Na verdade, é uma versão um pouco mais soft do italiano. Em junho, termina oito anos de mandato numa das maiores metrópoles dos EUA.

Aos 64 anos, dois filhos, grandalhão como De Blasio, é a favor do casamento gay, dos refugiados, do controle de armas e ativista contra a violência doméstica. 

Disse que teme mais homens brancos cometendo terrorismo em seu país do que muçulmanos. 

“Tenho mais medo de grandes grupos de jovens brancos que entram em escolas, teatros e atiram em pessoas”, falou após um massacre na Flórida.

“Os imigrantes não apenas trazem sua experiência e talento, eles mantêm nossa cidade jovem”.

O ataque a uma boate gay em Orlando foi “uma ilustração trágica dos temores legítimos de segurança com os quais a comunidade LGBT vive todos os dias”.

Após a tragédia, designou policiamento extra para os bairros com grandes comunidades de homossexuais.

Em 2018, improvisou um discurso na rua contra a tara por armamentos e inação das lideranças políticas.

“Conseguimos ir à lua, combater o câncer, lançar o Bitcoin, fazer todas essas coisas maravilhosas, mas por alguma razão não conseguimos parar de matar nas ruas dos Estados Unidos”, afirmou.

As estátuas dos heróis confederados são “monumentos de propaganda”, “símbolos de injustiça” e “tótens perigosos”.

É pouco provável que um lugar que elege um sujeito como Rawlings vá abrir os braços para o Jair, nosso pária internacional.

Não custa arriscar, de qualquer modo. Vai, garoto!

Kiko Nogueira
No DCM
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Propina da OAS explode banca da mulher de Gilmar!

Escritório de Sergio Bermudes lavava grana para Cesar Maia!


Explicações preliminares.

Sergio Bermudes é aquele advogado que telefona para o Ministrário Gilmar Mendes duas vezes por dia.

Por arte de lamentável coincidência, Bermudes é um dos expoentes do nobre conjunto de 1001 advogados do ínclito banqueiro.

O ínclito banqueiro se beneficiou de dois HCs Canguru do Ministrário Gilmar, mesmo depois de o jornal nacional demonstrar de forma inequívoca que o ínclito banqueiro subornou um agente policial!

A sra. Gilmar Mendes, Dra. Guiomar, chefia o escritório do Dr. Bermudes em Brasília!

Oh, infausta coincidência!

É o que demonstram Wálter Nunes e Felipe Bachtold na Fel-lha:

Cesar Maia recebeu propina da OAS por escritório de advocacia, afirma delator

Um ex-executivo da OAS que se tornou delator na Operação Lava Jato disse em depoimento que a empreiteira pagou propina a Cesar Maia (DEM), ex-prefeito do Rio, por meio de contrato fictício com o escritório de Sérgio Bermudes, um dos mais importantes advogados do país.

O relato a procuradores da República compõe um conjunto de mais de 200 temas em que oito ex-funcionários que trabalhavam no departamento de propinas da empreiteira delatam casos de corrupção envolvendo políticos e agentes públicos.

O acordo de colaboração premiada dos oito delatores foi homologado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em julho de 2018. Cesar Maia é pai do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM).

A história sobre esse suposto repasse ilegal feito ao ex-prefeito Cesar Maia, hoje vereador no Rio, foi contada pelo ex-executivo Marcelo Tadeu, um dos responsáveis pela geração de caixa dois usado para pagamento de suborno.

Tadeu disse que, em 2013, recebeu uma ordem do então presidente da OAS, Léo Pinheiro, e do superintendente da empreiteira no Rio, Reginaldo Assunção, para que fizesse contato com o escritório de Bermudes para viabilizar pagamentos cujo destinatário seria César Maia.

Segundo Tadeu, iniciou-se então uma negociação com um diretor da banca de advocacia. O acordo, segundo o delator, foi que a OAS contrataria a firma de Bermudes e pagaria R$ 360 mil em honorários, mas nenhum serviço advocatício foi prestado à empreiteira. O dinheiro, segundo o executivo, era na verdade para quitar serviços prestados pelo escritório diretamente a Cesar Maia.

O compromisso da OAS com Cesar Maia, segundo o delator, era antigo. Começou quando a empreiteira se mostrou interessada na concessão da Linha Amarela, via expressa que liga a Barra da Tijuca, na zona oeste, até a zona norte carioca.

A obra começou no governo de Cesar Maia (1993-1996) e terminou no de Luiz Paulo Conde (1997-2000), ex-secretário municipal que virou seu sucessor. Em 1998, a OAS ganhou por 25 anos a concessão da exploração do pedágio no trecho que vai do km 6, na Cidade de Deus, até o km 21.

A partir daí a empreiteira fez uma conta-corrente para abastecer Cesar Maia, segundo o delator. Em 2013, segundo Tadeu, a maneira encontrada pela empreiteira para repassar suborno ao ex-prefeito foi fazer um contrato fictício com o escritório de Bermudes.

Tadeu juntou à delação trocas de emails em que executivos da OAS negociam com um diretor do escritório de Bermudes os valores da propina, que seriam pagas a título de honorários a Bermudes.

Sergio Bermudes é considerado um dos principais advogados do Brasil nas últimas décadas. Na lista de clientes estão, por exemplo, Eike Batista e a empresa Vale, envolvida nas recentes tragédias de Mariana e Brumadinho.

O quadro de advogados associados de Bermudes não é menos importante.

O ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência Gustavo Bebianno fez a carreira no seu escritório antes entrar no governo de Jair Bolsonaro — ele caiu do cargo na gestão federal em fevereiro.

O escritório de Bermudes em Brasília é chefiado por Guiomar Mendes, esposa do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal.

Em documento obtido pela Folha, o ministro do Supremo Edson Fachin, que homologou a delação do grupo de colaboradores da OAS, autorizou o envio do conteúdo do depoimento que envolve Cesar Maia à Justiça Federal do Rio de Janeiro, conforme pedido pela Procuradoria-Geral da República.

O despacho é datado de 1º de agosto do ano passado. O ministro impõe, porém, sigilo sobre os autos transferidos. (...)

Em tempo: segundo insuspeito depoimento de Eliane Tucanhêde, o cupido do casamento de Dra. Guiomar com o Ministrário Gilmar foi o notável Márcio Chaer, responsável por um "bajulador" jurídico - na opinião de insuspeitos advogados - e que merece tratamento amigável na colona de Ilustríssima da Fel-lha e do próprio Ministrário, que não perde um de seus (inúteis) eventos (registrados na Ilustríssima...).

No CAf
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E quem disse que Olavo quer servir ao Brasil, general?


De onde o general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército e agora tutor da ala militar do governo Bolsonaro, tirou a ideia de que Olavo de Carvalho e seu grupo pretenderam, algum dia, servir ao país, para reclamar que ele presta, agora, um desserviço ao Brasil.

Não, general, ele apenas está fazendo o que sempre quis fazer, organizar uma falange de extrema-direita, filonazista. E, politicamente, está se saindo muito melhor do que os senhores, com todas as suas estrelas, cursos na ESG e o controle de um terço da administração federal.

No Estadão, seu grupo diz que os militares “só não deixam o governo com receio do que pode acontecer no País.”

Perdoe, mas é de rir.

General, nos cursos de Comando e Estado Maior, o senhor e seus colegas aprenderam a fazer estudos de situação. Será possível que os senhores vejam o papel das Forças Armadas como simples freio às loucuras de um governante e seu grupo de áulicos?

Freios, sabe o senhor, podem reduzir a velocidade da descida, assim mesmo se estiverem sendo acionados com força. Mas não podem empurrar o país ladeira acima na crise. E afundar na crise, como estamos fazendo, só soma forças ao radicalismo deles.

Em quatro meses, os senhores só perderam força. Ao ponto de terem, ontem, de apelar para a “bomba atômica Villas Bôas”, que foi lançado ao MMA virtual de Olavo de Carvalho que, sem se fazer de rogado, disse que não vai polemizar  com “um doente preso a uma cadeira de rodas”, como disparou no Facebook:

Nem o Lula seria vil e porco o bastante para, fugindo a argumentos sem resposta, se esconder por trás de um doente preso a uma cadeira de rodas. Mas os nossos heróicos generais são.

Já Olavo de Carvalho, do nada que é, conseguiu se impor como referência pública, figura central do governo e, não duvidem, com prestígio na jovem oficialidade que os senhores, deliberadamente, entregaram a Jair Bolsonaro, comandante  das Forças Armadas brasileiras.

Quer dizer que os senhores acham que demitir uma “olavete” inexpressiva da Apex e colocar lá um contra-almirante é uma vitória? É só munição para esta turma de fanáticos, que vai continuar a passar os dias demolindo a reputação das Forças Armadas,  o que é o seu verdadeiro objetivo.

É lamentável, general, mas Olavo de Carvalho tem se mostrado um estrategista anos-luz à frente dos senhores.

E isso, sim, deixa a todos nós com medo do que vai acontecer com o país.

Fernando Brito
No Tijolaço
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