3 de mai. de 2019

Guaidó 'vale mais morto que vivo' para CIA e oposição


Após a tentativa fracassada de derrubar o governo de Nicolás Maduro, o opositor venezuelano Juan Guaidó "agora vale mais morto que vivo não apenas para a CIA", mas também "para sua própria gente da oposição", disse o analista Daniel McAdams.

O diretor executivo do Instituto Ron Paul para a Paz e a Prosperidade, Daniel McAdams, falou no programa "Liberty Report" sobre as tentativas fracassadas de Guaidó de derrubar o governo de Nicolás Maduro com a ajuda de Washington. Paul tem estado preocupado com a possibilidade de que o país latino-americano mergulhe em uma onda de violência em grande escala em caso de qualquer provocação.

"Se houver uma [operação de] bandeira falsa ou se matarem algum funcionário importante de algum dos lados, não é possível dizer o que poderia acontecer", alertou Ron Paul.

O especialista apontou que o próprio Guaidó, com seu histórico de não ter conseguido mobilizar o protesto contra o governo de Maduro, poderia ser alvo desse tipo de provocação.

McAdams explicou que o líder da oposição "tem sido uma espécie de figura desventurada até agora", no sentido em que "chama a protestos em massa e ninguém aparece".

"Não acredito que neste momento ele se dê conta que, na realidade, agora ele vale mais morto do que vivo, não só para a CIA, mas também para sua própria gente da oposição", advertiu o diretor.

Em 30 de abril, o líder da oposição venezuelana, Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente interino do país, lançou a chamada Operação Liberdade para retirar Nicolás Maduro do poder. Em um vídeo publicado no Twitter, Guaidó aparece ao lado de militares e do líder oposicionista Leopoldo López, que estava preso desde 2014 e foi libertado pelos rebeldes, na base aérea de La Carlota, em Caracas. Guaidó pede uma "luta não violenta", diz ter os militares do seu lado e afirma que "o momento é agora".

Maduro, por sua vez, afirmou que os principais comandantes militares mantêm a lealdade ao seu governo e pediu a "máxima mobilização popular para assegurar a vitória da paz".

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Como os filhos de Bozo usam polêmicas para impulsionar engajamento no Twitter

Eles
Levantamento realizado pelo Aos Fatos nos perfis de Twitter dos irmãos Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro indica que os três filhos do presidente da República, Jair Bolsonaro, conseguem mais engajamento nas redes sociais com polêmicas do que ao divulgar propostas e ações de seus mandatos parlamentares ou do governo do pai. Nos quatros primeiros meses deste ano, os três publicaram, juntos, 2.974 mensagens e retweets. Em alguns casos analisados, tweets com xingamentos tiveram até quatro vezes o número de curtidas de publicações propositivas, como mensagens sobre a reforma da Previdência. A varredura dos tweets publicados entre 1º de janeiro e 30 de abril deste ano foi feita com o auxílio da ferramenta TAGS.

Carlos Bolsonaro faturou mais interações no Twitter ao atacar o ex-ministro Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral da Presidência) e o vice-presidente Hamilton Mourão do que ao abordar o projeto de reforma da Previdência do governo para policiais.

Eduardo, por sua vez, notabiliza-se ao twittar informações controversas sobre movimentos e partidos de esquerda e temas internacionais, além de lançar mão de sites conhecidos pela difusão de notícias falsas e teorias da conspiração.

Já o irmão mais velho, Flávio Bolsonaro, reduziu substancialmente sua presença na rede social após a eclosão do escândalo Queiroz, que revelou movimentações atípicas do seu gabinete na Assembleia do Rio identificadas pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), no fim do ano passado.

Confira abaixo, em detalhes, o que identificamos.

Carlos Bolsonaro - 1,11 milhão de seguidores e 852 tuítes em 2019

Braço direito do pai durante as eleições de 2018 e apontado pela imprensa como o twitteiro oficial do presidente, Carlos Bolsonaro (PSC), 36 anos, é bastante atuante nas redes, com particular pendor para bate-boca e declarações controversas, inclusive em relação a políticos da base bolsonarista.

O primeiro choque com aliados do pai ocorreu em fevereiro, em meio às repercussões do escândalo das candidaturas laranjas do PSL. Na ocasião, Carlos atacou publicamente Gustavo Bebianno, então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, chamando-o de "mentiroso" após Bebianno ter dito à imprensa que conversou com o presidente, que estava internado. A postagem rendeu a Carlos 13,6 mil curtidas e 2,1 mil compartilhamentos.

Em 16 de fevereiro, Bebianno deixou o cargo e, dias depois, a revista Veja publicou áudios que o presidente enviou para Bebianno enquanto estava no hospital, confrontando o argumento do presidente de que não teria falado com o agora ex-ministro.

Também em fevereiro, Carlos postou um agrado ao vice-presidente Hamilton Mourão, hoje seu alvo de críticas: uma foto que mostra a assinatura do vereador em um pedido de homenagem da Câmara do Rio ao general. Dois meses depois, a relação mudou: após um entrevero entre Mourão e Olavo de Carvalho, Carlos saiu em defesa do segundo em 21 de abril. Nos dias seguintes, o vereador foi ainda mais enfático, tendo criticado abertamente o vice-presidente, insinuando um “alinhamento” do general com opositores.


Entre 21 e 27 de abril, Carlos postou 37 mensagens e retweets, sendo que 28 foram sobre polêmicas, principalmente ataques ao vice-presidente Mourão, e nove sobre assuntos propositivos, como os projetos da reforma da Previdência e do pacote anticrime. No período, as polêmicas, mais uma vez, saíram ganhando em alcance e interações. É o caso, por exemplo, de quando Carlos chamou seus críticos de “vagabundos” em um tweet: a postagem teve mais de 25 mil curtidas, quatro vezes acima das interações obtidas em um tweet sobre a Previdência para policiais e militares.

Os elogios a ministros como Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), e ainda aplausos a ações do governo Bolsonaro indicam que Carlos é uma peça importante de divulgação na estrutura da gestão federal. Em seus 852 tuítes desde janeiro, ele mencionou ao menos 29 vezes a “Nova Previdência”, em referência ao projeto de reforma da Previdência, que partiu do Executivo e tramita hoje na Câmara.

Em outras quatro oportunidades, Carlos demonstrou apoio ao pacote anticrime apresentado pelo ministro Sérgio Moro: “O pacote anticrime do Ministro Moro não é mera proposta de governo, é a principal demanda de nossa população!”, escreveu, em postagem de 26 de março, que continha ainda um vídeo do ministro defendendo as mudanças na legislação penal. Este tweet teve mais de 25 mil curtidas e 5,6 mil compartilhamentos.

No entanto, Carlos não ocupa cargo no governo federal, mas sim na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde é vereador desde 2001. Porém, há apenas uma postagem sobre a sua atuação no Palácio Pedro Ernesto, de 19 de fevereiro, quando se posicionou contra um projeto de “lei Rouanet municipal”. Até mesmo postagens com xingamentos, como “vagabundos”, em três oportunidades, e “idiotas”, em sete vezes, receberam mais engajamento do que a sua atuação na Câmara.

Eduardo Bolsonaro - 1,42 milhão de seguidores e 1.998 tweets publicados em 2019

São 1.998 tweets e retweets em quatro meses, uma média de 16 postagens por dia. Em seu perfil no Twitter, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) dedica-se a temas internacionais sob a ótica conservadora e ataques a movimentos e partidos de esquerda. Para isso, ele lança mão, inclusive, de sites vinculados à divulgação de notícias falsas: tais páginas foram citadas por ele em ao menos cem oportunidades, indica o levantamento.

Em março, por exemplo, Eduardo compartilhou uma notícia falsa que teve 23,5 mil curtidas no Twitter, publicada pelo site Terça Livre, que deturpou uma entrevista concedida pela repórter Constança Rezende, do jornal O Estado de S. Paulo. O caso teve repercussão nacional pelos ataques que a jornalista sofreu nas redes sociais.

Na agenda internacional, Eduardo demonstra predileção pelo governo republicano de Donald Trump nos EUA. Um destaque nesse ponto foi o dia 19 de março, quando o deputado acompanhou o pai e o chanceler Ernesto Araújo em visita oficial à Casa Branca. Na ocasião, o deputado twittou 23 vezes, sendo que a maior parte das mensagens e retweets tiveram como mote a agenda presidencial.

O presidente norte-americano, aliás, é mencionado em 83 postagens do deputado no período analisado por Aos Fatos. Em todas, de forma positiva. Exemplo disso são as mensagens elogiosas à aproximação do Brasil com os EUA ou às ações do governo Trump contra o terrorismo islâmico.
“A deferência que Trump fez a mim hoje é motivo de honra, mas foi para toda minha família, principalmente ao Carlos, que esteve a maior parte do tempo ao lado do JB durante o período difícil que o presidente dos EUA mencionou. Assim, Trump tb monstrou [SIC] +1 vez seu apreço p/ família.”, twittou Eduardo Bolsonaro, em 19 de março, em postagem que teve quase 35 mil curtidas e 5,8 mil compartilhamentos.
A aproximação com Trump, aliás, gerou atrito com chanceler Ernesto Araújo. Durante a visita aos EUA, a imprensa noticiou que Eduardo ofuscado o ministro. Na época, ele chegou a postar que não havia competição entre ele e Araújo.

O deputado também dispara com frequência contra movimentos e partidos de esquerda, mesmo com dados questionáveis, como verificou o Aos Fatos nas eleições do ano passado. Em janeiro deste ano, Eduardo postou uma mensagem onde ele reproduz um ataque de Donald Trump à imprensa norte-americana. O deputado complementa o tweet afirmando que a esquerda brasileira usaria “mentira” como “tática” para “derrubar governos”. Mesmo sem apresentar qualquer informação que confirme o ataque, postagem teve mais de 5 mil curtidas e cerca de 1 mil retweets.

Print screen Twitter

É notável ainda a presença nos seus tweets de teorias conspiratórias conservadoras, como a que denuncia a existência de um movimento globalista, evidenciada pelo tweet acima. A hipótese é levantada por aqueles que são contrários à imigração e à diversidade cultural, e também a modelos de governança que, creem, interferem na soberania dos países. O site de economia conservador Mises Brasil cita a União Europeia como exemplo de ação globalista:“super-estado europeu, no qual as nações-estado da Europa irão se dissolver como cubos de açúcar em uma xícara quente de chá”.

Flávio Bolsonaro -1,24 milhão de seguidores e 124 tuítes em 2019

No ano passado, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), 37 anos, candidatou-se a uma vaga no Senado após quatro mandatos como deputado estadual no Rio de Janeiro e foi eleito com mais de quatro milhões de votos. A vitória nas urnas, porém, foi eclipsada pela revelação, meses depois das eleições, de suspeitas sobre a contratação de servidores laranjas em seu antigo gabinete, sob investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro.

A crise fez Flávio ficar longe dos holofotes, concedendo poucas entrevistas sobre o tema. Após o caso de movimentações suspeitas de dinheiro pelo ex-motorista de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, ser revelado pelo jornal O Estado de S.Paulo, em 6 de dezembro do ano passado, o senador eleito pelo Rio de Janeiro postou apenas cinco mensagens nos 25 dias restantes daquele ano. Uma das mensagens foi para afirmar que não cometeu ilegalidade no caso.

Foram 124 tweets nos primeiros quatro meses de 2019, um pouco mais da metade do que Flávio postou em outubro e novembro do ano anterior (217 mensagens), quando o escândalo do motorista ainda não tinha vindo à tona, o que indica uma submersão do atual senador naquela rede social.


Apesar de econômico em tweets na comparação com os irmãos, Flávio gerou polêmicas nas redes com consequências para o governo. Em 2 de abril, o senador twittou “Quero que vocês se explodam” junto com uma imagem de uma reportagem da revista Exame cujo título era o seguinte: "Hamas repudia visita de Bolsonaro a Israel e pede 'retratação'". A mensagem foi apagada no mesmo dia, mas gerou repercussão negativa. Antes de ser deletado, o tweet já havia amealhado mais de 3.700 curtidas e 1.663 comentários.

No dia 3 de abril, o chefe de relações internacionais do Hamas, Basem Naim, criticou a postagem e chamou Flávio de “filho do presidente extremista”. De olho na forte relação comercial do Brasil com os países árabes, o deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS), presidente da Frente Parlamentar Agropecuária, também reprovou a mensagem do senador Flávio e disse à imprensa: “Chega dos meninos do Bolsonaro, não dá mais”.

Publicações de Flávio sobre assuntos de governo não se limitaram apenas a questões relativas à política externa. Segundo ele, no início de abril, “o governo trabalhou com vigor nos últimos 100 dias e vai trabalhar ainda mais até o fim do mandato. Vamos entregar para os eleitores o Brasil que nos pediram nas urnas. Parabéns, PR @jairbolsonaro”. O post teve cerca de 13 mil curtidas e mais de 2 mil compartilhamentos.

Caso Queiroz

O Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) identificou uma movimentação financeira de R$ 1,2 milhão entre 2016 e 2017 na conta bancária de Fabrício Queiroz, época em que ele trabalhava como motorista do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Um dos depósitos feitos por Queiroz foi para a primeira-dama Michelle Bolsonaro, isso fez o escândalo respingar no pai e gerou uma crise para o governo Bolsonaro.

O Coaf, órgão do governo federal, também identificou transferência de ao menos dez funcionários do gabinete de Flávio para Queiroz, incluindo a filha e a mulher do PM aposentado. Todos foram intimados a depor no fim do ano passado e são alvo das investigações cíveis e criminais - incluindo mulher e a mãe do ex-PM Adriano da Nóbrega, foragido apontado como chefe da milícia de Rio das Pedras.

Os dois procedimentos são sigilosos, motivo pelo qual o Ministério Público não se pronuncia sobre seu andamento.

Referências:


Hyury Potter
No Aos Fatos
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Moro caiu na ratoeira

Laerte
Um pedido de demissão do ministro da Justiça, Sérgio Moro, por divergências em relação a posições do governo seria, a esta altura, um desastre político para o presidente Jair Bolsonaro – que já anda às voltas com uma insistente queda de popularidade. Por isso, Moro vem esticando a corda, numa investida pública, com seguidas entrevistas e manifestações, contra a transferência do Coaf de sua pasta para a Economia – o que, a depender do Congresso, hoje é muito provável.

Insatisfeito com essa e muitas outras trombadas que vem tendo no governo, onde já percebeu que não é prioridade, o que restaria a Moro? Pedir o boné e ir para casa?

Afinal, quase todas as suas derrotas têm o dedo do Planalto e de seus aliados. No caso do Coaf, por exemplo, o próprio presidente chegou a admitir negociar o retorno do órgão ao Ministério de origem em troca da aprovação da medida provisória que reestruturou administrativamente o governo sem outras mudanças mais danosas.

Com isso, Bolsonaro deixou Moro exposto ao sol e aos ventos da política, assim como em outros episódios constrangedores, como o da revogação da nomeação da socióloga Ilona Szabo e o quase engavetamento do pacote de mudanças penais enviado pelo ministro ao Congresso. Tudo indica que esse comportamento “quem manda sou eu” de Bolsonaro, meio semelhante ao que ele tem adotado em relação aos militares que supostamente o tutelariam, vai continuar.

E Moro, se derrotado mais uma vez, terá que avaliar se vale a pena continuar no governo para uma sucessão de desgastes e vexames. A possibilidade de sair tem sido aventada nos últimos dias por interlocutores próximos do ex-juiz, embora ainda cheire a pressão, sobretudo sobre o próprio chefe, para rever sua posição inicial sobre a devolução do Coaf.

O que se comenta nos meios jurídicos de Brasília é que a  recente afirmação do ministro da Justiça de que seria “ganhar na loteria” ser nomeado para uma vaga no STF veio do fundo do coração. Foi um recado direto.

O grande problema é que nem isso está garantido para Moro, sobretudo se ele deixar o governo chutando o balde. Vaga no STF só haverá em 2020, e a nomeação depende da caneta de Jair Bolsonaro e, principalmente, da aprovação do Senado Federal – ou seja, daquele pessoal que não quer ver o ex-juiz da Lava jato nem pintado.

Tudo indica que Sérgio Moro, apesar da popularidade, deve estar arrependido de ter deixado a toga pelo governo Bolsonaro. Caiu numa ratoeira.

Helena Chagas
No Os Divergentes
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Lula já fez solicitação à defesa para deixar a prisão fechada

Alencar afirmou que Lula se reuniu com a defesa hoje e fez a solicitação do benefício, "deixando claro que não desistirá de provar inocência e que a atitude não é admissão de culpa"


O ex-presidente Lula disse, nesta sexta (3), durante entrevista em Curitiba a Kennedy Alencar, que vai pedir o quanto antes a “progressão de regime para sair da prisão fechada”. No Twitter, o jornalista afirmou que Lula se reuniu com a defesa ainda hoje e fez a solicitação do direito, “deixando claro que não desistirá de provar inocência e que a atitude não é admissão de culpa”.

No mês passado, o Superior Tribunal de Justiça julgou recurso de Lula no caso triplex e reduziu a pena para 8 anos e 10 meses de prisão. Aplicando a fração mínima de cumprimento de 1/6 da pena, Lula poderia solicitar a mudança de regime em setembro de 2019, do fechado para o semiaberto.

Há juristas, no entanto, questionando o cálculo do STJ, que desconsiderou que o petista já cumpriu 1 ano de prisão preventiva. Para os críticos, Lula poderia estar no regime semiaberto imediatamente. Além disso, criminalistas esperam que a idade de Lula e outros fatores sejam decisivos na obtenção do direito ao regime domiciliar em breve.

Em entrevista à CartaCapital, veiculada na quinta (2), a defesa de Lula disse que há outros institutos para pedir ajudar na progressão de regime, como a remissão, que considera o tempo de leitura do ex-presidente isolado em Curitiba.

A entrevista com Kennedy Alencar deve ir ao ar pela RedeTV! no sábado (4), por volta das 19h30.

No GGN
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Crônica de Manaus e o outro Jair

https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/cr%C3%B4nica-de-manaus-e-o-outro-jair-1.336321

De Manaus, olho para baixo e vejo: vai mal a coisa.

Ainda bem que alguns andam na contramão.

Jair Soares foi governador do Rio Grande do Sul e ministro da Previdência. Ele é do Progressista. O PP é considerado de direita. Paulo Paim é senador. Ele é do Partido dos Trabalhadores. O PT é visto como de esquerda. Jair e Paim estiveram, segunda-feira, no Esfera Pública, na Rádio Guaíba, conversando comigo e Taline Oppitz. Ambos disseram a mesma coisa: não há, sem desvio de recursos pelos governos, déficit da Previdência Social. O desvio acontece por meio da DRU (Desvinculação das Receitas da União), que autoriza agora saquear 30% do bolo previdenciário.

O déficit da Previdência é uma fraude. Jair Soares repetiu articulando cada palavra: “Não há dinheiro público na Previdência”. Segundo ele, o Estado, em qualquer nível, só contribui como empregador. Paim, o petista, e Jair Soares, o progressista, defenderam em uníssono o sistema solidário de repartição e criticaram a proposta de capitalização. Sem garantia pública, explicou Jair, o trabalhador, transformado em poupador compulsório, ficará à mercê da saúde do sistema financeiro. Tanto o “esquerdista” quanto o “direitista” destacaram que o regime proposto pelo ministro Paulo Guedes fracassou no Chile. Os dois estão prontos para debater com defensores da reforma proposta pelo presidente Jair Bolsonaro.

Com excelente memória e números na ponta da língua, Jair Soares já não obtém respostas do ministro Onyx Lorenzoni para suas manifestações sobre a reforma da Previdência. Os conhecimentos do ex-governador parecem incomodar. Jair aceita o estabelecimento de uma idade mínima para a aposentadoria. Pede, contudo, ponderação: “Na Alemanha, está em 64 anos. Só chegará a 67 em 2030”. Soares salientou que de FHC para cá esta é a sexta reforma da Previdência. Afirmou que só neste ano o governo vai, por meio da DRU, tirar cem bilhões da Previdência para colocar onde quiser: “Estão dizendo que vão economizar um trilhão em dez anos, mas o governo tirou de 2002 a 2015 um trilhão e quatrocentos bilhões da Previdência”.

Soares lembrou que de 22 fundos previdenciários privados chilenos, 20 quebraram. Detonou a intenção do governo de desconstitucionalizar a Previdência para poder fazer o que bem entender. Criticou as desonerações que também sangram os recursos previdenciários. O Brasil não vai quebrar se a reforma não passar, salientou. Ironizou que os preocupados com a quebra não falam da dívida trilionária do país com seus altos juros. De quebra, disse que assina embaixo tudo o que Paulo Paim fala sobre a Previdência. Não bastasse, aos 86 anos, Jair Soares está empenhado, junto com o jornalista Flávio Tavares, em questionar a instalação de uma mineradora chinesa em Eldorado, o que poderá resultar em dano ao meio ambiente. Depois de ouvir o insuspeito Jair Soares e o incansável Paulo Paim só há uma coisa a concluir: a reforma da Previdência é um engodo.

Pena que os debates na grande mídia nacional acontecem sem contraponto. Seria interessante ver uma entrevista de Miriam Leitão, Merval Pereira, Carlos Alberto Sardenberg e João Borges com Jair Soares.
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Dilma Rousseff: “Estes tempos nos exigem, antes de tudo, coragem”

Dilma Rousseff esteve em Buenos Aires para o lançamento do Comitê Argentino Lula Livre e Justiça para Marielle. Aqui, ela explica que grupos existem no governo de Bolsonaro e o que mudou para pior no Brasil.

Foto: Leandro Teysseire
– Qual é a sua expectativa a curto prazo? Você tem esperanças?

– Nós devemos cumprir nossa parte: encontros, reuniões, discussões, resistência… Precisamos estar preparados porque a luta não será de curta duração. Será longa. Além de resistir, temos que insistir. Como a mãe de Lula disse a ele, você tem que teimar. É uma expressão usada no Nordeste do Brasil:. “Meu filho, você tem que teimar.” Teimar é forçar os limites.

– É a luta. É a política.

– É a vida, não apenas a política. Há um escritor brasileiro, que citei em meu primeiro discurso como presidenta, João Guimarães Rosa, que disse: ‘O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem’.

– Como avalia os primeiros quatro meses da gestão de Jair Bolsonaro?

– Tudo o que se esperava que acontecesse, aconteceu. Mas foi pior. É um governo de pessoas instáveis, que criam conflitos inclusive entre eles mesmos. Existem quatro grupos. Um é Bolsonaro, o clã Bolsonaro, seus três filhos, o ideólogo Olavo de Carvalho e toda a ala neopentecostal-evangélica. Tem um núcleo militar que é muito dominante, e chega a mais de cem pessoas de alto coturno, como generais, coronéis, generais de duas, três, quatro estrelas. Depois vem o núcleo da escola de Chicago, que é neoliberal e formado por adeptos das teorias de Milton Friedman, incluindo a teoria de Friedman aplicada no Chile, segundo a qual é necessário aproveitar a crise, porque a crise dispersa e, então, você pode tirar das pessoas seus direitos básicos e transformar o mercado na única grande referência. E o quarto grupo do governo Bolsonaro é o poder judicial da chamada “República de Curitiba”. É representado no governo pelo agora ministro Sergio Moro, que como juiz condenou Lula e o impediu de participar das eleições, o que beneficiou Bolsonaro e o posicionou como principal candidato. Além disso, ele tem uma visão punitivista e de criminalização do direito como seu maior instrumento. A ala bolsonarista inclui três ministros: a ministra da Mulher, Direitos Humanos e Família, que propõe coisas absurdas, como mulheres vestindo rosa e homens vestindo azul; e que as mulheres sejam submissas aos homens. Ela se opõem ao fato de que a Comissão da Verdade sobre a ditadura identificou corpos de vítimas. Já o chanceler Ernesto Araújo propõe romper com o Mercosul, que ele diz que é inútil. Ao aceitar transferir a embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, ele ameaça romper a política comercial do nosso país com os países árabes.

– Mas não aconteceu ainda.

– Não, mas é o que eles querem que aconteça. O chanceler também quer romper com a China porque, segundo ele, a China faz parte do movimento comunista. Diz que Donald Trump, por sua vez, representa a consciência ocidental, e como tal deve ser seguido. É uma submissão cega aos Estados Unidos. Até mesmo o agronegócio já sofreu grandes perdas com essas mudanças ou manifestações. Também os industriais que se relacionam com a Argentina hoje estão perplexos.

– Certos setores do establishment pensaram que poderiam controlar Bolsonaro.

– Eles pensaram assim: “Bolsonaro faz a omelete das reformas; revoga os direitos dos trabalhadores, acaba com direitos previdenciários, destrói parte da Petrobras, privatiza tudo, elimina as leis ambientais e das terras indígenas, e depois nós o domamos”. Mas Bolsonaro, um neofascista, não tem o chip da moderação. Então vêm as contradições. Os militares lutam contra a ala pura bolsonarista. Os filhos de Bolsonaro e Olavo atacam os militares. Os militares replicam. Os meios de comunicação, que apostavam que poderiam controlar Bolsonaro – “é possível moderar”, eles diziam – descobrem que ele baseia sua comunicação unicamente nas redes sociais e não os leva em conta. O modelo de Bolsonaro é Trump: governar pelo Twitter.

– Sem intermediários …

– Sem intermediários. Diretamente E ainda faz ameaças explícitas, diretas, aos meios de comunicação: “Se vocês acham que eu vou transferir dinheiro de publicidade oficial para suas empresas, estão muito enganados”. O mercado financeiro passa o tempo todo ameaçando a população com o ministro da Economia, Paulo Guedes. O mercado diz que, se não houver reforma previdenciária, haverá uma catástrofe econômica. É uma grande mentira. Todos os dados mostram que o crescimento do PIB permanecerá abaixo de 1 por cento. É mentira que uma reforma da previdência vá atrair investimentos. Se assim fosse, em muitos países não haveria investimento algum. No Brasil, a demanda está deprimida e a demanda pública não aparece. Há um quadro no Brasil de paralisia econômica.

– Este cenário de instabilidade política devido a disputas dentro do governo e de paralisia econômica cria uma oportunidade para o campo popular rearmar-se? Como o PT está enfrentando esse processo?

– Eu não diria que é uma oportunidade para se rearmar, mas deixa muito claro, para muitos que apoiaram Bolsonaro, que não houve um verdadeiro debate eleitoral. Não é uma corrida de cem metros, é uma maratona. Alguns dizem que, se Bolsonaro sair, assumirá o více, que segundo eles é mais moderado. Isto também é um mal-entendido. O vice-presidente é outro que não tem o chip de moderação. Da tradição militar nacionalista, não tem nada. Nem é um desenvolvimentista. É a favor do ministro Paulo Guedes e de suas reformas que vão quebrar o Estado brasileiro, para acabar com as empresas estatais, vender a Petrobras… Eles já aceitaram a venda da Embraer e a entrada dos Estados Unidos na base de Alcântara.

– A geopolítica internacional perdoa o Brasil por tomar medidas, com os governos do PT, no sentido de redistribuir o poder global? Penso no Brasil dos BRICS e o comparo com os enormes retrocessos posteriores ao golpe do impeachment e à interdição política de Lula, uma farsa confirmada pela nomeação de Sergio Moro como ministro da Justiça.

– Claro, é como se fosse uma confissão de culpa

– Foi um erro ou um acerto, em termos de resultados, ter desejado jogar em uma liga que talvez o mundo não nos autorize a jogar, como latino-americanos?

– De que mundo você está falando?

– … dos Estados Unidos e do capital internacional.

– Com o golpe, o Brasil foi enquadrado geopolítica, financeiramente e culturalmente. Financeiramente por quê? Porque não tinhamos, quaqndo governamos, apenas todo um Estado com capacidade e instrumentos de desenvolvimento. Tinhamos, por exemplo, o BNDES, que em certos momentos se tornou maior que o Banco Mundial em relação aos fundos que administrava. Além disso, o Brasil, economicamente, tinha uma grande empresa de petróleo – a sétima do mundo – e, como vocês sabem hoje, as maiores reservas de petróleo estão nas mãos dos estados nacionais. Ter acesso às reservas da Petrobras era muito importante para os imteressados no golpe. Não somos o Oriente Médio, que é uma zona de conflito. Além disso, nossas posições incomodavam muito. Não apenas os Estados Unidos e a Europa eram nossos parceiros, mas também Mercosul, Unasul, o Celac… Construímos uma certa independência dentro de um continente que, estrategicamente, os Estados Unidos consideravam como seu. Com a Argentina, durante séculos, nossas ferrovias não estavam conectadas e nem o sistema de energia. Nós trabalhamos para fazer isso. A mesma coisa acontece com a África. E com os BRICS, que obviamente incomodaram porque foi a época em que a China se consolidou, a Rússia emergiu como uma potência internacional e a Índia e a África do Sul cresceram. Chegamos a criar no âmbito do BRICS um fundo de contigência e reservas, que funciona como uma espécie de FMI dos emergentes. Também lembro que o Brasil não votou a favor de guerras, quando integrou o Conselho de Segurança da ONU. Na questão palestina, na questão israelense, sempre defendemos a ideia de que devem existir dois Estados. Sempre tivemos uma posição clara em favor dos direitos humanos e do meio ambiente. Nós éramos independentes e respeitosos. E exigíamos que nos respeitassem.

– Hoje, os recursos naturais não são o único fator crítico ou ponto-chave. O controle de dados também é uma ameaça e têm tido impacto na política do nosso país.

– Totalmente

– 80% dos dados produzidos e trocados na América Latina passam por um nódulo de controle nos Estados Unidos.

– Eles passam através de um nódulo. Passam por Miami. Mas também têm outro problema. Todo o equipamento que usamos tem as chamadas “portas traseiras”, “back doors”, por meio das quais podem gravar o que desejam. Mas insisto na questão do uso político. Eu dou um exemplo do WhatsApp no Brasil. Foi usado por robôs que transmitem notícias segundo algoritmos. Havia muitas “notícias falsas”, as chamadas fake news.

– E como as fake news afetam a vontade popular, com sua extrema multiplicação?

– Elegendo um candidato com 38 segundos de tempo na televisão e sem um partido de dimensão nacional? Ele não fez campanha na televisão e não aceitou ir a nenhum debate? Ele foi eleito pelas redes sociais, manipulando os dados, fazendo uma comunicação unidirecional. Ou seja, não houve diálogo, não houve debate, não houve contraste de idéias. As ideias eram e são toscas e primitivas: a insegurança pública destrói as famílias, os direitos das mulheres destroem a família, os direitos dos homossexuais também são destrutivos, uma família com a mãe e sem o pai produz filhos criminosos. E em economia, eles também simplificam e forjam. Não explicam a falta de crescimento pela estrutura financeira distorcida e que não investe. Eles dizem: “Ah, é porque houve corrupção”. Então segundo eles o desemprego e tudo o mais se deve à corrupção. Além de tudo, o punitivismo da Lava Jato desempenhou um papel muito importante na eleição. Primeiro, tirou Lula do caminho. Ele era o inimigo número 1. E as balas perdidas do punitivismo invadiram o espaço político. Os partidos tradicionais não sobreviveram. Para que Bolsonaro surgisse, exigia-se uma política de terra arrasada da direita para o centro.

– E o campo popular não se deu conta dessa estratégia de terra arrasada?

– Uma parte dos que foram atingidos não estava consciente disso. Nós, do PT, éramos o alvo principal dos ataques. Nós sabíamos o que estava acontecendo. Mas muitos que não eram do PT, mas integravam o campo democrático, pensaram que o ataque seria só contra a gente.

– Como Lula tem estado, quando você o vê?

– Muito bem, todas as vezes. Lula é uma pessoa excepcional e os que o menosprezaram já sabem quem ele é. Eles perceberam quem ele é no segundo mandato. Lula tem uma grande capacidade de aprendizado. Ele tem pouca educação formal, mas tem capacidade de compreensão e memória fantásticas. Tudo o que ele ouve e lê submete a uma análise profunda. Sempre racionaliza as coisas. Até na prisão. Ele tem uma grande força pessoal. Mas é muito triste visitá-lo e constatar que lá se encontra, preso, o presidente do Brasil que mais contribuiu para a evolução material da população. Está limitado a um cubículo. Não deixaram sequer que ele tivesse um frigobar. Guarda o iogurte em uma caixa de isopor. Ele sofreu um grande impacto com a morte de seu neto. Já havia perdido o irmão e eles não o deixaram ir ao funeral. A morte do neto foi devastadora como a perda de dona Marisa. Admiro que ele enfrente a prisão com tanta força. Ele não aceita condescendência. Não aceita nada menos do que a admissão de sua inocência. Lula não negocia sua liberdade. Ele tem a dignidade de recusar a negociação de sua própria liberdade.

– A recente redução da pena de Lula foi vista como uma oportunidade para a prisão domiciliar. Existe a possibilidade de Lula sair da prisão?

– A natureza dessa decisão é a tentativa de “normalizar” a prisão de Lula e fazer crer que há justiça plena no Brasil. Mas ao mesmo tempo pretendem condená-lo em outros processos, o que significaria, na prática, a imposição de uma prisão perpétua. A saída para Lula seria uma modificação da correlação de forças. Eles não liberam Lula porque Lula altera a correlação de forças, então temos que gerar as mudanças para que Lula saia da prisão. Ele não sairá apenas por medidas institucionais. Teremos que combinar medidas institucionais com medidas de mobilização, participação, e é por isso que a solidariedade internacional é tão importante.

– Quanto uma vitória popular na Argentina pode ajudar na correlação de forças no Brasil?

– Ajudará porque vai ser uma mudança para toda a América Latina, que vive hoje um momento muito desfavorável. Só temos México, Bolívia e Uruguai com governos comprometidos com a América Latina e com seus povos. Acredito que a Argentina mudará essa situação, porque a Argentina é um dos países mais desenvolvidos e fortes do continente, com grande influência cultural, política e econômica. Um governo popular na Argentina influenciaria a favor da democracia e de Lula porque o Brasil é seu grande parceiro e boa parte da liderança política brasileira é fraternal em relação à Argentina. Seria uma esperança, uma luz não no final, mas no meio do túnel. A luz do final do túnel final é a que nos levará a uma democracia efetiva novamente.

– Como você vê uma candidatura de Cristina Kirchner?

– Cristina desempenhou um papel importante, não só na Argentina, mas também na América Latina. Eu quero falar sobre a Cristina que eu conheço. Eu testemunhei a luta renhida de Cristina para superar o castigo que foi a retirada de todo o crédito da Argentina, como se faria para matar uma pessoa de sede. Cristina conseguiu resolver a questão estratégica da dívida externa da Argentina, lutando contra os fundos abutres, que queriam reabrir toda a negociação realizada por ela. Cristina travava esta luta quando seu mandato terminou. Mas até então negociou com grande firmeza e contou com o apoio dos demais países da América Latina. Ela buscava uma solução que libertasse a Argentina dessa catástrofe que é o retorno do endividamento, que foi a aceitação dos termos impostos pelos fundos abutres e que levou a uma crise fiscal e à intervenção do FMI. Tenho certeza de que, com ela, isto não teria ocorrido. A outra questão que eu o vi Cristina defender foi a necessidade de integração regional, a fim de que nossos setores industriais se integrassem, na indústria naval, no setor automotivo, com a adoção de uma política tecnológica comum, para que tenhamos uma experiência comum na indústria farmacêutica…Eu também conheço o lado social de sua atuação, com o AUH, observei atitudes soberanas no G-20, na questão das Malvinas… Cristina Kirchner é uma estadista.

– Como você analisa a crise argentina?

– Eu vejo com muita tristeza o retorno ao FMI. Nós sabemos que não há saída por este caminho. Nunca houve uma saída por aí em nossa história. A saída não está nas políticas de austericídio, a saída está em políticas de desenvolvimento. Os juros não podem crescer acima do crescimento do PIB. Caso contrário, não há como resolver o problema da dívida. Tanto nos Estados Unidos quanto na União Européia, o juro é quase zero. E foi isso que lhes permitiu reverter a maior dívida do mundo na crise financeira de 2008. Por que eles fazem isso? Por que os Estados Unidos nunca aplicaram uma política de austeridade contra si mesmos. Por que o dólar é uma moeda forte? Porque os Estados Unidos nunca adotaram uma política de contenção de demanda. Ao contrário. Seguiram as diretrizes de Franklin Delano Roosevelt. E quando fizeram o oposto, deu muito errado. Eu não acho que a política do Mauricio Macri é uma solução. E esta constatação me deixa muito triste.

– Lula Libre, Justiça por Marielle Franco, o que estas bandeiras simbolizam para a luta popular no Brasil?

– Lula Livre significa a luta pela democracia, contra o lawfare, que é o uso da lei como uma arma para criminalizar a política e para destruir a reputação daqueles que são considerados inimigos. Com sua luta, sua força e sua dignidade, Lula é sintetiza uma manifestação clara: ‘vocês não me destruirão; vocês podem me encarcerar, mas não me destruirão; minhas ideias não podem ser presas’. Lula representa a reação ao neoliberalismo no Brasil. Foram nossos governos que derrotaram o neoliberalismo, que herdamos de Fernando Henrique Cardoso. Não permitmos que continuasse. Lula representa a prova de que é possível fazer as coisas de maneira diferente, priorizando o combate à desigualdade; com políticas cujo eixo é a redução da desigualdade e o aumento de oportunidades para a população. Lula representa a democracia, o antiliberalismo e a afirmação de que o Brasil deve ter soberania e força. É por isso que o ‘Lula Livre’ é a tradução da luta pela democracia.

– E Marielle?

– O tributo a Marielle representa a luta contra a violência. Contra a violência do Estado, mas sobretudo a violência paraestatal, exercida pelas milícias, que são, no Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, as grandes executoras de uma política que vai se tornando institucional e que formaliza o direito de matar. O Estado não pode ter o direito de matar, muito menos as milícias privadas. Marielle era uma mulher negra que teve um papel importante na luta das periferias, e representou muito bem todas as questões que interessam a estas populações: a questão da moradia, do transporte, a luta social das mulheres e do coletivo LGBTI. Marielle era defensora dos direitos humanos, sobretudo nas periferias.

Nicolás Trotta
No Página | 12
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Morre, aos 89 anos, o diretor de teatro Antunes Filho

Antunes foi o primeiro diretor a fazer a montagem de Macunaíma, em 1984; nos anos 90, passou a dirigir o Centro de Pesquisas Teatrais (CPT), escola de formação para que atores fossem, ao mesmo tempo, intérpretes e dramaturgos


Morreu nesta quinta-feira (02/05), aos 89 anos, Antunes Filho, um dos diretores de teatro mais importantes do país. Ele estava internado no Hospital Sirio Libanês, em São Paulo, com câncer de pulmão.

O velório ocorre na manhã desta sexta (03/05) no Sesc Consolação, zona central de São Paulo.

Em 1952, Antunes se tornou assistente de direção no Teatro Brasileiro de Comédia, onde trabalhou com renomados diretores estrangeiros, tendo sua estreia profissional no ano seguinte.

No final da década de 50, fundou a companhia Pequeno Teatro de Comédia, que compôs o espetáculo O Diário de Anne Frank, em 1958, sendo premiado como melhor diretor pela Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) e Associação Carioca de Críticos Teatrais (ACCT).

Antunes participou do movimento de renovação cênica entre as décadas de 60 e 70.

Foi o primeiro diretor a fazer a montagem de Macunaíma, em 1984. Nos anos 90, passou a dirigir o Centro de Pesquisas Teatrais (CPT), escola de formação para que atores fossem, ao mesmo tempo, intérpretes e dramaturgos.
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Mais uma prova do crime brasileiro


É impossível não rir do despreparo e do desespero de Jair Bolsonaro. Ninguém nesse governo é capaz de fazer o presidente observar um preceito fundamental da política desde o século XVII?

“Em toda circunstância em que podes ser vigiado, fala o mínimo possível. Arriscarás menos cometendo um erro do que se falares a torto e a direito.” (Breviário dos políticos, Cardeal Mazarin, editora 34, São Paulo, 2000, p. 125/126)

Um dia antes da comemoração do Dia dos Trabalhadores, em que a imagem de Lula seria uma vez mais mundialmente realçada, o presidente resolveu atacar seu inimigo. Na entrevista que deu a uma rede de TV ele disse:

“Pelo perfil dos nossos ministros, ele (Lula) não terá chance, no que depender de nós, não terá chance de conseguir sua liberdade na forma da lei…”

Essa declaração não vai prejudicar Lula. O mais provável é que ela favoreça o ex-presidente petista. Afinal, Bolsonaro revelou ao “respeitável público” nacional e internacional que pretende interferir no andamento do processo de Lula para suprimir ou reduzir a autonomia do Poder Judiciário com o intuito de prejudicar seu adversário político.

Nesse sentido, a declaração de Bolsonaro é uma prova inequívoca de que ele está sendo ferozmente perseguido pelo Estado brasileiro. Não só isso. Além de comprovar as alegações de Lula na Conselho de Direitos Humanos da ONU, a declaração do presidente em exercício pode ser usada contra ele (art. 85, II, da CF/88).

Se não estivesse tão desesperado, Bolsonaro não daria esse presente para a defesa de Lula no dia 1º de maio. O conteúdo desta entrevista, que tem tudo para aumentar o isolamento diplomático do Brasil caso o Conselho de Direitos Humanos da ONU profira uma decisão de mérito favorável a Lula, também coloca em dúvida a capacidade profissional dos assessores jurídicos e diplomáticos do presidente da república.

Ao que parece ninguém consegue fazer o mito parar de atirar no próprio pé. É difícil saber o que se passa nos bastidores de um governo tão obscuro e obscurantista. Entretanto, em razão do imenso prejuízo diplomático que essa entrevista causará ao governo estou convicto de que nós já podemos começar a suspeitar de que existem pessoas muito próximas a Jair Bolsonaro trabalhando para promover o General Mourão de vice à presidente do Brasil.

Fábio de Oliveira Ribeiro
No GGN
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Como o Departamento de Justiça transformou o compliance em uma indústria bilionária

Aliás, por aí se entende que o primeiro ato do Ministro da Justiça Sérgio Moro foi disseminar pelo Ministério frases de autoajuda e profissão de fé na honestidade. Estava fazendo compliance, veja só.




Em abril, agora, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, através da Divisão Criminal de Avaliação de Programas de Conformidade Corporativa, publicou um documento de orientação de como os procuradores devem atuar nos programas de conformidade.

É um exemplo perfeito de como a economia improdutiva turbinou a indústria do compliance e a parceria entre procuradores, escritórios de advocacia e de auditoria.

O Manual apresenta um emaranhado de procedimentos que atropelam normas básicas de gestão e eficácia. Afim de pretender cercar as possibilidades de corrupção na empresa, definiram-se dezenas de processos e procedimentos, deixando nas mãos do procurador a avaliação se cada um dos processos é eficiente ou não.

O procurador deverá conhecer cada campo de atuação da empresa, identificar os pontos vulneráveis e atestar se os procedimentos adotados são razoáveis ou não. Ou seja, caberá a um funcionário público, sem nenhuma experiência em gestão, atestar cada detalhe dos procedimentos.

Abre-se um campo amplo para o subjetivismo, com consequências óbvias em todos os modelos burocratizados.

Quem conhece ambientes burocratizados, sabe do enorme poder do burocrata de criar dificuldades, em cima de cada detalhe, por mais irrelevante que seja. Se há um enorme campo para o procurador exercer seu arbítrio, é evidente que se confere a ele um poder expressivo.

Daí esse movimento de procuradores se aposentando para servir a grandes escritórios de advocacia ou de auditoria com luvas milionárias. Vão agregar o que? Expertise, é evidente que não, Seu campo de conhecimento não são os processos gerenciais. Vão levar contatos, lobby na veia, venda de segurança.

Nem adiante alegar que há outras instâncias para combater procedimentos abusivos. Um burocrata consegue paralisar qualquer processo em cima de detalhes, de exigências pequenas. E vai ter diante de si uma empresa profundamente dependente do acordo, com restrições de venda a outras empresas, a governo ou a países, enquanto seu processo de compliance não for referendado pelo procurador.

Por aí se entendem os honorários milionários cobrados nos procedimentos de compliance. E também a ênfase da Lava Jato do Paraná em criar uma fundação para estimular os trabalho de compliance.

Diz o manual:

O memorando intitulado “Seleção de Monitores em Assuntos de Divisão Criminal”, emitido pelo procurador-geral assistente Brian Benczkowski (doravante, o “Memorando Benczkowski”) instrui os promotores a considerar, no momento da resolução, “se a corporação fez investimentos significativos e melhorias em seu programa de conformidade corporativa e sistemas de controles internos ”e“ se melhorias para o programa de conformidade e controles internos foram testados para demonstrar que impediriam ou detectariam má conduta semelhante no futuro ”para determinar se um monitor é apropriado.

A opinião do procurador será essencial para determinar a acordo ou a ação penal, a multa pecuniária, as obrigações de conformidade previstas em ações penais.

O Manual reconhece que não existem fórmulas rígidas para avaliar a eficácia dos programas de conformidade corporativa. Mas define o que considera “três questões fundamentais”.

1 O programa de conformidade da corporação é bem projetado?

2 O programa está sendo aplicado com sinceridade e de boa fé? Em outras palavras, é o programa sendo implementado de forma eficaz?

3 O programa de conformidade da corporação funciona na prática?

Depois, apresenta uma enorme relação de questões a serem analisadas para embasar o veredito do procurador.

O procurador precisará conhecer as características de cada setor, os fatores de riscos, a regulação, o meio ambiente, a localização de suas fábricas, potenciais parceiros e clientes, pagamentos a funcionários estrangeiros. Deve avaliar se a empresa dedica uma distribuição desproporcional de tempo para policiar áreas de baixo risco, em vez de áreas de alto risco e dezenas e dezenas de avaliações subjetivas. Como, por exemplo se a empresa retransmitiu informações de maneira adaptada ao tamanho, sofisticação ou experiência do público. Se dão aos funcionários conselhos práticos ou estudos de caso para lidar com a vida real cenários, e / ou orientação sobre como obter aconselhamento sobre ética, caso a caso, conforme as necessidades.

Aliás, por aí se entende que o primeiro ato do Ministro da Justiça Sérgio Moro foi disseminar pelo Ministério frases de autoajuda e profissão de fé na honestidade. Estava fazendo compliance, veja só.

E não para aí. O procurador deve analisar se a empresa assegurou que os termos do contrato com terceiros descrevem especificamente os serviços a serem realizados, se o terceiro está realmente realizando o trabalho, e se a sua remuneração é proporcional ao trabalho que é fornecido nessa indústria e região geográfica. Os procuradores devem ainda avaliar se a empresa se envolveu no monitoramento contínuo do relacionamento com terceiros, seja através de due diligence atualizada, treinamento, auditorias e / ou certificações de conformidade por terceiros.

Analisando essa complexidade, imagine-se qual será o papel do procurador Carlos Fernando Santos Lima – o principal responsável pela destruição da parte da economia produtiva brasileira –, e de outros colegas que pretendem nadar de braçadas nesse rio caudaloso que se abre. Certamente não será dando pareceres técnicos.

Luís Nassif
No GGN
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A filosofia é um esporte de combate

Quando a filosofia se tornou um dos alvos prediletos do desmonte do desgoverno Bolsonaro, alguns acharam por bem adotar a estratégia da sensibilização para o lugar da filosofia na formação de profissionais eticamente mais orientados e com capacidade de análise crítica.

Ou seja, contra a acusação de sua inutilidade seria o caso de expor, ao contrário, sua pretensa grande utilidade para a reprodução otimizada das estruturas de nossas formas de vida. Como se este desgoverno atual fosse composto de pessoas incapazes de compreender a formação necessária e desejada para o estágio atual de nossas demandas de gerenciamento social.

No entanto, gostaria de dizer que o sr. Bolsonaro acerta quando elege a filosofia e a sociologia como seus alvos privilegiados contra a educação nacional.

Pois, enquanto existir neste país um departamento de filosofia e um departamento de sociologia, nossos alunos serão ensinados, todos os dias, a desprezar governos como este que assumiu recentemente.

Desses departamentos virão levas de jovens que farão de tudo para que este governo caia.

Não é necessário filmar aulas ou procurar outras formas de indícios. Mesmo não falando diretamente das decisões políticas e intervenções atuais, mesmo sem chamar de gato um gato, nossos alunos estão a todo momento sendo formados para desprezar e lutar continuamente contra quem governa um país da maneira com este país está a ser governado.

Quando eles aprendem a filosofia de John Locke, descobrem como, desde o século 17, a filosofia política defende o tiranicídio, ou seja, o direito de a população assassinar os tiranos que procuram submetê-la a golpes de Estado — como o que conhecemos em 1964 e tão louvado por alguns atualmente.

Quando eles abrem os livros de Spinoza, descobrem a potência da crítica às construções teológico-políticas como essas que o evangelo-fascismo de setores que tomaram de assalto o governo tenta impor à sociedade brasileira.

Quando ensinamos Rousseau aos nossos alunos, eles entendem melhor o caráter inegociável da soberania popular, com sua recusa à transferência de poder para figuras autárquicas que se julgam no direito de decidir até conteúdo de propaganda de banco.

Quando eles leem Hegel, compreendem a força de exigências de reconhecimento social das singularidades, de como a invisibilidade social é a forma suprema da inexistência.

Quando é Nietzsche o eixo do debate, fica mais claro o tipo de miséria embutida nos "valores" morais e religiosos que este desgoverno se vê no direito de empurrar goela abaixo da sociedade brasileira.

Como vocês veem, não foi necessário nem sequer falar sobre Marx, Foucault, a desconstrução, a Escola de Frankfurt e tantos outros que causam pânico no Planalto atualmente.

Como vocês veem, não é necessário falar de forma explícita sobre a política atual para que todas as consequências sejam imediatamente compreendidas pela inteligência de nossos alunos.

Ou seja, a história da filosofia é um grande combate contra aquilo que tentam fazer com a sociedade brasileira. A única maneira de parar esse combate seria, exatamente, eliminando-nos, como este governo sonha fazer.

No entanto, a universidade brasileira é composta de gerações e gerações de debates e ideias que não são apagadas ao sabor de canetadas e cortes ministeriais.

Enquanto houver um jovem com livros de Spinoza, Rousseau, Hegel, Adorno, Nietzsche, Deleuze, Lucrécio, Platão (se quiserem saber de onde veio o comunismo, leiam "A República") esta batalha já está ganha.

Não será a gritaria de um ministro da Educação piromaníaco e irrelevante que fará alguma diferença.

Vladimir Safatle
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Na FoxNews, jornalista americana desmascara Guaidó e os EUA




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Barroso não pode julgar a Odebrecht nem o Lula!

Operário padrão da Globo advogou para a empreiteira que o Conge destruiu


O Ministrário Gilmar Mendes sugeriu que o operário padrão da Globo, o Ministro Barroso fechasse seu(s) escritório(s) de advocacia no Rio.

Não há notícia de que isso tenha acontecido, nem de que o operário padrão mantivesse aberto escritório no Rio, enquanto sentado na Alta Corte.

O que é certo é que enquanto advogado (muito bem remunerado...), o operário padrão advogou para a Globo e para o ínclito banqueiro.

O que não se sabia é que tinha dado parecer a essa empresa mega-corrupta e corruptora, que o Conge transformou numa barraquinha de acarajé no Farol da Barra: a Odebrecht!

Assim, o operário padrão não pode julgar nada que se refira à Odebrecht e, portanto, ao Lula!

Quer dizer, se ele tiver a estatura moral que o Ministrário Gilmar Mendes lhe atribuiu!

Barroso apoiou Odebrecht em negociação que deu a Toffoli apelido na empresa

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, ajudou a defender interesses da Odebrecht quando a empreiteira procurou o atual presidente da corte, Dias Toffoli, para negociar a solução de uma disputa travada com o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2007.

Na época, Barroso exercia a advocacia no setor privado e dava aulas de direito constitucional. Toffoli chefiava a Advocacia-Geral da União (AGU), que deixou em 2009 para ocupar uma vaga no Supremo, indicado por Lula. Barroso chegou ao tribunal em 2013, nomeado por Dilma Rousseff (PT).

Em 2007, Barroso assinou um dos pareceres jurídicos que a Odebrecht levou a Toffoli para tentar assegurar vantagens no leilão de duas hidrelétricas a serem construídas no rio Madeira, em Rondônia, de acordo com documentos entregues pela empreiteira a procuradores da Operação Lava Jato e relatos de ex-funcionários à Folha.

Os documentos examinados pela reportagem não apontam nenhum indício de irregularidade nas discussões da Odebrecht com a AGU, ou na atuação de Barroso, mas ajudam a esclarecer o contexto do episódio que está na origem da crise atravessada pelo Supremo em abril.

O papel de Toffoli na disputa com a Odebrecht começou a ser questionado há três semanas, após a revelação de um documento em que o empresário Marcelo Odebrecht o identifica como a pessoa tratada como "amigo do amigo do meu pai" num email enviado a executivos da empresa em 2007. Segundo Marcelo, o amigo de seu pai, Emilio Odebrecht, era Lula.

Divulgado pelo site O Antagonista e pela revista Crusoé, o documento é a resposta de Marcelo a um ofício em que a Polícia Federal pediu esclarecimentos para várias mensagens encontradas no computador do empresário, que colabora com a Lava Jato e cumpre pena em prisão domiciliar.

No email que cita Toffoli, de 13 de julho de 2007, Marcelo fez uma pergunta ao então diretor jurídico da empreiteira, Adriano Maia, e a outro executivo envolvido com as negociações, Irineu Meireles: “Vocês fecharam com o amigo do amigo do meu pai?” Maia respondeu: “Em curso”.

O documento virou objeto de controvérsia porque Toffoli considerou sua divulgação ofensiva, e o ministro Alexandre de Moraes mandou tirar do ar a reportagem sobre o presidente da corte, afirmando que o papel era uma fraude. No último dia 18, Moraes reconsiderou sua decisão e revogou a censura imposta ao Antagonista e à Crusoé.

As usinas do rio Madeira fizeram parte de um ambicioso programa de investimentos lançado por Lula no início de seu segundo mandato. A Odebrecht parecia favorita para vencer o leilão. O governo queria estimular outros grupos a entrar no páreo para que a competição entre os investidores levasse a tarifas de energia mais baixas.

A Odebrecht tinha um acordo com a estatal Furnas que impedia outras subsidiárias da Eletrobras de se associar a concorrentes da empreiteira para participar do leilão. Essa exclusividade representava uma grande vantagem competitiva, que o governo e os rivais da Odebrecht queriam eliminar.

A empreiteira desenvolvera junto com Furnas estudos que tinham demonstrado a viabilidade das hidrelétricas e convenceram o governo a licitar o empreendimento. A Odebrecht tinha mais informações do que os concorrentes e apoio da estatal para financiar a construção das usinas.

Dilma, que na época chefiava a Casa Civil, opôs-se à empreiteira e trabalhou para incentivar outros competidores. O governo decidiu realizar dois leilões separados, um para cada usina, e questionou a legalidade do acordo da Odebrecht com Furnas, que fora assinado em 2005.

“Enquanto todo mundo facilitava, ela só fazia dificultar”, afirmou Emílio Odebrecht ao depor aos procuradores da Lava Jato em dezembro de 2016. Segundo ele, a empresa sempre contou com o apoio de Lula. “Ele reconheceu que nós tínhamos razão", disse.

Além de g arantir à Odebrecht exclusividade na parceria com a estatal, um termo de compromisso firmado com Furnas estabelecia que as informações que as duas empresas tinham acumulado sobre o projeto eram confidenciais.

Sem interlocução com Dilma e sentindo-se ameaçada por seus movimentos, a Odebrecht buscou outros canais de diálogo e encomendou quatro pareceres de juristas renomados, Barroso entre eles, para tentar convencer o governo de seus argumentos.

Os pareceres foram entregues pessoalmente a Toffoli. De acordo com um email enviado por Marcelo ao pai e a outros executivos da Odebrecht em junho de 2007, cópias também foram levadas ao então chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, para que as fizesse chegar à AGU.

A empresa encaminhou ainda uma representação ao então ministro interino de Minas e Energia, Nelson Hubner. Marcelo classificou-a como um "alerta" para que o ministério "não faça as coisas de forma errada", e mandou entregar uma cópia a Toffoli.

A documentação apresentada pela Odebrecht aos procuradores da Lava Jato não inclui a íntegra dos pareceres de Barroso e dos outros juristas contratados pela empreiteira, mas faz parte do pacote uma nota que resume o conteúdo de uma das opiniões enviadas à AGU.

Segundo a nota, a sugestão era fazer um aditamento ao termo de compromisso celebrado com Furnas, permitindo que outras empresas do sistema Eletrobras participassem dos consórcios a serem formados por concorrentes da Odebrecht, mantendo a confidencialidade das informações que ela e Furnas detinham.

Para o autor do parecer, a proposta seria a única capaz de atender aos vários interesses em jogo sem representar um “ato discriminatório” para a Odebrecht, que se mostrava "disposta a abrir mão de direitos contratuais legítimos para atender a uma preocupação do governo”.

A nota da Odebrecht não identifica o autor do parecer, mas ele parece ter sido decisivo ao apontar para a AGU a solução do impasse. Em agosto, poucas semanas após a cobrança feita por Marcelo no email em que citou “o amigo do amigo do meu pai”, a Odebrecht e Furnas assinaram um aditamento nos moldes sugeridos pelo parecer, e os questionamentos do governo cessaram.

(...)

Em tempo: não esquecer que o operário padrão, numa das múltiplas viagens ao Hemisfério Norte, acusou TODOS os ministros do STF de cúmplices de bandidos: Barroso acusa Supremo de ser cúmplice de bandido!

No CAf
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Brasil: a crise se aprofunda


Análise do presidente do IELA, Nildo Domingos Ouriques, sobre a crise brasileira, os caminhoneiros e a luta dos trabalhadores.

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Bolsonaro com "pessoas de bem" em Camboriú



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Império não desistirá

A segunda tentativa de golpe do moleque da CIA na Venezuela, Juán Guaidó, fracassou de forma monumental, para tristeza do moleque de Trump no Brasil e, sobretudo, para desconsolo da nossa imprensa conservadora, que torceu descaradamente pelo sucesso da empreitada ilegal, inconstitucional e criminosa.

Não há dúvida de que Maduro saiu fortalecido do episódio e de que Guaidó, peça patética e descartável na briga geopolítica que envolve a Venezuela, poderá ser substituído por outro títere um pouco menos ridículo.

Porém, essa segunda batalha vencida por Maduro não significa que a guerra está ganha.

De fato, da batalha ganha, com brilhantismo, pelos bolivarianos, restaram dois fatos preocupantes.

O primeiro tange ao sucesso da CIA em cooptar o chefe do “Servicio Bolivariano de Inteligencia Nacional” (Sebin), general Manuel Christopher Figueroa, que teria fugido para Porto Rico, despois de ter colaborado na execução da tentativa de golpe e na libertação de Leopoldo López, o líder da extrema direita venezuelana. Embora não comandasse tropas, Figueroa ocupava posto central na defesa do governo constitucional.

O segundo tange à promessa ou suposta promessa de adesão ao golpe de algumas figuras importantes do governo bolivariano. Segundo John Bolton, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, o presidente da Suprema Corte, juiz Maikel Moreno, e o comandante da guarda presidencial, Ivan Rafael Hernández Dala, entre outros, teriam prometido apoio ao moleque da CIA.

Tal revelação permite várias interpretações. Pode ser simples contrainformação destinada a provocar suspeitas contra quadros importantes do governo. É possível também que tais “promessas” tenham sido feitas para precipitar e fazer malograr o golpe, expondo, dessa forma, os mecanismos criminosos dos golpistas. Ou seja, é possível que a CIA tenha sido enganada em seu próprio jogo.

Mas também é factível que tais promessas tenham sido genuínas e que não concretizaram porque, chegada a hora, constatou-se que a correlação de forças dentro dos exércitos venezuelanos ainda não era favorável aos golpistas.

Essa última hipótese é deveras preocupante, pois revelaria que o sistema de cooptação estaria funcionando e poderia, com o tempo, amealhar apoio suficiente nas forças armadas da Venezuela para a promoção de dissenções capazes de propiciar um golpe militar.

Não seria tarefa fácil, contudo.

A Venezuela vem se preparando para uma guerra assimétrica, não-convencional, desde, pelo menos, 2006, quando foi oficializado o “Nuevo Pensamiento Militar Venezolano”.

Nessa nova estratégia militar, a defesa não se assenta mais apenas no exército regular, mas numa amálgama entre as forças regulares e a “resistência popular”.

Com efeito, o cenário de conflito com o qual se trabalha há muito na Venezuela não é um cenário de guerra convencional, mas um cenário de guerra de resistência popular ou de guerra de guerrilhas, contra inimigos externos ou inimigos internos apoiados por forças externas.

Para fazer frente a esse novo cenário, houve quatro importantes movimentos simultâneos:

a)     A restruturação das carreiras militares, com relativa atomização da cadeia de comando e incorporação de organizações populares na estrutura militar, o que gera grande flexibilidade operacional e maior comprometimento das forças regulares com a resistência popular.

b)    A ampla disseminação geográfica do equipamento militar venezuelano por todo o território nacional, o que, combinado com a flexibilidade operacional e de comando, dificulta muito a neutralização da resistência.

c)     Os investimentos relevantes em novos armamentos que asseguram dissuasão estratégica, como caças Sukhois SU-30, mísseis S-300 e tanques T-72.

d)     A criação da Milícia Bolivariana, força autônoma composta por reservistas e grupos de resistência, que hoje congrega cerca de 500 mil homens e mulheres armados.

Em passado recente, a cooptação de militares venezuelanos para um golpe ou a derrota da Venezuela numa guerra assimétrica teria sido algo relativamente fácil de se atingir, dada à estrutura convencional, verticalizada e oligárquica daquelas forças de antanho.

Hoje, o cenário é diverso.

A cooptação de militares para um golpe tornou-se bem mais difícil, pois seria necessário convencer um número muito grande de oficiais de alta patente, espalhados por todo o território venezuelano. Além disso, esses oficiais estão submetidos a um certo monitoramento popular. Não se trata, como a nossa imprensa beócia e desinformada afirma, de um controle feito por “oficiais cubanos”. Achar que a Venezuela é controlada por Cuba, um país bem menor geograficamente, demograficamente, economicamente e até militarmente é o cúmulo da imbecilidade. Seria o mesmo que supor que as forças armadas do Brasil poderiam ser controladas por oficiais bolivianos. Acreditar nisso é a mesma coisa que acreditar em kit gay e mamadeira erótica. Significa acreditar em quaisquer fake news inventadas pela administração Trump.

Além da cooptação ser mais difícil, a capacidade de a Venezuela resistir a uma guerra assimétrica é bem maior. Uma intervenção militar enfrentaria grande resistência, não só das forças regulares como das milícias bolivarianas. Poderia ser, de fato, algo parecido a um novo Vietnã.

O Império, contudo, não desistirá em seu intento de derrubar Maduro.

A estratégia óbvia e mais fácil, já anunciada, é ampliar o bloqueio comercial econômico contra a Venezuela, que já provocou a morte de cerca de 40 mil venezuelanos, conforme estudo elaborado pelo famoso economista Jeffrey Sachs, na esperança de conseguir apoio militar e popular interno suficiente para a promoção de um golpe.

Nesse caso, os EUA, junto com seus países satélites reunidos no Grupo de Lima, poderiam apoiar politicamente, logisticamente ou até militarmente a extrema direita da Venezuela.

Contudo, o desfecho mais provável nesse cenário seria o de uma guerra civil de longa duração e de consequências imprevisíveis, inclusive com a possibilidade de internacionalização do conflito, já que Rússia e China, que têm grandes interesses econômicos e geopolíticos na Venezuela, não ficariam omissas ante a eventual intervenção dos EUA e de seus lacaios regionais. 

Alguns alegam que os EUA não se atreveriam a intervir militarmente na Venezuela, especialmente se se levar e consideração o atual preparo do nosso vizinho em enfrentar um cenário de guerra assimétrica e o apoio da Rússia e da China aos bolivarianos.  

Não obstante, é preciso analisar que nenhum presidente norte-americano hesitou em promover intervenções e guerras, desde que houvesse suficiente apoio político interno para tal. Até mesmo Obama resolveu apoiar a intervenção na Líbia, por exemplo, bem como a intervenção na Síria, ambas fracassadas. O que dirá Trump.

É claro que, mesmo nesse caso extremo, não deveria haver tropas em terra, mas apenas bombardeios “cirúrgicos” contra alvos selecionados.

Há ainda outros três aspectos a serem considerados, nesse caso.

O primeiro tange ao imperativo geopolítico dos EUA de reconstruir a América Latina como seu espaço de influência exclusivo, conforme a nova Doutrina Monroe. Os EUA estão na defensiva na Eurásia e não sabem como enfrentar a aliança entre China e Rússia e a iniciativas geoeconômicas da primeira, especialmente a da nova rota da seda. Por isso, é fundamental para eles recuperar o controle exclusivo de todo o continente americano, alijando Rússia e China da região. 

O segundo, ligado ao primeiro, é o relativo à necessidade de assegurar o acesso privilegiado e exclusivo às maiores reservas provadas de petróleo do planeta, disputadas também por China, Índia e vários outros países. Hoje, cerca de 70% das exportações de óleo da Venezuela vão para China, Índia e Cingapura.

O terceiro, e talvez o mais importante, diz respeito ao fato de que guerras e intervenções militares podem ser bastante lucrativas para os EUA, embora possam causar impactos orçamentários negativos, no curto prazo.

Pelo menos 10% do PIB industrial norte-americano proveem diretamente do chamado complexo industrial-militar, protegido da concorrência e sustentado pelos gastos do Estado dos EUA. É lá que estão os empregos mais qualificados, imunes às atuais limitações do consumo doméstico privado.

O estímulo maior a esse complexo poderia gerar lucros a grandes empresas e empregos para a agenda econômica e política do America First de Trump. Lembre-se que os EUA só saíram realmente da Grande Depressão de 1930, ao longo da Segunda Guerra Mundial, que gerou enorme demanda estatal para a indústria norte-americana.

Assim sendo, não se deve descartar uma intervenção militar, ainda que limitada, dos EUA na Venezuela. À medida que as opções econômicas e políticas dos embargos e das ameaças vão fracassando, ela se torna mais provável. Mesmo tendo perdido várias batalhas, o Império não desistirá de ganhar essa guerra.

Para os interesses objetivos do Brasil, uma guerra civil na Venezuela ou ainda um golpe bem-sucedido seriam um desastre. No primeiro caso, por motivos óbvios. No segundo, porque a extrema direita da Venezuela colocaria, de novo, o país na órbita exclusiva dos interesses estratégicos dos EUA. O Brasil não teria grande espaço de projeção numa Venezuela submetida a Trump.

O único cenário que interessaria ao Brasil seria o da solução política pacífica para o conflito interno daquele nosso vizinho, que preservasse a capacidade da Venezuela de manter uma política externa relativamente autônoma e a sua aposta histórica recente na integração regional e na diversificação de suas parcerias estratégicas, incluindo a feita com o Brasil.

Esse era o cenário no qual o Brasil vinha se empenhando, quando ainda tinha uma política externa racional e adequada aos seus princípios constitucionais.

Agora, no entanto, enquanto o Império persiste na defesa de seus interesses a todo custo, o Brasil de Bolsonaro já renunciou à defesa dos seus interesses próprios, a um custo altíssimo para nosso futuro.

E o atual governo do Brasil o fez a troco de nada. O fez apenas para agradar Trump e seguir os conselhos de um astrólogo.

É o que dá não estudar filosofia, sociologia, economia, geopolítica e outras disciplinas das ciências humanas.

Torna-se veterinário, ou algum dos seus objetos de estudo. Arrisco os asininos.

Marcelo Zero, é sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado
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