9 de abr. de 2019

Tatibitábata


O problema dessa moça não está em quem a financia ou deixa de financiá-la. Essa é uma discussão estéril, uma falsa polêmica.

O problema dessa moça é que ela é portadora mental dessa narrativa infantiloide - típica dos remediados - de que não existe nem esquerda nem direita.

Existe, sim, e quem pensa assim vota sempre na direita, concorda sempre com a direita e, nas eleições passadas, ajudou, direta ou indiretamente, a eleger esse demente fascista que está no Palácio do Planalto.

Ou seja, Tábata é uma moça inteligente e muito preparada, mas tem esse perfil de isentona que agrada o eleitor que votou integralmente no Bozo, mas finge que votou em Amoedo, no primeiro turno.

Trata-se, na verdade, de mais um eflúvio da antipolítica, agora numa versão quase lúdica, na forma de uma moça bonita, de voz suave, cuidadosamente encaixada no lugar de fala – esse conceito abominável nascida, como tantos outros, da boa fé identitária.

Como Tábata, qualquer repórter com alguma experiência em política já viu passar mais de uma dúzia, pelo Congresso Nacional, nos últimos 20 anos.

Leandro Fortes, jornalista
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Amigas

– Querida, é Gisele.

– Fala, meu amor.

– Preciso da sua ajuda, Zeca.

– Diga.

– É sobre o meu jantar de hoje...

– Mmm. Já estou salivando. Há três noites que o Eurico sonha com sua espuma de bacalhau.

– Pois é...

– Epa. Não gostei do tom desse “pois é”. Qual é o problema?

– É que...

– Fala, mulher! Se o problema for com o bacalhau...

– O problema não é com o bacalhau. É com o Eurico.

– O quê?! Vocês se separaram? Logo hoje, no dia de seu jantar?

– Não, é que...

– O Eurico vai se matar!

– Não. A culpa foi minha. A ideia de reunir amigos antigos como você e o Eurico com a Sonia ou a Sandra, ou como quer que ela e o marido bigodudo e os outros se chamem, me pareceu uma ideia ótima. Até que me dei conta.

– Se deu conta de quê?

– Que eu não sabia a política de nenhum dos amigos novos. Quem tinha votado no Bolsonaro, quem não tinha, quem surpreendera votando ou não votando no Bolsonaro. Eu sabia de casos em que conversas que começavam civilizadas e amenas terminavam em trocas de pontapés e o fim de amizades eternas, quando não de famílias inteiras. Pedi socorro ao Eurico. Ele alegou que não sabia mais a política de ninguém, que já recebera vários choques descobrindo que quem ele sempre julgara um reacionário, não era. O Eurico só pediu à Gisele que cuidasse para não afrontar o bigodudo marido da Silvia ou da Célia, ex-petista que agora usava camiseta do Exército por trás da camisa do Olavo de Carvalho, porque o Eurico tem negócios com ele. Zeca, socorro!

– Amiga, o que você quer? Como é que eu posso ajudar?

– Seja você mesma. Você é boa nisso. Conte piadas, dê risadas, anime a mesa. Tudo para que ninguém se lembre do Bolsonaro e estrague a minha espuma de bacalhau.

– Mas, amiga. Pensei que você soubesse.

– O quê?

– O Eurico e eu votamos no Bolsonaro.

Luís Fernando Veríssimo
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O aparelho repressivo do Estado brasileiro

O aparelho repressivo do Estado brasileiro sempre foi generoso ao distribuir violência contra os mais pobres. E sempre teve no racismo um elemento central de sua lógica de funcionamento.

A presença de governos de centro-esquerda não mudou esta situação. Na verdade, os governos de centro-esquerda nunca deram a prioridade necessária ao combate a ela.

Mas a sensação é que o avanço da extrema-direita - no discurso público, nas instituições, no governo - tem levado a um agravamento do problema. Imagino que já haja gente estudando essa relação.

Os militares que fuzilaram a família no Rio de Janeiro, assassinando o músico Evaldo dos Santos Rosa, foram presos. É difícil acreditar que seja mais do que um gesto pontual, destinado a aplacar momentaneamente a opinião pública.
Enquanto isso, Doria se apressa para condecorar os policiais que mataram onze "bandidos" no interior de São Paulo - às pressas, para aproveitar o caso no calor da hora, sem esperar sequer uma apuração das circunstâncias. Enquanto prevalecer a mentalidade que a função do Estado é matar uma parte da população, não há avanço possível.

Luis Felipe Miguel
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Novo ataque da Lava Jato à Universidade Federal de Santa Catarina


Novo ataque à UFSC e à autonomia universitária. A reitoria da UFSC se manifesta contrariada com a decisão da CGU de afastar o corregedor Ronaldo David Viana Barbosa que havia sido nomeado pelo reitor Ubaldo Balthazar em substituição ao anterior, Rodolfo Hickel Prado pela sua atuação já conhecida no âmbito da operação conduzida pela delegada da Lava Jato. Agora, Moro é quem manda na CGU. O que mais vem por ai?

Leia na íntegra a nota da Administração Central da UFSC:

A Administração Central da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), tomando conhecimento apenas por meio de publicação no Diário Oficial da União, de 5 de abril de 2019, da Portaria nº 1.322, assinada pelo corregedor-geral da União, Gilberto Waller Junior, em que este resolve: “afastar preventivamente sem prejuízo de sua remuneração pelo prazo de 60 (sessenta) dias o servidor RONALDO DAVID VIANA BARBOSA, do exercício do cargo(sic) de Direção de Corregedor Geral da Universidade Federal de Santa Catarina e do cargo de Assistente em Administração a fim de evitar influência na apuração relativa ao processo administrativo disciplinar(…); fica proibido o acesso do mencionado servidor às repartições internas da Universidade Federal de Santa Catarina, bem como acesso a sistemas eletrônicos, posse de equipamentos e de documentos durante a vigência desta portaria”, manifesta-se no seguinte sentido:

  1. Não foi notificada, formalmente, de qualquer decisão relativa à portaria publicada no D.O.U.;
  2. Considera uma afronta à Autonomia Universitária o ato de afastar servidor aprovado em Concurso Público, para cargo efetivo (Assistente em Administração) e designado para função (Corregedor-Geral), por ato do Reitor, aprovado pelo Conselho Universitário – instância máxima de deliberação da Universidade;
  3. Julga que a decisão da CGU pelo afastamento é ato administrativo equivocado, uma vez que o processo mencionado na portaria foi aberto em maio de 2018 e, até a presente data, não gerou qualquer decisão relativa à autoria ou materialidade;
  4. Em documento encaminhado em fevereiro de 2019, a CGU manifestou-se contra a aprovação, pelo Conselho Universitário da UFSC em janeiro de 2018, do nome de RONALDO DAVID VIANA BARBOSA para assumir a função de Corregedor-Geral da UFSC. Somente mais de um ano depois de ser informada da aprovação do nome, a CGU se manifesta e tal restrição foi submetida, em 26 de março passado, ao Conselho Universitário, que, por maioria de seus membros, decidiu pela manutenção dos mandatos de Ronaldo e de outro servidor como Corregedores; decisão esta encaminhada à CGU por meio da Resolução nº 2/CUn/2019, de 26/03/2019;
  5. Reitera a defesa intransigente de sua Autonomia e do respeito institucional que devem manter instituições de Estado, como o são UFSC e CGU, no sentido de que medidas como a agora adotada sigam caminhos harmônicos e serenos, evitando que representem ameaças de rompimento nas relações institucionais;
  6. Destaca, por fim, que a instituição buscará em todas as instâncias – administrativas e judiciais, se for o caso – a garantia de seus atos e sua condição de Autarquia Federal, que respeita as leis e o Estado Democrático de Direito.

Florianópolis, 8 de abril de 2019.
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Outro louco na Educação


O novo ministro da Educação, Abraham Weintraub repete o discurso dos nazistas na Alemanha na década de 1930 e diz que "os comunistas" são donos dos bancos, das grandes empresas e da imprensa no país. Na Alemanha, em vez dos comunistas, o alvo de discurso similar ao de Weintraub eram os judeus. Segundo Gerd Wenzel, comentarista da ESPN Brasil e colunista da Deutsche Welle, nascido na Alemanha, o discurso  é "plágio dos anos 30 na Alemanha: é só trocar 'comunistas' por 'judeus'".

O que disse o novo ministro em palestra em 2018:

"...Os comunistas são o topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras; eles são os donos dos jornais; eles são os donos das grandes empresas; eles são os donos dos monopólios..."

O que diziam os nazistas em 1930:

"...Os judeus são o topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras; eles são os donos dos jornais; eles são os donos das grandes empresas; eles são os donos dos monopólios..."

Hitler atribuía os males da Alemanha ao suposto fato de os judeus controlarem os meios de comunicação e o sistema financeiro. Com isso, escolheu um bode expiatório, que se tornou alvo preferencial da perseguição nazista. Weintraub, na essência faz o mesmo. Em 1930, criou-se uma onda de antipatia e repulsa que deu condições políticas à perseguição brutal, cujo ápice foi o holocausto ou shoá, na qual morreram mais de 6 milhões de judeus. É o mesmo método, que o novo ministro agora usa contra os comunistas.

A ironia trágica é que Weintraub é judeu.

Veja o tweet de Gerd Wenzel e assista ao ministro em seu discurso:



Universidade nordestina não deve ensinar filosofia, diz novo titular do MEC

O novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, avalia que universidades do Nordeste não deveriam oferecer cursos de disciplinas como sociologia e filosofia. Para ele, esses estabelecimentos deveriam priorizar o ensino de agronomia, "em parceria com Israel."

Substituto de Ricardo Vélez, demitido nesta segunda-feira, Weintraub defendeu seu ponto de vista numa transmissão ao vivo, pela internet, em setembro do ano passado. Nessa época, ele integrava a equipe que elaborou o programa de governo de Jair Bolsonaro. Discutia a peça com Luis Philippe Bragança, hoje deputado federal pelo PSL de São Paulo.

A certa altura, o agora ministro da Educação declarou: "Eu vi aqui alguns comentários do Nordeste. O plano de energia é Nordeste na veia. O plano de energia que a gente tá fazendo, fotovoltáico e eólico, é porrada no desemprego. Rápida geração de renda. E é Nordeste, por causa da questão solar."

Abraham Weintraub prosseguiu:"Em Israel, o Jair Bolsonaro tem um monte de parcerias para trazer tecnologia aqui para o Brasil. Em vez de as universidades do Nordeste ficarem aí fazendo sociologia, fazendo filosofia no agreste, [devem] fazer agronomia, em parceria com Israel. Acabar com esse ódio de Israel. Israel, nas faculdades federais, é loucura o que você escuta, né?"

Mal comparando, a ideia de privar estudantes nordestinos de determinados cursos é tão radioativa quanto outra tese que ajudou a compor o caldeirão de polêmicas que dissolveu a gestão do demitido Ricardo Vélez. O antecessor de Weintraub declarou que "universidade, do ponto de vista da capacidade, não é para todos. Somente algumas pessoas que têm desejo de estudos superiores e que se habilitam para isso entram na universidade."
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Identificados dois dos três covardes que agrediram mulher em ato pró-Bolsonaro

Não permitiremos que uma mulher seja atacada em plena rua e que os agressores fiquem no anonimato!

Jaderson Soares Santana e Eliezer
Reprodução facebook
Na primeira foto desta reportagem, à esquerda, vê-se Jaderson Soares Santana. À direita, o companheiro dele, Eliezer. Ambos atacaram uma mulher que ousou atravessar uma manifestação na avenida Paulista, que reunia apoiadores de Jair Bolsonaro, neste domingo (7/4). Por ter criticado Bolsonaro e Sergio Moro, ela foi imobilizada e enforcada pelos corajosos machões.

Aqui, a foto da agressão:

Homens atacam mulher na avenida Paulista, durante ato pró-Bolsonaro
Foto de Jardiel Carvalho
Nesta foto, Jaderson é o que está de óculos e camisa branca; Eliezer, musculoso, veste uma camisa polo azul arroxeada.

A polícia, que a tudo assistiu, só resolveu intervir depois que aplicaram na mulher o golpe chamado “mata leão”, que poderia tê-la matado.

Jaderson Soares Santana é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC de São Paulo. Trabalha no TRF-3, como analista judiciário (oficial de justiça). Em sua dissertação de mestrado, intitulada “As marcas do autor em ‘O Ano da morte de Ricardo Reis'”, apresentada em 2016, Jaderson dedicou o trabalho:
“A Eliezer, meu companheiro, e aos meus três filhos que dividem seu dia a dia conosco”.
Estudantes da PUC que conviveram com o casal reconheceram Eliezer como o homem transtornado que cai no chão da avenida Paulista e depois se lança contra a mulher, até agora não identificada.

Com a péssima repercussão da agressão dos machões contra a mulher, a página de Jaderson Soares Santana no facebook começou a ser bombardeada por pessoas que o reconheceram nas fotos e vídeos divulgados.

Um colega de estudos perguntava-lhe: “Jaderson, você se reconhece nesta imagem?” e postou uma foto, a mesma da agressão, que você pode ver acima.

Jaderson Soares Santana, que no facebook identificava-se apenas como Jaderson Santana, postava inúmeras mensagens de apoio a Sergio Moro, a Jair Bolsonaro e a movimentos de extrema direita. Corajoso (SQN), ele foi incapaz de dar conta do fato de ter sido descoberto como agressor de mulheres. Tentou mudar o nome para “Paulo Mores” e, por fim, deletou a página.

Jaderson tira sua página do ar
Estamos ainda atrás do terceiro agressor, o homem de blusa cor de salmão, que dá a gravata na mulher. Vc o conhece, tem informações sobre ele? Também estamos em busca de contato com a jovem que foi atacada pelo brutamontes. Por favor, quem tiver informações sobre esse caso, envie para nosso email: jornalistaslivres@gmail.com.

Manteremos sigilo sobre a origem das informações.



Laura Capriglione
No Jornalistas Livres

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Desembargador é condenado a prisão por venda de liminares em plantões judiciais no Ceará

Ele
O desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) Carlos Rodrigues Feitosa foi condenado a 13 anos, oito meses e dois dias de prisão, em regime fechado, pelo crime de corrupção passiva. A decisão foi tomada nesta segunda-feira (8) pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que, em outra ação penal, condenou o desembargador à pena de três anos, dez meses e 20 dias de reclusão pelo crime de concussão.

Na Ação Penal 841, o desembargador foi denunciado por corrupção em razão da venda de decisões liminares durante plantões judiciais no Ceará.

Como efeito das duas condenações, o colegiado condenou Carlos Feitosa à perda do cargo de desembargador. Ele já estava aposentado compulsoriamente pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) desde setembro de 2018.

De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), entre 2012 e 2013, o desembargador cearense e seu filho, o advogado Fernando Feitosa, participaram de esquema criminoso com o objetivo de recebimento de vantagem ilícita em troca da concessão de decisões de soltura em benefícios de réus presos. Segundo o MPF, o comércio de decisões judiciais nos plantões de fim de semana era discutido por meio de aplicativos como o WhatsApp, com a intermediação do filho do desembargador.

Ainda de acordo com a denúncia, os valores pelas decisões concessivas de liberdade nos plantões chegavam a R$ 150 mil. Entre os beneficiados pela concessão de habeas corpus, estariam presos envolvidos em crimes como homicídios e tráfico de drogas.

Brincadeira

De acordo com a defesa dos réus, a troca de mensagens que discutia a venda de decisões e as comemorações pelas solturas não teria passado de brincadeira entre amigos e de mera simulação de atos de corrupção. A defesa também buscava afastar a caracterização da autoria do crime de corrupção passiva.

O relator da ação penal, ministro Herman Benjamin, destacou que as provas colhidas nos autos apontam que a negociação realizada por meio de grupos de mensagens era real, coincidia com os plantões do magistrado e tinha resultado favorável àqueles que se propuseram a participar das tratativas.

O ministro também ressaltou que, em períodos próximos aos plantões do desembargador, foram realizadas grandes movimentações financeiras e aquisição de bens por parte do magistrado e de seu filho, sem a comprovação da origem e do destino dos valores e com o processamento de forma a impossibilitar a sua identificação. “Portanto, tenho que a movimentação bancária a descoberto nas datas próximas àquelas dos plantões é prova irrefutável da corrupção passiva”, afirmou.

Casa de comércio

Em relação ao desembargador, Herman Benjamin declarou que ele “fez do plantão judicial do Tribunal de Justiça do Ceará autêntica casa de comércio”, estabelecendo um verdadeiro leilão das decisões.

“Além da enorme reprovabilidade de estabelecer negociação de julgados, pôs indevidamente em liberdade indivíduos contumazes na prática de crimes, alguns de periculosidade reconhecida, ocasionando risco a diversas instruções de ações penais em curso no primeiro grau e expondo a sociedade a perigo. Para além, agrava situação o fato de ocupar o cargo de desembargador, sendo ele, como magistrado, responsável primeiro por aplicar a lei de forma apurada, técnica e escorreita. Não foi o que fez”, apontou o ministro ao fixar pena de reclusão.

No caso do filho do desembargador, Herman Benjamin destacou que o trabalho de advocacia do réu “se limitava a vender decisões lavradas pelo pai”, sendo Fernando Feitosa o responsável por fazer a publicidade da venda de liminares. Em virtude dessa posição no esquema criminoso, a Corte Especial fixou a pena do advogado em 19 anos e quatro meses de reclusão, em regime inicial fechado.

No STJ
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Conheça o novo Ministro da Educação: sobre marxismo e contemporaneidade


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Mickey vai vender Reforma da Previdência


“Vem Tchutchuca
Vem aqui pro seu Tigrão
Vou te jogar na cama
E te da muita pressão!
(…) Vem, vem
Tchutchuca
Vem aqui pro seu Tigrão
Vou te jogar na cama
E te da muita pressão!”
Trecho da música do “Bonde do Tigrão”, início dos anos 2000

“Entre nessa festa pra cantar com todos nós.
Ele é, o maior, viva o Mickey Mouse!
Hey, Mickey, Hey, Mickey,
Viva o Clube do Mickey!”
Tema de abertura do Clube do Mickey, anos 90

E quem disse que o Posto Ipiranga não tinha bom senso e noção do perigo. Rabo esquenta, senta no bloco de gelo. Paulo “Tchuchuca” Guedes, o tigrão dos aposentados e calça frouxa dos banqueiros, o homem, o mito, o golden boy dos Chicago Oldies, admitiu finalmente, que pela criação de classe media cristã, pela finesse que vem do berço, tem sérias dificuldades de explicar, assim, na cara dura, sem um scotch puro, a um aposentado ferrado, que não nasceu em berço de ouro e trabalhou vida inteira para conquistar cada centavo com quem pretende sobreviver à velhice, que a Reforma da Previdência é o melhor pra ele. Aposentadoria aos trocentos anos, desconstitucionalização da matéria, que permitirá a sua regulamentação por lei complementar, regime de capitalização – viva os bancos! – e uma legião de idosos miseráveis, sem acesso aos direitos mais básicos. O primeiro botão que soltar da lapela ou a dobrinha no corte italiano é acinturado e justo, será a morte da família. O diabo é que quem devia articular a reforma da Previdência, pedra de roque do atual governo, é o próprio presidente Jair Bolsonaro, que reconhece ter poucos conhecimentos de economia e ser um articulador político limitado. Aliás, ele se elegeu porquê mesmo? Outro tema. Fato é que, sem Bolsonaro, lesionado, e com Paulo Guedes, sentindo a panturrilha, não dá para seguir com o governo. Entrega a batata quente pro Mourão e vãombora? Hum… não. É um pássaro, é um avião, não, é Bruno Bianco.

Primeiro, Bruno Bianco é um cara legal, você deixa de ser preconceituo. Não venha com papo de fonoaudiólogo, seu insensível. Esse sujeito tem uma arma vocal, só que ao seu jeito. Secretário Executivo da Previdência, tá lá porque quer e conseguiu. Não ganhou nada no grito. Não berrou ‘A bola é minha’ pra intimidar ninguém. Nem seria de seu feitio. Bruno foi indicado pelo próprio Paulo Guedes para, em dupla dinâmica com Rogério Marinho, secretário de Previdência, ser a voz a sustentar a mãe de todas as reformas. Até porque, vamos combinar, se nem isso o Bolsonaro conseguir passar no Congresso, vai passar o que? A Anistia ao Brilhante Ustra? Pois foi assim, nessa segunda-feira, 8 de abril de Nosso Senhor Jesus Cristo, depois de um fim de semana supimpa, com o coração aberto, que Paulo Guedes admitiu. É o cara para o bastidores, para o trabalho, digamos, com a graxa e o formão. Se for preciso até pegar na prensa ou no garrote, vamos lá, mas tudo sem câmeras e transmissão ao vivo. “Tchutchca” foi a gota dágua.

Guedes negou nesta segunda-feira que tenha a pretensão de assumir o papel de articulador político para a aprovação da reforma da Previdência. Já era hora. Essa coisa de Posto Ipiranga foi um achado de propaganda, mas fez muito mal ao homem que incorporou a fama, pela voz de Bolsonaro, admitamos. O ministro participou do evento “E agora, Brasil?” – ótimo nome – e foi direto ao ponto: “Eu não tenho a pretensão de ser coordenador político. Vocês viram meu desempenho. Não tenho bom temperamento para fazer essa função. A coordenação da reforma está em excelentes mãos”, disse Guedes, lançando logo o troféu gogó de ouro. o Bruno Bianco, que é a voz do Mickey, foi logo nomeado. “Eu não tenho a pretensão de ser coordenador político. Vocês viram meu desempenho. Não tenho bom temperamento para fazer essa função. A coordenação da reforma está em excelentes mãos, como Rogério Marinho, o Bruno Bianco, que é a voz do Mickey. Eu sou animal de combate em economia, não sou para fazer essa coordenação”, foi logo qualificar o -grrrr– o tigrão.

Não sei, sinceramente, eu que ja sofri tantos preconceitos, o quanto Bianco se dá bem com a alcunha. Pode ficar puto – e com razão, pode tirar de letra. O fato é que, desde assumiu o cargo, secretário especial adjunto de Previdência e Trabalho, nome formal do seu cargo, tem uma voz que chama a atenção na Esplanada. Não eco. Destoa.  O que não é necessitariamente ruim. A gente defende um cara que tem a língua presa- so fucking what? Mas é, vá la, curioso.O Posto Ipiranga nomeia como porta-voz um “sem bandeira”, que nem loja de conveniência tem para o xixi de beira de estrada, e tudo bem?   Em discursos no Congresso ou entrevista, sempre recebe “aqueles olhares”. Ficou mais famoso por um vídeo curto de fevereiro. Falando, claro, da reforma da Previdência. Se você abstraiu a a voz e focou no discurso, é uma pessoa mais evoluída do que eu (Ouça e veja abaixo). Não há tradução em libras. OK. Só eu no planeta lembrei dos Thunderbirds (Reveja). Para não parecer montagem, Bruno esteve no Pânico na TV, na Rádio Jovem Pan, de fevereiro passado  abaixo). Esse é o novo porta-voz da Previdência. Os olhares entre os debatedores não é só uma busca de moscas no estúdio. Ok, a gente dá a voz a tapa e cada um fala o que pensa. Mas tem alguma coisa errada nesse governo, não tem?

Ricardo Miranda



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Elas e o Jornalismo: Mulheres da Pátria Grande


7 mulheres, 7 histórias, 7 comunicadoras. Florianópolis, São José, Oeste catarinense, República Dominicana, Argentina.

Mulheres que contam sua história e sua visão do Mundo. Mulheres jornalistas servindo A Outra Informação.

A história e o pensamento destas queridas companheiras, amigas, colegas, mulheres de princípios e talento, com Claudia Weinman, Débora Mabaires, Jana Machado, Mayara Heloisa Santos, Rosangela Bion de Assis, Nora Veiras e Tali Feld Gleiser.

Para abrir muito os olhos e a mente.

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Datafolha: nem entre seu fã-clube no Twitter Bolsonaro tem a aprovação que imagina

Eles
Você paga um salário de R$ R$ 30.934,70 para Bolsonaro ser presidente do Twitter do Brasil.

Ali, pelo menos, ele faz sucesso e por isso o sujeito vive no celular com o Carluxo.

No Datafolha, o resultado medíocre de cem dias de gestão foi o seguinte: 32% dizem que o governo é ótimo/bom, 33%, regular, e 30%, ruim/péssimo.

Entre seus seguidores nas redes, porém, a aprovação do cidadão vai a 62%. Essa taxa é de 23% na multidão que não o acompanha.

Bolsonaro e seus filhos pregam para convertidos.

A família tornou-se refém do monstro que criou na internet.

Confunde opinião pública com o bando de hienas histéricas que ainda são leais ao mito e para as quais qualquer mamadeira de piroca é consolo.

No mundo real — que pode ser aferido, inclusive, por pesquisas –, as notícias são péssimas.

O mercado jogou a toalha. A economia permanece estagnada. Temos o segundo ministro demitido em três meses.

O general Mourão vai cavando seu lugar e promete ser um paraquedas (“Tô com ele e não abro”).

Em sua cegueira patológica, Bolsonaro acha que está tudo lindo.

O mentor dessa “estratégia”, Carlos, merecia promoção.

“Ah, o pitbull? Tá atrapalhando o quê? Não me atrapalhou em nada. Acho até que devia ter um cargo de ministro”, diz Jair.

“Ele que me botou aqui. Foi realmente a mídia dele que me botou aqui.”

Bolsonaro vai cair, mas aprovado por 100% entre a canalha que o segue no Twitter.

Kiko Nogueira
No DCM
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Vale ganha licença para devastar Mata Atlântica e erguer barragens em SC

Maquete da Indústria de Fosfatados Catarinense, Anitápolis/SC
O TRF4 tomou uma decisão tchutchuca em favor da poderosa Vale, na quinta-feira 4: zerou nove anos de processos contra a Indústria de Fosfatados Catarinense (IFC), perdoou seus crimes ambientais e abriu caminho para a devastação de 300 hectares de Mata Atlântica.

A Vale planeja erguer na zona rural da cidadezinha de Anitápolis o combo mineradora de fosfato + fábrica de ácido sulfúrico, no santuário ecológico da Serra do Tabuleiro, na Grande Florianópolis, em Santa Catarina.

Nove cidades da região estão começando a se mobilizar pelo perigo real: com seu histórico recente de desastres, a Vale insiste em construir acima delas duas barragens no rio Pinheiros, de 85 metros de altura cada, para conter rejeitos do ácido.

A IFC foi bolada ainda na ditadura militar, para aproveitar as vastas reservas de fosfato da região, o produto serve para fertilizantes.

O empreendimento passou de mão em mão entre multinacionais por décadas. Saiu do papel no início dos anos 2000, por obra da Bunge, associada com uma estatal norueguesa.

Ambas cederam a operação para a Vale em 2015.

Especulações do mercado indicam que a Vale pode repassar o negócio para a americana Mosaic, terceira maior do ramo de fertilizantes.

O projeto sempre enfrentou oposição de ambientalistas da ong Montanha Viva.

O empreendimento foi freado pela Justiça em 2009, ainda na fase Bunge, por decisão da Vara Federal Ambiental de Florianópolis, atendendo uma ação popular movida pela ong.

No processo, a Polícia Federal constatou fraudes no relatório de impacto ambiental, desde desvios no rio Pinheiros até derrubada de mata nativa, o que é proibido por lei.

Numa manobra malandra, antes mesmo da decisão judicial da primeira instância, a IFC conseguiu derrubar araucárias nativas para limpar o terreno, usando a técnica do anelamento.

Isto é, descascar parte da árvore, próximo do pé, para cortar o suprimento de seiva e fazê-la cair de forma discreta, sem precisar usar as escandalosas motosserras.

Árvore é descascada no pé para cair “naturalmente”

Técnicos da Unisul e da UFSC produziram um relatório independente e crítico sobre o projeto, apontando riscos aos mananciais da região.

Por seis anos a Montanha Viva manteve a luta na Vara Ambiental, num processo que já tinha 15 mil páginas, quando a IFC mudou a estratégia: recorreu à Justiça desistindo de enfrentar as acusações.

A ong insistiu no processo, tentando obter uma decisão judicial que proibisse definitivamente a instalação da IFC – com a autoridade de quem botou pra correr do litoral catarinense o empresário Eike Batista, com aquela sua ideia de um porto gigante em Floripa.

Em 2015, o processo subiu então para o TRF4, mundialmente conhecido pela celeridade de seus julgamentos. Ficou lá quatro anos, até a decisão de quinta-feira

No processo, o MPF buscava  “… anulação do licenciamento realizado pela FATMA (fundação ambiental de SC) … para que no futuro não logre a empresa ré (Bunge/noruegueses/ Vale ou sucessores) obter maliciosamente outras licenças mediante os mesmos insuficientes estudos em um novo processo de licenciamento”.

Segundo o MPF “a IFC não desistiu do direito de lavra junto ao DNPM, demonstrando que a pretensão de instalar a fosfateira persiste, sendo que tal direito de lavra já teria sido (na ocasião do parecer) negociado com Vale, responsável pelas tragédias em Minas Gerais”.

Note-se: a IFC desistiu da ação judicial, mas não do projeto.

O objetivo da manobra: desistindo do processo, tentou derrubar todas as acusações de crimes ambientais e a investigação da Polícia Federal sobre os relatórios frios de impacto ambiental.

A decisão do TRF4 permite a retomada do empreendimento da estaca zero.

Hoje a IFC é composta apenas de alguns barracões nos grotões de Anitápolis, base de seus estudos de viabilidade.

A Montanha Viva anunciou domingo em Floripa que vai recorrer ao STJ para barrar definitivamente a construção da IFC, pela Vale ou por quem venha a comprar os direitos das jazidas de fosfato.

Renan Antunes de Oliveira
No DCM
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"Olavo chegou a ter três esposas muçulmanas ao mesmo tempo", diz filha

Heloísa, filha do ideólogo Olavo de Carvalho, fala da infância desassistida, da relação conflituosa com ele e das antigas convicções religiosas do pai, que agora são negadas

Heloísa e o pai, Olavo de Carvalho, em foto dos anos 90.
"Hoje ele se diz católico desde criancinha, mas foi muçulmano
e levou todos os quatro filhos, minha mãe a as esposas dele
na época para o islamismo"
Foto: Reprodução/Facebook
Aos 49 anos, Heloísa de Carvalho Martin Arribas mora numa casa simples e aconchegante em Atibaia, com árvores e flores pelo quintal. Professora de artesanato, saiu do anonimato em 2017, quando escreveu "Carta aberta a um pai". O texto relata parte da infância dela e dos irmãos, período marcado pela ausência do pai, o ideólogo de direita Olavo de Carvalho, guru do governo de Jair Bolsonaro. Heloísa o acusa de não a ter enviado à escola. Carvalho, ainda segundo a filha, teria colocado a família para morar nos fundos da Escola Júpiter, onde dava cursos de astrologia, enquanto usava a casa da frente para se relacionar com a nova esposa. Em entrevista a ÉPOCA, Heloísa fala sobre o relacionamento com o pai e sobre a mágoa em relação ao abandono intelectual — ela foi alfabetizada pelo Mobral, antigo programa do governo de alfabetização de adultos. 

Você tinha um relacionamento ruim com seu pai? 

Eu sempre tive contato com meu pai. Todas as férias, quando dava, ia passar uns dias na casa dele no Rio ou em Curitiba. Mesmo depois de 2005, quando ele foi para os Estados Unidos, falávamos por e-mail, telefone, WhatsApp. Essa distância que meu pai diz que existe entre nós nunca existiu. Sempre tivemos contato. É apenas uma maneira de ele dizer "não sei da vida dela", "é uma filha que coloquei no mundo e perdi". Uma forma para justificar a falta de responsabilidade como pai, como não ter mandado os filhos para a escola. Não é nada disso que ele fala. Fico pasma de os meus irmãos dizerem que quem mente sou eu.  

Vocês tiveram uma criação religiosa?  

Teve épocas em que rezávamos antes das refeições, mas minha mãe rezava porque era obrigada. Isso não durou nem um ano e não íamos mais à missa. Quando fui morar com meu pai e a Silvana, a segunda esposa dele, frequentávamos uma igreja na Mooca de vez em quando, mas também não durou. Acordar cedo nunca fez parte da vida do meu pai. Às vezes, chegávamos atrasados à missa por ele perder a hora. Hoje ele se diz católico desde criancinha, mas foi muçulmano e levou todos os quatro filhos, minha mãe a as esposas dele na época para o islamismo. Chegou a ter três esposas muçulmanas ao mesmo tempo. Não batizou nenhum dos quatro filhos do primeiro casamento. Dos outros casamentos não sei, mas nunca ouvi falar em madrinha ou batismo. Ele me casou no islamismo. Eu optei por ser católica e, em 2015, depois de adulta, fui batizada.  

Por que ele foi morar nos Estados Unidos? 

No começo eu não entendia. Acompanhava ele pelo Facebook de vez em quando. Via as publicações, os ataques, mas sempre me mantive neutra. Quando começou a união com a campanha do Jair Bolsonaro, vi que a coisa era maior do que eu imaginava. Lembro de coisas do passado, das amizades que ajudaram ele a chegar onde chegou. Dos Estados Unidos ele tem condições de atacar as pessoas. É uma forma de falar o que quer sem ser atingido ou processado. Xinga e ofende todo mundo. Mas quem tem condição financeira de processar Olavo de Carvalho com ele morando lá? É caro, tem carta rogatória, tradução juramentada. Custa tempo e dinheiro. Eu mesma o processaria. Meu pai disse que fui presa em briga de bar, que sou usuária de drogas. Fora a questão do abandono intelectual que sofri na infância e me causa grande transtorno até hoje, com deficiência muito grande na escrita. 

Luiz Gonzaga, Davi, Pedro, Leilah, Heloísa e Percival, os filhos de Olavo de Carvalho no aeroporto de Curitiba, na despedida dele em 2005, quando mudou-se para os EUA Foto: Acervo pessoal
Luiz Gonzaga, Davi, Pedro, Leilah, Heloísa e Percival, os filhos de Olavo de Carvalho no aeroporto
de Curitiba, na despedida dele em 2005, quando mudou-se para os EUA
Foto: Acervo pessoal

Seu pai tinha dinheiro para viver nos Estados Unidos? 

Ele foi em 2005, ajudado pelo Guilherme Almeida, um dos herdeiros do Grupo CR Almeida. Meu pai morava em Curitiba e, um dia, me ligou: "Dá para vir para cá? Preciso falar com você urgente". Eu já morava aqui em Atibaia, trabalhava durante a semana e, nos fins de semana, fazia “bico” como caixa numa pizzaria para complementar a renda. Sempre trabalhei muito para me sustentar. Então eu fui. O Guilherme Almeida mandou três carros blindados para levar a gente até o aeroporto e pagou o almoço de despedida, com umas 40 pessoas. Uma vez meu pai falou que recebeu US$ 40 mil de um amigo para se estabelecer nos Estados Unidos. Imagino que tenha sido dele. 

Você falou recentemente que viveu numa comunidade islâmica com seus pais. Como foi isso? 

Foi em 1985, quando meus irmãos foram morar com ele numa casa no bairro da Bela Vista, em São Paulo. Eu tinha 16 anos e morava com uma tia aqui em Atibaia. Tinha começado a estudar. Fazia jazz, jogava vôlei. Minha mãe veio e disse que estavam ela, meu pai e meus irmãos morando todos juntos — só faltava eu. Qual o filho de pais separados que não quer ver todo mundo junto? Até briguei com minha tia para ir. Mas, quando cheguei lá, não era uma casa normal. Era uma casa onde viviam umas 30 pessoas. Pelo menos 12, fora a minha família, moravam lá. Ele estava numa seita islâmica e todo mundo se converteu. Era uma comunidade, com rezação o dia todo, um monte de regra preconceituosa. 

Que tipo de regra? 

Tinha de sair na rua de véu, com saia comprida até o tornozelo e mangas compridas. Era proibido falar qualquer tipo de palavrão. Também era proibido ter contato com homossexuais ou prostitutas. Todas as sextas-feiras íamos a uma mesquita na Avenida do Estado [importante via da capital paulista]. Ele dizia que muçulmano não namora, só casa. Me apaixonei por um aluno dele. Eu tinha 16 anos e o rapaz, que é o pai do meu filho, tinha 18. Casamos e ficamos juntos durante seis anos. Vivemos na comunidade por uns dois anos. Depois meu pai brigou com todo mundo e a seita acabou, desmantelou. Primeiro fui morar com a minha avó materna. Depois minha tia nos chamou para morar aqui em Atibaia. Eu voltei a estudar e ele também. Nos separamos, mas mantemos a amizade. Ele tem urticária só de ouvir falar em Olavo de Carvalho.  

Você diz que não estudou, que foi alfabetizada no Mobral. Seus pais eram contra a escola? 

Não é que proibissem, mas nunca deram importância. Quando a gente ia à escola, não tinha material, roupa, uniforme. Nessa época, eu era criança. Morávamos na Zona Norte de São Paulo e ele chegou até a matricular a gente numa escola particular chamada Recanto da Petizada. Mas não pagava. Eu voltava da escola levando o boleto de cobrança para casa. Também não pagava perua para levar para a escola. Não tinha como ir. Só consegui me alfabetizar mesmo quando me matriculei no Mobral, incentivada por minha tia, que era professora.  

Quando você deixou de morar com seus pais para morar com sua tia?  

Minha mãe e meu pai se separaram e eu fiquei primeiro morando com ele e a Silvana, a segunda esposa dele. Eu tinha uns 11 anos e a Silvana havia tido a minha irmã Inês, que era um bebê ainda. Silvana não era boa dona de casa. Eu vivia jogada, sem comida pronta, roupas limpas ou ajuda para estudar. Às vezes, tinha de comprar cartolina para levar para a escola e eu não achava nem meu pai nem ela para pedir dinheiro. Ficava sem o material. Morria de vergonha. Tinha uma amiguinha que morava no mesmo prédio que eu e que estudava na minha classe. Quando dava, ela dividia o material comigo. Tenho muita saudade dela, mas nunca mais a encontrei. Só sei o primeiro nome dela: Irina. A única lembrança que guardei foi uma foto nossa. Eu com o cãozinho dela e ela com meu gatinho, tirada pela Silvana, no prédio onde morávamos, na Rua Tutoia.  

A segunda mulher dele era como? 

A Silvana é de família bem rica. Foi criada com empregada e mordomo. Quando a coisa apertava, ela saía correndo com a Inês para a casa do pai ou da avó dela. Ficava lá o dia todo. Só aparecia quando meu pai estava em casa. Nessa época, ele dava cursos de astrologia, viajava muito para o Rio, e eu ficava sozinha no apartamento, que era do pai dela. Um dia, minha tia foi levar minha mãe para me visitar e eu pedi para morar com minha tia. Eu tinha uns 12 ou 13 anos. Foi bom. Voltei a estudar, fazer esportes, ter amigos, casa, comida e roupa limpa. Foi com a minha tia que aprendi a me cuidar e cuidar de uma casa. Foi com a minha tia que fui estudar no Mobral. 

Seus pais continuaram morando com seus irmãos? 

Meus pais viviam num tal de separa e volta. Acho que ele morou com a gente até antes de o Davi nascer. Davi é o mais novo. Depois não me lembro mais de eles morarem juntos. Ele aparecia, dormia uma ou duas noites e sumia. Foram anos assim até ele montar a Escola Júpiter de Astrologia. Depois de várias namoradas, ele começou a namorar com a Silvana, até que ela engravidou e eles passaram a morar juntos. Foi nessa época que a minha mãe tentou suicídio e foi internada por ele num hospício. Eu fiquei morando com ele e a Silvana. E meus irmãos foram morar com a minha avó materna. 

E sua mãe? Nunca falou para você estudar? 

Os dois sempre foram ligados a religião, astrologia e ocultismo. Não estavam nem aí. Viravam a noite fumando, tomando café, fazendo "filosofia". No dia seguinte, minha mãe não acordava, não tinha café da manhã, nada. Sabe quando seu pai trabalha, ganha uma nota, vai para o restaurante com a família inteira e, no dia seguinte, vem a companhia energética e “corta” a luz pois ele não pagou? Essa foi a infância que eu tive. Ele também ia para restaurantes caros com os alunos, pagava a conta de todos, e, no dia seguinte, cortavam a água da minha casa. Não foi uma nem duas vezes que aconteceu isso. Foram muitas. Fora os despejos. Não passamos necessidade porque a família da minha mãe sempre deu amparo. Minha avó materna atravessava da Vila Guilherme, onde ela morava, até o Jardim Brasil [bairros da Zona Norte de São Paulo] para fazer a xepa da feira e ter comida para as crianças — eu e meus irmãos. Remédio, médico, era tudo na base da amizade. Quando ficava doente, nos levavam num médico amigo do Olavo. Meu pai trabalhou como jornalista na Revista Médica e conheceu o Dr. Paulo. Ele acabou sendo o pediatra da gente, uma pessoa com quem mantenho um pouco de contato até hoje. 

Seus irmãos estudaram? 

Meus irmãos, filhos da mesma mãe que eu, não têm o ensino fundamental. Sou a primogênita dele — a mais velha. Minha mãe se casou com ele em 1968 e fez separação de corpos nos anos 80. Em 2005, Olavo fez o divórcio porque precisava ir embora casado para os Estados Unidos. O Luiz estudou até a quarta série, o Tales até a terceira e o Davi até a segunda. Eu estudei porque fui morar com minha tia, que era professora. Fiz o Mobral e, em 2005, entrei num curso de Direito aqui em Atibaia. Demorei sete anos e meio para me formar porque tinha dificuldades. Os professores nunca perguntaram, mas achavam que eu tinha algum tipo de problema cognitivo. Eu não contava que tinha feito Mobral, supletivo. Não fui alfabetizada. Morria de vergonha. Eles acabavam dividindo a nota entre prova escrita, trabalho e apresentação. Teve uma prova que escrevi terra com um erre só. Na prova escrita eu ia mal, na apresentação dava show. Meus irmãos do segundo casamento dele — a Inês e o Percival — tiveram escola boa. Estudaram na escola da madrasta da mãe deles, com pedagogia Waldorf, classe com no máximo 10 crianças. Fizeram USP, são bem estudados, mas graças à mãe deles. Meus irmãos do terceiro casamento dele — a Leilah e o Pedro — moram com ele nos Estados Unidos. A Leilah faz faculdade e o Pedro foi ser  mariner  [fuzileiro naval dos Estados Unidos]. 

Sua divergência com o seu pai começou quando? 

Foi depois do filme O jardim das aflições [que retrata as ideias e o cotidiano de Carvalho e que foi lançado em 2017]. Comecei a ver uma briga pela internet entre os diretores do filme. O diretor de fotografia [Daniel Aragão] começou a falar coisas no Facebook e entrei em contato com ele para saber o que tinha acontecido. Ele estava sendo sacaneado. A questão não era dinheiro, era o reconhecimento do trabalho. Falavam do filme, mas omitiam o nome dele. Eu falei que ia interceder por ele e liguei para o meu pai. Meu pai disse para eu não me meter, que era melhor eu me calar. Perguntei por que era melhor eu me calar e ele falou: "Era o que me faltava, uma puta vagabunda se envolver com um maconheiro vigarista para me foder". Bateu o telefone na minha cara, me bloqueou no Facebook e no WhatsApp. Aí resolvi começar a falar o que sei sobre o lado que o Olavo esconde. Esse lado agressivo, maldoso, violento com as pessoas. É um lado que somente quem convive com ele já viu ou sabe. 

Você citou numa carta pública, em 2017, que a reação de seu pai em relação a sua defesa do Daniel Aragão parecia surto. O que são esses surtos? 

Quando ele fica nervoso, ele surta, com gritos, murros na mesa, muitos palavrões e grosserias com quem está por perto. Isso acontece quando ele se sente provocado ou ameaçado. Diz que a culpa é dos outros; nunca é dele. Uma vez, na casa da Bela Vista, logo depois que ele foi expulso da seita do Frithjof Schuon, ele ficou surtado, com mania de perseguição. Dizia que queriam matá-lo. Ficava paranoico, colocava tranca nas portas e janelas. Dizia que estava sendo vigiado e andava armado pela casa. Eu morava lá e não via nada de estranho. Acho que era tudo coisa da cabeça dele. 

Seu pai chegou a ficar internado? Você sabe algo sobre esse período?  

Sim. Eu tinha entre 5 e 7 anos, não sei exatamente. Fui duas ou três vezes visitar ele na clínica. Não podíamos entrar na casa, então ficávamos na área da piscina, que por sinal era enorme, com um belo jardim. Era uma clínica particular em regime comunitário, coisa bem diferente para aquela época. 

O que seus irmãos fazem hoje? 

Quando meu pai foi embora para os Estados Unidos, o Luiz e o Davi se mudaram para Curitiba e o Luiz herdou as aulas do meu pai. Há uns três anos, pelo que sei, fundaram um instituto e hoje só dão aulas, consulta astrológica e orientação espiritual pela internet. O Luiz hoje vive na Romênia. Ouvi dizer que virá para o Brasil este ano encontrar com os alunos. O Davi ajuda a conseguir alunos, a divulgar os cursos. O Tales é muçulmano e é o único que assume isso publicamente. É chefe de uma  tariqa  [confrarias esotéricas islâmicas, da corrente contemplativa e mística do Islã], tem duas mulheres e se mudou com elas para o Paraguai. O Luiz também faz parte da  tariqa , mas não diz publicamente. Na prática, todos vivem da marca Olavo de Carvalho e propagam a mesma filosofia. Eles nunca foram ligados em política, mas, de repente, viraram todos bolsonaristas. Pior! O Luiz fez campanha para o Bolsonaro nas redes sociais, mas nem foi votar. Depois das eleições, vi que ele estava com o título de eleitor cancelado por não ter ido votar. 

Você não permaneceu adepta da seita muçulmana. O que sabe dela? 

É difícil explicar. Trata-se de uma seita islâmica ligada ao sufismo. Entendem que todas as religiões, de alguma forma, se fundem para elevar a espiritualidade. Por isso, algumas  tariqas  recebem pessoas que não são muçulmanas, mas nem todas. Existem várias pelo mundo. Meu pai hoje tem essa fachada de católico tradicional, mas eu e meus irmãos não fomos sequer batizados na Igreja Católica e a única religião que meu pai fez a gente seguir foi o islamismo. As práticas são exercícios de respiração e muita oração em árabe, onde sacodem a cabeça para entrar em transe e ficam repetindo frases do Alcorão incessantemente, tudo sempre em árabe. Na nossa casa do bairro da Bela Vista, ele até montou uma sala especial apenas para essas orações. Era toda decorada com quadros com dizeres do Alcorão, tudo escrito em árabe. Eu nunca aprendi uma frase em árabe. Fui obrigada a me converter ao islamismo e, assim que deu, pulei fora daquilo e da convivência na mesma casa com meu pai. Foi meu meio de escapar da doutrinação religiosa.

Cleide Carvalho
No Época
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Israel vota no apartheid


Terá um resultado certo nas eleições de terça-feira 9 de abril: uns 100 membros do próximo Knesset [Parlamento] serão partidários do apartheid. Isto não tem precedentes em nenhuma democracia. De 120 legisladores, uma centena; a mais absoluta das maiorias absolutas apoia que seja mantida a situação atual, que é o apartheid.

Com semelhante maioria, no próximo Knesset será possível declarar oficialmente que Israel é um Estado de apartheid. Com semelhante apoio, e considerando a durabilidade da ocupação, propaganda nenhuma conseguirá refutar a simples verdade: quase todos os israelenses querem que o apartheid continue. No cúmulo da chutzpah [insolência], o chamam democracia, apesar de que mais de 4 milhões de pessoas que vivem junto deles e sob seu controle não têm direito de votar nas eleições. Obviamente, ninguém fala disto; mas em nenhum outro regime do mundo tem uma comunidade junto a outra em que as pessoas residentes de um denominado ‘assentamento da Cisjordânia’ tenham direito a votar, enquanto que as pessoas residentes da outra, uma aldeia palestina, não têm. Isto é o apartheid em todo seu esplendor, cuja existência querem manter quase todos os cidadãos judeus e judias do país.

Serão eleitos cem membros do Knesset de entre opções chamadas de direita, de esquerda, de centro, mas o que todas têm em comum supera qualquer diferença: nenhuma tem a intenção de dar um fim à ocupação. A direita o diz com orgulho, enquanto que a centro-esquerda lança mão de ilusões inúteis para escurecer a foto, enumerando propostas para uma “conferência regional” ou “separação segura”. A diferença entre os dois grupos é insignificante. Ao mesmo tempo, a direita e a esquerda cantam “fale sim ao apartheid”.

Como resultado, estas eleições não são importantes, e muitos menos cruciais. Portanto cortemos a histeria e o patetismo sobre seu resultado. Não se avizinha guerra civil nenhuma, nem sequer uma fissura. O povo está mais unido do que nunca, dando seu voto ao apartheid. Quaisquer sejam os resultados da terça-feira, o país do ocupante seguirá sendo o país do ocupante. Nada o define melhor, e todos os outros assuntos são marginais, incluindo a campanha do partido Zehut para legalizar a maconha.

Portanto, não tem razão para conter a respiração pelos resultados da terça. A eleição está perdida previamente. Para as pessoas judias de Israel, determinará o tom, o nível de democracia, o Estado de Direito, a corrupção em que vivem; mas não fará nada para mudar a essência básica de Israel como um país colonialista.

A extrema direita quer a anexação da Cisjordânia, um passo que faria permanente na lei uma situação que é permanente na prática faz muito tempo. Esse passo poderia apresentar uma vantagem tentadora: até que enfim Israel tiraria a máscara de democracia, e isso poderia gerar oposição tanto no país quanto no estrangeiro.

Mas nenhuma pessoas de consciência pode votar na direita fascista, que inclui pessoas que advogam pela expulsão da população palestina ou a construção de um Terceiro Templo no Monte do Templo [atual complexo de Al Aqsa] e a destruição das suas mesquitas, ou que inclusivem sonham com o extermínio. O partido Likud (supostamente mais moderado) do primeiro ministro Benjamin Netanyahu só deseja manter a situação atual, o que significa um apartheid não declarado.

A centro-esquerda procura enganar; nem o [partido] Kahol Lavan  [Azul Branco] nem o Trabalhista dizem uma só palavra sobre o fim da ocupação, ou até o levantamento do bloqueio à Faixa de Gaza. O partido de Benny Gantz têm planos ambiciosos de fazer história com uma conferência regional, e “aprofundar o processo de separação da população palestina junto com a manutenção incondicional (…) da liberdade de ação do Exército israelense em todas partes.”

Fazia muito que não se escrevia um documento semelhante para encobrir a ocupação em toda a sua vergonha. E o Partido Trabalhista não fica atrás. O passo mais audaz que propõe é um referendum sobre os campos de refugiados que existem em volta de Jerusalém, em que só os israelenses votariam, é claro.

E isso vem a se somar às já muito gastas declarações sobre os blocos de colônias, Jerusalém, o Vale do Jordão,  e o fim da construção de colônias fora dos blocos; o que significa continuar com a construção incessante de colônias. “Caminhos para a separação”, o chama este partido, o hipócrita fundador da empresa de colonização. Caminhos para o engano.

Paz? Retirada? Desmonte das colônias? Não façam a esquerda sionista rir. E não resta muito mais,  dois bilhetes e meio: os fiapos de Meretz e Hadash-Ta’al, que apoiam uma solução de dois Estados ?esse trem cambaleante que já abandonou a estação? e Balad-Lista Árabe Unida, que está mais próxima de advogar pela solução de um só Estado ?a única que resta.

A votar no apartheid.

Gideon Levy
Tradução: Tali Feld Gleiser
No Desacato
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Analista do TRF-3 é um dos homens que agrediram apoiadora de Lula na Paulista

Jaderson é o que aparece usando óculos, ao centro da imagem
Foto: Jardiel Carvalho
Oriundo de Nanuque (MG), Jaderson Soares Santana é formado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz.

Tem mestrado em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP (onde hoje faz doutorado). Especialista em José Saramago.

É analista judiciário do TRF-3.

No último domingo, Jaderson envolveu-se na agressão cometida contra um casal na avenida Paulista. O casal participava do ato pela liberdade de Lula e Jaderson estava com a turma contrária.

O rapaz foi jogado ao chão e a moça, cercada por três homens, levou uma gravata. A foto estampou a primeira página de diversos jornais no dia de hoje e causou revolta nas redes sociais.

O currículo de Jaderson não induz a classificá-lo como desinformado classe média padrão. Seu perfil no Facebook, entretanto, revela sua face conservadora e liberal.

“Na casa que tem um socialista morando, pode ter certeza tem um capitalista trabalhando para pagar as contas”, postou.

Seguidor de Felipe Moura Brasil, da Jovem Pan, e do MBL, Jaderson compartilha com a hashtag ‘bolsonarotemrazão’ e replica posts que afirmam não ter sido golpe o que houve em 1964.

No último dia 24 de março, fez graça com uma “pré-venda” de camisetas pedindo a liberdade para demais petistas que, segundo ele, irão presos em breve: Fernando Haddad, Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias e Dilma Rousseff.

Com ironia, pergunta onde estão os artistas engajados de discurso esquerdista após condenação de Haddad por fake news.

Curioso esse comportamento de imputar penalidades prévias para os outros quando o seu próprio delito está documentado, gravado, fotografado. Jaderson Santana é mais um exemplo da contradição dos simpatizantes da Nova Era.

Ainda que se mostre tocado pelo massacre em Suzano, compartilhou um post no dia 14 março (da República de Curitiba) fazendo troça com a morte de Marielle Franco.

Um dia antes ele havia partilhado um outro em que zombava das suspeitas sobre o vizinho de Bolsonaro ser um dos acusados do crime.  Quase ao mesmo tempo postou outro com petistas em fotos ao lado de um traficante de modo a comprometê-los.

O homem de camiseta azul é extremamente semelhante ao companheiro de Jaderson, mas não é possível identificar com certeza já que está de lado na foto e o vídeo não possui definição suficiente.

Em 30 de março, Jaderson postou que considera sucesso “ver seus filhos crescerem pessoas boas”. Mas sete dias depois ele protagoniza uma incivilidade dessas.

Quando o tal “cidadão de bem” será coerente em suas atitudes com o “bem”?

Mauro Donato
No DCM
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Bolsonaro manda seus recados


É muito raro que ocorram, na política, movimentos sem consequência.

Ontem, Jair Bolsonaro fez vários, todos na mesma direção e, certamente, haverá quem os leia com seu efetivo significado.

O primeiro, na substituição do insustentável Ricardo Vélez, em que poderia ter apontado para uma abertura para fora do círculo estreito do bolsonarismo mais radical. Não o fez, manteve a extrema-direita no controle da pasta, sossegou o olavismo e o liberou para continuar fustigando os militares. Ontem, Olavo de Carvalho recebeu Marco Feliciano, que ameaça pedir o impeachment de Hamílton Mourão por “traição” a Bolsonaro.

Os dois outros foram à noite, na entrevista que deu para a emissora oficial do governo, a Jovem Pan. Começou com uma pergunta de saída fácil – “é muito cedo para pensar em sucessão” e disse que “é grande a pressão” para que se candidate à reeleição.

Como em lugar nenhum se viu esta “pressão” e as pesquisas, ao contrário, apontam-lhe crescente rejeição e não aclamação uníssona, “Bolsonaro 2022” (ou até um Bolso Forever, autoritário), este movimento, se existe, é interno, de seu próprio grupo.

O mais provável é que seja, mesmo, um sinal, quase um rosnado, para que Rodrigo Maia e a João Dória “se comportem”. Dória, recordem-se, ofereceu-se como cabo eleitoral de Bolsonaro no ano passado e foi recusado.

Outro recado foi o que deu ao afirmar que deve ao filho Carlos e seu papel de incendiário das mídias sociais a sua eleição ao governo e que este “merecia estar no Ministério”. Como, pela legislação vigente, isto é impossível, a declaração equivale à sua designação como “Ministro ad hoc” do governo.

E isso significa que não mudará o seu perfil de “tuiteiro radical”, confrontador e sectário. Bolsonaro “Paz e Amor” é apenas uma fantasia ocasional e cada vez mais alegórica, porque nela já quase ninguém acredita no meio político.

A “mulheres de malandro” no parlamento são malandras o suficiente para cobrarem caro por cada bofetão.

Fernando Brito
No Tijolaço
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