7 de abr. de 2019

Advogado israelense pede que árvore plantada por Bolsonaro em Jerusalém seja arrancada

Bolsonaro plantou uma muda de oliveira no Museu do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, no dia 2 de abril.
Um advogado israelense especializado em Direitos Humanos enviou uma carta ao Museu do Holocausto em Jerusalém, Yad Vashem, na última quinta-feira (4), pedindo que a instituição retire a muda de oliveira plantada no local pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, no 2 de abril. O gesto aconteceu durante a visita de três dias que o pesselista fez a Israel.

Na carta endereçada ao presidente do Yad Vashem, Avner Shalev, o advogado Eitay Mack alega que Bolsonaro “apoia a tortura” e que seu chanceler, Ernesto Araújo, “publicou um artigo dizendo que o nazismo alemão e o fascismo da Itália foram os movimentos de esquerda”. Por isso, pede que a árvore plantada pelo pesselista seja retirada do Yad Vashem, “para evitar a profanação da memória do Holocausto e a memória de muitos movimentos de esquerda na Alemanha, que foram perseguidos e assassinados pelos nazistas”.

“Jair Bolsonaro, da extrema direita, demonstrou apoio à tortura, à volta da ditadura militar, à violência contra as mulheres, ao extermínio da população nativa, ao assassinato de membros da comunidade LGBTQ e de esquerda. Ele afirmou que ele preferia ser comparado a Hitler do que a um homossexual, disse que Hitler era um grande estrategista”, explica Mack na carta.

Museu nega pedido

O diretor de Relações Internacionais e Relações Governamentais do Yad Vashem, Yossi Gvir, respondeu no mesmo dia, numa rapidez pouco usual para o museu. A instituição negou o pedido do advogado, mas deu a entender que a considera “errônea” a declaração do presidente e do ministro das Relações Exteriores do Brasil.

Segundo Gvir, o Bosque das Nações, onde a árvora foi plantada, é de responsabilidade do Ministério das Relações Exteriores de Israel e do Fundo Nacional de Israel (KKL). “O Yad Vashem não boicota ou exclui ou, por outro lado, não confirma ou certifica declarações de autoridades visitantes de Estados Independentes”, respondeu.

“A visita guiada do presidente do Brasil no Yad Vashem, como todas as visitas guiadas realizadas por guias do Yad Vashem, foi profissional e baseada em fatos históricos documentados e confirmados. Portanto, fica claro que a declaração errônea do presidente, depois de deixar o Yad Vashem, não aconteceu com base as informações passadas a ele durante sua visita”, reitera Gvir.

Para o advogado Eitay Mack, mesmo que o Museu do Holocausto de Jerusalém tenha se negado a desenraizar a árvore, a instituição corroborou que considera incorreto afirmar que o nazismo era um movimento de esquerda. “É importante que eles afirmem que as observações de Bolsonaro são historicamente incorretas”, disse Mack. “Isso é uma coisa incomum. O Yad Vashem não costuma dar lições aos líderes estrangeiros que os visitam”, comemora.

Daniela Kresch
No RFI
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Bolsonaro (32% de aprovação, em queda) pode se tornar refém de Moro (59%)


Após quase 100 dias, apenas 32% consideram o governo Jair Bolsonaro ótimo e bom, segundo pesquisa Datafolha. Outros 30% classificam-no como ruim e péssimo – a pior avaliação entre presidentes eleitos para um primeiro mandato desde a redemocratização. Enquanto isso, o desempenho do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, alcança 59% de ótimo e bom no mesmo Datafolha, sendo a figura mais bem avaliada do governo.

Pode-se dizer que isso se deve a Moro carregar o capital acumulado durante a atuação como o principal juiz federal da operação Lava Jato, considerando que o pacote legislativo que propôs contra o crime organizado e a corrupção tem sido alvo de críticas por aumentar a letalidade policial, seguindo em marcha lenta no Congresso. Mas vale lembrar que Bolsonaro, tendo sido eleito com 55% dos votos válidos, ostentava 49% de ótimo e bom em janeiro, passando para 39% em fevereiro e 34% em março, segundo o Ibope. Mesmo considerando que sua função é naturalmente mais desgastante que a de seu subordinado, é uma derrocada que impressiona.

O que acontece quando um ministro, que já era mais popular que o presidente, torna-se ainda maior que ele por conta da queda de aprovação do eleito? Ele continuará servindo feliz e sorridente como pilar de sustentação ao governo e fiador de suas lambanças ao mesmo tempo que toca as pautas de seu interesse? O incômodo gerado mutuamente será resolvido com uma indicação ao Supremo Tribunal Federal em 2021? Se o ministro aprender a fazer política, isso pode significar, lá na frente, o fim da relação ou um apoio forçado para as eleições presidenciais de 2022? Ou o presidente se torna refém do ministro?

Jair Bolsonaro convidou três pessoas para servirem de fiadores de seu governo. Além de Sérgio Moro, colocou Paulo Guedes, à frente do ministério que reúne economia, planejamento, orçamento, indústria, comércio, desenvolvimento e trabalho. E entregou o Gabinete de Segurança Institucional ao general da reserva Augusto Heleno Pereira, que organiza a ala militar. Seja pelo nome, seja pela função que exercem, não saem a menos que queiram.

Com o convite a Moro, Bolsonaro queria, além de reforçar apoio no naco da sociedade do centro à direita, criar um anteparo para que denúncias de corrupção envolvendo seu governo não colassem tão facilmente. Ou seja, usá-lo para "lavagem de marca". Desde então, consegui até que Moro flexibilizasse a opinião sobre a gravidade do crime de "caixa 2", indo contra o que havia dito antes, ao aceitar o perdão do outrora deputado federal e agora ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, diante de "sincero" arrependimento.

Mas Bolsonaro tem feito questão de mostrar que a "carta branca" que prometeu a Moro funciona se ele seguir sua cartilha, não tendo o ex-juiz a liberdade nem para indicar uma suplente de conselho sem a anuência do chefe e de sua militância nas redes sociais, como foi o caso de Ilona Szabó. Nada que gere ruído passa sem o amém do Planalto.

Depois do arranca-rabo público com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, mostrou que ainda engatinha para entender como funciona a política. Mas a sua entrada no Twitter – com a já antológica publicação em que postou uma foto com uma folhinha de calendário  para provar a data – mostra que está disposto a aprender. Para quê? Essa é a grande pergunta a ser respondida em 2021, 2022 ou 2026.

Trincheiras cavadas ajudariam a proteger o governo de ataques, pensou a equipe de Bolsonaro. O problema é que se muros altos cercados de fossos inexpugnáveis criam uma fortaleza também constroem uma prisão. Tudo depende do ponto de vista. Bolsonaro escolheu um nome que não pode demitir, o que faz dele comandante e prisioneiro.

Moro controla a Polícia Federal e o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Tem acesso a investigações em curso. Como, por exemplo, aquelas que teriam identificado corrupção na apuração da execução da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Ou aquelas que analisam as relações de poder da milícia no Rio de Janeiro. Ou ainda as que mapeiam os laranjais usados por políticos do PSL, entre eles o ministro do Turismo, Márcelo Álvaro Antônio.

Até agora, Bolsonaro é refém de sua própria incapacidade gerencial (que coloca pessoas desqualificadas em cargos importantes por sugestão de astrólogos, cria briga de rua com o então ministro Gustavo Bebianno nas redes sociais e é incapaz de entender o que é o presidencialismo de coalizão), mas também dos esqueletos que sua família abriga no armário (das denúncias contra o senador Flávio Bolsonaro ao apoio dado a milícias) e de sua crença que foi ungido para a missão de levar o país de volta ao passado. Ou seja, refém de si mesmo.

A depender do que aconteça daqui para frente, pode se tornar também refém de quem o observa do prédio vizinho, o Ministério da Justiça.

Leonardo Sakamoto
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Após quatro meses de alta do Albert Einstein, Queiroz segue vivendo em São Paulo


Ex-assessor de Flávio Bolsonaro (PSL/RJ), demitido em outubro passado do cargo que exercia no gabinete do então deputado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Fabrício Queiroz continua vivendo em São Paulo quatro meses após sua alta do Hospital Albert Einstein, onde se internou no final de dezembro para um tratamento de câncer.

Segundo Lauro Jardim, em sua coluna no jornal O Globo deste domingo (7), até o momento, Queiroz e sua família não retornaram ao Rio de Janeiro, onde todos moram. Continuam em São Paulo, em paradeiro desconhecido, após os quatro meses de alta, que se completam nesta segunda-feira (8).

Neste período Queiroz não compareceu a audiências convocadas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro – prestando seu depoimento por escrito. Durante a internação, ele ainda protagonizou vídeo em que dança no quarto com a mulher e uma das filhas. Desempregado, também não se sabe quem pagou a conta da internação no Albert Einstein, um dos hospitais privados de elite de São Paulo.

Milicianos

Reportagem de Constança Rezende e Fabio Leite, no blog de Fausto Macedo, no site de O Estado de S.Paulo, revela, neste sábado (6) que a mãe e a mulher do ex-capitão da Polícia Militar Adriano Magalhães da Nóbrega, acusado de integrar a milícia de Rio das Pedras, foram incluídas no processo que investiga as movimentações financeiras atípicas de Fabrício Queiroz. Os três trabalham no gabinete de Flávio Bolsonaro (PSL/RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa aparecem agora na lista de investigados, junto com o próprio Flávio e com o ex-assessor Fabrício Queiroz.

O Ministério Público suspeita da prática de “rachadinha”, na qual assessores devolvem ao parlamentar parte ou todo o salário que recebem, o que é ilegal.

As duas trabalharam na assessoria de Flávio até novembro do ano passado, quando o hoje senador era deputado estadual no Rio. Cada uma recebia salário de R$ 6.492. Raimunda também é citada no relatório do Coaf por ter feito repasse de R$ 4.600 para a conta de Queiroz.

Por escrito, Queiroz afirmou que recolhia os salários e os redistribuía por uma rede maior de pessoas, para ampliar a rede de apoio ao parlamentar. Ele disse que Flávio não sabia da prática.

Foram incluídos ainda entre os investigados neste inquérito outros ex-assessores de Flávio citados no relatório do Coaf: Nathalia Melo de Queiroz (filha do Queiroz), Jorge Luís de Souza e Marcia Cristina dos Santos.

No Fórum
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Cinco valentes bolsominions agridem mulher covarde Ou não!


Direita condenando os ataques a petista.

O bolsonarismo está ficando sozinho nas redes e nas ruas.

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Domésticas voltam a ser escravas!

Foi para isso que os canalhas deram o Golpe!


Do Estadão, ele próprio em estado comatoso:

Em três anos, total de domésticas com carteira cai 15%

Nos últimos três anos, mais de 300 mil empregados domésticos perderam o registro na carteira de trabalho, mesmo após a regulamentação dos direitos da categoria. No fim do ano passado, o número de profissionais registrados foi impactado pela crise e teve seu pior resultado desde 2015. Esse contingente caiu 15% no período, de 2,1 milhões para 1,78 milhão.

Enquanto o total de empregados domésticos registrados caiu, a quantidade de trabalhadores sem carteira assinada cresceu 7,2%, indo de 4,2 milhões no fim de 2015 para 4,5 milhões em dezembro do ano passado, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, separados pela consultoria LCA.

Em 2013, os benefícios para os domésticos passaram a ser previstos na Constituição, com a aprovação da chamada PEC das Domésticas. Essas medidas foram regulamentadas dois anos mais tarde, garantindo para esses trabalhadores direitos como jornada de trabalho, horas extras e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que, até 2014, as domésticas mensalistas tiveram aumento na formalização e redução na jornada de trabalho. A mudança constitucional, mesmo pesando no orçamento das famílias, ajudou a regularizar o trabalhador.

“Parecia que tudo ia melhorar”, lembra a sergipana Clara Dias, de 33 anos. “Depois de 15 anos como doméstica, eu ia poder tirar férias com o meu marido, que é motorista de ônibus. A gente comemorou o quanto pôde, mas durou menos do que eu imaginava. Em 2016, perdi o emprego e voltei a ser diarista.” (...)

Em tempo: o próprio Estadão em estado comatoso revela que a Casa Grande já pressente a água bater no traseiro... Em editorial confessa: "Reverter o aumento da pobreza ocorrido nos últimos anos (do Golpe dos canalhas e canalhas que o Estadão apoiou - PHA) deve ser só o começo de um trabalho muito mais amplo. Nem todos os tuítes do mundo bastarão para realizá-lo." A água já ultrapassou a panturrilha... - PHA
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Bolsonaro faz 'velha política' e negocia R$ 2,95 bi em emendas para aprovar reforma


Após o presidente Jair Bolsonaro se reunir com seis líderes partidários (DEM, PP, PSDB, PRB, PSD e MDB) ao longo da semana passada visando conseguir apoio para aprovar a reforma da Previdência, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, deram início às negociações para desbloquear R$ 2,95 bilhões em emendas parlamentares. O sistema do "toma lá, dá cá', foi duramente criticado por Bolsonaro durante a campanha eleitoral sendo qualificado por ele como uma prática da "velha política".

O contingenciamento foi anunciado em março pelo governo, que envolve o bloqueio total de R$ 29,8 bilhões. Cada parlamentar tem direito a R$ 15,4 milhões em emendas individuais.

O aceno da possibilidade de desbloquear parte dos valores destinado às emendas parlamentares foi feito pelo ministro Onyx Lorenzoni após uma reunião com o presidente do PRB, Marcos Pereira, embora não tenha ficado acertado um prazo para a sua efetivação.

Segundo reportagem do jornal O Globo, durante uma reunião na semana passada com Marcos Pereira, presidente do PRB, Onyx acenou com a possibilidade de desbloquear parte das emendas parlamentares, mas não deu um prazo.

"Esses decretos de contingenciamento têm transformado o Orçamento em uma peça de ficção. De que adianta (a lei) passar pelo crivo do Legislativo se o Executivo faz esse contingenciamento?", indagou o Líder do DEM, deputado Elmar Nascimento (BA), que tem atuado junto com Maia para conseguir o desbloqueio.
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Xadrez do segundo nascimento do mito Lula

Mefistófeles levou os procuradores e o juiz para o alto da montanha e ofereceu a eles a celebridade. Em troca, teriam que entregar a condenação de Lula. Saíram como vendedores de Bíblias do velho oeste, garantindo a condenação sem ter os elementos. E ambos ficaram presos à armadilha: a mídia perante seus espectadores; a Lava Jato perante a mídia

Foto: Ricardo Stuckert
Artigo publicado originalmente em 11/05/2017

Peça 1 – a desconstrução dos heróis midiáticos

Não há armadilha maior do que a ilusória sensação de poder que a mídia proporciona.

Como dona do palco, ela define o roteiro. Quando calha do personagem estar adequado ao roteiro, ela o alça ao Olimpo das celebridades. O que o sujeito fala, repercute. Em um primeiro momento, passa uma sensação única de onipotência. Os mais espertos, entendem o jogo. Os neófitos não se dão conta de que o espaço tem data de validade, não é coisa líquida e certa como um concurso público.

Essa falsa percepção liquidou com o PSDB. Desde a ascensão de Lula, o partido limitou-se a ser caudatário da mídia brasileira. E a mídia brasileira só consegue destruir. De repente, um partido que se orgulhava de seus intelectuais, passou a ter a cara raivosa de um José Serra, Aécio Neves, Aloysio Nunes, José Aníbal, todos vociferantes, raivosos, salivando como cães hidrófobos. E liquidando com a imagem do partido.

Quando a muleta foi recolhida, o partido acabou. Suas esperanças repousam, agora, nos inacreditáveis João Dória Jr e Huck.

Esse mesmo castelo de cartas foi erigido com a Lava Jato. Hoje houve a hora da verdade. E o castelo desmontou.
Cara a cara com Lula, não havia mais a blindagem das edições seletivas. Não havia mais a liberdade para construir teses abstratas, suposições alinhavadas com ilações, sendo oferecidas para um cardápio viciado dos órgãos de imprensa.

Agora, seria ferro contra ferro.

E o que se viu foi um espetáculo constrangedor.



Do lado do juiz Sérgio Moro, pegadinhas, levantamento do que Lula disse em 2005, em 2007, meramente para fornecer leads para o Jornal Nacional – já que não havia nenhuma relação com as denúncias formuladas. Da parte dos procuradores, um apego a detalhes irrelevantes, próprio de quem não tem elementos consistentes.

O mais relevante: durante anos, a opinião pública se viu ante duas posições taxativas. De um lado, a Lava Jato garantindo ter todos os elementos para incriminar Lula. De outro, Lula sustentando que não havia um só elemento sólido.

Fizeram um pacto com o demônio.

Mefistófeles levou os procuradores e o juiz para o alto da montanha e ofereceu a eles a celebridade. Em troca, teriam que entregar a condenação de Lula. Saíram como vendedores de Bíblias do velho oeste, garantindo a condenação sem ter os elementos. E ambos ficaram presos à armadilha: a mídia perante seus espectadores; a Lava Jato perante a mídia.

O deslumbramento de Moro e dos procuradores fê-los apostar tudo em uma partida de poker. Quando abriram as cartas, não dispunham sequer de um par de 4.

E Lula dominou a cena no discurso final, no qual deu dados precisos da campanha intransigente da mídia, controlou as tentativas do juiz de cortar sua palavra e produziu uma denúncia que, nas redes sociais, espalhar-se-á pelo mundo.

Peça 2 – o segundo nascimento de Lula

Moro montou o cenário, mas o espetáculo foi de Lula.

Primeiro, pela impressionante corrente de pessoas que foram a Curitiba apoiá-lo. Depois, pelo depoimento em si. O entusiasmo, a maneira como mobilizou pessoas de todo o país, através das redes sociais, o acompanhamento de perto da mídia internacional e, ao final, um comício consagrador, tudo isso torna Lula mais que nunca o candidato para 2018.

No julgamento, a pessoa que saiu do governo consagrada internacionalmente, por seu trabalho de inclusão social e pela dimensão assumida pelo país no seu governo se apresentava, não como líder popular, nem como o estadista consagrado, mas como uma pessoa que perdeu a esposa, vítima dessa campanha implacável, que teve a casa invadida, sua intimidade estuprada por Sérgio Moro, as casas de seus filhos arrombadas e os netos sendo alvos de bulling na escola.

Nenhum de seus acusadores resistiria a dois dias de campanha de mídia. E, agora, frente a frente com eles, cobrando provas que não apareceram, documentos que nunca existiram

Depois, no comício, apresentou-se como a pessoa que poderia salvar o país, entregue pela Lava Jato e pela mídia às mãos de um presidente corrupto e medíocre e de uma grupo de poder que jamais conseguiu chegar perto de um desenho minimamente viável de país.

Um otimista diria que o evento de hoje, somado ao fastio de parte da mídia com as arbitrariedades da Lava Jato, poderia ser o início de uma tentativa de busca de consensos mínimos, visando impedir que o país caia na barbárie completa.

Um pessimista olharia para a Globo, para a maneira como radicalizou e avançou no mar revolto da subversão institucional, e ponderaria que ainda há uma longa luta pela frente, até que o bom senso se espraia pela nação.


Luís Nassif
No GGN
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Tchutchuca e Tigrão

Oposição tem de deixar dramalhão de circo e mirar método stanislavskiano

O drama de Theresa May para aprovar o brexit debaixo de apupos, afrontas e escárnio da plateia ruidosa de parlamentares prova que o Globe Theater e a Casa dos Comuns guardam um parentesco maior do que sonha a nossa vã filosofia.

Não à toa, Glenda Jackson, depois de 23 anos atuando como membro do Parlamento britânico, retomou a gloriosa trajetória de atriz na pele do rei Lear com críticas consagradoras. Mesmo longe da ribalta, Glenda jamais abandonou o teatro.

No Brasil, a política tem se assemelhado menos a Shakespeare e mais a um "Telecatch" estrelado por Ted Boy Marino.

Em meio à histeria geral, a entrevista do deputado federal de primeira viagem Felipe Rigoni no programa "Diálogos" foi um alento de clareza e sensatez. Moderação rara, em tempos tão obscuros, de se encontrar no Congresso, no Planalto e, muitas vezes, no próprio Supremo.

Formado em engenharia de produção pela Universidade Federal de Ouro Preto, e com mestrado em políticas públicas pela Universidade de Oxford, Rigoni é fruto do movimento apartidário Acredito, empenhado na formação de uma nova geração de coadjuvantes políticos, capazes de fazer a geringonça pública sair do ponto morto.

A deputada Tabata Amaral é parceira de Rigoni no Acredito.

Na sabatina do ministro da Educação, Tabata desferiu o golpe fatal, cobrando planilha, projeto, coerência e, por fim, a renúncia do incompetente Vélez Rodríguez.

Bancado por empresários como Jorge Paulo Lemann, Guilherme Leal e Luciano Huck, o Acredito é visto como esquerda caviar pelos que defendem o Estado mínimo, e direita alfafa orgânica pelos que creem no Estado forte.

Num mundo incapaz de enxergar nuances, Rigoni, que perdeu a visão na adolescência, vê-se ao centro. "Sou liberal na economia e progressista nos costumes", diz, sob protestos dos que idolatram os bufões de extremo.

Para o deputado, o problema é a polarização do Congresso, que atravanca o avanço de pautas que trariam resultados práticos para a população, calcados em estatística e estudos de impacto. A retórica operística se locupleta na ineficiência.

O embate de Paulo Guedes na CCJ serve de exemplo para a observação de Rigoni.

Sempre me incomodou a soberba de Guedes, a falta de escuta, o pragmatismo ultraliberal num país sem esgoto e a indiferença com que encara a agenda moralizadora dos costumes. No bate-boca da quarta-feira, no entanto, confesso que terminei o dia solidária ao ministro.

Eu não sei se os que estão a favor da reforma da Previdência preferiram se manter afastados dos holofotes, para não imortalizar o apoio em vídeos com potencial destruidor em eleições futuras. Talvez.

Mas a força do coro grego dos contrários pareceu estar mais ligada ao amadorismo do governo do que ao prefiro sumir de vista dos parlamentares favoráveis ao projeto.

De cabeça, só me lembro do elogio primário que o gaguejante Major Vitor Hugo dedicou ao ministro. De resto, foi só paulada.

Guedes é um primeiro ator que não recua diante da vaia. Hábil, citou os avanços sociais implementados por Lula e disparou a metralhadora giratória, cobrando responsabilidade dos congressistas, do presidente e de uma oposição que esteve no poder e não fez aquilo que, hoje, exige dele: reforma tributária, taxação de fortuna, dos rentistas e cortes na folha dos militares.

Vélez é imperdoável, Damares, Araújo e William Damazio no lugar de Ilona Szabó. É um elenco condenado ao fracasso. Os tuítes e o poder paralelo de 01, 02 e 03 são intragáveis. Você pode discordar do Posto Ipiranga, mas é preciso reconhecer que ele difere da canastrice tacanha dos demais empossados.

Se a reforma da Previdência fosse uma peça de teatro, a falta de contribuição das empresas na capitalização privada dos trabalhadores —ou mesmo a garantia dessa capitalização— num país que viu o Montepio da Família Militar virar pó valeria um bom segundo ato. A aposentadoria rural e as perguntas técnicas que terminaram sem resposta, um terceiro.

Mas o suicídio dos velhinhos chilenos é novela barata de rádio, não pode servir de argumento. Tigrão e Tchutchuca é título de pornochanchada dos anos 1970. A oposição tem que abandonar o dramalhão de circo e se espelhar na eficiência do método stanislavskiano dos neófitos Rigoni e Tabata.

O resto é muito barulho por nada.

Fernanda Torres, Atriz e roteirista, autora de “Fim” e “A Glória e Seu Cortejo de Horrores”.
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As codornas do jornalismo estão de volta


Nos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, era muito comum um tipo de assédio a parlamentares no Congresso Nacional levado a cabo por uma turma de alegres repórteres – homens e mulheres – que saltitavam em torno de deputados e senadores quando estes circulavam pelos salões Verde e Azul do parlamento.

Tratava-se de uma bajulação grotesca, um tipo de pantomima que incluía afetadas saraivadas de elogios ridículos ("líder, seu discurso foi simplesmente maravilhoso") e falsas observações estéticas ("senador, vem cá para eu arrumar essa gravata"), ao mesmo tempo em que se criava em torno dos bajulados uma ciranda de puxa-sacos ciscando na porta dos plenários.

Davam gargalhadas de qualquer piada, achavam qualquer bobagem vindas de nulidades um sinal de prestígio. Às vezes, ganhavam uma migalha de informação, noutras, a chance de jantar no Piantella por conta do jornal. Era, ainda é, um exercício espúrio de sobrevivência profissional. Um retrato ao mesmo tempo triste e revelador do tipo de cobertura política que floresceu em Brasília, depois da redemocratização do País, no final dos anos 1980.

Eu gostava de chamar essas pessoas de "codornas". Elas ainda existem, em grande quantidade. As mais velhas podem ser vistas fazendo a mesma coisa, nas redes sociais.

Os governos do PT, por razões diversas, modificaram essas relações, mas não pela vontade dos repórteres. Desde o início do primeiro governo Lula, saíram de cena as alegres codornas para dar lugar a cães de guarda treinados para arrancar, diuturnamente, notas, matérias e declarações que servissem para minar a narrativa popular emanada do Palácio do Planalto. Subitamente, tudo que era normal à rotina da política passou a ser escandaloso, maléfico, pútrido.

O golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff reascendeu a chama dessa turma, embora sem o mesmo vigor e, porque não dizer, o mesmo charme. Os 13 anos de governos petistas criaram uma solução de continuidade na transmissão geracional dessa bajulação pré-PT. Mas, então, veio aquele inesquecível Roda Viva, direto do Palácio da Alvorada, com Michel Temer.

Todo mundo lembra, por isso nem preciso me estender: repórteres do Estadão, TV Cultura, Folha e Globo protagonizaram uma das entrevistas coletivas mais servis, desonestas e patéticas do jornalismo brasileiro.

As codornas estavam de volta.

Agora, vejo essa foto de um desses cafés da manhã de Bolsonaro com jornalistas pomposamente apresentados como "chefes de redação e colunistas de jornais e emissoras de televisão de todo o país", no qual a estrela do evento foi Luciana Gimenez – esse poço de bom senso e sabedoria que dispensa apresentações.

No instantâneo, todos dão gargalhadas no momento em que Bozo anuncia que fazia xixi na cama, até os 5 anos de idade. Pura empatia com essa figura lamentável que já postou no Twitter homens fazendo golden shower e que, em 100 dias, transformou o Brasil em um vexame internacional permanente.

Nem uma única pergunta sobre desgoverno, assassinato de Marielle, milícias, Queiroz, fuzis e vizinhos pistoleiros. Só risadas, platitudes e enrolação.

E como riram, as codornas.

Leandro Fortes, Jornalista e integrante da Rede de Jornalistas pela Democracia
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Defender a absolvição e o restabelecimento da liberdade plena para o ex-Presidente Lula significa defender o resgate do Estado de Direito


Na condição de advogados do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiteramos nesta data (07/04/2019), um ano após sua prisão injusta e incompatível com a Constituição Federal, que a absolvição e o restabelecimento da liberdade plena de Lula são resultados que se impõem em relação aos recursos e procedimentos em tramitação perante Cortes Nacionais e Internacionais. Também há necessidade de que as grosseiras violações às garantias fundamentais de Lula sejam reparadas pelos agentes brasileiros que aceitaram, com a comprovada ajuda de agentes norte-americanos, a promover o “lawfare” contra Lula e contra o Estado de Direito no país.

É oportuno, nessa direção, relembrar que:

(a) A decisão condenatória que serviu de base para prender Lula em 07/04/2018 foi antecedida por medidas judiciais arbitrárias e que atentam contra o Estado de Direito, requeridas pelos Procuradores da Lava Jato de Curitiba e autorizadas pelo ex-juiz Sérgio Moro — escolhido pelos acusadores com base na irreal afirmação de que recursos da Petrobras estariam envolvidos no caso. É possível citar, como exemplos dessas medidas arbitrárias:

(a.1) as medidas invasivas adotadas contra Lula, seus familiares e colaboradores em 04/03/2016; naquela data Lula foi preso por cerca de 6 horas para prestar um depoimento que jamais havia se recusado a dar, apenas para criar perante a opinião pública e a sociedade um clima artificial de culpabilidade, próprio do “lawfare”; a “condução coercitiva” de investigados foi julgada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal por meio de liminar deferida em 17/12/2017 e confirmada pelo plenário da Corte em 04/06/2018, mas essa decisão não teve qualquer repercussão para o caso do ex-Presidente Lula;

(a.2) a interceptação do principal ramal do nosso escritório e monitoramento em tempo real de toda a estratégia de defesa estabelecida em favor de Lula pelos seus advogados; as conversas gravadas eram depositadas pela Polícia Federal na Secretaria do órgão judiciário presidido pelo ex-juiz Sérgio Moro (13ª. Vara Federal Criminal de Curitiba) com anotações e organogramas sobre as medidas que estavam sendo cogitadas e debatidas pelos advogados constituídos, possivelmente para que antídotos fossem criados simultaneamente (https://www.conjur.com.br/2016-mar-17/25-advogados-escritorio-defende-lula-foram-grampeados?fbclid=IwAR04WCa_ElNz8aJzAcrq85elB9vouLo5QBzceih4hb4jmldLBjjGXdWFmig); nenhum dos envolvidos foi punido e a queixa-crime proposta por Lula contra o ex-juiz Sérgio Moro por abuso de autoridade e violação à Lei das Interceptações Telefônicas (Lei nº 9.206/96) foi arquivada sumariamente pelo TRF4 (https://www.conjur.com.br/2017-mar-10/trf-rejeita-queixa-crime-ex-presidente-lula-sergio-moro);

(a.3) a decisão proferida pelo TRF4 ao analisar as interceptações realizadas contra Lula, seus familiares, colaboradores e advogados, que afastou a ocorrência de qualquer irregularidade na adoção de tais medidas sob a inaceitável justificativa de que a Lava Jato “constitui, sem dúvida, uma situação inédita, a merecer um tratamento excepcional” (https://www.conjur.com.br/2016-set-23/lava-jato-nao-seguir-regras-casos-comuns-trf).

(b) A despeito de todas as arbitrariedades praticadas contra Lula, seus familiares, colaboradores e advogados, nenhuma prova material contra o ex-Presidente foi coletada pelas autoridades; tal situação, porém, não impediu que Lula e sua esposa fossem vítimas de uma insana disputa entre alguns membros do Ministério Público de São Paulo e da Lava Jato de Curitiba para acusa-los de crimes que não cometeram; o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) deu razão à defesa de Lula, reconhecendo que promotores não podem escolher o caso em que irão atuar, mas tal decisão não teve qualquer efeito para o caso do ex-Presidente (https://www.conjur.com.br/2016-fev-23/apesar-ver-irregularidade-cnmp-mantem-conserino-triplex);

(c) Em 14/09/2016 a Lava Jato de Curitiba apresentou o injurídico “PowerPoint” contra Lula, acusando-o de ser o chefe de uma organização criminosa; o subterfúgio para essa iniciativa era irreal, pois a denúncia protocolada naquela data sobre o “triplex” não continha essa acusação contra o ex-Presidente;

(d) Referido “PowerPoint” selou uma aliança definitiva entre a Lava Jato e setores da imprensa para condenar Lula com base em manchetes e reportagens baseadas apenas na retórica dos procuradores da República envolvidos, sem qualquer prova material, outra característica do “lawfare”;

(e) O processo que levou Lula à prisão sempre teve o resultado pré-definido pelos membros do Sistema de Justiça envolvidos; todas as perícias requeridas pela defesa de Lula para comprovar que nenhum valor da Petrobras foi destinado direta ou indiretamente ao ex-presidente (“follow the money”) foram indeferidas pelo ex-juiz Moro (https://jornalggn.com.br/justica/se-delator-escrever-em-papel-de-pao-que-deu-4-milhoes-a-lula-devemos-acreditar/);

(f) Após a oitiva de 73 testemunhas que jamais confirmaram a versão acusatória, o interrogatório de um dos corréus, José Adelmário Pinheiro (Leo Pinheiro), foi adiado por uma semana sem uma explicação racional; o depoimento desse corréu, prestado sem o compromisso da verdade e reconhecidamente interessado em obter benefícios junto aos procuradores da Lava Jato, é a base da condenação do ex-Presidente;

(g) Antes do depoimento de Leo Pinheiro a imprensa já havia noticiado que esse corréu estava sendo pressionado por algumas autoridades para fazer referência ao nome de Lula em troca de benefícios; na condição de advogados de Lula pedimos uma investigação, mas o caso foi sumariamente encerrado (https://www.conjur.com.br/2017-nov-26/lula-protesta-mp-relatos-pressao-delata-lo);

(h) A sentença do ex-juiz Sérgio Moro condenou Lula pela prática de “atos indeterminados” usando como referência julgados de uma corte intermediária dos Estados Unidos que defendiam a configuração de crime de corrupção sem a necessidade da comprovação de um ato de ofício de agente público (já superados por decisão da Suprema Corte daquele país em sentido oposto); ao analisar recurso (embargos de declaração) apresentado contra a sentença condenatória, o ex-juiz Sergio Moro reconheceu que jamais havia identificado qualquer valor de contratos da Petrobras destinado a Lula, como sempre foi afirmado pela sua Defesa, mas, a despeito disso, manteve a jurisdição escolhida pelos Procuradores da Lava Jato e a condenação do ex-Presidente (https://reinaldoazevedo.blogosfera.uol.com.br/2017/07/19/xiii-moro-escorrega-e-admite-que-a-sentenca-que-condenou-lula-nao-tem-como-base-a-denuncia-do-mpf/);

(i) A sentença condenatória proferida pelo ex-juiz Moro também ignorou a prova de inocência realizada pela Defesa de Lula: em 2010 a OAS vendeu (cessão fiduciária em garantia) 100% do valor econômico e financeiro do “tripex” a um fundo gerido pela Caixa Econômica Federal (https://jornalggn.com.br/justica/nem-de-lula-nem-da-oas-triplex-e-da-caixa-ha-pelo-menos-7-anos/); vale dizer, o apartamento jamais poderia ter sido dado ou “atribuído” a Lula em 2014 sem que tivesse sido comprovado pagamento do valor correspondente em uma conta da Caixa especificada em contrato;

(j) Durante a tramitação do recurso dirigido ao TRF4, apresentamos relevantes fatos novos que foram expressamente desprezados por aquela Corte de Apelação, tais como: (i) declaração de próprio punho de João Vaccari Neto desmentindo as acusações de Leo Pinheiro (Pinheiro afirmou que Vaccari teria atuado como intermediário de Lula em conversas relativas ao “triplex”) e (ii) vídeos de ex-promotores dos Estados Unidos admitindo que ajudaram informalmente – e, portanto, de forma ilegal, sem amparo no Tratado Internacional que disciplina a relação entre os países – os membros da Lava Jato a construir o caso contra Lula e a condenar o ex-Presidente (https://jornalggn.com.br/justica/em-video-procurador-dos-eua-admite-parceria-secreta-com-lava-jato/);

(k) Embora o processo do “triplex” reúna mais de 250 mil páginas, o recurso de Lula no TRF4 tramitou em tempo recorde (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/08/1912821-recurso-de-lula-foi-o-que-mais-rapido-chegou-a-2-instancia.shtml); o resultado negativo foi anunciado pelo Presidente do TRF4 antes da realização do protocolo do recurso pela Defesa de Lula (https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,sentenca-que-condenou-lula-vai-entrar-para-a-historia-diz-presidente-do-trf-4,70001925383);

(l) Lula foi preso antes mesmo do esgotamento de todos os recursos na segunda instância (https://br.reuters.com/article/topNews/idBRKCN1HC31Y-OBRTP); a Constituição Federal (art. 5º, LVII) assegura que a presunção de inocência somente pode ser afastada diante da existência de decisão condenatória definitiva (transitada em julgado), o que não existe no caso do ex-Presidente;

(m) A Petrobras participou de todo o processo do “triplex” na condição de assistente de acusação do MPF contra Lula, afirmando ser vítima; nos Estados Unidos, porém, firmou um acordo com promotores daquele país confessando, de forma contraditória, ser culpada pelos mesmos fatos;

(n) No anexo em que narrou os fatos ilícitos que embasaram a confissão de culpa, a Petrobras fez referência a ex-funcionários, empresários e políticos; contraditoriamente à posição adotada pela petrolífera no Brasil, não há qualquer referência a Lula ou a qualquer participação do ex-Presidente no esquema criminoso (https://jornalggn.com.br/noticia/defesa-de-lula-ve-motivo-para-anular-caso-triplex-em-acordo-entre-eua-e-petrobras/);

(o) A cooperação da Lava Jato com autoridades norte-americanas foi escondida da Defesa de Lula durante todo o processo; até mesmo as perguntas sobre o tema foram indeferidas pelo ex-juiz Sérgio Moro (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/11/1834625-defesa-de-lula-ve-elo-suspeito-da-lava-jato-com-eua.shtml) enquanto estava sendo gestada a fundação privada de R$ 2,5 bilhões que atualmente está em análise do Supremo Tribunal Federal (https://www.conjur.com.br/2019-mar-29/lava-jato-defende-supremo-acordo-firmado-petrobras);

(p) Em 2018 o Brasil se recusou a dar cumprimento a medidas cautelares (“interim measures”) concedidas pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU que determinavam ao país, com a força vinculante, dentre outras coisas, que fossem assegurados os direitos políticos de Lula, salvo se houvesse decisão condenatória definitiva baseada em “processo justo” (https://nacoesunidas.org/comite-de-direitos-humanos-da-onu-pede-que-lula-exerca-direitos-politicos-e-tenha-acesso-a-imprensa/); tais decisões foram proferidas no âmbito de um comunicado individual que levamos ao Comitê em julho de 2016 (https://www.youtube.com/watch?v=bDIqNNw10RI) e que poderia ter sido julgado no último mês de março, não fosse uma manifestação protelatória apresentada pelo Brasil em 19/03/2019;

(q) Os recursos que dirigimos às Cortes Superiores (STJ e STF) contêm sólidos fundamentos jurídicos, alinhados à jurisprudência atual desses Tribunais, para que seja afastada a condenação imposta por Moro e pelo TRF4 a Lula e para que ele seja colocado em liberdade.

É preciso enfatizar nesta data, diante do histórico apresentado, que defender a absolvição e o restabelecimento da liberdade plena para o ex-Presidente Lula significa defender o resgate do Estado de Direito no país.

Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira Martins
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Datafalha: Bolsonaro é um desastre!

De onde menos se espera daí mesmo é que não vem nada...


Da Fel-ha, responsável pelo Datafalha e, em parte significativa, pelo golpe dos canalhas e do Conge, que botou Bolsonaro no Palácio das Milícias, segundo o Bessinha:

Após 3 meses, Bolsonaro tem a pior avaliação entre presidentes de 1º mandato

Envolto em contínua crise política e sem assistir a uma melhora na economia, Jair Bolsonaro (PSL) registra a pior avaliação após três meses de governo entre os presidentes eleitos para um primeiro mandato desde a redemocratização de 1985.

Mas 59%, segundo o Datafolha, ainda acreditam que ele fará uma gestão ótima ou boa. O presidente completa cem dias de mandato na próxima quarta-feira (10).

Segundo o instituto, 30% dos brasileiros consideram o governo de Bolsonaro ruim ou péssimo, índice semelhante ao daqueles que consideram ótimo ou bom (32%) ou regular (33%). Não souberam opinar 4% dos entrevistados.

O instituto ouviu 2.086 pessoas com mais de 16 anos em 130 municípios nos dias 2 e 3 de abril. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Antecessores de Bolsonaro nas mesmas condições tiveram melhor desempenho. Fernando Collor (então no PRN) era reprovado por 19% em 1990, enquanto Fernando Henrique Cardoso (PSDB) marcava 16% de índices ruim ou péssimo em 1995.

Os petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, alvos frequentes de críticas do atual presidente, eram mal avaliados apenas por 10% e 7% da população ao fim dos primeiros três meses do governo.

Na série histórica, Dilma é quem teve numericamente a melhor avaliação a esta altura do mandato, com 47% de ótimo/bom em 2011. (...)
O Datafalha revela também:

- as mulheres detestam o produto do Golpe mais do que os homens;

- os ricos são os que mais apoiam o produto do Golpe canalha;

- Bolsonaro, produto do Golpe do Conge é o que menos fez nos primeiros cem dias de governo, em comparação a Lula e Dilma;

- o Nordeste é a região que mais repudia o produto do Golpe Conge-canalha.

Não por acaso os governadores do Nordeste se uniram para se defender do governo atual.

E Flavio Dino e Ricardo Coutinho estão ao lado de Boulos com o mesmo objetivo: unir a maioria da população que repudia Bolsonaro e formular uma política de Oposicão que leve a centro-esquerda ao poder daqui a quatro anos menos cem dias (nefandos).




Datafolha: brasileiros acham que Bolsonaro é burro e trabalha pouco

Dizem Mauro Paulino, diretor do Datafolha, e Alessandro Janoni no jornal:

“Para conseguir maior apoio da opinião pública e consolidar suas propostas de governo, Bolsonaro deve adequar-se ao cargo e mostrar serviço — metade dos brasileiros acha que ele trabalha pouco e é antiquado, imagem muito pior do que a de seus antecessores petistas”.

Para 57% dos brasileiros, ele é autoritário; para 44%, despreparado; para 42%, indeciso.

Em comparação a Lula e Dilma, mais um dado curioso e sintomático: 39% da população acham o sujeito pouco inteligente.

O cidadão é um desastre, em resumo.

Tem um lado bom: o de que a população acordou cedo.


Kiko Nogueira



Datafolha: mais da metade dos eleitores das regiões que impulsionaram Bolsonaro está arrependida

A comparação dos dados da nova pesquisa Datafolha com os resultados obtidos por Jair Bolsonaro na eleição oferece termômetro expressivo da queima de capital político nos três primeiros meses de governo.

Na região Sul, onde o presidente alcançou seu maior índice de votação, 68%, apenas 39% classificam seu governo como ótimo ou bom — e 54% dizem que ele fez menos do que o esperado. No Sudeste, onde conquistou 65,4% dos votos válidos, o percentual de frustrados chega a 59%.

Só o Nordeste ultrapassa o Sudeste no índice de eleitores que dizem que Bolsonaro fez menos do que eles esperavam no primeiro trimestre: 68%. Mas, na região, Fernando Haddad (PT) bateu quase 70% dos votos válidos.




Datafolha mostra que os brasileiros concordam com Bolsonaro: não nasceu para presidente


O país concorda com Bolsonaro: ele não nasceu para ser presidente.

A conclusão do Datafolha de domingo, dia 7, é que o ex-mito não deve passar o réveillon do ano que vem no Palácio da Alvorada.

A pesquisa comparou presidentes desde Collor após cem dias e no primeiro mandato e sua avaliação é a pior.

Pelo menos 30% o consideram ruim ou péssimo e 33% regular.

Os 32% que acham o governo ótimo ou bom são os doentes que demorarão mais a cair na real, mas cairão.

O resultado é ainda pior do que o apresentado pelo Ibope no mês passado, que dava 24% de ruim ou péssimo.

Os próximos levantamentos trarão números mais desastrosos por razão de inércia e, sobretudo, porque esse bando é especializado em achar um alçapão embaixo do poço.

Ninguém pode se declarar surpreso.

O Datafolha mostra também queima de capital político em pouco tempo.

“Na região Sul, onde o presidente alcançou seu maior índice de votação, 68%, apenas 39% classificam seu governo como ótimo ou bom —e 54% dizem que ele fez menos do que o esperado. No Sudeste, onde conquistou 65,4% dos votos válidos, o percentual de frustrados chega a 59%”.

Não há nada que indique que o comandante dessa nau sem rumo vai tomar juízo e pôr alguma ordem na casa, a começar pelos três patetas que criou.

Bolsonaro teria que deixar de ser Bolsonaro, Olavo de Carvalho teria que se comportar como gente.

A tese dessa turma, explicitada pelo secretário da Presidência, Filipe Martins, é a de que o sujeito deve reinar com o apoio popular e não com o Congresso.

Que apoio popular?

Eles confundem o povo com os cachorros e robôs que vivem nas redes sociais e que fazem parte da camada mais rica que não largou Bolsonaro — por enquanto.

Ninguém suporta incompetência com o ambiente de guerra, tóxico, criado pelo bolsonarismo.

Ao invés de medidas para criação de emprego, Bolsonaro fala em lombada eletrônica e pesca, num esquete ruim de humor.

A solução apresentada para as “más notícias” dadas pelo IBGE: destruir o IBGE.

Jair não poderá fazer o mesmo com o povo brasileiro.

Kiko Nogueira
No DCM
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Por que têm tanto medo de Lula livre?



Faz um ano que estou preso injustamente, acusado e condenado por um crime que nunca existiu. Cada dia que passei aqui fez aumentar minha indignação, mas mantenho a fé num julgamento justo em que a verdade vai prevalecer. Posso dormir com a consciência tranquila de minha inocência. Duvido que tenham sono leve os que me condenaram numa farsa judicial.

O que mais me angustia, no entanto, é o que se passa com o Brasil e o sofrimento do nosso povo. Para me impor um juízo de exceção, romperam os limites da lei e da Constituição, fragilizando a democracia. Os direitos do povo e da cidadania vêm sendo revogados, enquanto impõem o arrocho dos salários, a precarização do emprego e a alta do custo de vida. Entregam a soberania nacional, nossas riquezas, nossas empresas e até o nosso território para satisfazer interesses estrangeiros.

Hoje está claro que a minha condenação foi parte de um movimento político a partir da reeleição da presidenta Dilma Rousseff, em 2014. Derrotada nas urnas pela quarta vez consecutiva, a oposição escolheu o caminho do golpe para voltar ao poder, retomando o vício autoritário das classes dominantes brasileiras.

O golpe do impeachment sem crime de responsabilidade foi contra o modelo de desenvolvimento com inclusão social que o país vinha construindo desde 2003. Em 12 anos, criamos 20 milhões de empregos, tiramos 32 milhões de pessoas da miséria, multiplicamos o PIB por cinco. Abrimos a universidade para milhões de excluídos. Vencemos a fome.

Aquele modelo era e é intolerável para uma camada privilegiada e preconceituosa da sociedade. Feriu poderosos interesses econômicos fora do país. Enquanto o pré-sal despertou a cobiça das petrolíferas estrangeiras, empresas brasileiras passaram a disputar mercados com exportadores tradicionais de outros países.

O impeachment veio para trazer de volta o neoliberalismo, em versão ainda mais radical. Para tanto, sabotaram os esforços do governo Dilma para enfrentar a crise econômica e corrigir seus próprios erros. Afundaram o país num colapso fiscal e numa recessão que ainda perdura. Prometeram que bastava tirar o PT do governo que os problemas do país acabariam.

O povo logo percebeu que havia sido enganado. O desemprego aumentou, os programas sociais foram esvaziados, escolas e hospitais perderam verbas. Uma política suicida implantada pela Petrobras tornou o preço do gás de cozinha proibitivo para os pobres e levou à paralisação dos caminhoneiros. Querem acabar com a aposentadoria dos idosos e dos trabalhadores rurais.

Nas caravanas pelo país, vi nos olhos de nossa gente a esperança e o desejo de retomar aquele modelo que começou a corrigir as desigualdades e deu oportunidades a quem nunca as teve. Já no início de 2018 as pesquisas apontavam que eu venceria as eleições em primeiro turno.

Era preciso impedir minha candidatura a qualquer custo. A Lava Jato, que foi pano de fundo no golpe do impeachment, atropelou prazos e prerrogativas da defesa para me condenar antes das eleições. Haviam grampeado ilegalmente minhas conversas, os telefones de meus advogados e até a presidenta da República. Fui alvo de uma condução coercitiva ilegal, verdadeiro sequestro. Vasculharam minha casa, reviraram meu colchão, tomaram celulares e até tablets de meus netos.

Nada encontraram para me incriminar: nem conversas de bandidos, nem malas de dinheiro, nem contas no exterior. Mesmo assim fui condenado em prazo recorde, por Sergio Moro e pelo TRF-4, por “atos indeterminados” sem que achassem qualquer conexão entre o apartamento que nunca foi meu e supostos desvios da Petrobras. O Supremo negou-me um justo pedido de habeas corpus, sob pressão da mídia, do mercado e até das Forças Armadas, como confirmou recentemente Jair Bolsonaro, o maior beneficiário daquela perseguição.

Minha candidatura foi proibida contrariando a lei eleitoral, a jurisprudência e uma determinação do Comitê de Direitos Humanos da ONU para garantir os meus direitos políticos. E, mesmo assim, nosso candidato Fernando Haddad teve expressivas votações e só foi derrotado pela indústria de mentiras de Bolsonaro nas redes sociais, financiada por caixa 2 até com dinheiro estrangeiro, segundo a imprensa.

Os mais renomados juristas do Brasil e de outros países consideram absurda minha condenação e apontam a parcialidade de Sergio Moro, confirmada na prática quando aceitou ser ministro da Justiça do presidente que ele ajudou a eleger com minha condenação. Tudo o que quero é que apontem uma prova sequer contra mim.

Por que têm tanto medo de Lula livre, se já alcançaram o objetivo que era impedir minha eleição, se não há nada que sustente essa prisão? Na verdade, o que eles temem é a organização do povo que se identifica com nosso projeto de país. Temem ter de reconhecer as arbitrariedades que cometeram para eleger um presidente incapaz e que nos enche de vergonha.

Eles sabem que minha libertação é parte importante da retomada da democracia no Brasil. Mas são incapazes de conviver com o processo democrático.

Luiz Inácio Lula da Silva
Ex-presidente da República (2003-2010)
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Manifesto pelo crescimento econômico

As necessidades deste país são em quantidade descomunal. Uma, acima de todas. Parece bem conhecida, e tanto não é, que não figura entre as prioridades emergenciais. Este país precisa desesperadamente de crescimento econômico. É disso que a dissolução das demais necessidades depende. É do crescimento econômico retomado com urgência que tudo depende neste país, no presente, agora mesmo, e para todo o futuro.

Evitar que este país seja engolfado pela violência que já mudou nossas vidas para muito pior. Salvar a democracia, não de ditaduras militares, que isso se resolve, mas da degradação que corre rumo ao fundo sem volta, onde democracia é impossível. Dar sentido, enquanto há tempo, à riqueza natural e aos potenciais humanos que não faltam aqui, no entanto utilizados em escala mínima e só para negócio proveitoso de uma "elite" que vive de costas para o país.

Salvar os que vivem na miséria, os que vive na pobreza, os da classe média já em decadência geral, salvar tudo e todos do que está acontecendo e se finge não ver. Salvar a vida deste país. Isto, só a partir do crescimento econômico é possível.

Os números terríveis no recente relatório do Banco Mundial, referentes ao Brasil, nem são da atualidade. Retratam o final de 2016: mais 7,3 milhões de pessoas caíram no fosso existencial dos que vivem com menos de US$ 5,50 por dia, ou R$ 21,20. Eram 36,5 milhões em 2014, dois anos depois já chegavam a 44 milhões. Sabemos, embora sem os números, o que lhes aconteceu depois de 2016, nos anos de Michel Temer e Henrique Meirelles.

Os que apenas parecem viver com menos de R$ 7,30 por dia (ou US$ 1,90) passaram, só naqueles dois anos, de 5,6 milhões para 10,1 milhões de seres humanos no que é chamado de "abaixo da linha de pobreza". Na linguagem de pessoas, miséria extrema.

Naqueles anos, as prioridades foram o "déficit fiscal", com o corte de gastos governamentais, e a criação do teto de despesas da administração pública. A riqueza de Temer cresceu até na madrugada do Jaburu. A de Meirelles foi de dia mesmo, nas aplicações especulativas protegidas, todas, pelo governo.

Este Brasil mudara, porém. Encontrava-se. Monica de Bolle, diretora de estudos latino-americanos da Johns Hopkins University, antecipa sua identificação política e ideológica, em Época (sem data na página destacada): "Não tenho qualquer simpatia pelo PT, embora credite ao governo Lula a redução da pobreza e a formalização do mercado de trabalho que mudaram o país".

Pesquisador de economia da Fundação Getulio Vargas e sócio da consultoria Reliance (pronúncia em inglês, por favor), o "liberal" Samuel Pessôa: (...) "no melhor período que tivemos, os anos Lula, quando crescemos 4% em termos reais" (Folha, 31.3.19).

O autor desses "anos Lula" está completando um ano trancafiado em pequena cela, condenado a 12 anos e 1 mês. Ao encerrar-se, seu governo recebeu 82% de aprovação, índice sem precedente. Por que está preso? Por crime provado não é, se o então juiz Sergio Moro e os desembargadores do TRF-4, em Porto Alegre, não encontraram a prova de que precisavam: atribuíram o alegado suborno a um "fato indeterminado". Mas se o motivo do suborno não é conhecido, o próprio suborno não é conhecido. E não pode haver condenação pelo que nem se sabe se existiu.

O motivo da prisão foi a combinação lógica de "melhor período que tivemos" e 82% de aprovação. Logo, probabilidade incomparável de vitória na eleição presidencial de 2018. A "elite" econômica, os seus servos e interesses externos temeram que outro governo Lula não fosse tão complacente e mesmo colaborativo quanto o anterior, e avançasse para reformas verdadeiras. Em busca de mais crescimento, soberania de fato, menos injustiça social — mau exemplo na América Latina.

Dizer que o êxito do governo Lula deveu-se sobretudo a condições externas favoráveis é fácil, mas é mentira do elitismo neoliberal. Em 2008, o governo Lula encarou a grave crise internacional difundida pelos Estados Unidos. Os efeitos do crescimento sustentaram o Brasil e o comprovaram na aprovação crescente.

O "melhor período que tivemos" e os 82% ficaram como demonstração definitiva, para todo observador honesto, de que a prioridade ao "crescimento real" independe de falsas reformas preparatórias, é necessário e urgente.

Janio de Freitas
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Novo estudo sugere que algoritmo de anúncios do Facebook é uma máquina de estereotipar raça e gênero

Ilustração: Soohee Cho/The Intercept
Como exatamente o facebook decide quem vê o que é um dos grandes segredos na era da informação, escondido atrás de acordos de confidencialidade, lei de sigilo comercial e uma cultura geral de opacidade. Uma nova pesquisa realizada por especialistas na Universidade Northeastern, na Universidade do Sul da Califórnia e pelo grupo de defesa do interesse público Upturn não revela como funcionam os algoritmos de segmentação do Facebook, mas traz um resultado alarmante: eles parecem exibir determinados anúncios, incluindo os de habitação e emprego, de uma forma que se alinha com os estereótipos de raça e gênero. Isso ocorre mesmo quando os anunciantes pedem que as peças sejam exibidas a um público amplo e inclusivo.

Existem duas etapas para se anunciar no Facebook. A primeira é realizada pelos anunciantes, ao escolherem determinados segmentos da população do Facebook como alvo: mulheres canadenses que gostam de badminton e Weezer, pais que acompanham os filhos em jogos de lacrosse com mais de 40 anos com interesse em genocídio branco e assim por diante. A segunda etapa é realizada pelo Facebook, ao fazer um anúncio aparecer nas telas de determinadas pessoas, conciliando as preferências de segmentação do anunciante com o fluxo de pessoas por meio de aplicativos e páginas da web do Facebook em um determinado período de tempo. Os anunciantes podem ver quais audiências acabaram por ver o anúncio, mas nunca têm a permissão de conhecer a lógica subjacente de como aqueles públicos específicos foram selecionados.

A nova pesquisa foca na segunda etapa da publicidade no Facebook: o processo de entrega dos anúncios, ao invés da segmentação deles. Basicamente, os pesquisadores criaram anúncios sem qualquer segmentação demográfica e observaram onde o Facebook os colocou. Os resultados, conforme os pesquisadores, foram perturbadores:
Criticamente, observamos uma significativa distorção na entrega ao longo de linhas de gênero e raciais de anúncios “reais” de oportunidades de emprego e moradia, apesar dos parâmetros de segmentação neutros. Nossos resultados demonstram mecanismos anteriormente desconhecidos que podem levar à entrega de anúncios potencialmente discriminatórias, mesmo quando os anunciantes estabelecem seus parâmetros de segmentação para serem altamente inclusivos.
Em vez de terem como alvo um nicho demográfico, os pesquisadores solicitaram apenas que o alcance de seus anúncios do alcançassem usuários do Facebook nos Estados Unidos, deixando as questões de etnia e gênero totalmente a cargo da caixa preta do Facebook. Como o próprio Facebook informa a anunciantes potenciais, “Nós tentamos mostrar às pessoas os anúncios que sejam mais pertinentes a elas”. O que exatamente a caixa preta de segmentação de anúncios da empresa, deixada para trabalhar por conta própria, considera pertinente? Os algoritmos de veiculação de anúncios do Facebook tendem a ser distorcidos como tantos outros? A resposta não será surpreendente.

Para uma parte do estudo, pesquisadores publicaram anúncios para uma ampla variedade de vagas de emprego na Carolina do Norte, de zeladores e enfermeiros a advogados, sem qualquer outra opção de segmentação demográfica. Com todo o restante sendo igual, o estudo descobriu que “o Facebook entregou nossos anúncios de vagas na indústria madeireira para um público composto de 72% de brancos e 90% homens, empregos de caixa de supermercado foram exibidos para um público 85% de mulheres, e vagas em empresas de táxi, a uma fatia de 75% de negros, muito embora o público-alvo especificado fosse idêntico para todos os anúncios”. Exibições de anúncios para “desenvolvedor de inteligência artificial” também penderam para brancos, enquanto vagas de trabalhos de secretariado foram esmagadoramente exibidas para usuárias do sexo feminino.

Embora o Facebook não permita que os anunciantes vejam a composição racial de quem visualizou um anúncio, os pesquisadores disseram que conseguiram inferir esses números com bastante confiança através da referência cruzada dos indicadores fornecidos pela empresa, particularmente as regiões em que os usuários moram, o que, em alguns estados, podem ser cruzadas com dados raciais existentes nos registros de recenseamento eleitoral.

No caso de anúncios habitacionais – uma área em que, no passado, o Facebook já mostrou ter potencial para abuso discriminatório – os resultados também foram fortemente distorcidos pelas linhas raciais. “Em nossos experimentos”, escreveram os pesquisadores, “o Facebook entregou nossos anúncios com segmentação ampla de casas à venda para públicos compostos por 75% de usuários brancos, enquanto que anúncios de imóveis para alugar foram exibidos a um público mais equilibrado demograficamente”. Em outros casos, o estudo descobriu que “o Facebook entregou alguns de nossos anúncios de moradias a públicos de mais de 85% de usuários brancos ao mesmo tempo em que entregavam outros anúncios a 65% de usuários negros (dependendo do conteúdo do anúncio), embora os anúncios tenham sido segmentados de maneira idêntica”.

O Facebook pareceu reforçar estereótipos algoritmicamente mesmo no caso de fotos de bancos de imagens simples, até mesmo sem graça, indicando que não apenas verifica e classifica automaticamente imagens no site como sendo mais “relevantes” para homens ou mulheres, como modifica quem vê o anúncio baseado em se ele inclui uma foto de, digamos, uma bola de futebol ou uma flor. A pesquisa usou uma seleção de imagens estereotipadas de gênero – uma cena militar e uma luta de MMA do lado do estereótipo masculino, uma rosa no feminino – e alterou as imagens para que ficassem invisíveis ao olho humano (marcando as imagens como canais “alfa” transparentes, em termos técnicos). Então usaram essas fotos invisíveis em anúncios publicados sem qualquer segmentação baseada em gênero. Mesmo assim, foi descoberto que o Facebook, provavelmente após analisar as imagens com software, tomou decisões retrógradas e baseadas em gênero em relação a como entregá-las: anúncios com imagens do estereótipo “macho” foram exibidos majoritariamente a homens, muito embora os homens não fizessem ideia do que estavam vendo. O estudo concluiu que “o Facebook possui um mecanismo de classificação automática de imagens usado para direcionar diferentes anúncios para diferentes subconjuntos da população de usuários”. Em outras palavras, o viés estava do lado do Facebook, não no olho de quem vê.

O relatório chega em um momento inconveniente para o Facebook, que está enfrentando acusações do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano sobre seu potencial de permitir que os anunciantes excluam ilegalmente certos grupos. E embora o estudo tenha o cuidado de observar que “nossos resultados falam apenas sobre como nossos anúncios específicos são entregues (ou seja, não podemos dizer como os anúncios de imóveis ou de emprego em geral são entregues)”, ele ainda assim conclui que “a significativa distorção que observamos até mesmo em um pequeno conjunto de anúncios sugere que os anúncios de emprego e de moradia no mundo real provavelmente têm o mesmo destino”. Em outras palavras, mesmo na ausência de senhorios intolerantes, a plataforma de publicidade em si parece inerentemente preconceituosa.

Por meio de um porta-voz, o Facebook forneceu o seguinte comentário:
Somos contra discriminação de qualquer forma. Realizamos importantes mudanças em nossas ferramentas de segmentação de publicidade e sabemos que este é apenas um primeiro passo. Estamos estudando nosso sistema de entrega de anúncios e envolvemos líderes do setor, acadêmicos e especialistas em direitos civis no tema – e estamos explorando mais mudanças.
A essa altura, esse já é um refrão conhecido, e que provavelmente não servirá para tranquilizar aqueles que apenas querem saber que terão as mesmas oportunidades que os outros, mesmo no contexto da publicidade onipresente. A velha apologia pela publicidade direcionada costuma ser a de que a segmentação é a favor do consumidor, poupando-o de anúncios “irrelevantes” e, em vez disso, fornecendo a ele oportunidades de procurar por produtos e serviços que lhes sejam “pertinentes”. O que esse raciocínio superficial deixa passar é que decisões quanto a pertinência podem se tornar um auto-reforço. Na melhor das hipóteses, é uma tolice pensar que as mulheres têm mais interesse em trabalhos de secretariado porque clicam em anúncios para essas vagas em vez de clicarem nelas porque é tudo o que o Facebook mostra a elas.

Sam Biddle
Tradução: Cássia Zanon
No The Intercept
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