5 de abr de 2019

Democracia em frangalhos: por que Toffoli recuou?


O que está por trás do recuo de Toffoli, retirando da pauta a votação sobre a legalidade da prisão após condenação em segunda instância? A data estava marcada desde o ano passado.

Existem algumas hipóteses para a decisão.

O presidente do STF pode ter recuado porque a posição de que a prisão só pode acontecer após o trânsito em julgado seria derrotada. Seria uma manobra defensiva, uma tentativa de ganhar tempo e fortalecer a instituição para que ela, mais a frente, adote a posição.

Alguns movimentos corroboram com esta leitura. Foi grave o que aconteceu no último dia 3 de abril. OAB, CNBB, UNE, CNI e outras entidades foram ao STF entregar um manifesto de defesa do… STF! Não foram defender posições, foram defender a instituição. Por que ela precisa ser defendida? A Suprema Corte está ameaçada? Quem está ameaçando?

Outra hipótese é que Toffoli recuou em busca de uma saída negociada, que empurre a prisão para a terceira instância, após julgamento pelo STJ. O adiamento seria uma manobra para permitir que o STJ julgue e condene Lula antes da decisão do STF, retirando o ex-presidente do alcance dos efeitos desta revisão.

Neste raciocínio, poderia estar sendo negociada com o STJ uma prisão domiciliar para Lula. A Lava Jato sofreria uma “meia derrota”, com a prisão sendo permitida apenas após a terceira instância. E Lula seria enviado para uma “meia prisão”.

A terceira hipótese é que Toffoli adiou porque iria ganhar a votação. Faz sentido?

A vitória do Estado Democrático de Direito tiraria Lula da cadeia. Seria uma derrota dos “Torquemadas”. Se a vitória era provável, que forças foram capazes de impor um recuo?

Militares de alta patente ocupam oito ministérios. E estão por toda a Esplanada. Nunca antes, nem mesmo na Ditadura, militares tiveram tanto poder. Enquanto a autoproclamada esquerda dança serelepe ao som do “Bonde do Tigrão”, debatendo se “tchuchuca” é termo machista ou não, um jogo real e perigoso vai sendo montado.

Na cerimônia de transmissão do Comando do Exército, o general Villas Bôas disse que o Brasil vivia um novo momento graças a dois homens: Jair Bolsonaro e Sérgio Moro. Quem será o próximo a receber a mais alta comenda do exército brasileiro? Deltan Dallagnol.

No início da caminhada do Capitão, os militares externaram a preocupação de que a instituição não misturasse sua imagem com a do candidato. Hoje, parecem embebedados pelo poder.

No seu jogo, Bolsonaro continua tratando com desdém o parlamento. Os sinais públicos de aproximação são apenas parte de um ritual “fake”. No núcleo militar do Planalto, políticos são tratados como bandidos.

Guedes fez calar o plenário da CCJ com uma ironia ameaçadora. Repetiu por quatro vezes diante de deputados mudos: “Vocês acham que os militares estão contribuindo pouco na reforma da previdência? Por que não mudam? Vocês têm medo? Têm medo?

A democracia no Brasil está em frangalhos. Os pessimistas dizem que já chegamos a 64, restaria saber apenas se iremos para 68.

Existem várias formas de fechamento. Com forças de inteligência do aparato de estado alimentadas pela NSA, setores antinacionais da burocracia estatal engajados e um braço forte armado, os “cabos e soldados” podem ser dispensados de alguma exibição mais extravagante.

Por que Toffoli recuou? Que pressões atuaram sobre ele? Por que temem tanto a soltura de Lula? Por que é necessário manter o regramento de um Estado de Exceção?

O PIB deve crescer no máximo 1% este ano, aprofundando o desemprego e o drama social. Será preciso encontrar culpados, ou “uma culpada” para o desastre. A democracia, infelizmente, parece ser a primeira da fila.

Ricardo Cappelli
No DCM
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Mino Carta: "Prisão do Lula convém a uma quadrilha, uma minoria velhaca" | Minólogo


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"Já são cinco anos de investigação e nenhuma prova", diz Zanin

Cristiano Zanin Martins
Nos últimos cinco anos, Cristiano Zanin Martins, advogado criminalista e membro da equipe de defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem tido pouco descanso. Ele e outros advogados e advogadas têm travado uma verdadeira batalha judicial para garantir que os direitos fundamentais do ex-mandatário sejam respeitados.

Lula está preso desde o dia 7 de abril em Curitiba, acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) de haver recebido recursos ilícitos de uma empreiteira, através da reforma de um apartamento triplex na cidade de Guarujá, litoral paulista.

Lula não só nega a acusação, como afirma que é vítima de uma perseguição jurídica com fins políticos. Ao completar um ano de sua prisão, o Brasil de Fato conversou com Zanin para saber quais serão os próximos passos da defesa pela liberdade do ex-presidente. Confira:

Brasil de Fato: Já se passou quase um ano desde a decretação da prisão do ex-presidente pelo ex-juiz Sérgio Moro. Um ano que, apesar de todo o trabalho da defesa, o ex-presidente permaneceu preso e acabou impedido de participar das eleições presidenciais. Qual o balanço que a defesa faz de tudo o que aconteceu até agora?

Cristiano Zanin MartinsLamentavelmente, tudo o que nós afirmamos no comunicado feito ao Comitê de Direitos Humanos da ONU em 2016, veio a ocorrer. Em julho de 2016, quando nós protocolamos aquele comunicado perante a ONU, nós já dissemos que o ex-presidente Lula estava sendo vítima de uma intensa perseguição, de uma verdadeira cruzada de alguns setores do sistema de Justiça brasileiro, e que o objetivo era condená-lo sem prova de culpa com o fim de inviabilizar, de impedir a sua atuação política e até mesmo uma eventual candidatura à Presidência da República em 2018.

Tudo isso veio a ser confirmado por um processo marcado por graves violações ao direito de defesa, às garantias fundamentais do ex-presidente Lula. Depois sobreveio uma sentença que claramente condenou o ex-presidente Lula sem nenhum elemento concreto, sem nenhuma base jurídica e que foi confirmada pela segunda instância. O ex-presidente não teve, até o momento, o direito a um processo justo,  a um julgamento imparcial e independente, e isso, possivelmente, foi levado em consideração pela ONU nas decisões liminares que foram concedidas no ano passado para que o ex-presidente pudesse concorrer nas eleições presidenciais, quando ele inclusive liderava todas as pesquisas de opinião. Infelizmente, o Brasil, descumprindo uma obrigação internacional que havia assumido por meio de tratados, deixou de cumprir essas liminares que foram concedidas pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU.

O que ocorreu na sequência, que é público e notório, foi que o juiz Sérgio Moro, que capitaneou todo o processo de condenação do ex-presidente Lula, veio se tornar o principal ministro de um governo eleito nessas circunstâncias, eleito a partir de um impedimento indevido da candidatura do ex-presidente Lula. Então, esse cenário, esse desfecho inclusive, da própria ida do ex-juiz Sérgio Moro ao governo federal, um governo de oposição ao ex-presidente, deixou claro para quem poderia ter alguma dúvida, de que Lula não teve jamais um julgamento imparcial e um julgamento justo. Nós esperamos que todo esse cenário possa levar o Comitê de Direitos Humanos da ONU a confirmar as violações grosseiras que nós afirmamos e que também haja sensibilidade das cortes superiores brasileiras para que venha a reverter essa condenação imposta ao ex-presidente Lula e restabelecer a sua liberdade plena o mais breve possível porque essa é a única situação compatível com a de uma pessoa que não praticou qualquer crime. E isso fica muito claro a partir de tudo o que aconteceu até hoje. Já são cinco anos de investigação intensa contra o ex-presidente Lula, contra os seus familiares e colaboradores e nenhuma prova de culpa foi apresentada, nenhum elemento concreto foi apresentado, a não ser insinuações, ilações que, como todos sabemos, não podem jamais fundamentar uma condenação criminal.

A defesa tem reiterado que o ex-presidente é vítima de lawfare. Gostaria que o senhor explicasse aos nossos ouvintes e leitores do que se trata e quais são as evidências dessa prática no caso do ex-presidente Lula?

A acusação que foi dirigida contra o ex-presidente Lula no caso do triplex, assim como outras acusações, têm em comum a absoluta falta de materialidade. Não há nenhuma evidência, não há nenhuma prova contra o ex-presidente Lula, mas isso não impediu que ele fosse condenado e essa decisão utilizada para mantê-lo preso há cerca de um ano. Então, essa situação, associada a uma clara intenção de perseguição política, nos leva a classificar esse caso como um caso emblemático de lawfare, que é justamente o uso perverso das leis e dos procedimentos jurídicos para fins de perseguição política.

A defesa também tem afirmado reiteradas vezes que durante todo o processo de instrução apresentou provas da inocência do ex-presidente Lula no caso do triplex do Guarujá. Quais provas foram essas? Em contraponto, o que a acusação apresentou?

A acusação não fez qualquer prova de culpa do ex-presidente Lula. A sentença condenatória, assim como a sua confirmação em segundo grau pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, deu-se fundamentalmente com base no depoimento de um corréu, em um depoimento prestado sem o compromisso com a verdade e por uma pessoa claramente interessada em obter benefícios do Ministério Público. Por outro lado, nós fizemos as provas, durante diversas audiências, após oitivas de 73 testemunhas, de que o ex-presidente Lula não praticou qualquer ato ilícito, não praticou nenhum ato de ofício, não recebeu qualquer contrapartida, ao contrário do que foi afirmado pela denúncia feita pelo Ministério Público. E fomos além. Nós demonstramos que aquele apartamento do Guarujá pertencia, ou pertence até hoje à OAS, e havia sido dado em garantia em uma operação feita entre a OAS e a Caixa Econômica Federal e, portanto, para que alguém recebesse a propriedade daquele apartamento teria, segundo aquele contrato feito entre a OAS e a Caixa, que pagar 100% do valor do apartamento à Caixa Econômica Federal. O que jamais aconteceu.

Então essa situação mostra o caráter frívolo da acusação que foi dirigida contra o ex-presidente Lula, mostra a absoluta falta de materialidade, mostra que o Ministério Público não fez qualquer prova de culpa do ex-presidente e mostra ainda que as provas de inocência que nós, advogados de defesa, fizemos, foram desprezadas tanto em primeira instância quanto na segunda instância. Nós temos recursos pendentes de julgamento nos tribunais superiores e entendemos que esses recursos devem levar à reversão da decisão condenatória porque essa decisão condenatória viola frontalmente a legislação federal e também a Constituição Federal.

Como o senhor já mencionou nessa entrevista, além das duas instâncias superiores ainda há uma expectativa sobre o julgamento do mérito do caso do ex-presidente no Comitê de Direitos Humanos da ONU. Como vai esse processo?

Nós apresentamos esse comunicado individual ao Comitê de Direitos Humanos da ONU em 2016, fizemos diversas atualizações desse comunicado até o presente momento, tínhamos uma expectativa de que ele pudesse ser analisado no mês de março, quando ocorreu uma reunião do Comitê, mas tivemos conhecimento de que o Brasil acabou por apresentar uma nova manifestação no último dia 19 de março que pode ter inviabilizado essa análise.

Mas outras duas sessões do comitê irão acontecer ainda neste ano, possivelmente em julho e em novembro, e nós temos a expectativa de que o Comitê possa, em uma dessas duas sessões que ocorrerão neste ano, analisar esse comunicado porque é um comunicado já instruído, com todas as evidências de violações grosseiras às garantias fundamentais do ex-presidente Lula e que está, portanto, pronto para julgamento, e esse julgamento poderá reconhecer a ocorrência dessas grosseiras violações às garantias fundamentais do ex-presidente Lula e ajudar o Brasil a se reencontrar com o Estado de Direito, com a legalidade e, consequentemente, permitir o restabelecimento da liberdade plena do ex-presidente Lula porque ele não praticou qualquer crime.

Além dos recursos impetrados pela defesa em outras instâncias, também há um julgamento no STF que pode ter impacto sobre o caso do ex-presidente Lula e é o julgamento das ADCs que questionam o entendimento do Supremo sobre a prisão após condenação em segunda instância. O presidente do Supremo, Dias Toffoli, retirou esse julgamento da pauta, atendendo a um pedido da OAB, como o senhor avalia esse adiamento?

Nós da defesa do ex-presidente Lula não participamos diretamente dessas ações que tramitam no Supremo Tribunal Federal discutindo a questão da prisão em segunda instância. Mas, evidentemente, acompanhamos porque é um tema que tem total interesse da defesa e cujo desfecho pode ter bastante repercussão no caso do ex-presidente Lula.

A nossa visão é de que a Constituição Federal brasileira não permite outra interpretação que não seja a de impedir qualquer execução de pena sem a existência de uma decisão condenatória transitada em julgado. A Constituição é expressa nesse sentido, ao garantir, ao assegurar a presunção de inocência até que haja uma decisão definitiva transitada em julgado. E, por isso, nós entendemos também que seria muito importante que o Supremo possa reafirmar esse entendimento o quanto antes, possa restabelecer uma linha jurisprudencial que já era afirmada anteriormente por aquela corte, exatamente nesse sentido.

A interpretação dada em 2016 por maioria de votos, com todo respeito, não é compatível com a nossa Constituição. As pessoas podem ter opiniões, podem gostar ou não dessa leitura constitucional. Mas não e possível modificar o texto constitucional por uma interpretação que venha a se dar pelo Supremo Tribunal Federal em outro sentido. É preciso, efetivamente, garantir a inteireza do texto constitucional, e isso somente será possível se o Supremo Tribunal Federal reafirmar essa posição, a posição de que ninguém pode ser preso, ninguém pode ser obrigado a cumprir uma pena sem que haja uma decisão condenatória definitiva transitada em julgado.

Finalmente, os senhores, advogados de defesa, chegaram a apresentar provas de uma suposta cooperação ilícita entre agentes da Operação Lava Jato e autoridades dos Estados Unidos. A quem foi dirigida essa denúncia e resultou em quê?

Nós levamos ao processo que tramitou na 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba provas de que houve cooperação informal de autoridades estadunidenses com autoridades brasileiras. Inclusive, naquilo que chamaram de construção do caso. É preciso ressaltar que o Brasil tem um acordo firmado com os Estados Unidos, prevendo uma série de formalidades para que haja uma cooperação entre os dois países. E no caso do ex-presidente Lula, nós mostramos que essas formalidades não foram observadas. A própria cooperação dos Estados Unidos é classificada como informal, o que não é possível. Cooperação informal é algo ilegal, é algo ilícito, é algo que não pode ser aceito no nosso país porque viola o tratado internacional que foi firmado com os Estados Unidos.

Leonardo Fernandes
No Brasil de Fato
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O sonho de liberdade mexicano e o delírio autoritário brasileiro

López Obrador e Jair Bolsonaro
É raro México e Brasil estrearem seus ciclo políticos no mesmo período dada a diferença dos tempos de mandato dos presidentes e do calendário eleitoral de cada país.

Em 2019 esse encontro temporal do que pode significar o início de novas eras não poderia apontar caminhos mais contrastantes entre cada nação ao observar-se os primeiros dias dos governos do ultradireitista Jair Bolsonaro e de Andrés Manuel López Obrador, líder da esquerda mexicana.

Conheça  a partir dos doze tópicos abaixo comparando os chefes de estado e seus governos por que os dois gigantes da América Latina se distanciam muito além dos quatro mil quilômetros que os separam.

Salário mínimo e aposentadorias

Obrador: aumentou o salário mínimo em 16%, um crescimento real de 11% (descontada a inflação), a maior elevação de ganhos à massa assalariada desde pelo menos 1989. Aos aposentados, dobrou o valor dos repasses aos idosos em situação de vulnerabilidade.

Bolsonaro: represou o aumento do salário mínimo previsto no orçamento proporcionando um ganho real de apenas 1% aos trabalhadores. Busca aprovação da reforma da previdência desenhada por sua equipe econômica, a qual sinaliza o corte dos repasses transferidos aos mais pobres na zona rural e urbana, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), cujo valor pode ser reduzido à metade do que atualmente é pago.

Avaliação do povo

Obrador: os cem dias de governo chegaram com a notícia do otimismo projetado pelo povo mexicano ao vivenciar a nova fase do país. Levantamento do jornal El Financeiro apontou aprovação de 79% para a nova gestão, percentual quase 20% superior em relação à época em que o presidente mexicano assumiu o mandato, quatro meses atrás.

Bolsonaro: até mesmo entre seus eleitores cresce o questionamento sobre a capacidade do presidente liderar a nação. A interferência dos filhos na agenda política, o fraco desempenho econômico e a postura muitas vezes considerada irresponsável e incendiária, cujos exemplos vão da postagem de um vídeo com conteúdo pornográfico em suas redes sociais à exaltação da ditadura militar, fazem com que Bolsonaro, em menos de cem dias à frente do cargo, possua a aprovação de menos da metade dos brasileiros, 34%de acordo com os números divulgados pelo Ibope em 20 de março.

Viagens

Obrador: assumiu o mandato em 1º de dezembro de 2018 e desde então não realizou uma única viagem para fora do México. Dentro do território percorreu diferentes províncias para em contato com a população impulsionar ações com ênfase em projetos sociais. Em Acapulco (litoral) e Sonora (fronteira norte) lançou o programa melhoramento urbano, esteve em São Luis Potosí (centro) para anunciar a instalação de uma das cem unidades de educação superior que prometeu viabilizar. Em Veracruz (região do golfo), Guadalajara (oeste), Guerrero (sul) entregou cartões do Programa Integral de Bem estar a crianças, idosos e pessoas portadoras de deficiência, percurso esse todo contando apenas o mês de março.

Bolsonaro: Suíça, Estados Unidos, Chile, Israel. Em menos de três meses na presidência, o titular ausentou-se por quatro vezes do país – afora o período em que esteve em licença médica. Quando está no Brasil, Bolsonaro concentra suas atividades em Brasília, com passagens por Rio de Janeiro e São Paulo. Nordeste, Norte e Sul são praticamente ignorados ao considerar-se os compromissos oficiais realizados até então.

Gasto pessoal e austeridade

Obrador: diminuiu seu próprio salário de 60 mil reais para 24 mil reais, determinando que nenhum funcionário do governo recebe acima do teto alcançado pelo chefe do executivo. Pôs à venda o luxuoso avião presidencial – junto de outras 60 aeronaves e 70 helicópteros -, limitou as viagens do secretariado e cortou as aposentadorias dos presidentes anteriores.

Bolsonaro: o aumento das despesas do cartão corporativo nos dois primeiros meses em 16% na comparação com o mesmo período dos últimos quatro anos mostra que o governo realmente sairá caro para o país. A maior parte  da quantia de mais de um milhão de reais gastos por Bolsonaro são de caráter sigiloso, não sabendo-se portanto para onde foi o dinheiro. Isso sem contar os rendimentos mensais do presidente que giram em torno de R$ 70 mil ao receber R$ 30.934,70 para estar à frente do cargo e acumular ainda a aposentadoria de capitão reformado e ser beneficiário do Instituto de Previdência dos Congressistas.

Soberania

Obrador: além de proteger as riquezas internas e investir no mercado local, o mexicano tenta estabelecer uma relação com o fronteiriço Estados Unidos de maior igualdade pelo menos no terreno das negociações enquanto que por outro lado busca despertar a consciência histórica adormecida entre a maioria dos cidadãos. Recentemente escreveu uma carta à Espanha e ao Papa Francisco solicitando que a Igreja Católica e o governo espanhol se desculpassem pela invasão, colonização e matança de milhões de indígenas. Ainda que a resposta de ambos não tenha sido em acato ao conteúdo, o assunto foi pauta na imprensa e debatido nas ruas.

Bolsonaro: além de vender o patrimônio nacional a empresas e potências estrangeiras entregando setores estratégicos, Bolsonaro não somente esvazia os cofres como debilita a institucionalidade ao dentre outras decisões liberar a entrada de estrangeiros de determinados países sem visto e não exigir contrapartida, visitar um órgão de inteligência de outra potência, no caso a CIA e destacar as belas paisagens tropicais ideal para as férias à platéia de milionários de Davos, projetando a imagem de um país de menor relevância no contexto geopolítico.

Relacionamento com a imprensa e comunicação

Obrador: de segunda a sexta, às sete da manhã o presidente e parte de sua equipe se apresentam para uma entrevista coletiva que reúne a imprensa tradicional e alternativa. Durante uma hora em média são levantadas questões sobre os mais diversos temas de maneira livre pelos jornalistas presentes. Além de responder, Obrador aproveita o espaço para aclarar sobre os passos de sua gestão. Articula um discurso de unidade nacional utilizando larga retórica com pausas e ponderação na maneira de se expressar.

Bolsonaro: critica de forma contumaz veículos de imprensa e profissionais da mídia desqualificando o trabalho desses meios. Prefere comunicar-se pelas redes sociais e seus grupos de whatsapp, instrumentos utilizados durante sua campanha presidencial inclusive com a suspeita de irregularidades na contratação de serviços de envio de mensagens. Toda semana realiza um ao vivo em sua página de menos de meia hora com a presença de algum ministro ou filho, em geral. Nesse reduzido tempo, por frases curtas e às vezes pouco conexas fala sobre os feitos da semana e o que vislumbra para o futuro.

Combate à corrupção

Obrador:  de cara seu grupo parlamentar enviou projeto ao Congresso para renunciar ao foro privilegiado, medida que em vias de aprovação será estendida aos funcionários públicos. Também defende leis mais severas relativas a fraudes eleitorais e desvio de verbas.

Bolsonaro: nomeou um ministro da Justiça que tão logo assumiu o posto passou a relativizar a prática do caixa 2 (utilização de dinheiro não contabilizado em campanhas eleitorais) e sugerir mudanças no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que diminuiriam a capacidade do órgão em detectar fraudes e desvios. A administração também avança para reduzir os mecanismos de transparência pública e tem importantes figuras de seu entorno envolto em suspeitas de corrupção, com destaque para as denúncias sobre o filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PSL), cujo patrimônio cresceu exponencialmente nos últimos anos.

Apelidos

Obrador: a linguagem popular é a marca de seu tempo. Por muito tempo Obrador foi chamado de peje (peixe) devido a existência de peixes lagarto em Tabasco, característicos de sua terra natal. Mais tarde a alcunha AMLO derivou das iniciais de Andrés Manuel Lopez Obrador. Recentemente um apêndice foi acrescentado e o líder passou a ser chamado de AMLOVE (fusão de Amlo com amor, em inglês) , em virtude do que seria o abrandamento da radicalidade demonstrada em situações anteriores. Os apelidos são utilizados por apoiadores e críticos a depender da intenção.

Bolsonaro: as formas para se referir ao mandatário brasileiro variam do escárnio à idolatria. No rol de nomes espalhados aparecem expressões criadas pelos indignados como Bolsolixo e Bozonaro, agregando palavras críticas ao nome do presidente enquanto os dedicados veneradores tentam agradar o ídolo com a alcunha de Bolsomito.

Venezuela

Obrador: lidera a nação que está entre as exceções da região ao não alinhar-se automaticamente às decisões dos Estados Unidos. O México continua a reconhecer Nicolas Maduro presidente da Venezuela e sua diplomacia se oferece como possível instância mediadora dos conflitos, destacando sempre a necessidade de que os venezuelanos resolvam suas questões sem interferências externas.

Bolsonaro: embora tenha baixado o tom, não hesita em flertar com perigosas ameaças à Venezuela, inclusive do ponto de vista militar, conforme a linha determinada por Washington. Qualifica o autoproclamado Juan Guaidó como chefe do estado venezuelano e critica violentamente o bolivarianismo e o chavismo, empregando uma retórica de incentivo ao ódio contra as esquerdas.

Mulheres nos ministérios

Obrador: o gabinete paritário havia sido anunciado ainda na campanha eleitoral. São oito ministras e oito ministros. As mulheres estão à frente de secretarias (equivalente a ministérios no Brasil) do Trabalho, Desenvolvimento Social , Economia, Energia, além da pasta de Governação com Olga Cordeiro, a mais importante da administração.

Bolsonaro: Menos de 10% dos primeiro escalão tem a presença feminina.Dentre os 22 postos ministeriais apenas dois são ocupados por mulheres: Tereza Cristina na Agricultura e Damares Alves, na Família, Direitos Humanos e Mulheres.

Resposta a tragédias

Obrador: mais de cem mortos foram registrados em Hidalgo na explosão de um oleoduto clandestino da Petróleos Mexicanos (Pemex) devido à pratica que no país se conhece por huachicoleo, roubo de combustíveis. O governo impulsionou aprovação da lei que tornou mais rígida as penas para quem pratica o crime – de alta periculosidade e largamente dominado por cartéis – resultando na detenção de 600 pessoas, mas nenhuma relacionada ao caso que está sob investigação.

Bolsonaro: mais de duzentos brasileiros morreram em novo crime ocasionado pela Vale, gigante mineradora privatizada na década de 1990. Mesmo diante das denúncias baseadas em documentos que comprovariam o descumprimento de parâmetros legais pela empresa, o presidente da companhia Fábio Schartsmann não foi sancionado criminalmente. Além da atuação frágil no trabalho de investigação para a penalização dos responsáveis, o governo segue defendendo leis menos rígidas de fiscalização ambiental.

Diálogo com o congresso

Obrador: junto a seu partido Movimento de Regeneração Nacional (Morena), com maioria na Senado e Câmara, conseguiu aprovar em poucos meses importantes medidas defendidas em sua plataforma a exemplo da criação da Guarda Nacional, estrutura de seguridade que reunirá exército e policias e a Extinção de Domínio, que torna mais ágil a recuperação pelo estado de bens ilícitos. Ainda em debate estão a revogação da reforma educacional aprovada no governo anterior e rechaçada severamente pelos profissionais de ensino, além da realização de consultas populares regulares sobre temas de interesse da população.

Bolsonaro: constantes atritos entre o chefe do executivo e os parlamentares se repetem semana a semana a ponto de o presidente da Câmara, Rodrigo Maia advertir “é hora de parar de brincar”, referindo-se a Bolsonaro, o qual a todo momento critica o que classifica como velha política. Devido à desarticulação governista e a questionável qualidade dos projetos protocolados torna-se improvável a aprovação da Reforma da Previdência, principal bandeira oficialista. O pacote anticrime, outra ação elencada nas prioridades, também parece longe de ser apreciado por deputados e senadores.

Murilo Matias
No DCM
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Conseguiram! 62% dos brasileiros sentem vergonha, indignação, tristeza e medo

https://www.balaiodokotscho.com.br/2019/04/05/conseguiram-62-dos-brasileiros-sentem-vergonha-indignacao-tristeza-e-medo/

Entre as muitas pesquisas divulgadas esta semana, mostrando a queda da aprovação de Bolsonaro, a que mais me chamou a atenção foi a do Ipespe, que procurou saber o que os brasileiros estão sentindo neste momento, às vésperas do governo completar 100 dias.

O resultado está na coluna de Mônica Bergamo, na Folha:

“A maior parte das pessoas (62%) se diz preocupada, envergonhada, indignada, triste ou com medo hoje no Brasil, segundo pesquisa realizada pelo Ipespe.

Outras 33% afirmam estar esperançosas, alegres e tranquilas; 2% se dizem entusiasmadas e apenas 1%, orgulhosas”.

Quem será que está incluído neste 1%? Gostaria de conhecer estas pessoas para saber seus motivos.

Grosso modo, a pesquisa reproduz a proporção de um terço da população, os que estão otimistas, que votou em Bolsonaro na eleição e lhe continua fiel.

Os dois terços de desalentados constituem a soma dos que votaram em Haddad, anularam o voto, votaram em branco ou se abstiveram.

Até a pesquisa oficial do mercado, que reúne bancos e rentistas, encomendada pela corretora XP ao mesmo Ipespe, e divulgada nesta sexta-feira, mostra queda na popularidade de Bolsonaro: de janeiro para cá, o índice caiu de 40% para 35%.

Na pesquisa do instituto Big Data, contratada pela revista Veja, no mesmo período a aprovação de Bolsonaro caiu 12 pontos percentuais:  de 50% para 38%.

Todas as pesquisas mostram números semelhantes: cerca de um terço da população ainda acredita no governo.

Na véspera, pesquisa do Atlas Político já havia mostrado que a aprovação do presidente (30,5%) já é menor do que a dos que o rejeitam (31,2%).

Nenhum outro presidente teve índices tão baixos nos primeiros 100 dias após a redemocratização do país.

A maioria dos desiludidos está na classe média. Estimativa do Big Data calcula que cerca de 15 milhões de eleitores que votaram em Bolsonaro deixaram de avaliar seu governo de maneira positiva.

Se Bolsonaro reagir com fúria às pesquisas em que está despencando, como fez quando o IBGE divulgou esta semana o aumento do número de desempregados no país (foi para 13,1 milhões), estes institutos vão ter que mudar suas metodologias ou correrão o risco de entrar na lista negra dos comunistas.

Será engraçado incluir neste rol de malditos a XP, a maior corretora do país, com controle indireto do Itaú.

Nada mais é impossível no país dos bolsonaros, do nazismo de esquerda e da terra plana.

A única boa notícia para o governo foi dada na manhã de hoje pelo próprio presidente: o ministro da Educação, Vélez Rodriguez, finalmente deve ser demitido na segunda-feira.

Pelo menos os livros didáticos foram salvos do colombiano doido que queria reescrever a História do Brasil.

Bom final de semana a todos.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
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Pesquisa mostra 15 milhões de eleitores desiludidos com Bolsonaro


Nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro completa 100 dias à frente do governo. No jargão da política, esse período é chamado de “lua de mel”, fase em que os deslizes são perdoados e os defeitos relevados pela maior parte dos eleitores — que, afinal, elegeu o mandatário da vez. Apesar de Bolsonaro ter sido ungido pelas urnas com 58 milhões de votos, sua lua de mel foi muito mais curta que o normal. Entre janeiro e março, a parcela das brasileiros que avaliavam o governo como ótimo ou bom encolheu de 50% para 38%. A perda de apoio também se manifestou no aumento de eleitores que consideravam o governo regular e passaram a classificá-lo como ruim ou péssimo, fatia que subiu para 27%, 5 pontos porcentuais acima do dado de janeiro. No cômputo geral, estima-se que cerca de 15 milhões de pessoas que votaram em Bolsonaro deixaram de avaliar seu governo de maneira positiva, de acordo com a consultoria de pesquisa Ideia Big Data, que fez o estudo a pedido de Veja. A maioria dos desiludidos está na classe média, fragilizada pela crise. Com esses números, o atual governo encerrou março com a menor popularidade em um primeiro mandato desde 1995. O Ibope registrou números semelhantes: queda de 15 pontos porcentuais entre os que avaliavam a atual gestão como ótima ou boa de janeiro a março, derrubando a popularidade de Bolsonaro para 34%. No primeiro mandato, Dilma Rousseff fechou o primeiro trimestre com 56% de aprovação; Lula obteve 51% e Fernando Henrique Cardoso, 41%.

A perda de popularidade do atual governo deve-se, em boa parte, à fragilidade de seu eleitorado, reunido em um processo eleitoral altamente polarizado. O caldeirão de eleitores do candidato do PSL juntou grupos com expectativas múltiplas, como foram múltiplas (e vagas) as promessas de campanha: combate à corrupção e ao petismo, reforma conservadora dos costumes, segurança pública. O antipetismo, por exemplo, foi excelente para ganhar a eleição, porém é inútil para governar bem. Mas Bolsonaro dá mostras de acreditar que o eleitor que o escolheu comprou o pacote completo — e nem isso é verdadeiro. A pulverização das pautas propicia uma perda mais rápida do apoio popular, pois cria expectativas muito diversificadas. “Nesses casos, o eleito tem maior risco de frustrar o eleitor, por não conseguir cumprir tudo o que prometeu”, diz o cientista político Sérgio Abranches. Por contraste, Abranches lembra que Fernando Henrique, em 1994, e Lula, em 2002, tinham um discurso bem concentrado em pautas concretas — Fernando Henrique falava da estabilização da economia; Lula, de combate à pobreza. Nenhum dos dois sofreu o desgaste rápido que aflige Bolsonaro.

Clique na imagem para ampliar)

(...)

No Veja
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Ex-pistoleiro denuncia milícia em organização de secretário de Bolsonaro

Condenado a 14 anos de prisão, Osnir Sanches trabalhou para a UDR e se diz arrependido. Líder da entidade, Nabhan Garcia, nega participação com milícias e adota políticas para desmontar reforma agrária

A proximidade entre Bolsonaro e Nabhan Garcia amplia o poder do secretário, que é considerado
o 23° ministro do governo, responsável pela reforma agrária no Brasil
Foto: Arquivo Pessoal
Osnir Sanches foi um dos responsáveis por organizar uma milícia armada paga pela União Democrática Ruralista (UDR) no final da década de 1990. Era o “chefe de segurança”, como explica em entrevista à Repórter Brasil, com a função de contratar soldados para um exército clandestino a serviço de fazendeiros do interior do Paraná. A atuação de Sanches o levou a ser um dos quatro condenados pelo assassinato do integrante do MST, Sebastião Camargo, executado em fevereiro de 1998.

Apesar de ter sido sentenciado a 14 anos de prisão, Sanches ficou só um mês atrás das grades, graças a um habeas corpus. Ele nega a sua responsabilidade no crime, mas dá detalhes de como funcionava o treinamento de pistoleiros na organização e acusa a UDR de tê-lo abandonado. “Acabou com a minha vida. Estou pagando por uma coisa que não fiz”, afirmou.

Criada em 1985 para se contrapor ao avanço do MST, a UDR é presidida desde o início dos anos 2000 pelo pecuarista Luiz Antônio Nabhan Garcia, atual Secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura. Nabhan Garcia comandou a organização até o ano passado, quando se licenciou para ser o responsável pela reforma agrária no Brasil, além da demarcação de terras indígenas e quilombolas. O secretário do governo Bolsonaro chegou a ser investigado pela contratação de pistoleiros nos anos 2000, mas nunca foi indiciado.

Sanches diz não ter conhecido Nabhan Garcia, mas ambos atuaram na mesma época na UDR. Enquanto o pistoleiro organizava milícias armadas na margem paranaense do rio Paranapanema, Nabhan atuava do lado paulista do rio, no Pontal do Paranapanema, em Presidente Prudente.

“Levavam a gente para uma beira de rio, uma fazenda lá no Mato Grosso. A gente ficava lá 8, 10 dias fazendo treinamento, aprendia como manejar uma arma. Eu ia”, recorda Sanches sobre o treinamento organizado pela UDR com os pistoleiros contratados por ele.

Quem financiava a UDR, segundo Sanches, eram os fazendeiros – que recorriam à organização para retirar à força os sem-terras das fazendas ocupadas.

No episódio pelo qual o pistoleiro foi condenado, cerca de 30 homens encapuzados e armados chegaram ao acampamento do MST na fazenda Boa Sorte, em Marilena (PR), e ordenaram que os trabalhadores rurais ficassem deitados no chão, com a cabeça virada para baixo. Sebastião Camargo, de 60 anos, tinha problemas na coluna e não se abaixou. Foi assassinado com um tiro de espingarda calibre 12 na cabeça. Era pai de cinco filhos.

Sanches diz que não tinha a intenção de matar e que não foi ele quem atirou. “Eu peguei o Sebastião, coloquei no carro e levei para o hospital”, recorda. Quatro testemunhas que prestaram depoimento durante a ação penal afirmaram que o responsável pelo disparo que matou Sebastião foi feito pelo então presidente da UDR, Marcos Prochet.

A tese de que Prochet foi o autor dos disparos foi defendida pela acusação e acatada pelos dois júris que condenaram o ex-presidente da UDR pela execução do crime. O primeiro, ocorrido em 2013, o condenou, mas foi anulado em 2014. O segundo júri, de 2016, foi novamente anulado em novembro de 2018.

Já Sanches, chefe dos pistoleiros, é condenado por homicídio qualificado e constituição de empresa de segurança privada utilizada para recrutar pistoleiros e executar despejos ilegais. Em sua defesa, diz que não era o responsável pelo armamento e que sempre dizia a seus homens: “não é para atirar em ninguém, não é para machucar ninguém”. Sanches também não se considera pistoleiro: “Eu era segurança. Esse termo de pistoleiro quem colocou foi o MST”.  Os advogados da família do sem-terra executado voltaram a pedir a sua prisão.

Ele está livre há tanto tempo que chegou a se esquecer que é condenado. Quando foi votar, no ano passado, foi impedido, pois de acordo com a legislação a sentença criminal suspende os direitos políticos. “Os mesários falaram para que eu fosse ao cartório. Aí eu lembrei [que era condenado]”, recorda.

Hoje com 63 anos e avô de quatro netos, Sanches chegou a ajuizar uma ação pedindo reconhecimento de vínculo trabalhista com a UDR, onde trabalhou por três anos, entre 1998 e 2001. Não teve sucesso. “O juiz entendeu que não tinha vínculo trabalhista pois a profissão do Osnir não era lícita”, disse o advogado dele na causa, Jurandir Domingos Terra.

Articulação política

Como Sanches, Nabhan Garcia também foi investigado por ter comandado milícias e pistoleiros pela UDR. Ao contrário do pistoleiro, porém, o secretário do governo Bolsonaro nunca foi  indiciado.

Nabhan foi acusado de participar da contratação e do treinamento dos pistoleiros que feriram oito sem-terras a bala em 1997, durante ação da UDR para desocupar uma fazenda em Sandovalina (SP). A acusação foi feita pelo fazendeiro Manoel Domingues Paes Neto, em depoimento à Polícia Federal anos depois do episódio. A denúncia chegou até a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Terra (CPMI da Terra).

O relatório final da comissão pedia o indiciamento de Nabhan Garcia e de outros fazendeiros pelos crimes, mas a articulação política de deputados da bancada ruralista como o Alberto Lupion (DEM-PR), que foi relator da CPMI, e Onyx Lorenzoni (DEM-RS), vice-presidente da comissão, conseguiu alterar o relatório final e livrar o atual secretário. Lorenzoni é atualmente ministro da Casa Civil e Lupion assessor especial da mesma pasta no governo Bolsonaro.

“Nem eu e nem a UDR nunca fomos condenados”, afirmou o secretário Nabhan Garcia à Repórter Brasil. Ao ser questionado sobre a morte de Sebastião Camargo e a condenação de Osnir Sanches, que trabalhou para UDR , o secretário ficou irritado e desligou o telefone.

Quando Nabhan Garcia depôs na CPMI da Terra, em 2004, disse que desconhecia qualquer tipo de milícia no Brasil. “Milícia armada, realmente não conheço e não quero conhecer. A única milícia que conheço é o MST”.

A Repórter Brasil entrevistou um dos integrantes do MST que enfrentou as milícias armadas da UDR no Pontal do Paranapanema. Ele pediu para não ser identificado por medo de represálias e afirma que a atuação de Nabhan Garcia começou em 1994, agenciando a contratação de pistoleiros no Mato Grosso para enfrentar o movimento. Nabhan Garcia, segundo o militante do MST, fazia a articulação entre os fazendeiros e promovia leilões de gado para arrecadar dinheiro para a compra de armas.

Os conflitos entre UDR e MST eram intensos no Pontal do Paranapanema quando Nabhan assumiu a presidência da entidade. Em 2003, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu um grupo de integrantes sem-terra em Brasília e, ao final do encontro, posou para fotos com um boné vermelho do movimento.

No mesmo dia, 15 fazendeiros mascarados exibiam suas armas em foto publicada na capa do jornal O Estado de São Paulo. O fazendeiro Paes Neto, que já havia sido  preso, afirmou à Polícia Federal que era Nabhan Garcia. A afirmação foi posteriormente negada pelo fazendeiro, durante audiência no Senado.

Passados 16 anos, Nabhan Garcia ostenta um chapéu de fazendeiro ao lado do presidente Jair Bolsonaro na fotografia que usa no perfil de Whatsapp. A proximidade com o chefe e o poder concentrado na Secretaria Especial de Assuntos Fundiários conferem ao ruralista o status de 23° ministro.

A reforma agrária da UDR

Foi na presidência da UDR que o ruralista começou a se aproximar do então deputado Jair Bolsonaro. “Desde quando o Bolsonaro entrou no Congresso eu acompanho ele, que mesmo não sendo produtor rural sempre defendeu o setor produtivo”. Em 2018, Nabhan Garcia se empenhou na campanha do atual presidente, ciceroneando o então candidato por feiras agropecuárias e em encontros com empresários rurais.

Com menos de três meses de governo, o secretário prepara uma série de ações que afetam o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e dispara uma metralhadora de frases de efeito. Já disse em entrevistas que não dorme sem estar armado, que os maiores latifundiários do Brasil são os indígenas e que as escolas do MST são “fabriquinhas” de ditadores.

A condução da reforma agrária no governo Bolsonaro, até o momento, é um espelho do pensamento dos ruralistas. Desde janeiro, nenhum imóvel foi desapropriado e nenhum assentamento foi criado, de acordo com o Incra.

Sob o guarda-chuva de Nabhan Garcia, o Incra passou a ser presidido pelo general João Carlos Jesus Corrêa, que no início do ano suspendeu todos os processos de reforma agrária, conforme revelado pela Repórter Brasil. Diante da repercussão negativa, o governo recuou. Outra medida do instituto foi proibir o diálogo com entidades como o MST. Três dias depois houve novo recuo, após recomendação contrária do Ministério Público Federal que apontou uma série de ilegalidades na medida.

Sob Nabhan, o Incra criou ainda um grupo de trabalho para reduzir cargos e reformular sua estrutura, possivelmente cortando superintendências em regiões com histórico de conflitos no Pará.

Para o membro da coordenação-geral do MST, Alexandre Conceição, o processo de paralisação da reforma agrária começou no governo de Michel Temer com a política de emissão de títulos individuais em detrimento da política de criação de assentamentos.

Agora, sob a gestão de Nabhan Garcia, a avaliação do dirigente do MST é que a política do governo Bolsonaro vai aumentar a paralisação e os conflitos serão inevitáveis no campo. “Somos contra a violência, pois na guerra só morrem os pobres”, afirma. “Você já viu massacre de latifundiário?”.

“A reforma agrária não combina com o pensamento dos membros do governo. Eles entendem que os movimentos sociais são bandidos e agressores”, avalia a ex-ouvidora agrária Nacional, Maria de Oliveira, que mediou conflitos entre Nabhan Garcia e o MST no Pontal do Paranapanema.

‘Favelas rurais’

Nabhan Garcia explicou à Repórter Brasil que o plano do governo para a reforma agrária é transformar assentados em “produtores rurais de fato”. Segundo ele, grande parte dos assentamentos são ociosos, irregulares ou viraram “favelas rurais”.

“A reforma agrária foi feita de forma ideológica e política. Não foram obedecidos critérios para trazer, para os assentamentos, as pessoas que têm perfil de produtor rural”, afirma. Um “pente-fino” está sendo feito, segundo ele, para identificar os assentados que estão produzindo. “Não dá para ficar na ociosidade e transformar a reforma agrária em um comércio de lotes”.

O secretário do governo reafirma que não conversa com o MST. “Não vou aceitar viés ideológico de quem invade propriedade. O Brasil não é uma republiqueta. Quem invade propriedade comete crime”, avalia.

Enquanto Nabhan Garcia implementa a política da UDR em todo o país, Sanches reclama que está abandonado pela instituição, com problemas de saúde e sem dinheiro. Se diz arrependido. “Eu errei”. Quando questionado se voltaria a atuar como pistoleiro, ele diz: “Se me chamarem de novo, eu jamais voltaria a fazer esse tipo de serviço, mas se eu tivesse a oportunidade entraria para o lado do MST”.

Daniel Camargos
No Repórter Brasil
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Contos de Carochinha fascistas


O governo de Jair Messias Bolsonaro quer rivalizar com os irmãos Jacob Grimm e Wilhelm Grimm, papas do Conto de Fadas Infantil. Só quem acredita em Chapeuzinho Vermelho – vermelho, olha a mensagem subliminar! – e o Lobo Mau pode crer que Augusto Pinochet e Algredo Stroessner, cada um “mito ao seu tempo”, foram estadistas de seus países, Chile e Paraguai, e não ditadores sanguinários, partes das penas do Condor que abriu as asas sobre a América do Sul nos terríveis anos de chumbo. Da mesma forma, a ditadura brasileira, por essa leitura, foi um passeio no parque, com palhaços como o Tio Brilhante Ustra, alegrando as noites nos porões de brasileiras e brasileiros por 21 anos. Não houve ditadura, nem golpe de Estado, embora já o tenham admitido, em seus textos e memórias, os próprios generais-presidentes e, fora engano, até o tarólogo amador Olavo de Carvalho, o drugstore cowboy de Richmond cujas taras ainda vão render muitas horas de análise – nem que seja a nossa. Sem eletrochoque dessa vez, por favor.

Bolsonaro vai a Israel, desdenha dos povos árabes, que, promete, vai encaixar na “agenda” ainda no semestre, e de quebra ajuda a campanha eleitoral de “Bibi” Netanyahu – teria o Capitão sugerido um atentado com uma adaga como último recurso? – e volta repetindo as barbaridades de seu chanceler, o olavista “Ernie” Araújo. O Holocausto foi um movimento da espertalhona esquerda, sempre esquiva, e não, como sabe qualquer colegial judeu, do nazi-fascismo, movimento da extrema-direita européia. Dizer que é um movimento de extrema esquerda, que também produziu catástrofes, é falsificar a história. Como espalhar uísque vagabundo pelos livros. Lei Seca nesses historiadores de plantão! O assassinato de 6 milhões de Judeus durante a Segunda Guerra Mundial não foi uma dessas catástrofes “esquerdistas”. Leiam, meus senhores. Tipo “Anne Frank”, da própria, e “Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt, por exemplo.

E quem faltava se juntar aos bandoleiros da história? Os opus monarquistas, que estão aproveitando a inútil data de 130 anos do regime no país para mandar os sobreviventes da antiga família real portuguesa fazer seu lobby reacionário, começando pelo santo Congresso Nacional, em Brasília. Bisneto da Princesa Isabel, o líder monarquista Dom Bertrand – o termo soa estranho, eu sei – nome completo Bertrand Maria José Pio Januário Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança – ufa! -, já agendou reuniões com parlamentares recém-empossados, como mostraram portais como a BBC. Piada de bar nos anos petistas, agora eles são levados a sério e até bajulados nos salões do poder numismático. E, vejam só que andou reclamando de Alexandre Frota, o Rei do Pornô Homoerótico, tem até um sobrinho real, o deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL, claro, SP, claro). Defendem simplesmente a restauração da monarquia, sem nos apresentar uma Lady Di à altura, e dirigem a entidade que sucedeu a TFP – um certa IPCO, ou Instituto Plínio Corrêa de Oliveira. Mais ou menos como defender o nazismo e ter espalhados por nichos skin heads filiais da FAH, a Fundação Adolf Hitler.

Sim, você adivinhou, se existe bancada da bala, da grilagem (“agronegócio”), da terra plana (“neopentecostais”), dos planos de saúde (da “saúde”), da Taurus (do “direito à defesa da vida”), do tabaco (ave, Sergio Moro, que quer baixar impostos e preços dos cigarros mais cancerígenos), obviamente existe a bancada da coroa. Em 1993, a restauração da monarquia no Brasil foi rejeitada em plebiscito, tendo recebido o apoio de 13,4% dos eleitores. Outros 86,6% endossaram a manutenção da República. Mas e daí? Uma vez monarquista, sempre monarquista, professando, claro, da oposição ao casamento gay, o fim das demarcações de terras indígenas e a proibição do aborto em qualquer circunstância. A volta da escravatura ainda parece ser um tema polêmico, mas nada que não se debata no Congresso de hoje. Entre os monarquistas declarados, o ministro-zumbi da Educação, Ricardo Vélez Rodrigues, a deputada “toda ruiva” Carla Zambelli (PSL-SP) e o assessor da Presidência para assuntos internacionais, Filipe Martins. Ou vocês acham que a alternativa da extrema-direita a Bolsonaro é Mourão? Tolinhos. Arranjem logo uma coroa.

Ricardo Miranda
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Israel é uma democracia?


Breno Altman apresenta a política de Israel nesta edição do programa #20Minutos. As raizes coloniais e teocráticas. A marginalização dos territórios ocupados. As restrições contra os árabes-israelenses. A ofensiva contra os partidos árabes e da esquerda antissionista. A aliança entre a direita laica e o fundamentalismo religioso.

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Israel perde o apoio dos judeus norte-americanos

As relações entre o governo de Israel e os judeus dos Estados Unidos estão cada vez mais distantes. Enquanto o primeiro aprofunda sua opção pela extrema direita, os segundos ancoram-se mais e mais no campo progressista, fustigando a ocupação e a colonização – políticas apoiadas pela Casa Branca
A lista de convidados na inauguração da nova embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém, em 14 de maio de 2018, era surpreendente. Ao lado do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, estavam os pastores evangélicos John Hagee e Robert Jeffress. Hagee considera que Adolf Hitler foi o “braço armado de Deus”;1 Jeffress acredita que todos os judeus estão destinados ao inferno. Um e outro animam a corrente mais favorável a Israel na sociedade norte-americana: a dos cristãos conservadores sionistas.2 Sheldon Adelson e Miriam Adelson também estavam presentes. Esse casal de magnatas do setor dos cassinos é o principal doador do Partido Republicano, para o qual contribuiu com US$ 82 milhões em 2016 e com US$ 113 milhões para as eleições de 2018.3 Ambos demonstram apoio inabalável ao governo conservador de Netanyahu. Por exemplo, a senhora Adelson tornou-se recentemente a editora de Israel Hayom, um folheto de propaganda pró-“Bibi” (diminutivo de Benjamin) amplamente financiado por seu marido.

Em contrapartida, o público não incluía judeus progressistas. Estes não tinham sido convidados para a cerimônia. Eles são, no entanto, maioria nos Estados Unidos: nas eleições de meio de mandato de novembro de 2018, três quartos dos eleitores judeus teriam votado num candidato democrata, de acordo com as pesquisas realizadas na boca de urna.

“Os arruaceiros antirracistas”

Donald Trump e Netanyahu não têm em comum apenas o apoio dos cristãos sionistas e do casal Adelson. Ambos gostam de justificar seus fracassos apoiando-se em teorias da conspiração. Eles também se mostram surpreendentemente relaxados diante do crescente antissemitismo na Europa e nos Estados Unidos. Em agosto de 2017, militantes neonazistas desfilavam em Charlottesville gritando: “Não vamos deixar os judeus nos substituírem”. Um dos manifestantes avançou com seu carro sobre uma multidão de opositores antirracistas e matou uma mulher. Como reação, Trump deu as costas a ambos os lados, explicando que as reuniões de extrema direita contavam também com “pessoas muito boas”. Por seu lado, o primeiro-ministro israelense esperou três dias antes de reagir e depois se contentou com um tuíte lacônico que nem sequer mencionava o nome do presidente norte-americano. Ele preferiu deixar para seu filho o cuidado de se dirigir à sua base política, como Trump por vezes faz com sua filha ou seu genro. Os neonazistas “pertencem ao passado. Sua raça está em via de se extinguir”, assegurou então Yair Netanyahu nas redes sociais. “Por outro lado, os arruaceiros antirracistas e aqueles do Black Lives Matter que odeiam meu país (e os Estados Unidos também, na minha opinião) estão se tornando cada vez mais fortes e começando a dominar as universidades e a vida pública norte-americanas.”

Mais recentemente, enquanto um admirador fanático de Trump acabava de assassinar onze judeus em uma sinagoga de Pittsburgh, em 27 de outubro de 2018, representantes do governo israelense se dirigiram precipitadamente ao local do crime sem terem sido convidados. Recusando-se a atribuir qualquer responsabilidade pelo evento à retórica cheia de ódio do presidente norte-americano, eles acusaram mais uma vez a esquerda. Naftali Bennett, ministro da Diáspora e da Educação, chefe do Lar Judaico, um partido nacionalista ultrarreligioso, refutou – sem fornecer a mínima prova – as estatísticas da Liga Antidifamação sobre a ascensão do antissemitismo de extrema direita desde a entronização de Trump. O cônsul-geral de Israel em Nova York, Dani Dayan, invocou, por seu lado, o antissemitismo (imaginário) do líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn. Essas declarações tomavam o caminho oposto da marcha silenciosa organizada pela comunidade judaica de Pittsburgh em sinal de protesto contra Trump. Elas também contradizem as palavras de Jeffrey Myers, o rabino da sinagoga visada, em um sermão curto em 3 de novembro: “Senhor presidente, discursos de ódio levam a atos de ódio. Discursos de ódio levam a isso que aconteceu no meu santuário”.

Todas as pesquisas recentes mostram:4 o fosso se aprofunda entre os judeus israelenses, que levaram ao poder um governo próximo da extrema direita, e seus correligionários norte-americanos, sempre mais próximos do lado progressista. Uma maioria de israelenses odiava Barack Obama; hoje eles adoram Trump e votam em partidos que apoiam a colonização e a ocupação sem fim da Cisjordânia. Por outro lado, uma grande proporção de judeus norte-americanos apoiava Obama e denunciava a colonização.

Soldados e fundadores de kibutzim

Estes últimos estiveram por muito tempo divididos entre o progressismo político e o desejo de apoiar Israel. Antes de 1948, a ideia de que um “povo” judeu deveria se encarnar por meio da fundação de um Estado estava longe de ser evidente nos Estados Unidos. Ela desagradava particularmente aos judeus abastados que tinham imigrado da Alemanha, muito influentes nos círculos intelectuais: com frequência membros de congregações reformistas, eles desconfiavam do sionismo porque consideravam o judaísmo principalmente uma religião e não queriam que se pudesse colocar em dúvida seu patriotismo. Depois de 1945, no entanto, sua relutância foi varrida pelo genocídio. Os judeus muito religiosos e tradicionalistas também rejeitavam o sionismo, convencidos de que o advento de um reino hebreu era responsabilidade de Deus, não dos homens.

Nas três décadas seguintes, instalou-se a unanimidade no que se referia ao apoio a Israel. Judeus norte-americanos que podiam falar ao público – jornalistas, intelectuais, líderes políticos, artistas etc. – começaram a celebrar insistentemente o novo Estado, relegando à margem as poucas vozes dissonantes, como as do linguista Noam Chomsky ou do jornalista independente Isador Feinstein Stone (falecido em 1989). Durante essas décadas, ambos continuaram a criticar o tratamento dado por Israel à sua minoria árabe, assim como sua absoluta recusa em buscar uma solução para a situação dos refugiados palestinos.5

A vitória israelense de 1967 constituiu um motivo para celebrações intensas e até de júbilo para os judeus norte-americanos. Assustados com os discursos do presidente egípcio à época, Gamal Abdel Nasser, contra Israel, eles temiam a perpetração de um “segundo Holocausto”. Portanto, viram com bons olhos o esmagamento dos exércitos árabes. “[A Guerra dos Seis Dias] uniu os judeus norte-americanos de uma forma nunca antes vista e deu origem a um envolvimento por parte de muitos judeus que antes não se importavam”, escreveu o rabino Arthur Hertzberg dois meses após o fim do conflito. “Nenhum termo da teologia ocidental permite explicar esse fenômeno. A maioria dos judeus experimenta essas emoções sem saber como defini-las […]. Pode ser que Israel sirva como um catalisador da lealdade emocional em relação ao judaísmo e permita, assim, conservar o senso da identidade judaica”.6 No entanto, uma minoria de judeus, em boa parte jovens simpatizantes de esquerda, escapou dessa tendência, sem dúvida por aderir à leitura revolucionária segundo a qual a Palestina, o Vietnã, a Argélia, Cuba e até a América negra faziam parte da mesma luta anti-imperialista. Mas essa posição quase não tinha ressonância política. Ela não contava com nenhum representante nas organizações profissionais judaicas nem nas sinagogas, muito menos no Congresso ou na Casa Branca.

O vento começou a mudar em 1977, quando o Likud, então liderado por Menachem Begin, pôs fim ao longo domínio dos trabalhistas em Israel. As grandes figuras do Partido Trabalhista posavam de heróis na comunidade judaica norte-americana. Soldados, universitários e fundadores de kibutzim pareciam capazes de “fazer florescer o deserto” com uma das mãos e defender seu país com a metralhadora na outra. Mas Begin estava muito distante desse ideal. Seu formalismo arcaico, sua incapacidade de considerar os árabes com benevolência – ele os via como um povo atrasado – e seu apoio sistemático aos colonos colocaram fim à longa lua de mel entre seu país e os judeus norte-americanos.

A invasão do Líbano por Israel em 1982 e o massacre dos campos de refugiados de Sabra e Shatila acentuaram ainda mais o rompimento. Pela primeira vez nos Estados Unidos, a grande mídia tratou os eventos de uma forma desfavorável aos israelenses. Em uníssono com vários rabinos de renome, o New York Times condenou o cerco de Beirute durante o verão de 1982. Como Anthony Lewis, jornalistas que se proclamavam judeus, influenciados pelo livro A questão palestina, publicado por Edward W. Said em 1979, multiplicaram os fóruns para defender a causa palestina. Jornais progressistas (The Nation e The New York Review of Books, por exemplo) começaram a se confrontar com publicações conservadoras alinhadas à direita israelense, como The New Republic, então liderado por um apoiador incondicional de Israel, Marty Peretz, e Commentary, revista pertencente ao American Jewish Committee, então editada pelo neoconservador Norman Podhoretz. A estreita cooperação de Tel Aviv com a África do Sul e com várias ditaduras latino-americanas – particularmente nos campos militar e de inteligência – acabou por desiludir muitos judeus norte-americanos progressistas.

Em nome do apoio a Israel e de seus próprios interesses econômicos, os judeus neoconservadores muitas vezes tentaram persuadir seus correligionários a desistir do voto democrático. Ansioso por colocar seus compatriotas de volta nos trilhos, Podhoretz perguntava em 2008 em Commentary: “Por que os judeus são progressistas?”7 – uma pergunta já formulada por Milton Himmelfarb na mesma revista em 1967. Segundo ele, essa sensibilidade resultava de um problema de compreensão: os judeus norte-americanos teriam dificuldade em entender seu lugar na sociedade e seriam incapazes de reconhecer os verdadeiros amigos de Israel. Em 2012, a Republican Jewish Coalition, organização judaica conservadora, lançou uma campanha de comunicação chamada “Meus remorsos”, financiada por Adelson e destinada a convencer os judeus norte-americanos a se voltarem para o Partido Republicano. Mas, novamente, a tentativa não alcançou nenhum sucesso.

Rejeição em massa à colonização

Em 2013, o Departamento Religião e Vida Pública do Centro de Pesquisas Pew publicou a maior pesquisa já realizada entre judeus norte-americanos (3.500 entrevistas qualitativas, 70.000 questionários preenchidos por computador…).8 Para definir sua identidade coletiva, a esmagadora maioria dos entrevistados citou uma combinação de fatores: práticas religiosas, senso de pertencimento à comunidade, valores humanísticos, disposição de manter a memória do Holocausto, simpatia por Israel, ou mesmo alimentação e senso de humor. Mas ninguém mencionou o apego às políticas conservadoras ou à colonização israelense. Além disso, o apoio a Israel está diminuindo ano a ano, especialmente entre os judeus de 18 a 29 anos.

De maneira mais geral, o Pew Center trouxe à luz uma reversão completa dos simpatizantes democratas. Em 2001, 48% deles apoiavam Israel, em comparação com 18% que disseram ser a favor dos palestinos. Agora, são 35% a apoiar os palestinos, em comparação com 19% para Israel.9 Organizações dirigidas por jovens judeus norte-americanos, como IfNotNow e J Street U (o ramo universitário da J Street), reúnem pessoas que odeiam a ocupação e a colonização pelo menos tanto quanto amam Israel. Leitoras do diário esquerdista israelense Haaretz, elas esperam cooperar com grupos de defesa de direitos humanos e de crítica à ocupação, como Breaking the Silence, The New Israel Fund, B’Tselem, Molad, Peace Now, e a publicação on-line +972.

O governo de Netanyahu, no entanto, parece pensar que pode prescindir do apoio dos judeus e dos progressistas norte-americanos, que às vezes considera traidores, e se contentar com o de Trump e da extrema direita de uma boa parte do mundo.

Eric Alterman é jornalista.

1 Citado em David Usborne, “McCain forced to ditch pastor who claimed God sent Hitler” [McCain forçado a abandonar o pastor que alegou que Deus enviou Hitler], The Independent, Londres, 24 maio 2008.


2 Ler Ibrahim Warde, “Il ne peut y avoir de paix avant l’avènement du Messie” [Não pode haver paz antes da vinda do Messias], Le Monde Diplomatique, set. 2002.


3 Devin O’Connor, “Casino tycoon Sheldon Adelson threatens to cut off Republican Party following midterm losses” [Magnata dos cassinos, Sheldon Adelson ameaça cortar o Partido Republicano depois de derrotas nas eleições de meio de mandato], Casino.org, 5 dez. 2018.


4 Cf., sobretudo, William A. Galston, “The fracturing of the Jewish people” [A fratura do povo judeu], The Wall Street Journal, Nova York, 12 jun. 2018.


5 A criação de Israel em 1948 foi acompanhada pelo êxodo de mais de 700 mil refugiados palestinos. Ler Micheline Paunet, “La naissance de la question des réfugiés” [O nascimento da questão dos refugiados]. In: “Palestine. Un peuple, une colonisation” [Palestina. Um povo, uma colonização], Manière de Voir, n.157, fev.-mar. 2018.


6 Citado em Edward S. Shapiro, A Time for Healing: American Jewry since World War II [Um momento para curar: judeus norte-americanos desde a Segunda Guerra Mundial], Johns Hopkins University Press, Baltimore, 1992.


7 Norman Podhoretz, Why Are Jews Liberal? [Por que os judeus são liberais?], Random House, Nova York, 2009.


8 “A portrait of Jewish Americans” [Um retrato de judeus norte-americanos], Pew Research Center, Washington, DC, 1º out. 2013.


9 “Republicans and Democrats grow even further apart in views of Israel, Palestinians [Republicanos e democratas ficam ainda mais distantes quanto às formas de encarar Israel, palestinos], Pew Research Center, 23 jan. 2018. Disponível em: www.people-press.org

No Le Monde Diplomatique
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Trágico, Fraude, Devastador, Mentira, Vergonha... Repercussão da passagem de Bolsonaro por Israel


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Lava Jato: acordo da JBS é diferente da fundação da Petrobras


O GGN teve acesso ao acordo da Lava Jato a JB há algumas semanas. Decidimos não publicar nenhum post por não ter relação com o acordo da Petrobras com o Departamento de Justiça dos EUA.

No acordo com a JBS o dinheiro ficará depositado em algumas instâncias e só será liberado para aquelas ações transitadas em julgado, na qual se comprove o dano cometido pela empresa contra terceiros. Ou seja, a liberação se dará de forma desconcentrada, de acordo com decisões judiciais.

No caso da Petrobras, a Lava Jato inventou uma fundação de direito privado que ela própria definiria para onde iria o dinheiro. A fundação teria uma estrutura própria, os procuradores indicariam os membros do Conselho e montariam a grande derrama, apropriando-se de recursos que deveriam ir para um fundo de direitos difusos já existente.

Portanto, são bichos diferentes. A imoralidade está apenas no acordo celebrado com o DoJ e a Petrobras.

Luís Nassif
No GGN
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Deputada do Escola Sem Partido cobra diárias da Assembleia de SC em campanha de lançamento de seu livro

Ana Campagnolo segura livros sobre feminismo
A deputada estadual Ana Caroline Campagnolo (PSL) cobrou diárias da Assembleia Legislativa em datas que coincidem com o lançamento do livro “Feminismo: Perversão e Subversão” em cidades do interior do Estado. Cruzando informações da agenda disponibilizada pela própria deputada e do Portal da Transparência do Legislativo, é possível constatar pelo menos seis casos, nas cidades de Chapecó, Criciúma, Fraiburgo, Guaramirim, Itajaí e Itapoá. A deputada negou que tenha cometido irregularidades.

Considerando a agenda da deputada, em todos os lançamentos realizados em Santa Catarina, há coincidência com a emissão de diárias por parte da Assembleia.

O mais recente foi na segunda-feira (1), em Criciúma. Ana cobrou meia diária, no valor de R$ 335. Um assessor também tirou meia diária, para a mesma data e local, no valor de R$ 210.

A partir da repercussão nas redes sociais, a coluna apurou que o caso não é isolado. Em 25 de março, Ana solicitou meia diária para ir a Itapoá, onde lançou o livro na mesma data.

Dos dias 10 a 12 de março, Ana pediu duas diárias, ao custo de R$ 1.340, para roteiro em Campos Novos, Fraiburgo, Lages e Lebon Régis. O livro foi lançado dia 10, em Fraiburgo.

Em 1º de março, Ana lançou o livro em Guaramirim. No mesmo dia, consta a cobrança de meia diária para o deslocamento à cidade.

Entre 21 e 24 de fevereiro, Ana esteve em Águas de Chapecó, Chapecó e Xanxerê. Para tal, cobrou três diárias, no valor de R$ 2.010. No dia 23, lançou livro em Chapecó.

O primeiro caso em que batem as datas de lançamento e a cobrança de diárias foi em 15 e 16 de fevereiro, em Balneário Camboriú e Itajaí. Para tal, a Assembleia desembolsou R$ 1.005. O livro foi lançado dia 16, em Itajaí.

Assim como em Criciúma, as viagens a Guaramirim e ao Oeste também foram acompanhadas por um assessor, que tirou diárias proporcionais à deputada.

A justificativa para a cobrança de diárias é genérica, como de praxe entre todos os deputados. Entre os motivos estão “reunião de serviço”, “reunião/visita com lideranças/entidades”, “representação do Poder Legislativo” e “visita a Prefeituras/Câmaras de Vereadores”.

A deputada também está realizando eventos de lançamento do livro fora do Estado. Para esses roteiros, não há registro da cobrança de diárias.

Deputada nega irregularidade no uso das diárias; ouça

Em entrevista por telefone, na noite desta quinta-feira (4), Ana Campagnolo afirmou que em todas as datas cumpriu agenda com atribuições de deputada e que os lançamentos de livro foram feitos após o encerramento do expediente. “As diárias não são pegas para o lançamento do livro, mas para agendas no município”, afirmou. “Se eu considerasse errado, eu não faria. Até porque, eu não sou petista, não sou de esquerda para usar o dinheiro público muito mal gerenciado”, acrescentou.

A entrevista, cujo áudio está disponível na íntegra a seguir, é permeada por ataques da deputada ao ND e aos jornalistas em geral. “Se quiser colocar da minha hostilidade contra o teu jornal ficaria muito satisfeita”, completou. Ela voltou a repetir que jornalistas são canalhas.



No trecho que não está na gravação, me identifico como jornalista e pergunto se ela poderia conceder uma entrevista. A deputada responde “depende”. Na parte inaudível, Ana critica o trabalho da imprensa e do ND, como repete em outros pontos da conversa.

A resenha do livro, vendido em média por R$ 61,50
  • “Neste livro, a historiadora e professora Ana Caroline Campagnolo revê a trajetória do feminismo, confrontando as alegadas motivações e supostas conquistas do movimento com suas reais conseqüências na história cultural do Ocidente e – em especial – do Brasil. Em vez de adotar a periodização consagrada que divide a história do feminismo em três ‘ondas’, Campagnolo identifica cinco fases que marcaram o desenrolar desse movimento de traços ideológicos. Essas etapas remontam ao século XV e se estendem até os nossos dias, ‘em que se vê ameaçada a civilização que nossos antepassados levantaram a peso e ouro e esforço de sangue’.”

Altair Magagnin
No DCM
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Outra pesquisa comprova: Aprovacão de Bolsonaro continua em queda e reprovação em alta


O presidente Jair Bolsonaro enfrenta uma deterioração na sua taxa de aprovação, segundo revela pesquisa Ipesp divulgada nesta 6ª feira (5.abr.2019) pela XP Investimentos.

Embora as variações tenham sido dento da margem de erro do levantamento, realizado de 1 a 3 de abril, as curvas de aprovação e reprovação mostram nitidamente uma trajetória ruim para Bolsonaro a partir de fevereiro.

Em fevereiro ele era aprovado por 40% dos que responderam à pesquisa do Ipesp. Depois, em março, oscilou para 37%. Agora, está em 35%.

Como se observa, são pequenas oscilações na margem de erro a cada mês. Se fosse apenas uma pesquisa não seria possível dizer o que se passa. Mas como há uma sequência de estudos realizados com o mesmo levantamento, a tendência fica clara e é possível dizer que houve uma piora.

O mesmo se passa com a reprovação. Em fevereiro, ela era de 17%, passando a 24% em março. Em abril, ela atingiu 26%, oscilação dentro da margem de erro, mas que confirma a trajetória de alta no indicador. A proporção dos que consideram o governo regular, 32%, se manteve entre março e abril. A margem de erro é de 3,2 pontos percentuais.

Eis outros dados revelados pela pesquisa:

confiança nas instituições: as instituições que desfrutam da menor confiança ainda são os partidos políticos. Cerca de 89% dizem não confiar neles. Em oposição, as forças armadas são a instituição com o maior nível de confiança: 66% dizem que podem confiar nelas.

previdência: oscilou 3 pontos para baixo a percepção da população de que a reforma é necessária, embora a maior parte continue defendendo a mudança. Em março 64% concordavam com a afirmação de que é preciso fazer uma reforma da Previdência. Em abril, eram 61%.

nova política: 55% dos entrevistados responderam que o Brasil vive uma “nova política”. Do outro lado, 39% não concordam com essa interpretação
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