27 de mar de 2019

Juíza enquadra Bolsonaro e dá 5 dias para ele explicar “celebração” do golpe


A juíza federal Irani Silva da Luz, da 6ª Vara Cível em Brasília, deu cinco dias de prazo para que a União e o presidente Jair Bolsonaro se manifestem sobre ação que tenta proibir quartéis, em caráter liminar, de festejar o aniversário de 55 anos do golpe de 1964.

O processo foi movido nesta terça (26) pelo advogado Carlos Alexandre Klomfahs e o pedido é idêntico ao feito, algumas horas depois, pela Defensoria Pública da União: obrigar as unidades militares a se absterem de celebrar o movimento golpista, que deu início à ditadura militar (1964-1985).

Diante do prazo aberto pela juíza, é improvável que uma decisão seja tomada antes do próximo domingo, 31 de março, aniversário do golpe que depôs o então presidente João Goulart e implantou o governo autoritário.

Em despacho nesta terça (26), a magistrada determinou a intimação dos requeridos para que se pronunciem em cinco dias, a partir da notificação.

Segundo ela, é “imprescindível a oitiva preliminar dos réus, em homenagem aos princípios do contraditório e da ampla defesa”.

A juíza ainda não despachou no processo aberto pela Defensoria Pública da União. Nesta quarta, integrantes do órgão vão pedir a ela que decida com mais celeridade, antes do domingo, para que não haja “prejuízo ao objeto da ação”.

O defensor público Alexandre Mendes argumenta que a União já está ciente da ação, tanto que apresentou uma petição na terça (26) com pedido para se manifestar.

Consultada, a AGU (Advocacia-Geral da União) não se pronunciou sobre o caso.

As ações na Justiça foram apresentadas após o porta-voz da Presidência, general Otávio Rêgo Barros, afirmar na segunda (25) que o presidente, capitão reformado do Exército, determinou ao Ministério da Defesa que seja comemorado o 31 de março nos quartéis.

No Blog da Cidadania
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Cara a cara com colombiano da Educação, Valente pede sua renúncia: sem preparo para o cargo


O deputado Ivan Valente (PSOL-SP) bateu duro no ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, durante uma audiência na Câmara; "Não sei o que segura Vossa Excelência no cargo. O que o brasil precisa é de um ministro da Educação e esse não é o senhor. E eu peço a sua renúncia pública. Não pelo Twitter Vossa Excelência não tem preparo para o cargo, não sabe o que é gerir a pasta da Educação", disse; assista ao vídeo:


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“Nós vamos aí comer vocês”, diz desembargador catarinense a juízas em vídeo com Leonardo


O Tribunal de Justiça de Santa Catarina anunciou nesta terça-feira (26) que vai pedir explicações a um desembargador que enviou um vídeo com declarações de conotação sexual e machista a um grupo de juízas. Na gravação que circula pelas redes sociais, o desembargador Jaime Machado Junior aparece ao lado do cantor Leonardo. Depois de citar o nome de cinco magistradas às quais dirigiu o vídeo, ele mostra a elas que está acompanhado do cantor, que manda beijos para elas. Em seguida, o desembargador diz: “Nós vamos aí comer vocês. Ele segura e eu como”. Os dois gargalham na sequência. O Congresso em Foco suprimiu o som no momento em que ele diz o nome das juízas.



Depois que o vídeo vazou, o desembargador divulgou uma gravação na qual afirma que tudo não passou de uma “brincadeira” com amigas juízas do município de Lages (SC). Ele pede desculpas se, “eventualmente”, ofendeu alguém ou “se tiver outra interpretação”. Jaime diz ainda que é uma pessoa “irreverente”.

Assista o vídeo:



Na tarde de hoje fui surpreendido com a veiculação de um vídeo em que apareço ao lado do cantor Leonardo, em um encontro entre amigos, no qual faço comentários dirigidos a algumas colegas magistradas, com as quais possuo laços de amizade já de muitos anos. Inicialmente, quero esclarecer que em nenhum momento tive a intenção de ofender, menosprezar e mesmo agredir as minhas colegas, nem as mulheres em geral.

Reconheço que as colocações foram inadequadas, infelizes e que, de fato, acabam por reforçar uma cultura machista que ainda é latente em nossa sociedade. Assumo os meus erros e com eles procuro aprender. Espero que este episódio sirva de lição não só para mim, mas para todos os homens que tratam um assunto muito sério como se fosse brincadeira.

Cordialmente,

Jaime Machado Júnior, desembargador do TJSC”

No Desacato
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Aliado de produtores de banana no Vale do Ribeira, Bolsonaro faz lobby contra importação da fruta

Pressão do presidente atende interesses familiares; reportagem publicada em outubro pelo observatório mostra que presidente é ligado a um dos fazendeiros da região e que seu cunhado foi condenado por invadir território quilombola


No dia 14, o presidente Jair Bolsonaro negou que sua família tenha vínculos com a produção de bananas do Vale do Ribeira, no sul do estado de São Paulo, onde passou sua infância, no município de Eldorado. O comentário foi feito durante a transmissão semanal ao vivo em sua página no Facebook, em resposta a uma coluna publicada pelo jornalista Janio de Freitas na Folha, no dia 10 de março:

– Nenhum parente meu tem um hectare lá cultivando banana. Não temos climatizadora, minha família não mexe com transporte de banana, nada no tocante a isso.

O colunista afirmou que um sobrinho do presidente é produtor do fruto na região. Isso justificaria uma nova guerra contra a importação de bananas do Equador. O governo decretou a suspensão temporária do comércio em fevereiro.

Em outubro, De Olho nos Ruralistas apurou que o cunhado do presidente, o empresário Theodoro da Silva Konesuk, casado com Vânia Rubian Bolsonaro, foi condenado, em setembro, a devolver uma área pertencente aos remanescentes do quilombo do Bairro Galvão, em Iporanga, município vizinho de Eldorado. O produtor invadiu as terras quilombolas com gado: “Cunhado de Bolsonaro é condenado por invasão de quilombo no Vale do Ribeira”.



CUNHADO TERIA DESTRUÍDO PLANTAÇÃO DOS QUILOMBOLAS

O processo foi iniciado em 2013 pela Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp). Com a condenação do empresário, os quilombolas começaram a plantar banana na área devolvida. Mas líderes relatam que funcionários de Konesuk voltaram ao local e destruíram as cercas e plantações dos agricultores. Por pelo menos treze anos o cunhado de Bolsonaro disputou sua fazenda com a comunidade: antes do processo, ele tentou garantir a posse das terras quilombolas junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Em outra reportagem, o observatório noticiou a condenação de um aliado de Bolsonaro a um ano de reclusão, por crime ambiental. O empresário Valmir Beber, dono da Comércio de Bananas Beber Ltda., candidato derrotado ao cargo de deputado federal pelo PSL nas eleições de 2018, foi acusado de manter uma plantação de bananas em uma área de 19,5 hectares no Parque Estadual Caverna do Diabo, também no Vale do Ribeira. A condenação, em março de 2018, foi substituída por uma pena que obrigou Beber a reparar o dano causado.

Presidente considera que a produção do Brasil é
suficiente para abastecer mercado interno.
Imagem: Jornalistas Livres


O principal cabo eleitoral de Beber foi um dos irmãos do presidente, Renato Bolsonaro, morador do Vale do Ribeira, que participou ativamente de carreatas da campanha, além de gravar vídeos ao seu lado. O próprio Jair Bolsonaro apareceu em imagens apoiando essa candidatura: “Aliado de Bolsonaro é condenado criminalmente por plantar bananas na Caverna do Diabo”. Como descrito na reportagem, Beber recebeu 22.031 votos e não foi eleito por causa da nova cláusula de barreira, dispositivo que exige um mínimo de votos nominais.

Em gravação que traz o apoio de Renato, divulgada no Facebook na página da Comércio de Bananas Beber Ltda. no dia 4 de outubro, três dias antes do primeiro turno, o empresário aparece afirmando que a família Bolsonaro “está ajudando demais a empresa nesta reta final”. Beber disse ainda: “Todos os dias ele cita meu nome”. 

PRESIDENTE FALOU EM ‘FANTASMA DA IMPORTAÇÃO’

Em outra transmissão ao vivo realizada no dia 7 de março, o presidente pediu desculpas aos donos de terra do Vale do Ribeira e afirmou que pretende acabar com o “fantasma da importação de banana” do Equador. Ao lado dos generais Otávio Santana do Rêgo Barros, porta-voz da Presidência, e Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, Bolsonaro disse que não consegue entender como as bananas saem do país sulamericano e “viajam cerca de 10 mil quilômetros” para chegar com preço competitivo ao Ceagesp, o centro de distribuição de hortifrutigranjeiros de São Paulo, dada a quantidade de bananas produzidas no Vale do Ribeira. 

O comércio de bananas equatorianas foi suspenso no dia 26 de fevereiro, por decisão da juíza Luciana Raquel Tolentino de Moura, da 7.ª Vara da Justiça federal, em Brasília, até que sejam realizados estudos sobre a condição sanitária das frutas. Os produtores brasileiros afirmam que o vírus do mosaico das brácteas da bananeira (BBrMC), inexistente na produção brasileira, poderia entrar no país com a importação.

Bolsonaro, porém, sinalizou motivos comerciais, e não sanitários, para a suspensão. Os estudos sobre a presença do vírus nas bananas do Equador estão sendo realizados pelo Ministério da Agricultura (Mapa). No passado, estudos do Mapa, do Equador e dos produtores brasileiros haviam apresentado divergências sobre a presença do vírus. 

Uma das análises apresentadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) mostra que a praga não ocorre nas culturas do Equador, e sim nas das Filipinas, maior exportador de bananas para o Brasil. Isso seria um indicador da baixa probabilidade das bananas equatorianas contaminarem as brasileiras. Mas esse dado diverge de outro da própria Embrapa, que constatou a presença do vírus em quatro províncias do Equador, em 2013. A praga pode causar perdas superiores a 40% das lavouras.

Estudos sobre presença do vírus na banana equatoriana
não são conclusivos.
Imagem: Reprodução/You Tube


O Equador tenta desde os anos 1990 entrar no mercado brasileiro de bananas. Em 1995, uma empresa paraense deu início à importação do produto equatoriano, mas a iniciativa foi denunciada ao governo pela Sociedade Brasileira de Fruticultura. Na denúncia, a organização alegava a presença da doença sigatoka negra nas culturas equatorianas, que causa manchas negras nas folhas e compromete a lavoura. A importação permaneceu em análise entre 2006 e 2007, e o Equador tentou investir novamente na exportação em 2011.

Mais uma vez os produtores brasileiros se posicionaram contrários à iniciativa, alegando que o país é autossuficiente na produção de bananas, com 500 mil hectares de área plantada, produzindo 7 milhões de toneladas anuais do fruto. Mas uma instrução publicada pelo governo em 2017 autorizou finalmente a importação de bananas equatorianas. Em agosto de 2018, a Associação Central dos Fruticultores do Norte de Minas (Abanorte) e a Confederação Nacional dos Bananicultores (Conaban) deram início à tentativa de, por meio da ação civil pública acatada neste ano, derrubar a comercialização.

DISPUTA PELO FRUTO MOBILIZA BOLSONARO DESDE 2014

Em seu pedido de desculpas aos produtores de banana, Bolsonaro afirmou o seguinte: “Acho que estão nos finalmente [sic] os estudos da Tereza Cristina para que esta instrução normativa seja revogada”. Ele se refere à ministra da Agricultura. Durante o ano em que as importações equatorianas foram autorizadas, entraram apenas 61 toneladas do produto no país, 115 toneladas de bananas filipinas e uma tonelada de bananas da França. No mesmo ano, o Brasil exportou 65.527 toneladas do fruto, a grande maioria para Uruguai e Argentina. A principal área produtora é o Vale do Ribeira. 

Bolsonaro vem se pronunciando publicamente sobre a questão das bananas desde 2014, época em que era deputado federal. Em um discurso na Câmara realizado em maio daquele ano, o presidente criticou o PT por defender a liberação do produto. Na época, o político publicou um vídeo em sua conta no YouTube, intitulado “Dilma dá uma banana para o Vale do Ribeira”.

Em novembro, logo após sua eleição, Bolsonaro recebeu em sua casa no Rio amigos da região onde cresceu. Para comemorarem sua eleição, eles levaram bananas. O bananicultor João Evangelista Correia, que se diz amigo de infância do presidente, afirmou na ocasião que Bolsonaro havia prometido regularizar a questão das importações do Equador.

Julia Dolce
No De Olho nos Ruralistas
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Entenda porque a Reforma da Previdência é uma farsa


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Escola Latino-Americana de História e Política oferece cursos voltados para formação de esquerda

Segundo professor, ELAHP busca 'complementar' atividade política de esquerda no Brasil, principalmente depois da crise aberta pelo impeachment da ex-presidente Dilma
A Escola Latino-Americana de História e Política (ELAHP) está com inscrições abertas para cursos de formação voltados para temas progressistas de esquerda. Para o 1º semestre de 2019, a instituição já possui sete cursos programados, que passam por assuntos como o neoliberalismo na América Latina, vida e obra de Rosa Luxemburgo e a história do pensamento marxista no século 19.

A programação completa dos cursos com datas, valores e endereços, bem como informações sobre corpo decente e conteúdo pedagógico, podem ser encontrados no site da escola.

Fundada em 2018, a ELAHP é um projeto educacional que volta sua formação para temas históricos e políticos de esquerda. Ela foi criada e é dirigida de forma autônoma por docentes de diversas áreas do conhecimento.  Apesar da sede da ELAHP ficar em São Paulo, os cursos estão previstos para acontecer em três endereços: dois na capital paulista e um, no Rio de Janeiro.

Professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, Valter Pomar é um dos docentes engajados na criação e coordenação da ELAHP. Segundo ele, a escola busca "complementar" a atividade política de esquerda no Brasil, principalmente depois da crise aberta pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.

"O golpe de 2016, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro, num contexto internacional de profunda instabilidade e crise, colocam a esquerda brasileira diante de imensos desafios. É preciso lutar e organizar mais e melhor. Para isso é preciso formular e estudar e a ELAHP quer contribuir com isto", diz o professor.

Pluralidade

Ao lado de nomes como o professor de direito constitucional da PUC-SP Pedro Serrano, a doutora em geografia pela USP Iole Olíada e o jornalista e fundador de Opera Mundi Breno Altman, Pomar destaca a importância da equipe de professores que fazem parte da ELAHP. "Destaco a pluralidade teórica, a pluralidade política e a diversidade de experiências pedagógicas", diz.

Para Armando Boito Jr., professor titular de ciência política da Unicamp e membro do conselho docente da ELAHP, "o Brasil vive uma conjuntura muito complicada, e a importância da escola é esclarecer os estudantes, os ativistas de movimentos populares, os socialistas, sobre a história da América Latina e sobre a teoria política". Segundo o professor, diante do avanço da direita no continente, a ELAHP "participa na luta de ideias contra os ideais conservadores que estão crescendo na América Latina".

Boito Jr. acredita que o papel da instituição no "esclarecimento e na formação histórica e teórica qualificada faz com que as conquistas democráticas populares avancem no continente latino-americano".

Ainda sobre a importância da ELAHP no contexto latino-americano, o diretor do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), José Reinaldo Carvalho, afirma que a escola tem muito a oferecer inclusive diante da crise que ocorre na Venezuela.

"No caso da Venezuela, a formação é ainda mais débil aqui no Brasil. Há muitas controvérsias dentro de forças que se dizem progressistas que não compreendem o papel de [Nicolás] Maduro", diz Carvalho.

Membro do corpo de professores, o jornalista especializado em relações internacionais afirma que ainda há muito trabalho a ser feito neste campo. "O projeto começou no ano passado e os cursos do primeiro semestre deste ano já estão disponíveis. Temos que ter consciência que o percurso é longo, mas alcançaremos nosso objetivo", diz.

No Fórum
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Novo líder da frente evanjegue na Câmara já foi condenado pela Justiça

Eleito nesta quarta-feira, Silas Câmara, da Assembleia de Deus, é ligado a grupo de mídia evangélica no Norte do país; ele responde por ao menos cinco crimes diferentes

Ele
Silas Câmara (PRB-AM), deputado de sexto mandato eleito presidente da Frente Parlamentar Evangélica na manhã desta quarta, tem denúncias por ao menos cinco crimes diferentes e já foi condenado por alguns deles.

O político foi condenado pelo uso de documento falso e falsidade ideológica pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2016. Em 1997, falsificou documentos para limpar o nome e alterar o contrato de uma empresa de que era sócio. O crime, porém, só foi julgado quando já estava prescrito. Apesar de condenado, a pena de oito anos de prisão não foi cumprida em razão da prescrição.

Em março de 2018, Silas e a esposa, Antônia Lúcia Câmara, foram condenados por improbidade administrativa pela Justiça Federal do Acre. De 2007 a 2010, sua mulher usou o celular corporativo dele para fins pessoais, acumulando um prejuízo de R$ 62 mil aos cofres públicos. Eles recorrem da sentença, que determinou a perda dos direitos políticos de ambos.

Em ação que tramita no STF, Silas Câmara é denunciado por peculato. Segundo a acusação, desviou o salário de servidores na Assembleia Legislativa do Amazonas e nomeou três empregados que trabalhavam em sua casa como secretários: a cozinheira, o motorista e o jardineiro.

Em outro processo judicial que já tramitou pelo STF, mas foi arquivado em 2017, Silas foi denunciado por ameaça. A acusação é de que ele estaria ameaçando a vida de uma testemunha em processo judicial envolvendo desvio de recursos públicos realizado por ele e a esposa, Antônia.

Em 2011, Antônia Lúcia teve o mandato como deputada federal cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Acre. Em 2010, a Polícia Federal prendeu Heber e Milena Câmara, filhos do casal, que carregavam R$ 472 mil em uma caixa de papelão.

O Ministério Público diz que o dinheiro tinha sido enviado por Silas, do Amazonas, para a campanha da esposa no Acre. A quantia seria gasta com a compra de votos e despesas de caixa dois.

A cassação não foi referendada pela Câmara, Antônia recorreu e terminou de cumprir seu mandato. Ela também já foi acusada de compra de voto, falsidade ideológica, fraude processual, formação de quadrilha, peculato, uso de caixa dois e falso testemunho.

Os filhos mais velhos do casal dirigem a TV Boas Novas e uma rede de rádio no Amazonas e no Acre. É o maior conglomerado de mídia evangélica do Norte, mas Silas e Antônia não constam como dirigentes. Segundo a PF, o casal usava as emissoras ilegalmente para fazer campanha.

Em 2014, também foi arquivada no STF uma denúncia de que Silas teria usado a Fundação Boas Novas para a captação ilícita de votos durante a campanha eleitoral de 2010, configurando compra de votos. Assim como no processo arquivado em 2017, a Procuradoria Geral da República pediu que a acusação fosse dispensada por falta de provas.

Disputa na frente

Nas últimas semanas, a disputa pela frente estava entre Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) e Cezinha de Madureira (PSD-SP). O primeiro é apadrinhado de Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVC), e o segundo, de Samuel Ferreira, influente líder da AD Madureira.

Cezinha havia anunciado a candidatura antes mesmo de tomar posse. Criou-se um mal-estar na bancada com a disputa entre grandes denominações evangélicas, e Cezinha deu a ideia de desistir de sua candidatura em prol de Silas Câmara. Sóstenes hesitou, mas cedeu.

Na manhã da eleição, Abílio Santana (PR-BA), Flordelis (PSD-RJ), Glaustin Fokus (PSC-GO), Cezinha e Sóstenes retiraram suas candidaturas. Poderoso líder da Assembleia de Deus em Manaus, Silas não tem ligação com a Madureira nem com a Vitória em Cristo.

O nome de Silas Câmara colocou, porém, uma terceira igreja na composição de forças: a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), com ao menos 15 deputados fiéis, entre eles o presidente do PRB, Marcos Pereira (SP), bispo licenciado. O PRB apoiou sua candidatura.

O clima de disputa que quase gerou pela primeira vez uma eleição na bancada evangélica é atribuído, nos bastidores, à importância que o governo de Jair Bolsonaro dá aos religiosos. Até o momento, porém, o presidente não fez nenhum aceno à intenção de governar com o auxílio dos deputados. No discurso de posse, Silas Câmara disse que não irá usar a frente para fisiologismo.

Natália Portinari
No O Globo
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Cláudio Guerra: o pastor que assassinava e queimava corpos na ditadura militar

Em documentário, o ex-delegado relata como eram praticados os desaparecimentos políticos de militantes durante o regime

Cláudio Guerra começou na Operação Radar como executor. Posteriormente, ficou responsável por incinerar os corpos mutilados
Reprodução



“Você sabe que esses comunistas têm que morrer, e sei que você é um patriota. Precisamos de você.” É assim que, em 1973, Cláudio Guerra é convidado pelo Coronel Perdigão (Freddie Perdigão Vieira) e pelo Comandante Vieira a compor a Operação Radar, que executou 19 militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Ex-delegado e hoje pastor da Assembleia de Deus, ele confessa os crimes cometidos durante a ditadura civil-militar no Brasil em uma entrevista de 70 minutos documentada pela diretora Beth Formaggini. O resultado é o filme Pastor Cláudio, que estreou esta semana e relata como eram feitas as execuções de militantes do PCB, e como os corpos torturados pelo Estado eram incinerados.

O pastor – como prefere ser chamado – inicia a entrevista portando uma bíblia em mãos. Agora um senhor de cabelos brancos, ele tinha cerca de 30 anos quando começou a cometer as atrocidades junto ao regime ditatorial. A entrevista é conduzida pelo psicólogo e militante dos direitos humanos, Eduardo Passos, que se esforça de entender como funciona a mente de Guerra. O ex-delegado chega a afirmar que seu trabalho proporcionava sensação de poder e superioridade.

Modus operandi

Após convite para compor a operação, começou a receber a missão de matar pessoas supostamente envolvidas com a militância contra o regime. Depois, sua função passou a ser de queimar os corpos de pessoas torturadas pelo DOI-CODI, o que era feito em uma usina em Campos, no Rio de Janeiro.

Guerra foi um dos responsáveis pelo desaparecimento político de diversos presos pelo Estado durante os anos de chumbo, deixando muitas famílias sem respostas até o lançamento de seu livro Memórias de uma Guerra Suja, onde narra diversos episódios dos anos de repressão. Ele foi beneficiado pela Lei de Anistia, e nunca foi punido pelos crimes que cometeu.

A Operação Radar foi responsável pela morte de 19 membros do PCB
Reprodução

O pastor é responsável por incinerar, em Campos, João Batista Rita, Joaquim Pires Cerveira, Ana Rosa Kucinski, Davi Capistrano, João Massena, Fernando Augusto Santa Cruz, Eduardo Collier Filho, José Roman, Luiz Ignácio Maranhão, Armando Teixeira Frutuoso e Thomaz Antônio Meirelles.

Para a diretora do filme, Beth Formaggini, resgatar a memória sombria da ditadura militar no país é importante neste momento em que as forças de extrema direita tomaram a o poder.

Confira abaixo a entrevista que o Brasil de Fato fez com a diretora.

Como foi escolhido o formato do filme?

Beth Formaggini: O formato surge quando vou procurar Ivanilda Veloso, viúva do Itair José Veloso. Ela é personagem do meu outro longa, o Memórias para uso diário. Por que a Ivanilda? Porque o marido dela foi assassinado na Operação Radar, que é a operação que o Cláudio participou. O Cláudio atuou nessa operação não só assassinando membros do Partido Comunista, mas também incinerando corpos de outros militantes que foram assassinados dentro dessa operação. Eu procuro a Ivanilda e falo: “Ivanilda, saiu o livro do Cláudio e no livro ele confessa todos esses crimes. É possível que ele saiba algo sobre seu marido”. Como ele era desaparecido, ela estava desde 1975 buscando alguma informação da prisão, do assassinato e da localização do corpo do marido. Uma mulher apaixonada.

Perguntei se ela topava gravar uma pergunta para o Cláudio. Pego a pergunta dela e projeto junto com trechos de arquivos do filme, onde ela está procurando algum indício de que o marido foi preso pelo Estado, e realmente encontra. Projeto para o Cláudio para que ele possa ajudá-la a encontrar esse corpo, saber quem matou, onde morreu, onde foi enterrado. A gente usou um depoimento do Marival Chaves, que foi projetado no estúdio, em que ele diz que o corpo foi jogado no Rio Avaré, aqui em São Paulo.

Muitas famílias ficaram sabendo do paradeiro de entes desaparecidos políticos pelo filme?

Muita gente infelizmente ficou sabendo pelo livro, das matérias de jornal, do filme. Quando o filme passou no cinema Odeon, teve um depoimento muito emocionado de uma pessoa que estava lá e descobriu que um grande amigo havia sido incinerado pelo Cláudio. O Estado que foi responsável por esses crimes, pelos desaparecimentos, ele deixou essas famílias sem informações até hoje. Esse crime de ocultação de cadáveres é um crime que não termina nunca. Uma mãe está sempre esperando a volta de um filho se ela não viu o corpo. Eu acho que o que a gente queria era que tivesse um agente do Estado, um violador de direitos, anunciando suas próprias violações para que a gente tivesse esse relato para pensar nos dias de hoje, porque pessoas continuam desaparecendo e sendo assassinadas pela mão do Estado. A mão que deveria proteger o cidadão.

Como foi o primeiro contato com o Cláudio?

Eu li o livro e, através dos jornalistas que escreveram o livro com ele, eu cheguei até ele e ele concordou. Não foi difícil. Na verdade, o que acontece nessa conversa é que o Cláudio conta uma parte da história. Outra parte, ele não conta. Essa parte ele diz que é o que mantém ele vivo, que ele contou para várias pessoas e se acontecer algo com ele, essas pessoas vão relatar. É só a ponta do iceberg.

Ele escolheu alguns fatos para contar. A diferença do filme é a presença do Eduardo, psicólogo, que traz muitas nuances. Consegue falar sobre o gosto dele pelo poder, sobre o medo que ele têm hoje em dia, da direita. A prática de escuta do psicólogo faz com que a gente compreenda um pouco sobre o que está por trás das palavras.

Acho que hoje a gente precisa refletir. Crimes como esse da Marielle, em que existe uma tentativa [por parte de uma hipótese da investigação] de incriminar uma pessoa como se fosse uma coisa isolada, mas na verdade alguém paga por esses crimes. O Cláudio recebia por cada pessoa que ele matava ou incinerava. Ele fala até o banco que o pagava. Hoje, ainda existem essas práticas de assassinatos, desaparecimentos. A mesma mão que pagava o Cláudio Guerra continua pagando. É a extrema direita, o empresariado, uma parte da elite. A direita financia isso para que as coisas continuem como estão, ou piorem.

Agora, a gente tem um governo que está flexibilizando as leis trabalhistas, direitos humanos. Esse filme é muito atual, porque a gente precisa pensar o Brasil para que a gente consiga minimamente resistir contra essas coisas.

As famílias de muitos desaparecimentos políticos só obtiveram respostas após os relatos de Guerra
Reprodução

E como isso pode se dar?

O filme chega em um momento do Brasil em que essas forças estão se rearticulando. Desde o impeachment da presidenta Dilma existe esse grupo de empresários, ruralistas, e todo um movimento contra os direitos humanos, os direitos indígenas, dos quilombolas. Todo um discurso que estimula a violência contra negros, LGBTs, contra a liberdade das mulheres. É um momento de retrocesso muito grande e o filme nos faz  pensar [sobre] a história do Brasil, e ver que o presente está impregnado desse o passado, e o futuro pode ficar ainda mais se não pararmos para discutir essas questões com cada um. É obrigação de cada um de nós conversar sobre isso. O filme traz esse tema para a conversa.

Como foi acompanhar essas histórias tão pesadas?

Foi muito duro. A gente claramente estava conversando com o inimigo, alguém que estava do outro lado, embora ele seja um personagem complexo que diz que se converteu e diz querer ajudar. Ele é um arquivo muito grande, e abriu apenas uma gavetinha. Acho que ele é um personagem complexo, e temos que ter esse filme como uma tentativa de trazer luz para uma história que só tem véu encobrindo. Hoje em dia existe ainda há uma violência muito grande por parte do Estado, em que geralmente a imprensa dá razão para a polícia quando ela mata de forma indiscriminada. Se coloca como “auto de resistência”. O governador do Rio de Janeiro, por exemplo, fala sobre “abater os marginais”, como se fossem gado. É uma experiência muito dura lidar com esses temas, e acho que é dura, mas temos que trabalhar com a história.

Bruna Caetano
No Brasil de Fato
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Um país à deriva


O atual presidente da República nunca escondeu seu ódio à democracia. Mas agora, diante da incapacidade de dar alguma notícia boa para o povo brasileiro e sem ter como explicar a nefasta política de destruição de direitos — a começar pela proposta de exterminar a Previdência Social pública e, com ela, os mecanismos de proteção aos mais pobres — Jair Bolsonaro mostra desespero e aprofunda o ataque às instituições.

Elegeu o Congresso Nacional e até o Supremo Tribunal Federal como alvo, dançando perigosamente com a desestabilização institucional, a fim de agradar o consórcio de poder que ajudou em sua eleição: o mercado financeiro, representado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes; os lavajateiros comandados por Sérgio Moro e seu projeto de poder à parte; e os filhos que se utilizam das redes sociais para atacar quem lhes questione, alimentando o caos e a instabilidade.

Na verdade, Bolsonaro é fruto de uma irresponsabilidade histórica de uma elite que o colocou no poder em nome de um irracional antipetismo. Essa elite praticou um vale-tudo para eleger Bolsonaro, que, como contrapartida, se comprometeu com uma agenda que agora não tem condições de entregar.

No plano internacional, Bolsonaro envergonha o país ao submeter nossa soberania aos desígnios de Washington, colocando em risco a estabilidade política da América do Sul e a nossa posição de destaque no comércio internacional.

A proposta de Reforma da Previdência (PEC 06/2019) não tem apoio nem da bancada governista no Congresso, em consequência da incapacidade de articulação do governo e da mobilização popular em todo o País, que não aceita a destruição de direitos garantidos na constituição. Esta proposta é um prêmio aos banqueiros e um crime contra o povo.

Incapaz de coesionar o seu governo, de controlar os ímpetos de seus filhos e de dialogar com supostos aliados, Bolsonaro critica agora a “velha política” e tenta jogar o povo contra o Congresso. Ora, ele ficou 28 anos como deputado federal, sem nenhuma proeminência, e ainda jogou na política seus três filhos, todos enriquecidos por meio de atividades suspeitas. Não tem moral para falar de política, pois sua prática é a das oligarquias, se utiliza de ameaças contra as instituições, chegando a insinuar o uso da força para garantir sua pauta.

A crise aprofunda-se, mas a família Bolsonaro continua sem explicar suas ligações com o Fabrício Queiroz, ex-assessor do atual senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) que é acusado de movimentações milionárias em suas contas sem comprovação de renda. Não explicam também as suspeitas de envolvimento com o ex-PM Ronnie Lessa, acusado de assassinar a ex-vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes.

A família Bolsonaro é capaz de tudo, menos de reduzir a instabilidade e o caos, ou mesmo de unir o país entorno de um projeto de desenvolvimento justo. Por isso, o momento atual exige unidade ampla de todos os setores que defendem a democracia, a nossa soberania e a manutenção de direitos históricos do povo brasileiro.

Paulo Pimenta, Deputado federal pelo PT-RS
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Presidente do Inep, (o dos cidadões), cai chutando o colombiano da Educação

Exonerado nesta terça-feira, Marcus Vinicius Rodrigues afirmou que titular da Educação não tem
'poder de gestão' nem 'controle emocional' para conduzir a área
Demitido pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, da presidência do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Texeira (Inep), Marcus Vinicius Rodrigues afirmou ao Globo que o ex-chefe é "gerencialmente incompetente" e "não tem controle emocional" para comandar a educação brasileira. Ele disse que a portaria suspendendo a avaliação da alfabetização no país este ano, apontada como motivo da demissão, foi apenas um "pretexto" de Vélez para retirá-lo do cargo.

Segundo Marcus Vinicius, a suspensão dos testes para crianças de 7 anos, que estão aprendendo a ler e escrever, foi um pedido do secretário de Alfabetização do MEC, Carlos Nadalim, que é muito próximo a Vélez, e que dificilmente o ministro não teria sido informado da medida pelo auxiliar. Vélez alegou internamente que foi surpreendido, após repercussão negativa da portaria publicada na segunda-feira, que ele anulou no dia seguinte.

Apesar de classificar Vélez como uma "pessoa do bem", Marcus Vinicius desqualificou a formação acadêmica do ministro, dizendo que ele "não teve acesso a boas faculdades" e disse que Vélez é "refém" das próprias limitações.

A demissão de Marcus Vinicius abre mais uma crise dentro do MEC, que desde o início do mês está conflagrado por uma disputa de espaço entre diferentes grupos: a ala técnica, os militares e os seguidores do ideólogo de direita Olavo de Carvalho, que compõem o núcleo ideológico da pasta. Marcus Vinicius é doutor em Engenharia de Produção e foi professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Por que o senhor foi demitido?

A minha demissão é um processo de crise que já vem desde o início, a partir do momento em que eu não aceitei as indicações do ministro com caráter ideológico para ocupar diretorias (do Inep). Acho que foi exatamente neste momento que o processo de distanciamento teve início. O ministro me fez várias indicações de profissionais que tinham uma postura ideológica não adequada para a gestão. E eu entendi que isso não seria adequado para a Educação do Brasil.

Uma dessas indicações foi a de Murilo Resende, ligado a Olavo de Carvalho, que iria assumir a coordenação do Enem?

Sim. O Murilo, apesar de ter uma boa formação, não tinha perfil para um cargo tão relevante.

Mas o governo aponta que sua demissão ocorreu porque o senhor publicou a portaria que suspendeu a avaliação da alfabetização prevista para este ano e que foi revogada pelo próprio ministro no dia seguinte.

A portaria foi apenas um pretexto, mesmo porque o Inep não cometeu nenhum erro. A portaria começou a ser feita há aproximadamente três semanas por uma equipe do Inep com uma equipe do MEC, ligada à Secretaria de Alfabetização. Eles chegaram a uma minuta da portaria. Essa minuta foi analisada na terça-feria por mim. Eu senti falta de referência da medição da alfabetização. Os diretores do Inep que estavam na reunião disseram que essa era a postura da Secretaria de Alfabetização. Na dúvida, eu pedi ao senhor (Carlos) Nadalim, que é o titular (da Secretaria de Alfabetização do MEC), que me mandasse isso formalmente. E ele me mandou um ofício muito claro dizendo que a Secretaria de Alfabetização estava pedindo ao Inep para não inserir a medição da alfabetização.

O ministro alegou que não sabia da suspensão dessa avaliação. Ele foi surpreendido com a medida?

Eu não posso dizer que ele não sabia. Mas o secretário de Alfabetização é provavelmente o colaborador mais próximo do ministro hoje. Os dois moravam na mesma cidade, são grandes amigos. Acho que dificilmente o Nadalim não tenha informado ao ministro sobre uma coisa tão importante. Mesmo porque o Nadalim não foi punido. Se o Nadalim tivesse traído o ministro, provavelmente seria exonerado.

O senhor acha então que a demissão foi um ato injusto para dar uma satisfação em meio à polêmica?

A minha demissão não foi uma injustiça. Foi um ato de incompetência gerencial de um ministro que não tem poder de gestão, não tem controle emocional para dirigir a Educação do Brasil. Pesou o fato de eu ser ligado à ala militar; de ser amigo do grande profissional que é o (Antonio Flávio) Testa (sociólogo que trabalhou desde a campanha e foi dispensado por Veléz durante a transição após um desentendimento). E pesou o fato de termos um modelo de gestão aplicada no Inep muito destoante do que vem sendo aplicado no MEC.

O ministro tem competência para ocupar o cargo atual?

É uma pessoa do bem, tem boa vontade. Mas o ministro Ricardo é gerencialmente incompetente. Ele não tem conhecimento de gestão, além de não ser um educador. Isso faz com que ele não consiga gerenciar o dia a dia em um governo tão importante, que está tentando recuperar o Brasil.

Quais problemas essa falta de gestão provocará?

Os problemas já começam agora, com as entregas que deveriam ser realizadas. Provavelmente o MEC vai entregar muito pouco. A educação é um das bandeiras do governo Bolsonaro, pelo qual trabalhei desde julho e vou continuar trabalhando. É uma alternativa para o Brasil. Infelizmente, alguns cargos vitais, como na Educação, estão sendo ocupados por pessoas honestas, de boa vontade, mas sem habilidade gerencial e sem uma inteligência emocional adequada.

O ministro está refém do grupo ideológico?

O ministro está refém dele mesmo, das limitações dele. Todos nós temos limitações. O ministro não teve acesso a boas faculdades, não teve acesso a uma formação densa. E isso faz com que não tenha uma visão global.

A produção acadêmica do ministro na plataforma Lattes teria sido inflada, segundo informações da imprensa. O senhor concorda?

Nunca me considerei um educador ou intelectual. Meu doutorado é na Coppe (instituto de pós-graduação e pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro), fui professor durante 20 anos na Fundação Getulio Vargas. O ministro tem o doutorado dele na Gama Filho, essa instituição já fechou. No currículo dele, a maior parte das aulas (dadas) foi na Universidade (Federal) de Juiz de Fora, que é uma grande universidade, sim, e em uma instituição de pequeno porte em Maringá. Essa falta de experiência do ministro, sem uma formação densa, com publicações limitadas, sem conhecimento de gestão, prejudica a visão que ele tem do Brasil e da educação brasileira. Não vejo como ter uma gestão de sucesso.

O senhor disse que vai continuar colaborando com o governo. Vai ocupar algum outro cargo?

Quero tirar um mês de férias e depois colocar meus negócios em dia. Voltar para a minha empresa. Pretendo continuar apoiando o governo e, caso seja adequado — não agora, mas no futuro —, voltar a ajudar na própria máquina pública.
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Brasil, governo dos macacos


O ambiente está configurado. Desde primeiro de janeiro, o Brasil está entregue a um governo de macacos, sem nenhuma intenção de ofender a espécie. O país está entregue a uma equipe de limítrofes que não completaram a transição para o homo sapiens. Quer resolver tudo na porrada, na vulgaridade, na base da bala e do insulto. E se alimentar do sangue dos adversários.

O governo Bolsonaro já acabou, e só os cegos, surdos e mudos podem pensar o contrário. É um processo de destruição do Brasil confessado pelo próprio tenente-capitão que chegou ao Planalto na base da trapaça. Como Bolsonaro disse no Chile, sua tarefa não é construir. É destruir o que já foi feito.

Leia-se nisso os pequenos avanços proporcionados por governos progressistas. O Bolsa Família, que tirou milhões de famílias da miséria. O Minha Casa, Minha Vida, hoje desidratado, embora tenha oferecido a oportunidade de uma habitação digna a brasileiros sem-teto e empregos na construção civil. O Pro Uni. A política de cotas. Os incentivos à indústria nacional. E por aí vai. O que se oferece é a entrega do país ao capital estrangeiro sem nada receber em troca.

Para quem acredita em democracia e soberania nacional, o governo Bolsonaro já acabou. A quadrilha que tomou conta do Planalto com base em milícias, fake news e com o apoio da “elite” financeira-judiciária-militar-parlamentar e midiática é sinônimo de ruína. A fatia verde oliva sonha em transformar o país numa grande Port-au-Prince.

O tempo agora não é de conquistar a governabilidade de Bolsonaro. Mas sim de interromper o quanto antes esta aberração que fulmina o país. Por isso é preciso escapar das armadilhas montadas pelo Palácio do Planalto e sua máquina de twitters.

Na falta de um programa afirmativo de construção do Brasil, a famiglia Bolsonaro investe em querelas ideológicas. Escola sem Partido, ataque às minorias, negação das lutas identitárias, armas para todos. Todas questões de grande importância, mas que desviam o fogo do que é principal.

A última das esparrelas é a orientação oficial sobre comemoração do golpe de 1964. É óbvio que é uma provocação. Deve ser combatida sem complacência. Agem certo os juristas, o Ministério Público e a AGU ao condenar tamanha bofetada na cara do povo brasileiro. Trata-se de travar sem tréguas a luta ideológica contra um governo reacionário, obscurantista e de tendências totalitárias.

Mas isso é parte do combate – e, atrevo-me a dizer, não a mais importante. A batalha que interessa é a da luta pela sobrevivência do povo, que está em jogo não em discursos em quartéis, mas no presente do desemprego e no futuro da aposentadoria.

Em vez de gastar esforços em “manifestações” sobre o 31 de março, trata-se de concentrar forças em mobilizações gigantescas contra a reforma da previdência, contra a liquidação da aposentadoria, na luta por empregos, na organização de um primeiro de maio digno desse nome, numa greve geral ainda maior do que a de 27 de abril.

Nas ruas. Esse é o caminho para abreviar a manutenção da famiglia Bolsonaro no poder.

Ricardo Melo é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia
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Governo perde por 453 votos. Só para comparar: um impeachment demanda 342


Jair Bolsonaro perdeu mais do que poder sobre o orçamento federal com a aprovação, pela Câmara dos Deputados, de uma Proposta de Emenda Constitucional em duas rápidas e acachapantes votações nesta terça (26). Perdeu também parte do respeito que tinha junto a uma parte dos deputados federais e, muito provavelmente, dos senadores.

Com 448 votos a favor, no primeiro turno, e 453, no segundo, os deputados, em pouco mais de uma hora, tornaram obrigatório o pagamento de investimentos em obras e emendas de bancadas estaduais, que hoje podem ser adiadas. Com isso, a margem de manobra do governo federal no orçamento passará de 7% a 3%. O cumprimento do fatídico Teto dos Gastos pode virar mingau.

Para efeito de comparação: aprovar a abertura de um processo de impeachment de um presidente da República demanda 342 votos de deputados federais. O de Dilma Rousseff recebeu 367.

Claro que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Mas a vida dela azedou com pautas-bomba, um comandante da Câmara descontente com o Planalto e a falta de apoio político no Congresso. Razão sempre se cria, como em 2016. A questão principal é que, ao perder apoio político dos parlamentares, um presidente dança.

A decisão sobre o orçamento contou com o voto de alguns deputados do PSL, entre eles, Eduardo Bolsonaro – que lembrou que ele e o pai eram favoráveis à matéria anos atrás e que, portanto, isso não seria uma derrota. Claro! Tanto que o ministro da Economia, Paulo Guedes, que propõe o contrário, a desvinculação do Orçamento da União, deve estar sorrindo de orelha a orelha. Ele iria à Comissão de Constituição e Justiça falar sobre a Reforma da Previdência, nesta terça, mas cancelou.

Cansados de serem criticados pelo presidente via redes sociais e em entrevistas para veículos de comunicação, nos quais Bolsonaro repete incessantemente que não se curvará ao tomaladacá da "velha política" no Congresso Nacional,  os deputados do centrão foram à forra junto com os partidos de oposição – que segue sentada no banco do passageiro. E, claro, o presidente da Câmara, pois jabuti não sobe em árvore sozinho.

Bolsonaro passa seus dias na Presidência da República mais interessado em denunciar golden showers, cartilhas que ensinam adolescentes a fazer higiene das partes íntimas e importação de bananas do Equador, mas também em agradar Donald Trump, Olavo de Carvalho e a memória de golpistas de 1964. Acha que deve continuar agindo assim para ser o antissistêmico que a ala radical de seus seguidores elegeu, pois assim terá apoio para permanecer no cargo.

Não se deu conta que sua incapacidade política, a falta de vontade em construir uma relação com o Congresso Nacional e a arrogância que isso transmite, vai minando o (pouco) respeito que têm junto aos parlamentares. Respeito que não é oriundo das relações que construiu em quase três décadas de baixo clero, mas da legitimidade dos votos que recebeu nas eleições de outubro. Com sua aprovação em queda, conforme a última pesquisa Ibope, deputados percebem que o respaldo popular está sumindo muito antes da hora.

E, como um tubarão, deram uma mordida para ver o que acontecia.

Se Bolsonaro continuar se mostrando um presidente ausente do ponto de vista da articulação, que depende do suporte dado pela ala militar de seu governo e da mobilização constante nas redes sociais de seus seguidores mais fiéis, o Congresso vai tomar gosto pela coisa. Após terem percebido que a Presidência também sangra, um dos deputados cujo partido apoia a reforma conversou com blog. Brincou com a possibilidade de implementar um parlamentarismo mambembe, em que as grandes decisões ficariam com eles e Bolsonaro seria reduzido a chefe de Estado e YouTuber.

Claro que isso é exagero de deputado empolgado, o presidente pode retomar sua dignidade se quiser. A questão é se ele percebe a gravidade do que aconteceu. E, percebendo, se realmente se importa. E, se importando, se é capaz de reagir.

Leonardo Sakamoto
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Nunca aposte sua cabeça contra os deputados


A vingança veio rápido.

A aprovação do gasto impositivo do Orçamento de emendas parlamentares de bancada passou de R$ 4,6 para R$ 8 bilhões.

O “quero o meu” andou rápido e arrastou até os deputados bolsonaristas: nada menos de 448 votos a favor e três contra, na primeira votação e, na segunda, 453 a favor; seis, contra e uma abstenção.

Era uma das “pautas-bomba” que sobrava da época de Eduardo Cunha, pois esperava ser pautada desde 2015 e agora foi, em menos de 24 horas.

Como o governo não tem porta-vozes no Congresso, não teve resistência.

Edgar Allan Poe tem um conto famoso, “Nunca aposte sua cabeça contra o diabo”, onde um velho incentiva o protagonista, Toby Dammit a pular um obstáculo em um túnel escuro. Dammit perde a cabeça, morre e, sem dinheiro para fazer-se seu enterro, seus restos são vendidos como carne para cachorros.

Há, agora, também uma aposta: será o governo Bolsonaro quem será decapitado pelo parlamento ou será o parlamento quem será decapitado pelas falanges bolsonaristas?

Até agora, tudo parece caminhar para a primeira hipótese, mas vitórias deste tipo só apequenam a reresentação parlamentar, a mostrar que a gula, muito antes da seriedade, regem seus atos.

Sobre isso, escreveu-se: “Toby Dammit, pobre diabo, vive na miséria. Numa sociedade tacanha e excludente, apanha como um cão, e parece nunca aprender a “lição”. Sempre aposta o que não pode pagar, pois é fanfarrão. Até que um dia perde a cabeça, que rola no chão. E como para o enterro não tinha um tostão, acabou virando ração.”

Fernando Brito
No Tijolaço
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Antixingamentos

Com tantas palavras raivosas, insultuosas e horrorosas cruzando os céus da Pátria neste instante, achei que seria uma boa ideia resgatar um pouco do nosso vocabulário afetivo, nem que seja só para não esquecê-lo no meio dos xingamentos. Não me refiro a termos de uma relação tão corriqueira – entre marido e mulher casados há muito tempo, por exemplo, que nem se dão mais conta do que se chamam (“bem”, “amor”, “querido”, “paixão”, “nego”). Me refiro a termos carinhosos que caíram em desuso ou mudaram de sentido, e devem ser lembrados antes que o discurso nacional se reduza a latidos.

Quantas vezes você chamou alguém de “dengoso” ou “dengosa” como crítica à sua lassidão, à sua preguiça e até ao seu mau caráter? E no entanto “dengosa” ou “dengoso” pode ser um novo nome para uma velha prática, a de adonar-se do objeto sexual dando-lhe um apelido exclusivo. Ajuda se você tiver um texto pronto para a ocasião:

– Faz gata dengosa, faz...

– Ron ron ron.

– De novo!

Xodó. Uma palavra com vários sentidos, todos bons. De quem está namorando se diz – ou pelo menos o Aurélio diz – que tem um xodó, mas xodó não é só isso. O xodó autêntico é o xodó correspondido, mas não declarado. O xodó implícito começa no flerte, mas não continua na quermesse porque a mãe está de olho, e olho de mãe tem radar. O xodó autêntico está sempre pra começar, e vive das separações até a próxima quermesse. Shakespeare não estava pensando em outra coisa quando escreveu que separações são tristezas doces.

E há palavras que não existem, o que não impede que entrem num dicionário de antixingamentos.

“Momoso.” Existe outra palavra para descrever um momoso que não seja “momoso”?

“Edredônico.” Diz-se de alguém que traz calor e conforto para qualquer ambiente, e às vezes até o vinho.

“Moreco.” Corruptela de “amoreco”.

Etc, etc, etc.

Luís Fernando Veríssimo
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