23 de mar. de 2019

Marcos Coimbra: discurso antipetista de Bolsonaro tem prazo de validade

Fundador e presidente da empresa especializada em pesquisas de opinião e mercado Vox Populi, Marcos Coimbra, avaliou, em participação no programa Giro das 11, na TV 247, que o presidente Jair Bolsonaro não se sustentará por muito tempo no governo se continuar a fazer o mesmo discurso antipetista utilizado na campanha para chegar ao cargo.

O sociólogo considera que dentro do contexto complexo que o Brasil enfrenta, não basta vencer a eleição e ter apenas um discurso contra o PT. "Logo se viu que depois da eleição ele não havia conseguido transformar o voto contra o PT em voto a favor dele próprio, esse é o grande problema que o bolsonarismo enfrentou imediatamente depois da vitória".

Para Coimbra, o discurso antipetista de Bolsonaro é insustentável porque esse sentimento tende a diminuir com o passar do tempo. "As virtudes de Jair Bolsonaro só foram percebidas por uma parcela muito pequena da população brasileira. A única coisa que a gente tinha era 'eu sou contra o PT' e é isso que ele ainda tem hoje. Ele mantém números positivos apenas porque o antipetismo ainda é importante, tem uma parte da população que gosta tão pouco do PT que aceita até o Bolsonaro. Isso tende a diminuir com o tempo".

O presidente da Vox Populi também comentou sobre a queda do nível de confiança dos eleitores em relação ao presidente, em pesquisa realizada pelo Ibope e divulgada na última quarta-feira, 20. Em fevereiro, o índice de eleitores que manifestavam confiar em Bolsonaro estava avaliado em 55%. Em março houve uma queda de 6 pontos percentuais.

"A pessoa pode ter uma avaliação de que as políticas não são boas ou ela não apoia mas confia no governante, acha que, de uma forma ou de outra, ele vai acabar acertando. É isso que o Bolsonaro está perdendo com enorme rapidez: a confiança das pessoas. Antes sequer que ele tinha tido condições de colocar na mesa aquelas coisas que ele prometeu durante a campanha", disse Marcos Coimbra.

Ainda sobre a pesquisa, Coimbra contestou os 24% de aprovação do governo e de que isso possa simbolizar algo positivo para o presidente. "Vou dizer algo óbvio: você ter 35% de ótimo e bom é excelente se está vindo de 10%. Agora, se você está vindo de 50% é algo preocupante".

Ele aposta em uma derrocada contínua do presidente Bolsonaro que, segundo Coimbra, ficará envolto por um núcleo de "gente amalucada". "A tendência é de piora contínua na popularidade e na imagem dele. Em não muito tempo ele vai ficar restrito a esse núcleo de gente amalucada que começou a acreditar em Bolsonaro lá atrás, nessa mistura de autoritarismo, machismo com oposição aos direitos de minorias, uma visão arcaica do desenvolvimento brasileiro, contra a cultura e contra o meio ambiente. Esse núcleo existe mas é muito pequeno, o que não vai permitir ao Bolsonaro governar com legitimidade para todo mundo".

O fundador da Vox Populi também explicou a razão do anseio de Bolsonaro por uma reforma na Previdência Social e ainda disse que não é disso que o país precisa. "Ele precisa da reforma da Previdência para aumentar o investimento para ter condição de financiar um mínimo de um aparelho de proteção social, precisa de dinheiro. Já em março, alguns dos principais economistas do PSDB publicaram artigos discutindo se isso que a equipe do Bolsonaro está propondo para a Previdência vai ajudar em alguma coisa. Isso definitivamente não é o que precisaria em um projeto amplo de repensar o Brasil. O Bolsonaro é incapaz de fazer isso, ele e a turma imediatamente próxima a ele, e a equipe econômica que ele levou para lá é extremamente limitada".
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Datena e o jornalismo mundo cão vendem o ódio bolsonarista há 3 décadas na TV


Logo depois de saber que seu filho havia matado oito pessoas e se suicidado, Tatiana foi perseguida na rua por um repórter do Brasil Urgente. Bastante incomodada, ela escondeu o rosto e tentou escapar das perguntas. A dor que ela estava sentindo parecia irrelevante para o jornalista. Ele continuou a perseguição pela calçada com uma abordagem inacreditável:

“Você se sente culpada de alguma forma?”

“Você quer ajuda, Tatiana? Vamos conversar um pouquinho”.

“Ele é uma criança ainda pra você?”

“Isso poderia ser evitado de que forma?”

“É importante você falar para defender a honra da sua família”.

No estúdio, Datena narrou aos berros as imagens de terror registradas pelas câmeras de segurança do colégio onde ocorreu o atentado. Ao fim da narração, o apresentador vaticinou: “Eu nunca vi uma cena tão canalha e covarde como essa. Esse moleque deve tá queimando no inferno”.

 O Brasil já se acostumou a acompanhar violência explícita na TV. Quase todas as emissoras têm em sua grade de programação um jornal policial vespertino que traz diariamente as novidades do mundo cão. Há quase três décadas, empresas privadas se utilizam de concessões públicas para fomentar uma cultura de ódio, vingança e violência. Chavões como “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos para humanos direitos” vem sendo exaustivamente repetidos pelos apresentadores desses programas. Ali a violência policial é reverenciada, suspeitos são tratados como culpados e os direitos humanos servem apenas para proteger bandido. Pobres, negros e gays têm seus estereótipos negativos reforçados todos os dias. Qualquer semelhança com o bolsonarismo não é mera coincidência.

O ideário reacionário que gestou a candidatura de Bolsonaro foi disseminado com uma contribuição importante da grande mídia. Quando o candidato que faz gesto de arminha apareceu, já havia uma massa habituada a desprezar os direitos humanos e a valorizar soluções simples para problemas complexos. O caldo cultural já estava fervendo no caldeirão.

Desde a estreia do Aqui Agora, em 1991, as crianças brasileiras têm acesso a imagens de sangue, perseguições policiais, tiroteios e cadáveres em plena luz do dia. O formato foi replicado em todo o país e hoje pelo menos toda capital brasileira tem o seu programa.

Um dos precursores do formato é o falecido jornalista Luiz Carlos Alborghetti, apresentador de um jornal policial em Curitiba que também era transmitido para outros locais do país. Com uma toalha pendurada sobre os ombros, condenava bandidos ao inferno aos berros enquanto batia com um porrete na mesa. Era um ultrarreacionário que fazia apologia da tortura e chegou a destruir o cenário do estúdio em certa ocasião. Virou referência desse tipo de jornalismo. Alborghetti talvez seja o pioneiro na fórmula ódio + humor que pariu Carlos Massa, o Ratinho, que hoje caracteriza parte dos programas policiais. Em nome de denunciar crimes e apresentar “a realidade como ela é”, esses programas transformam tragédias sociais em produtos de entretenimento bastante lucrativos. Fazem apologia da barbárie com pitadas de humor — uma tática bastante usada pelo bolsonarismo durante a campanha. 
O Estado de direito requer uma frieza incompatível com a sede de vingança imediata que os apresentadores incitam na audiência.
Esses apresentadores se portam como justiceiros e acabam construindo uma imagem de autoridade. Apontam rapidamente as causas dos crimes e decretam sentenças de imediato. Ali a justiça nunca falha, e a audiência se sente vingada. Por outro lado, o sistema de justiça real tem outro tempo e nem sempre atende aos desejos da população, aumentando a frustração e a sensação de impunidade. O Estado de direito requer uma frieza incompatível com a sede de vingança imediata que os apresentadores incitam na audiência.

Datena, o maior expoente nacional do jornalismo mundo cão, costuma apresentar diagnósticos simplistas para crimes bárbaros, como “falta Deus no coração dessas pessoas”. Chegou até a ser processado por isso. É um jornalista medindo o caráter do cidadão pelo grau de fé em Deus que ele tem. É como se ateus fossem potenciais criminosos. “Deus acima de tudo” não é mesmo?

Muitos desses apresentadores se permitem xingar entrevistados e brigar com colegas ao vivo. A grosseria faz parte do show. Eles são carismáticos, e a presença diária na TV fazem deles figuras muito populares. Não é raro vê-los virando candidatos. Pelo contrário, é uma tendência. Primeiro ajudam a instalar o alarmismo na sociedade, depois se apresentam como parte da solução. Wagner Montes (RJ), Carlos Viana (MG), Laudívio Carvalho (MG), Mauro Tramonte (MG), Hélio Costa (SC), Amaro Neto (ES), Ely Aguiar (CE), Joaquim Campos (PA), Silas Freire (PI), Wilson Lima (AM), Paulo Wagner (RN) são alguns dos nomes que migraram de jornais policiais sensacionalistas para a política.

Mas esses são só alguns exemplos. Há uma infinidade de outros apresentadores catapultados para cargos públicos. Não preciso dizer que todos os citados (exceto Wagner Montes, falecido em janeiro) fazem parte da base de apoio do governo ou estão alinhados aos valores bolsonaristas.

Como é de se esperar, nem todos os justiceiros televisivos têm moral para se arvorar como paladinos dos bons costumes. Um bom exemplo é o amazonense Wallace Souza. Ele era um policial civil que foi expulso por roubar gasolina da corporação. Em 1996, tentou ser vereador, mas obteve apenas 898 votos e não se elegeu. Nesse mesmo ano, ele virou apresentador do sanguinário Canal Livre em Manaus, que lhe rendeu fama e o ajudou a se tornar o deputado estadual mais votado do Amazonas em 1998 pelo PL. Em 2009, uma investigação da Polícia Civil descobriu que Wallace não só comandava uma quadrilha de traficantes como também ordenava assassinatos de traficantes rivais para poder dar com exclusividade em seu programa de TV. Era chefe de uma milícia com conexões nas polícias, no Ministério Público e na política. O ex-apresentador teve o mandato cassado, foi preso e faleceu em 2010 de infarto.
E quem mata bandido simplesmente porque acha que é o certo a se fazer está cometendo um crime.
Destaco que essa não é uma questão que opõe a esquerda e a direita, mas a civilização e a barbárie. Liberais de verdade não desprezam os direitos humanos e o estado de direito. Não saem por aí repetindo que “bandido bom é bandido morto”, porque este não é um valor democrático, mas de uma ideologia reacionária, de gente extremista que despreza as conquistas civilizatórias. Criminosos devem ser tratados com o rigor e a frieza da lei. E quem mata bandido simplesmente porque acha que é o certo a se fazer está cometendo um crime. O bordão, tão caro ao presidente, é uma apologia ao crime.

É curioso ver como a grande mídia tem dado destaque para a hipótese de que games violentos teriam influência na tragédia de Suzano, como se ela própria não vendesse violência como entretenimento para crianças todos os dias da semana há quase três décadas. Em qualquer birosca de qualquer lugar do Brasil, você encontrará um televisor escorrendo sangue enquanto passa um Brasil Urgente, um Cidade Alerta ou um Balanço Geral da vida. Não estou insinuando que esses programas são responsáveis pela eleição de um presidente extremista ou pelas mortes em Suzano. Essa também seria uma resposta simples para problemas complexos. Mas não dá para negar a simbiose entre esses agentes propagadores da cultura de violência. Até quando a sociedade vai tolerar que concessões públicas sejam utilizadas para disseminar uma ideologia reacionária?

João Filho
No The Intercept
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O preço da demagogia: “Não vejo abuso na Lava Jato, não vejo ‘espetáculo'”, disse Temer

Eles
A prisão de Michel Temer — arbitrária, como já escrevi aqui, e isso não é defesa do cidadão que você e eu sabemos quem é — contém várias lições.

Uma delas é de que a Lava Jato é um projeto de poder da República de Curitiba e funciona como uma pororoca na democracia, alargando e destruindo as margens do estado de direito.

Temer, constitucionalista, corrupto, demagogo, tentou surfar na imagem da operação quando assumiu a presidência da República.

Interino e efetivo, postou no Twitter as seguintes imbecilidades:

“A Lava Jato tem prestado importantes serviços ao país. Sou jurista e sei do papel fundamental da Justiça e do MP para o avanço das instituições.”

“Nesse contexto, a Lava Jato tornou-se referência e, como tal, deve ter prosseguimento e proteção contra qualquer tentativa de enfraquecê-la.”

“Não vejo abuso na Lava Jato. Não vejo ‘espetáculo’. Tem que avaliar o teor das denúncias.”

No pedido de prisão, o juiz Marcelo Bretas argumenta que Temer é “líder da organização criminosa”.

Em editorial, o Estadão lembra o seguinte:

Na decisão, o juiz Marcelo Bretas utiliza 18 vezes o verbo parecer – “parecem ter feito”, “parecem estar vinculados”, etc. –, deixando em evidência a frágil ligação entre os fatos investigados e as conclusões a que o Ministério Público deseja chegar, como a existência da tal organização criminosa de quatro décadas, chefiada por Michel Temer.

A soma dos valores de propinas do suposto bando chefiado por MT ultrapassa R$ 1,8 bilhão, segundo o MPF, um número visivelmente chutado para impressionar.

Marun conta que o ex-chefe está escrevendo um livro na cadeia.

O capítulo sobre Sergio Moro promete.


Kiko Nogueira
No DCM
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Brasil à deriva: Mercado ameaça depor Bolsonaro e presidente da Câmara tira casquinha

Eles estão brincando com fogo e quem paga o pato somos nós
Uma notícia publicada pela jornalista Daniela Lima na Folha deste sábado, 23, pode ser o fio da meada para levar à constatação de que as instituições brasileiras estão a serviço de grandes corporações financeiras.

Diz Daniela Lima.

O estiramento da relação do governo Jair Bolsonaro com o Congresso explicitou as fragilidades da atual gestão para setores que antes apoiavam o governo incondicionalmente. Pela primeira vez, o presidente foi amplamente criticado por atores importantes do mercado que se posicionaram ao lado do comandante da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), na queda de braço entre os Poderes.

Veja só o que vem na sequência.

Para operadores do mercado financeiro, Bolsonaro tem tropeçado nos próprios pés de maneira sistemática, mas agora colocou em risco a votação da reforma da Previdência. A incapacidade do presidente de estabelecer diálogo com o Parlamento fez com que ele fosse chamado por investidores nesta sexta (22) de “Dilma de calças”.

Ou seja, fica claro até aqui, e no que segue a partir das informações publicadas pelo jornal, que o “mercado” se sente suficientemente à vontade para tomar partido entre os Poderes, impor a pauta política do país e, se necessário for, instigar um novo golpe de Estado, defenestrando o atrapalhado capitão da presidência, assim como fez com Dilma Rousseff.

Sintomático, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, saiu tirando casquinha de Bolsonaro e cia, criticando a “falta de agenda”, ameaçando que vai largar mão de carregar o piano da Previdência e falando da incapacidade da turma em se entender com os deputados para cumprir a ordem que vem do andar de cima.

Saltitante, esqueceu de um detalhe: manter as aparências.

Vá lá que seja o escolhido pelas corporações para ser o seu garoto prodígio, mas é conveniente lembrar que, constitucionalmente, foi eleito pela população do Rio de Janeiro. É a ela que deve obrigações.

Como deputado e presidente do Poder que pode mudar para sempre os destinos do país, Rodrigo Maia não tem o direito de se apoiar nos interesses do mundo financeiro, ou de quem for, para manipular congressistas e homens de governo, tripudiar em quem quer que seja ou iludir a opinião pública.

O resultado dessa prática só serve para gerar instabilidade jurídica e institucional e estabelecer um clima de incerteza na população. Se é favor da reforma da Previdência, que use suas prerrogativas constitucionais para fazer valer o seu direito de voto. O que não dá é bancar corpo mole e fazer ameaças em cima de informações veladas publicadas nas entrelinhas da imprensa.

Temos no Brasil um ex-presidente preso a partir de uma farsa jurídica que não só atende os interesses do mercado – lembra do Pato da Paulista? – como de boa parte do mundo político, com o próprio Rodrigo Maia servindo de ‘fiador’ de um governo notoriamente corrupto como o de Michel Temer.

Temos uma ex-presidente deposta a partir de uma tese fajuta comprada por R$ 45 mil por um presidente partidário igualmente corrupto como Aécio Neves, do PSDB – e agora aparece uma nota num dos principais jornais do país dizendo que um mandatário legitimamente eleito pode vir a descer a rampa de saias se não cumprir o que está no script.

Como presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia precisa se manifestar. E de forma urgente.

Deve assegurar primeiro que não é um fora da lei como Eduardo Cunha. E depois garantir que está ali não para compactuar com jogo de poderosos e sim para salvaguardar através do parlamento a soberania nacional e a vontade popular.

José Cássio
No DCM
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Sem reforma, Bolsonaro cai

Articulista da Exame esculhamba reforma dos militares


Por Sérgio Vale, mestre em Economia pela USP e pela Universidade de Winsconsin, na Exame:

Sem reforma da Previdência, presidente não termina mandato

Em menos de três meses de governo, às vezes parece que estamos falando de um mandato que está terminando. A impressão de “pato manco” começa a se espalhar pelo governo Bolsonaro rapidamente e a primeira vítima poderá ser a reforma da Previdência.

Em coluna anterior, enfatizamos a justiça social por trás da reforma, da qual se esperava que houvesse a mesma visão quando viesse a reforma dos militares. Entretanto, o banho de água fria se instalou quando se viu que as perdas relativas dos militares seriam muito menores do que dos servidores públicos civis e do setor privado. Por estarem entranhados no poder e com um presidente de origem militar a sensação de manutenção de privilégios era tudo o que a turma do contra queria para barrar a reforma. Esse primeiro erro estratégico será cobrado caro nas próximas semanas.

Na sequência, os atritos entre o Legislativo e o Executivo aumentaram, com a clareza cada vez maior de que não há articulação política para a reforma da previdência. A declaração de Bolsonaro de que preferia não aprovar essa reforma, mas que precisa ser feita não ajuda na frente de batalha. O Congresso não parece querer ficar com o ônus de uma reforma que o presidente insiste em não abraçar como deveria.

As divergências entre Rodrigo Maia e Sergio Moro e a prisão do ex-presidente Temer dão mais pimenta para um molho que já estava intragável. Resta saber agora se há chance dessa reforma passar.

Os mercados já começaram a incorporar nos preços o risco de não aprovação da reforma. Depois de bater nos 100 mil pontos, o destino da bolsa por algumas semanas deverá ser novas baixas, da mesma forma que o câmbio caminha célere para R$/US$ 4,0. Mas isso talvez não seja suficiente para acordar o governo. Os mercados poderão ter que reagir mais negativamente para pressioná-lo a mudar a rota e se empenhar mais pela reforma. Parece tom de ameaça dos mercados quando se fala isso, mas é apenas a incorporação do que significará à frente a não aprovação da mesma. O risco que pode ficar crescente é que na instabilidade dos mercados a desarticulação política aumente. Há chance de abandono precoce do barco de um governo que insiste em não negociar e cada vez mais com menos liderança.

A morte precoce do governo Bolsonaro pela não aprovação da reforma detonará a volta da recessão em cima de uma economia que ainda se encontra muito fraca. O PIB caiu 11% entre dezembro de 2013 e dezembro de 2016 e até agora recuperou apenas 4,5%. As recuperações judiciais voltaram a aumentar ano passado e, para piorar a situação, o cenário internacional tem dado mostras de piora a cada mês, aumentando ainda mais o risco de depreciação mais forte da taxa de câmbio.

No caso de um cenário de crise econômica será difícil qualquer tipo de Plano B. Certamente o Pacto Federativo do Ministro Paulo Guedes não é uma alternativa e nem passaria em situação de tamanha crise. O problema será de difícil solução pois o grupo político que gerou a crise não terá espaço para pensar em Plano B depois de desperdiçar o Plano A. Isso também inviabilizaria a continuidade das concessões e privatizações, reforma tributária e qualquer outro tipo de acordo com o Congresso. A pura inviabilização de qualquer avanço traria novamente o descontentamento da população com a recessão (aliás, em cima de um governo que já está começando a ficar impopular). Bolsonaro, nesse sentido, não seria diferente de Dilma, sendo que o descaso com a política é o que une os dois presidentes.

A sequência da crise política com nova crise econômica seria devastadora para o governo. Haveria a opção desgastante de buscar novo impeachment, o que seria facilitado pela recessão, mas com a demora do processo piorando ainda mais o quadro econômico. Golpe parece algo distante, especialmente porque seria de todo interesse do governo trabalhar pelo vice-presidente Mourão, que mostrou evolução impressionante e discernimento para entender o papel que lhe cabe no Planalto. Numa tentativa de golpe, os militares ficariam com Bolsonaro ou Mourão? Creio que o desgaste que a cúpula militar já sofre com Bolsonaro faria a opção Mourão ser facilmente aceita.

Há também a solução Jânio Quadros. Descontente com o Congresso que não lhe atendia e acreditando que voltaria nos braços do povo, Jânio renunciou com sete meses de governo e virou personagem de triste memória. Seria a solução menos traumática talvez, mas com os filhos do presidente sendo a voz provavelmente contra tal decisão.

Parece loucura escrevermos sobre esses cenários com três meses de governo, mas é o que tende a acontecer se o Executivo não acordar para a dura realidade de se empenhar mais para que a reforma seja aprovada. Quero crer que o governo tenha plena consciência disso e comece a se articular para aprovar a reforma.

No CAf
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Maria Cristina Fernandes: Um Brasil pobre no Clube dos Ricos

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O tolo na montanha

O comércio do Brasil com os Estados Unidos foi deficitário para nós entre 1901 até o início da Segunda Guerra Mundial


A recente “aula magna” do novo ministro das Relações Exteriores do Brasil aos alunos do Instituto Rio Branco trouxe à memória a letra de Fool on the Hill, de autoria de Lennon e McCartney. A letra, por sua vez, revela uma ironia sobre o guru Maharishi Yogi que, segundo eles, “na montanha vê o sol se pondo, seus olhos no rosto veem o mundo girando e nunca dá resposta alguma”.

A aula se inicia com a “importante” constatação de que os ingressos no IRBr não são estudantes de Relações Internacionais. Depois, desfia um diagnóstico crítico sobre a política externa brasileira dos últimos anos, usando o mesmo sufixo ao mencionar itens daquela agenda diplomática como comercialismo, nominalismo, tematismo, climatismo, globalismo, universalismo e multilateralismo. No entanto, para classificar as alternativas que propõe para a agenda seriam necessárias palavras com os sufixos “ice”, “ante”, “ez” e “em”.

A começar pelo seu entendimento sobre o comércio internacional. Disse outra obviedade: que a política externa não é apenas comércio. Porém, quando teve a oportunidade no cargo de ampliar o escopo e resgatar uma característica importante da política externa brasileira, que é a intermediação pacífica de conflitos, no caso da Venezuela não somente a perdeu, como escolheu um lado e nos incluiu no conflito. Da mesma forma em relação ao conflito histórico na Palestina, no qual escolheu o lado israelense chocando-se com as resoluções da comunidade internacional, inclusive aquelas apoiadas pelo Brasil desde 1948, ao defender a mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.

O ministro também disse que o comercialismo nos domina, traz poucos resultados e perspectivas e acrescentou que não “entregará a alma” em troca da venda de soja e minério de ferro e que bom mesmo foi entre 1900 e 1975, quando o Brasil foi um dos países que mais cresceu no mundo graças à parceria com os Estados Unidos. Quando diversificou suas relações em direção à Europa e América Latina na década de 1970, o crescimento estagnou. Mais tolices, pois é inegável o papel do comércio exterior no desenvolvimento de qualquer país, tanto ontem, quanto hoje. Se o comércio não fosse importante, porque a guerra comercial entre EUA e China? Aliás, é comum os opositores dos governos Lula e Dilma atribuírem seus bons resultados econômicos unicamente ao boom das commodities na nossa pauta de exportações. O ministro também parece ignorar que as crises do petróleo, o fim do acordo de Bretton Woods, a mudança do paradigma econômico do pós-segunda guerra para o neoliberalismo, a crise da dívida externa e a financeirização da economia a partir dos 1970 reduziu sobremaneira o crescimento econômico mundial, Brasil incluído, precisamente pela interligação global que já estava estabelecida entre os países capitalistas.

Quanto à parceria que encanta o ministro e que se tornou um meio de vida para seu guru na Virgínia, sem mencionar os danos que nos causou durante a Guerra Fria, particularmente para nossa democracia, os dados de exportação e importação do IBGE, Banco do Brasil e Alice Web desmentem frontalmente sua afirmação. As exportações brasileiras entre 1901 e 1939 dirigiram-se principalmente para a Europa. Este destino foi superado pelos EUA entre 1940 e 1966, mas embora este possa ter sido o principal receptor individual de nossas exportações desde a gestão Rio Branco frente ao Itamaraty até 2008, foi somente durante a segunda guerra mundial e no início dos anos 1950 que estas chegaram a superar 50%. Em todo o restante do século XX, as exportações brasileiras para a América do Sul, Argentina em particular, Europa, Ásia, Oriente Médio e África, estas duas últimas a partir das independências na década de 1950, somadas, sempre foram majoritárias em comparação com as destinadas aos EUA.

Analisando as importações constatamos que o comércio do Brasil com os Estados Unidos foi deficitário para nós entre 1901 até o início da Segunda Guerra Mundial quando a balança se equilibrou, mas voltou a ser deficitária quando ela terminou e a balança somente se equilibrou ao final dos anos 1960.

Até o final da década de 1970, a participação brasileira no comércio mundial alcançou 1,4%, mas ela decaiu posteriormente para 0,9% devido à década perdida dos anos 1980 e às orientações do “Consenso de Washington” (o nome não é coincidência). No entanto, durante o governo Lula, esta participação voltou ao patamar tradicional e fez parte do crescimento econômico e comercial dos países emergentes. Tal participação, no início dos anos 1990, respondia por um terço do comércio mundial e, no novo século, antes da crise iniciada nos Estados Unidos e que depois contaminou a Europa, passou a responder pela metade do comércio.

Por fim, em 2010 o Brasil chegou à situação de sexta economia mundial, por várias razões, mas principalmente por ter ampliado suas relações internacionais e as comerciais. O único senão é a constatação do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães de que, apesar de sua importância no cenário internacional, o Brasil ainda não teria resolvido suas disparidades internas nas áreas sociais, culturais e outras, em comparação com os países mais desenvolvidos.

Este é um desafio que caminhávamos para superar, mas que não está na agenda do atual governo, muito pelo contrário, e tampouco na do chanceler e de seu “Maharishi” dos montes da Virgínia. Aliás, ele esteve nesta semana em Washington junto com seu chefe e com seu guru, empenhado em entregar as riquezas do Brasil a troco de banana.

Kjeld Jakobsen
No CartaCapital
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Sérgio Augusto: "Bolsonaro? Espero o pior..."


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Alerta em Barão de Cocais e risco em barragem chega ao nível pré-rompimento

Alarme foi soado na Mina de Gongo Soco, indicando ameaça de colapso iminente. Área abaixo do reservatório já havia sido evacuada


As autoridades mineiras dispararam as sirenes e elevaram o risco de rompimento da Barragem Sul Superior na Mina de Gongo Soco, em Barão de Cocais, na Região Central do estado, para o nível 3 – o último previsto pela mineração antes do vazamento. A informação foi confirmada pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG), que entrou em contato com socorristas da Vale para checar a situação do local.

Por meio de nota, a mineradora confirmou o aumento do nível de alerta da barragem . De acordo com a empresa, após vistoria técnica, um auditor independente informou que a estrutura está em condição crítica de estabilidade, com possibilidade de liquefação. No entanto, conforme os bombeiros que atendem Barão de Cocais, a Vale assegurou que não há possibilidade de rompimento.

De acordo com a Coordenadoria de Defesa Civil de Minas Gerais (Cedec), a previsão é de que, no domingo ou na segunda-feira, seja feito um treinamento de resgate em uma área secundária que está fora da Zona de Autossalvemento (ZAS). Em caso de rompimento da barragem, demoraria cerca de 1 hora e 12 minutos para os rejeitos atingirem a comunidade. Na região, vivem aproximadamente 3 mil pessoas.

Ainda segundo a coordenadoria, as sirenes foram acionadas por volta das 21h30 após uma reunião entre autoridades de vários órgãos. Atualmente, há sete viaturas da Polícia Militar (PM) na cidade para realizar os regastes em caso de rompimento.

A previsão é de que intervenções técnicas sejam feitas na barragem para diminuir o risco de colapso da estrutura. No entanto, visto que uma intervenção poderia causar maior instabilidade na represa, será feito um estudo anterior com a área técnica.

Segundo documento oficial da Cedec, esse nível “caracteriza-se por uma situação de ruptura iminente ou que está ocorrendo”.

As comunidades próximas à barragem foram evacuadas do local em 8 de fevereiro. No total, 452 pessoas saíram às pressas de suas casas naquela ocasião, durante a madrugada de uma sexta-feira, após o acionamento dos sinais sonoros de emergência. As medidas, segundo a Vale, faziam parte do Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração (PAEBM).

A barragem sul superior é uma das 10 barragens de alteamento a montante inativas remanescentes da Vale. A estrutura está incluída no programa de descomissionamento anunciado pela mineradora. O alteamento é o mesmo utilizado nas barragens de Mariana e Brumadinho, que se romperam em 2015 e em janeiro deste ano, respectivamente.   

Bloqueio

Em 1º de março, a Justiça mineira bloqueou R$ 50 milhões da Vale como forma de garantir o ressarcimento por possíveis prejuízos causados pela evacuação de moradores de Barão de Cocais. A medida foi tomada depois que uma consultoria avaliou que a barragem Sul Superior da Mina Gongo Soco tinha risco de se romper.

A ação é de autoria do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e da Defensoria Pública. No entanto, na ocasião, os órgãos solicitaram o bloqueio de R$ 1 bilhão, o que foi diminuído pela Justiça. O valor acatado corresponde a 5% do solicitado.

Sítio histórico

Gongo Soco é um sítio histórico de grande importância para Minas Gerais, em Barão de Cocais, distante 76 quilômetros de Belo Horizonte. A mina, provavelmente uma das mais antigas do estado, viveu períodos de apogeu durante o ciclo do ouro no século 18, a decadência na extração dessa riqueza e uma outra fase de exploração de minério de ferro.

Foi operada pela Vale entre 2000 e 2016, com produção que baixou de 6 milhões de toneladas por ano até o seu fechamento. A extração de ferro foi iniciada em 1987 e 11 anos depois houve nova etapa de pesquisas para buscar ouro.

O patrimônio e a cultura de Minas também estão sob risco das barragens. Historiadores contam que um comerciante de madeira, chamado Manuel da Câmara Bittencourt, descobriu ouro na antiga vila de Gongo Soco no início do século 18, quando a mina ficou conhecida.

A reserva foi herdada pelo Barão de Catas Altas, João Batista Ferreira de Sousa Coutinho. No século 18, tanto a vila quanto a mina foram vendidas à companhia inglesa Imperial Brazilian Mining Association.

Os ingleses construíram aldeia, ponte, fundição de pedra e duas igrejas. Era o próprio Barão de Catas Altas quem guardava sob chaves em um grande palácio que ergueu no local.

As ruínas da vila e o palácio foram tombados em 1995 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iphan).

Pedro Lovisi | Gabriel Ronan
No EM
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Como o Intercept derrubou duas páginas de ódio sem dar audiência para elas


Desde o atentado na escola de Suzano, temos discutido aqui no Intercept qual é a melhor maneira de abordar casos de disseminação de ódio, ameaças, suicídios e terrorismo. A gente já decidiu, por exemplo, que não vai dar os nomes e nem informações detalhadas sobre assassinos e os espaços que costumam incitar e aplaudir violência. O que eles querem é notoriedade – e nós não vamos contribuir para isso.

Nesta semana, surgiu um novo caso. Um notório troll brasileiro, saído das profundezas dos chans, conseguiu espaço – e audiência – no Google e no Facebook. Com um histórico que inclui prisão por racismo e pedofilia – além de uma intensa atuação para ameaçar e perseguir pessoas na internet –, ele começou recentemente a conseguir um novo público nas redes sociais. Em posts, vídeos e até lives, ele falava abertamente sobre teorias conspiratórias e distribuía ameaças. Dava para fazer o bingo das violações dos termos de uso das plataformas, mas o conteúdo ficou dias no ar – o suficiente para alcançar uma audiência de mais de 200 mil visualizações.

A nossa primeira reação foi cogitar publicar uma reportagem sobre os vídeos como forma de pressionar as plataformas a tirar o conteúdo do ar. Mas surgiu a dúvida: não estaríamos ao mesmo tempo contribuindo para a notoriedade do troll? Tomamos um caminho diferente. Denunciamos os vídeos nas próprias plataformas e pedimos explicações às empresas por meio de suas assessorias de imprensa: por que aquele material ainda estava no ar? Dois dias depois das nossas denúncias, tanto Google quanto Facebook decidiram remover as páginas. Disseram, por meio de suas assessorias de imprensa, que o conteúdo violava suas políticas de uso. Ajudamos a derrubar os vídeos sem que fosse preciso publicar links, nomes, fotos ou nada que aumentasse a relevância do troll.

As plataformas se equilibram no difícil limiar entre a liberdade de expressão e a violação de direitos, mas não raramente tendem para o primeiro lado porque, para elas, garantir um espaço ~livre~ garante, também, a prosperidade de seu modelo de negócios. Já explicamos como as gigantes de tecnologia contribuem para exacerbar nossas emoções e intensificar a nossa raiva – isso aumenta as interações e, consequentemente, as possibilidades delas nos conhecerem e lucrarem com propaganda direcionada. Também mostramos que o YouTube, por sua natureza, se tornou um ambiente fértil para a propagação de vídeos extremistas, em especial aqueles que favorecem ideologias da extrema direita.

Por causa da escala e do gigantesco número de usuários, Google e Facebook gostam de dizer que investem em inteligência artificial que avalia automaticamente os conteúdos que sobem atrás de violações. As máquinas são eficientes em identificar violência gráfica, nudez ou pornografia infantil, mas ainda patinam para reconhecer discurso de ódio, que pode estar escondido em nuances, gírias ou piadas internas. Assim, quando um conteúdo é denunciado, ele costuma passar por uma avaliação humana que leva em conta o contexto. E isso não depende do número de denúncias, mas da natureza delas. E esse sistema nem sempre funciona – um passeio rápido por qualquer rede social mostra que, apesar das denúncias, elas ainda são um terreno fértil para a propagação do ódio.

Por isso, a pior coisa que você pode fazer se quiser chamar atenção para este tipo de problema é divulgá-lo. Ok, entendemos que pode ser irresistível postar um link indignado – golden shower do presidente da república manda lembranças –, mas isso, na prática, só vai fazer com que mais gente tenha acesso àquilo. Você vai aumentar a audiência, que contará com a ajuda dos próprios algoritmos das redes sociais para popularizar justamente aquilo que acha que não deveria estar no ar.

Depois do atentado em Suzano, autoridades já começaram a falação de sempre culpando os games e a internet. A deputada Joice Hasselmann, do PSL, disse que quer que a Polícia Federal investigue a deep web. O deputado Filipe Barros, do mesmo partido, chamou uma audiência pública para discutir a "vulnerabilidade de menores de idade nas redes sociais", principalmente, segundo ele, "por causa da deep web". É muito fácil, e até natural, que se busquem culpados simples – mas o problema é muito mais profundo do que uma ou outra tecnologia. A deep web é o lugar onde muitos crimes são cometidos, sim, mas é também um espaço seguro para troca de informações em um tempo de vigilância massiva e risco real de vida para muitos ativistas. Aqui no Intercept, por exemplo, as pessoas podem nos enviar documentos de forma segura pelo Secure Drop, que deve ser acessado pelo navegador Tor, que garante navegação anônima.

A internet não é um mundo paralelo. Ela é um reflexo da sociedade. Uma sociedade violenta vai assistir a programas violentos na televisão. Vai compartilhar indignação. E vai encontrar fóruns obscuros para discutir absurdos. A solução mais simples é criminalizar a tecnologia, é claro – porque discutir a cultura de ódio, tão disseminada pelos próprios deputados do PSL, é muito mais complicado.

Nesse sentido, o papel da mídia e dos intermediários que também funcionam como mídia, como Google e Facebook, precisa ser discutido. Se a sociedade valoriza a violência, nós vamos dar a ela o que ela quer ver, exacerbando o ódio? Ou assumir uma postura mais responsável? Na Nova Zelândia, a primeira-ministra Jacira Ardern se recusou a falar sobre o atirador responsável pela morte de 50 pessoas em uma mesquita. "Ele buscou muitas coisas em seu ato de terror, entre elas a notoriedade. É por isso que você nunca me ouvirá mencionar seu nome", disse.

Por aqui, acreditamos que a defesa da liberdade de expressão passa, necessariamente, pela manutenção de espaços seguros para que as pessoas possam falar livremente e ser quem elas são sem correr risco por isso. Por isso, disseminar um conteúdo de ódio – ainda que for como denúncia – não é mais importante do que agir para que ele seja removido o mais rápido possível, cobrando responsabilidade de quem deve ser cobrado. Se Google e Facebook não tivessem derrubado os vídeos, publicaríamos uma reportagem denunciando a omissão. Felizmente, não foi necessário. Esperamos que não seja necessária a pressão de um jornalista para que isso aconteça.

Alexandre de Santi e Tatiana Dias
No The Intercept
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Exclusivo - O hit do momento


Suucééssoooo!

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Bolsonaro não vai largar o Twitter e assumir o governo


O fato de Jair Bolsonaro ter ascendido à presidência da República tendo como núcleo de seu apoio político falanges agressivas, fanáticas, e que acham que a política é destruir, dizer que prendam ou morram quem lhes ousar contestar, mesmo que ponderadamente, traz uma facilidade para quem analisa as opções deste governo, infelizmente.

É que, numa rápida ronda pela internet, fica fácil ver como eles reagem diferentemente às direções políticas que lhes dão o capitão e os seus articuladores políticos.

Flávio Bolsonaro e Joice Hasselman, na redes sociais, e Ônyx Lorenzoni, fora delas, entraram hoje de bombeiros na fogueira que arde na Câmara.

O resultado, nelas e naquele site que chamo de O Bolsonarista foi uma enxurrada de impropérios e ameaças ao presidente da Câmara.

Fora delas, um almoço de Ônyx com o presidente da CCJ e o líder do PSL, que engoliram a promessa de que, na segunda-feira, começam a sair as nomeações que, claro, não saíram em 80 dias de governo.

Que se resolvam uma ou outras situações, a esta altura, nem a “Velhinha de Taubaté” acredita.

O ex-capitão não deu, não dá e não dará qualquer sinal cibernético de pacificação, embora possa simulá-los em entrevistas e eventos.

Já escrevi aqui, várias vezes, que a sustentação de Jair Bolsonaro depende mais de um clima de ódios do que de um programa – ainda que de direita – de governo.

Este clima habita a internet.

É mais importante a ele conservar o fanatismo que aprovar qualquer medida, mesmo a reforma que sabe ser a exigência aparente do “mercado”.

Aparente, porque a real é dinheiro e nesta ele está disposto a ser pródigo. E, claro, para destruir as forças que o “mercado” não aceita, embora lhe tenham sido suaves por quase década e meia.

O pedido de Rodrigo Maias feito hoje, no Jornal Nacional, para que Jair Bolsonaro dedique “mais tempo para cuidar da Previdência e menos tempo para cuidar do Twitter” é inócuo.



Pois o Twitter é a base governista para Bolsonaro e dela ele não se afastará.

Fernando Brito
No Tijolaço
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STF errou e agora é vítima de terríveis erros

Infelizmente, a falta de bom senso e de conhecimento sobre nossas leis agora atinge patamares maiores


Nosso Supremo Tribunal Federal recebe há meses ataques pesados de forças que não querem um país de aplicação e respeito pelos direitos e garantias individuais. Não adianta negar que muito dos seus problemas vêm das cadeiras ocupadas, pois que momentosos como todos nós, alguns atritos nos debates muitas vezes incendeiam a alma dos ministros – geralmente os mais palavrosos como Gilmar Mendes, Roberto Barroso e Marco Aurélio.

Ocorre que os ataques têm sido ordenados nas redes sociais – essa gasolina de paixões, distribuidora de falsas verdades – por leigos em direito e apaixonados pelo embate político dicotômico em que vivemos, sem nenhuma vontade e interesse de compreender qual o papel do Tribunal e a razão da Lei ser como é.

Some-se a isso o risco de um populismo de tom circense vivenciado pelo Senado Federal – possível julgador de ministros do Supremo Tribunal – que ameaça depois de ameaça, agora ousa querer abrir a chamada “CPI da toga”.

A acusação: o Supremo seria contra a operação Lava Jato.

As evidências contra o Supremo: teria soltado alguns investigados e ido firmemente contra os procuradores de Curitiba, em razão de desmandos cometidos ao longo do tempo e agora, com brava retórica, quando uma Fundação seria criada por esses senhores para gerir mais de R$ 2.500.000.000,00 de reais.

Acho que o número de ‘0’s está certo.

Some-se a isso um detalhe sobre o MPF: teriam seus integrantes assinado acordo com autoridades americanas se autoproclamado “brazilian authorities”. Ou seja, declararam-se, os procuradores, as “autoridades brasileiras”. Mas sequer integrantes de um Poder da República, são.
Os ministros estão cobertos de razão: os meninos e meninas de D’Artagnan passaram do limite e um freio precisa lhes ser imposto.
Por ódio a Lula aceitou-se de tudo. Da advogada que iniciou os acordos desaparecer sem explicar porque era a advogada indicada pelos próprios meninos de D’Artagnan, delações premiadas realizadas depois de breves exposições indicativas que esposas e filhas seriam presas caso não colaborassem (leia-se sobre a espontaneidade das colaborações), criaram-se penas que não existem nos códigos penais (os regimes diferenciados), se interferiu nas eleições presidenciais maliciosamente, foram vazadas informações sigilosas à imprensa em troca de sua fidelidade e entusiasmo… E Lula está preso. Existirão mais suspeitas de que Lula é corrupto do que Moro ter sido parcial?

Infelizmente, o Supremo Tribunal, tentando se adaptar a um novo mundo em que se ganham eleições com base em opiniões de redes sociais abriu suas janelas ao falar com esses brasileiros e assim, às paixões populares; com essa abertura, tornou-se alvo da sanha exigente dos detratores do direito, geralmente pessoas postas ou deixadas à miséria para serem mais facilmente controladas pelo Estado. E o que elas querem? Mais Estado.

Foi escrito nessa coluna, anos atrás:

“Mas são tempos de outra coisa. Tive a oportunidade de lembrar a velha máxima forense alguns textos atrás: “Quando a política entra pelas portas do Tribunal, a Justiça esvai-se pelas janelas, a buscar os céus”. Temo ser o contrário dessa máxima, também verdadeiro, o que é ruim para o Estado de Direito. Mas, repito, é só um temor de um jovem já com calos”.

E o Tribunal dialogou com a insanidade da massa enfurecida, esquecendo-se que clamor por justiça é a forma dos vilões instigarem o povo ignorante e sem escolas a queimar seus adversários em praça pública e evitar que o povo seja chamado à razão e a entender as consequências dos seus atos. Chamados, em suma, a julgar sem saber o que está julgando.

Isso pode ser percebido por frase da ex-presidente ministra Cármen Lúcia: “o clamor por justiça que ecoa pelo país não será ignorado por essa casa”.

O que é Justiça em um Estado de Direito? O clamor popular aceitaria a absolvição como ato de Justiça? De qual clamor a ministra presidente se referia nessa frase?
A própria razão de existir um Tribunal é não se permear – nos julgamentos criminais – por qualquer paixão, ódio e amor (esse talvez vá lá) oriundos da política ou ao menos, pelos jogos políticos.
Exatamente por esse motivo – para que ao povo não se deva satisfações – é que os ministros da Suprema Corte não são eleitos em escrutínio. Pode parecer estranha a frase “para que ao povo não se deva satisfações”, mas é isso mesmo.

Quando o ministro Barroso afirma, já que o faz sempre, que na busca pelos direitos fundamentais das minorias o papel do Supremo Tribunal ao contrário do papel do Congresso (majoritário) é ser contra majoritário (ir contra a maioria), assim também deveria ocorrer em matéria penal. A evidência histórica é simples: tiramos das ruas enfurecidas os julgamentos penais, o que evidencia que a formatação dos Tribunais nasce da necessidade de julgar com parcimônia e razão os casos que a população apaixonada e enfurecida só sabia concluir com fogueiras e decapitações.

Enquanto nas questões legislativas a vontade da maioria (e seus representantes) silencia lutas por direitos individuais, esquecendo-os em gavetas, na esfera penal ocorre igual fenômeno de proteção da parte em situação vulnerável, o acusado; mas com uma maioria que sequer é maioria, desorganizada, instigada por “gênios” vereadores que assumem presidências e cliques de redes sociais.

Mas seja visto o resultado desse diálogo juízes/opinião pública:

O impeachment de QUATRO ministros do Supremo Tribunal! O motivo: conceder habeas corpus para pessoas responderem aos processos em casa.

Infelizmente, a falta de bom senso e de conhecimento sobre nossas Leis, tudo isso como resultado esperado e almejado de um processo de ignorância de décadas (ou de séculos), agora atinge patamares maiores.


Não bastasse, bradou por mais: disse que depois de Gilmar Mendes, viriam os “Lewandowski” da vida.

É a típica sanha dos desvalidos de cultura e mancos da moral.

Investigar pessoas antes de conhecido oficialmente qualquer fato que a desabone é perseguição inadmissível no mundo regido por Leis e mais grave ainda, no mundo de ética mínima.

Antes da retórica falha, circense e frouxa, que ao menos se estude e seja entendido que o Supremo Tribunal Federal, pois assim quer a Lei, não permite a prisão de pessoas antes de serem julgadas. Apenas em casos excepcionais isso ocorre e tanto Gilmar, como Lewandowski, como Fachin e Barroso soltam desvalidos e ricos todos os dias.

E acredite-se: soltam pouco. Muitas pessoas estão presas preventivamente ou já condenadas injustamente nesse país. Os números? Não os temos. Não temos números de nada. Mas se algo vale dizer, se diria que muitos pobres e miseráveis também são soltos no Supremo Tribunal todos os dias, assim como no STJ e nos Tribunais Estaduais, o que vale dizer é o reconhecimento, cada uma dessas solturas, de graves erros dos juízes brasileiros.

Uma nota quase final: para se entender a comunicação é preciso conhecer seus dois lados, quais sejam, o orador e o auditório para o qual fala.

Hoje isso ficou fácil. Abaixo, a lista de comentários da rede youtube.

Foram mais de um milhão de visualizações e mais de noventa mil “curtidas”. O vídeo é forte e os comentários, reveladores sobre com quem os “eleitos” estão conversando:

1. Palhacinho Brasileiro! 17 horas atrás
melhor video do ano contra esses terroristas do STF!!
Nas próximas eleições vou transferir o meu título pro Estado de Goiás. Meu voto é do Cajuru.
3. ANTONIO BOTELHO 14 horas atrás
Parabéns, tomara que mais senadores siga esse exemplo e vai junto com e povo TB.
4. Amilton Ribeiro 15 horas atrás (editado)
Eu sempre admirei este cara, pois é um dos poucos que não tem medo de mostrar a verdade, e um dos únicos que não tem medo de desmascarar os a ipócritas e corruptos!
5. Irritado tá loco12 horas atrás
Falo tudo que esse LADRAO merecia ouvir! So falto uns tabefes👊😡
6. Nielsom Frazao 17 horas atrás
Quem dá apoio, há corrupto, é corrupto também,mete o pau neles Kajuru!
7. Lucas Alves 16 horas atrás
Parabéns Jorge Cajuru 👏👏👏… Cadeia para este Vagabundo Gilmar Mendes já 😎👏
8. Edna Sousa da Silva 8 horas atrás (editado)
PARABÉNS KAJURU 👏👏👏 ESSE VAGABUNDO DESSE LIXO TEM QUE SER DESMASCARADO..
9. Merivaldo Silva 10 horas atrás
É isso aí senador kajuru, Goiás Brasil tá de Parabéns! Esse vagabundo gilmar mendes merece uma cadeia do tamanho da cadeia do LULALADRÃO!
10. Ronaldo Thummel 11 horas atrás
Verdade as TVs são cumprices , ignoraram as manifestações a mando do STF , bando de corruptos , uma hora vocês caem

Apenas um comentário sobre a horda, na verdade, um lembrete deixado por Ruy Barbosa às gerações futuras: “A degeneração de um povo, de uma nação ou raça, começa pelo desvirtuamento da própria língua“. Analfabetos armados de ideias, nada mais perigoso.

Aos detratores, que não entendem o patrimônio de 20 milhões de reais de Gilmar Mendes, valioso lembrar que ele é um dos autores jurídicos mais vendidos do Brasil (quase todas as faculdades indicam seus livros aos alunos na graduação, pós etc.) e é criador de uma das instituições de ensino jurídico de maior relevância do nosso cenário atual, a qual ele vendeu sua participação. E livros jurídicos são caros.

Apenas os direitos dos brasileiros não lhes são caros. Por isso a nossa miséria.

No Jota
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Bolsonaro ou o Brasil, esta é a escolha


O que mais assusta hoje não é ver a grande mídia engajada em defesa da liquidação da aposentadoria e, portanto, de Jair Bolsonaro. Era o esperado. Os arroubos de "oposição" oficial em grande parte limitam-se a críticas aos desvarios do militar no campo dos costumes. Ou então quando se trata de alucinações que ferem o decoro hipócrita dos poderosos.

De fato, Jair já era, Ernesto quem é, Damares de tal, Vélez alguma coisa, Olavo gun são aberrações que nem sequer a desprezível elite local está acostumada a lidar. A praxe é roubar e escravizar o Brasil fingindo que o povo está na direção do paraíso. Apostar na ignorância e desinformação. Esta tem sido a fórmula para tentar conter explosões sociais num país em que a desigualdade e as injustiças pairam acima de tudo.

Assusta mesmo é ver colunistas, articulistas e lideranças políticas ditas de oposição verdadeira, inclusive em portais "independentes", tratarem este governo como legítimo e legal. Está mais do que provado que a famiglia Bolsonaro foi eleita por métodos fraudulentos. Desde a prisão de Lula à manipulação eletrônica descarada, todas as evidências provam que o Planalto caiu nas mãos de malfeitores orientados a eliminar qualquer vestígio de avanço social.

Vale tudo. Milicianos assassinos acobertados e condecorados, embaixadora na ONU humilhando o Brasil para defender o emprego da filha, saldão da soberania nacional em Washington, elogios às ditaduras de Pinochet e Stroessner, apoio à intervenção na Venezuela, liberação de armas, liquidação da aposentadoria. O cardápio é vasto.

Tudo bem que o Brasil passou recentemente por dois impeachments, momentos sempre traumáticos. Embora haja diferenças abissais entre os dois. No primeiro caso, o de Collor, não havia como negar que a presidência tinha se transformado num balcão de negócios particulares do bando do presidente. Já no segundo caso viu-se um golpe sem precedentes contra uma mandatária contra a qual nunca se provou qualquer irregularidade capaz de provocar uma destituição.

Mas os fatos não deixam escolha. O "governo" Jair Bolsonaro prova sua ilegitimidade e ilegalidade a cada dia. O programa que ele vem aplicando não foi sufragado nem pela fraude eleitoral – até porque jamais foi apresentado, com exceção de imagens simulando o império das balas.

As pesquisas, seja qual for o instituto, mostram que a população é contra as privatizações selvagens, as mudanças na aposentadoria, o veto à liberdade na educação, a perseguição às minorias. Ou seja, tudo o que Bolsonaro propõe. Não é à toa que sua popularidade desceu ladeira abaixo em menos de três meses.

As pesquisas não bastam? Pode ser. Mas os atos explicam os fatos, e vice-versa. Aos olhos de todos, veio à tona a acusação de roubalheira orquestrada pela famiglia com assessores legislativos –até agora sem resposta. Ministros encalacrados com a Justiça desfilam com desenvoltura de cidadãos honestos a salvo do indescritível Sérgio Moro. O gabinete de "gente do bem" é uma Torre de Babel de imbecilidades, atrocidades e atentados à honra do povo brasileiro.

Qual a solução? Isto cabe aos políticos. A única inaceitável é tratar este governo como "alternativa democrática". Quanto mais cedo Bolsonaro for embora, melhor para o Brasil.

Ricardo Melo é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia
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