20 de mar de 2019

Popularidade vai parar de cair quando “Bolsonaro deixar de ser Bolsonaro”


A única maneira de deter a queda de popularidade no curto prazo é Bolsonaro deixar de ser Bolsonaro, o que implicaria em buscar o centro, diminuir de forma dramática a taxa de conflito, buscar zerar os ruídos políticos, procurar agregar, e passar a falar repetidamente para todo o país para gerenciar as expectativas (esperanças) dos eleitores.

O ótimo + bom do Governo Bolsonaro caiu 15 pontos, o regular aumentou oito pontos e o ruim péssimo aumentou 13 pontos. A série de dados em três meses mostra o fenômeno da queda com clareza: o eleitorado deixa de avaliar ótimo e bom, passa pelo regular e termina no ruim e péssimo.

Como a queda da avaliação positiva é rápida, espera-se que por inércia ela continue caindo no próximo mês. Há muitos motivos para uma trajetória dessa natureza, o principal é que o país continua em crise econômica e o governo – seu principal comunicador, o presidente – não “vende” esperança no futuro.

Quando Temer assumiu após Dilma a sua popularidade subiu em relação à antecessora. Era um sinal de que o eleitorado tinha esperança em dias melhores. Porém, como não veio a melhoria, nem o governo se comunicou com a população mostrando que estava se esforçando para que as coisas melhorassem, a popularidade de Temer entrou em queda.

Pode ser que Bolsonaro conheça a mesma trajetória. É importante ressaltar que o Presidente não compreende o seu papel de comunicador na atual posição, ao menos não deu sinais que assim o faz. Bolsonaro não fala para a maioria do eleitorado, não gera esperança em dias melhores e continua evitando as situações midiáticas espontâneas. Não parece que isso será modificado. Ele continua se comportando como deputado federal, falando para um conjunto restrito de eleitores.

O que é uma tarefa difícil, aprovar a reforma da previdência, ficará mais ainda. Os deputados não vão querer votar a favor de algo impopular defendido por um governo impopular, liderado por um presidente sem compostura no cargo.

O beneficiário direto da queda de popularidade do presidente é o PT, porque disputou o segundo turno com Bolsonaro. Há uma parcela de eleitores que jamais votará no PT, eles correspondem a 25% do total. Eles nunca votaram no partido, portanto, não podem ser classificados como anti-petistas. Eles simplesmente dão sustentação social, política e eleitoral à direita e centro-direita. O PT é beneficiário porque volta a ser visto como opção de poder pelos eleitores de centro, aqueles puco ideológicos e muito pragmáticos, que não guardam ressentimentos do passado e desejam dias melhores no futuro.

A única maneira de deter a queda de popularidade no curto prazo é Bolsonaro deixar de ser Bolsonaro, o que implicaria em buscar o centro, diminuir de forma dramática a taxa de conflito, buscar zerar os ruídos políticos, procurar agregar, e passar a falar repetidamente para todo o país para gerenciar as expectativas (esperanças) dos eleitores. Tudo é possível, mas nem tudo é provável.

Alberto Carlos Almeida
No GGN
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PF dá sequencia ao "lawfare" praticado contra Lula e seus familiares.


"O relatório produzido pela autoridade policial não tem qualquer implicação processual e muito menos afasta a garantia constitucional da presunção de inocência em favor do ex-Presidente Lula e de seu filho Luis Claudio.

Trata-se de mero documento opinativo, com enorme fragilidade jurídica e distanciamento da realidade dos fatos, que dá sequencia ao "lawfare" praticado contra Lula e seus familiares.

Lula jamais solicitou ou recebeu, para si ou para terceiros, qualquer valor da Odebrecht ou de outra empresa a pretexto de influir em ato da ex-Presidente Dilma Rousseff ou de qualquer outro agente público. Tampouco teve qualquer atuação nas atividades da TOUCHDOWN, empresa de titularidade de seu filho Luis Claudio que organizava um campeonato nacional de futebol americano.

Luis Claudio, por seu turno, comprovou serem mentirosas as afirmações de delatores da Odebrecht. A empreiteira jamais suportou os custos de fornecedores da TOUCHDOWN. Especificamente no caso do grupo CONCEPT, referido por tais delatores, Luis Claudio apresentou o contrato de prestação de serviços firmado com a TOUCHDOWN e comprovou ter feito todos os pagamentos dos honorários contratados e das despesas incorridas durante a prestação dos serviços.

Espera-se que o Ministério Público Federal de São Paulo, a quem cabe a análise do material, siga a lei e encerre o caso em relação ao ex-Presidente Lula e a Luis Cláudio, tendo em vista que eles não praticaram qualquer ato ilícito."

Cristiano Zanin Martins
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Parlamento da Alemanha pede expulsão do embaixador dos EUA


Parlamento alemão pede que o embaixador estadunidense seja declarado "persona non grata". O embaixador pretende imiscuir-se nos assuntos internos da política alemã.

O embaixador dos EUA na Alemanha, Richard Grenell
O vice-presidente do parlamento alemão, Wolfgang Kubicki, pediu ao Ministério do Exterior que se declare como "persona non grata" o embaixador dos Estados Unidos da América na Alemanha, Richard Grenell, por recentes atos de ingerência nas políticas internas do país europeu.

A solicitação se deve a uma publicação do funcionário estadunidense na conta oficial de sua embaixada no twitter, na qual mencionou que os atuais orçamentos da Defesa alemã são preocupantes para os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

“Se um diplomata estadunidense atua como um alto comissariado de uma potência de ocupação, ele terá que aprender que nossa tolerância tem seus limites”, assegurou o vice-presidente do Parlamento alemão, referindo-se aos comentários do embaixador.

Kubicki assinalou que, a continuar a ingerência de parte dos EUA, sobre assuntos internos da Alemanha, lhe caberá enfrentar sérias consequências.

Sendo os EUA membro da OTAN, o presidente Donald Trump, tem qualificado o organismo de obsoleto e já questionou os aportes de outros países membros - como também a ONU - por serem "menores em comparação aos dos EUA". A esse respeito ameaçou em reduzir o aporte estadunidense na organização.

No Telesur
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Bolsonaro mandou Xi tomar ali...

"Viés ideológico" vai quebrar a agro indústria brasileira

Eles se entendem e quebram o Brasil
Estava no fim a entrevista coletiva em que ficou claro que Bolsonaro e Trump combinaram invadir a Venezuela.

Um repórter perguntou a Bolsonaro se ele pretendia manter relações comerciais com a China (o maior parceiro comercial do Brasil e dos EUA).

- O Brasil pretende manter relações comerciais com todo mundo, mas não com viés ideológico.

Trump o cumprimentou com entusiasmo e os dois viraram as costas para ir embora, quando alguém berrou para Trump: como vai o acordo dos EUA com a China?

Trump se virou e disse que a China vai muito bem...

Na verdade, os EUA e a China estão perto de fechar um acordo comercial.

Nele está previsto que a China trocará a soja que comprava do Brasil para os Estados Unidos.

Já que o Brasil (os bolsonários) equipara a China a meliantes e contraventores do comércio mundial...

Trump manda o Bolsonaro esculhambar a China, mas faz acordo com a China.

E o Brasil destrói o que tem de melhor: a agro-indústria...

Em tempo: se alguém souber o que é "comércio com viés ideológico" ganha uma dúzia de laranjas do Queiroz - PHA
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Ao romper com países parceiros na OMC e se aliar aos EUA na OCDE, Brasil terá prejuízo histórico


Em sua viagem aos EUA, Bolsonaro e seu ministro da economia, Paulo Guedes, pediram apoio ao presidente Trump para que o Brasil possa ingressar na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Trump condicionou o apoio dos EUA à pretensão brasileira à renúncia do Brasil em continuar a receber tratamento especial e diferenciado previsto para países em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Pelas regras do GATT/OMC, os países considerados em desenvolvimento podem desfrutar de um tratamento especial e diferenciado que assegure a eles assegure certas flexibilidades no cumprimento das regras internacionais de comércio.

Esse tratamento especial inclui seis tipos de regras: 1) medidas destinadas a aumentar as oportunidades de comércio para países em desenvolvimento; 2) medidas de salvaguardas para proteger os países em desenvolvimento; 3) flexibilidade para cumprimento dos compromissos e para políticas; 4) períodos de transição mais longos para adaptação aos acordos; 5) direito ao provimento de assistência técnica para lidar com disputas comerciais; 6) medidas específicas para países muito pobres (LDCs).

O Brasil usava e ainda usa de tais medidas para proteger sua economia, ter acesso mais amplo a mercados e para desenvolver e manter políticas específicas destinadas à promoção de seu desenvolvimento.

De um modo geral, o tratamento especial e diferenciado permite ao Brasil: praticar tarifas de importação mais altas, ter tempo de transição mais longo para se adaptar a quaisquer novas regras da OMC, ter a possibilidade de, em negociações comerciais, não assegurar a reciprocidade plena às ofertas de países desenvolvidos, ter a possibilidade de acesso mais facilitado ao mercado dos países desenvolvidos e, sobretudo, preservar espaços para a implementação de políticas destinadas à promoção do desenvolvimento, como políticas de industrialização, de desenvolvimento regional, de ciência e tecnologia.

A própria OMC reconhece a existência de 183 cláusulas distintas, distribuídas entre os vários acordos da organização, que protegem os interesses de países em desenvolvimento.

Saliente-se, contudo, que os países desenvolvidos também conseguiram assegurar flexibilidades em áreas de seu interesse, como agricultura, por exemplo. Assim, o mercado de produtos agrícolas tem, nos países desenvolvidos, a proteção de uma montanha de subsídios, bem como de regras bastante liberais para a imposição de barreiras sanitárias e fitossanitárias, que impedem ou dificultam a exportação dos países em desenvolvimento competitivos nessa área, como o Brasil.

Mesmo assim, os países desenvolvidos e, em especial, os EUA, vêm tentando estabelecer novas regras que limitem o tratamento especial e diferenciado previsto nos acordos da OMC.

Dessa forma, os EUA apresentaram proposta na OMC, pela qual membros em desenvolvimento da organização não poderiam ter tratamento especial se forem membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) ou candidatos a entrar na entidade; se forem membros do G-20; se forem classificados como países de "alta renda" pelo Banco Mundial; ou se forem responsáveis por mais de 0,5% do comércio mundial de mercadorias.

Aplicando-se tais critérios da proposta americana, ficariam automaticamente excluídos do tratamento especial e diferenciado Argentina, Brasil, China, Índia, Indonésia, México, Turquia, Arábia Saudita, África do Sul Coreia do Sul, Chile, Brunei, Egito, Hong Kong, Israel, Kuwait, Malásia, Nigéria, Filipinas, Qatar, Cingapura, Taiwan, Tailândia, Emirados Árabes Unidos e Vietnã.

Obviamente, o objetivo principal dessa ofensiva norte-americana não é o Brasil. O objetivo principal é a China, com a qual o governo Trump deflagrou uma guerra comercial e econômica.

Na OMC, China, Índia e África do Sul, nossos parceiros de BRICS, partiram para uma contraofensiva. Esses países, entre outros contra-argumentos, enfatizam que o principal indicador de desenvolvimento não seria o valor do Produto Interno Bruto (PIB), como querem os EUA, mas sim o PIB per capita. O PIB per capita de países e blocos tipicamente desenvolvidos, como EUA, Austrália, Canadá e União Europeia oscila dentre US$ 33 mil a quase US$ 60 mil. Já no caso da China, Índia e Brasil, ele fica em torno ou abaixo de US$ 10 mil. Os países em desenvolvimento destacam ainda o enorme fosso que os separa dos desenvolvidos nos mais variados campos, incluindo áreas nas quais os ricos se beneficiaram de flexibilidades nas regras internacionais no passado.

É preciso considerar, ainda, que, mesmo com esse tratamento especial e diferenciado, foram os países em desenvolvimento que mais abriram seus mercados, após a Rodada Uruguai da OMC. Com efeito, entre 1990 e 2009, tais países aumentaram suas importações em 10,5% ao ano, ao passo que os países desenvolvidos aumentaram suas importações, no mesmo período, em apenas 5,8% ao ano.

Em passado recente, o Brasil teria se somado a essa contraofensiva liderada pelos BRICS na OMC. Contudo, o Brasil de Bolsonaro preferiu somar-se aos EUA, nessa ofensiva contra os países emergentes na OMC.

Ao aceitar renunciar a esse tratamento especial e diferenciado na OMC, como contrapartida a um apoio duvidoso dos EUA para entrar na OCDE, o Brasil rompeu com seu compromisso histórico de defesa das posições dos países em desenvolvimento e, particularmente, com seus parceiros do BRICS.

Esse é, portanto, o primeiro grande prejuízo para o Brasil, em função de tal decisão. Um grande prejuízo diplomático e geopolítico. O Brasil aliou-se aos EUA, contra os países emergentes e os BRICS, numa disputa crucial na OMC. Essa nova posição do Brasil não será esquecida em votações na OMC e em outros foros internacionais.

Quanto aos prejuízos econômicos e comerciais, é muito difícil quantificá-los a priori. Mas pode-se argumentar, sem medo de errar, que eles deverão ser extensos, propagando-se, no médio e longo prazos, a todos os setores econômicos: agricultura, indústria e serviços.

Assim que o Brasil renuncie a esse tratamento recebido na OMC, haverá pressões insustentáveis para que o nosso país reduza sua proteção tarifária em toda a TEC (Tarifa Externa Comum). Isso criará um problema político adicional: terá de haver negociações com os nossos parceiros do Mercosul para que se proceda a essas reduções, pois o Brasil participa de uma união aduaneira com esses países.

Mas, independentemente dessa negociação, a redução das tarifas efetivamente praticadas ou consolidadas (tarifas máximas permitidas) deverá acarretar prejuízos de monta, especialmente para os nossos setores industriais que não possuem ainda muita competitividade.

Observe-se que o Brasil pratica tarifas médias ponderadas de cerca de 11% em suas importações, e tem tarifas consolidadas na OMC de cerca de 35%. Já a maior parte dos países desenvolvidos pratica tarifas médias ponderadas de apenas 3%. O tamanho potencial do tombo é, pois, enorme.

Além disso, o Brasil deverá perder todas as preferências tarifárias de que hoje desfruta nos mercados dos países desenvolvidos.

Ou seja, perderemos mercado externo para nossas exportações e, ao mesmo tempo, abriremos nosso mercado interno para as exportações de outros países.

Outro grande problema que tal decisão acarretará tange à perda das flexibilidades quanto à implementação de políticas de industrialização, de desenvolvimento regional, de ciência e tecnologia, etc., particularmente aquelas referentes ao acordo de subsídios e medidas compensatórias. De agora em diante, ficaremos mais expostos a ações de outros países contra nossos programas industriais na OMC e receberemos tratamento mais rigoroso nos panels daquela organização.

Por certo, o Brasil não receberá nenhum benefício dessa renúncia. É por isso que China, Índia e muitos outros países em desenvolvimento não abrem mão desse tratamento especial e diferenciado e resistem a ofensiva dos EUA, destinada a enrijecer a elegibilidade para dele desfrutar. Ninguém abre mão de tratamento especial, nem no plano interno, nem no plano externo. Até mesmo a Coreia do Sul, mesmo sendo membro da OCDE e bem mais desenvolvida que o Brasil, não abre mão do tratamento especial e diferenciado que desfruta n OMC.

Os defensores da proposta de Trump, aceita por Bolsonaro sem nenhum estudo prévio, argumentarão, porém, que os inegáveis prejuízos com a renúncia ao tratamento especial e diferenciado na OMC seriam compensados pelo ingresso do Brasil na OCDE.

Engano. Em primeiro lugar, porque o apoio dos EUA às pretensões brasileiras não é suficiente. Os países europeus também teriam de concordar. Isso será difícil.

Estão na fila para entrar na OCDE, da América Latina, Colômbia e Costa Rica. Após a entrada desses países, a prioridade será, para os europeus, permitir o acesso de outros países do Leste europeu, não o do Brasil.

Em segundo lugar porque, mesmo que consiga entrar na OCDE, os prejuízos serão maiores que eventuais benefícios.

E o que é a OCDE? É uma organização que reúne 35 países, a grande maioria nações plenamente desenvolvidas, com algumas exceções, como México e Turquia, por exemplo. Criada em 1961, a partir da experiência da Organização para a Cooperação Econômica (OECE), organização constituída para gerir o Plano Marshall, a OCDE é também conhecida como o “Clube dos Ricos”, pois seus membros, basicamente os EUA, os países europeus, Japão, Coreia, Canadá e Austrália, produzem mais da metade do PIB mundial.

Seu objetivo político e econômico fundamental é o de promover as virtudes da “economia de mercado”, que ela associa indissoluvelmente à “democracia” e aos “direitos humanos”. Em seu site oficial, constam como suas prioridades atuais “restaurar a confiança no mercado e nas instituições que o fazem funcionar” e “reestabelecer finanças públicas saudáveis como base para o crescimento econômico sustentável”.

Assim, trata-se de uma organização comprometida com os valores, os princípios e as teses neoliberais, bem como com o funcionamento desregulado do capitalismo financeirizado, tal qual convém a um “Clube dos Ricos”.

Portanto, a adesão do Brasil, se concretizada, não virá de graça. A OCDE só aceitará o Brasil após uma avaliação rigorosa de suas políticas e de suas práticas. Caso julgue necessário, a OCDE demandará as devidas correções de rumo.

Na prática, o pedido do Brasil será submetido a um grande número de comitês, que avaliarão a adequação do nosso país às suas regras e recomendações.

O Comitê de Investimentos, por exemplo, avaliará se o Brasil está conforme com suas determinações de que os países-membros estejam comprometidos com a liberação da movimentação de capitais, com a inexistência de restrições a pagamentos e transferências ao exterior (nada de controle de capitais e de câmbio), a liberalização dos serviços financeiros ao capital internacional, a proteção efetiva e rígida, para além do que determina o acordo TRIPS da OMC (TRIPS plus), da propriedade intelectual (nada de quebra de patentes), etc.

Por sua vez, o Comitê de Seguros e de Pensões Privadas avaliará, entre outras exigências, se o Brasil já assegurou a eliminação de barreiras à participação do capital internacional nos fundos de pensões. A relação com a Reforma da Previdência é óbvia.

E por aí vai.

O irônico é que o Brasil já tira proveito da OCDE, sem arcar com essas imposições e custos políticos. Com efeito, nosso país participa como observador da OCDE e se utiliza de alguns de seus programas, como o do PISA, que mede a qualidade da educação no mundo. Também já aderiu voluntariamente a algumas de suas convenções, como a “Convenção sobre o Combate da Corrupção de Funcionários Públicos Estrangeiros em Transações Comerciais Internacionais”.

Então, por que insistir na adesão?

Em primeiro lugar, porque os governos pós-golpe, que se manietaram com a emenda constitucional do congelamento dos investimentos públicos, querem usar a OCDE como plataforma para atrair investimentos externos e inserir-se “nas cadeias globais de valor”. A OCDE daria, segundo eles, “um selo de qualidade” ao Brasil para a atração desses investimentos. Ora, isso é mito. O ingresso na OCDE não assegura fluxo de investimentos, especialmente de investimentos diretos. Esses investimentos só virão, independentemente do ingresso do Brasil na OCDE, caso o país volte a crescer de forma sustentada, algo que não ocorrerá, caso sigamos as determinações ortodoxas e neoliberais daquela organização.

A bem da verdade, o objetivo principal dessa adesão à OCDE é político. A finalidade pretendida pelo novo tzar da economia, Paulo Guedes, é blindar a sua opção ultraneoliberal em um acordo internacional de difícil reversão. Se o Brasil aderir à OCDE, ficará comprometido, sine die, com todas as exigências neoliberais dessa organização. Futuros governos, mesmo discordando dessa opção, ficariam obrigados a obedecer às diretrizes liberais ortodoxas emanadas da OCDE.

Na realidade, com a decisão tomada em Washington, a blindagem seria dupla. De um lado, renunciaríamos à proteção assegurada pelo tratamento especial e diferenciado na OMC. De outro, nos comprometeríamos, mediante o ingresso na OCDE, com os princípios neoliberais e de gestão ortodoxa da economia defendidos pelo “Clube dos Ricos”.

Mas a coisa vai além disso, que já não é pouco. Essa adesão formal ao “Clube dos Ricos” significa, do ponto de vista político e diplomático, que o Brasil renuncia definitivamente a sua política externa anterior e se submete aos desígnios estratégicos dos EUA e aliados e às demandas do mercado financeiro globalizado.

Com tal adesão, o Brasil sinaliza ao mundo que abre mão de ser um líder mundial dos países em desenvolvimento. Sinaliza que renuncia as suas parcerias estratégicas com países emergentes. Mostra que abre mão de um papel de relevo no BRICS. Sinaliza que renuncia a ideia de ter um espaço próprio e independente no concerto das nações.

Na realidade, essa adesão ao “Clube dos Ricos” é uma capitulação política e diplomática. É uma demonstração de submissão ideológica.

Saliente-se que, durante o governo Lula, quando o Brasil era respeitado no concerto das nações, fomos convidados a entrar na OCDE. Não pedimos. Fomos convidados. Se não formalmente, de forma pública e inequívoca.

Com efeito, o secretário-geral da OCDE na época (2009) afirmou, em entrevista à Folha de São Paulo (15.07.2009): "'Sobre a possibilidade de o Brasil se tornar parceiro formal da OCDE, só depende do país. As nossas portas estão abertas”. Mantega agradeceu, mas polidamente recusou, assinalando que Brasil não estava disposto a seguir as regras do bloco.

Bons tempos.

Marcelo Zero
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Estive em 26 universidades dos EUA e ninguém pensa duas vezes antes de definir Bolsonaro: “fascista”

Ativistas norte-americanos e brasileiros protestam contra a visita do presidente Jair Bolsonaro,
em 17 de março de 2019, na Lafayette Square, em frente a Casa Branca, em Washington, DC. Eric Baradat/AFP/Getty Images
No domingo, dia 17, Bolsonaro embarcou para os Estados Unidos para se reunir com empresários e o presidente Donald Trump. Com razão, ele anda preocupado com sua imagem pública de racista e ditador lá fora. Para mudar isso, o governo trocará o embaixador brasileiro em Washington, Sérgio Amaral, “que não estaria vendendo uma boa imagem do Brasil no exterior”.

Será que vai funcionar? Minha andança recente pelos Estados Unidos me passou a impressão de que a tentativa será em vão.

Nos últimos dois meses, passei por uma espécie de peregrinação pelas universidades norte-americanas, em um giro acadêmico que teve uma agenda de grande amplitude: foram 26 universidades, 35 palestras e dezenas de encontros com jornalistas, ativistas, estudantes e coletivos organizados em defesa da democracia. A ideia do tour surgiu logo após as eleições, quando a professora Érika Larkins, diretora do Brazil Program da Universidade Estadual de San Diego, convidou-me para explicar (com base em minhas pesquisas e de Lúcia Scalco) o fenômeno da extrema direita e a ascensão de Jair Bolsonaro para os “gringos”, sob uma perspectiva crítica.
Deparei-me com uma comovente solidariedade internacional.
Dias antes de partir, quando a notícia de minha viagem saiu nos meios de comunicação, deparei-me com a habitual ignorância bolsonarista. Nas redes sociais, fui chamada de vagabunda, burra e terrorista que viajaria com o dinheiro público para difamar Bolsonaro – mesmo que estivesse divulgado que eu estava sendo financiada pelas universidades norte-americanas, um homem disse que, quando eu voltasse para Santa Maria, Rio Grande do Sul, cidade onde leciono, eu iria ser pega na rua para “tomar um laço” (sic).

Ao contrário da truculência bolsonarista, ao longo dessa intensa jornada, deparei-me com uma comovente solidariedade internacional. Os departamentos a que visitei estavam muito sintonizados com a situação brasileira, denunciando o fascismo (expressão que eu raramente uso em contexto acadêmico, mas que era amplamente empregada pelos professores que apresentavam a minha palestra) e as ameaças à democracia.

Rosana Pinheiro Machado, autora do texto, durante palestra na Universidade de Columbia, em Nova York.
Rosana Pinheiro Machado, autora do texto, durante palestra na Universidade de Columbia, em Nova York.
Foto: Reprodução/Facebook Rosana Pinheiro Machado
Em cada lugar que eu passava, intelectuais e estudantes conheciam as frases misóginas e racistas de Bolsonaro. Eu havia preparado slides no qual – antes de falar da minha pesquisa propriamente dita –, eu apresentava algumas das infames frases do presidente. Mas não foi preciso passá-los porque simplesmente os estudantes, das mais variadas nacionalidades, já conheciam sua retórica criminosa. Em minha palestra no Texas, um estudante japonês, antes mesmo da fala, veio me dar um abraço e disse que sentia muito pelo Brasil ser governado por um presidente que dizia coisas “tão feias”.
Ao menos nas universidades dos Estados Unidos, o bolsonarismo covarde é constrangido por sua própria debilidade.
Na academia norte-americana, os desvairados que por aqui me atacam não têm vez. Isso acaba constrangendo os próprios brasileiros bolsonaristas que por lá tentam agir. Por exemplo, na Universidade de Arizona, após anunciarem minha palestra, uma brasileira mandou um e-mail para o departamento dizendo que todo mundo deveria ir morar em Cuba ou na Venezuela. Alguns professores debocharam do ocorrido, outros ficaram sem entender muito o que uma coisa tinha a ver com a outra. Também teve uma bolsonarista, que não era estudante daquela universidade, que foi à palestra. Alguns estudantes me alertaram que ela poderia se manifestar agressivamente. Todavia, diante do debate em alto nível, ela simplesmente se calou.

Já mais para o fim do giro, na Universidade de Columbia, em Nova York, um jovem, que não era estudante da universidade, foi o primeiro a pedir a palavra e me perguntou se eu sabia os dados de aprovação da população brasileira em relação ao aborto e às armas (minha palestra não era sobre isso e eu claramente vi que era uma pergunta armadilha). Quando eu fui responder, ele, tremendo, ligou o gravador. Fiquei tensa evidentemente, e respondi que existiam muitos números, que minha fala não era sobre isso e devolvi a pergunta: “mas por que você está me perguntando isso? Qual a sua opinião?” Ele, atrapalhando entre o gravador e as respostas prontas que tinha escrito no celular, perdeu-se um pouco na tentativa de me encurralar.

Muitos bolsonaristas ficaram quietos ao final em diversos lugares, pois talvez esperassem uma palestra cheia de chavões ideológicos de uma ativista de esquerda que foi lá para “falar mal do presidente”. Mas encontraram uma análise acadêmica bem diferente disso.

Com esses exemplos, meu ponto é simplesmente assinalar que, ao menos nas universidades dos Estados Unidos, o bolsonarismo covarde é constrangido por sua própria debilidade. No total, respondi a 280 perguntas e comentários. Ainda que minha palestra tivesse sido focada em uma pesquisa antropológica bastante específica, a audiência não se restringia ao escopo da pesquisa e comentava sobre os mais variados aspectos da política brasileira.

Os especialistas em América Latina, especialmente de uma geração mais sênior, destacavam mais a Lava Jato e o impeachment de Dilma Rousseff como fatos decisivos na orquestração da eleição de Bolsonaro.

Já que nos Estados Unidos, o debate sobre preconceito na eleição de Trump é muito forte, o comentário mais dirigido a mim (em quase todas as universidades) foi que o voto de Bolsonaro era um ataque misógino — do angry white man, como destaca o livro de Michael Kimmel –, que havia se manifestado desde o impeachment de Dilma Rousseff. Lá, há uma grande discussão sobre o papel do racismo como um elemento motivador na eleição de Trump – após eleger um negro, parte da população não aceitaria eleger uma mulher como Hilary Clinton.

Os estudantes mais jovens, por sua vez, pareciam estar mais interessados em saber sobre personalidades específicas, principalmente Marielle Franco. Foi emocionante o fato de que, ao menos em um circuito específico lá fora, passei dois meses conhecendo pessoas que admiravam sua memória e estavam se organizando para o ato em 14 de março, um ano de sua morte.

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Atos em homenagem a Marielle Franco, vereadora assassinada por milicianos em 
14 de março de 2018, em diferentes cidades dos Estados Unidos. 
A segunda foto é do ato organizado pelo Grupo Re-Existir, de Santa Cruz, na Califórnia.
 Fotos:Reprodução/Facebook Rosana Pinheiro Machado
Emocionou-me ver o tamanho de coletivos organizados pela democracia brasileira por todo o país (de estudantes e não estudantes) e como esses grupos estão se organizando numa rede maior, encabeçada pelo brasilianista James Green. Somente em Nova York, existem dezenas de grupos, fazendo atividades, mesas e vigílias pela democracia ou por Marielle, por exemplo.
Nos circuitos de vida crítica nos EUA, Bolsonaro não tem vez.
A Califórnia foi um lugar interessante. Reduto bolsonarista, recebe muitos imigrantes trabalhadores e também estudantes brasileiros ricos. Em Los Angeles, Bolsonaro fez 90% dos votos. O que se contrasta com um estado progressista, berço da cultura hippie e do progressismo de Berkeley. Neste mesmo estado, Marielle está muito presente na memória dos estudantes norte-americanos de diversos cursos, provavelmente em função da ampla rede internacional que produz materiais e vídeos para manter vivo o seu legado. Estudantes norte-americanos vinham falar comigo e diziam que sentiam muito por meu país (e que eles entendiam porque também estavam nesse cenário!) e alguns até me perguntavam se eu sabia onde encontrar camisetas e adesivos da Marielle Franco. Uma jovem, ao ouvir esse questionamento, expressou: “Marielle no século 21 é o que o Che Guevara foi no século 20”.

Bolsonaro pode trocar embaixador, por se reunir com o Trump, pode pagar jornalistas, pode usar de todo o poder que tem em mãos, mas ele não mudará sua imagem porque, no fim das contas, ela reflete o que ele é. Suas palavras violentas ecoam no mundo todo. Ele pode até delirar coisas do tipo “universidades são dominadas pelo marxismo cultural” — como disseram seus bots em meu Twitter quando anunciei que escreveria esta coluna —, mas a verdade é que jornalismo e universidades ainda importam na formação da opinião pública. E Bolsonaro pode desprezar as universidades brasileiras, mas sabe o fetiche que as elites brasileiras cultivam pelas norte-americanas.

Nos circuitos de vida crítica nos EUA, Bolsonaro não tem vez. De modo orgânico, por meio de um clamor global por justiça, a verdade é que é hora de “ouvir as Marias, Mahins, Marielles e Malês”.

Rosana Pinheiro-Machado
No The Intercept
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Como a internet está matando a democracia

Jamie Bartlett é autor do livro “O povo vs tecnologia: como a internet
está matando a democracia – e como podemos salvá-la”, em
tradução livre
Foto: Arquivo pessoal
“Fomos muito ingênuos”, adverte o pesquisador e jornalista inglês Jamie Bartlett. Para ele, nos primórdios da internet “havia uma ampla visão de que o simples fato de tornar a informação mais disponível e permitir que todos pudessem criar e compartilhar informação transformaria o nosso ambiente em mais informado, politizado e racional.”

Não foi o que aconteceu, e segundo ele a radicalização atual nem era tão difícil de prever. Para Bartlett, os grupos radicais chegaram antes à internet por estarem fora dos jornais e do mainstream. “Mas o mais importante é que todos nós nos tornamos mais radicais”, explica. “Pulamos de um assunto para outro e somos apresentados a mais e mais conteúdos apelativos e sensacionalistas para manter nosso vício nas redes.” Como resultado, somos expostos a argumentos emocionais radicais e acabamos xingando e vociferando nas redes sociais.

Autor do recém-lançado livro The people vs tech: How the internet is killing democracy and how we save it (O povo vs tecnologia: como a internet está matando a democracia – e como podemos salvá-la, em tradução livre), ainda inédito no Brasil, Bartlett faz parte da Demos, um think tank britânico que reúne especialistas em educação e tecnologia para pesquisar temas relacionados à política.

Em entrevista à Pública, Bartlett fala sobre a radicalização promovida pelo ambiente online, desinformação, campanhas digitais e outros perigos da rede para a democracia.

Mas, mais do que constatar os problemas, o pesquisador propõe soluções para avançarmos junto com a tecnologia. Entre elas, um departamento governamental dedicado a fazer uma auditoria de algoritmos e uma base de dados pública, com registros instantâneos, de toda propaganda eleitoral publicada nas redes. Leia a entrevista a seguir:

O surgimento da internet, e depois das redes sociais, veio com a expectativa de uma maior democratização da informação e do debate público. Ao longo do tempo, essa ideia desapareceu. Pesquisadores, incluindo você, mostram que, ao contrário de democratizar, o ambiente virtual potencializou discursos radicais e extremistas. Por que isso aconteceu?

A primeira coisa que precisamos entender é por que fomos tão ingênuos no início. Havia uma ampla visão de que o simples fato de tornar a informação mais disponível e permitir que todos pudessem criar e compartilhar informação transformaria o nosso ambiente em mais informado, politizado e racional. Eu penso que boa parte da razão para essa crença veio do fato de que a maioria das pessoas por trás dessa tecnologia são pessoas da costa oeste dos Estados Unidos, da Califórnia. Pessoas extremamente liberais e grandes defensoras dos poderes naturais da livre informação e alienados das reais questões do mundo. E isso é só uma das explicações. Foi uma ingenuidade criar essas expectativas. As pessoas assumiram que a internet e as redes sociais seriam extremamente livres e que não haveria controle sobre as informações que estariam ali. Ninguém pensou nas consequências.

Mas, olhando com mais atenção, era possível ver que não seria bem assim. Na maioria das novas tecnologias, são as pessoas mais radicais, marginais e até criminosos que primeiro aprendem suas possibilidades. Eles têm essa vantagem, pois, na maioria das vezes, os mais autoritários se consideram excluídos, então dedicam boa parte de sua vida a novas técnicas e tecnologias.

O que eu descobri foi que, se você observar grupos de extrema direita, e até alguns grupos radicais de esquerda, na maioria das democracias, são eles os primeiros usuários de novas tecnologias. Neonazistas, por exemplo, encontraram maneiras de usar as redes sociais para espalhar suas mensagens, porque eles são determinados e não tinham outra forma de fazer isso. Se você os tira da mídia tradicional, é natural que eles procurem outros meios.

Adicione a isso o fato de que em troca da gratuidade das redes sociais nós damos a elas [as empresas de tecnologia] nossos dados. Assim elas tornam essas plataformas ambientes viciantes, para que fiquemos mais tempo lá, fornecendo ainda mais dados. E nossa tendência é clicar naquilo que for mais extremo, radical, inacreditável, pessoal.

Isso deixou as pessoas mais radicais, ou foram os extremistas que se tornaram mais fortes?

Boa pergunta. Eu acho que os radicais cresceram nas plataformas digitais porque tinham essa vantagem de serem usuários há mais tempo. Mas o mais importante é que todos nós nos tornamos mais radicais – não exatamente extremistas, mas somos exponencialmente expostos a conteúdos radicais e apelativos. Não temos a intenção de falar sobre essas temáticas, mas elas nos são apresentadas. Assim, quando entramos nessas plataformas, gritamos uns com os outros, discutimos sobre coisas pequenas, discordamos sem ao menos escutar o outro lado. Pulamos de um assunto para outro e somos apresentados a mais e mais conteúdos apelativos e sensacionalistas para manter nosso vício nas redes. E o resultado é que nos tornamos mais extremos.

E como Trump, nos EUA, e Bolsonaro no Brasil se beneficiaram desse ambiente polarizado?

Na minha opinião, esses políticos se baseiam em frases de efeito e soluções simplistas. E é exatamente isso que funciona nas plataformas de redes sociais. Discursos populistas sempre foram apelativos. Sempre se trata de apelar para o emocional, tratar problemas complexos com soluções fáceis.

As redes sociais são excelentes ambientes para amplificar essas mensagens porque não são tratadas como nos jornais, por exemplo. Com as notícias, temos que nos sentar e pensar sobre o que lemos. Não somos guiados por emoções. Mas nessas plataformas, sim. Quando compartilhamos conteúdos, esperamos respostas, curtidas, então é mais provável que publiquemos conteúdos que nos fazem sentir raiva ou animação do que conteúdos profundos e reflexivos.

Você acredita que essa radicalização impulsionada pelas redes é igual para a direita e para a esquerda?

É uma pergunta muito difícil de responder. Eu acredito que o discurso político que funciona nas redes pode ser tanto de direita quanto de esquerda.

Qual é o papel da desinformação nesse processo de radicalização online?

O problema não é a desinformação em si, mas o fato de haver diversas categorias de notícias falsas nas redes, e todas elas causam um efeito importante.

Na internet você acha todo e qualquer tipo de informação, verdadeira ou falsa. Há aquelas postadas por veículos de notícias e as que são apenas histórias de pessoas e também podem ser confiáveis. E há aquelas que são ruins e mentirosas. Ninguém sabe qual é verdadeira e qual é falsa. Então, no que as pessoas confiam quando não sabem no que acreditar é simplesmente em suas próprias intuições e emoções. Você confia no personagem que você acha que combina mais com você e fala coisas que você acredita. E isso é mais um elemento que beneficia os populistas porque eles geralmente são melhores em convencer as pessoas.

Não é simplesmente a desinformação pela desinformação, é que a informação circula em bolhas. Na rede você encontra dados e estatísticas para embasar qualquer opinião que você tenha. Cada um tem seus próprios fatos. E eles não estão exatamente certos, mas na internet é possível encontrar tanta coisa que existe informação para o que você quiser, tudo que valide sua opinião.

E estar envolvido em tanta informação assim é mais preocupante que as próprias notícias falsas. Por que é isso que faz com que as pessoas não saibam no que acreditar e parem de prestar atenção nos jornais para guiarem-se apenas pelos sentimentos. E é também isso que está tornando os políticos mais radicais, porque ninguém mais tem a autoridade sobre a verdade ou sobre os fatos.

No seu livro, você fala muito sobre o disparo de mensagens na campanha de Donald Trump com a ajuda de dados fornecidos pela empresa Cambridge Analytica. Você pode explicar como essa empresa ajudou Donald Trump, que não era do meio político, a ganhar as eleições nos EUA?

A tecnologia usada não era única ou inovadora, e vem sendo usada por publicitários há muito tempo. Eles basicamente identificaram pessoas que acreditavam que eram mais suscetíveis de serem convencidas pela campanha. O que eles fizeram foi construir perfis detalhados de milhões de americanos usando dados disponibilizados publicamente na internet. Esses dados, que podem ser comprados, incluem coisas como o valor da sua casa, que carro você tem, que revistas assina e muito mais. Eles pegaram o máximo de informações das pessoas que conseguiram e dividiram elas em grupos, enviando conteúdo mais provável de convencê-las.

Além de eleições, essa tecnologia pode influenciar outros aspectos da nossa vida. Somos bombardeados com anúncios personalizados, é como se as empresas soubessem mais de nós que nós mesmos. Como isso afeta a democracia?

Para mim, o maior problema é a popularização dessas técnicas de publicidade com dados, especialmente quando não há regulação. Significa que qualquer um pode dizer que seu opositor está trapaceando.

Qualquer um que perder uma eleição pode dizer que o adversário está usando dados de pessoas indiscriminadamente e manipulando eleitores com publicidade. E isso compromete a integridade de qualquer pleito. Quando você usa essas técnicas, na cabeça das pessoas, isso compromete a integridade de uma eleição.

Você não acha que a popularização dessas técnicas de publicidade vai fazer as pessoas questionarem suas escolhas e atitudes online?

É o seguinte: ninguém acha que foi influenciado por um anúncio. Nunca. As pessoas sempre falam: “Ai, isso não me afeta”. Mas, então, por que os publicitários investem tanto nas redes sociais? Por que eles já testaram e viram que realmente funciona.

Uma das razões pelas quais eu escrevi meu último livro foi para tornar as pessoas mais conscientes da maneira como seus dados estão sendo usados. E eu acho que as pessoas estão cada vez mais preocupadas.

Você vê um crescimento em outras formas de usar a internet?

Sim, eu vejo. Acho que está crescendo e melhorando. No Reino Unido, nós temos VPN [redes privadas individuais], que nos dá mais proteção de dados, e significa que empresas só conseguirão coletar nossos dados se dermos autorização, e isso nos dá o direito de pedir nossos dados de volta também. Já existem empresas que ajudam as pessoas a recuperar seus dados de outras empresas, novas redes sociais estão surgindo. Então, existem pequenas iniciativas nesse sentido. Eu não sei se vai funcionar, ou se vai fazer muita diferença, mas eu vejo melhora.

Existem maneiras de minimizar os efeitos dessa falta de privacidade online sem ser pela via completamente anônima e criptografada. No seu livro, uma das soluções que você sugere é o policiamento dos algoritmos. Você pode explicar como isso funcionaria?

Sim. O que podemos fazer é criar formas de controle democrático sobre os sistemas que possuem nossos dados pessoais. Uma das maneiras de fazer isso é da mesma maneira que fiscalizamos nossas instituições como escolas, serviços de saúde etc., para garantir que eles estejam funcionando. Com os algoritmos isso não é feito. Ninguém sabe se certos tipos de notícias estão sendo privilegiados pelos algoritmos, por exemplo. Eu não tenho a exata solução para isso, mas eu acho que é preciso criar um sistema de fiscalização.

A lógica é: se há um poder, é preciso criar um sistema de fiscalização.

Sim, mas isso precisaria ser feito pelo poder público, e os políticos que temos atualmente mostram muito pouco conhecimento sobre as questões do ambiente digital. Prova disso foi a audiência realizada com Mark Zuckerberg no Congresso americano. Você acha que essa equipe é capaz de formular políticas públicas eficientes nesse sentido?

Eu acho que é possível. Não é preciso ser um engenheiro de computação para pensar em soluções para esses problemas digitais. Eu só acho que é preciso disposição e investimento. Por que não seria possível instalar um departamento para fiscalizar algoritmos? Para mim parece possível e plausível, apesar das dificuldades.

Mas os problemas que temos são urgentes. Como cidadãos, o que podemos fazer?

O que eu mais tenho dito é que precisamos olhar nosso comportamento online como um passo. Eu acredito que temos o dever, como cidadãos, mais importante do que votar, de refletir sobre nosso comportamento online. Que dados estamos criando? Com quem estamos compartilhando? Que plataformas estamos usando?

Porque, toda vez que compartilhamos nossos dados, estamos contribuindo para a sociedade de controle que vivemos atualmente.

E as plataformas? Você acha que elas devem ser mais bem reguladas? De que maneira?

Sim. Eu acho que há regulações que podemos criar. A mais fácil delas seria definir essas empresas como publicitárias e investigá-las para combater oligopólios e promover a livre concorrência. Não pensá-las como plataformas de redes sociais.

Temos que ficar atentos às aquisições que essas empresas fazem, porque muitas vezes elas compram plataformas menores antes mesmo que estas se tornem competitivas. Então, temos que bloquear esse tipo de compra.

E há algumas outras coisas, como regular o conteúdo que circula nesses lugares, como o discurso de ódio. E multá-las caso não removam esses conteúdos.

Que outras medidas legais precisam ser tomadas na sua opinião?

Devemos atualizar as legislações eleitorais urgentemente, porque elas estão ultrapassadas. Uma das coisas que eu proponho é que todos os anúncios usados em campanhas eleitorais devem ser publicados em tempo real num banco de dados público para todos verem. Eu acho uma medida importante e fácil de ser implementada. Acho que isso pode aumentar a confiabilidade das eleições.

E também precisamos melhorar de uma maneira geral o sistema educacional, porque nenhum dá a verdadeira atenção para o estudo dos problemas de desinformação, deep fakesfake news. E as pessoas convivem com isso todos os dias. Portanto, precisamos de uma drástica melhora na maneira como ensinamos media literacy [alfabetização midiática]. Estamos muito atrasados.

Ethel Rudnitzki
No Pública
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Eduardo Bolsonaro já foi trabalhador ilegal nos EUA?

Eduardo Bolsonaro e seu trabalho nos Estados Unidos.
Foto: Reprodução/YouTube
Eduardo Bolsonaro deve explicações. Sua idolatria pelos Estados Unidos nunca foi escamoteada e a viagem em companhia do pai apenas desnudou por completo o grau de subserviência a que ambos estão dispostos e reafirmou sua concordância com as políticas desumanas de Donald Trump “no tocante” a imigrantes.

“Brasileiro ilegalmente fora do país é problema do Brasil, é vergonha nossa”, disse ele durante entrevista sobre a falta de reciprocidade na exigência de vistos.

Pois bem, há alguns anos Eduardo postou um vídeo afirmando que em 2005, durante as férias da universidade, trabalhou na terra do Tio Sam em uma lanchonete da rede Popeyes.

Numa desastrosa tentativa de demonstrar humildade, disse ter atuado como caixa e atendente e ter sido somente lá que aprendeu que “indigno é não ter trabalho”. Por aqui ele deve pensar que é coisa de vagabundo já que emprego tem de sobra. Para o filho zero-três, os EUA são o que são pois “não têm esse problema de samba, carnaval, caipirinha”.

Até aí, nada demais, os Bolsonaro não possuem fama de profundos estudiosos de sociologia e dar declarações abestalhadas parece ser a principal expertise. Como disse recentemente Leonardo Boff, “o novo governo é o triunfo da ignorância e da estupidez”.

O que provoca questionamentos na experiência profissional em terras estrangeiras de Eduardo é um detalhe que seria bom ser esclarecido para que este não seja mais exemplo de que os Bolsonaro pregam uma coisa e fazem outra.

Em 2005 ele tinha 21 anos e cursava a faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como admite no vídeo, foi aos EUA durante o breve período de férias na universidade. Como figura pública, hoje deputado federal, Eduardo Bolsonaro deveria explicar com qual visto entrou nos Estados Unidos para trabalhar, pois isso não é nada simples.
  • O visto de turista autoriza turismo por seis meses e ponto final. Nada além disso.
  • Para trabalhar de forma definitiva é preciso ter cidadania americana ou Green Card. Tem?
  • Um tipo de visto excepcionalíssimo que autoriza trabalhar é o EB-1 que pode ser solicitado por pessoas com “habilidade extraordinária nos campos da ciência, das artes ou dos negócios”. Para solicitá-lo em função de uma competência excepcional é preciso apresentar provas da sua excelência como diplomas, cartas de recomendação, prêmios e publicações acadêmicas. Ninguém constrói um currículo desses para trabalhar no caixa de uma lanchonete, certo?
Suponhamos então que Eduardo tenha ido fazer um curso rápido para aperfeiçoar o idioma inglês e tenha aproveitado para fazer um bico como forma de auxiliar no sustento. Também não são muitas as possibilidades nem facilidades. Os tipos de visto para estudante são:
  • O visto M-1 que não dá direito de trabalho ao estudante;
  • O visto J-1 que é concedido aos estudantes na modalidade intercâmbio (normalmente de ensino médio). Com esse visto, os estudantes têm autorização de trabalhar somente dentro do campus e em funções que sejam parte de uma bolsa de estudo (como assistentes acadêmicos, por exemplo). Não é permitido trabalhar em empresas;
  • O visto F-1 é para universitários. Ele autoriza trabalhar dentro do campus da universidade por 20 horas semanais durante o período letivo e 40 durante as férias. O aluno pode aceitar uma vaga em alguma empresa comercial que tenha contrato com a universidade. Não é o caso da Popeyes.
Se não possuía nenhum vínculo com instituições de ensino, os tipos de visto para trabalhar temporariamente também são poucos e repletos de exigências inibidoras.
  • O visto H exige que empregador americano faça o trâmite burocrático e submeta à aprovação Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS);
  • O visto H-1B é concedido a estrangeiro que tenha formação universitária concluída ou uma certificação profissional de habilidades diferenciadas. Não era o caso de Eduardo.
  • O visto H-2B permite realizar um trabalho de natureza temporária ou sazonal para áreas em que há escassez de mão-de-obra entre os cidadãos americanos e residentes legais. O que não falta é gente para trabalhar em redes de lanchonetes, certo? Pode-se eliminar essa opção também;
  • O visto H-3 é destinado a estagiários para receber treinamento de seu empregador. É raro.
Enfim, fica a cargo do deputado esclarecer ou não como trabalhou nos EUA. O que ele precisa rever urgentemente são seus conceitos.

Para tanto, seria bom conhecer um estudo realizado em 2017 pelo Center for American Entrepreneurship (um think-tank sediado em Washington) cujo levantamento demonstra que se os americanos desconsiderassem os negócios fundados por imigrantes ou por sua segunda geração, os Estados Unidos perderiam quase metade de suas 500 maiores empresas. Nada menos que 43% das companhias listadas na edição 2017 do ranking da revista Fortune foram fundadas por imigrantes ou seus descendentes.

Bolsonaro não é um sobrenome tupi-guarani, certo? Então o descendente de imigrantes Eduardo deveria olhar para a fortuna de seu pai e de seus irmãos (além da sua que cresceu 432% em quatro anos) e agradecer a inexistência de muros.



Mauro Donato
No DCM
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Não temos um governo, temos a ‘Bolsolândia’


O outro, que usa boné da campanha de Donald Trump, na Casa Branca, ajudando o pai a oferecer o país aos Estados Unidos.

O mais novo treinando tiro de metralhadora e disparos de “sniper” na Academia da PF, com tempo, instrutor, arma e bala pagas com dinheiro público.

O filho senador fazendo representações contra os promotores que investigam os milhões movimentados pelo amigo-assessor-motorista e chefe do RH de seu Gabinete, Fabrício Queiroz, entre eles quatro cheques para sua madrasta, a primeira-dama.

Já imaginaram o escândalo que seria se fossem filhos de Lula e a falecida D. Marisa Letícia?

Teríamos  furiosos comentaristas na Globonews dizendo que é inadmissível o poder familiar, que se formara uma quadrilha para usar o Estado brasileiro e que a máquina pública não pode ser usada por um clã.

Haveria, a esta hora, pedidos de impeachment correndo soltos.

Mas como, segundo o herói de Bolsonaro, Donald Trum, um país de merda de onde saem imigrantes que são uma vergonha nacional, segundo o papai e o filhote que estiveram hoje no Salão Oval – o “Beato Salu” do Itamaraty foi deixado de fora.

Foi como um passeio à Disneylândia, não é?

Mas não se critique: ontem mesmo Bolsonaro disse à Fox News que foi eleito “para defender a família”.

A dele.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Bolsonaro exibe “complexo de vira-latas” em visita aos EUA

https://www.blogdokennedy.com.br/bolsonaro-exibe-complexo-de-vira-latas-em-visita-aos-eua/
Despreparo, deslumbramento e submissão dão o tom

O “complexo de vira-latas”, conceito criado por Nelson Rodrigues, é perfeito para descrever a visita aos Estados Unidos do presidente Jair Bolsonaro e sua comitiva.

Nelson Rodrigues entendia o “complexo de vira-latas” como a “inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. Ele cunhou a expressão inspirado na derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 1950 e a utilizou em muitas situações depois.

A viagem de Bolsonaro e ministros aos Estados Unidos é “rodrigueana”. É uma manifestação do brasileiro e o seu “complexo de vira-latas”. Por exemplo: a dispensa de vistos para turistas americanos é uma vitória do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) contra todo o corpo técnico do Itamaraty.

O filho do presidente, que se comporta como chanceler do B e um príncipe político, obteve de um ministro submisso uma decisão que contraria o princípio da reciprocidade nas relações internacionais. Um país do tamanho e importância do Brasil não pode ser comportar como um vira-lata diplomático.

O presidente editou ontem um decreto que dispensará a partir de junho a exigência de visto para turistas americanos, canadenses, japoneses e australianos. Não há contrapartida para brasileiros, que continuarão a precisar de visto para esses países.

A medida é um presente de Bolsonaro aos Estados Unidos e ao seu colega Donald Trump. Os governos FHC, Lula, Dilma e Temer discutiram a dispensa do visto, defendida pela área de turismo, mas nunca a implementaram levando em conta a opinião, correta, do Ministério das Relações Exteriores.

Outro exemplo de submissão a Washington foi a visita de Bolsonaro à CIA, a agência de espionagem americana. Dificilmente, presidentes de nações soberanas frequentam um local especializado em obter informações sobre governos e mandatários estrangeiros. A CIA foi responsável por golpes de Estado e teve envolvimento recente em casos de tortura. Opera fora dos EUA e atende aos interesses nacionais americanos.

E inacreditável que Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sergio Moro, tenham feito essa visita, que pretendiam manter em segredo. Ela foi “descoberta” porque Eduardo Bolsonaro a anunciou no Twitter.

Obviamente, a interface da pasta de Moro nos EUA é o Departamento de Justiça, não uma agência de espionagem. Dois assuntos teriam sido discutidos, segundo a assessoria presidencial, já que Moro não quis falar: crime organizado e narcotráfico. Esses temas não costumam ser a prioridade da CIA, mas de outras instituições dos EUA.

Essa passagem pela CIA é mais uma evidência do despreparo e deslumbramento de integrantes do governo brasileiro. Soa como paixão por coisas hollywoodianas.

A lamentável declaração de Eduardo Bolsonaro sobre imigrantes brasileiros em situação de ilegalidade também é prova do “complexo de vira-latas”. Ele considerou a ilegalidade uma “vergonha”.

O filho do presidente estabeleceu relação próxima com Steve Bannon, descartado até por Trump, e com o escritor Olavo de Carvalho. Num jantar com Bannon e Carvalho, houve um festival de besteiras. O presidente da República disse que o Brasil caminhava para o socialismo, para o comunismo. É mentira. Também é grave que um presidente tenha entendimento tão fora da realidade sobre o país que governa.

Bolsonaro não coloca foco nas questões de interesse nacional, como a reforma da Previdência. Está mais preocupado em participar de um jantar com um escritor de extrema-direita que ofendeu com palavrões o vice-presidente, Hamilton Mourão, e militares que participam do governo.

Que sinal Bolsonaro transmite com essa alfinetada nos militares? O sinal de um governo dividido, de baixo nível intelectual e diplomático. Nelson Rodrigues é perfeito para a atual situação. Um visionário, digamos assim.
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Filé à Wellington é antiquado e conservador como Bolsonaro e Olavo

Envolto em massa folhada, tem patê e refogado de cogumelos...
E que o caminho para o banheiro esteja livre...
Teve caipirinha. Teve ainda quindim, é verdade. Mas não teve churrasco nem moqueca. Tampouco teve camarão com chuchu, prato típico do Rio de Janeiro – cidade que apresentou ao Brasil e ao mundo Jair Messias Bolsonaro, nosso 38º presidente da República.

Em vez de comida brasileira, o embaixador Sergio Amaral optou por beef Wellington para o prato principal no jantar de domingo, na residência do diplomata em Washington. À mesa, estavam Bolsonaro, o mago das redes sociais Olavo de Carvalho, Steve Bannon e a nata do pensamento conservador norte-americano.

Beef Wellington. Ótimo: a imprensa brasileira reproduziu o cardápio como se o taxista Uélito, lá de Belford Roxo, soubesse o que é um beef Wellington.

O filé à Wellington é um mastodonte culinário, um fóssil vivo que pasta pelas estepes da cozinha internacional há vários séculos.

De genética francesa, foi incorporado pela aristocracia britânica como pièce de résistance gastronômica – um suntuoso manjar à frente da comida mais tripudiada do mundo. A elite dos Estados Unidos também adotou o bife à Wellington como curinga nos jantares de gala.

É um prato concebido para impressionar: uma peça grande de filé mignon envolta em massa folhada — com 5 milímetros de espessura, de acordo com o livro “Todas as Técnicas Culinárias”, da escola Le Cordon Bleu– e assada à perfeição.

Entre a carne e a massa, patê de foie gras e duxelles, um refogado de cogumelos e temperos. Quando chega à mesa, parece um empadão. Então alguém rompe a massa dourada e fatia o filé, revelando seu interior uniformemente rosado. Para completar o serviço, molho madeira. Com vinho madeira de verdade, não o molho ferrugem do quilão da esquina.

Para os cozinheiros, o beef Wellington é um pesadelo. Não à toa, a receita surge sempre que um reality show culinário precisa de uma dose extra de sadismo para elevar a audiência.

O filé, oculto sob a massa folhada, é assado às cegas. Pode ficar cru. Pode passar demais. Depois de fatiado, babau: não há mais o que se possa fazer.

O cardápio traz uma carga semiótica muito forte, talvez involuntária: ele simboliza a aceitação, por parte dos brasileiros, da superioridade dos anglo-americanos. Se quiséssemos nos impor, serviríamos vatapá.

O beef Wellington é um prato antiquado e conservador como os convidados do embaixador. Sua história remete a epopeias militares do passado.

Ele foi batizado em homenagem ao militar britânico Arthur Wellesley, o primeiro Duque de Wellington e primeiro-ministro do Reino Unido por duas vezes. Foi ele quem colheu os louros da derrota imposta a Napoleão na batalha de Waterloo.

Os franceses ainda não digeriram o episódio, como mostra um trecho do livro da Cordon Bleu: “Filet de boeuf em crôute (filé de carne bovina na massa) já era um prato clássico da culinária francesa muito antes da época de Wellington”.

Quem se importa? Na história, sobra apenas a versão dos vitoriosos.

Marcos Nogueira
No Folha
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Filhinha fazia rachadinha de 80% com Queiroz

Por falar nisso: o Queiroz já ficou bom?



Coaf: filha de Queiroz repassou 80% de salário na Câmara para o pai

Um novo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviado ao Ministério Público do Rio (MP-RJ) mostra outras movimentações atípicas na conta corrente de Nathália Melo de Queiroz, filha de Fabrício Queiroz e ex-assessora do presidente Jair Bolsonaro quando ele era parlamentar na Câmara dos Deputados.

Entre junho e novembro do ano passado, a conta de Nathália recebeu o montante de R$ 101 mil, entre o salário na Câmara e outros rendimentos. Deste total, ela repassou para seu pai R$ 29,6 mil, o equivalente a 80% do total de R$ 36,6 mil que ganhou como assessora de Jair Bolsonaro.

Queiroz é investigado pelo MP-RJ em apuração sobre possível prática de “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio — quando servidores devolvem parte dos salários aos deputados que os nomearam. Em fevereiro, o ex-assessor confirmou em depoimento por escrito que servidores do gabinete de Flávio Bolsonaro devolviam parte do salário e que esse dinheiro era usado para ampliar a rede de colaboradores junto à base eleitoral do então deputado.

O nome de Nathália veio à tona pela primeira vez quando um relatório do Coaf apontou que seu pai movimentou R$ 1,2 milhão de entre 2016 e 2017. O documento identificou que ela fez repasses a Queiroz em um total de R$ 97,6 mil ao longo do ano de 2016, quando ainda era assessora de Flávio na Alerj.

Incompatibilidade

De setembro de 2007 até dezembro de 2016, a filha de Queiroz foi funcionária do deputado na Alerj. Nesse período, foi da liderança do PP, do setor de notas taquigráficas e, a partir de 2011, servidora do gabinete de Flávio.

Depois disso, ela foi lotada no gabinete do então deputado Jair Bolsonaro na Câmara — tendo sido exonerada em outubro, no mesmo dia em que seu pai deixou o gabinete de Flávio.

O novo relatório do Coaf também registra como ocorrência que a movimentação financeira de Nathália no período é “aparentemente incompatível com a capacidade financeira da cliente”. Além disso, o órgão aponta como ocorrência ainda o “uso do dinheiro em espécie” para “inviabilizar a identificação da origem e real destino dos recursos”. Nesse período, ela efetuou 23 saques em dinheiro no total de R$ 11.950. (...)

Em tempo: Moro, Moro, rachadinha não é crime, Moro? - PHA
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Navio MSC Seaview chega a Balneário Camboriú com sarampo a bordo


Nesta quarta-feira, 20, o maior navio a navegar na costa brasileira, o MSC Seaview, atraca na cidade. Vindo de Porto Belo, o cruzeiro chega às 7h.

O Seaview é um dos maiores navios de cruzeiro a operar na costa brasileira. A embarcação tem 22 andares, além de subpiso, e capacidade para 5,4 mil passageiros e 1,5 mil tripulantes.

Surto de sarampo a bordo

Um surto de sarampo em um transantlântico com capacidade para quase 7 mil passageiros e tripulantes levou a uma ação de emergência contra a doença, extremamente contagiosa. O Instituto Adolfo Lutz já confirmou 18 infectados.

Os primeiros casos foram reportados no dia 16 de fevereiro, quando o navio, que havia feito uma viagem para Búzios e Ilha Grande (RJ), Salvador e Ilhéus (BA) chegou a Santos. Na ocasião, 14 tripulantes reportaram febre baixa, nódulos e irritações nos olhos. Passageiros que desembarcaram foram alertados que, em caso de sintomas, deveriam procurar um médico e avisar às autoridades sanitárias. “Foram cerca de 5 mil passageiros. Até o momento, não houve nenhum comunicado”, disse Regiane.

Um dos tripulantes que havia desembarcado em Santos começou a apresentar sintomas e foi internado na Casa de Saúde. Outros quatro trabalhadores que também haviam desembarcado foram isolados. Todos estão em um hotel em São Vicente (SP), para evitar contato com pessoas da cidade.

O navio seguiu viagem no dia 16 e foi para Santa Catarina. Tripulantes com suspeita da doença foram mantidos em quarentena. Depois, mais quatro pessoas apresentaram sintomas – todos tripulantes. Uma vacinação de bloqueio já foi feita, mas restrita a quem teve contato com os trabalhadores. Foi usada a vacina tríplice, contra sarampo, rubéola e caxumba.

Questionada se não teria sido melhor interromper a viagem na semana passada, quando os primeiros casos foram relatados, Regiane foi cuidadosa. “Há regras específicas para embarcações. A decisão é tomada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Todas as medidas preventivas foram adotadas.” Entre os tripulantes em quarentena, há três brasileiros, além de trabalhadores da Índia e da África do Sul. O País está prestes a perder o certificado de eliminação da doença, obtido há três anos.

OMS tira certificado de erradicação da República Federativa da Cloaca...

O Brasil perderá o certificado de erradicação do sarampo após a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) confirmar um caso endêmico, ou seja, dentro do território brasileiro em fevereiro no Pará.

O Ministério da Saúde informou nesta terça-feira (19) que foi comunicado do caso pela OPAS e já trabalha para o controle da doença, que teve um surto em 2018 com mais de 10 mil casos registrados especialmente no Amazonas e em Roraima.

No comunicado, o Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta declarou que o governo já trabalha para retomar o título nos próximos 12 meses.

"Nosso plano consiste em encaminhar medidas importantes ao Congresso Nacional, como a exigência do certificado de vacinação, não impeditiva, de ingresso na escola e no serviço militar. Reforçaremos, ainda, o monitoramento da vacinação, por meio dos programas de integração de renda e como norma para os trabalhadores de saúde”, disse.

Mais de 10 mil casos

Em janeiro de 2019, o Brasil tinha três estados com surto da doença: Amazonas, Roraima e Pará. Entre fevereiro de 2018 e fevereiro de 2019, o país registrou 10.374 casos da doença.

O pico foi atingido em julho de 2018, quando foram registrados 3.950 casos da doença.

Até 19 de março, foram confirmados laboratorialmente 48 casos de sarampo no Brasil. Destes, 20 estão relacionados a casos importados e 28 relacionados a casos endêmicos, sendo 23 casos no Pará e cinco casos no Amazonas.
Perda do certificado

O critério estabelecido para a retirada do certificado de erradicação é a incidência de casos confirmados do mesmo vírus durante 12 meses. Segundo a OMS, a primeira pessoa infectada dentro do território brasileiro ocorreu em 19 de fevereiro de 2018.

Entenda o caso nesta excelente matéria de Conceição Lemes: Sarampo a bordo de navio MSC Seaview pode se disseminar
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Washington Post faz matéria sobre a “vergonhosa” visita de Bolsonaro aos EUA

Jornal estadunidense diz que bajulações a Trump, declarações preconceituosas e acordos em nada interessantes para o Brasil levaram a hashtag #BolsonaroEnvergonhaOBrasil aos assuntos mais comentados no mundo

Bolsonaro e Trump em reportagem do Washington Post

Maior jornal em circulação no distrito federal dos Estados Unidos, o The Washington Post repercutiu a vergonha sentida por brasileiros diante do “viralatismo” de Jair Bolsonaro – chamada pelo periódico de novo presidente da extrema-direita –, confirmado em seu encontro com Donald Trump na terça-feira (19).

A reportagem destaca a saraivada de críticas dirigidas ao brasileiro nas redes sociais, especialmente no Twitter, inconformados com a “venda” do maior país da América Latina, novamente posto de joelhos aos yankess.

A hashtag #BolsonaroEnvergonhaOBrasil chegou aos assuntos mais abordados no mundo.

O The Washington Post aponta ainda que a barulhenta reação contra Bolsonaro se deu justamente no âmbito das redes – principal ferramenta usada pelo agora presidente para ganhar notoriedade.

As bajulações a Trump, inclusive a partir de comentários preconceituosos e racistas, levaram o presidente brasileiro a ser retratado de maneiras consideradas humilhantes para um chefe de Estado, seja como um cachorro vira-lata ou lambendo as botas do presidente norte-americano.

Um dos pontos que mais revoltou os internautas, inclusive então apoiadores de Bolsonaro, foi a declaração de que “a grande maioria dos imigrantes não tem boas intenções”.

A frase vai ao encontro das teses de Trump, que tornou mais agressivos o discurso e controle sobre a imigração nos Estados Unidos em suas campanha e gestão.

Por outro lado, sem qualquer contrapartida, Bolsonaro isentou do visto turistas norte-americanos que tenham o Brasil como destino. A liberação abrange ainda o Canadá, o Japão e a Austrália.

Em outra medida – essa ainda depende do aval do Congresso Nacional – o presidente assinou acordo que autoriza os Estados Unidos a lançar foguetes e satélites da Base de Alcântara, no Maranhão.

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