17 de mar de 2019

Como foi montado o golpe do século contra a Petrobras

O acordo de leniência, sugerido por Ellen Gracie, transformou a Petrobras de vítima em ré.


A Procuradora Geral da República tem defeitos e virtudes. Os defeitos, dizem, são de temperamento; as virtudes são de caráter. É fechada, centralizadora, discretíssima e tem pouca visão de estratégias políticas. Por outro lado, é técnica, correta, ciosa do interesse público e, especialmente, do papel institucional do Ministério Público.

Em nome dessa defesa do MP, varreu para baixo do tapete os erros gigantescos cometidos pelo antecessor Rodrigo Janot e pela Lava Jato. E deixou para o último instante o questionamento da excrescência da fundação de direito privado financiada pela Petrobras, em cima de um acordo com autoridades norte-americanas. Só a questionou quando começaram a brotar críticas na imprensa, em uma demonstração da falta de timming sobre o momento de demonstrar sua coragem.

Nessa fundação está a chave da questão, para entender uma série de ações nebulosas de Janot e da Lava Jato nos Estados Unidos.



Ouça a explicação de Dallagnoll. Segundo ele, não se está tirando dinheiro da Petrobras, mas apenas impedindo que o valor da multa fique nos Estados Unidos.

Diz também que, como a União é controladora da Petrobras, as autoridades americanas não permitiriam que ficasse com os recursos das multas. Trata a Lava Jato como se fosse a legítima representante, no Brasil, dos interesses das autoridades judiciais americanas, que não confiariam sequer no estado brasileiro.

Há outras fakenews no discurso. Por exemplo, o acordo não está condicionado à criação de uma fundação. Fala em reparação de direitos difusos. E não aponta qual o direito difuso a ser reparado. Além disso, há um Fundo dos Direitos Difusos Lesados, que impede que o Tesouro se aproprie dos recursos.

Falsifica os fatos, também, quando minimiza a influência da Lava Jato na fundação. Caberá aos procuradores e ao juiz escolher as organizações que farão parte do Conselho, assim como colocar representantes em cada área e dar um enorme impulso à indústria do compliance, que terá nos procuradores da Lava Jato os consultores especializados.

Não é a parte mais grave da história.

Vamos entender melhor a partilha do que pode ser chamado de “o golpe do século”, em relação a Petrobras.

A montagem do golpe do século

Coube a Ellen Gracie, ex-Ministra do STF (Supremo Tribunal Federal) traçar a estratégia do acordo da Petrobras com a SEC (a CVM americana) e com o Departamento de Justiça (DoJ).  Ao mesmo tempo em que se iniciavam as tratativas, Janot e o grupo da Lava Jato foram pessoalmente aos Estados Unidos compartilhar provas e delatores contra a Petrobras. Com essa estratégia, a Petrobras deixou de ser tratada como vítima para se tornar ré: esta foi a chave do golpe. Por aí se entende, também, o desmonte implacável da imagem da Petrobras pela Lava Jato.

Foram dois os motivos das quedas nas cotações da Petrobras:
  1. A queda nas cotações internacionais de petróleo, que afetou todas as petroleiras.
  2. A expectativa das multas a serem aplicadas pela SEC e pelo DoJ à Petrobras, em função da estratégia de acordo delineada. Ou seja, parte da queda no valor das ações da Petrobras tem relação direta com a estratégia encampada pela PGR de Janot somada à campanha para apresentar a Petrobras como a empresa mais corrupta do planeta.
As propinas não tiveram peso algum nos resultados da Petrobras, porque embutidas nos preços dos contratos e irrisórias perto do faturamento da empresa. Tudo isso poderia ter sido demonstrado para rebater as pretensões dos escritórios que decidiram processar a Petrobras.

Além disso, aqui mesmo, nosso colunista André Araújo mostrou caminhos alternativos que poderiam ter sido trilhados para evitar essas multas, passando pelos acordos diplomáticos governo a governo.

 
O acordo abriu espaço para um enorme butim, acertado entre três partes: a Petrobras, através de seu presidente Pedro Parente, as autoridades norte-americanas, e a Lava Jato. O butim foi dividido da seguinte maneira:
  1. US$ 2,95 bilhões para um acordo extrajudicial com os acionistas nos EUA, o triplo das previsões mais otimistas de seus advogados. Parte relevante de honorários para escritórios de advocacia. Tudo isso sem que a Lava Jato esboçasse uma reação sequer.
  2. US$ 400 milhões para contratação de escritórios para atender às demandas do DoJ na Petrobras. Depois da Petrobras, Ellen Gracie aplicou a mesma estratégia na Eletrobras, alvo da Lava Jato em cima de informações trazidas por Janot na sua visita ao DoJ. E graças às mudanças ocorridas na presidência e no Conselho da empresa, ampliando enormemente o escopo de trabalho dos escritórios contratados.
  3. R$ 2,45 bilhões para serem administrados por uma fundação montada e controlada pela República do Paraná.
Reza o acordo firmado:

A cooperação da Petrobras incluiu a realização de uma investigação interna minuciosa, compartilhamento proativo em tempo real de fatos descobertos durante a investigação interna e compartilhamento de informações que não estariam disponíveis ao Departamento, fazendo apresentações regulares ao Departamento, facilitando entrevistas e informações de testemunhas estrangeiras e coletando, analisando e organizando voluntariamente volumosas evidências e informações para o Departamento em resposta a solicitações, incluindo a tradução de documentos-chave

Por aí se entende as inúmeras homenagens recebidas pelos bravos integrantes da Lava Jato nos principais centros de lobby dos Estados Unidos e do mundo.

Agora se chegou a um ponto de não retorno, que exigirá da PGR e dos Ministros do STF uma determinação que até agora não demonstraram, em defesa da institucionalidade brasileira, e para impedir a desmoralização final das instituições e a intimidação pelo uso das milícias paraestatais.

Luís Nassif
No GGN
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Quem usaria os fuzis com marcação do corpo de fuzileiros navais americanos guardados pelo assassino de Marielle?


Os fuzis encontrados na casa do miliciano vizinho de Bolsonaro são de uso exclusivo dos fuzileiros Navais americanos, os  mariners.

Em cada fuzil M27 encontrado está gravado USMC (United states Mariners corp), seguido do número de série.

Isso é gravíssimo!



Como essas armas a princípio controladissinas chegaram até aqui e específicamente nas mãos de um cidadão,  que é vizinho do Presidente da república?

Me causou um certo espanto o fato da mídia até o momento silenciar para um fato tão importante e grave.

O governo estadunidense deve urgentemente explicar como 117 fuzis americanos de uso exclusivo de suas forças armadas, intactos, lacrados e ainda em suas embalagens originais,  vieram parar nas mãos de um chefe da milícia carioca, vizinho do presidente do Brasil.

O que gera ainda mais indagações é o fato da família Bolsonaro, ter  relações publicas e notórias com os milícianos cariocas.

Nós cidadãos precisamos de respostas oficiais urgente.

Denúncia com imagens assustadoras!

Quem usaria os fuzis com marcação do corpo de fuzileiros navais americanos guardados pelo assassino de Marielle?

O que Eduardo Bolsonaro estaria fazendo no Clube de Tiro .38, aquele visitado por Adélio Bispo?

Segundo o delegado, o miliciano Ronnie estava procurando na Internet containers a prova d'água pra guardar enterrados os fuzis.

Contrabandista não guarda armas

Isso afasta a possibilidade de ser um contrabandista de armas. Eles só trazem o que foi encomendado e repassam imediatamente para o cliente. Os fuzis seriam guardados para serem usados na hora oportuna. Por quem?

Armas do Trump para as milícias bolsonarianas

A resposta pode estar nos links que anexamos abaixo com vários vídeos que mostram a preparação militar de civis no Clube de Tiro .38, aquele que Adélio esteve 2 meses antes do suposto atentado que elegeu Bolsonaro.

Treinamento militar dado por americanos

Os treinamentos foram dados inicialmente por dois Fuzileiros Navais americanos e hoje por um agente e instrutor da Swat americana..

Treinamento nas montanhas

Para isso o .38 montou a Sede da Montanha e lá recebe pessoas que podem pagar de 6 a 8 mil reais por um curso de 3 a 10 dias.

A presença permanente de Eduardo Bolsonaro

Ali provavelmente estão sendo formadas as Milícias Bolsonarianas que fariam a “faxina” prometida por Bolsonaro, com a tolerância do Exército. Não é possível que em um ano de intervenção o Exercito não tenha descoberto os laços dos Bolsonaros com as Milícias.

Imagens assustadoras

As imagens do treinamento são assustadoras. São ações de assalto e exterminio que podem vir a ser desencadeadas em acampamentos dos Sem Terras, Sem Teto, sede de movimentos sociais, partidos políticos, órgãos públicos, manifestações de rua..

Em ordem cronológica, alguns vídeos que comprovam o desenvolvimento desse macabro projeto dos Bolsonaros.

Jan/2014

Notícia na Globo de Santa Catarina do curso dado pelos Fuzileiros americanos. Mascararam como sendo curso só de salvamento em combate e esse é apenas um dos três módulos.



Ago/2016

Teste de fuzil pesado do Eduardo. Como tem uma arma de guerra dessas? A lei não permite, mesmo sendo Policial Federal.



Fev/2017

O começo da implantação da “Sede da Montanha” do Clube .38 onde começariam os treinamentos militares



Mar/2017

A primeira vez que aparece Troy Fullbright, agente da SWAT que substituiu os marines.



Mar/2017

Eduardo Bolsonaro treina pela primeira vez na Sede da Montanha



JAN/2018

Eduardo convocando pra direita se preparar



Mai/2018

Curso que forma instrutores de outros Clubes de Tiro, fazendas e empresas



Jun/2018

Propaganda do treinamento de combate com base em no treinamento de tropas especiais do exército americano



Mar/2019

Vai começar no dia 22 um novo curso de formação de instrutores No link primeiro falam da Chacina de Suzano e depois detalham o curso de instrução. Por diversas vezes tentam mascarar o seus reais objetivos objetivos. Mas fica claro que é um curso de combate e operações especiais



Isso é muito grave e a hora de denunciar é essa.

No Lulistas pelo Brasil
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Pesquisa mostra que Delações da Lava Jato esbarraram em “manipulação”, perícia e falta de prova

Lava Jato denuncia 426 em 5 anos; delações esbarraram em falta de provas


A Operação Lava Jato trouxe à tona do noticiário e do vocabulário nacional a delação premiada. O recurso, que permite que um condenado diminua sua pena ao delatar esquemas criminosos, foi amplamente usado nas investigações. Somente em Curitiba e no STF (Supremo Tribunal Federal), foram fechados 183 acordos de colaboração pelo MP (Ministério Público).

Considerada a maior operação de combate à corrupção do país, a Lava Jato já pediu a prisão de 267 pessoas (algumas seguem foragidas e outras já estão em liberdade) e denunciou 426 por diferentes crimes. Dessas, 155 já foram condenadas. "Imagino que investigados da Lava Jato e pessoas que estão vendo que a Lava Jato está se aproximando de crimes que elas cometeram desejam que a Lava Jato termine logo", disse Roberson Pozzobon, procurador da República e integrante do MPF (Ministério Público Federal) em Curitiba, em entrevista ao UOL sobre o balanço dos cinco anos da operação. "Há diversas investigações em curso hoje e é impossível definir o prazo final."

Nem tudo o que delatores afirmaram necessariamente foi comprovado por investigações. A reportagem do UOL separou cinco casos que mostram que as colaborações premiadas não conseguiram impulsionar apurações a ponto de punir os acusados (veja mais abaixo). E, em alguns casos, os delatores se beneficiaram do acordo da mesma maneira.

Com informações e documentos nas mãos, polícia e MP podem conseguir provar o crime por completo, obtendo a condenação total dos maiores responsáveis pelo esquema investigado.

Em algumas situações sequer há julgamento. A Odebrecht negociou o maior acordo de delação do mundo, com 77 executivos e 89 apurações abertas pela PGR (Procuradoria Geral da República). Porém, 22 delas foram arquivadas sem virarem um processo criminal. Ao menos 13 apurações foram para a lixeira por falta de provas.

"O acordo é o mais bem construído e o mais sério de toda a Operação Lava Jato e o que mais elementos trouxe para a elucidação da corrupção no Brasil", diz o advogado Theo Dias, que coordenou o pacto com o MP e que defende o patriarca da família dona da empreiteira, Emílio Odebrecht.

Para o professor de direito penal do IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público) Marcelo Turbay, muitas colaborações foram feitas apenas para que os investigados atendessem à tese investigativa de procuradores e policiais. "Tem esse tipo de distorção", contou ele ao UOL. Entre seus clientes, Turbay defende o ex-senador Romero Jucá (MDB-RR).

Delações premiadas sem lastro probatório e que não correspondem à realidade feitas tão somente para garantir benefícios, como exclusão de penas e não-denúncia [não ser denunciado]"

Marcelo Turbay, mestre em direito penal

Roberson Pozzobon, procurador da Lava Jato no Ministério Público Federal no Paraná desde 2014, não vê nenhuma colaboração com falhas. "Não consigo avaliar ou indicar qualquer acordo que tenha sido celebrado e que tenha ferido essa lógica [de só ser fechado caso o delator tenha realmente algo a contribuir]", explicou ao UOL.

Ele lembra que algumas colaborações narram 80 fatos, mas nem sempre é possível prová-los, pois alguns têm mais documentos e outros são mais antigos e mais difíceis de investigar, por exemplo.
Temos que levar em consideração que os acordos são pontos de partida, não chegada"
Roberson Pozzobon, procurador da Lava Jato no Ministério Público Federal no Paraná
O advogado Bruno Espiñera, defensor do delator Lúcio Funaro, entende que o MP está mais "criterioso" hoje para decidir aceitar colaborações premiadas. "No começo, não tinha uma aplicação concreta. Há um aperfeiçoamento natural. Vai se aprendendo na prática".

Reservadamente, outros defensores acrescentaram à reportagem que a Procuradoria passou a exigir mais documentos para embasar as declarações. O ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ) não conseguiu fechar uma delação, assim como o empresário Eike Batista, do grupo EBX.

Delações problemáticas


Veja cinco questões abertas, desde 2014, em colaborações premiadas da Lava Jato

Beto Barata/Agência Senado
9.mai.2016 - O senador Delcídio do Amaral comparece à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado
Imagem: Beto Barata/Agência Senado

Delcídio Amaral

Quem é: ex-senador pelo PT

Data do acordo: início de 2016, com a PGR

O que ele faz hoje: Delcídio se tornou pecuarista e vive no Mato Grosso do Sul.

Problemas:

Delcídio foi preso sob acusação de tentar comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró. Ao fechar acordo de colaboração, disse que fez isso a pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No processo, a Justiça absolveu Lula. O MP ainda pediu a condenação do ex-senador, mas o juiz preferiu absolvê-lo também. Delcídio ainda acusou Dilma Rousseff de nomear o ministro do STJ Marcelo Navarro Dantas com o compromisso de que ele soltasse presos da Lava Jato. O inquérito foi arquivado. Nos termos da colaboração, o MPF escreveu que "nem é preciso submeter" a agenda do senador a uma perícia para se verificar se ela era autêntica.

O que ele diz:

Delcídio disse ao UOL que tudo o que disse será comprovado por outras pessoas. "Eu não errei uma", garantiu. "Eu não era operador. Eu não tinha cópia de depósito. Eu sabia como as engrenagens funcionavam, e eu sempre fui claro: O que eu estou dizendo vai ser comprovado por terceiros."

Giuliano Gomes/Folhapress
15.dez.2016 - O empreiteiro Marcelo Odebrecht durante depoimento à CPI da Petrobras, em setembro de 2015
Imagem: Giuliano Gomes/Folhapres

Grupo Odebrecht

Quem é: maior empreiteira do Brasil, com 77 executivos participantes do acordo, a maior colaboração premiada do mundo.

Data do acordo: dezembro de 2016, com a PGR e autoridades dos EUA e da Suíça

O que eles fazem hoje: Emílio Odebrecht ainda não começou a cumprir pena de prisão domiciliar. Vive entre São Paulo e Salvador e trata da transição no comando da empresa. Seu filho, Marcelo Odebrecht, cumpre prisão domiciliar num condomínio de luxo em São Paulo. Os dois estão fora do comando da empresa.

Problemas:

Desde 2017, uma série de investigações aberta a partir da megacolaboração foi parar no lixo. Vinte e duas foram arquivadas. Nestas, pelo menos 13 tinham falta de provas. Outras 27 investigações foram para a primeira instância, a maior parte para julgar casos eleitorais. O MP e o Judiciário arquivaram casos relacionados, por exemplo, ao ex-ministro Blairo Maggi (PR), ao senador Eduardo Braga (MDB-AM), e aos ex-senadores Marta Suplicy (MDB-SP) e Ricardo Ferraço (MDB-ES). Entre os problemas, estão falta de perícias nos sistemas de controle de propina da Odebrecht em três casos analisados pelo STF. Cada um dos 77 delatores da empreiteira recebeu R$ 15 milhões da empresa para participar do acordo, segundo o jornal Valor Econômico.

O que a empresa diz:

"O acordo da Odebrecht é o mais bem construído e o mais sério de toda a Operação Lava Jato e o que mais elementos trouxe para a elucidação da corrupção no Brasil", diz o advogado Theo Dias, que coordenou o pacto com o Ministério Público e que defende o patriarca da família, Emílio Odebrecht. Segundo ele, por causa do volume de informações, é normal que alguns inquéritos não tenham virado condenações. E, além disso, entende que a responsabilidade dos colaboradores vai até um ponto, quando começam a dos investigadores."

Renato Mello/Transpetro
Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro
Imagem: Renato Mello/Transpetro

Sérgio Machado

Quem é: ex-senador do MDB e ex-presidente da Transpetro

O que ele faz hoje: Machado vive em Fortaleza (CE) e se dedica a escrever uma autobiografia. Não está mais em prisão domiciliar.

Data do acordo: início de 2016, com a PGR

Problemas:

Sérgio Machado gravou os então senadores Renan Calheiros e Romero Jucá, além do ex-presidente José Sarney, todos do MDB. Nas conversas, Jucá fala em pacto para frear a Lava Jato. O MP pediu a prisão dos políticos, mas o STF negou. Depois, a mesma Procuradoria pediu o arquivamento dos casos alegando que os áudios vazaram.

O que ele diz:

O advogado de Sérgio Machado, Antônio Sérgio Pitombo, afirma que a colaboração foi efetiva. Foram abertas sete ações penais e 11 inquéritos, dos quais quatro no STF. A 59ª fase da Lava Jato baseou-se na delação do ex-chefão da Transpetro e, por causa dela, houve denúncia contra ex-executivos do Grupo Estre. "Em breve, você verá que levará aos políticos que recebiam a propina repassada por essa empresa", contou Pitombo.

Alan Marques-26.out.2015/Folhapress
26.out.2015 - O doleiro Alberto Youssef, ligado a Antônio Pieruccini
Imagem: Alan Marques-26.out.2015/Folhapress

Antônio Pieruccini

Quem é: advogado ligado ao doleiro Alberto Youssef

O que ele faz hoje: Pieruccini era advogado em Curitiba, mas agora deixou a profissão

Data do acordo: 2015, com o MPF

Problemas:

Pieruccini só fechou acordo depois que Youssef e o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa não se entendiam sobre suposto repasse de R$ 1 milhão para a campanha da deputada Gleisi Hoffman (PT-PR) e seu marido, o ex-ministro Paulo Bernardo. Ele confessou ter feito quatro entregas de dinheiro a um arrecadador de campanha da petista, mas Pieruccini sequer foi denunciado. Ao final, o STF absolveu Gleisi, Bernardo e o arrecadador de qualquer crime. A advogada Verônica Sterman diz que o delator "inventou" uma versão para ser encaixada na tese da Procuradoria.

O que ele diz:

O advogado de Pieruccini, Rodolfo Herold Martins, diz que cabe a policiais, promotores e juízes darem seguimento ao que o delator diz. "As obrigações do colaborador são: dizer a verdade e cumprir seu acordo, pagar multa...", destacou. "Pieruccini apresentou o que ele sabe, e os documentos. Não existe "êxito" de condenação." Martins não quis comentar as declarações da defesa de Paulo Bernardo.
Zeca Ribeiro/Agência Câmara
9.jun.2015 - O lobista Júlio Faerman (ao centro), ex-representante da SBM Offshore
Imagem: Zeca Ribeiro/Agência Câmara

Júlio Faerman

Quem é: ex-lobista da fabricante de navios SBM Offshore

O que ele faz hoje: Aos 81 anos, Faerman está solto. Mora no Rio de Janeiro. Uma vez por mês, apresenta-se à Justiça, como parte de seu acordo.

Data do acordo: Junho de 2015, com o MPF do Rio

Problemas:

Faerman vendia navios para a Petrobras, representando a SBM. Em seus depoimentos, disse ter pago propinas para obter os contratos. Ele afirmou ainda ter repassado US$ 300 mil para a campanha de Dilma Rousseff (PT) em 2010, por meio de pagamentos no exterior para os ex-dirigentes da estatal Pedro Barusco e Renato Duque. No entanto, o juiz Vitor Valpuesta, da 4ª Vara Federal do Rio, avaliou que Faerman praticou "manipulação" e, em vez de lhe conceder redução de pena, condenou-o a 28 anos de cadeia. "Buscou construir suas narrativas cuidadosamente com vistas a minimizar sua responsabilização, intentando obstar a formação de convicção judicial quanto a específicas circunstâncias necessárias à tipicidade de suas condutas", avaliou o magistrado. "Pior: abusou do instituto em questão [delação], pois que veiculou alegações falsas."

O que ele diz:

O advogado de Faerman, Antônio Sérgio Pitombo, recorreu ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região. "O juiz errou na fixação da pena. A sentença tem um erro de interpretação. O tribunal vai corrigir."

Eduardo Militão e Vinícius Konchinski
No Uol
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Pastor (sic) favorável à posse de armas é criticado por defender o que Cristo rejeitaria

Marco Feliciano e o cristo dele
Na semana em que se lembrou um ano da morte de Marielle Franco, voltou a circular com força na internet a foto do pastor Marcos Feliciano em que aparece fazendo o gesto com arma na mão.

Feliciano, logo depois da morte de Marielle, deu uma declaração à rádio Jovem Pan em que, como pai de família, lamentava o assassinato da vereadora, mas dizia que ela não era líder de nada.

No mesmo programa, ele disse que esquerdista demora a morrer porque a bala de uma arma não encontra o cérebro da vítima, que é do “tamanho de uma ervilha”.

Nos comentários contrários a Feliciano, que viralizam na internet, se lembra de um versículo bíblico (Mateus 5,9) que contém uma frase atribuída a Cristo, em que diz:

“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”.

Feliciano se apresenta como o oposto do sentido desse frase, um dos pilares do Cristianismo, e seus discursos são um estímulo à violência.

Aliado da bancada da bala, ele declarou que é favorável ao porte de armas.

Um repórter do programa Morning Show (Jovem Pan), Cláudio Tognolli, perguntou a ele o que achava da medida proposta por Bolsonaro, “sendo o senhor um religioso, e o Cristianismo propugna a paz antes de mais nada”.

O pastor riu — hahahahahah — e começa a discorrer:

“O cidadão portar armas na rua, eu sou totalmente contrário. Mas um homem ter uma arma em casa, para poder defender a sua família, eu sou aberto a apoiar. E explico. O senhor citou há pouco aqui o massacre dos judeus. Como é que a pessoa consegue matar 6 milhões de pessoas? Tudo começou com o desarmamento.”

É o mesmo argumento de Olavo de Carvalho e de Jair Bolsonaro, lembrou o repórter.

“É a história”, respondeu o pastor. “Stálin fez isso, Hitler fez isso. É história”, acrescentou. E passou a atacar o jornalista:

“Quando eu te chamo de pseudo intelectual, é só por isso. Você não tem argumento. É história.”

É uma meia-verdade o que o pastor diz.

Hitler era absolutamente favorável ao porte de armas, mas desde que este fosse exclusivo daqueles que pensavam como ele, ou seja, a extrema direita alemã.

Na União Soviética sob Stálin, o acesso a armas era restrito.

Mas é uma tremenda ingenuidade imaginar que, se houvesse armas em poder dos cidadãos comuns, estes teriam condições de enfrentar o Exército Vermelho.

O argumento usado por Feliciano saiu da forja dos fabricantes de armas nos Estados Unidos, incorporado pela bancada da bala no Brasil, em que se faz presente a turma da Bíblia.

Feliciano serve a um senhor, o senhor das armas.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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A lumpemburguesia no poder: a irracionalidade da razão burguesa e o governo Bolsonaro

“Não vos ponhais a imaginar que eu vim trazer a paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”
(Mateus 10:34)
Conforme afirmei há certo tempo, a classe dominante brasileira, promovendo nas massas uma irascível revolta contra um triplex chinfrim e dois pedalinhos foscos, entregou o comando do país aos protagonistas da série Narcos. A sentença, que quando escrita tinha um conteúdo mais retórico do que propriamente analítico, hoje parece ir ao encontro da realidade brasileira. Os acontecimentos dos últimos dias, expondo a intimidade palaciana de milicianos assassinos, evidenciam o quão irresponsável foi a nossa burguesia quando se viu diante da responsabilidade de, em tempos de crise, garantir a lucratividade dos seus negócios, o quão irracionais foram os homens da Casa Grande quando, diante da prova do sufrágio universal, tiverem que preservar a racionalidade da austeridade neoliberal no país.

Poucos meses antes do último pleito, alguns de nós, analistas do processo político, acreditávamos que, no caso de fracasso de seu insípido candidato tucano, a burguesia brasileira optaria, ainda que resignada, por devolver o comando dos seus negócios aos seus representantes bastardos, os quais, não obstante todos os inconvenientes simbólicos, haviam se mostrado aptos para a função, ao menos em tempos de bonança. Erramos feio, erramos rude, segundo o recente adágio humorístico. Racionalmente, tentamos imputar uma racionalidade ideal à burguesia, uma espécie de racionalidade adjudicada, no sentido lukacsiano da expressão, ignorando que a razão burguesa é, em última análise, a razão automática do capital, ou seja, uma razão eminentemente ideológica cuja lógica última é socialmente irracional. Mistificadora por excelência, a racionalidade burguesa, ao obedecer aos imperativos imediatos, de curto prazo, da lucratividade do capital, se mostra não só responsável pela irracionalidade da vida social cotidiana, isto é, pela barbárie da sociabilidade burguesa, como também pode provocar resultados irracionais a médio e longo prazo para a própria burguesia, para quem a totalidade social nunca é capaz de ser fundamentalmente compreendida.

Ao longo de 2015, convencida de que o petismo não seria capaz de realizar as contrarreformas, a austeridade fiscal e os ataques aos direitos sociais na velocidade e com a intensidade exigidas pelo capital em tempos de crise, a burguesia, impudentemente, optou pelo golpe. Livre dos inconvenientes que a popularidade acarreta, Temer pôde efetivar agressivas medidas impopulares. Parafraseando Goethe, a praga foi transformada em benção: a impopularidade do presidente golpista foi vista como virtude pelos ideólogos neoliberais, já que os desígnios tecnocráticos podiam, desse modo, operar livres da vontade popular. Assim seria, e foi, até quando a vontade popular foi convocada novamente à cena política na qualidade de fator decisivo, isto é, na sucessão eleitoral. Segundo a razão burguesa, a saber, a razão golpista, por meio das eleições poder-se-ia novamente alçar ao comando do país um representante tradicional da Casa Grande e, assim, continuar e aprofundar o trabalho do presidente ilegítimo, agora, porém, de forma legítima. O Golpe de 2016 seria, assim, lavado pelas urnas, tal qual um dinheiro sujo, uma vez limpo, pode voltar a circular tranquilamente no mercado. Assim, o Deus-mercado, por meio do dilúvio eleitoral, poderia seguir no comando, mas agora em terras límpidas nas quais suas ovelhas, tendo reconhecido a sua voz e sufragado o nome de seu candidato tucano nas urnas, se esqueceriam do pecado original que seu próprio Deus havia cometido. A burguesia anelava, portanto, à maneira de Baudelaire, retornar alegremente “à lodosa estrada” da espoliação de direitos, mas agora como se esta fosse uma bem asfaltada highway. Este, até que se prove o contrário, parecia ser o plano do capital.

Como sabemos, as coisas não se deram bem assim, e o estratagema burguês, em parte, malogrou. Nem o uso de todos os mecanismos de blindagem da democracia liberal (poder econômico, coalizões partidárias, tempo de propaganda eleitoral, cobertura midiática etc.) se mostrou capaz de construir um cenário no qual o candidato preferencial da burguesia pudesse sair vitorioso. Os expedientes autoritários que haviam se desenvolvido pelo seu vasto uso durante o governo Temer foram, então, requisitados. Não bastava proibir a candidatura de Lula, ele tinha que ser encarcerado para que não subisse em palanques de outro candidato petista. Não bastava apenas encarcerá-lo, ele tinha que ser também impedido de dar entrevistas, falar ao telefone e gravar vídeos. Tudo o que parecia necessário para evitar um retorno do petismo ao poder foi feito, e a burguesia brasileira mostrou que ela não se constitui em uma classe geneticamente hostil apenas às reformas democráticas, tal qual apontara Florestan Fernandes sob inspiração trotskista, como também é um sujeito social que, em tempos de crise, não tolera sequer o mais tímido e esquálido reformismo, mesmo que este se manifeste apenas por meio de um conjunto de políticas sociais compensatórias, focalizadas e afirmativas. A justiça eleitoral permitiu todo o tipo de crime eleitoral – e ela mesma praticou alguns, como as invasões de universidades –, desde que eles tivessem como alvo a candidatura petista. Com o livre uso das fake news, patrocinadas com doações não declaradas de campanha, as eleições se converteram, finalmente, em eleições fake. As eleições do golpe foram, portanto, o golpe das eleições. Contudo, nada, absolutamente nada disso, foi suficiente para que a candidatura orgânica da burguesia obtivesse êxito.

A Casa Grande se viu, assim, subitamente refém dos demônios que ela mesmo conjurara, dos cães raivosos que ela mesma soltara, em suma, da pequena-burguesia reacionária que ela mesma utilizara como base de massas para o golpe gestado em 2015 e assestado em 2016. A racionalidade burguesa se viu, portanto, diante das irracionalidades produzidas pela sua própria “ação racional”. A ofensiva midiática “contra a corrupção”, dotada de uma ideologia antipolítica de cariz fascista, atingiu não só o Partido dos Trabalhadores, como também os próprios partidos orgânicos da burguesia e seus representantes políticos tradicionais.

Um tanto surpreendida, a burguesia se deparou com uma classe média reacionária que, historicamente caudatária do andar de cima, adquirira, desde as massivas mobilizações de 2015, uma espécie de “autonomia política relativa”, e, triunfante, apresentava agora o “seu” próprio projeto político-apolítico para o país. Arruinados economicamente, temerosos de sua proletarização, hostis ao assistencialismo social, incultos, iletrados e ignorantes, esses setores médios, arregimentados pela burguesia para o golpe, haviam, quando das mobilizações para aquele, desenvolvido a crença de que eles próprios poderiam governar e resolver, a seu modo, os problemas do país. Visceralmente antipetistas e descrentes da “política”, foram buscar seus lídimos representantes tanto em corporações elitistas não eleitas, como o Judiciário e as Forças Armadas, quanto em expoentes da marginalidade política, expressões no submundo político de uma burguesia parvenus, uma espécie de lumpemburguesia composta por milicianos, contrabandistas, arrivistas, aventureiros, fazendeiros caipiras, fabricantes emergentes, empresários arruinados, especuladores obscuros, estelionatários, donos de termas, de empresas de segurança, de transporte, de postos de gasolina, habitués de churrascaria rodízio e camarotes de micaretas, pastores descrentes, ex-jogadores de futebol, artistas pornô e leitores de um guru astrólogo delirante. Adepta fervorosa da família brasileira, a classe média reacionária resolveu se afeiçoar a uma delas em particular, e encontrou no seu patriarca o Messias que tanto precisava para “mudar tudo isso que está aí”. Como pôde ser constatado, diante da alternativa petismo ou neofascismo, a alta burguesia dos grandes salões não se conteve apenas em lavar as mãos, e preferiu sujá-las mesmo, fazendo de um tudo para que o führer tropical, mitificado por toda essa fauna e flora do rebotalho do capital, fosse vitorioso nas urnas no segundo turno do ano passado.

Tal foi a contraditória dinâmica que nos levou até a presente situação, na qual parece ter lugar a construção de um regime semibonapartista ultra neoliberal, apoiado em superministérios compostos por quadros forenses e castrenses de extrema direita, para os quais os direitos democráticos não podem continuar a obstar a retirada dos direitos sociais, o que lhes parece ser suficiente para que todo e qualquer direito, salvo o da propriedade privada, seja enviado o mais rápido possível para o museu da história do capitalismo. Enquanto a democracia blindada parece dar lugar a uma democracia dos blindados, a alta burguesia brasileira, ao mesmo tempo em que espera e cobra do lumpesinato político à frente do seu Estado a aprovação das contrarreformas e a aplicação de uma austeridade inclemente para com os trabalhadores, se vê impingida a tentar domá-lo, procurando evitar que o seu jeito tosco e plebeu provoque crises desnecessárias e até mesmo perigosas em um país economicamente estagnado, socialmente fraturado e politicamente dividido. A banca e seus finórios jornalistas instam o governo a acelerar os ataques econômicos à maioria da população, pois temem que seus feitos circenses, suas diatribes despropositadas contra a razão, a arte e a ciência, seus ministros histriônicos e suas ministras psicóticas ponham tudo a perder.

Tementes a Deus, porém cínicos, os donos do capital, na contramão das escrituras, rezam para que os encobertos crimes pretéritos dos momentâneos donos do poder não sejam agora descobertos, que seus cruentos atos secretos não sejam justo agora revelados. A Casa Grande agora tenta evitar que seus capitães do mato, mais livres, com mais chicotes e menos pudores, tornem inviável o ramerrão da plantation. A burguesia agora cobra racionalidade dos seus prepostos irracionais, cujo poder só foi obtido graças à irracionalidade que vertebra a razão da própria burguesia. Possivelmente, torce para que homens aparentemente mais sóbrios do governo, como Moro, ouçam a sua consciência, se esquecendo de que, tal como se dava com Ievguiêni, personagem de Tolstói, sua consciência não tem nada a lhes dizer. Assustada com a loucura dos marginais que alçou ao poder, a Casa Grande parece solenemente ignorar o alerta feito pelo mesmo autor russo, quando escreveu que os mais loucos são justamente aqueles que enxergam nos outros os sintomas de loucura que não enxergam em si mesmos.

Felipe Demier
No Esquerda Online
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As múltiplas togas do ministro Gaspari-Toffoli

Xavier: é bandido contra bandido. Não há mocinhos


O Conversa Afiada publica sereno (sempre!) artigo de seu colUnista exclusivo Joaquim Xavier:

Após “condenar Lula à morte”, Justiça quer posar de honesta

É bandido contra bandido. Não há mocinhos.

Romero Jucá, líder de qualquer e todos os governos, cantou a bola faz tempo. “Precisamos estancar a sangria, com o Supremo e tudo”. Referia-se à enxurrada de denúncias contra políticos promovida pela Lava Jato. Sobre o processo fraudulento, farsesco mesmo, contra o principal deles, Lula, nem um pio.

Dito e feito. Lula está encerrado numa solitária, tratado como um Marcola ou Fernandinho Beira-mar. Ele e sua família vêm sendo humilhados há anos sem dó nem piedade por togados de qualquer instância, mas sempre de quinta categoria. Tudo escumalha do mundo do Direito. Puseram até um de seus representantes em ministério, também chamado entre o povo de filial do “escritório do crime” miliciano. O silêncio sobre Lula continua igual

Procuradores e falsos Torquemadas gostaram da brincadeira e resolveram ir em frente com a “sangria”. Aí o pessoal da roubalheira grossa, da manipulação de sentenças e do favorecimento dos poderosos decidiu reclamar. Para o presidente do supreminho, José brilhantina Toffoli, está em curso “um assassinato de reputações [...] impulsionado por interesses escusos e financiado sabe-se lá por quem” (O Estado, 16/03).

Mesmo no Brasil, tudo pode ter limite algum dia. Menos a hipocrisia. No quesito, Toffoli já é candidato ao troféu “personalidade do ano” daquele jornal que todos conhecem.

Durante anos, a dita Lava-Jato promoveu uma operação arrasa-quarteirão no Brasil. Sempre com o apoio entusiasmado e cumplicidade do supreminho e do mundo da política bastarda.

Destruiu empresas, desempregou dezenas de milhares de trabalhadores e, sobretudo, cumpriu seu papel principal: eliminar da vida política o maior líder popular que o país já produziu, candidato imbatível em eleições e símbolo de mudanças sociais, mesmo tímidas, mas inéditas num país como o Brasil.

Foi esta manada de aprendizes de direito (com caixa baixa) que capinou o terreno para derrubar uma presidenta legítima, destruir direitos dos assalariados e fritar em fogo alto a soberania nacional. Foi ela também cabo eleitoral desta aberração com aparência de hominídeo chamada Jair Bolsonaro.

De repente, Toffoli descobre um "assassinato de reputações financiado não se sabe por quem". Aparentemente laborófobo, não deve ter lido as inúmeras reportagens dando conta da máquina de mentiras eletrônica montada pelo trio Bannon-Bolsonaro-Trump para tirar o candidato de Lula das eleições.

Nomes, situação, montantes de dinheiro –está tudo registrado em reportagens magistrais da jornalista Patrícia Campos Mello. Já no caso de Lula, bastou uma notícia mentirosa do jornal “O Globo” para disparar um processo monstruoso sobre um apartamento no Guarujá.

Agora não. Cheio de brios truculentos e oportunistas, o supreminho quer evitar que se investigue a podridão do judiciário e seus asseclas dentro e fora dos tribunais. Só que a manada se assanhou. Até tentou fundar um Brazil (com z mesmo) paralelo, com orçamento próprio em parceria com os americanos.

Não é uma briga entre bandidos e mocinhos. Trata-se de um combate entre bandidos, ressalvadas as exceções de praxe. De saída, alguns já se consideram poupados do tiroteio.

Por exemplo: cadê o supreminho diante do assassinato da vereadora Marielle e do motorista Andreson, das evidências de laços mais do que fraternais entre a famiglia no poder e a escória do crime organizado, de ministros alaranjados e tantos outros casos de malfeitos envolvendo o governo Bolsonaro? Registre-se a atuação de Serra, Aloysio e demais cardeais tucanos suplicando um lugar em um dos bondes da cegueira premeditada.

Durma-se com um barulho desses, talvez até maior do que o produzido numa rua do Rio de Janeiro ou numa escola pública de São Paulo.
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Regina Duarte, Bolsonaro e a ameaça fascista: é preciso enfrentá-los

Regina Duarte e o convite para a manifestação: acabar o o STF
A atriz Regina Duarte compartilhou o convite a uma manifestação de rua marcada para hoje com o propósito de “acabar com o STF”. Apenas isso: acabar com o STF.

É algo tão grave que se poderia pensar em crime contra a Constituição, já que a corte suprema é um dos poderes que sustentam a democracia no Brasil.

Tem gente que pode considerar o gesto da atriz inocente, já que talvez ela nem saiba o alcance da proposta que endossa.

Regina Duarte é meio “esquecida”, como lembrou o ator Zé de Abreu em uma polêmica antiga com ela. “Não consegue decorar textos há muitos anos”, contou.

Não é desculpa.

Regina Duarte é como aquela idosa que ajuda a jogar gasolina na fogueira e depois diz: “Eu não sabia”.

E, há anos, tem ajudado a sabotar a democracia no Brasil, emprestando sua imagem a causas anti-populares.

Suas ações são da mesma família da youtuber mirim que vem a público para dizer que deseja a morte dos adversários.

Poderia ser a avó dela.

Poderia ser também tia de Joice Hasselmann, que neste fim de semana teve um vídeo antigo seu republicado pelo submundo da internet, em que ela defende a intervenção militar se não forem afastados os ministros Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski.

Não é vídeo novo, frise-se, mas reflete o pensamento atual de muitos daqueles que fazem o movimento anti-STF na rede.

Esse movimento, que inviabilizou o governo de Dilma Rousseff, prendeu Lula e elegeu Bolsonaro, não vai parar.

O STF é só mais um degrau.

Se não vai parar, ele terá que ser parado, pela manifestação daqueles que querem manter o Brasil no caminho da democracia.

É civilização x barbárie.

Lembre-se:

Quando começou o movimento para derrubar Dilma, alguns que não gostavam dela, mas não eram anti-democratas, se calaram.

Ponto para a barbárie.

Quando Lula foi condenado sem provas e tinha direito a recorrer em liberdade, também se calaram.

Ponto para a barbárie.

Quando Bolsonaro, fazendo uso de uma rede abusiva de fake news, ameaçava vencer as eleições, se calaram.

Ponto para a barbárie.

Agora, por discordarem do STF, os mesmos indivíduos querem ganhar as ruas.

O que pretendem?

Enquadrar os ministros?

A sua destituição?

O fechamento do STF?

Ministros vencidos no julgamento sobre a Lava Jato, como Luís Roberto Barroso e Cármem Lúcia, deveriam ser os primeiros a demonstrar a união da corte em defesa da Constituição.

Mas estão calados.

Esperando para ver o que acontece nas ruas.

Isso não é justiça, não é compromisso com a democracia.

É linchamento.

É um comportamento indigno, é se curvar a aventureiros de Curitiba, que, através da Lava jato, tornaram o Brasil refém de um projeto político de poder.

O líder deles já está no Ministério da Justiça.

O número 2 cobiça a Procuradoria Geral da República, depois de articular a criação de uma fundação bilionária com dinheiro da Petrobras.

Anote: eles não vão parar.

Terão que ser parados, pela força da democracia, como fez, por exemplo, Franklin Delano Roosevelt nos Estados Unidos, quando percebeu que os ventos do nazismo sopravam sobre o país que presidia.

Depois da sua eleição, em 1932, ele promoveu encontros com os formadores de opinião do seu país, um a um, e explicou o perigo que representava a ascensão de Hitler na Alemanha.

Ajudou a construir um consenso em seu país em defesa da democracia.

Não se omitiu.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Ciro, da Trupe Idiota

Uai Ciro, você pode zoar e nós não? Tá magoado com Zé de Abreu? Ele foi mais rápido, mais engraçado e contundente. Falam dele em todo o mundo, e de você?


Fosse mambembe seria dignificante.

Mais uma vez, Lula acertou ao desconsiderar seu apoio a Ciro Gomes nas últimas eleições. Perdeu, com Haddad, mas manteve a sua dignidade ao indicar alguém preparado e probo. Claro que se o formos comparar a Messias-Mito, estaríamos melhor. Pior, impossível.  

Gleisi, recentemente, foi bem ao dizer que Ciro “é um coronel oportunista, ressentido e covarde”. Alguns meses em Harvard não tirarão dele essa pecha.

Tenta ser histriônico, mordaz, irreverente. Para tanto disse: “Elegeram um garoto de 13 anos. Um adolescente tuiteiro”, referindo-se a Jair Bolsonaro. Somente ele percebeu.

Mas, graças a um Brasil medíocre, o cearense de Pindamonhangaba/SP, como Geraldo Alckmin, é levado em consideração. Pois bem, se isso não foi uma galhofa, um escracho, um deboche, o que o será?

Mas, como seu oportunismo é evidente, logo ataca a oposição (não tem coragem de dizer esquerda, pois nunca a ela pertenceu), assim “[ela] presa em rosa, azul e mamadeiras”.

Uai Ciro, você pode zoar e nós não? Tá magoado com Zé de Abreu? Ele foi mais rápido, mais engraçado e contundente. Falam dele em todo o mundo, e de você?

Em palestra/entrevista onde bestou, no IREE, foi indigno, vago, rancoroso.

Insignificante, também fui convidado a uma delas, que será reproduzida no final deste texto. Creio ter falado sério. Não estava atrás de votos.

“O que eu quero agora é voto”, Ciro afirmou. Deputado estadual, em São Paulo, talvez? Sentimento meu: para mais do que isso, nunca os terás suficientes e nem mesmo acredito que ganharia do Bozo, se tivesse ido ao segundo turno.

Se ganhasse, apenas seria pelo silêncio do capitão-da-reserva e sua providencial (?) facada.

O povão (depreciativo?) queria Bozo, o mito, o anti-Lula, cristianizado pelas folhas e telas da Federação de Corporações. O cento do ânus de seu filho corre risco, e não devemos temer anunciar. Ele gostará, o pai o reprimiu durante anos. Nós seremos os seus libertadores.

Ciro Gomes declarou: “a necessidade de um novo ciclo de industrialização, que supere a dependência de investimento estrangeiro e satisfaça o perfil de consumo das famílias brasileiras, ávidas por importados”. Bidu.

Continua: “É ilusão que vamos pagar esse modo de consumo moderno com feijão, soja, milho e carne in natura. Essa conta não fecha”.

Burro, essa a única conta que fecha, pois outra ainda não temos.

Vai mais longe: “A saída está em usar o poder de compra do Estado em três setores: o complexo da saúde, a agroindústria e o setor de defesa. A substituição de importações nestas áreas seria capaz de fazer florescer novas indústrias no País”.

Curioso, a torcida do Flamengo e do Corinthians também acham o mesmo.

Mas, infelizmente, Jair Bolsonaro afirma que a democracia no Brasil será aquela que as Forças Armadas quiserem. E aí, Ciro Gomes? Quero ouvi-lo.

(Indo em frente)

Pensando em obras coletivas (não exatamente grupos), dois álbuns do cancioneiro brasileiro, para mim, são seminais. Por coincidência, ambos foram lançados em 1972. Falo de “Acabou Chorar”, dos Novos Baianos, e do primeiro “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento e seus mineiros.

Dos baianos, tomo a faixa “Besta é Tu”, composta por Pepeu Gomes, Luiz Galvão e Moraes Moreira, para proclamar que todos os que não votaram 17 deveriam ostentar este bordão em peitos, cartazes e adesivos.

Pois é, BESTA é TU!

Produtores agropecuários, exportadores de commodities ou não, e mesmo os muitos eleitores dele, inadvertidamente, irão perder benefícios da agricultura familiar com reflexo direto na comida sobre as mesas de brasileiros pobres.

Pois é, BESTA é TU!

Que votou, elegeu, e entregou a presidência da República a um incompetente, despreparado, de quem vocês não tinham qualquer noção, após 28 anos do nada fazer, só por que ele iria liberar umas armazinhas de tiro ou de toxidade para vocês.

Pois é, BESTA é TU!

Que não imaginou que Paulo “Keds”, para manter o ajuste fiscal, sacou que só poderia tirar dinheiro de quem trabalha no campo, na forma de taxas pra cobrir os rombos abissais dos Estados.

Pois é, BESTA é TU!

Que esqueceu a bonança entre 2003 e 2015, graças a um estadista, hoje na prisão por delações premiadas qualquer nota, depois de ter vencido a maior crise da economia mundial desde 1929 (2007/8).

Pois é, BESTA é TU!

Que o trocou por um mi(n)to que agora elimina ou diminui os direitos da aposentadoria de trabalhadores urbanos e rurais.

Pois é, BESTA é TU!

Que acreditou que ele mexeria com o sistema hereditário de aposentadorias de filhos e netos de militares e altos funcionários do Judiciário?

Pois é, BESTA é TU!

Que não sabe que o “Guru” nunca passou de um consultor de baixo escalão nem comandou equipe de mais de duas pessoas.

Pois é, BESTA é TU!

Que perderá exportações com Tereza Cristina oficializando registros de agrotóxicos aos montões. Puta estardalhaço pra quê, se há muito tempo vocês os usam, pois, o Paraguai fica logo ali.

Pois é, BESTA é TU!

Que verá nossa biodiversidade ser vendida, a riqueza de suas gerações futuras, vocês eternos donos de terra. A vida os sorri hoje, mas não mais permanecerá, a continuarem os erros de geopolítica e relações comerciais com nossos clientes de maior potencial de compras.

Pois é, BESTA é TU!

Por se amasiarem com os EUA e Donald Trump, seus maiores concorrentes, com colheitadeiras, agricultura de precisão, Big Data, moléculas químicas e tóxicas cada vez mais modernas. Tudo deles e para o bolso deles, pago pelos seus.

Pois é, BESTA é TU!

Incertezas que não haveriam: subsídios da Lei Kandir, escolha errada no alinhamento de países, câmbio no atual patamar até as reformas empacadas, como serão cobrados os ICMS e qual será a decisão sobre a tabela de fretes. E o seguro rural, mais do que necessário, bem encaminhado por Dilma por ação de Kátia Abreu? Para calendas?

Pois é, BESTA é TU!

Afinal, abriremos a exploração de urânio aos investimentos privados. Nacionais? Coitados.

Mas se bestas são todos vocês, o que seremos nós? Bestas também, claro. Deixamos acontecer a tragédia, mesmo sabendo que 1/3 da renda nacional (28%) estão nas mãos do 1% mais rico. Temos a maior concentração de riqueza do planeta, depois da Turquia. Entre as dez maiores economias do mundo, o Bananão (saudades, Ivan Lessa) está em 79º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU.

Com Lula, nosso índice de Gini só melhorou. Agora … temos 43,5% de nossas crianças vivendo na pobreza. Teria muitos outros índices para informa-los. Mas, ao contrário de meu modo de colunismo, estou achando tudo isso “um saco, como dar pipoca aos macacos” (Raul Seixas).

Passo, então, à galhofa que, felizmente, Zé de Abreu, a fez melhor que nós, no ano. Vamos lá:

Em 6 de março, o Valor fez publicar: “Índios serão consultados sobre mineração, mas não vão decidir, diz ministro (Bruno Albuquerque)”. Pensei que iriam. “Bestas, somos Nós”.  

E mais não digo, ou digo.



Rui Daher
No GGN
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Autópsia de Lemann, o lucropata


Por que Warren Buffett deveria ter ouvido funcionários da Kraft-Heinz

Em novembro do ano passado, um funcionário da Kraft-Heinz havia mais de quatro anos escreveu: "O orçamento base-zero é uma ferramenta orçamentária. Nunca deveria ser usado como um princípio de gestão. O volume de vendas da empresa não cresce e não há espaço para mais cortes". A crítica, anônima, foi uma das mais ponderadas entre mais de 3 mil resenhas sobre a Kraft-Heinz no Glassdoor.

Maior site de empregos do mundo, com 64 milhões de visitantes mensais, o Glassdoor recolhe impressões de atuais e ex-colaboradores de empresas. Acumula 47 milhões de resenhas sobre 900 mil empresas de todo o planeta sob o compromisso de não excluir quaisquer comentários, por mais críticos que sejam. Dois meses antes do cauteloso funcionário comentar sobre Kraft-Heinz, um ex-colega de fábrica em Pittsburgh, no Estado americano de Pensilvânia, deixou a empresa, depois de dois anos, com um sucinto conselho aos seus acionistas: "Vendam suas ações antes que elas caiam ainda mais".

Um extrato restrito às avaliações escritas ao longo dos últimos 12 meses mostra que os funcionários há muito já sabiam aquilo que Warren Buffett divulgou na carta a investidores no fim de fevereiro. No texto, uma bíblia dos pregões, disse ter pago caro demais pela associação com a 3G Capital para a aquisição da Kraft-Heinz em 2015.

Fundador de um dos maiores guarda-chuvas de investimentos do mundo, o Berkshire Hathaway, Buffett perdeu, em 2018, US$ 2,7 bilhões, apenas com a desvalorização do investimento feito em associação com o fundo dos brasileiros Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira. Aos dois anos de perdas, que cortou pela metade o valor da Kraft-Heinz na Nasdaq, somou-se a investigação da SEC (Securities and Exchange Comission), o órgão de fiscalização do mercado acionário americano, sobre os registros contábeis da empresa.

Os analistas do mercado de alimentos atribuíram as perdas ao avanço das empresas concorrentes no desenvolvimento e na aquisição de marcas mais afeitas ao gosto contemporâneo por produtos orgânicos. O avanço desses produtos, elaborados a partir de ingredientes frescos, estaria alavancando empresas como a Whole Foods e deixando para trás os ícones mundias da Kraft-Heinz, como o Macaroni&Cheese e o Philadelphia Cream Cheese. Para quem conheceu a empresa por dentro, no entanto, a crise vai além do seu descompasso com o mercado consumidor.

Como há um maior número de ex-funcionários do que de colaboradores atualmente a serviço da empresa, entre os autores das resenhas da Glassdoor, é natural que os comentários, a despeito da garantia de sigilo, sejam mais ácidos. Mas a insatisfação média na Heinz-Kraft é bem superior, por exemplo àquela observada entre os funcionários da Whole Foods ou da Unilever, gigante do consumo que o 3G fracassou em comprar no ano passado.

Na avaliação de até cinco estrelas da Glassdoor, a Unilever tem quatro, a Whole Foods, 3,6 e a Kraft-Heinz, 3,1. Entre os resenhistas, 54% recomendariam a parentes e amigos a empresa dirigida pelo brasileiro Bernardo Hees, enquanto 66% fariam o mesmo com a Whole Foods e 84% com a Unilever.

Em comum, as críticas às três empresas revelam dissabores com os chefes imediatos, com o desequilíbrio entre o tempo dedicado ao trabalho e aquele reservado para a família, além das políticas de ascensão na carreira de cada local de trabalho. É a tríade de queixas universais de empregados em relação a seus patrões. Na Kraft-Heinz, no entanto, as resenhas vão além. Há um reconhecimento de que os salários são mais elevados do que na média das empresas do ramo, mas a paga não compensa o desgaste das relações de trabalho em curso, como sintetiza a recomendação de um funcionário com seis anos de casa: "As pessoas geralmente largam chefes, não empresas".

As queixas vão da ausência de laptops adequados a uma cultura empresarial mais focada no "orçamento base-zero" do que na colaboração entre os funcionários para o desenvolvimento do negócio. O 3G fez fama pela tesoura. O orçamento de cada ano não leva em consideração os gastos do exercício anterior. Cada centavo deve ser justificado, preferencialmente, em patamares mais baixos do que aqueles previamente feitos - de despesas com papel às viagens.

Quando indagados sobre a exportação de seu modelo, os gestores do 3G sempre se remetem aos seus gurus são americanos, mas os funcionários mais antigos da Kraft-Heinz atribuem o agravamento de seus problemas à chegada dos investidores tupiniquins. Um ex-gerente, que vê como única vantagem da empresa oferecer carro e combustível para deslocamentos de seus vendedores, descreve os brasileiros de sua unidade como chefes, por um lado, estritos na cobrança das metas, e, por outro, como criadores de panelinhas de escolhidos que se cumprimentam com "beijinhos".

Um analista financeiro, que ficou quatro anos na unidade de Chicago, diz que não se sentia trabalhando numa empresa americana. Identifica os líderes da empresa como um time de brasileiros unicamente focados numa gestão barata. "Desistam e voltem para o Brasil", recomenda. Este mesmo time levou a uma gerente da mesma unidade a pedir mais diversidade: "São todos homens brasileiros".

Um funcionário da unidade de Fullerton, na Califórnia, chegou a citar diretamente o CEO, Bernardo Hess, questionando sua dupla condição de gestor da companhia e investidor do 3G, o que o levaria a dar prioridade à remuneração do capital em detrimento da empresa. "O valor de mercado da companhia caiu mais de 40% em quase dois anos. Seu time gere a Kraft-Heinz a partir do modelo da General Electric, que faliu", disse, citando a empresa um dia gerida por Jack Welch, reconhecidamente, fonte de inspiração dos brasileiros do 3G.

Um ex-analista sênior de finanças da unidade de Chicago se queixa da crença de que escrivaninhas minimalistas, com apenas dois itens pessoais permitidos, incrementam a produtividade - "O CEO Bernardo Hees chegou a andar pelas mesas do escritório deixando bilhetes naquelas que estavam em desacordo com a regra".

Elizabeth Vassolo, funcionária de recursos humanos encarregada de responder os comentários e repassá-los aos gestores da Kraft-Heinz, passa apuros. "Meritocracia é um código para favoritismo", diz um funcionário. "Foquem mais na concorrência externa do que em fomentar a disputa interna", diz outro, lotado em Chicago. Elizabeth segue o manual. Agradece, diz que a empresa busca sempre se aperfeiçoar e promete passar adiante os comentários. Em alguns casos, recomenda que os funcionários contactem, anonimamente, o departamento de ética da empresa para relatar as situações que os levaram a tanto azedume.

Muitos dos resenhistas aconselham os leitores a não acreditar em nada positivo que venham a ler sobre a Kraft-Heinz. "Em vez de resolver os problemas que lhes chegam, os gestores se ocupam em mandar e-mails para as pessoas pedindo que deixem avaliações positivas no Glassdoor, mas é difícil fazê-lo quando há muito pouca clareza se a empresa se importa com o que pensamos", diz um funcionário.

Elizabeth não perde a linha: "Periodicamente pedimos aos nossos funcionários que considerem a possibilidade de deixar depoimentos honestos e anônimos porque estes nos ajudam a melhorar a empresa. Compartilharei seu retorno com a chefia de maneira a identificar áreas em que possamos melhorar. Seus comentários são muito úteis. Obrigado por tomar seu tempo".

Ao discursar, no ano passado, num evento de investidores, Lemann reconheceu os limites da eficiência. "Vivia no mundo aconchegante das velhas marcas e dos grandes volumes. Bastava você se concentrar em ser altamente eficiente e tudo ficaria bem. Mas, de repente, estamos sofrendo toda espécie de desordenamento", disse o confundador da 3G, ao se definir como um "dinossauro apavorado" e reconhecer que teria de se ajustar às novas demandas dos clientes.

A julgar pelas opiniões dos funcionários da Whole Foods, no entanto, se a Kraft-Heinz só levar em conta o mercado consumidor, não vai prover um ambiente de trabalho propício a inovações. É uma empresa distinta porque centrada no varejo de orgânicos, mas, por esta razão, é apontada como rumo das mudanças a serem adotadas pela gigante de alimentos industrializados do 3G.

Em comum, têm a aquisição recente por conglomerados sem expertise no negócio. Há um ano a Whole Foods foi comprada pela Amazon, segunda maior empregadora dos EUA. A aquisição é citada por muitos resenhistas da empresa no Glassdoor como negativa. A queixa mais frequente, presente em mais de 600 comentários, no entanto, é a de que as reclamações de clientes sempre se sobrepõem àquelas dos seus trabalhadores.

Por ser uma empresa de varejo de alimentos, o contato com consumidores é muito mais direto do que aquele experimentado pelos trabalhadores da Heinz-Kraft. Uma funcionária de meio expediente chega a dizer que a empresa se preocupa mais com a qualidade de seus produtos do que com o ambiente de trabalho. Numa cultura empresarial como a do negócio do 3G que, na avaliação de seus funcionários, foca mais a meta individual do que a colaboração, uma guinada para absorver as novas tendências do mercado de consumo custará a motivar o esforço - e a imaginação - coletiva.

Maria Cristina Fernandes
No Valor
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Surge a teia oligárquica da operação lava jato


Estudo inédito da UFPR mapeia relações de Moro e promotores com grupos mais conservadores do Paraná. Políticos da ditadura, clãs encastalados nos tribunais e escritórios de advocacia que negociam delações.

A reportagem é de Amanda Audi, publicada por Agência Pública, 13-03-2019.

Para o professor de sociologia Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os integrantes da Lava Jato (incluindo magistrados, procuradores e advogados) operam em um circuito que chama de “fechado” e que funcionaria “em rede”.

O professor comanda um grupo de pesquisa chamado “República do Nepotismo”, que utiliza a técnica da prosopografia (biografia coletiva de determinado grupo social ou político) para demonstrar que pessoas como Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e advogados ligados às delações são herdeiros de figuras do Judiciário e da política paranaenses. O estudo será apresentado na segunda quinzena deste mês.

“Eles se conhecem muitas vezes desde a infância, porque os pais já se conheciam. Frequentaram as melhores escolas, universidades, têm sociabilidade em comum. Quer dizer, vivem na mesma bolha. Têm as mesmas opiniões e gostos políticos e ideológicos. E todos têm conexão com a indústria advocatícia, com os grandes escritórios jurídicos”, afirma.

Eis a entrevista.

Quais as principais conclusões do estudo que o sr. desenvolve na UFPR?

Em primeiro lugar, quando a gente pensa na magistratura brasileira e do Paraná, sempre se deve entendê-la como unidades de parentesco. São famílias ao mesmo tempo jurídicas e políticas, uma unidade que sempre opera em rede. Não existe aquela figura, como alguns imaginam, de pessoas que são “novas”, ou “emergentes”, ou “renovadoras”. Os resultados mostram que são todos herdeiros de uma velha elite estatal.

Isso inclui os integrantes da Lava Jato?

Sim, o juiz Sérgio Moro e todo mundo, temos todos os documentos. É uma elite estatal hereditária porque eles apresentam parentescos no sistema judicial bastante significativos. Não apenas parentesco, mas também relações matrimoniais, de amizade e de sociabilidade. Há também a dimensão do corporativismo. Se forma um grande circuito formativo ideológico, de convivência, que tem determinados padrões e valores hereditários. O próprio Sérgio Moro, uma figura central, filho de um professor universitário, tem como primo um desembargador, o Hildebrando Moro. Ter um parente no Tribunal de Justiça, para os códigos internos, faz muita diferença. Na nossa interpretação, é um sistema pré-moderno. Ele não funciona através de regras impessoais ou de aspectos técnicos, mas com muito poder pessoal. De modo que o ator, na magistratura, tem uma capacidade incrível de determinar a agenda, a temporalidade dos processos, no sentido de escolher os que quer acelerar e aqueles que serão adiados.”

Existe relação de proximidade entre magistrados, procuradores e advogados da Lava Jato?

Sim, é o mesmo circuito. Tem o caso da esposa do Moro, a Rosângela Maria Wolff Quadros, que é advogada. Ela está situada dentro do clã da família Macedo, genealogia extremamente importante no Paraná, que atinge atores nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e no empresariado. Como Rafael Greca de Macedo [prefeito de Curitiba], o Beto Richa [governador do Paraná licenciado] e um conjunto de empresários e desembargadores do Tribunal de Justiça. Até se usa o termo “Macedônia”, dada a importância da família Macedo. E a família Wolff é típica do poder local de São Mateus do Sul [interior do Paraná], é uma estrutura que vem da República Velha, do coronelismo. Ela, como advogada, tem relações profissionais com a Apae. E aí há uma conexão direta com a família Arns. Flávio Arns foi senador, vice-governador, ator de atividades assistenciais. E com o advogado Marlus Arns de Oliveira, que é sobrinho do Flávio Arns.

Qual a relação entre eles?

É uma relação profissional [da esposa de Moro] com a família Arns e com as Apaes. Eles trabalharam juntos com as Apaes. O Marlus Arns é advogado de muitos acusados da Lava Jato nas delações premiadas. Chegou até a defender Eduardo Cunha. Em matérias da imprensa sobre advogados amigos do Sérgio Moro, como o Carlos Zucolotto, e as questões sobre Rodrigo Tacla Duran, mostra a partir do casal uma indústria jurídica da Lava Jato, em que muitos dos principais advogados da Lava Jato têm relações próximas com os operadores.

Quais casos foram identificados pelo grupo de pesquisa?

O do procurador Diogo Castor de Mattos, que era filho do falecido procurador Delívar Tadeu de Mattos. Ele foi casado com Maria Cristina Jobim Castor, que era irmã de Belmiro Valverde Jobim Castor, que foi empresário, secretário de Estado, do Bamerindus, um nome muito importante na política. No escritório da família, o Delívar de Mattos & Castor, trabalha um irmão do procurador, que se chama Rodrigo Castor de Mattos. Ele foi advogado do marqueteiro João Santana. É mais uma relação direta de parentesco, que corrobora que é uma indústria advocatícia da Lava Jato muito próxima dos seus protagonistas.

Há situações parecidas com outros integrantes da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba?

O Carlos Fernando dos Santos Lima é filho de Osvaldo Santos Lima, que foi procurador, deputado estadual da Arena e presidente da Assembleia Legislativa do Paraná em 1973. Ele também tem dois irmãos no Ministério Público. A esposa dele teve relação com o Banestado [banco paranaense que deu origem a escândalo de corrupção nos anos 1990 e Carlos Fernando investigou]. O Deltan Dallagnol é filho do ex-procurador Agenor Dallagnol. Ele passou no concurso sem ter os dois anos de formado, o pai foi o advogado [na apelação da União, em que a Justiça deu vitória ao procurador] . Todos os operadores da Lava Jato também são extremamente conservadores e têm perfil à direita, semelhante aos seus parentes que faziam parte do sistema na ditadura. Naquela época, seus pais eram gente do establishment. E eles herdam a mesma visão de mundo. É uma elite social, política e econômica.

Os integrantes da Lava Jato vivem em um meio comum?

Sim, eles se conhecem muitas vezes desde a infância, porque os pais já se conheciam muitas vezes. Eles frequentaram as melhores escolas, universidades, têm sociabilidade em comum. Quer dizer, vivem na mesma bolha. Têm as mesmas opiniões e gostos políticos e ideológicos. E todos têm conexão com a indústria advocatícia, com os grandes escritórios jurídicos que atuam no sistema judicial.

Na pesquisa, o sr. ouviu falar sobre advogados que conseguem acordos de delação com a Lava Jato fazerem parte de um mesmo grupo?

É exatamente o que os resultados revelam, porque alguns principais advogados da indústria da delação são nomes com conexão com as famílias da Lava Jato.

O mesmo se aplica aos tribunais superiores na Lava Jato?

O circuito é o mesmo quando você analisa o Tribunal Regional Federal da 4ª Região [TRF-4]. Tem o João Pedro Gebran Neto, neto do ex-diretor-geral da Assembleia Legislativa do Paraná. Ele vem de uma das mais tradicionais famílias da Lapa, de onde sai boa parte das famílias que dominam a política paranaense nos anos 1970. Victor Luiz dos Santos Laus é bisneto do fundador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, presidente do TRF-4, é neto do desembargador ministro Thompson Flores, que foi do Supremo Tribunal Federal (STF) durante a ditadura militar, uma das principais genealogias do Rio Grande do Sul.

O ministro Felix Fischer, mesmo sendo alemão, é casado com uma procuradora de Justiça do Paraná aposentada. Ele tem três filhos no Judiciário paranaense. Depois, no STF, temos o Edson Fachin, que tem a mesma dinâmica familiar. É casado com uma desembargadora do Tribunal de Justiça do Paraná. A filha dele é advogada do escritório Fachin Advogados Associados e é casada com Marcos Alberto Rocha Gonçalves, filho de Marcos Gonçalves, executivo do grupo J&F, da família dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Há um verdadeiro circuito que começa no Moro e vai até o Fachin. Todos com o mesmo perfil: família, ação política, conexões empresariais, com escritórios advocatícios, ideologia propensa à direita, de uma elite estatal muito antiga que opera em redes familiares.

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