16 de mar. de 2019

Diplomacia em Transe


Bolsonaro parte para Washington com a diplomacia brasileira em transe político, administrativo e místico. Principalmente místico.

Entenda-se. O vibrante chanceler pré-iluminista é um ser espiritual. É desapegado de valores materiais. Afirmou recentemente que o Brasil não pode renunciar a sua alma e a seus valores para vender soja e minérios.

Supomos que o chanceler tenha experimento tal epifania após contemplar, em êxtase místico, o exemplo supremo do novo messias do Ocidente, o santo Trump.

Como se sabe, o novo messias do Ocidente está em santa cruzada contra a China, a Rússia, os países islâmicos e outras nações malignas que ameaçam os valores da cristandade e a alma do mundo ocidental.

Evidentemente, tal cruzada não tem relação alguma com disputas geoeconômicas e geopolíticas. Trata-se de embate que se processa no diáfano campo cultural e metafísico, independentemente de grosseiras e banais motivações materiais, como às relativas à economia, ao comércio e à realpolitik das relações internacionais.

Assim, a ofensiva de Trump contra a China, por exemplo, não teria relação com o espaço cada vez maior que esse país vem ocupando na economia e no comércio mundiais, mas sim com a desinteressada defesa da alma ocidental. Da mesma forma, a ofensiva do messias do Ocidente contra a Venezuela é piedosa intervenção humanitária, totalmente desvinculada do odor de enxofre emanado da maior jazida de petróleo do mundo.

Porém, em intervalo racional de seu êxtase místico, o chanceler templário nos deu razões materiais, mundanas, para que o Brasil alinhe-se, de forma automática, aos interesses desinteressados do novo messias.

Segundo ele, o Brasil teria de alinhar-se aos EUA de Trump porque, entre o início do século XX e meados da década de 70, o nosso país teria crescido muito devido a uma associação estreita com os EUA.

Bom, é provável que tal tese tenha lhe vindo de eflúvios místicos insondáveis e não verificáveis, mas os mundanos e vulgares dados da realidade empírica não dão suporte à hipótese que preenche a sua alma ocidental.

No gráfico baixo estão os dados oficiais sobre os destinos das nossas exportações, entre 1901 e 2006. Como se nota, a participação percentual dos EUA nesse fluxo só tem grande destaque em dois períodos: o da Primeira Guerra Mundial, por motivos óbvios, e o compreendido entre a Segunda Guerra Mundial e meados da década de 1960, quando a Europa ainda se recuperava do grave conflito interno.

Do início do século XX até a Segunda Guerra Mundial, excetuado o breve período da Primeira Guerra, a Europa tem importância comercial e econômica bem maior para o Brasil. Já no período compreendido entre meados da década de 1960 até 2006, a Europa retoma uma ligeira prevalência, em relação aos EUA, e outras regiões começam a adquirir importância, como a América do Sul e a Ásia.

Fonte: MDIC - Elaboração própria
Quanto aos investimentos, o estoque de investimentos diretos dos EUA no Brasil só se igualou ao estoque de investimentos britânicos, desconsiderados todos os outros países, portanto, após a Segunda Guerra Mundial. Ademais, na década de 50 e 60 e 70, os investimentos mais importantes foram os públicos, feitos por estatais e o BNDES.

O que a história e os mundanos dados empíricos dizem é que o Brasil se sai melhor quando diversifica suas parcerias e não aposta suas fichas em um só país. Além de permitir maior lucro material, a diversificação contribui para fator imaterial de enormes consequências práticas: a ampliação da autonomia e da soberania. Ou, colocando a questão em termos que agradariam ao chanceler pré-iluminista, para tornar a alma brasileira mais leve e livre.

O exemplo de países que apostaram numa relação privilegiada com os EUA, como o México, não é bom. A alma mexicana, tão longe de Deus e tão perto dos EUA, hoje sofre com 50% da sua população abaixo da linha da pobreza e se sente aprisionada pelo muro que o novo messias do Ocidente quer construir.

Ainda assim, nosso cordato capitão e seu chanceler insistem, contrariando os interesses objetivos do Brasil, em aliar-se aos EUA de Trump, em sua cruzada contra um mundo multipolar que desafie a alma ocidental. Dessa forma, renunciaremos aos prazeres terrenos dos superávits comerciais, da diversificação dos investimentos, da cooperação múltipla e da presença ampla e autônoma nos foros mundiais, em troca de um modesto lugar nas hostes espirituais do novo messias.

Contudo, mesmo esse modesto lugar não está assegurado. Como dizia o grande filósofo de Pau Grande, Garrincha, muito mais importante para a alma nacional que o astrólogo de Richmond, será necessário combinar com os russos, que, nesse caso, são norte-americanos.

Trump, muito influenciado por Samuel P. Huntington, o humanista autor de “O Choque de Civilizações”, não considera as almas latino-americanas como partícipes da civilização ocidental, restrita geograficamente à America do Norte e à Europa. Nós, brasileiros, pertenceríamos à civilização latino-americana, uma subdivisão inferior da ocidental. Nossas almas e as de nossos vizinhos não estariam incluídas no Ocidente. Por isso, o novo messias constrói o muro para impedir de entrar no paraíso os corpos latinos que as carregam.

O novo messias também está muito empenhado em proteger seu paraíso espiritual de bens e serviços terrenos provenientes de todos os países, inclusive o Brasil, que já sofreu com barreiras contra o aço, alumínio e outros produtos. Em troca, o Brasil altruísta do chanceler piedoso deverá oferecer aos EUA cotas sem tarifas para o trigo americano, prejudicando o MERCOSUL, bem como a entrada sem vistos para cidadãos norte-americanos, sem esperar reciprocidade das almas superiores.

Será, pois, tarefa difícil o Brasil conquistar um lugar de destaque nas legiões metafísicas do novo messias protecionista, nos parcos 20 minutos que foram reservados ao capitão em sua próxima viagem aos EUA. Provavelmente, o chanceler espiritual voltará de lá apenas com corriqueiras conquistas terrenas, como a concessão da Base de Alcântara para os EUA.

Tarefa ainda mais difícil, um trabalho de Sísifo, será assear a imagem de Bolsonaro no exterior. O Itamaraty, mesmo com seu corpo técnico muito competente, não terá condições de competir com a avalanche enlameada de twitters do clã, um Brumadinho político.

A julgar pela estratégia estulta exibida em Genebra no caso de Jean Wyllys, o tiro sairá pela culatra. Nesse caso, a Casa de Rio Branco é que terá a sua imagem muito afetada. A manifestação da nossa delegação em Genebra, mencionando o traje vermelho de Jean Wyllys, foi, talvez, a mais baixa e beócia da história do Itamaraty. É o que dá quando se subverte a hierarquia e o bom senso.

O desastre poderá ser ampliado com a nomeação de lobistas para substituir embaixadores de carreira em postos chave.

É triste ver a outrora sisuda Casa de Rio Branco ser conduzida por gente que parece ter sido transverberada, em êxtase místico, pela flecha da idiotia. Mais triste ainda é constatar que quem se alinha à alma alheia já perdeu a sua.

Marcelo Zero
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Boaventura de Sousa Santos: como mundo vê o Brasil de Bolsonaro




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Autor de atentado com drone contra Maduro revela detalhes do ataque frustrado


O homem que alega ter planejado o atentado contra o presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, juntamente com desertores do Exército venezuelano se apresentou para contar sua história à rede americana CNN.

O aspirante a terrorista disse que se encontrou com autoridades dos EUA três vezes depois do ataque que ocorreu em uma parada militar em agosto do ano passado. Em entrevista à CNN, ele alega que as autoridades americanas pareciam receptivas a dar-lhes "coisas em troca" por informações sobre a tentativa de assassinato.

Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA se recusou a comentar, dizendo apenas que "nossa política é apoiar uma transição pacífica na Venezuela".

O assassino, que queria permanecer anônimo por razões óbvias, forneceu um vídeo dos conspiradores que consertavam a bomba improvisada, que eles próprios construíram em uma fazenda na Colômbia usando materiais que compraram online dos EUA. Suas filmagens também mostraram o grupo praticando voar os drones "alto o suficiente para não ser visto", em seguida, mergulhando abruptamente para acertar seu alvo, antes de desmantelá-los e escondê-los na Venezuela.

O homem reconheceu que o ataque poderia ter matado civis inocentes, se as bombas não fossem detonadas prematuramente quando os bloqueadores de sinais celulares que protegiam Maduro reativaram. Ele declarou ainda que estava desesperado.

"Tentamos todos os meios pacíficos e democráticos para pôr fim a essa tirania que se veste como democracia", afirmou à CNN, alegando ter amigos que foram presos e torturados pelo governo de Maduro.

Embora o assessor de segurança nacional John Bolton inicialmente tenha sugerido que o ataque foi falsificado para criar um "pretexto" para a repressão, autoridades dos EUA confirmaram à CNN que acreditam que foi um "ataque genuíno que deu errado".

O presidente autonomeado da Venezuela, Juan Guaidó, acredita que o ataque foi encenado, dizendo à CNN: "Acho que isso era algo interno, feito pelo governo. Isso acaba fazendo com que pareçam vítimas".

Maduro culpou a "ultradireita venezuelana em aliança com a extrema-direita colombiana" pelo ataque.

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Pobre Bettina... da Empiricus


Ao declarar seu patrimônio milionário em uma peça publicitária, Bettina vira uma personagem cômica na história da Empiricus. Só que a história da empresa não é nenhuma comédia. Hoje, olharemos para a origem da marca.

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Novos governadores na velha política

Governadores dão cargos a irmãs, cunhadas, primos, sobrinhos e até ex-mulher

Eleitos em 2018 com um discurso de mudança nas práticas políticas, novos governadores nomearam parentes próprios ou de aliados para cargos estratégicos em suas respectivas gestões.

Levantamento da Folha aponta que governadores deram cargos para mulheres, irmãs, cunhadas, primos, sobrinhos e até ex-mulher.

A maior parte dos casos não é considerado irregular pelo Supremo Tribunal Federal, que não considera nepotismo a indicação de parentes para cargos considerados políticos, caso de secretários de estado, por exemplo.

Em Roraima, o governador Antonio Denarium (PSL) nomeou duas cunhadas para o secretariado: Leila Perussolo assumiu a pasta da Educação e Tânia Soares de Souza é secretária do Trabalho e Bem Estar Social.

Em nota, o governador informou que as duas cunhadas são servidoras concursadas e foram nomeadas a partir de critérios de meritocracia.

Denarium ainda chegou a nomear sua irmã Vanda Garcia de Almeida e seu sobrinho Samuel Garcia de Oliveira par cargos de terceiro escalão na secretaria estadual de Cultura. Mas acabou sustando as nomeações diante à repercussão negativa. O caso poderia ser enquadrado como nepotismo, já que não eram cargos políticos.

O governador de Rondônia, Coronel Marcos Rocha (PSL), deu cargos para a mulher e para a ex-mulher na máquina estadual.

A primeira-dama Luana Nunes foi nomeada secretária de Assistência e Desenvolvimento Social. Já a ex-mulher do governador Irani Marques de Albuquerque ganhou o cargo de diretora-adjunta em uma policlínica estadual.

Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado (DEM) nomeou dois primos para cargos no segundo e terceiro escalão.

O engenheiro Ênio Caiado foi nomeado presidente da Agetop (Agência Goiana de Transportes e Obras), enquanto o advogado Aderbal Ramos Caiado assumiu a Diretoria de Fiscalização e Monitoramento de Obras do mesmo órgão.

Pela legislação atual, as nomeações não são consideradas nepotismo: a legislação alcança parentes até o 3º grau e primos são enquadrados como parentesco colateral de 4º grau.

Caiado afirmou que os primos foram escolhidos pela competência, não pelo parentesco. E justificou as nomeações alegando que os primos sanearão a Agetop, que foi alvo de suspeitas de corrupção na gestão anterior.

“Após esse processo de assepsia, eles voltarão para as suas atividades particulares. E Goiás terá uma agência de obras pronta para desempenhar suas atividades com a lisura e com a transparência que o cidadão goiano espera e deve ter”, informou.

Outra parte dos governadores nomeou parentes de aliados políticos para cargos estratégicos. É o caso do governador da Paraíba, João Azevêdo (PSB).

Ele nomeou a mulher do senador Veneziano Vital do Rêgo (PSB), Ana Cláudia Vital do Rêgo, para comandar a secretaria de Desenvolvimento e Articulação Municipal.

Para comandar a Fundação Casa José Américo, principal museu sob responsabilidade do governo no estado, foi nomeada Viviane Coutinho, irmã do ex-governador Ricardo Coutinho (PSB), padrinho político de Azevêdo.

“São duas servidoras com vasta experiência profissional e passagem em cargos públicos de importância, capazes de contribuir com os avanços da gestão. E tão importante quanto: acreditam em nossa forma de governar”, justificou o governador.

De forma semelhante, o governador do Acre, Gladson Cameli (PP), nomeou o filho do senador Márcio Bittar (MDB), João Paulo Bittar, para um cargo no Instituto de Assistência e Inclusão Social. O salário é de cerca de R$ 10 mil.

No Tocantins, o governador Mauro Carlesse (PHS) nomeou o advogado Rérison Antônio Castro Leite para comandar a Agência Estadual de Metrologia. Ele é filho do vice-governador Wanderley Barbosa (PHS).

Já o governador de Alagoas, Renan Filho (MDB), conforme revelado pela Folha, nomeou pelo menos oito parentes de membros do Judiciário, Ministério Público e Tribunal de Contas do Estado.

Procurados, os governadores Gladson Cameli (AC), Coronel Marcos Rocha (RO) e Mauro Carlesse (TO) não se posicionaram sobre as nomeações.

João Pedro Pitombo
No Folha



Parentes de militares são nomeados em cargos comissionados no governo catarinense

Governador que é coronel da reserva durante ato de posse do novo comando da corporação
O governo de Santa Catarina nomeou diversos parentes de militares em cargos comissionados entre janeiro e fevereiro deste ano. As nomeações são de filhos, mulheres e maridos de oficiais que também foram promovidos recentemente para cargos de chefia na Casa Militar e nos gabinetes do governador e da sua vice, Daniela Reinehr (PSL).

Um dos homens fortes do governador Moisés, o coronel João Carlos Neves Júnior, que assumiu a chefia da Casa Militar, teve seu filho nomeado como assessor jurídico da Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania, com salário de R$ 4,7 mil. A nomeação de Neto foi uma das primeiras a motivar reações negativas e no dia 15 de fevereiro ele pediu exoneração do cargo.

Já o Chefe do Cerimonial da Casa Militar, tenente-coronel Ricardo Alexandre Sabatini Silva, teve a mulher, Deborah Sabatini, nomeada no início de fevereiro como Gerente do Sistema de Comunicação. Situação parecida ocorreu com Tatiana Cadore da Silva, mulher do Coordenador Militar do Gabinete da vice-governadora, tenente Coronel Fred Hilton Gonçalves da Silva, que foi nomeada para cargo de assessora técnica no gabinete da vice-governadora.

Os ajudantes de ordens do governador e da vice também tiveram seus cônjuges nomeados. A mulher do capitão Anderson Luiz Ciotta, Heloísa Helena Battisti, que também é oficial militar, assumiu cargo na equipe do Cerimonial do Governador. Já o soldado Rafael de Faccio Ferreira de Azevedo, que estava lotado em Chapecó e é marido da major Andréia Cristina Fergitz, ajudante da vice, vai assumir cargo na casa militar. Faccio, que respondia ação penal por agressão, acabou absolvido pela Justiça Militar no último dia 4 fevereiro, seis dias depois de ser nomeado.

Mesmo sem ser nomeada em Diário Oficial, chama a atenção também a presença de Susi Padilha como fotógrafa do governador e da vice. Susi é mulher do tenente-coronel Alessandro Marques, sub-chefe da Casa Militar. Segundo assessoria do governo, a fotógrafa trabalhou de forma voluntária na campanha e atualmente integra o quadro da Comunicação Social como funcionária terceirizada.

Militares deixam quartéis e assumem cargos no governo

Não há um número consolidado de quantos militares já deixaram os batalhões da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros para assumirem cargos de livre nomeação do governador Carlos Moisés. Mas desde que assumiu, o governador tem demonstrado preferência por membros da PM e Bombeiros em postos chaves da administração.

Militares foram indicados em cargos na Administração, Educação, Saúde, Gabinete do Governador e da vice-governadora. No Diário Oficial do dia 29 de janeiro, por exemplo, em um único ato, o governo promoveu mais de 30 militares, praças e oficiais, em diversos cargos da Casa Militar.

O ND também teve acesso a uma minuta de decreto onde o governador pretende declarar de interesse Bombeiro Militar as funções exercidas por membros da corporação na Secretaria de Educação. Decreto semelhante já foi assinado, quando do primeiro ato de Moisés, para incluir militares na Secretaria de Administração.


Minuta de decreto que declara de interesse Bombeiro Militar a presença de membros da
corporação na Secretaria de Educação.
Reprodução/ND

Não há informações, no entanto, se o governo vai promover a reposição de agentes da Segurança que estão deixando seus postos para exercerem funções em gabinete.

Atualmente, os militares comandam as pastas da Saúde, Administração, Segurança Pública e Infraestrutura.

Governo diz que não há ilegalidade nas nomeações

Por meio de nota, assinada pelo secretário Executivo da Casa Militar,  João Carlos Neves Júnior, o Governo justificou que as nomeações questionadas se tratam de “profissionais técnicos, com experiência comprovada na área para a qual foram designados”.

Neves também informou que seu filho, João Carlos Neves Neto, já teria pedido exoneração do cargo de assessor jurídico da Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania. Segundo a nota, a exoneração foi anterior a divulgação da lista de nomes de militares e seus parentes nomeados.

Fábio Bispo
No ND
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Entrevista com Marcelo Freixo


Em entrevista ao vivo concedida na noite do dia 14 de março, quando se completou um ano dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, Freixo falou sobre esse grave crime político, que ameaça a democracia e questionou: quem mandou matar Marielle? O deputado também debateu sobre o combate ao crime organizado e o pacote apresentado pelo ministro Sergio Moro.

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Com ameaça de degola, Itamaraty perde a compostura

Charge de Ricardo Welbert, publicada em divinews.com
Não é de hoje que Jair Bolsonaro é dado a estultices. Desde época em que foi expulso do Exército por tentar colocar bombas na Vila Militar do Rio até hoje ele é incapaz de um gesto de bom senso e moderação. Num café da manhã com jornalistas de baixos teores de rancor, realizado no Palácio do Planalto, na quarta-feira passada (13/03), ele resolveu anunciar publicamente que irá trocar 15 embaixadores brasileiros nas principais capitais do mundo.

Nem na época da ditadura que tantas saudades traz ao capitão-presidente cometiam-se atrocidades deste quilate. Entre os diplomatas a serem catapultados está Sérgio Amaral. Justamente, o representante do Brasil em Washington que negocia com as autoridades norte-americanas o encontro de Bolsonaro com Trump, na próxima terça-feira.

A estupidez e a descortesia do mandatário brasileiro não se limitaram a constranger o experimentado diplomata nos Estados Unidos. As razões apresentadas por ele para promover essa verdadeira degola nas representações mundo afora, são de uma sandice que só um Bolsonaro poderia dizer. Alegou que precisa melhorar sua imagem no exterior, onde é visto como um ditador racista, misógino e homofóbico.

Para o desespero do Itamaraty, o capitão resolveu tratar a Casa de Rio Branco como se fosse a sua própria mansão no famoso condomínio “Vivendas da Barra”, na Zona Oeste carioca. Ninguém teve coragem de esclarecer que embaixador cuida dos interesses do País e não da imagem de governantes. Pelo menos, é o que garantem os artigos 34 e 36 do decreto-lei 99261/90 que regulamenta a atividade destes representantes no exterior.

Charge do Duke (dukechargista.com.br)
Normalmente, quem se ocupa de promover a imagem do presidente dentro e fora do País é a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Ocorre que Bolsonaro, perto de completar o seu terceiro mês de mandato, ainda não pegou o traquejo da sua função. Está perdido diante de tantas leis, regulamentos e regimentos. Coitado!

Do que adianta um profissional da diplomacia se esforçar para melhorar a imagem de Bolsonaro, se ele próprio aparece nas redes sociais disseminando pornografia e falando mal da maior festa popular do País que ele está governando? Nem os mágicos conseguem tamanha proeza.

De qualquer maneira, a truculência contra os embaixadores já está provocando resultados. Na sexta-feira (15/03), a embaixadora do Brasil na Organização das Nações Unidas – ONU –, Maria Nazareth Farani Azevedo, invadiu o auditório da instituição, em Genebra, na Suíça, para bater boca com o ex-deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ).

O ativista brasileiro – que se auto exilou na Europa – fazia uma conferência sobre o avanço do populismo de direita pelo mundo. No momento em que Wyllys explicava que “Bolsonaro ganhou com uma campanha baseada na propagação de fake news e no discurso do ódio, a diplomata acompanhada de assessores invadiu o plenário e exigiu ser ouvida.

Disse que “Bolsonaro não abandonou o Brasil depois de levar uma facada e que está trabalhando duro para colocar o País nos eixos”. E, finalizou com a seguinte pérola: “Bolsonaro não é racista, fascista ou autoritário”. Dito isso abandonou recinto marchando como se estivesse numa parada de Sete de Setembro, em Brasília.

Wyllys respondeu a saraivada de inverdades à altura. Lembrou a plateia que o mandatário defendido por Maria Nazareth entre outras coisas era suspeito juntamente com seus filhos de terem ligações com as milícias que assassinaram a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes, há um ano. Foi aplaudido (alguns dos participantes o fizeram em pé).



Para se sujeitar a tal desgaste em público, a embaixadora em Genebra deve estar na lista dos 15 que serão defenestrados. Sufoco maior tem enfrentado o embaixador brasileiro em Beijing, Paulo Estivallet de Mesquita.

Graduado, originalmente, em agronomia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e formado diplomata pelo Instituto Rio Branco, Mesquita é um profundo conhecedor dos temas relacionados ao agronegócio. Graças também à sua atuação em Beijing, os chineses se transformaram nos maiores compradores da soja cultivada no Brasil.

Como se sabe, desde quando o governo Bolsonaro deu mostras que marcharia ao lado de Trump na invasão da Venezuela, há três semanas, o primeiro ministro chinês, Li Keqiang, anunciou que transferirá as encomendas destas comodities do Brasil para os Estados Unidos. Algo como 30 bilhões de dólares deixarão de entrar na balança comercial brasileira.

Jair Bolsonaro e Benjamin Netanyahu
Foto: Fernando Frazão/AgBr
Em entrevista à Folha de S.Paulo, na última sexta-feira (15/03), o vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira, Pedro de Camargo Neto, jogou a toalha. Não escondeu o arrependimento da sua categoria por ter colocado tanto dinheiro na campanha do capitão embusteiro.

Nesse seu périplo pelo mundo, Bolsonaro também está sendo esperado, em Israel. O ultraconservador primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, o aguarda de braços abertos. Já antecipou, aos quatro ventos, que o mandatário brasileiro está indo até lá para anunciar a transferência da embaixada brasileira de Tel-Aviv para a cidade sagrada de Jerusalém, reivindicada por palestinos e judeus como sendo a capital de seus respectivos países.

Outra encrenca braba em que o capitão se meteu. As nações árabes que apoiam Jerusalém como terra palestina já mandaram avisar que se Bolsonaro cometer tal desrespeito haverá retaliações. Especialmente nas importações de soja brasileira e de carne bovina. Temos aí outros 5 bilhões de dólares que poderão se evaporar da balança comercial para atender os caprichos ideológicos dos capitão-presidente.

Arnaldo César é jornalista e colaborador do blog Marcelo Auler.



Constrangimento diplomático: Bolsonaro vai jantar com Bannon, o Olavo de Carvalho dos Estados Unidos

Olavo de Carvalho e Steve Bannon.
Foto: Reprodução/Josías Teófilo/Instagram
Só o fato de Bolsonaro jantar com o guru da extrema direita Steve Bannon e Olavo de Carvalho na Embaixada do Brasil em Washington já seria motivo suficiente de constrangimento.

Pior é quando o convite a Bannon não foi feito pelo embaixador, Sérgio Amaral.

Foi ideia de Olavo de Carvalho e de seu discípulo Eduardo Bolsonaro, como conta a repórter Lúcia Guimarães, da Veja.

Ela lembra que o jantar é uma deselegância com Donald Trump, uma quebra de protocolo. “Vamos supor que Angela Merkelfaça uma visita oficial ao Brasil e, antes mesmo de pisar no Palácio do Planalto, jante com João Pedro Stédile, o líder do MST, na embaixada alemã. Nenhuma chance. Seria uma bofetada diplomática no país anfitrião”, compara.

Bannon não teria no governo Trump a influência que se imagina.

Ele surfa mais na onda de extrema direita dos países periféricos.

O polêmico Stephen K. Bannon, de 65 anos, é um ex-oficial da Marinha americana e ex-investidor de Wall Street com uma passagem por Hollywood como produtor. Em 2012, com a morte de Andrew Breibart, o fundador do Breibart News, ele passou a dirigir esse website extremista de direita. Foi também um dos fundadores da Cambridge Analytica, empresa digital envolvida no escândalo sobre a manipulação da campanha pelo Brexit. Em agosto de 2016, quando o hoje condenado Paul Manafort deixou a direção da campanha de Donald Trump para a Casa Branca, Bannon foi nomeado para o posto. Com a vitória republicana, ganhou o cargo de estrategista e conselheiro sênior do presidente eleito. O estilo abrasivo e as posições antiglobalistas e anti-imigração de Bannon alienaram a atuação do genro de Trump, Jared Kushner, e de sua filha Ivanka, que apoiavam outros egressos de Wall Street do governo.

Pouco depois do incidente terrorista em Charlottesville, na Virginia, em agosto de 2017, quando um nacionalista branco jogou seu carro contra a multidão e matou uma jovem, Bannon deixou o cargo. Insistiu que sua partida fora voluntária. Mas estava inequivocamente enfraquecido e fora escorraçado da Casa Branca por Trump.

Uma fonte amedrontada do Itamaraty avalia a ideia de trazer uma figura extremista e marginal no centro de poder, em Washington, é uma grosseria com o anfitrião na Casa Branca. “Não, Bannon ainda tem influência expressiva entre os conservadores,” diz a voz nervosa do outro lado da linha para justificar a inclusão do agitador ao lado de acadêmicos conservadores respeitados, como Walter Russell Meade, à mesa de Bolsonaro.

Outro diplomata mais graduado concorda em número e grau com o fato de que nossa diplomacia jamais incluiria Bannon num compromisso do presidente em visita oficial ao exterior.
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A mídia e o governo americano disseminam propaganda pró-guerra na Venezuela

Caminhão que integrava um comboio de ajuda humanitária que tentava chegar à Venezuela
parado sobre a ponte internacional Francisco de Paula Santander, em Cúcuta, na Colômbia,
em 23 de fevereiro de 2019, na fronteira com a Venezuela.
Foto: Fernando Vergara/AP
Todas as principais guerras dos EUA nas últimas décadas começaram da mesma maneira: o governo dos EUA fabricou uma mentira inflamatória e emocionalmente provocadora – que grandes meios de comunicação do país trataram acriticamente como verdade – ao mesmo tempo em que se recusou a veicular questionamentos ou divergências, provocando assim uma raiva primitiva contra o país que os EUA desejavam atacar. Foi assim que tivemos a Guerra do Vietnã (Vietnã do Norte ataca navios dos EUA no Golfo de Tonkin), a Guerra do Golfo (Saddam arrancou bebês de incubadoras) e, é claro, a guerra no Iraque (Saddam tinha armas de destruição em massa e formou uma aliança com a Al-Qaeda).

Foi exatamente esta a tática usada no último dia 23 de fevereiro, quando a narrativa mudou radicalmente em favor das autoridades norte-americanas que desejam operações de mudança de regime na Venezuela. Isso porque foram transmitidas a todo o mundo imagens de caminhões que levavam ajuda humanitária sendo queimados na fronteira da Colômbia com a Venezuela. Autoridades que vêm defendendo uma guerra para mudar o regime na Venezuela – Marco Rubio, John Bolton, Mike Pompeo, o diretor da Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAid), Mark Green – usaram o Twitter para disseminar fake news clássicas: todos declararam com veemência que os caminhões foram incendiados, de propósito, por forças do presidente Nicolás Maduro.
Cada um dos caminhões incendiados por Maduro levava 20 toneladas de comida e remédios. Isto é um crime, e se a legislação internacional tem algum valor, ele deve pagar alto por isso. #23FAyudaHumanitaria https://t.co/IrGzrOUX09
— Marco Rubio (@marcorubio) 23 de fev de 2019
Bandidos mascarados, civis mortos a bala e o incêndio de caminhões levando comida e remédios extremamente necessários. Foi essa a resposta de Maduro a esforços pacíficos para ajudar os venezuelanos. Países que ainda reconhecem Maduro devem pensar bem no que estão apoiando. pic.twitter.com/KlSebd2M5a
— John Bolton (@AmbJohnBolton) 23 de fev de 2019
@SecPompeo: Nós condenamos a recusa de Maduro de permitir que a assistência humanitária chegue à #Venezuela. Que tipo de tirano doente impede a chegada de comida a pessoas famintas? As imagens de caminhões cheios de ajuda pegando fogo são revoltantes. https://t.co/zzFNYVly2c
— USConsulateFrankfurt (@usconsfrankfurt) 24 de fevereiro de 2019
#Maduro ordenar o incêndio de caminhões cheios de ajuda humanitária e o ataque a voluntários é inconcebível. Eu condeno os assassinatos e os abusos aos direitos humanos cometidos por Maduro. Os ataques violentos contra a ajuda para salvar vidas na #Venezuela é desprezível. #EstamosUnidosVE https://t.co/BOSuVP1mTL
— Mark Green (@USAIDMarkGreen) 23 de fevereiro de 2019
Como sempre faz – como sempre fez desde o princípio, quando Wolf Blitzer se misturou às tropas dos EUA –, a CNN saiu na frente, não apenas disseminando essas mentiras do governo como também se propondo independentemente a atestar sua veracidade. Em 24 de fevereiro, a CNN disse ao mundo o que todos sabemos ser uma mentira absoluta: que “uma equipe da CNN viu dispositivos incendiários da polícia no lado venezuelano da fronteira pondo fogo nos caminhões”, embora tenha generosamente acrescentado que “os jornalistas da rede não têm certeza se os caminhões foram incendiados de propósito”.

Outros meios de comunicação endossaram a mentira, ainda que ao menos evitando fazer como a CNN, que a validou pessoalmente. “Ajuda humanitária destinada à Venezuela é incendiada, aparentemente por tropas leais a Maduro”, alegou The Telegraph. A BBC publicou acriticamente: “Também tem havido relatos de vários caminhões humanitários sendo queimados – algo que Guaidó disse ser uma violação da Convenção de Genebra”.

Essa mentira – sustentada por imagens em vídeo incrivelmente fortes – mudou tudo. Desde então, a história de que Maduro incendiou caminhões cheios de ajuda humanitária vem sendo repetida sem parar como fato comprovado em meios de comunicação dos EUA. Imediatamente após a alegação, políticos que estavam em silêncio a respeito da questão da Venezuela ou mesmo relutantes em apoiar a mudança de regime começaram a emitir declarações a apoiando. Estrelas do jornalismo e especialistas famosos que não têm um único neurônio crítico quando o assunto são alegações pró-guerra de autoridades norte-americanas assumiram a liderança batendo os tambores de guerra sem gastar um segundo para questionar se o que estava sendo dito era verdade:
Isso é simplesmente maldade https://t.co/kDOJBZ48td
— Kasie Hunt (@kasie) 23 de fev de 2019
[“Militares venezuelanos estão incendiando caminhões de ajuda humanitária.
Sim. Você leu certo. Eles estão queimando comida e medicamentos.
Animais e criminosos.”]
Mas, no sábado à noite, o New York Times publicou um vídeo detalhado junto com uma reportagem provando que toda a história era uma mentira. Os caminhões de ajuda humanitária não foram incendiados pelas forças de Maduro, mas por manifestantes anti-Maduro que atiraram um coquetel molotov que atingiu um dos veículos. E o vídeo do jornal mostra como a mentira se espalhou: de autoridades norte-americanas que anunciaram de maneira infundada que Maduro os incendiou até meios de comunicação que repetiram a mentira sem pensar.


Ainda que a reportagem e o vídeo do New York Times sejam jornalismo bom e necessário, o crédito que o jornal está implicitamente reivindicando para si por expor essa mentira é absolutamente imerecido. Isso porque jornalistas independentes – do tipo que questiona em vez de repetir impensadamente alegações do governo e é portanto ridicularizado, marginalizado e mantido fora dos canais de TV convencionais – usaram exatamente a mesma prova no dia do incidente para desmascarar as mentiras que estavam sendo ditas por Rubio, Pompeo, Bolton e a CNN.

Em 24 de fevereiro, o dia em que a mentira se espalhou, Max Blumenthal escreveu da Venezuela, no site independente de reportagens Grayzone, que “a alegação era claramente absurda”, observando que “testemunhei pessoalmente bombas de gás lacrimogêneo atingindo todos os tipos de veículos imagináveis na Cisjordânia palestina ocupada, e nunca vi um incêndio como aquele que eclodiu na ponte Santander”. Ele reuniu provas substanciais sugerindo fortemente que os caminhões haviam sido incendiados por manifestantes anti-Maduro, incluindo um vídeo da Bloomberg que os mostrava usando coquetéis molotov, para expressar sérias dúvidas sobre a narrativa dominante. No Twitter, em resposta à mentira de Marco Rubio, ele escreveu:
Não vi nenhuma força do governo venezuelano incendiando caminhões de ajuda dos EUA no lado colombiano da fronteira. E você também não. Na verdade, até o momento, as provas apontam na direção oposta. https://t.co/AVBPYtFMiR
— Max Blumenthal (@MaxBlumenthal) 24 de fev de 2019
Este vídeo encontrado por @graffitiborrao parece mostrar o momento em que um guarimbero de oposição atira um coquetel molotov em um caminhão carregado de auxílio dos EUA: pic.twitter.com/Z4Bg6dL4BR
— Max Blumenthal (@MaxBlumenthal) 24 de fev de 2019
Enquanto isso, outros – que usam o cérebro para avaliar criticamente o que o governo dos EUA diz quando está tentando começar uma nova guerra ao invés de repetir sem pensar as alegações como verdadeiras, como fazem os astros da mídia norte-americana – usaram exatamente a mesma prova citada pelo jornal New York Times para demonstrar que foram manifestantes anti-Maduro, e não soldados de Maduro, que incendiaram os caminhões. Mas eles foram capazes de fazer isso nas horas imediatamente após o incidente, não três semanas mais tarde. No entanto, é desnecessário dizer que foram todos ignorados pelos meios de comunicação dos EUA:
Eis o momento em que os caminhões incendiaram por causa de um coquetel molotov vindo do lado colombiano. https://t.co/vlZKzJpbRu
— Boots Riley (@BootsRiley) 24 de fev de 2019
Os relatos que dizem que o exército venezuelano incendiou caminhões de ajuda humanitária atirando bombas de gás lacrimogêneo contra eles à distância são uma mentira midiática. Gás lacrimogêneo jamais incendiará qualquer coisa.
Além disso, olhe onde estavam os caminhões em relação a onde estavam os militares venezuelanos. pic.twitter.com/y7tyugOXXj
— Boots Riley (@BootsRiley) 24 de fev de 2019
Vocês não têm provas de quem incendiou o caminhão de ajuda humanitária, e essas fotos indicam que seus guarimberos tiveram participação nisso. pic.twitter.com/VsvMDo2XaS
— Dan Cohen (@dancohen3000) 24 de fev de 2019
a mentira de @marcorubio é desmascarada: este vídeo mostra um manifestante da oposição atirando um coquetel molotov contra o caminhão de auxílio humanitário sobre a ponte Francisco de Paula Santander entre a Venezuela e a Colômbia. pic.twitter.com/4IgTt2u4pJ
— Dan Cohen (@dancohen3000) 24 de fev de 2019
Esses dois últimos tuítes – usando imagens de vídeo para desmascarar as mentiras propagadas por Marco Rubio, a CNN e o governo dos EUA – são de um correspondente da RT America. Por favor, me diga: quem estava agindo como propagandista mentiroso e agente de uma TV estatal e quem estava agindo como jornalista tentando compreender e relatar a verdade?

Então, tudo o que o New York Times reportou com tanto orgulho na noite de domingo é sabido há semanas e já havia sido reportado esmiuçadamente, usando amplas provas, por um grande número de pessoas. Mas como essas pessoas costumam ser céticas em relação às alegações do governo dos EUA e críticas de sua política externa, elas foram ignoradas, ridicularizadas e costumam ser impedidas de aparecer na televisão, enquanto que os mentirosos do governo norte-americano e seus aliados da mídia corporativa, como sempre, ganham espaço para disseminar suas mentiras sem qualquer desafio ou discordância, exatamente como manda o manual das TVs estatais.

De fato, nenhuma das pessoas que questionou a alegação original a respeito dos caminhões incendiados, ou que citou esta prova para argumentar que o governo dos EUA e seu aliado venezuelano Guaidó estavam mentindo jamais foi vista em rede nacional de TV para apresentar sua discordância. Nenhuma delas pode aparecer. Quando sequer foram reconhecidas, foi para serem difamadas como defensores de Maduro – por dizer a verdade –, exatamente como aquelas que tentaram combater a propaganda de 2002 e 2003 foram desacreditadas como sendo pró-Saddam. Apenas Rubio, Bolton, Pompeo e diversos outros representantes dos EUA puderam disseminar suas mentiras sem qualquer desafio.

Isso é especialmente notável desde que o próprio governo russo, aliado de longa data do governo Maduro, publicou a prova mostrando que era uma mentira. Alegações dos governos russo ou venezuelano merecem tanto ceticismo quanto as de qualquer outro governo, mas elas merecem ao menos ser ouvidas. No entanto, a mídia corporativa norte-americana – justamente porque é TV estatal mesmo que adore acusar outras de serem isso – jamais exibe as visões de governos hostis ao governo dos EUA, exceto de maneira superficial e com menosprezo:
#HandsOffVenezuela Imagens do incidente na fronteira entre Venezuela e Colômbia surgiram mostrando a oposição apoiada pelos EUA atirando coquetéis molotov contra os caminhões da @USAID trucks + “ativistas da oposição” preparando preparing dispositivos incendiários abertamente – https://t.co/UIMYNEjAnV. Você acredita:
— na Rússia ou na RSA?? (@EmbassyofRussia) 25 de fev de 2019
É preciso observar que não foi a primeira vez que mentiras absolutas foram disseminadas pelo governo e pela mídia dos EUA para inflamar a mudança de regime contra a Venezuela. Uma fotografia de uma ponte entre a Colômbia e a Venezuela foi transmitida pelo mundo todo como prova de que Maduro estava barrando ajuda humanitária.

Mas a CBC – para seu grande crédito – publicou um longo pedido de desculpas observando que ela também havia caído nessa propaganda ao difundir a foto da ponte para sustentar essa narrativa quando, na verdade, aquela ponte havia sido fechada anos antes devido a tensões entre os dois países. Poucos, se é que houve algum, meios de comunicação norte-americanos que divulgaram aquela mentira elaboraram uma correção ou um pedido de desculpas semelhante.

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Igualmente falsa é a popular e amplamente divulgada alegação midiática de que Maduro se recusou a permitir a entrada de qualquer ajuda humanitária na Venezuela. Isso também é uma mentira completa. O governo venezuelano permitiu a entrada de quantidades substanciais de auxílio no país de países que não ameaçaram derrubar o presidente com um golpe externo. Maduro impediu a entrada apenas de caminhões e aeronaves vindas dos países (Estados Unidos, Brasil, Colômbia) que vêm ameaçando a Venezuela. Algo que qualquer país faria.

De fato, tanto a Cruz Vermelha quanto as Nações Unidas expressaram preocupações quanto à “ajuda humanitária” dos EUA sob a argumentação de que seria um pretexto para a mudança de regime e uma politização da ajuda humanitária. Até mesmo a Rádio Pública Nacional (NPR) reconheceu que “o esforço dos EUA de distribuir toneladas de alimentos e medicamentos aos venezuelanos necessitados é mais do que apenas uma missão humanitária. A operação também foi pensada para fomentar a mudança do regime na Venezuela – motivo pelo qual grande parte da comunidade de ajuda internacional não quer nenhum envolvimento com ela”.

Essa preocupação é evidentemente válida, considerando-se o histórico de Elliott Abrams, o enviado que está liderando a política norte-americana na Venezuela, de explorar “ajuda humanitária” como fachada para contrabandear armas e outras ferramentas para derrubar governos latino-americanos de que ele não gosta – outro fato raramente ou nunca mencionado nas reportagens da mídia dos EUA.
Se você quer assistir à “TV estatal” vintage, veja este clipe: um repórter acompanhando os militares dos EUA, despejando acriticamente cada linha dos esforços de mudança de regime do governo americano, omitindo fatos importantes (como os pretextos de ajuda humanitária utilizados anteriormente por Elliott Abrams para contrabandear armas): https://t.co/T6NOiqMWRr
— Glenn Greenwald (@ggreenwald) 14 de fev de 2019
O que temos aqui é uma amostra clássica de fake news – disseminadas no Twitter, por autoridades dos EUA e astros da mídia norte-americana – com a intenção clara e maliciosa de começar uma nova guerra. Mas nenhum defensor ocidental da censura das mídias sociais pedirá que suas contas sejam canceladas ou pedirá que seus posts sejam excluídos. Isso porque fake news e a guerra contra elas é apenas um meio de combater propaganda de adversários dos EUA. Os Estados Unidos e seus aliados mantêm amplos programas para disseminar fake news online, e nenhum desses cruzados antifake news pedem para que eles sejam interrompidos.

E a próxima vez em que forem feitas alegações sobre a Venezuela com o objetivo de alimentar a mudança do regime e guerras, os jornalistas e analistas independentes que estavam absolutamente corretos neste caso – que reconheceram e documentaram as mentiras do governo dos EUA semanas antes do New York Times – mais uma vez serão ignorados ou, na melhor das hipóteses, ridicularizados. Enquanto isso, aqueles que amplificaram e difundiram acriticamente essa mentira perigosa na mídia e na comunidade de política externa serão tratados como as pessoas sérias cujos pronunciamentos são os únicos dignos de se ouvir. Com raras exceções, discordâncias quanto a Venezuela continuarão sendo barradas.

Isso ocorre porque a mídia dos EUA, intencionalmente, não permite dissidência quanto à política externa norte-americana, especialmente quando se tratam de alegações falsas a respeito de adversários dos EUA. É por isso que aqueles que não acreditam na mudança de regime promovida pelos EUA na Venezuela ou dissidentes quanto às ortodoxias predominantes sobre a Rússia, desapareceram amplamente dos principais meios de comunicação, exatamente como aconteceu em 2002 e 2003.

Isso não ocorre porque ordenam que os astros da mídia façam isso. Eles não precisam de ordens. Eles sabem que o trabalho deles é propaganda. Mais precisamente, eles são jingoístas ultrapatrióticos que reverenciam autoridades norte-americanas e, dessa forma, não possuem um único neurônio de pensamento crítico no cérebro. É por isso que têm programas de TV, para começar. Se não fossem assim, não estariam na TV, como Noam Chomsky observou tão perfeitamente a Andrew Marr, da BBC, neste breve clipe de anos atrás (o contexto completo de três minutos, que vale a pena ver, está aqui). Isto conta toda a história deste sórdido caso na Venezuela:
– Certamente você fala pela maioria dos jornalistas, que são treinados e inculcados de que essa é uma cruzada, uma profissão que antagoniza, que enfrenta o poder. Uma visão que serve a si mesma.

– Como o senhor pode saber que estou me autocensurando?

– Eu não estou dizendo que você se autocensura. Com certeza você acredita em tudo o que está falando. O que eu digo é que, se você acreditasse em algo diferente, você não estaria sentado onde está agora.

Gleen Greenwald
Tradução: Cássia Zanon
No The Intercept
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Blecaute na Venezuela foi provocado do exterior, diz chancelaria russa

De acordo com a porta-voz Maria Zakharova, todos os algoritmos de funcionamento e vulnerabilidades das instalações eram "de conhecimento dos organizadores diretos da agressão"

Apagão deixou Caracas no escuro no fim da semana passada 
Foto: teleSUR
O blecaute na Venezuela foi provocado do exterior, já que os organizadores do ataque à distância tinham conhecimento do equipamento das instalações produzido no Canadá, disse a representante oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova.

"Nesta semana, um infortúnio sério chegou à Venezuela, levando a vida de cidadãos do país. Como a maioria dos infortúnios que atingiram a Venezuela independente nos últimos anos, este infortúnio chegou do exterior", afirmou a porta-voz.

Segundo dados do governo do presidente Nicolás Maduro, bem como de outras fontes que Zakharova disse serem “confiáveis”, "o setor energético da Venezuela enfrentou ataque do exterior, se tratando de ações complexas, à distância, contra o sistema de manejo e controle das principais usinas de fornecimento de energia que possuíam equipamento instalado que foi produzido em um país ocidental, como entendi, no Canadá", disse.

De acordo com a porta-voz, todos os algoritmos de funcionamento e vulnerabilidades das instalações eram "de conhecimento dos organizadores diretos da agressão". Zakahrova disse que o governo russo considera que eles e os que encomendaram o ataque são responsáveis pela morte de pessoas, inclusive dos que ficaram sem eletricidade nos hospitais, e expressou a esperança de que os responsáveis pelo blecaute sejam responsabilizados judicialmente.

A representante da chancelaria russa sublinhou que, caso especialistas russos sejam solicitados para investigar o blecaute, o pedido "será considerado muito atenciosamente".

O colapso energético na Venezuela ocorreu no dia 7 de março após um incidente na Hidrelétrica de Guri, responsável pelo fornecimento de 80% da energia ao país, como resultado de um ataque cibernético ao sistema de controle da usina, segundo o governo. O apagão durou até quarta-feira (13/03), atingindo 21 dos 23 estados do país.

Maduro responsabilizou os EUA pela guerra energética contra a Venezuela. Washington, por sua vez, negou qualquer tipo de participação. A Corpoelec, a companhia elétrica estatal venezuelana, chamou o incidente de "sabotagem" e de mais um episódio da guerra energética contra o país.

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Áudio revela "toma lá, dá cá": Governo Bolsonaro já troca votos em reforma da Previdência por cargos

Toma lá, dá cá: áudio que circula em Brasília revela um telefonema em que um aliado de Bolsonaro na Câmara afirma que ele e outros deputados já têm exigido e negociado cargos no governo em troca de votos pela reforma da Previdência; distribuição de cargos abarcaria todos os partidos, menos o PT

Jair Bolsonaro e o deputado federal Julian Lemos (PSL-PB) 
Foto: Reprodução/Facebook
Tem circulado nos últimos dias pelos corredores da Câmara e, inclusive, no Planalto, um áudio de uma ligação telefônica que revela que o “toma lá, da cá”, isto é, a distribuição de cargos no governo em troca de votos favoráveis no Congresso, já estaria acontecendo. A condenação deste tipo de jogo político foi uma das principais plataformas de campanha de Jair Bolsonaro.

O áudio registra uma ligação telefônica entre o deputado federal Gulliem Lemos (conhecido como Julian Lemos), do PSL da Paraíba, e Fabio Nobrega Lopes, secretário-geral do partido no mesmo estado. De acordo com o jornal O Globo, que teve acesso ao arquivo, na ligação, Lemos relata a Lopes que ele e outros parlamentares já estariam exigindo e negociando cargos no governo em troca de votos favoráveis à reforma da Previdência.

Ao longo de 12 minutos de conversa, o deputado teria dito, ainda, que conseguiu junto à Casa Civil prerrogativa de indicar nomes para cargos de direção na Fundação Nacional da Saúde (Funasa) da Paraíba e na sede regional do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Em outro momento do diálogo, o deputado do PSL teria relatado uma reunião ocorrida em fevereiro no ministério da Casa Civil em que Carlos Manato, secretário-geral para a Câmara do governo, teria dito que haveria cargos para parlamentares de todos os partidos, menos para o PT.

Em resposta ao jornal O Globo, Gulliem Lemos disse que pedirá à Polícia Federal que investigue a origem da gravação, que chamou de “grampo ilegal”. O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, não se manifestou.

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O Cemitério dos Vivos


Cemitério dos Vivos é um romance inacabado de Lima Barreto, baseado nas anotações feitas num Diário quando o escritor esteve internado no Hospício da Praia Vermelha. As “Anotações para o Cemitério dos Vivos” [1] foram sugeridas por meu editor, e aceitas imediatamente, como complemento do meu livro “Ouvindo Vozes” por dois motivos: compartilhar os escritos de Lima Barreto para os jovens estudantes de hoje; e – o que encantou meu editor – mostrar as semelhanças de um hospício no século XXI e àquele de quase cem anos atrás.

Uma das características do hospício é anular o tempo e o espaço. Quando começava minha jornada, ainda na Colônia Juliano Moreira, aplicando um censo aos internos, no início dos anos oitenta do século passado, observamos que os pacientes respondiam com uma idade discrepante à observação de seus rostos. Diziam ter a idade muito pouca para rostos marcados. Foi fácil perceber que a idade dada correspondia ou estava muito perto da data da internação naquele cemitério de vivos. Como se o tempo tivesse ali parado para sempre. As “anotações” de Lima Barreto, feitas em 1919, mostravam enfermarias e pacientes semelhantes às minhas próprias descrições de um hospício que minha equipe tentava mudar. Quase cem anos depois a impressão é que estamos no mesmo momento temporal.

Quanto ao espaço, basta viajarmos para outros lugares e países. São muito iguais. Disposição panóptica, celas, grades, banheiros sem privacidade, refeitório sem talheres. Roupas iguais de cores semelhantes. Eu mesmo as nominei de “azul hospício” ou “cinza manicômio”, aquelas roupas de brim impessoal. Em comum as grades de ferro que aferrolham o tempo e o espaço no manicômio.

Mas desde o final da década de 1980, um movimento se opôs ao velho, longevo e perverso manicômio. O movimento da Reforma Psiquiátrica brasileira, que aprendeu com o movimento da Reforma italiana de Basaglia. Seu lema: “por uma sociedade sem manicômio”. O movimento visava a ultrapassagem do hospital psiquiátrico.

Foram criados dispositivos substitutos do manicômio na intenção de sua superação. Um passo cuidadoso para não provocar desassistência. E em trinta anos de teorias, práticas, acertos, desacertos, temos a certeza de que o manicômio pode ser substituído por dispositivos comunitários que mostraram sua eficácia e eficiência. Podemos afirmar que foram criadas novas formas de tratamento e de assunção ao tratamento pelos usuários e familiares, que transformou a prática hospitalar obsoleta. Digo hospitalar porque os CAPSs, as RTs [2],  as Unidades de Acolhimento, Leitos no Hospital Geral e outros dispositivos de trabalho e lazer deram provas de substituir com vantagens o hospital psiquiátrico especializado.
Não é o manicômio que deforma a psiquiatria, mas a psiquiatria que produz o manicômio (Basaglia)
Aqui se encontra o nó. O calcanhar de Aquiles da Reforma Psiquiátrica. Na radicalidade da Reforma o hospital psiquiátrico deve ser dispensado. Primeiro por que os dispositivos reformistas devem ser substitutivos e não alternativos ao hospital especializado. Segundo por que o hospital psiquiátrico especializado com facilidade se transforma em manicômio. Terceiro por que a Reforma é dA Psiquiatria e seu locus fundador – o hospital . E não uma Reforma dos métodos usados na Psiquiatria.

Basaglia mostra que não é o manicômio que deforma a psiquiatria, mas a psiquiatria que produz o manicômio. A partir do hospital psiquiátrico especializado de “boas intenções”. Ele cataloga, segrega, separa da comunidade e da família, aplica o saber sobre a doença sem considerar o sujeito que adoeceu. E o hospital psiquiátrico subordina qualquer outro saber sobre a loucura ao saber médico hegemônico.

O fenômeno da loucura é por demais complexo para que seja explicado apenas pela medicina. Não pode ser reduzido a uma doença catalogada nos manuais diagnósticos em que sintomas são agrupados pela subjetividade do examinador. Há algo muito além disso. Outros saberes são chamados ao campo da loucura para, minimamente, chegar perto da compreensão possível. A transdisciplinaridade é uma abordagem científica que visa a unidade do conhecimento. Ela procura estimular uma nova compreensão da realidade articulando elementos que passam entre, além e através das disciplinas, numa busca de compreensão da complexidade. A Reforma se faz assim. É pré-requisito.

Mas voltando ao nosso calcanhar de Aquiles, a medicina nunca foi totalmente convencida disso, apesar de ter acolhido a reforma e dela ter se apropriado, sempre tentando a hegemonia do seu saber e mantendo o hospital psiquiátrico ao qual alternava os dispositivos da reforma. Nunca aceitou o fim do hospital psiquiátrico. Poucos centros de formação médica escapam a essa crítica, apesar da existência de muitos médicos reformistas radicais, dentre os quais me incluo, sem que nada dessa visão transdisciplinar diminua nossa atuação. Pelo contrário. Sentimo-nos mais seguros de usar nossos conhecimentos e aprendemos muito mais sobre o sujeito, antes apenas um doente portador de uma enfermidade.
O fenômeno da loucura é por demais complexo para que seja explicado apenas pela medicina. Não pode ser reduzido a uma doença catalogada nos manuais diagnósticos em que sintomas são agrupados pela subjetividade do examinador
Essa sedição psiquiátrica, já existente dentro do movimento da reforma, criou uma fissura, por onde se alimentou a reacionária Associação Brasileira de Psiquiatria e o atual governo proto-fascista para ressuscitar o hospital psiquiátrico e seus métodos antigos, às vezes travestidos de modernidade, negando que os dispositivos da reforma sejam substitutivos. Essa simples negativa destrói a construção da Reforma Psiquiátrica. A medicina volta a colocar o hospital no centro da atenção e aceita tratar os casos mais leves nos dispositivos comunitários. Isso é a morte da Reforma e a volta ao modelo que ela tentou superar.

Daí ao retorno do manicômio é apenas uma questão de tempo, como sempre aconteceu na história. Além de que os manicômios religiosos – que tentam juntar ciência e fé – para o tratamento de usuários de drogas serão o absurdo piorado do manicômio: a mistura de drogas psiquiátricas e penitências involuntárias (que são apenas métodos de tortura) funcionarão como corretivos perversos em nome da fé. Verdadeiros campos de concentração.

Não duvidamos que um pouco mais no futuro – se essa tendência não for detida – o romance de Lima Barreto poderá ser terminado. O “Cemitério dos Vivos” ressurgirá como a vitória do proto-fascismo em nossa sociedade.

Referências bibliográficas: 


[1] Ouvindo Vozes, Vieira & Lent, RJ, 2009.


[2] CAPS – Centro de Atenção Psicossocial (um turno, dois turnos ou 24 horas, para transtornos mentais e uso abusivo de drogas em adultos e crianças). RT – Residência Terapêutica para pacientes moradores de hospitais psiquiátricos.

Edmar Oliveira, médico e militante do movimento da Reforma Psiquiátrica, com inúmeras contribuições político-institucionais ao processo de reforma psiquiátrica brasileira. Autor de dois livros sobre a prática em Saúde Mental: Ouvindo Vozes e von Meduna, além de livros de ficção.

Do Mad in Brasil
No Fiocruz
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Do nacionalismo ao entreguismo vulgar: a ignorância como estratégia de ação

A produção permanente de pautas fúteis pelo atual governo tem um só objetivo: desviar a opinião pública dos temas relevantes


Com Bolsonaro, o entreguismo é semelhante ao dos tempos de Kubitschek e FHC. A diferença está no discurso, que não apela mais para a necessidade de ‘modernização’ e usa de cinismo

A utilização da expressão “entreguismo vulgar” é um pleonasmo, pois, todo entreguismo, em essência, é vulgar. Mas, dadas as atuais circunstâncias, a classificação do termo pode auxilar na compreensão de quão fundo nos encontramos dentro poço.

O debate sobre nacionalismo e entreguismo surgiu com ilustre intérprete do Brasil Caio Prado Jr., em sua monumental obra “História Econômica do Brasil”, mais especificamente no capítulo “A crise de um sistema”. Ali, o intérprete deixa claro o que é ser, de fato, nacionalista:

“deixar de ser um simples fornecedor do comércio e dos mercados internacionais, e tornar-se efetivamente o que deve ser uma economia nacional, a saber, um sistema organizado de produção e distribuição dos recursos do país para a satisfação das necessidades de sua população. Romper definitivamente com seu longo passado colonial, e fazer-se função da própria comunidade brasileira e não de interesses e necessidades alheios”. (Caio Prado Júnior, 1945).

Isto é, em oposição, o entreguismo significa entregar toda sua capacidade produtiva e riquezas ao capital internacional, limitando-se apenas a fornecer bens primários de baixo valor agregado.

Para Prado (1966), em “A Revolução Brasileira”, o entreguismo se expressa em ações, por exemplo, do governo Kubitschek, com “negociatas e oportunidades de bons negócios à custa do Estado e da nação, como em particular no caso da construção de Brasília”, principalmente pelo favorecimento dos interesses imperialistas através de estímulos creditícios do banco de desenvolvimento do próprio País.

Segundo o autor, o antigo BNDES, o Banco do Desenvolvimento Econômico (BNDE), reunia capitais “arrancados através de empréstimos forçados do conjunto dos contribuintes brasileiros” para favorecer empreendimentos que nem sempre eram de interesse e necessidade da nação.

Nas palavras do intérprete: “nunca se vira, e nem mesmo imaginara tamanha orgia imperialista no Brasil e tão considerável penetração do imperialismo na vida econômica brasileira”.

Nesse particular, é importante notar que o entreguismo daquela época considerava o grande capital nacional, em especial o produtivo, nas relações capitalistas, muito diferente do modelo atual de entreguismo. Em menos de dois meses de gestão, o governo Bolsonaro já prejudicou diversos setores produtivos[1] da economia nacional, salvo o setor financeiro. Sua recente administração é comparável apenas à era FHC, período no qual houve semelhante padrão.

A vulgaridade é a mesma, mas enquanto a era FHC buscava a ironia e uma linguagem “modernizante” dos padrões de consumo mundial para realizar a entrega do País ao capital internacional, o bolsonarismo utiliza o cinismo e a ignorância como estratégia de ação.

Cínicos porque eles não acreditam no que dizem, e ignorantes por acharem que enganarão a população por tempo indeterminado.

A produção permanente de pautas fúteis do atual governo tem apenas um objetivo: ela busca desviar a opinião pública sobre temas relevantes para o País. Ao criarem quase toda semana um novo fato político (como meninos vestem azul e meninas rosa; todas as escolas devem cantar o Hino Nacional e saudar o slogan de campanha do candidato) e, sem qualquer consequência jurídica, eles escondem o que de fato importa, como entrega do Pré-Sal avaliado em US$ 10 trilhões (aproximadamente R$ 40 trilhões de reais[2]), da Embraer por míseros R$ 4,5 bilhões, a destruição da Petrobras, dos bancos públicos e a perversa espoliação do trabalhador brasileiro com a Reforma da Previdência.

De nacionalista, o bolsonarismo não tem nada, pois até as bandeiras do Brasil são importadas[3].

Notas


[1] Por que os produtores de leite ficaram bravos com Jair Bolsonaro? https://www.pragmatismopolitico.com.br/2019/02/produtores-de-leite-jair-bolsonaro.html.


[2] Cotação do dólar 3,7918 referente a 01 de março de 2019. Fonte Banco Central do Brasil.


[3] Segundo a Central dos Sindicatos Brasileiros.


Referência


Prado Jr., Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1ª Edição, 1945.


Prado Jr., Caio. A Revolução Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1996.

Rafael da Silva Barbosa é economista, doutor (UNICAMP), pós- doutorando em Política Social (UFES), Pesquisador Visitante em Health and Social Care at Coventry University (CU-United Kingdom) e colunista do Brasil Debate.
Do Brasil Debate
No GGN
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Carta do presidente Lula aos comitês Lula Livre

Foto: Ricardo Stuckert
Meus amigos e minhas amigas,

Quero, em primeiro lugar, agradecer a solidariedade e o carinho que tenho recebido do povo brasileiro e de lideranças de outros países, neste quase um ano em que me encontro preso injustamente. Agradeço especialmente aos companheiros da vigília em Curitiba, que me confortam todos os dias, aos companheiros que constituem os comitês Lula Livre dentro e fora do Brasil, aos advogados, juristas, intelectuais e cidadãos democratas que se manifestam pela minha libertação.

A força que me faz resistir a essa provação vem de vocês e da convicção de que sou inocente. Mas resisto principalmente porque sei que ainda tenho uma missão importante a cumprir neste momento em que a democracia, a soberania nacional e os direitos do povo brasileiro são ameaçados por interesses econômicos e políticos poderosos, inclusive de potências estrangeiras.

Como sempre fiz em minha vida, e lá se vão mais de 45 anos de atividade sindical e política, encaro essa missão como um desafio coletivo. A luta que faço para ter um julgamento justo, em que minha inocência seja reconhecida diante das provas irrefutáveis da defesa, só faz sentido se for compreendida como parte da defesa da democracia, da retomada do estado de direito e do projeto de desenvolvimento com inclusão social que o país quer reconstruir.

A cada dia que passa fica mais claro para a população e para a opinião pública internacional que fui condenado e preso pelo único motivo de que, livre e candidato, seria eleito presidente pela grande maioria da população. Minha candidatura era a resposta do povo ao entreguismo, ao abandono dos programas sociais, ao desemprego, à volta da fome, a todo o mal implantado pelo golpe do impeachment. É uma luta que temos de levar juntos, em nome de todos.

Para me tirar das eleições, montaram uma farsa judicial com a cobertura dos grandes meios de comunicação, tendo a Rede Globo à frente. Envenenaram a população com horas e horas de noticiário mentiroso, em que a Lava Jato acusava e minha defesa era menosprezada, quando não era simplesmente censurada. A Constituição e as leis foram desrespeitadas, como se houvesse um código penal de exceção, só para o Lula, no qual meus direitos foram sistematicamente negados.

Como se não bastasse me prender, por crimes que jamais cometi, proibiram que eu participasse dos debates e das sabatinas no processo eleitoral; proibiram minha candidatura, contrariando a lei e a ONU; proibiram que eu desse entrevistas, proibiram até que eu comparecesse ao velório de meu irmão mais velho. Querem que eu desapareça, mas não é de mim que têm medo: é do povo que se identifica com nosso projeto e viu em minha candidatura a esperança de recuperar o caminho de uma vida melhor.

Dias atrás, ao me despedir do meu querido neto Arthur, senti todo o peso da injustiça que atingiu minha família. O pequeno Arthur foi discriminado na escola por ser meu neto e sofreu muito com isso. Então, prometi a ele que não vou descansar até que minha inocência seja reconhecida num julgamento justo.

Na emoção daquele momento, recordo-me de ter dito: “Vou te mostrar que os verdadeiros ladrões são os que me condenaram”. Pouco depois, o jornalista Luís Nassif revelou ao público o acordo ilegal e secreto entre os procuradores da Lava Jato, a 13ª Vara Federal de Curitiba, o governo dos Estados Unidos e a Petrobras, envolvendo uma quantia de 2,5 bilhões de reais.

Essa quantia foi tomada à maior empresa do povo brasileiro por uma corte de Nova Iorque, com base em delações levadas a eles pelos procuradores do Brasil.
E eles foram lá aos Estados Unidos, com a cobertura do então procurador-geral da República, para fragilizar ainda mais uma empresa que é alvo de cobiça internacional.

Em troca dessa fortuna, a Lava Jato se comprometeu a entregar ao estrangeiro os segredos e informações estratégicas da nossa Petrobras.

Não se trata de convicções, mas de provas concretas: documentos assinados, atos de ofício de autoridades públicas. Estes moralistas sem moral ocupam hoje altos cargos no governo que só foi eleito porque eles impediram minha candidatura. Mas quem está preso é o Lula, que nunca foi dono de apartamento nem de sítio, que nunca assinou contratos da Petrobras, que nunca teve contas secretas como essa fundação que foi descoberta agora.

Mais do que manifestar indignação com esses fatos, quero dizer a vocês que o tempo está revelando a verdade. Que não podemos perder a esperança de que a verdade vencerá, e ela está do nosso lado. Por isso, peço a cada um e a cada uma que fortaleçam cada vez mais a nossa luta pela democracia e pela justiça. E só vamos alcançar esses objetivos defendendo os direitos do povo e a soberania nacional, porque foi contra estes valores que fizeram o golpe e interferiram na eleição. Foi para entregar nossas riquezas e reverter as conquistas sociais. Que os comitês Lula Livre tenham isso bem claro e atuem cada vez mais na sociedade, nas redes, nas escolas e nas ruas.

Tenho fé em Deus e confiança em nossa organização para afirmar com muita certeza: nosso reencontro virá. E o Brasil poderá sonhar novamente com futuro melhor para todos.

Muito obrigado, e vamos à luta, companheiros e companheiras.

Um grande abraço do

Luiz Inácio Lula da Silva

Curitiba, 16 de março de 2019
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