12 de mar de 2019

Rovai descasca Bolsonaros, Globo, Moro, Bretas, Lava Jato e quetais


Assista aos melhores momentos do Fórum Onze e Meia de hoje em que o editor da Fórum, Renato Rovai, apresenta uma série de perguntas por conta da prisão dos acusados de assassinar Marielle. Um deles, vizinho do presidente Jair Bolsonaro.



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Os militares que a ditadura brasileira tentou apagar

Hoje reformado e anistiado, o Coronel Sylvestre escreveu um livro sobre a tortura e perseguição
que viveu na ditadura militar
Foto: Bruno Fonseca
No feriado do dia 9 de julho de 1975, não houve aulas. Era quarta-feira, mas o ponto facultativo da Revolução Constitucionalista em São Paulo permitiu ao tenente-coronel Vicente Sylvestre trocar a sala de aula do Curso Superior de Polícia por uma ida trivial ao supermercado. O relógio marcava 3 da tarde quando o telefone tocou na residência da família, nos arredores do bairro do Butantã. Do outro lado da linha, o chefe da 2ª Seção da Polícia informou ao filho mais velho de Sylvestre que estavam a caminho: “Avise-o, aguardem”, disse antes de desligar.

Duas horas depois um oficial bateu à porta, dispensando a escolta armada para a prisão do seu colega de corporação, acusado de envolvimento com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Sylvestre sabia que as ordens do comando do II Exército para que fosse levado ao QG da Polícia Militar não eram promissoras. E não foram.

Trancado sozinho num pequeno gabinete das instalações policiais, o tenente-coronel foi levado ao inferno do DOI-Codi paulistano três dias depois. Ali, durante três meses, sofreu espancamentos, choques elétricos e todo tipo de tortura imposta por oficiais do Exército, tornando-se um entre os milhares de policiais e militares perseguidos pelo regime.

Segundo o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), de 2014, 6.591 militares foram perseguidos pelo regime militar iniciado em 1964. A lista inclui pessoas das mais variadas patentes, de oficiais a praças (como soldados e cabos), e que serviram no Exército, na Aeronáutica, na Marinha ou nas polícias estaduais.

Mais de 3 mil militares foram anistiados pelo Governo Federal

Segundo levantamento da Pública, o Ministério da Defesa paga atualmente indenizações a 3.614 militares ou dependentes, pouco mais da metade do total de militares perseguidos identificados no relatório final da CNV. Na lista da Defesa, constam ex-integrantes do Exército, Aeronáutica e Marinha que foram impedidos de continuar nas Forças Armadas durante a ditadura e recorreram ao benefício após 2002, final do governo Fernando Henrique Cardoso, quando foi instituído o Regime do Anistiado Político.

Em comparação, o governo federal concede anistia a 10.523 civis ou dependentes. Ou seja, para cada militar anistiado pelo Executivo, há três civis beneficiados.

Apesar de os militares serem em menor número, os valores pagos a eles são proporcionalmente maiores. Em 2018, o Ministério do Planejamento, que faz o pagamento a civis, gastou R$ 436 milhões em indenizações. Já as Forças Armadas, juntas, despenderam R$ 558 milhões. A proporção varia a cada ano, devido a indenizações em prestações únicas ou a pagamentos retroativos.

Despesas com anistiados – indenizações e pagamentos retroativos

(em milhões de reais)
Fonte: Portal da Transparência

Militares foram o principal grupo perseguido pela ditadura

“Os militares, enquanto categoria social, foram os mais atingidos comparativamente [pela ditadura]”, explica o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Paulo Ribeiro da Cunha, que trabalhou como consultor na CNV. “Isso surpreende muita gente que acha que eles eram um bloco monolítico e que atuaram quase como um partido, um corpo único”, explica.

Segundo o professor, entre os militares perseguidos, a minoria pegou em armas contra a ditadura. Antes o contrário: a maior parte virou alvo do governo por outros motivos. Houve perseguição a quem reivindicasse direitos trabalhistas, o que era apontado como quebra de hierarquia e insubordinação. Militares foram presos e torturados para que as Forças Armadas obtivessem informações sobre outros indivíduos considerados subversivos. Além disso, muitos foram perseguidos e acusados de participar do Partido Comunista e outras organizações de esquerda.
Foi justamente essa a justificativa que manteve Sylvestre nos porões de tortura do 36º Distrito Policial em São Paulo, o DOI-Codi, da rua Tutoia. Baseado no Decreto-Lei nº 898, de 29 de setembro de 1969, o tenente-coronel foi acusado pelo artigo 43, segundo o qual é crime “organizar ou tentar reorganizar de fato ou de direito, ainda que sob falso nome ou forma simulada, partido político ou associação, dissolvidos por força de disposição legal ou de decisão judicial, ou que exerça atividades prejudiciais ou perigosas à segurança nacional, ou fazê-lo funcionar, nas mesmas condições, quando legalmente suspenso”.

Na denúncia do Ministério Público, segundo Sylvestre, seus crimes foram apoiar campanha do vereador Carlos Gomes Machado, do Partido Comunista; fazer “proselitismo” no Clube Esportivo da Guarda Civil (na qual estava arregimentado antes de se tornar policial militar) e divulgar o conteúdo do jornal Voz Operária, proibido pelo governo.

“Afirmavam que eu tinha ligações com generais do Exército, generais comunistas, mas eu não tinha contato nenhum”, relembra Sylvestre. Como não ofereceu aos captores o que buscavam, Sylvestre foi submetido a meses de tortura junto com outros militares e civis. “Foi uma coisa monstruosa, me torturaram muito, fiquei em pau de arara, fui eletrocutado em uma cadeira chamada ‘cadeira do dragão’, chutaram minha cabeça tão forte que suspeitaram que haviam quebrado ossos do crânio”, relembra.

A saída do DOI-Codi ocorreu em dezembro de 1975, com Sylvestre transferido para a prisão da rua do Hipódromo, no bairro do Brás. A liberação definitiva ocorreu em maio de 1976, quando o tenente-coronel foi declarado informalmente um “morto-vivo” pela ditadura: isto é, não poderia mais atuar na polícia nem ter nenhum outro trabalho remunerado na iniciativa pública ou privada e sua mulher receberia uma pensão como se ele tivesse falecido.

A situação perdurou mesmo após 1979, quando Sylvestre foi absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM) da acusação de tentar reorganizar o Partido Comunista. Nem mesmo a Lei da Anistia, de 1979, trouxe um desfecho rápido para o militar perseguido. Foi apenas em 1983 que a Justiça de São Paulo julgou procedente o pedido de anistia, e em 1984 o ex-tenente-coronel foi oficialmente reformado, o equivalente à aposentadoria para militares. A indenização da anistia, contudo, veio apenas em 2009, quando o Ministério da Justiça publicou a portaria deferindo o pedido de Sylvestre.

A espera de reparação também foi longa – e ainda incompleta – para Paulo Novaes Coutinho, ex-fuzileiro naval membro de uma associação da Marinha que apoiou, no Rio de Janeiro, o então presidente João Goulart, poucos dias antes do golpe de 1964. Inicialmente perdoado pela corporação, Coutinho e outros fuzileiros foram presos pela polícia poucos dias após o golpe militar, no dia 6 de abril, às vésperas do Ato Institucional nº 1, que os expulsou das Forças Armadas.

“Nos jogaram em uma lancha no cais da Bandeira. Logo à frente havia um navio-escola antigo, adernado, que é quando o navio está com casco furado, todo desequipado para entrar no dique e passar pelos reparos necessários. Nos colocaram no porão do navio, dormindo no casco de ferro. Era mês de abril, ficamos ali uns 60 dias, saindo apenas para interrogatório. De lá, nos levaram para a Ilha das Flores, que era um centro de concentração de presos. Depois, para outro navio na baía de Guanabara, sempre nos porões. Uns quatro, cinco meses depois é que começamos a tomar banho de sol no convés do navio e receber visitas”, relembra.

A prisão de Coutinho durou mais de nove meses, até que houve o julgamento pelo Tribunal Militar. Durante os trâmites, ele relembra, chegou a ouvir de oficiais que os militares deveriam ser fuzilados para “lavar a honra da Marinha”. Por sorte, seus advogados conseguiram habeas corpus, que foi um alento momentâneo. O advogado falou “quem puder desaparecer, desapareça, porque em 24 horas sua prisão preventiva estará decretada”. Eu desapareci, fiquei na clandestinidade e nunca mais fui preso. Foi apenas em 1978 que consegui entrar com uma ação de prescrição de pena”, conta.

Assim como Sylvestre, Coutinho foi “perdoado” pela Lei da Anistia de 1979, que absolveu quem havia cometido crimes políticos ou eleitorais e devolveu direitos políticos a quem havia sido atingido pelos atos institucionais e complementares da ditadura militar. Em 2002, Coutinho entrou com pedido de reparação; contudo, o ex-fuzileiro segue até hoje com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) para receber a indenização condizente aos postos obtidos por seus colegas de Marinha que não foram perseguidos pela ditadura. “Foi uma lei pela qual lutamos sempre. Desde 1983 a Marinha indeferia os pedidos sempre com o argumento de falta de amparo legal. Quando saiu a Lei da Anistia, dei entrada no requerimento na Comissão de Anistia, solicitando a promoção ao oficialato conforme os meus colegas da minha turma, e eles simplesmente não implementaram o que dizia a Lei. Estou muito cético quanto a isso, principalmente com a situação no Brasil atualmente”, diz. Coutinho diz receber como suboficial com proventos de segundo-tenente.

“Quando você pega a história do Brasil, os militares de direita deram golpes, voltaram e continuaram na ativa. Os de esquerda ou democratas não. Entre 1945 e 1964 você teve mais de uma dezena de tentativas de golpes pela direita, e esses militares foram anistiados e voltaram às suas funções. Basta lembrar o atentado ao Riocentro: os militares não foram punidos, com um dos expoentes vivo até hoje, o coronel do Exército Wilson Machado”, explica o professor Paulo Ribeiro da Cunha.

Damares critica indenizações a anistiados, que diminuíram com Temer

Atualmente, a decisão sobre a inclusão de novos anistiados civis ou militares compete ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, conduzido por Damares Alves. À revista IstoÉ, a ministra afirmou que irá “estabelecer um momento para o fim das reparações. O regime militar acabou há 35 anos. Isso vai durar para sempre?”, questionou.

“A demora não é responsabilidade das vítimas, mas do Estado. É o Estado que vai postergando e inclusive revitimizando as famílias que foram vítimas de violência durante a ditadura”, contesta o procurador regional da República Marlon Weichert, à frente do Grupo de Trabalho Direito à Memória e à Verdade do Ministério Público Federal de São Paulo (MPF-SP).

O procurador afirma que o Brasil demorou para iniciar as ações de reparação das violações da ditadura – a chamada Justiça de Transição – e ainda não as tornou uma política de Estado. “No caso brasileiro, o que a gente percebe é que houve a adoção assistemática e esparsa de algumas iniciativas, mas não uma política efetivamente dedicada a enfrentar o legado de violações aos direitos humanos ocorridos durante a ditadura”, comenta. Para se ter uma ideia, a Comissão da Verdade da Argentina foi criada um ano após o fim da ditadura no país, em 1984; no Chile, foi instituída logo após o fim do regime de Pinochet, em 1991. No Brasil, foi criada apenas em 2011, 26 anos após o término da ditadura.

Questionado pela Pública, o Ministério dos Direitos Humanos respondeu que, apesar das críticas, Damares não vai encerrar pagamentos de pessoas atualmente beneficiadas pela anistia. Ao mesmo tempo, informou que “alguns dos benefícios mais elevados pagos a algumas categorias passarão por auditoria com auxílio da Controladoria-Geral da União” e que “os critérios serão definidos após auditoria”.

As afirmações de Damares foram criticadas por um manifesto assinado por mais de 70 entidades, entre elas a Associação de Militares Anistiados e Anistiandos das Forças Armadas do Brasil (Amafabra) e a União Nacional de Aeronautas Anistiados (UNAA). No texto, as entidades afirmam que as afirmações de Damares “são desprovidas de fundamentos que as justifiquem” e que servem para “um processo de revisão histórica comprometido com a tentativa de suavizar a brutal ditadura civil-militar”. O manifesto ressalta que as indenizações estão previstas na Constituição de 1988, reforçada pela Lei 10.559 de 2002, que instituiu a Comissão de Anistia e esclarece que os pagamentos são definidos da seguinte forma: quem perdeu emprego devido à perseguição da ditadura recebe pagamentos mensais vitalícios, estendidos a seus dependentes, relativos ao que recebia anteriormente; já os que foram perseguidos de outras formas recebem pagamento único, calculado de acordo com o impacto da perseguição, com valor máximo de R$ 100 mil.

No último dia 8 de março, a procuradora federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal (MPF), Deborah Duprat, enviou um ofício a Damares solicitando que ela informe, em até 10 dias, todas as reuniões realizadas e a programação dos encontros futuros de vários conselhos sob a responsabilidade do Ministério, dentre eles a Comissão de Anistia. O ofício também pede esclarecimentos sobre o Comitê de Prevenção e Combate à Tortura, cuja paralisação foi criticada pelos membros do mecanismo em fevereiro, informação revelada pela Pública. Até o fechamento da reportagem, Damares não havia respondido ao MPF.

Damares é criticada também por não fazer reuniões do grupo desde o início do governo Jair Bolsonaro. À Pública, o ministério afirmou que a retomada está prevista para a segunda quinzena de março. O atual presidente da comissão é Paulo Henrique Kuhn, da Advocacia- Geral da União.

No ano passado houve um crescimento de pedidos de anistia indeferidos ou arquivados pelo Ministério da Justiça, então responsável pela Comissão de Anistia. Em 2018, foram 1.894 pedidos aos quais o ministério disse não – em 2017, esse número havia sido de apenas 134, ou seja, um aumento de 1.313% nas negativas. A quantidade de pedidos arquivados em 2018 também cresceu: 260 em comparação aos 147 de 2017 e números bastante menores nos anos anteriores, como mostra o infográfico abaixo. Em 2016, Temer havia trocado 19 dos 25 membros da comissão, sob a chefia do então Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, agora ministro do STF.

Pedidos de anistia concedidos e recusados pela Comissão de Anistia


Fonte: Portal da Transparência

Bruno Fonseca
Do A Pública
No GGN
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As meras coincidências ou “o powerpoint do Bolsonaro”


Quando estourou o escândalo das montanhas de dinheiro em suas contas, Fabrício Queiroz, manager do gabinete de Flávio Bolsonaro foi esconder-se em Rio das Pedras, área controlada pela milícia “Escritório do Crime”.

Em seguida, surgiu a notícia do envolvimento do “Escritório” com a morte da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes.

O chefe do “Escritório”, o ex-PM Adriano Nóbrega,  havia sido homenageado por Flávio com a Medalha Tiradentes da Assembléia, levada em seu domicílio – a prisão – especialmente.

O pai, em Brasília, fazia discursos em defesa da milícia na Câmara dos Deputados.

Fabrício, apiedado com as dificuldades da família do miliciano, contratou sua mulher e sua mãe para o gabinete do “01”.

A irmã de dois outros acusados de integrarem milícias era membro do comitê financeiro da campanha do rapaz.

Agora prenderam dois sargentos PM – um reformado e um expulso, ambos com extensa folha corrida – suspeitos de terem sido o executor e o “piloto” do carro no assassinato de Marielle e Anderson.

O primeiro é vizinho do presidente num condomínio na Barra – ganha bem, o sargento – e tem negócios no Rio das Pedras, onde manda e desmanda o capitão miliciano: o Adriano, bem entendido.

E o segundo tira selfies com Bolsonaro e posta seu apoio ao capitão nas redes sociais.

Tudo, claro, é mera coincidência, mas que dava um powerpoint daqueles by Dallagnol, isso dava.

Não concorda, Dr. Moro?

Fernando Brito
No Tijolaço
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“Recordar é viver”: anatomia de uma relação perigosa entre o clã e a milícia


Vem de longe, como diria Leonel Brizola, a relação do clã Bolsonaro com as milicias cariocas, que está hoje novamente em todas as manchetes, como se pode ver no levantamento feito por Marcelo Reis de Melo, do Instituto Análise, que reproduzo abaixo na íntegra, sem comentários.

* * *

“Recordar é viver”

por Marcelo Reis de Melo 

1) 2003: Jair Bolsonaro, no Congresso, defende milícias e grupos de extermínio;

2) 2007: Flávio Bolsonaro defende legalização das milícias;

3) 2008: Flávio Bolsonaro na ALERJ durante a votação para instauração da CPI das milícias, após dois repórteres do jornal O DIA serem barbaramente torturados por milicianos na Favela do Batan: “Sempre que ouço relatos de pessoas que residem nessas comunidades, supostamente dominadas por milicianos, não raro é constatada a FELICIDADE dessas pessoas que antes tinham que se submeter à escravidão, a uma imposição hedionda por parte dos traficantes e que agora pelo menos dispõem dessa garantia, desse direito constitucional, que é a SEGURANÇA PÚBLICA. Façam consultas populares na Favela de Rio das Pedras, na própria Favela do Batan, para que haja esse contrapeso também”; 

4) 2011: A juíza Patrícia Acioli é assassinada com 21 tiros no Rio por milicianos. Flávio Bolsonaro, após a morte, vai ao twitter e difama a magistrada; 

5) 2015: A juíza Daniela Barbosa é agredida por milicianos durante uma inspeção no Batalhão Especial Prisional durante uma inspeção no Rio. Flávio Bolsonaro sai em defesa dos agressores;

6) 2015: Flávio Bolsonaro foi o único dos 70 deputados da ALERJ que votou contra a CPI dos Autos de Resistência, que visa apurar possíveis fraudes nas mortes perpetraras por policiais. A CPI surgiu após um vídeo mostrar PMs mexendo na cena do homicídio de um homem na favela da Providência, na Zona Norte do Rio. As imagens mostram os policiais colocando uma arma na mão de dele após ser assassinado;

7) 2015: José Padilha expõe que deixou o Brasil após ameaças de morte sofridas em razão do filme Tropa de Elite 2, que escancara o problema das milícias e sua relação com o poder público;

8) 2018: Jair Bolsonaro, em campanha à presidência, defende milícias que atuam no Rio e diz que “naquela região onde a milícia é paga, não tem violência”;

9) 2018: Flávio Bolsonaro faz campanha com família ligada ao jogo do bicho, organização que que se fortificou justamente durante a Ditadura (especula-se que bicheiros do segundo escalão se tornaram milicianos);

10) 2018: Marielle é assassinada. Forte suspeita de envolvimento de milicianos e políticos. Silêncio na família Bolsonaro;

11) 2018: Policiais que integram a campanha de Bolsonaro são presos na Operação Quarto Elemento, que investiga a atuação de milicianos que praticavam extorsões. Os dois PMs presos são irmãos de Valdenice de Oliveira, a Val do Açaí, assessora e tesoureira do PSL;

12) Dois candidatos do partido de Bolsonaro quebram uma placa de homenagem à Marielle e posam sorrindo, junto ao Witzel. No mesmo evento, os candidatos falam que vão “DECAPITAR AQUELES VAGABUNDOS DO PSOL”. Flavio Bolsonaro defende a atitude dizendo que a “placa era ilegal”.

13) Ministério Público do Rio de Janeiro afirma ter colhido provas de que uma milícia de São Gonçalo teria atuado em favor de um dos candidatos de Jair Bolsonaro à ALERJ, o coronel Fernando Salema (PSL);

14) Organizadora do “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro” é agredida no Rio de Janeiro;

15) Clã Bolsonaro é eleito e jornalista diz que quem postou “Marielle presente” estará fora do governo;

16) COAF revela que Fabrício, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, fez movimentação atípica de R$ 1,233 milhão entre 2016 e janeiro de 2017. O ex PM já cometeu pelo menos 10 homicídios;

17) O COAF descobriu que, além do lote de 1,2 milhão de reais, passaram também pela conta corrente do assessor de Flávio Bolsonaro 5,8 milhões de reais nos dois exercícios imediatamente anteriores.

18) Novo relatório do COAF aponta Flávio Bolsonaro recebeu R$ 96 mil em 50 depósitos fracionados. Ele alega que o dinheiro vivo é fruto da venda de um imóvel;

19) É revelado que Queiroz, antes de ir para o Albert Einstein, se escondeu na favela de Rio das Pedras, dominada pela milícia;

20) Flávio Bolsonaro empregou mãe e mulher de chefe do Escritório do Crime em seu gabinete, suspeitos de assassinarem Marielle.

21) Flávio Bolsonaro foi o único parlamentar que votou contra a concessão da medalha Tiradentes à Marielle.

Instituto Analise

Ricardo Kotscho é jornalista e integra o Jornalistas pela Democracia
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As evangélicas, a mamadeira de piroca e a eleição de Bolsonaro

Mamadeira de piroca, fake news bolsonarista.
Foto: Reprodução/Ultrajano
“Não há dúvida de que o voto evangélico foi fundamental para a eleição de Jair Bolsonaro. Mesmo sendo menos de um terço do eleitorado, as lideranças evangélicas são muito atuantes na política e estão colhendo o resultado de anos de ativismo religioso na sociedade”, escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 06-03-2019.

Eis o artigo.

O sociólogo Marcos Coimbra afirmou ao jornalista Mauro Lopes do canal “Paz e Bem” (e à TV) 247 que a parcela feminina pobre e evangélica do eleitorado foi quem decidiu a eleição presidencial de 2018 a favor do presidente Jair Bolsonaro.

O presidente do Instituto Vox Populi afirmou que, nas semanas anteriores ao pleito, a diferença entre Fernando Haddad e Jair Bolsonarose manteve estável no eleitorado feminino católico, mas apresentou uma grande alteração no eleitorado feminino evangélico.

Segundo Coimbra, foi a manipulação desta parte do eleitorado, e não o sentimento antipetista generalizado, que explica a derrota do PT. Ele argumentou que o antipetismo não é tão abrangente como parece, pois apenas 9% dos eleitores que votaram em Bolsonaro afirmaram “odiar” o PT. “Isso significa que cerca de 90% da sociedade brasileira gosta do PT, ou não tem nenhum sentimento a favor ou contra o partido, ou não gosta do PT bem como pode não gostar de outros partidos”. Por fim ele conclui: “Não se pode sair de um processo político complicado aceitando a versão do vencedor. O vencedor não tem o direito de impor a versão dele”.

Evidentemente, esta análise do presidente da Vox Populi está sujeita a questionamentos e a maiores debates, pois superestima o peso do “segmento feminino pobre e evangélico” do eleitorado e subestima o sentimento antipetista da sociedade brasileira que cresceu em função dos erros do PT ao longo dos 13 anos de governo e dos erros acumulados durante a campanha eleitoral de 2018.

Como mostrei em artigo publicado logo depois ao segundo turno da eleições presidenciais de 2018 (ALVES, 31/10/2018), a diferença positiva que Bolsonaro obteve entre o eleitorado evangélico foi, de fato, suficiente para compensar as derrotas entre as religiões Afro-brasileiras, os sem religião e os ateus e agnósticos. Os 11,6 milhões de votos que Bolsonaro obteve a mais do que Haddad entre os evangélicos foi maior que a diferença total registrada entre os dois candidatos, no resultado final. Mas como mostra a tabela abaixo, Bolsonaro também ganhou, por exemplo, entre os espíritas, que são um segmento de renda mais elevada.

Assim, não há dúvida de que o voto evangélico foi fundamental para a eleição de Jair Bolsonaro. Mesmo sendo menos de um terço do eleitorado, as lideranças evangélicas são muito atuantes na política e estão colhendo o resultado de anos de ativismo religioso na sociedade. Não foram apenas as mulheres pobres evangélicas, mas o conjunto deste segmento religioso que influiu no resultado geral.

De fato, como mostraram Alves et. al. (2017), o Brasil passa por uma transição religiosa de grande proporção. Em 1950, os católicos representavam 93,5% da população e os evangélicos apenas 3,4%. Mas nas últimas sete décadas a percentagem de pessoas que se declaram católicas caiu rapidamente e chegou a 64,6% em 2010. No mesmo período os evangélicos (tradicionais e evangélicos) cresceram e atingiram 22,2% em 2010. Houve também crescimento de outras religiões (como espíritas, etc.) e do percentual de pessoas que se declaram sem religião. Portanto, a transição religiosa brasileira se caracteriza pelo mudança na correlação de forças entre os dois maiores grupos (com queda dos católicos e ascensão dos evangélicos) e maior pluralidade religiosa, inclusive um aumento significativo de pessoas que se consideram sem religião.

Pesquisa da própria Fundação Perseu Abramo, de 2017, havia mostrado que segmentos populares das periferias das grandes cidades estavam assumindo uma visão de mundo que inclui o papel do empreendedorismo na redução da pobreza (como prega a teologia da prosperidade), além de adotar uma postura favorável ao conservadorismo comportamental. Portanto, a questão religiosa e política parece ser mais complexa na sociedade brasileira.

Não dá para reduzir o fenômeno da vitória do capitão Bolsonaro, fundamentalmente, às “fake-news” voltadas a segmentos específicos do eleitorado. Mas o debate está aberto e este assunto é realmente interessante e merece mais estudos e análises.

Referência:

ALVES, JED. O voto evangélico garantiu a eleição de Jair Bolsonaro, Ecodebate, 31/10/2018

Mauro Lopes. Milhões de evangélicas pobres decidiram a eleição em favor de Bolsonaro – é preciso conversar com elas, Canal Paz e Bem, 20/02/2019

ALVES, JED, CAVENAGHI, S, BARROS, LFW, CARVALHO, A.A. Distribuição espacial da transição religiosa no Brasil, Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 29, n. 2, 2017, pp: 215-242

Do Instituto Humanitas Unisinos
No DCM
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“Vão falar que a vereadora foi executada por um PM”, disse Eduardo Bolsonaro há um ano


Eis Eduardo Bolsonaro em 15 de março de 2018, um dia após o assassinato de Marielle e Anderson Gomes:



Como se sabe, nesta terça-feira, 12, o policial militar reformado Ronnie Lessa, de 48 anos, e o ex-policial militar Élcio Vieira de Queiroz, de 46 anos foram presos por suspeita de envolvimentos na morte de Marielle e Anderson.  

Ronnie, autor dos treze disparos segundo a denúncia, estava em sua casa em um condomínio na Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, o mesmo onde o presidente Jair Bolsonaro mora.

Élcio mora na Rua Eulina Ribeiro, no Engenho de Dentro.

Quantas coincidências.

No DCM
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Tucanos somem com dinheiro que evitaria 12 assassinatos

Bolsodória usa helicóptero para deixar a mansão de 7.000m²

A culpa é da chuva e do pobre...
Os tucanos governam São Paulo desde que o Padre Anchieta chegou.

Segundo a "Fel-lha", o estado de São Paulo, governado (sic) pelo Bolsodória, e a cidade, governada (sic) pelo que se conhece como Bruno Surfistinha (ele estava "de licença" carnavalesca) gastaram menos da metade - 41% - dos recursos para drenagem.

A desculpa dos tucanos afogadores e da Globo é que choveu muito e muito forte.

No Japão a terra trеme e muito forte.

Nos países do Hemisfério Norte - EUA, Canadá, Europa e Rússia - neva muito, faz muito frio.

E nem por isso, os governantes tiram férias para ir à praia.

Ou vão brincar de trenzinho fora da cidade.

As cidades têm que prever, sim, prever e se preparar para esses "atos da Natureza".

Nenhum governo japonês seria perdoado se fosse responsável pelo assassinato de doze japoneses porque choveu "acima do previsto", como dizem os globistas...

O governo Bolsodória pediu aos paulistas para não saírem de casa, "pelo amor de Deus"!

Foi o que ele fez.

Não molhou o sapatinho italiano na lama.

Quando despertou, saiu de helicóptero...

É porque ele mora numa mansão de 7.000m2 no Jardim Europa (sic), com quadra de futebol soçaite, tênis e duas piscinas, uma de água fria e outra de água morna.

É um escárnio: fique em casa, governador!


Em tempo: muitos "meteo-analistas" da Globo culpam os moradores de São Paulo, porque não usam as latas de lixo. É a velha estratégia de culpar o pobre e fazer o próprio pobre culpar o pobre. O Jessé Souza explica isso.
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A oposição precisa sair do blá-blá-blá

Xavier: o combate é nas ruas, não em bate-bocas na internet


O Conversa Afiada publica sereno (sempre!) artigo de seu colUnista exclusivo Joaquim Xavier:

Nada contra a atividade oposicionista diante da enxurrada de tuítes mentirosos, aloprados e desequilibrados da famiglia Bolsonaro. É uma disputa necessária, mas insuficiente e ineficaz diante da artilharia do Planalto. A (...) que se apossou da Presidência tem poder de fogo a custo zero para atacar reputações e difundir fake news aos montões.

Os ataques a jornalistas, os desmentidos presidenciais a atos publicados no próprio Diário Oficial e outros tantos mostram que a máquina montada pelo americano Steve Bannon para eleger Donald Trump e Bolsonaro permanece acesa. Só que as eleições, devidamente fraudadas, já terminaram. O jogo é outro.

Enquanto a oposição concentra esforços para apenas policiar os 240 caracteres que o tenente-capitão e sua famiglia são capazes de produzir, o desmonte do Brasil segue seu curso atrás desta cortina de fumaça.

A cada dia, surgem notícias mostrando que a “reforma da previdência” é muito mais ambiciosa para os poderosos do que o anunciado. A mudança para o regime de capitalização – o do salve-se quem puder — pretende atacar ainda mais as prerrogativas trabalhistas que restaram após as medidas de Temer. Trata-se da liquidação completa de direitos adquiridos há décadas pela maioria do povo.

De pouco adianta dirigir impropérios a Olavo de Carvalho, Menendéz, Eugênio Araújo, Damares e assemelhados.

Não que eles não mereçam. Nem pensar em poupá-los. São (...) assumidos a serviço da destruição do Brasil. Mas pergunte ao povo se sabe de quem se trata. Talvez a academia, ameaçada por uma “lava Jato” nas universidades, tenha ideia. Mesmo assim, nem ela parece se movimentar diante de tamanho absurdo.

O essencial, como sempre, é aquilo que mexe no bolso. As mudanças na aposentadoria e nas leis do trabalho são a batalha principal. Contra elas, é preciso uma mobilização monumental a ser preparada desde o chão de fábrica.

Comitês, divulgação massiva, convocação antecipada, debates nas fábricas, lojas, bancos, universidades são insubstituíveis. O dinheiro evaporou, depois das tramoias para asfixiar os sindicatos. Mas os trabalhadores nunca deixarão de contribuir ao perceber que estão em jogo seu presente e seu futuro. Desde que lideranças políticas e sindicais tirem a bunda da cadeira aqui no Brasil ou em Harvard para travar o combate nas ruas, e não apenas em palavrório para garantir um próximo mandato.

Joaquim Xavier
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Quem pode arruinar os Bolsonaro é Queiroz, não a imprensa

https://www.blogdokennedy.com.br/quem-pode-arruinar-os-bolsonaro-e-queiroz-nao-a-imprensa/
Presidente ataca jornalista e mente de novo no Twitter

Neste fim de semana, o presidente Jair Bolsonaro divulgou mais uma fake news no Twitter, voltou a atacar duramente a imprensa e atuou novamente como autocrata. Ele se comportou assim durante toda a sua carreira política e na campanha eleitoral do ano passado. Não surpreende, mas choca.

A fake news foi atribuir à jornalista Constança Rezende, do jornal “O Estado de S. Paulo”, a intenção de fazer reportagens para arruinar a vida do filho e senador Flávio Bolsonaro e a Presidência de Jair Bolsonaro. Em resumo, é mentira o que disse o presidente.

Ora, quem pode arruinar a vida e a Presidência dos Bolsonaro é Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar de Flávio e amigo do presidente da República. Queiroz é suspeito de se apropriar indevidamente de parte dos salários de funcionários do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro.

Quando chega ao poder, um autocrata não vira democrata. A História mostra que democratas, em alguns casos, cedem a tentações autoritárias. Jair Bolsonaro é um autocrata. Não vai parar de mentir nem vai mudar sua atitude no poder.

As instituições do país devem reagir para impor limites ao presidente da República. Ele incita o ódio nas redes sociais, ataca a imprensa com frequência e, agora, disseminou uma mentira para difamar uma jornalista e até o pai dela, que também é jornalista. Incitar o ódio e atacar a liberdade de imprensa contrariam a Constituição.

Lamentavelmente, o presidente da República deu impulso a uma mentira a fim de proteger a si mesmo e ao filho. Agiu para não dar explicações sobre o caso Queiroz e os muitos erros que comete no governo.

Há método nessa atitude. É uma estratégia que conta com uma máquina de difamadores na internet. Travestidos de jornalistas, apoiadores de Bolsonaro atacam aqueles que o presidente e os filhos políticos consideram inimigos.

Responsabilidade legal

As redes sociais precisam ser regulamentadas, como está em discussão no Reino Unido e na Europa. Elas subvertem a democracia e promovem o autoritarismo ao veicular calúnias, injúrias e infâmias. Fazem isso sem serem responsabilizadas.

Empresas de tecnologia, como Google, Facebook e Twitter, usam o princípio da liberdade de expressão para solapar essa liberdade, para enfraquecê-la. Seus usuários atacam de forma desabrida e ilegal a reputação de outras pessoas.

Um jornalista e um veículo de comunicação são responsabilizados se publicarem uma informação falsa. Por que essas empresas não podem ser punidas? Elas são canais de difusão de mentiras.

Essa regulamentação é complicada, envolve aspectos internacionais, já que são empresas estrangeiras. Mas têm sede e atuam no Brasil. Nossas autoridades e nossas instituições precisam reagir.

Mandou a real

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mostrou a realidade para Bolsonaro no fim de semana. Sem liberar verbas e cargos, não vai aprovar nada no Congresso. Sem falar com os líderes partidários, não terá sucesso na reforma da Previdência

Governar pelo Twitter não vai entregar resultado. É apenas a evidência do evidente despreparo de Bolsonaro para o exercício do poder.
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Lalo Leal Filho lança 'A mídia descontrolada' amanhã em SP


Nesta quarta-feira, dia 13 de março de 2019, à partir das 18h30, a unidade da Livraria da Vila situada na Rua Fradique Coutinho (915), em São Paulo, sedia o lançamento do novo livro de Laurindo Leal Filho, o Lalo: "A mídia descontrolada - Episódios da luta contra o pensamento único", lançado pelo selo do Barão de Itararé.

Compareça, adquira a sua cópia e bata um papo com o Lalo. A atividade inaugura o calendário do Barão em 2019.

As eleições presidenciais de 2018 desorientaram os meios de comunicação tradicionais. Todos eles apostavam numa candidatura palatável para os seus interesses políticos e empresariais mas não encontraram quem a encarnasse. De repente se viram às voltas com uma realidade inesperada. Têm pela frente um governo que os despreza, que assusta muito dos seus leitores, ouvintes e telespectadores, mas do qual não podem se afastar totalmente, como sempre acontece no Brasil. A dependência das verbas publicitárias oficiais e de outros favores governamentais é muito grande.

Já dão mostras que se acomodarão aos novos tempos. Daí a importância dos movimentos sociais seguirem na luta por uma comunicação que abra espaço para a diversidade do país, democratizando a circulação de vozes existentes na sociedade. Uma parte importante dessa batalha está em A mídia descontrolada - episódios da luta contra o pensamento único, novo livro de Laurindo Leal Filho, o Lalo, lançado pelo Barão de Itararé.

A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação, publicadas pela Revista do Brasil desde 2009. A análise crítica da atuação dos meios de comunicação feita por Lalo fornece ao leitor as peças do quebra-cabeça que revela os interesses e o poder jogado pelo oligopólio midiático no país. Uma contribuição que reúne o rigor da investigação científica do professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) com linguagem acessível mesmo a quem não está acostumado com as discussões do mundo da comunicação.
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The Guardian: Bolsonaro sob fogo cerrado após afrontar repórter com fake news

A matéria do The Guardian, assinada por Dom Phillips, diz que Bolsonaro provocou uma ‘tempestade de protestos’ depois de espalhar notícias falsas para atacar jornalista que cobriu escândalo envolvendo um ex-assessor de seu filho Flávio


O jornal inglês, The Guardian, traz extensa matéria sobre os ataques de Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, contra uma repórter do Estadão usando notícias falsas para insuflar seus seguidores contra ela. O jornal aponta que a hashtag #BolsonaroÉNotíciaFalsa foi uma das principais do Brasil depois do compartilhamento das informações falsas.

A matéria do The Guardian, assinada por Dom Phillips, diz que Bolsonaro provocou uma ‘tempestade de protestos’ depois de espalhar notícias falsas para atacar jornalista que cobriu escândalo envolvendo um ex-assessor de seu filho Flávio, que também está sendo investigado por lavagem de dinheiro.

É apontado ainda que os principais jornais, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e a Ordem dos Advogados do Brasil, criticaram o presidente de extrema direita por compartilhar uma ‘deturpação’ e ‘informações falsas’.

O ataque de Bolsonaro foi feito no domingo em um tweet com trechos curtos de áudio de uma conversa entre Constança Rezende, repórter do Estadão, e um homem não identificado. Bolsonaro a acusou de buscar seu impeachment e querer ‘arruinar’ a vida de seu filho Flávio.

Mas, aponta o jornal, nos trechos compartilhados pelo presidente do Brasil, a jornalista não fez tal coisa. Nos trechos, ela pode ser ouvida dizendo que o caso contra o filho do presidente estava ‘arruinando’ Bolsonaro – que se fez presidente em plataforma anticorrupção e dura no crime. Constança também diz que o caso pode levar ao impeachment do presidente e expressou seu mede de que as investigações não avancem.

No mesmo tweet, Bolsonaro também mencionou o pai de Constança Rezende, Chico Otávio, jornalista investigativo do jornal O Globo, que investiga gangues criminosas que também estão ligadas a Flávio Bolsonaro.

Bolsonaro acusou Constança e Otávio de quererem ‘derrotar o governo com chantagem, desinformação e vazamentos’. Porta-voz do presidente disse que ele se recusou a comentar na segunda-feira; Constança e Otávio também não comentaram.

Depois do tweet de Bolsonaro no domingo, a hashtag #EstadãoMente se tornou o principal tópico no Twitter. Mas, na segunda-feira, #BolsonaroÉNotíciaFalsa a substituiu entre as principais hashtags do Brasil.

O The Guardian pontua que o Estadão é um jornal conservador, fundado em 1875, que publicou editoriais fortemente críticos das recentes controvérsias de Bolsonaro, como o tweet de um vídeo pornográfico de um ato sexual durante o carnaval.

‘O presidente compartilhou e endossou informações incorretas, o que é sério’, disse João Caminoto, diretor de jornalismo do Estadão. ‘É um ataque ao jornalismo e, consequentemente, um ataque à democracia’.

O diretor do Estadão informou que Constança Rezende deu uma entrevista por telefone a uma pessoa que alegava ser estudante chamado Alex MacAllister, que disse estar fazendo um estudo comparativo entre Donald Trump e Jair Bolsonaro.

A entrevista apareceu pela primeira vez em um post de blog de um cineasta francês e foi republicado no domingo por um site pró-Bolsonaro chamado Terça Livre, em um artigo escrito pela assessora de imprensa de um deputado estadual do PSL de Bolsonaro.

O jornal relata que, antes de ser eleito no ano passado, Flávio Bolsonaro era deputado estadual no Rio de Janeiro. Constança Rezende relatou, anteriormente, uma investigação sobre movimentos financeiros ‘atípicos’ envolvendo funcionários de deputados estaduais e ex-deputados, incluindo o assessor de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz. Os dois negaram qualquer irregularidade.

Flávio Bolsonaro, em entrevista na TV, em janeiro, afirmou que ‘não há nada de ilegal’. Já Queiroz havia dito anteriormente que ganhava dinheiro fazendo negócios.

Além disso, Flávio Bolsonaro também está sendo investigado por lavagem de dinheiro em outro caso. ‘Ele é vítima de perseguição política’, disse seu porta-voz ao site Antagonista, e ‘repudia a tentativa de imputar irregularidades e crimes onde não há nenhum’.

O pai de Constança Rezende, Otávio, relatou, por seu turno, uma ‘milícia’ criminosa. Um dos líderes do grupo era um ex-policial Adriano da Nóbrega, cuja esposa e mãe eram membros da equipe de Flávio Bolsonaro até o ano passado.

O jornal evidencia também a ligação de Nóbrega com o assassinato de Marielle Franco, no ano passado. E aponta que, enquanto deputado estadual, Flávio Bolsonaro concedeu uma ‘moção de louvor’ oficial para Nóbrega e outro membro da gangue.

Aponta ainda que, o site francês Mediapart, que originalmente hospedou a entrevista, se eximiu da postagem no blog. ‘A informação publicada no ‘Mediapart club’, que serviu de base para o tweet de @jairbolsonaro é falsa. O artigo é de responsabilidade do autor e o blog é independente da redação do jornal’, dizia em um tweet em português.

Para o The Guardian, o diretor de redação do Estadão disse que a principal preocupação do jornal é a segurança de seus repórteres. Contou ao jornalista que ela teve que suspender suas contas de mídia social. Disse ainda que o número do celular foi divulgado e ela recebeu ameaças veladas. ‘Nós respondemos com jornalismo’, disse Caminoto.

No GGN
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Em novembro, Jungmann deu as pistas sobre quem mandou matar Marielle

https://www.balaiodokotscho.com.br/2019/03/12/em-novembro-jungmann-deu-as-pistas-sobre-quem-mandou-matar-marielle/?fbclid=IwAR06MGzx6WAvlSqfydjuqaqqziFsyj3s4sBj9UzEaBFHWDMJ0vtXhXqCwLg

“Eu diria que é mais do que uma certeza”, respondeu Raul Jungmann, então ministro da Segurança Pública, ao ser perguntado se o envolvimento de poderosos na morte da vereadora, que ele tinha acabado de denunciar, era uma certeza ou uma hipótese.

Em palestra no Simpósio Nacional de Combate à Corrupção, na FGV-Rio, exatamente um mês após a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições, em 23 de novembro de 2018, Jungmann deu todas as pistas, sem citar nomes, sobre quem mandou matar Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes:

“Existe uma grande articulação envolvendo agentes públicos, milicianos e políticos, em um esquema muito poderoso, que não teria interesse na elucidação do caso Marielle. Até porque, estariam envolvidos nesse processo. Se não tanto na qualidade daqueles que executaram, na qualidade de mandantes”.

Nesta terça-feira, o Brasil acordou com as imagens de um repórter da Globo postado na entrada de um condomínio na Barra da Tijuca dando informações sobre o PM reformado Ronnie Lessa, um dos dois suspeitos presos sob a acusação de dar os tiros que mataram Marielle.

O repórter parecia tão assustado quanto os telespectadores, já que aquele era o mesmo condomínio onde morava o presidente eleito, cenário de longas horas de televisão após as eleições do ano passado.

Por coincidência, Ronnie Lessa era vizinho de Jair Bolsonaro, antes dele se mudar para o Palácio do Planalto.

Também por coincidência, um dos autores da magnífica reportagem publicada logo em seguida no portal do jornal O Globo é o repórter Chico Otávio, citado por Bolsonaro esta semana num tuíte em que o presidente acusa jornalistas de quererem derrubar o governo.

A reportagem, assinada também pelos repórteres Vera Araújo e Arthur Leal, conta em detalhes como a polícia chegou aos assassinos de Marielle e Anderson, mostrando as conexões entre os milicianos e aqueles agentes públicos interessados em abafar o caso de que falou Jungmann na sua palestra.

O que mais o ex-ministro da Segurança sabia e não podia dizer na época para não prejudicar as investigações da Polícia Federal, apesar de revelar que tinha “informações importantes sobre o assassinato da vereadora”?

“Começamos há pouco mais de três semanas, mas eu acredito que a Polícia Federal, que é uma das melhores do mundo, vai sim avançar, esclarecendo o complô dos poderosos”, previu o ex-ministro, após a palestra na FGV-Rio, segundo reportagem de Vladimir Platonow publicada na Agência Brasil.

Como sabemos, a Polícia Federal está agora sob o comando do ministro da Justiça e da Segurança, o ex-juiz Sergio Moro, que até o momento em que escrevo ainda não se pronunciou sobre a prisão dos dois suspeitos.

Não seria o caso de ouvir novamente Jungmann, agora que se fecha o cerco contra os assassinos, faltando “apenas” encontrar os mandantes?

Na denúncia contra Ronni Lessa e o também o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, que posa ao lado de políticos na internet, a Promotoria confirma as suspeitas do ex-ministro:

“É inconteste que Marielle foi sumariamente executada em razão da atuação política na defesa das causas que defendia. O assassinato foi um golpe ao Estado Democrático de Direito”.

Os promotores afirmam também que a “empreitada criminosa foi meticulosamente planejada durante os três meses que antecederam o atentado”.

Agora faltam apenas dois dias para este brutal atentado completar um ano, com manifestações marcadas por todo o Brasil e pelo mundo afora, para exigir a prisão também dos mandantes.

Juntando todas as pontas do que foi revelado nas últimas semanas sobre o esquema de proteção dos milicianos cariocas e suas ligações políticas, não deverá ser tão difícil assim chegar a eles.

Antes de desligar o computador na noite de segunda-feira, publiquei um post no meu Face com duas perguntas, sem esperanças de ouvir respostas:

“Quem mandou matar a Marielle? Que fim levou o motorista Queiroz?”

Não poderia imaginar que acordaria hoje com aquela imagem da Globo na Barra da Tijuca, o célebre QG da nova ordem.

Coincidências à parte, o atual momento é gravíssimo e não vai mais poder ser resolvido no Twitter.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
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Bolsonaro: os indícios contra um cidadão acima de qualquer suspeita

Enfim, aproxima-se o momento crucial, que pode revelar um país ameaçado de ser tomado pelas milícias

  • O filme “Um cidadão acima de qualquer suspeita” é um clássico do cinema italiano dos anos 70. Recomenda-se que assistam, para entender um pouco da realidade brasileira.
Com a informação de que o homem detido hoje, acusado da morte de Marielle, mora no mesmo condomínio do presidente Jair Bolsonaro, surge mais um indício forte do envolvimento da família com as milícias que executaram a ex-vereadora Marielle.

Acompanhe o gráfico.

De tudo o que saiu publicado até agora, descontando os milicianos homenageados por Flávio Bolsonaro na ALERJ, há três elementos-chaves nessa história:
  • Luiz Braga, o Zinho, chefe de milícias, acusado de ter contratado o assassino.
  • Capitão Adriano: um dos chefes do Escritório do Crime, onde o assassinato teria sido encomendado
  • Ex-PM Roni Lessa, detido hoje sob a acusação de ter participado diretamente do assassinato de Marielle.
Vamos analisar as relações dos três com os Bolsonaro:

Zinho – comanda uma milícia que tem três integrantes diretamente envolvidos com Flávio Bolsonaro: os gêmeos Alan e Alex Oliveira, seus seguranças na campanha, e sua irmã Valdeci, tesoureira do PSL.

O motorista Queiroz – suspeito de ser o elo dos Bolsonaro com a milícia do Rio das Pedras, e de lavar dinheiro confiscado do salários dos assessores.

A propósito do PSL, outra linha de investigação remete ao governador Wilson Witzel. Não apenas comemorou a morte de Marielle, participando da cerimônia de quebra da placa com seu nome, como tem como um de seus assessores de segurança um miliciano acusado de vários crimes.

Capitão Adriano – tido como o chefe do Escritório do Crime. Esposa e mãe foram empregadas por Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa.

Ex-PM Elcio Vieira de Queiroz e Jair Bolsonaro
Roni Lessa – foi detido em sua casa, no mesmo Condomínio onde tem residência Jair Bolsonaro. Certamente haverá uma investigação jornalística para explicar as afinidades políticas e milicianas dos moradores do condomínio. Junto com ele, foi preso o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz, que teria sido o motorista do carro que abordou o de Marielle. 

Queiroz – é questão de tempo para ser detido e interrogado.

Enfim, aproxima-se o momento crucial, que pode revelar um país ameaçado de ser tomado pelas milícias. Seu poder intimidatório, somado aos das milícias virtuais alimentadas pelos Bolsonaro, em nada fica a dever aos porões da ditadura. É um poder paralelo e assassino.

O destino do país, mais do que nunca, dependerá das instituições. É hora do Supremo Tribunal Federal, da Procuradoria Geral da República, do Ministério Público Federal e das próprias Forças Armadas começarem a se preparar para uma luta inevitável em defesa do país.

Luís Nassif
No GGN
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O PM Ronnie Lessa


Ronnie Lessa atuava em guarnição comandada por condenado pelo assassinato da juíza Patrícia Acioli

O policial miltiar Ronnie Lesssa, preso na manhã desta terça-feira, suspeito do assassinato da vereadora Marielle Franco e apontado como o atirador do homicídio, atuava no 9º BPM (Rocha Miranda), chefiado, em muitos momentos, pelo tenente-coronel Cláudio Luiz Silva de Oliveira. A guarnição era formada pelos mesmos integrantes, com Lessa incluído na mairoia das vezes, e comandada por Cláudio. O oficial é conhecido pelo público por ser condenado a 36 anos de prisão, acusado de ser o mandante do assassinato da juíza Patrícia Acioli. Cláudio cumpre pena na Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Até julho do ano passado, ao menos, Cláudio continuava integrando as fileiras da PM, recebendo a sua remuneração todos os meses. Em junho, mesmo sem servir e proteger a população, Claudio Luiz teve a conta engordada em R$ 19.916,53. Até aquele mês, nos seis anos e dez meses de prisão, ganhou R$ 1,7 milhão entre remunerações e 13º.

A juíza patrícia Acioli foi morta, na porta de casa com 21 tiros, no dia 12 de agosto de 2011, no bairro de Piratininga, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio. A juíza era titular da 4º Vara Criminal de São Gonçalo e foi responsável pela prisão de cerca de 60 policiais ligados a milícias e grupos de extermínio, fato que teria gerado insatisfação entre os grupos criminosos que atuavam na região.

Em dezembro de 2013, Cláudio foi condenado a 36 anos de prisão pelo crime. O oficial ingressou no sistema penitenciário federal em dezembro de 2011 e já passou por diversas unidades. Desde março de 2016, ele está em Mossoró.

(...)

Histórico de Ronnie Lessa

Ronnie Lessa nos idos de 1992, tinha fama de ser violento, aparecendo com frequência nas manchetes de jornal. Não é à toa que os policiais que davam serviço naquela época eram conhecidos como “Cavalos Corredores”. Foi da unidade de Rocha Miranda que saíram os PM condenados pela chacina de Vigário Geral, em 1993, quando 21 pessoas — oito delas evangélicos de uma mesma família — foram executadas.

Na época, o batalhão tinha praticamente todo o seu efetivo com casos de auto de resistência, situação que ganhou o holofote justamente por causa do massacre. Ronnie Lessa ainda era soldado e se integrava aos colegas. Sua guarnição era uma das campeãs de louvores da corporação pelas operações que incluíam a apreensão de armas e drogas, o estouro de locais de endolação de drogas e prisões. O chefe do grupo era o capitão que inclusive ainda é lembrado nos dias de hoje como um dos três oficiais mais operacionais que passaram pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope): Cláudio Luiz Silva de Oliveira.

PM Ronnie Lessa é conhecido pela frieza e por ser exímio atirador

Ninguém jamais havia investigado Ronnie Lessa. Embora os corredores das delegacias conhecessem a fama do sargento reformado, de 48 anos, associada a crimes de mando pela eficiência no gatilho e pela frieza na ação, Lessa era até a operação desta quarta-feira um ficha limpa. Egresso dos quadros do Exército, foi incorporado à Polícia Militar do Rio em 1992, atuando principalmente no 9º BPM (Rocha Miranda), até virar adido da Polícia Civil, trabalhando na extinta Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (DRAE), com a mesma função da atual Desarme, na Delegacia de Repressão à Roubo de Cargas (DRFC) e na extinta Divisão de Capturas da Polinter Sul.

Já o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz, de 46 anos, também preso hoje, é acusado de ter dirigido o Cobalt prata usado na emboscada. Ele foi expulso da corporação após se tornar réu na chamada Operação Guilhotina, que colocou em xeque a cúpula da Polícia Cívil. Elcio foi detido hoje quando estava saindo de sua casa, na Rua Eulina Ribeiro, no Engenho de Dentro, na Zona Norte do Rio.

Carreira mercenária

A experiência como adido foi o motor da carreira mercenária de Lessa. A prática de cessão de PMs para a Polícia Civil começou no início dos anos 2000, quando o Rio ainda enfrentava uma onda de sequestros irrompida na década anterior. A primeira leva, transferida para a Divisão Anti-Sequestro (DAS), forjou outros nomes que posteriormente fariam fama no mundo criminal, como o do sargento da reserva da PM Geraldo Antônio Pereira, o Pereira; e o sargento Marcos Vieira de Souza, o Falcon, ex-presidente da Portela, ambos já foram assassinados em 2016, em situações diversas.

O próprio Orlando de Oliveira Araújo, o Orlando da Curicica, apontado inicialmente como principal suspeito, também é oriundo da DAS. No caso dele, como já havia sido expulso pela Polícia Militar, atuava como informante da delegacia ou X-9, como era vulgarmente conhecido. O alcaguete andava em viaturas da polícia, além de portar armas, inclusive fuzis.

Arregimentado por contraventor

Lessa, como outros adidos, conhecia mais das ruas do que qualquer policial civil. Logo, destacou-se e ganhou respeito pela agilidade e pela coragem na solução dos casos. Esta fama, segundo os bastidores da polícia, chegou aos ouvidos do contraventor Rogério Andrade, na época cada vez mais ocupado em fortalecer o seu exército numa sangrenta disputa territorial com o também contraventor Fernando Iggnácio de Miranda. Em jogo, o legado do bicheiro Castor de Andrade, morto em 1997.

Arregimentado por Andrade, Lessa não demorou a crescer na organização e ocupar o destacado posto de homem de confiança do chefe. Até que, em abril de 2010, a explosão de uma bomba no carro do bicheiro não apenas matou o filho dele, Diogo Andrade, de 17 anos, como fulminou a credibilidade de Lessa junto ao chefe, por não conseguir protegê-lo, assim como sua família. O guarda-costa e exímio atirador foi incapaz de evitar a morte do jovem.

Chama atenção que o método de detonação da bomba usada no atentado que matou o filho do contraventor, segundo peritos da época, foi o mesmo usado no atentado ao sargento da PM, em 2 de outubro de 2009, que perdeu a perna. Um laudo do Esquadrão Antibombas da Polícia Civil revelou que para explodir o Toyota Corolla blindado de Andrade foi usado um dispositivo acionado à distância por meio de um telefone celular.

Com a sua reforma por invalidez, Lessa acabou deixando de ser adido, mas ainda frequentava as delegacias da Polícia Civil, principalmente a antiga Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (DRAE). Até que, em 2011, ciente da migração dos adidos para as fileiras do crime, a Secretaria de Segurança do Estado vetou para sempre a cessão de quadros da PM para a Polícia Civil e acabou com a DRAE. A medida foi resultado da Operação Guilhotina da Polícia Federal, que investigou a corrupção policial envolvendo policiais civis e os adidos, além de integrantes da cúpula da instituição.

Com as portas fechadas na polícia, o ambiente mafioso tornou-se um caminho sem volta para Lessa. A mira certeira, decisiva para a expansão territorial de Rogério Andrade, foi também o passaporte do ex-sargento para a organização criminosa formada por matadores de aluguel, considerada mais temida e eficiente do Rio. Num cenário em que o dinheiro da corrupção garantia a impunidade destes mercenários, Lessa nem sequer se dava ao trabalho de agir às sombras. Para agenciá-lo, bastava dar uma passada no bar onde o ex-adido fazia ponto no Quebra-Mar, na Barra da Tijuca.

Uma opinião unânime assombra os que conheceram Lessa pessoalmente. Há quem diga que ele é capaz de tudo para cumprir as empreitadas criminosas, sem medir as consequências. Hábil no manejo principalmente de fuzis, é conhecido por gostar de atirar sentado, embora uma prótese moderna disfarce bem o problema físico quando em pé. Jamais volta para a base sem ter cumprido o que fora acertado com o contratante.

É esse homem que, agora, a polícia pretende levar para o banco dos réus como o principal acusado da morte de Marielle e Anderson.

Homenagem pelos 'bons serviços prestados'

Extremamente operacional, Ronnie Lessa encontrou no 9º BPM (Rocha Miranda) a unidade perfeita para o seu perfil. Afinal, o batalhão, nos idos de 1992, tinha fama de ser violento, aparecendo com frequência nas manchetes de jornal. Não é à toa que os policiais que davam serviço naquela época eram conhecidos como “Cavalos Corredores”. Foi da unidade de Rocha Miranda que saíram os PM condenados pela chacina de Vigário Geral, em 1993, quando 21 pessoas — oito delas evangélicos de uma mesma família — foram executadas.

Na época, o batalhão tinha praticamente todo o seu efetivo com casos de auto de resistência, situação que ganhou o holofote justamente por causa do massacre. Ronnie Lessa ainda era soldado e se integrava aos colegas. Sua guarnição era uma das campeãs de louvores da corporação pelas operações que incluíam a apreensão de armas e drogas, o estouro de locais de endolação de drogas e prisões. O chefe do grupo era um capitão que inclusive ainda é lembrado nos dias de hoje como um dos três oficiais mais operacionais que passaram pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope): Cláudio Luiz Silva de Oliveira. Do público em geral, hoje ele é conhecido como o tenente-coronel Cláudio, condenado a 36 anos de prisão como mandante do assassinato da juíza Patrícia Acioli, em 2011. Ele cumpre pena na Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Era um louvor por mês, sendo que, em 1997, no mês de março houve duas menções. Mas a PM não havia mais espaço para Lessa que junto com outros colegas da mesma guarnição passaram a dar serviço nas delegacia especializadas do Rio, como as que cuidavam de roubos de cargas — justamente porque a maioria dos alvos era de favelas da área do quartel de Rocha Miranda, que a guarnição conhecia bem —, de capturas de presos (Polinter) e para coibir os sequestros.

Entre os colegas que seguiram com Lessa estão: Roberto Oliveira Dias, conhecido como Beto Cachorro; e os irmãos Ivan Jorge Evangelista de Araújo e Floriano Jorge Evangelista Araújo.Todos foram investigados na Operação Guilhotina, deflagrada pela Polícia Federal que apurava a corrupção policial na Polícia Civil. Lessa conseguiu não foi indiciado na época.

Lessa também recebeu moção do deputado estadual Pedro Fernandes (PSD), em 23 de novembro de 1998, avô do atual secretário de Educação Pedro Fernandes. Fernandes destacou na época: “a maneira como vem pautando sua vida profissional como policial-militar do 9º BPM. Sem nenhum constrangimento posso afirmar que o referido militar é digno desta homenagem por honrar, permanentemente, com suas posturas, atitudes e desempenho profissional, a sua condição humana e de militar discreto mas eficaz.

Constituindo-se, deste modo, em brilhante exemplo àqueles com quem convive e com àqueles que passam a conhecê-lo. Por tudo isto, sinto-me orgulhoso e honrado ao propor esta moção de louvor”.

Réu na Operação Guilhotina, Élcio foi expulso da PM

O ex-PM Élcio Vieira Queiroz foi expulso da corporação depois de ter sido réu na Operação Guilhotina da Polícia Federal, em 2011. Ele foi um dos 45 denunciados pelo Ministério Público estadual pelos crimes de formação de quadrilha armada, peculato, corrupção passiva, comércio ilegal de arma de fogo, extorsão qualificada, entre outros delitos. Segundo o processo, foram expedidos mandados de prisão contra 11 policiais civis, 21 PMs — incluindo oito que atuavam na Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae), que acabou sendo extiinta; e na Delegacia de Combate a Drogas (DCOD) —, além de 13 ex-policiais e informantes. Na época, Élcio era segundo sargento do 16º BPM (Olaria), mas atuava cedido à Polícia Civil como adido, função muito comum nos anos 2000.

A Operação Guilhotina teve grande repercussão na imprensa em 2011, pois colocava em xeque a cúpula da Polícia Civil. Agentes da Polícia Federal (PF) chegaram a fazer buscas na casa de um delegado que era ex-subchefe de Polícia Civil e, antes, titular da Drae, onde os adidos como Elcio trabalhavam. Este delegado chegou a ser excluído da corporação, mas foi reitegrado, pois sua defesa conseguiu provar sua inocência.

Na época, os policiais eram acusados de fazer jogo duplo com bandidos, inclusive vendendo armas a eles. Alguns chegaram até a ser flagrados em escutas e e-mails informando aos criminosos ligados ao traficante Antonio Bonfim Lopes, o Nem, preso em presídio federal fora do estado, o local e o dia que a polícia iria realizar operações nas favelas dominadas pelo bando.

Durante as investigações que começaram em 2009, os agentes federais descobriram também que os policiais em vez de prender, costumavam roubar os próprios traficantes. Pelo menos nove policiais civis e militares foram flagrados saqueando bens, dinheiro e pertences de moradores e traficantes dos Complexos da Penha e do Alemão, na época da ocupação para a implantação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

Carro apreendido com PM envolvido no assassinato de Marielle e Anderson tem 93 multas por excesso de velocidade

O carro apreendido com o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa, preso na madrugada desta terça-feira por envolvimento no asssassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, tem 124 multas registradas desde agosto de 2013. A maioria das infrações é por excesso de velocidade. O veículo, um Infiniti FX35 V6 AWD, custa em média R$ 120 mil. O modelo de Lessa é blindado.

De acordo com o sistema da Secretaria municipal de Transportes (SMT) da prefeitura do Rio, as infrações foram por estacionamento irregular, excesso de velocidade, avanço de sinal e dirigir com o celular. A maioria das multas registradas na prefeitura, no entanto, foi por excesso de velocidade: foram 93 infrações.

A Infiniti é uma marca nipo-americana de automóveis de luxo da Nissan que tem modelos comercializados nos Estados Unidos, no México, no Canadá, em países do Oriente Médio, na Coreia do Sul e em Taiwan. Em 2007 a marca chegou à Europa continental, à Rússia e à Ucrânia. Em 2012, a Nissan chegou a anunciar planos de trazer a Infiniti ao Brasil, mas a iniciativa não avançou.

Além de Ronnie Lessa, a Delegacia de Homicídios (DH) da Capital e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ) prenderam o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz por envolvimento no crime. Os dois tiveram a prisão preventiva decretada pelo juiz substituto do 4º Tribunal do Júri Guilherme Schilling Pollo Duarte, após denúncia da promotoria. Segundo a denúncia do MP do Rio, Lessa teria atirado nas vítimas, e Elcio era quem dirigia o Cobalt prata usado na emboscada. Elcio de Queiroz foi expulso da corporação.

Segundo a denúncia das promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile, o crime foi "meticulosamente" planejado três meses antes do atentado. Além das prisões, a operação realiza mandados de busca e apreensão nos endereços dos denunciados para apreender documentos, telefones celulares, notebooks, computadores, armas, acessórios, munições e outros objetos. Lessa e Elcio foram denunciados pelo assassinato e a tentativa de homicídio de Fernanda Chaves, assessora da vereadora que sobreviveu ao ataque. A ação foi batizada de Operação Buraco do Lume, em referência ao local no Centro de mesmo nome, na Rua São José, onde Marielle prestava contas à população sobre medidas tomadas em seu mandato. Ali ela desenvolvia também o projeto Lume Feminista. Os denunciados foram presos às 4h desta madrugada.



Já tentaram apagar o PM Ronnie Lessa

Tentativa de assalto na Barra termina com PM e bombeiro baleados

Os dois estavam na praia do Pepê quando foram abordados por um criminoso

Por Leticia Lopes, às 27/04/2018

Um policial militar reformado e um agente do Corpo de Bombeiros foram baleados durante uma tentativa de assalto na Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio.

Os dois estavam na praia do Pepê quando foram abordados por um criminoso em uma moto. Houve troca de tiros.

O militar Roni Lessa, de 47 anos, foi atingido de raspão no pescoço e o bombeiro baleado no braço. Eles formam encaminhados ao Hospital Municipal Lourenço Jorge, na mesma região.

O caso aconteceu na manhã desta sexta-feira (27), na altura do Quebra Mar. Ainda não há informações sobre presos na ocorrência.

Com o caso, já são 103 agentes de segurança baleados no estado do Rio somente em 2018. O levantamento é da BandNews FM.
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PM e ex-PM são presos pelo assassinato de Marielle Franco


A Delegacia de Homicídios (DH) da Capital e o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/MPRJ) prenderam na manhã desta terça-feira o sargento reformado da Polícia Militar Ronnie Lessa, de 48 anos, e o ex-PM Elcio Vieira de Queiroz, de 46 anos, por envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. Na quinta-feira, os assassinatos completam um ano. Os dois tiveram a prisão preventiva decretada pelo juiz substituto do 4º Tribunal do Júri Gustavo Kalil, após denúncia da promotoria. Segundo a denúncia do MP do Rio, Lessa teria atirado nas vítimas, e Elcio era quem dirigia o Cobalt prata usado na emboscada. O segundo acusado foi expulso da corporação. 

De acordo com a denúncia das promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile, o crime foi "meticulosamente" planejado três meses antes. Além das prisões, a operação busca cumprir mandados de busca e apreensão nos endereços dos denunciados para apreender documentos, telefones celulares, notebooks, computadores, armas, acessórios, munições e outros objetos. Lessa e Elcio foram denunciados pelo assassinato e também pela tentativa de homicídio de Fernanda Chaves, assessora da vereadora que sobreviveu ao ataque. A ação foi batizada de Operação Buraco do Lume, em referência ao local no Centro de mesmo nome, na Rua São José, onde Marielle prestava contas à população sobre medidas tomadas em seu mandato. Ali ela desenvolvia também o projeto Lume Feminista. Os denunciados foram presos às 4h desta madrugada.  

As promotoras pedem ainda a suspensão da remuneração e do porte de arma de fogo de Lessa. Também foi requerida a indenização por danos morais aos familiares das vítimas e a fixação de pensão em favor do filho menor do motorista Anderson até completar 24 anos de idade. Em certo trecho da denúncia, elas ressaltaram: “É inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da atuação política na defesa das causas que defendia. A barbárie praticada na noite de 14 de março de 2018 foi um golpe ao Estado Democrático de Direito".

A polícia e o Gaeco chegaram às 4h desta terça-feira às casas dos investigados. O policial Lessa mora no condomínio de Vivendas da Barra, na Avenida Lúcio Costa, 3.100, por coincidência, o mesmo do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL). Não há, porém, nenhuma ligação, a não ser o fato de serem vizinhos. O condomínio fica de frente para o mar, com seguranças na portaria.

Suspeito acompanhava agenda de Marielle

A principal prova colhida pelos investigadores saiu da quebra do sigilo dos dados digitais de Ronnie Lessa. Ao verificar os arquivos acessados por ele pelo celular, antes do crime, armazenados na “nuvem” (dados que ficam guardados em servidor externo e podem ser vistos remotamente), eles descobriram que o suspeito monitorava a agenda de eventos que Marielle participava. Para a polícia, é um indício de que a vereadora estava tendo seus passos rastreados. Marielle, segundo a investigação, participou de pelo menos uma das agendas pesquisadas pelo suspeito.
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