10 de mar. de 2019

Pivô da guerra no MEC entre olavetes e militares, coronel Ricardo Roquetti deve ser exonerado

Informações que circulam em grupos próximos a Olavo é que Bolsonaro já teria decidido exonerar Roquetti, selando a vitória dos olavetes, que devem se manter em postos chaves do MEC para dar início à declarada "Lava Jato da Educação", que estaria enfrentando resistência na caserna

Paulo Roberto Almeida, Ricardo Roquetti e Olavo de Carvalho
Pivô do expurgo dos olavetes do Ministério da Educação, o coronel Ricardo Roquetti, secretário-executivo da pasta deve ser exonerado nos próximos dias, selando mais uma vitória dos discípulos de Olavo de Carvalho sobre o grupo militar do governo Jair Bolsonaro (PSL).

Ex-aluno do astrólogo e guru ideológico do governo, Roquetti foi criticado por Olavo neste sábado (9), que disse ter se arrependido de tê-lo apresentado à deputada federal Bia Kicis (PSL/DF), que articulou a nomeação para a pasta comandada por Ricardo Vélez-Rodriguez.

“Três erros pelos quais peço desculpas: 1) Ter acreditado, nos anos 90, que os militares brasileiros teriam a coragem de reagir na Justiça contra a difamação jornalística das Forças Armadas. 2) Ter apoiado o general Mourão na sua candidatura à vice-presidência. 3) Ter apresentado o Coronel Roquetti à Bia Kicis”, tuitou o astrólogo, provocando um levante de seus seguidores contra o militar.

Neste domingo, as informações que circulam em grupos próximos a Olavo é que Bolsonaro já teria decidido exonerar Roquetti, selando a vitória dos olavetes, que devem se manter em postos chaves do MEC para dar início à declarada “Lava Jato da Educação”, que estaria enfrentando resistência na caserna. A notícia é comemorada nas redes por bolsonaristas discípulos do guru.

Expurgo

Depois que Olavo pediu para seus ex-alunos abandonarem cargos no governo de Jair Bolsonaro, especificamente no Ministério da Educação (MEC), o assessor especial da pasta, Silvio Grimaldo, um dos ex-alunos, disse que há um “expurgo” em andamento no setor.

Ligado ao filósofo, Grimaldo escreveu na manhã de deste sábado no Facebook que foi um dos que sofreram rebaixamento de cargo por conta da pressão dos militares. O assessor ressaltou que o presidente Jair Bolsonaro poderia fazer um governo “alicerçado” em ativistas e intelectuais de direita, mas “preferiu” se cercar de “generais positivas”.

Em outra postagem, Grimaldo associou os ataques ao grupo de Olavo dentro do MEC a demissão do diplomata Paulo Roberto de Almeida do comando do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais. No carnaval, Almeida foi exonerado depois de divulgar textos críticos à política externa e ao próprio ministro Ernesto Araújo. O diplomata disse que Olavo estava por trás de sua demissão. O escritor, porém, negou.

Grimaldo escreveu em sua contas no Facebook que, durante a campanha de 2018, um certo “coronel” do MEC e eminência parda do ministro Vélez Rodríguez tentou emplacar Paulo Roberto de Almeida para o cargo de chanceler, mas a indicação, completou, ficou por conta de Olavo de Carvalho, que sugeriu Ernesto Araújo.

O coronel citado pelo assessor é Ricardo Wagner Roquetti, coronel-aviador da reserva da Aeronáutica que exerce cargo de diretor no MEC. “É no mínimo uma deliciosa coincidência que alguns dias depois do Paulo Roberto ser demitido do MRE e atribuído sua demissão ao Olavo, o coronel tenha organizado a desarticulação da influência do Olavo dentro do MEC”, escreveu Grimaldo. Se não fosse uma simples coincidência, seu chamaria retaliação.”

A Lava Jato da Educação, termo usado por Bolsonaro no Twitter, é um acordo para investigar indícios de corrupção especialmente nos contratos do Programa Universiade para Todos (ProUni) e no Programa de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec).

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O ponto cego dos militares brasileiros

“A riqueza é o grande objetivo. E a riqueza só pode ser obtida através de um notável desenvolvimento econômico, desenvolvimento esse que não pode ser atingido em isolamento. Os capitais e os produtos industriais ou agrícolas precisam preferências e nessas preferências há concorrentes”.

Editorial da Revista de Defesa Nacional, “Paz”, junho de 1919, p. 342
A história comparada das grandes potências capitalistas ensina que o crescimento do seu poder político e de sua influência mundial dependeu do grau de sucesso do seu desenvolvimento econômico. E o sucesso do seu desenvolvimento econômico dependeu – em grande medida – da capacidade de esses países responderem com eficiência aos desafios colocados por seus concorrentes e inimigos externos. Por isso, em todos os casos, a questão da “defesa” e de “preparação para a guerra” funcionou como uma bússola estratégica de suas economias vitoriosas. [1] Foi o que aconteceu, por exemplo, na relação entre Portugal e Espanha, nos séculos XV e XVI; entre Holanda e Inglaterra, no século XVII; entre França e Inglaterra, no século XVIII; entre Grã Bretanha, Rússia e Alemanha, no século XIX; entre EUA e URSS, no século XX; e agora de novo, entre EUA, China e Rússia, no século XXI. E o mesmo aconteceu na América do Sul, com a competição entre a Argentina e o Brasil, pela hegemonia da Bacia do Prata, entre 1870 e 1980. Nesse período, a Argentina se transformou no primeiro “milagre econômico” da América do Sul, entre 1870 e 1940; e, logo em seguida, o Brasil obteve o mesmo sucesso, entre 1930 e 1980, completando 100 anos de crescimento sequenciado e contínuo, dentro de um mesmo tabuleiro geopolítico.

A aceleração econômica da Argentina começou logo depois da Guerra do Paraguai e seguiu uma estratégia clara e bem determinada de aliança com a Inglaterra e de competição com o Brasil, pela supremacia do Cone Sul. No início do século XX, a Argentina estava muito à frente do Brasil e já havia se transformado na sexta ou sétima economia mais rica do mundo. Mas logo depois da “crise de 30”, a Argentina “entrou em pane” e sua sociedade nunca mais conseguiu se unir em torno de alguma estratégia de inserção dentro da nova ordem mundial liderada pelos EUA. Ao contrário da Argentina, o Estado e as Forças Armadas brasileiras entraram em colapso, e quase se desintegraram, depois da Guerra do Paraguai. E só vieram a se recuperar no século XX, seguindo uma estratégia igual e contrária de competição e superação da Argentina, que começou a ser desenhada na época de Rio Branco e Hermes da Fonseca, mas só se transformou na política oficial do Estado brasileiro depois de 1930.

Manteve-se a partir daí, de forma mais ou menos constante durante os 50 anos em que a economia brasileira cresceu a uma taxa média anual de 7% – crescimento responsável pela ultrapassagem da Argentina, já na década de 50, e pela transformação do Brasil na principal potência da América do Sul, já pelos anos 80.

Essa inversão de posições no tabuleiro do Prata foi uma obra complexa, envolvendo muitos grupos e forças políticas, mas não há dúvida de que os militares tiveram papel decisivo na formulação e execução desse projeto desenvolvimentista. Não é fácil separar as coisas, mas é perfeitamente possível analisar a participação dos militares de forma separada, para compreender seu papel no passado, mas sobretudo para entender melhor sua divisão e impotência atual, no momento em que iniciam sua sexta intervenção direta no processo político brasileiro, a contar do golpe militar de 24 de outubro de 1930.

As grandes linhas da estratégia seguida pelos militares brasileiros durante o século XX foram traçadas e sistematizadas na década de 30, por Mario Travassos e Góes Monteiro. [2] Desde então, suas ideias e objetivos fundamentais se mantiveram praticamente os mesmos, até a década de 1980, a despeito das mudanças que sofreu logo depois da II Guerra Mundial e durante a Guerra Fria, propostas por Lysias Rodrigues, Golbery do Couto e Silva, e pelo corpo de professores da Escola Superior de Guerra, criada em 1949 sob inspiração norte-americana. Em particular, depois da Revolução Cubana de 1959, quando a Doutrina de Segurança Nacional dos militares brasileiros redefiniu o velho conceito de “inimigo interno”, que foi perseguido de forma implacável pelos governos militares que se sucederam depois do golpe de 1964.

Depois da grande crise econômica internacional do início dos anos 70 e da mudança geopolítica que se seguiu à derrota americana na Guerra do Vietnã, foi o próprio Golbery do Couto e Silva – o mais americanista de todos esses estrategos – que ajudou a repensar e redefinir a nova estratégia internacional visando à criação de uma “potência intermediária”, que foi seguida pelo governo Geisel e boicotada pelos EUA durante os anos 70 e 80. Assim mesmo, deve-se reconhecer que os objetivos especificamente militares da estratégia seguida nestes 50 anos foram alcançados, em grande medida: com a ocupação e a integração de grande parte do território nacional; com a competição e superação da Argentina, no Cone Sul; com a conquista da hegemonia econômica dentro da América do Sul; com a obtenção de altas taxas médias de crescimento econômico; e com uma industrialização que deu acesso, aos militares, de alguns avanços tecnológicos indispensáveis à sua concepção de defesa nacional. E foi o compromisso com esses objetivos, exatamente, que obrigou os militares a se distanciar – recorrentemente – de seus aliados de primeira hora, os empresários e economistas liberais, assumindo a reponsabilidade direta pela criação das principais empresas estatais e estratégicas do país. De qualquer maneira, como já dissemos, este projeto foi interrompido e abandonado na década de 80, e os próprios militares brasileiros perderam seu protagonismo depois do fim da Guerra Fria.

Trinta e cinco anos depois da sua retirada de cena, os militares brasileiros estão de volta, em 2019, e parecem decididos a governar de novo. Mas se for o caso, terão que se enfrentar e responder aos novos desafios do Estado brasileiro: como é o caso da ocupação e integração plena demográfica, social, e econômica da Amazônia; como é o caso da defesa da costa brasileira e da bacia do Atlântico Sul, agora com a riqueza do pré-sal; como é o caso da indispensável expansão econômica do país na direção do Pacífico; como é o caso da construção de alianças e de pontes diplomáticas no “entorno estratégico” do Brasil, incluindo a costa ocidental da África, e como é caso, finalmente, da projeção internacional do país para fora do seu próprio continente e do chamado hemisfério ocidental. Tudo isto reconhecendo que o mundo está atravessando uma gigantesca transformação geopolítica e geoeconômica, em pleno curso nesta segunda década do século XXI.

Frente a este cenário e a este conjunto de desafios, soa absolutamente ridículo falar do “marxismo cultural” como se fosse um inimigo sério de alguma força armada que se respeite. E soa tão ou mais absurdo querer transformar a mudança de um governo da Venezuela num objetivo do governo e de suas forças armadas, uma coisa que o Brasil jamais fez e que pode transformar o país – depois de passada esta onda de extrema-direita – numa potência “sub-imperialista”, odiada pelos seus vizinhos menores e menos ricos, os mesmos que já se encontram neste momento sob a égide hegemônica e pacífica do Brasil.

Para piorar esse horizonte dos militares, a economia brasileira não cresce há cinco anos, o investimento segue caindo, a infraestrutura está aos pedaços, o desemprego em alta e as perspectivas internacionais cada vez mais pessimistas. Aqui não há como tapar o sol com a peneira: os novos dirigentes políticos e econômicos do país saíram da sarjeta do governo Temer, considerado, pela maioria dos brasileiros, como o pior governo da história republicana. Suas principais lideranças participaram diretamente do golpe de Estado de 2016 e compartilham as mesmas ideias econômicas liberais do governo Temer, que já vêm fracassando há quatro anos. E não há a menor possibilidade de que a tão falada “reforma da Previdência” possa alterar o rumo desses acontecimentos. Ela não foi concebida para reativar a atividade econômica, e por isso, mesmo que seja aprovada, não terá o menor impacto sobre o crescimento real da economia brasileira.

Por isso, concluindo, é possível afirmar, neste momento, que os militares brasileiros caíram ou se meteram numa armadilha, e estão colocados numa verdadeira “sinuca de bico”: ou se destroem como instituição e como poder, como já aconteceu no final do século XIX, só que, agora, por conta do fanatismo ideológico de seus economistas ultraliberais e do delírio belicista da ultradireita norte-americana; ou então procuram reencontrar o caminho do crescimento econômico acelerado e soberano, para poder cumprir suas funções institucionais e seus objetivos estratégicos. Mas para seguir esta segunda alternativa, teriam que fazer escolhas “heroicas”, a começar pela redefinição dos termos de sua aliança tradicional com os Estados Unidos, o verdadeiro “dono” do Hemisfério Ocidental. E talvez seja este, exatamente, o verdadeiro ponto cego dos militares brasileiros: sua impotência frente aos Estados Unidos.

José Luís Fiori Professor permanente de Economia Politica Internacional do PEPI/UFRJ,; coordenador do GP do CNPq “Poder Global e Geopolítica do capitalismo” e do Laboratório “Ética e poder global”, do Nubea/UFRJ. Pesquisador do Instituto e Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP). Publicou recentemente o livro “Sobre a Guerra”, Editora Vozes, Petrópolis, 2018.

Notas

[1] Fiori,J.L., “História, Estratégia e Desenvolvimento”, Editora Boitempo, São Paulo, 2014.

[2] Zortéa Vieira, R.Lembrai-vos da Guerra. Tese de doutoramento, PEPI/UFRJ, Rio de Janeiro, 2013 (mimeo).

No RS Urgente
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Ave, Zé de Abreu

José de Abreu é “aclamado” no aeroporto em sua chegada ao Brasil
No romance “Complô contra a América”, Philip Roth mistura personagens reais com outras, fictícias, para emoldurar uma obra literária chocante e absurdamente atual: o destino distópico dos Estados Unidos nas mãos de um presidente fascista eleito democraticamente, nos anos 1940.

Muito já se discutiu sobre a semelhança dessa obra do grande escritor americano, falecido em 2018, com a ascensão de Donald Trump, nos EUA. Mas foi a chegada de Jair Bolsonaro ao poder, no Brasil, que fez de “Complô” uma obra de clarividência.

Há uma clara semelhança ideológica do presidente eleito, no livro, o aviador Charles Lindbergh, com o Bozo. Lindbergh havia se tornado herói nacional por ter sido o primeiro homem a cruzar o oceano Atlântico em um monomotor, não obstante suas posições antissemitas e de ser simpatizante da Alemanha Nazista, antes de os EUA entrarem na Segunda Guerra Mundial, em 1941.

Com a fictícia vitória de Lindbergh sobre Frank Delano Roosevelt, os EUA iriam se declarar neutros, em favor de Hitler, e, internamente, incentivar a violência, perseguição e morte de judeus, imigrantes, negros e, claro, esquerdistas.

Agora, chego ao ponto e ao objetivo desse artigo. Há outra personagem real inserida na obra, justamente a que faz o ponto de inflexão na história: Walter Winchell, jornalista de esquerda que, no livro de Roth, coloca um caixote no chão e inicia uma cruzada pessoal, a partir de discursos solitários, em praças e ruas de Nova York, criando a narrativa que daria ao povo americano as armas morais para, enfim, se sublevar.

Walter Winchell tem, na obra de Philip Roth, o mesmo papel que o ator José de Abreu, agora, tem na tragédia brasileira encenada por um presidente igualmente fascista e cercado de dementes, como Lindbergh, em “Complô contra a América”.

As críticas que tenho lido à autoproclamação de Zé de Abreu, noves fora os retardados do bolsonarismo, estão eivadas de profundo rancor pessoal e inveja, justamente porque ele, sozinho, dentro de uma piada, conseguiu trazer mais esperança e energia de luta do que tudo que as esquerdas tentaram, até agora – aí incluída a campanha tristonha de Fernando Haddad, nas eleições de 2018.

Ao autoproclamar-se presidente da República, de forma extremamente generosa, Zé de Abreu fez o caminho contrário de Lindbergh, voou do Velho Mundo para a América para nos dizer: não desistam, estamos todos juntos. Veio sob o risco de ficar isolado profissionalmente, de sofrer violências físicas e verbais, de se submeter aos assassinatos de reputação diários perpetrados pelos nazistas que também Winchell teve que enfrentar.

Zé de Abreu, esse grande artista do Brasil, fez mais pela nossa luta contra o fascismo, até agora, que 100% das pessoas que, anestesiadas nas redes sociais, sentiram-se ofendidas pela coragem, graça e bom humor desse grande brasileiro.

Ave, Zé, os que vão lutar contigo lhe saúdam.

Leandro fortes
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Que estratégia político-terapêutica para um governo deliroide?


Não acho prudente, nem ético, usar a psicanálise para diagnosticar ou analisar pessoas fora do meu consultório, mas é totalmente possível ou aceitável utilizá-la para analisar conjunturas político-sociais. Mas, nem é preciso entender de psicologia para perceber que o Bolsonarismo tem um componente deliroide bastante forte. As tão faladas “Fake News” exemplificam muito bem o que eu chamo aqui de deliroide: verdades construídas a partir de fragmentos ou de indícios de realidade e tornadas verdades universais.

Eu trabalho no campo da saúde mental há mais de 20 anos, e se tem uma coisa que aprendi com esse trabalho é que o delírio não pode ser desmontado por uma simples confrontação com a realidade ou com racionalidade. Se o sujeito, em franco delírio, chega até você afirmando que tem um chip instalado na cabeça e através do qual se comunica com extraterrestres, não há absolutamente nada que se diga que mudará sua perspectiva de realidade. Nem que eu lhe mostre uma ressonância magnética do próprio crânio, ou que seja possível abrir sua cabeça para mostrar que não há nada lá, ele não se demoverá de sua verdade. Isso pelo simples fato de que aceitar desmontar tal delírio, seria desmontar a si próprio, já que, naquele momento, por uma fragilidade simbólica, o sujeito encontra-se totalmente assentado sobre aquela verdade. Se ela cair, ele cai junto. Freud dizia que os psicóticos amam o próprio delírio como a si mesmos. Resumindo, é isso.

Semana passada li um artigo do Javier Salas no El País, sobre o terraplanismo intitulado: “Você não pode convencer um terraplanista e isso deveria te preocupar”. Os terraplanistas, afirma Salas, simplesmente acreditam que a Terra é plana, e qualquer dado que possa prová-los do contrário é simplesmente ignorado ou considerado manipulação de conspiradores. Obviamente que não é possível dizer que todos os terraplanistas são psicóticos ou doentes mentais, mas certamente, podemos falar de um empobrecimento ou fragilidade simbólicas, o que favorece o discurso que chamei de deliroide, ainda que ele não seja rigorosamente delirante.

Voltamos ao Bolsonarismo, fortemente fundamentado num discurso deliroide, reforçado pela sua reprodução maciça nas redes sociais, especialmente no whatsapp. Se o clã Bolsonaro está se aproveitando do discurso deliroide ou se acredita mesmo nele, eu não saberia dizer. O fato é que ele tem sabido utilizá-lo muito bem, desde a campanha eleitoral, e também tem sido bastante competente em agregar a si personagens igualmente deliroides (nem é necessário citá-los um a um). Diante disso, não há debate político possível. Não há racionalidade que possa confrontar os argumentos do Bolsoplanismo. Então, o que fazer? Que estratégias utilizaremos?

O que posso dizer a partir do que estudei e pratiquei todos esses anos é que, se não é possível desmontar um delírio, é possível desconstruí-lo pouco a pouco, parte por parte. Fazer pequenos furos, abalar algumas verdades, duvidar, perguntar, são algumas das estratégias que utilizamos para ir minando a certeza do sujeito delirante, fazendo-o enxergar outras possibilidades. E é muito importante que ele encontre outras possibilidades, caso contrário, voltará para sua certeza delirante, que ao menos lhe assegura um lugar.

Comecei a escrever este texto, com a intensão de defender a estratégia do ator José de Abreu, ao criar seu personagem presidente. Obviamente que ele não partiu de nada disso que eu falei para se autodeclarar presidente, mas acredito que tenha pensado algo do tipo: “diante de tanto absurdo, o remédio só pode ser mais absurdo”, e suponho que ele tenha razão. Não há argumento racional que possa arredar o Bolsoplanismo do seu lugar. O debate, o noticiário, a justiça ou a ciência (números, estudos e estatísticas), não fazem o menor efeito. Portanto, é necessário provocar outros afetos nessas pessoas, afetos que possam ir descontruindo suas certezas. Obviamente que não estou me referindo ao clã Bolsonaro e sua trupe maluca, e haverá também um núcleo duro que irá defender o Bolsoplanismo até a morte, mas é possível reduzir bastante o contingente de militantes deliroides, até que fiquem relativamente inofensivos.

Voltando ao teatro do absurdo estrelado por José de Abreu – e é perfeito que isso esteja sendo feito por um ator - acredito que ele esteja colocando em prática uma coisa que fazemos nos nossos serviços de saúde mental e que funciona muito. Como usamos muitas práticas coletivas (grupos, oficinas e outras) os pacientes começam a ter que lidar com os delírios uns dos outros e, desse modo, começam a enxergar o seu próprio delírio. Ao duvidarem do delírio do outro, passam a duvidar do seu também. Ao rirem do delírio do outro, começam a rir do seu também. Ao se envergonharem do delírio do outro, começam a se envergonhar do seu também. E todos esses afetos, se não derrubam completamente os delírios, os deixam menos rígidos, emburrecedores e limitadores.

Tenho considerado que a performance de José de Abreu, já abraçada por vários outros políticos aliados, pode funcionar como uma grande oficina terapêutica a céu aberto. E ela tem ficado ainda melhor por contar com a participação do próprio Bolsonaro, que se dispõe a sair de sua posição de Presidente diplomado, para “bater boca” com um presidente fake. Apenas esse fato já nos dá a medida do tamanho do surreal que nos (des)governa, e do quanto a oficina do presidente fake está funcionando. Sugiro que ela não pare, e se amplie.

Por hora, o que podemos fazer para desbancar o Bolsonarismo e seu mito deliroide é isso mesmo: miná-lo. Para tal, precisaremos despertar o maior número de pessoas possível. Acho uma excelente estratégia fazer isso por meio do humor e do teatro do absurdo. O Brasil precisa enxergar sua própria loucura.

Contra um fake Presidente, nada melhor que um fake concorrente.

José de Abreu pra presidente do Brasil.

E já me ofereço para o Ministério do Alienista

Rita Almeida
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O mundo da deputada do Escola Sem Partido em SC

Ela
A deputada estadual do PSL-SC Ana Caroline Campagnolo tem 28 anos, 1m69, 64 kg.

Seu cabelo atual é fake. O verdadeiro é preto.

Ela se esforça para não parecer sexy. Óculos quadradões escondem o rosto.

As orelhas estão cobertas por delicados piercings de ouro.

Ana é aquela professora pró Escola Sem Partido, da linha ler a bíblia e mandar bala.

Ano passado ela causou no Brasil pedindo aos alunos para gravar professores com falas esquerdopatas.

Vapt ficou mais conhecida do que aquilo, vupt virou política pró-Bolsonaro.

No dia desta entrevista fazia 32 graus em Floripa.

Ela vestia uma jaquetinha sóbria, saia até o meio da canela, gargantilha branca e sapatilhas sem salto: para ser o figurino daquelas senhoras que distribuem santinhos de porta em porta só faltou a sombrinha.

Na lapela da jaquetinha estavam dois bottons.

Um de deputada, o outro declarando sua inclinação política de direita. No peito, para não deixar dúvida ao interlocutor.

O rosto mostrava uma pele fresca e sem muita maquiagem, exceto pelo batom vermelho.

Além da face se via só um tiquinho do peito, naquela abertura em V que mal chegava aos seios, protegidos por um crucifixo num cordão de ouro – é possível imaginar que seja um par muito farto.

As mãos são brancas e bem cuidadas, macias. Os dedos, longos. É um belo conjunto, que ela não parou nunca de mexer em três horas de conversa na tarde da quinta-feira 7.

Era mão no mouse, na caneta, no cabelo, fazendo um coque, cravando um lápis nele, anotando coisas, gesticulando para dar ordens nos parças de seu gabinete: fazia de tudo, menos juntar as mãos em descanso ou oração.

Além de hiperativa, se definiu como “sanguínea e colérica”. Este temperamento ela disse que herdou do pai, o sargento PM Job Campagnolo, gaúcho descendente de italianos.

No gabinete dela, na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, empoderada pelo mandato de quase 35 mil votos, exibe as imagens de seis santos, vários crucifixos e um enorme retrato de Jair Bolsonoro – os últimos com certeza a ajudaram na eleição.

Ela não fez os mais de 60 mil para eleição direta. Na matemática dos deputados estaduais, a soma de votos na legenda do PSL deu direito a seis membros, escolhidos entre os mais votados. Ana foi a quarta colocada do partido e assim conseguiu sua vaga na Assembleia Legislativa de SC.

Ali, nos primeiros dias de um mandato que ela não esperava receber, Ana Caroline ainda está extasiada com o brinquedo novo, atende todo mundo numa boa. Ela não controla direito o deslumbramento e a agitação porque são “forças da natureza” dentro dela.

No piccolo mondo do gabinete convive com seis parças.  São quatro rapazes e um advogado já idoso, além de Marcos Meurer, chefe de gabinete, 31, seu Rasputin – sabem aquele monge que dava dicas para a imperatriz da Rússia, lá atrás? Parecido.

A única mulher na assessoria é dona Rejane, uma ex-funcionária do ex-deputado Paulinho Bornhausen que se ajeitou no cargo depois de uma rápida negociação partidária, necessária porque só ela conhecia os bastidores do Legislativo.

Pasmem: a deputada Ana trouxe até um ex-namorado para gravitar por ali, ajudando na produção dos vídeos com que ela se comunica com o eleitorado nas redes.

Segundo ela, ele não está na folha de pagamento – os parças dizem que o ex trabalha no Procon, e se trabalha, no dia da entrevista não deu expediente por lá.

Devia estar de licença. É bom de palavras. Ele entrou numa conversa dela, enquanto Ana procurava uma coisa para dizer, lacrando: “Modernista”. Ela rebateu “é isso aí, meu ex sabe das coisas!”

Ele também é um bom parça: “Foram três anos de namoro, agora somos apenas amigos”, conta a deputada – exibindo a aliança de noivado com outro homem, o tenente da PM Tiago Galvan, que trabalha no setor de comunicação da corporação, no QG.

O repórter pergunta se ela pegou geral depois do casamento.

Ela reage na hora: “Tenho cara de peguete”? Significando um enérgico “não”.

O tenente Tiago é seu terceiro relacionamento, pra casar.

Ela conheceu o futuro marido num encontro político levada pelo seu Rasputin. Tiago deu match nela “nas ideias contra drogas, ideais políticos e para enfrentamento da bandidagem”.

Os bottons da deputada
Foto Renan Oliveira

Ana se dá bem com ex recente e até com o ex mais antigo, seu ex marido.

Ela exibe a foto de casamento, sem ele, e acrescenta “casei virgem”, aos 18 anos – o casar virgem é da essência do seu pensamento político conservador, que adiante conheceremos.

Ela não dá fotos do ex-ex porque o homem seria cioso de sua privacidade.

O segundo ex é o mais despojado dos três. Estava tão disponível no gabinete durante a entrevista que ela lhe pediu que fosse comprar um suco de abacaxi – Ana catou uma nota de 10 de uma bolsinha preta e o despachou na missão.

Quando o suco chegou, entrou em cena Marcos, parça mais que um chefe de gabinete: ele tomou o primeiro gole para saber se estava com açúcar ao gosto dela. Acrescentou um pouco e ela ficou satisfeita. Ana pegou o troco de 4 reais do ex e bebeu o suco.

Ela é boa em controlar dinheiro: contou que dos 16 aos 18 trabalhou numa fábrica como estoquista, economizando R$ 6 mil. Aí, deu de entrada num apê do Minha Casa Minha Vida. O imóvel hoje está alugado, mas agora, com o salário de deputada, pretende quitá-lo.

“Vai dizer que eu comprei com um plano da Dilma?”, pergunta, desafiadora. “Na época eu era bem bobinha, não sabia nada de política”, diz, como se estivesse arrependida de usar um programa do PT.

Ao falar em PT aproveita para despejar um caminhão de lixo em Dilma, “aquela masculinizada, que escolheu dois maridos podres, um bandido e um guerrilheiro” – aí exibindo seu lado colérico, não gosta nem do cabelo da ex presidente.

A rapaziada toda do gabinete se mexe bem no ritmo da chefa, entrando e saindo da sala para pequenos comunicados, mostrando-se como essencial, sempre mantendo um silêncio obsequioso durante a entrevista.

Ana Carolina nos interrompeu várias vezes para fotos com visitantes. Apareceu um pessoal que a convidou para a corrida de caminhões de Araranguá, no Sul do Estado.

Ela respondeu com um “eita porquera”, no estilo caminhoneiro, mas não parecia ter o perfil do evento. Presbiteriana e professora de História, meio que torce o nariz pro ronco de motores.

Também apareceu um deputado estadual da sua bancada, Flávio Estevão, se queixando do governador: “Eu pedi ao Moisés (Carlos Moisés da Silva, PSL) só um delegado novo na minha cidade, mas ele me disse que não vai tirar homem porque o ajudou na campanha”.

A deputada sanguínea apareceu: “É um absurdo ele fazer um favor pessoal ao delegado com os recursos do Estado, temos que ver esta situação”, exclamou. Mas o deputado não estava mais na vibe de derrubar o delegado, “eu vou deixar pra lá”.

Nas três horas da entrevista não surgiram mais demandas importantes para Ana Caroline, exceto pela visita do deputado federal Daniel Freitas. Esta seria só de cortesia.

Um assessor dele, cheio de rapapés, entregou-lhe o cartão e ofereceu: “Quando você for a Brasilia, mandaremos um carro oficial te buscar no aeroporto,  vamos fazer belos passeios pela capital” – quem sabe quando o federal vai precisar da estadual, né?

Aproveitando um momento de ócio ela faz uma reflexão:

“Sou chata, sabe? Não gosto de praia, nem de balada, nem de música”.

Se está num ambiente com muita gente, ela disse que se sente mal, prefere ficar em casa e ler – talvez ela sofra de agorafobia, um transtorno que algumas pessoas sentem em ambientes lotados.

O parça Marquinhos estava muito satisfeito com a entrevista e achou seu instante de protagonismo. Disse que era o responsável por filtrar os papos da deputada. Explicou que também fazia “a futurologia pra ela, desenhando cenários lá na frente”.

Ele contou que todas as participações da deputada na tribuna são de improviso. Nesta semana ele viu duas oportunidades para ela falar por 6 minutos cada vez. Uma sobre a controvérsia da Vai Vai, em Sampa, e outra que achei insignificante e esqueci de anotar, mas a deputada foi consultar na internet e viu 120 mil acessos, o que a deixou satisfeita.

Satisfeitíssima.

Quadro no gabinete da deputada
Foto Renan Oliveira

O mundo dela é o mesmo de Bolsonaro, em paralelo ao dos mortais comuns – raros contatos com a mídia tradicional, apenas seus comunicados nas redes.

Os acessos no Facebook dela são o sal da terra: “Vocês jornalistas e os historiadores querem que as coisas aconteçam de um jeito, foi isto que os derrotou nas eleições de 2018”, disse Marcos, vibrando com os acessos – o repórter não rebateu à provocação.

Marcos fala por Ana Caroline na frente dela: “Nossa pauta conservadora não é ideologia, é contra o pensamento revolucionário”.

Ele explica que uma revolução, e dá o exemplo da Francesa, “deixa tudo de pernas para o ar, sem falar as cabeças cortadas, é uma coisa violenta, contra a natureza humana”.

Ela balança a cabeça e só concorda.

Marcos conta ainda que escolheu Ana para ser deputada: “Precisei levá-la para jantar nhoque em Camboriú várias vezes, até convencê-la a aceitar” – a moça já entrou na política como vice-presidente do PSL municipal, no ano da eleição. Em 7 meses estava eleita.

“A Ana é a representação física das nossas ideias conservadoras”, diz Marcos.

O livro de Ana

Na entrada do gabinete de Ana há um quadro pintado pelo marido da assessora Rejane: figuras femininas seguram cabeças cortadas.

A capa do livro de Ana “Feminismo, perversão e subversão”, tem a cabeça de João Batista, também devidamente cortada, numa bandeja.

Procurei entender as mensagens, quando a deputada gentilmente me estendeu um exemplar do livro: “Minhas ideias estão aí”.

Agradeci – e vi depois que ele custaria R$ 58 numa livraria cristã online.

A obra é uma bofetada na cara das feministas e em tudo que a civilização ocidental acumulou nas últimas décadas no quesito feminismo.

“Existem duas formas de atacar e destruir a família. A primeira é dizer que os homens não prestam. A segunda é dizer que as mulheres não prestam. O cristianismo é a solução que desvenda o problema… Para compensar, (homens e mulheres) devem amar um ao outro e perdoar infinitamente”.

De cambulhada neste pensamente vem o ser cristã, virgem, buscar um casamento casto como Kaká – enquanto que ser feminista é “a formulação completa e satisfatória dos fins da revolução sexual”, conforme citação da americana Kate Miller.

Ana escreve que “o feminismo não é a medida de todas as coisas. Nenhuma mulher precisa estudar o feminismo como uma condenada apenas para poder lançar-se contra ele, basta ser mulher.”

A deputada catarinense ataca grandes nomes da literatura universal: “Só quem pode falar alguma coisa são aquelas chicas histéricas que balançam tetas desnudas e que boicotam o emprego de depiladora, ou aquelas solteironas de meia-idade… que acusam todo mundo de complô machista…Olhemos para as feministas: Gloria Steinem era amargurada por ter que cuidar de sua mãe doente, pegou nojo da maternidade, e dizia isto com orgulho”.

Ela continua, na página 368: “Virgínia Wolff se suicidou, depois de uma vida marcada por surtos e violências. Betty Friedan não suportava o marido e odiava cuidar dos filhos. Mary Wolffstonecraft, que escreveu que nenhuma mulher deveria depender do homem, tentou o suicídio duas vezes, porque o homem que ela amava a desprezou. Depois, propôs à esposa de um outro que elas dividissem o marido”.


Nossa campeã do conservadorismo pega pesado com um casal que foi ícone de gerações: “Simone de Beauvoir entrevistou seu companheiro Sartre (Jean Paul). Ele disse, na cara dela, que transava com outras mulheres ‘por qualquer motivo’, beleza ou mera simpatia. Já que ela se dizia tão maravilhosa e independente e ele já a possuía, podia escolher outras mulheres sem nenhum critério. Além de simpatizar com a pedofilia, ela mesma arrumava garotinhas para fazerem sexo com Sartre” – por pouco não compara um dos gênios da raça com o general paraguaio Stroessner, que por 30 anos manteve um harém de meninas.

Ana dá um exemplo com sua família “cristã, tradicional e natural…mãe dona de casa…não nos sentíamos oprimidas por nenhum homem de nossa convivência…”

Ela acha que chegou ao cerne do problema (ser uma feminista de carteirinha) “vasculhando os livros das próprias feministas. Me dei conta que o teste de iniciação ao movimento era a adesão à revolução sexual”.

Na página 170, a deputada se choca com o abismo entre a vida privada e a lenda pública de um casal famoso. Cita Sartre numa carta para Simone de Beauvoir em 1934, que muita gente pode dizer que é atual e que serve para alguns: “Família é mesmo um monte de merda”.

Ela joga veneno sobre o feminismo nas 380 páginas, depois de ter lido 133 autores, citados no apêndice — sugiro dispensar o prefácio de Bernardo Kuster, jornalista não por acaso paranaense, que defende a tese de que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil está coalhada de comunistas.

Melhor e mais leve era o humorista Millôr Fernandes (que já se foi deste mundo), citado na abertura anti feminista  com uma boa tirada: “As mulheres andam tão reivindicativas que no próximo naufrágio alguém vai gritar ‘mulheres por último’ “.

Renan Antunes de Oliveira
No DCM
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Flávio Bolsonaro vai a Cancún. E o Queiroz?

O Jornal do Brasil informa que “o filho primogênito do presidente Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, esticou o feriado de carnaval em Cancún, no México. Desde segunda-feira, 4, ele e a família estão hospedados no Grand Hotel Riviera Princess, na praia de Carmen. O hotel, de luxo, oferece diárias a partir de R$ 1 mil. Senador de primeiro mandato, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) não terá descontos no salário de parlamentar pelos dias em que esteve longe do Senado, porque não houve sessões após o período de carnaval”.

Pelo jeito, o “pimpolho” do presidente-capetão não está muito preocupado com o destino do seu ex-assessor Fabrício Queiroz, que sumiu do noticiário após a misteriosa internação no caríssimo Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Talvez somente Sergio Moro, que foi promovido de justiceiro para superministro no laranjal de Jair Bolsonaro, saiba o paradeiro do ex-policial militar ligado às milícias. A última e bem discreta aparição de Fabrício Queiroz foi para prestar depoimento ao Ministério Público do Rio de Janeiro.

Na ocasião, para surpresa até dos magistrados amigos de Sergio Moro, ele apresentou uma nova versão para as suas “movimentações financeiras atípicas” – segundo a carinhosa descrição da mídia – na assessoria do ex-deputado estadual e atual senador Flávio Bolsonaro. Fabrício Queiroz afirmou, na maior caradura, que fazia o “gerenciamento financeiro” dos valores recebidos pelos demais servidores do gabinete. Vale relembrar que o tal “gerenciamento” movimentou R$ 1,2 milhão em conta bancária entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.

Neste sábado (9), o jornal Estadão – que foi o primeiro a denunciar o esquemão do “pimpolho” do presidente – voltou à carga sobre o tema. Em editorial duríssimo, intitulado “O filho não sabia de nada”, o diário afirma que o clã Bolsonaro faz de tudo para desviar a atenção sobre o escândalo. Vale conferir a íntegra do petardo:

* * *

Após não atender a quatro convites para prestar depoimento – o que é um direito do investigado –, Fabrício Queiroz apresentou defesa técnica ao Ministério Público Estadual (MPE).

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) detectou movimentações financeiras "atípicas" nas contas do ex-funcionário do gabinete de Flávio Bolsonaro (PSL) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Para explicar o dinheiro movimentado em seu nome em 2016 e 2017, Queiroz alegou que recolhia os salários dos colegas e os distribuía a um número maior de assessores, para ampliar a rede de colaboradores do filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro.

O MPE suspeita que Queiroz recolheu o salário de outros funcionários do gabinete para si próprio ou para entregar a Flávio Bolsonaro, hoje senador pelo Estado do Rio de Janeiro.

O ex-assessor negou peremptoriamente essa prática.

"Fabrício Queiroz não praticou qualquer ilícito penal, uma vez que não houve desvio de finalidade dos recursos do gabinete do deputado", disse a defesa.

Ele fazia tão somente o "gerenciamento externo dos assessores" do gabinete.

A defesa de Fabrício Queiroz admitiu, portanto, um esquema informal que contraria a própria natureza do salário, que é remuneração personalíssima.

Não é da competência de assessor remanejar destino de salário dos outros funcionários do gabinete.

Em nota, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro informou que, para atingir a finalidade alegada – ampliar a rede de colaboradores de um parlamentar –, existe desde 2011 um procedimento específico.

Até janeiro, era possível destinar a verba referente a funcionários de gabinete a até 63 servidores, com a devida nomeação no Diário Oficial e o recebimento de benefícios trabalhistas.

Atualmente, o desmembramento da verba pode ser feito a até 40 pessoas.

É grave o que a defesa de Queiroz afirmou: no gabinete de Flávio Bolsonaro, não se seguia o procedimento previsto pela Assembleia. Parte dos salários dos funcionários era distribuída a uma rede informal de colaboradores.

A primeira condição para o uso adequado dos recursos públicos é que a contabilidade oficial reflita a realidade.

Como reconheceu a defesa de Fabrício Queiroz, isso não ocorreu.

O que oficialmente era salário de alguns ia para o bolso de outros, por intermédio do ex-assessor.

O mais surpreendente nessa história é que, segundo Queiroz, o filho mais velho do presidente da República não sabia dessas contratações informais que ocorriam em seu gabinete.

O ex-assessor "nunca reputou necessário expor a arquitetura interna do mecanismo que criou ao próprio deputado e ao chefe de gabinete", segundo a defesa.

Dentro do gabinete de Flávio Bolsonaro havia um esquema de remanejamento de salários para ampliar sua rede de colaboradores, mas ele não sabia de nada.

Era Queiroz quem tomava conta de tudo, sem a ciência do deputado e do chefe de gabinete.

A alegada atuação independente contraria, obviamente, as normas parlamentares.

Os deputados são responsáveis por fixar horários de trabalho, fiscalizar frequência e atestar as folhas de ponto.

Não é matéria delegável a terceiros. São recursos públicos investidos na atividade parlamentar e não pode ser um assessor quem responda pelo seu uso. O responsável é o próprio parlamentar.

A história da movimentação financeira contada por Fabrício Queiroz contraria não apenas as regras da Assembleia do Rio.

Ela contradiz o discurso da família Bolsonaro – do presidente e de seus três filhos – a respeito da moralização da política.

No discurso de posse, Jair Bolsonaro prometeu livrar o País do jugo da corrupção. Apresentado como uma das prioridades do governo, o pacote de medidas de endurecimento da legislação penal propõe a criminalização do caixa 2 eleitoral, que é precisamente a prática de a contabilidade oficial não expressar o que de fato ocorreu.

No entanto, apesar de todas essas juras de uma nova moralidade pública, o caso de Queiroz assemelha-se cada vez mais às práticas da velha política. Assim, não surpreende que os Bolsonaros façam de tudo – rigorosamente de tudo – nas redes sociais para desviar a atenção para outros assuntos.


* * *

Em tempo: Sobre o uso das redes sociais para desviar o foco, vale citar recente postagem do vereador Carlos Bolsonaro – apelidado de pitbull pelo pai-capetão e chamado carinhosamente de Carluxo pelos mais íntimos. Logo após a consagradora vitória da Mangueira, ele vomitou no Twitter: “Dizem que a Mangueira, escola de samba campeã do carnaval e que homenageou Marielle, tem o presidente preso, envolvimento com tráfico, bicheiros e milícias. Esse país está de cabeça pra baixo mesmo”. Típica manobra diversionista para abafar o carnaval que teve como marcas a cor laranja – numa crítica ácida ao partido da sua famiglia, o PSL (Partido Só de Laranjas) – e o refrão “ei, Bolsonaro, vai tomar no c*”.

Das belas praias de Cancún, Flávio Bolsonaro nem deve ter gostado da postagem do irmãozinho Carluxo. Ele não quer ouvir falar em milícias. Recentemente a Receita Federal anunciou nova fase da cooperação com o MP do Rio de Janeiro para investigar os envolvidos na Operação Os Intocáveis, que foca a atuação de milícias no Estado. Entre os alvos está o ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como líder de um grupo criminoso Escritório do Crime – que atuava na grilagem de terras, na compra e venda irregular de imóveis, na cobrança de taxas da população e na receptação de mercadoria roubada, entre outros crimes. A mãe e a mulher do miliciano eram funcionárias do gabinete do ex-deputado Flávio Bolsonaro.

Altamiro Borges
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Colombiano da Educação rouba imagem da “pátria mexicana”, diz jornal do México


O ministro Vélez Rodriguez, da Educação, que já chamou os brasileiros de ladrões, faz o Brasil passar mais um vexame internacional. A imagem usada por equipe na campanha para que se cante o hino nas escolas é plágio de um artista mexicano comunista chamado Jesus Helquera. 

Com o objetivo de promover uma campanha para crianças brasileiras aprenderem seu hino nacional, usou uma ilustração criada originalmente pelo falecido artista mexicano Jesús Helguera 1910-1971.


Na ilustração feita no México, aparece uma mulher com a bandeira mexicana e o país da América do Sul só mudou as cores de sua bandeira.


A denúncia é de Bia em seu twitter:

“Sabe a ilustração que a galera do “HINO SIM” nas escolas estavam compartilhando esses dias? 

Então, é plágio de uma obra de Jesus Helguera, artista comunista que retratou nela a Revolução Mexicana.

...e a pergunta também: 

- Essa gente não cansa de passar vergonha?”

XAPURI - Um twitter da brasileira bia @pseudoruiva denunciando o plágio do MEC da obra do artista mexicano Jesús Helguera (1910-1971) repercutiu nas redes sociais brasileiras e ganhou os principais meios de comunicação do México.  Abaixo, reprodução de duas matérias publicadas no México, em Espanhol.

Dá pra ler e entender: 

Ministerio de Educación de Brasil se “roba” imagen de la patria mexicana
https://heraldodemexico.com.mx/tendencias/ministerio-de-educacion-de-brasil-se-roba-imagen-de-la-patria-mexicana/ El plagio fue revelado a través de Twitter el pasado primero de marzo por una usuaria de ese país.

El Ministerio de Educación de Brasil realizó un plagio de una imagen que hace alusión a la patria mexicana a través de una mujer y que el autor es un dibujante mexicano. Y es que con el objetivo de promover una campaña para que los niños de Brasil aprendan su himno nacional, utilizaron una ilustración que fue creada originalmente por el extinto dibujante mexicano Jesús de la Helguera 1910-1971.

En la ilustración hecha en México aparece una mujer con la bandera mexicana y el país de Sudamérica sólo cambio los colores de su bandera. El supuesto plagio fue revelado a través de Twitter el pasado primero de marzo por una usuaria de ese país.

Fuertes críticas se registraron a través de redes sociales en contra de ese país.
Típico que quieres promover el nacionalismo en Brasil, pero te robas una imagen de México - Fonte: http://eldeforma.com/2019/03/07/tipico-que-quieres-promover-el-nacionalismo-en-brasil-pero-te-robas-una-imagen-de-mexico/

¿Alguien quiere pensar en los niños?

País Tropical.- Mientras en México triunfó el glorioso régimen chairo, allá en el gigante país de Sudamérica y tierra de Ronaldinho, Brasil, la extrema derecha ha tomado el mando y las consecuencias ya comienzan a verse desde que Jair Bolsonaro llegó al poder.

Una de estas consecuencias es que el Ministerio de Educación de Brasil (o sea, la SEP de allá), pidió a todos sus estudiantes de primaria que se grabaran cantando el Himno Nacional brasileño y que luego dijeran la frase: “Brasil encima de todo, Dios encima de todos”, la cual era el eslogan de campaña de Bolsonaro.

Obviamente muchos padres de familia estuvieron en desacuerdo de la medida, pues es ilegal grabar a los niños sin el consentimiento de sus progenitores;además, qué terror debe ser decir el lema de campaña del presidente. 

Es como si en México los derechairos tuvieran que grabarse cantando el Himno Nacional y diciendo: “me canso ganso”.

Sin embargo, otros simpatizantes de Bolsonaro aceptaron la orden de su supremo líder y ahora son llamado los del “Hino Sim”, “Sí al Himno”. Tan de acuerdo estuvieron que llegaron a compartir esta patriótica y bella imagen con la bandera de Brasil.

Sólo que la imagen es un plagio vil y descarado de una pintura del artista mexicano Jesús Helguera (1910-1971), en cuya obra intenta rescatar los valores de México y las imágenes que caracterizan a nuestro bello país.

No Frasista Neófito
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MPF denuncia postagens homofóbicas e pede indenização por dano moral coletivo

As ações civis ajuizadas requerem a condenação dos réus ao pagamento de indenização por
dano moral coletivo, no valor de R$ 20 mil, a serem revertidos ao Fundo Federal de Direitos
Difusos e Coletivos
Foto: Guilherme Santos/Sul21
O Ministério Público Federal, por meio da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC), ingressou com duas ações civis públicas em razão de manifestações injuriosas e discriminatórias contra homossexuais, veiculadas no canal Youtube e na rede social Facebook. Os internautas Altair Francisco Genésio e Gustavo Canuto Bezerra fizeram postagens dizendo que as minorias devem voltar “aos guetos que é o seu lugar” e que “homossexualismo é possessão demoníaca”.

Os fatos foram investigados em dois inquéritos civis, instaurados a partir de representação de usuários da rede Facebook e de procedimento encaminhado pelo Ministério Público do Mato Grosso do Sul. Segundo consta em uma das ações civil pública (5010720-05.2019.4.02.5101), Bezerra utilizou seu perfil na rede social para postar o seguinte conteúdo, verificado através das capturas de tela: “Todo homossexual é promíscuo. Não tenho amigos assim. Não quero perto dos meus filhos e da minha família. Graças a Deus que a lei da homofobia será revogada pelo novo presidente. Essa minoria voltará aos guetos que é o seu lugar. Os locais públicos terão uma faixa bem visível dizendo: AMBIENTE HETERONORMATIVO. Voltaremos a poder não aceitar esses anormais em nossos estabelecimentos.”

Por sua vez, a outra ação civil (5011380-96.2019.4.02.5101) é referente a um vídeo gravado por Altair Francisco Genésio e compartilhado nas redes sociais, no qual ele discorre sobre sentença da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos da Comarca de Campo Grande/MS, que havia condenado o jornalista Roberto Flávio Cavalcante ao pagamento de danos morais coletivos, devido à divulgação de discurso homofóbico na rede mundial de computadores.

Em vídeo publicado no canal Youtube, Genésio disse: “como é que uma raça dessa ainda se sente ofendida? Eles são a própria ofensa em pessoa! Vocês, quando saem na rua, vocês enojam a sociedade. Vocês ficam se lambendo pela rua, a coisa mais nojenta, a coisa mais abominável… Vocês são a aberração! Vocês são a desgraça da espécie humana, se é que podemos chamar vocês de ser humano. […] Tem que pegar uma AIDS, já que vocês são hospedeiros de doença. Tem que pegar uma AIDS e morrer, miserável. Baixar no inferno.”

Ainda segundo a ação, Genésio afirmou no vídeo: “A gente morre, a gente não nega nossos princípios e valores, que são a Causa de Jesus Cristo. Homossexualismo é possessão demoníaca, o final é o inferno […] Processa a Geração Jesus Cristo, que a gente pega seu processo e joga no lixo. Vem na porta da nossa igreja pra você ver. […] Faz o que você quiser que a gente tá cuspindo na Constituição. A gente tá cuspindo na lei dos homens […] Nós seguimos é a Bíblia, que é lei de Deus. Fica aqui a minha indignação, seu bando de desgraçados, miseráveis”.

Para os procuradores regionais dos direitos do cidadão Ana Padilha Luciano de Oliveira, Sergio Gardenghi Suiama e Renato Machado, que assinam as ações, “as manifestações dos demandados não restringiram-se ao exercício do direito de crítica, revestindo-se de inequívoco caráter ofensivo à honra e à dignidade de milhões de cidadãos brasileiros. Não pode, assim, ser a liberdade de expressão ser invocada para exonerar os réus da sua responsabilidade civil pelo dano moral coletivo causado, nos exatos termos do que dispõe o inciso X do art. 5o da Constituição”.

As ações civis ajuizadas requerem a condenação dos réus ao pagamento de indenização por dano moral coletivo, no valor de R$ 20 mil, a serem revertidos ao Fundo Federal de Direitos Difusos e Coletivos. O MPF pede ainda que sejam veiculadas mensagens de retratação, feitas pessoalmente pelos demandados.

No Sul21
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Lula recusou imposições da PF para ver o neto


O superintendente do Departamento de Polícia Federal no Paraná, delegado Luciano Flores, tinha consciência de que após a decisão capciosa do ministro Dias Toffoli, em 31 de janeiro passado, autorizando – ainda que com atraso e limitações – a ida de Luiz Inácio Lula da Silva ao velório e enterro do seu irmão, Genival Inácio da Silva, o Vavá, não haveria como impedir o hoje preso político de comparecer à despedida de seu neto, Arthur Araújo Lula da Silva, de 7 anos, falecido dia 1 de março. Ainda assim, ele bem que tentou criar maiores limitações à participação do ex-presidente na cerimônia. Esbarrou na decisão do próprio Lula em não ceder.

No início da tarde daquela sexta-feira, já com Lula bastante abatido pela notícia da morte do menino por conta de uma meningite, Flores reuniu-se com o preso, seu advogado em Curitiba, Manoel Caetano, e a presidente do Partido dos Trabalhadores, deputada Gleise Hoffmann.

Sabia ser inevitável a ida do preso a São Bernardo, muito embora o pedido de autorização para a viagem, àquela altura já protocolado, dependesse de um despacho judicial. Afinal, Toffoli, em janeiro, foi claro ao afastar as dificuldades enumeradas pelas autoridades da “República de Curitiba” – entre as quais o próprio Flores, autor dos empecilhos listados à época – para impedir a viagem do preso para o velório do irmão.

O delegado Luciano Flores, que conduziu Lula coercitivamente em 2016,
tentou impor condições para a saída do preso, que Lula não aceitou
Foto: reprodução de TV
No despacho, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) definiu que “eventuais intercorrências apontadas no relatório policial, a meu ver, não devem obstar o cumprimento de um direito assegurado àqueles que estão submetidos a regime de cumprimento de pena, ainda que de forma parcial“.

O direito antes negado, desta vez teria que ser acatado. Isso, porém, não impediu o o superintendente do DPF no Paraná de tentar restringir a participação daquele que hoje é considerado um “troféu político” da Força Tarefa da Lava Jato em Curitiba, na cerimônia de despedida do neto.

Esbarrou no posicionamento do próprio preso. Este, ainda que abatido emocionalmente, se recusou a acatar algumas das “imposições” pretendidas pelo delegado.

Inicialmente, respaldado na esdrúxula autorização de Toffoli em janeiro – de que o caixão com o morto, àquela altura já enterrado, fosse levado ao preso em uma unidade militar, tal como noticiamos em Dano irreparável a Lula confirma sua prisão política, Flores quis evitar a ida de Lula ao  Cemitério Jardim da Colina, em São Bernardo do Campo (SP).

Sugeriu que o caixão com o neto fosse levado até o ex-presidente, provavelmente em alguma unidade militar. Lula, ao final, sequer passou perto de um quartel. Do aeroporto de Congonhas foi de helicóptero para o pátio da fábrica da Volkswagen de onde, de carro, rumou para o cemitério.

Procuradores da República queriam que o caixão com o neto fosse até o preso,
o que Lula rejeitaram antes ao delegado.
Reprodução do site Viomundo
Diante da recusa de Lula em deixar Curitiba com aquela condição, Flores não mais insistiu na ideia. Ela voltaria a aparecer, horas mais tarde, na manifestação dos procuradores da República. Foi o que revelou a advogada Tânia Mandarino, do Coletivo de Advogadas e Advogados pela Democracia, na postagem Dallagnol e sua turma do MPF queriam que Lula velasse o neto num quartel, no site Viomundo.

Flores propôs então a ida do preso ao velório na noite daquela sexta-feira ou na madrugada do sábado. Algo meio que escondido, talvez para evitar uma maior aproximação do “troféu político da Lava Jato” com o público. Provavelmente para manter isolamento que tentam impor ao ex-presidente.

Ainda pela proposta do superintendente, Lula permaneceria no cemitério por apenas uma hora. Imposição que não constava da decisão de Toffoli em janeiro, mas foi levantada pelo delegado no dia 1º de março.

Mais uma vez esbarrou na altivez de Lula que deixou claro ser fundamental estar presente à cerimônia de despedida do neto no crematório. Não queria apenas ir ao velório. Falou do desejo de ir “amanhã de manhã” (ou seja, no sábado, dia da cremação), para estar com a família “próximo ao horário da cerimônia de cremação”. Defendeu ainda a “necessidade de permanecer no local por mais de 1h e 30 min.”, conforme o Blog levantou.

Na realidade, como ficou comprovado, não houve justificativa para delimitarem o prazo de permanência de Lula no velório.

Conforme narramos em Lula e a face perversa da “República de Curitiba”, por conta do atraso das orações realizadas por um padre e dois pastores, a permanência do ex-presidente na cerimônia acabou sendo de aproximadamente 1h e 50 min..

Um “estouro” no tempo que pode ser considerado normal e que não causou maiores dificuldades. Nem por isso, deixou de incomodar os dois delegados federais de São Paulo que coordenavam a verdadeira operação bélica montada no cemitério na manhã daquele sábado, como se o ex-presidente fosse marginal perigoso e ameaçador à sociedade.

Ficou patente para alguns dos presentes no ato religioso no crematório a impaciência dos delegados que a todo momento falavam pelos seus rádios e lembravam a dirigentes petistas que o “prazo determinado” tinha estourado.


A limitação de horário não constava da decisão da juíza Carolina Lebbos, assinada às 19:14:58 horas. Ela apareceu apenas no relato feito pelo delegado Flores ao juízo sobre a conversa com o ex-presidente Lula. Em tal transcrição, o tempo mínimo que Lula teria proposto – “por mais de uma hora e meia” –, após o delegado falar em ficar apenas uma hora, acabou virando tempo limite. Tal como se lê no despacho da juíza ao reproduzir o relato do delegado sobre a conversa:

Em contato pessoal feito há poucos instantes, por este subscritor e o ex-Presidente Lula, na presença de seu advogado, Dr. Manoel Caetano, foi solicitado que o deslocamento fosse autorizado para ocorrer amanhã de manhã, em horário que permita ele estar presente na capela daquele Cemitério, junto a sua família e de seu neto falecido, próximo do horário da cerimônia de cremação, não havendo necessidade de permanecer no local por mais de 1h e 30 min. Foi dito ainda, tanto pelo Ex-Presidente Lula, quanto por seu advogado Manoel Caetano, quando pela Deputada Gleise Hoffmann, que compareceu na presente data nesta Superintendência, que se comprometem a não divulgar qualquer deslocamento, se autorizado, bem como de não convocar manifestantes ou militantes para o Cemitério, da mesma forma se comprometendo a zelar pela discrição durante o período em que o ex-Presidente esteja em deslocamento ou naquele Cemitério, a fim de evitar manifestações ou qualquer dificuldade para o deslocamento”. (grifo nosso)

Na mesma informação prestada pelo delegado ao juízo, não consta a limitação de horário. As condições por ele impostas – todas devidamente atendidas – foram, como transcreve a juíza na decisão:

Diante deste novo cenário:

i) – enquanto estiver sendo mantida a discrição da condução pleiteada e o ambiente de tranquilidade entre o Aeroporto de Congonhas em São Paulo e o Cemitério Colinas, em São Bernardo do Campo/SP;

ii) -ser possível haver controle de acesso à Capela onde está havendo a cerimônia fúnebre e bem assim puder ser mantida livre uma rota de retirada de emergência do ex-Presidente e dos policiais que estiverem fazendo sua escolta, para o caso de necessidade, tais como em caso de manifestações ou de aglomeração de pessoas que possam causar risco de morte alguém;

Esta Superintendência da PF no PR manifesta-se pela possibilidade de atendimento ao pedido, desde que mantida as demais restrições consignadas na decisão do Exmo. Ministro Dias Toffoli, do E. Supremo Tribunal Federal, de 29/01/2019, nos autos da Reclamação nº 31.965/PR:

iii) – presença de um advogado constituído; e

iv) – vedado o uso de celulares e outros meios de comunicação externo, bem como a presença de imprensa e a realização de declarações públicas”.

Não houve, portanto, justificativa para limitarem a presença de Lula ao período de 1h30min. Foi uma decisão do delegado Flores, o mesmo que, como narramos na reportagem acima já citada – Lula e a face perversa da “República de Curitiba” -, há exatos três anos, em 4 de março de 2016, a partir de uma decisão arbitrária e ilegal do então juiz Sérgio Moro – o hoje ministro da Justiça – invadiu a casa de Lula para realizar busca e apreensão e o conduziu coercitivamente para depor na delegacia do aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Na mesma manhã, a casa de Sandro (filho de Lula) e Marlene, pais de Arthur, também foi invadida e o iPad do neto do ex-presidente acabou apreendido.

Esta limitação de horário, não prevista na decisão, acabou fazendo com que Lulas, ao chegar cedo ao aeroporto de Congonhas, tenha preferido ficar com os dois policiais federais de Curitiba que o escoltavam em um hangar. Fizeram hora para chegar ao cemitério no espaço de tempo necessário para que pudesse assistir à despedida do neto na cerimônia ocorrida no crematório, só iniciada ao meio dia.

Uma espera que consumiu mais de uma hora, tempo que poderia desfrutar junto à família, consolando os seus e sendo consolado por eles por conta da perda do neto. Preocupação humanitária que, pelo que se leu nas decisões, sequer foi aventada pelas ditas autoridades da República de Curitiba.

Marcelo Auler
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New York Times mostra fake news do governo dos EUA sobre incêndio em caminhão de ajuda humanitária na Venezuela - assista


O New York Times fez o que a imprensa brasileira não faz quando se trata, entre outras coisas, da Venezuela.

Um vídeo mostra que um dos casos mais explorados pela mídia, o do ataque a caminhões com ajuda humanitária, não era o que parecia.

O governo americano — e, na sequencia, seu anão bolsonarista — afirmou que os coqueteis molotov partiram da polícia de Maduro.

Essa versão foi comprada pelo valor de face. Não batia com os fatos.

Fake news.

Mas, como gosta Guga Chacra, da GloboNews, mais importante que jornalismo é chamar Maduro de “cleptocrata, incompetente e palhaço”.


Kiko Nogueira
No DCM
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Com fundação, Lava Jato caiu na armadilha da onipotência


A tentativa de criação da fundação de direito privado é um capítulo decisivo na história da Lava Jato. Desnuda definitivamente o deslumbramento pelo poder, e de seus integrantes.

Trata-se de processo similar, em muitos aspectos, ao fenômeno do Plano Real. Cria-se um tema nacional único – na época, o combate à inflação, agora, o combate à corrupção –, o movimento exige super-heróis. A construção da imagem exige o herói sem mácula, despido dos sentimentos comuns aos mortais, como ambição financeira, gana pelo poder. À medida em que vão escalando novos patamares de prestígio ou financeiro, os freios naturais – escrúpulos, princípios – vão se flexibilizando.

Lá atrás, em um dos Xadrez, tentei especular o que aconteceria com os lavajateiros quando a curva de prestígio da empreitada começasse a cair. A resposta é essa tentativa canhestra de criação da fundação de direito privado para administrar R$ 2,5 bilhões de multas da Petrobras.

O Real arrebentou com as contas públicas, deu início ao processo de desindustrialização, promover a maior transferência de renda da história, na forma de uma enorme dívida interna sem contrapartida de ativos.

A Lava Jato promoveu a quebra da engenharia nacional, gerou milhões de desempregados, com apoio de uma mídia incapaz de blindar a economia contra a guerra ideológica movida pela operação. A destruição das empresas brasileiras era essencial para a vitória ideológica? Evidente que não. Mas o jogo ideológico exigia a construção da imagem dos novos atores políticos. E não se poderia comprometer a narrativa ficcional apontando os abusos cometidos. Esse superpoder foi entregue a um grupo de agentes públicos provincianos, deslumbrados e financeiramente ambiciosos.

No início entraram de cabeça no mercado de palestras. O cachê cobrado por uma palestra superava em muito os proventos de um mês de trabalho. No caso da Lava Jato, o temor infundido em toda classe empresarial trazia um atrativo a mais para a contratação: compra de proteção já que os superpoderes do grupo eram exercidos sem nenhum discernimento.

Deram um by-pass nos regulamentos internos que proíbem outras fontes de renda, com exceção de aulas. Palestras milionárias recorrentes passaram a ser tratadas, então, como aulas convencionais. E quem iria questionar os grandes campeões brancos?

Com a fundação, rasga-se a fantasia. Há inúmeras maneiras de reverter os recursos das multas para o benefício público. A Constituição prevê uma série de fundos, geridos por conselhos de direitos de minorias, para receber esses recursos, com Fundo dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes, Fundos Nacional dos Direitos Difusos Lesados, fundos de assistência social, de saúde, de educação, com estrutura pronta de deliberação e de prestação de contas.

A Lava Jato tenta criar uma fundação para estimular, entre outras bandeiras, a disseminação do compliance. Um pouco antes, dois dos principais personagens da Lava Jato anunciam sua aposentadoria: o juiz Sérgio Moro para assumir cargo no governo, o principal procurador da Lava Jato, Carlos Fernando dos Santos Lima (ó, surpresa!) para se dedicar ao mercado de compliance.

Não apenas isso. No Twitter, Deltan Dallagnol tentou tratar as denúncias contra a fundação como fakenews.
  1. A Lava Jato escolherá todas as organizações que virão a fazer parte da tal fundação.
  2. Caberá ao próprio Ministério Público do Paraná a fiscalização da fundação.
  3. A fundação poderá contratar projetos de amigos, palestras de amigos, consultorias de amigos e de amigos dos conselheiros, dentro do objetivo estatutário de combater a corrupção e estimular os trabalhos de compliance. E sempre haverá a notória especialização, já que se consideram os maiores especialistas em corrupção corporativa. E quem são os demais especialistas? Justamente as ONGs que serão convidadas a integrar seu conselho consultivo.
Hoje, no Twitter, o procurador da República Wilson Rocha rompeu o pacto de silêncio da corporação e extravasou a indignação interna com os abusos da Lava Jato:

“O procurador @deltanmd afirma que a fundação será gerida pela sociedade. Ao confundir o Estado e suas instituições com a sociedade, os procuradores da “República da Lava Jato” flertam conceitualmente com o fascismo. Poucos se dão conta disso.

“A “Lava Jato” não faz acordo porque a “Lava Jato” não existe, não está na Constituição, em lei ou em ato normativo. O que existe é o Ministério Público Federal, instituição que não se confunde com a Lava Jato. Esse acordo e a fundação dele decorrente são um absurdo jurídico”.

Luís Nassif
No GGN
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