7 de mar. de 2019

Gilmar, o ‘senhor dos escravos’, tenta salvar a pele depois do MPF pedir sua suspeição; leia documento


Indicado por Fernando Henrique Cardoso para ocupar vaga no Supremo Tribunal Federal em 2002, Gilmar Mendes nunca deixou aliados caídos na estrada.

Em maio daquele ano, o jurista Dalmo de Abreu Dallari escreveu um artigo intitulado Degradação do Judiciário, na Folha de S. Paulo.

Era ano eleitoral. Dallari antevia uma operação para evitar futuras investigações sobre os dois mandatos de FHC — no final daquele ano, Lula seria eleito presidente derrotando José Serra:

Segundo vem sendo divulgado por vários órgãos da imprensa, estaria sendo montada uma grande operação para anular o Supremo Tribunal Federal, tornando-o completamente submisso ao atual chefe do Executivo, mesmo depois do término de seu mandato. Um sinal dessa investida seria a indicação, agora concretizada, do atual advogado-geral da União, Gilmar Mendes, alto funcionário subordinado ao presidente da República, para a próxima vaga na Suprema Corte. Além da estranha afoiteza do presidente — pois a indicação foi noticiada antes que se formalizasse a abertura da vaga –, o nome indicado está longe de preencher os requisitos necessários para que alguém seja membro da mais alta corte do país. É oportuno lembrar que o STF dá a última palavra sobre a constitucionalidade das leis e dos atos das autoridades públicas e terá papel fundamental na promoção da responsabilidade do presidente da República pela prática de ilegalidades e corrupção.

Dito e feito. Gilmar sempre agiu como anteparo dos tucanos.

Muito mais adiante, num momento chave para o futuro de Dilma Rousseff, foi Gilmar quem cassou a indicação do ex-presidente Lula para a Casa Civil — é preciso recordar que o “impoluto” tucano Aécio Neves era próximo de Gilmar a ponto de ter sido gravado pedindo ao ministro do STF que fizesse lobby por ele numa votação.

Foi em 26 de abril de 2017. Aécio queria aprovar a lei de abuso de autoridade, apoiada por Gilmar, mas o senador Flexa Ribeiro, também tucano, parecia reticente:

Aécio Neves: Oi, Gilmar. Alô.

Gilmar Mendes: Oi, tudo bem?

Aécio: Você sabe um telefone que você poderia dar que me ajudaria na condução lá. Não sei como é sua relação com ele, mas ponderando… Enfim, ao final dizendo que me acompanhe lá, que era importante… Era o Flexa, viu? [Aécio se referia ao senador Flexa Ribeiro]

Gilmar: O Flexa, tá bom, eu falo com ele.

Aécio: Porque ele é o outro titular da comissão, somos três, sabe?… Né…

Gilmar: Tá bom, tá bom. Eu vou falar com ele. Eu falei… Eu falei com o Anastasia e falei com o Tasso… Tasso não é da comissão, mas o Anastasia… O Anastasia disse “Ah, tô tentando… [incompreensível]…” e…

O projeto foi aprovado por 54 a 19, com o voto de Flexa.

O garantismo de Gilmar Mendes, ou seja, a prioridade na defesa dos direitos do cidadão, parece flutuar de acordo com a conjuntura.

Ele não foi garantista na decisão que impediu Lula de assumir o Ministério, nem no julgamento do mensalão, como notou Luís Nassif à época:

O garantismo de Gilmar nunca enganou ninguém. Sempre foi um disfarce para encobrir as ações que tomou em defesa de Daniel Dantas cuja investigação que resultou na operação Satiagraha e consequentemente em sua prisão, se vícios formais tinham que justificassem os dois HCs que concedeu ao banqueiro em menos de 48 hs, nem de longe se compara com o que está acontecendo no julgamento da ação penal 470 e o ministro Gilmar dá o silêncio como resposta aos ataques que a conduta dos ministros do STF está a desferir contra os réus que neste julgamento podem esperar tudo: menos que se faça justiça.

Gilmar, agora, é um alvo óbvio de uma frente que inclui os bolsonaristas e a turma da Lava Jato, uma aliança provisória, cada qual com seu próprio projeto político.

O ex-general Eliéser Girão Monteiro Filho, eleito deputado federal pelo PSL no Rio Grande do Norte, fala abertamente em afastar e prender integrantes da Corte.

O projeto de Jair Bolsonaro e dos filhos é de longo prazo. Eles chegaram a cogitar a ampliação do número de vagas no STF.

Sem força política para tanto, decidiram esperar.

Celso de Mello, um ministro do STF que de fato é garantista, vai se aposentar em 2020.

O acordo de Sergio Moro com Jair Bolsonaro teria sido o da ocupação do Ministério da Justiça como plataforma para a cadeira no STF.

Nisso, a Lava Jato e os bolsonaristas concordam.

Porém, a turma da Lava Jato também faz seus próprios planos de longo prazo: quer um STF à sua imagem e semelhança, quem sabe ocupar o Planalto sem intermediários.

No STF, seria preciso garantir uma sólida maioria punitivista, para a qual precisa de mais dois votos.

O plano da Lava Jato de criar um fundo de R$ 2,5 bilhões com dinheiro da Petrobras tem este óbvio objetivo político: garantir não apenas negócios, mas influência política de longo prazo.

O ministro Marco Aurélio, que de bobo não tem nada, atacou o projeto, cujo futuro pode ser decidido no próprio STF:

Como de há muito venho sustentando na bancada do Supremo, órgão público vive apenas do que previsto no orçamento aprovado pelo legislativo. A mesclagem do público com o privado não interessa ao Estado, não interessa à sociedade. É pernicioso fazendo surgir ‘super órgãos’, inviabilizando o controle fiscal financeiro. É a perda de parâmetros, é o descontrole, é a bagunça administrativa. É a Babel.

O PT condenou o projeto lavajatista.

O partido tem tido um comportamento dúbio em relação a Gilmar.

Conta com o voto dele em eventual decisão definitiva do STF sobre prisão em segunda instância.

Votariam por Lula responder aos processos em liberdade, ou ao menos em prisão domiciliar, os ministros Gilmar, Rosa Weber, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio, Celso de Mello e, se os militares do governo Bolsonaro deixarem, em nome de uma pacificação, Dias Toffoli.

Gilmar, porém, está ficando cada vez mais frágil.

Politicamente, age para fazer com que os ataques da Lava Jato contra ele sejam interpretados como ataques à Corte como um todo.

Se um eventual pedido de cassação contra ele andar (já foram feito 9 ao Senado), Gilmar vai precisar de votos.

Foi o único ministro do STF que ligou para Lula quando o ex-presidente perdeu o neto Arthur.

A Operação Ad Infinitum, sexagésima fase da Lava Jato, foi mais um tiro forte contra o ministro.

Os procuradores apreenderam o celular do ex-chanceler Aloysio Nunes Ferreira e sustentam que o tucano fez lobby junto a Gilmar e ao ex-ministro Raul Julgmann para soltar Paulo Preto, controlador do propinoduto do PSDB junto a empreiteiras.

Segundo o MPF:

Em 08/02/2019, sexta-feira, Paulo Vieira de Souza, protocolou, por meio de seu advogado Jose Roberto Figueiredo Santoro, HABEAS CORPUS nº 167727 perante o E. Supremo Tribunal Federal, distribuído no mesmo dia por prevenção ao Ministro Gilmar Mendes.

Às 18:23h do dia 10/02/2019, por meio de aplicativo de mensagem, o advogado José Roberto Figueiredo Santoro perguntou a Aloysio Nunes Ferreira Filho: “Caríssimo você falou com nosso amigo?

Na sequência, especialmente no dia 11/02/2019, segunda-feira, primeiro dia útil após o protocolo do habeas corpus, diversos fatos, dados o contexto narrado e os personagens envolvidos, aconteceram em íntima conexão ao processo distribuído no Supremo Tribunal Federal.

Às 16:50h, o telefone (61) 3217-4187 do gabinete do Ministro Gilmar Mendes fez contato, por 1 minuto e 8 segundos, com Aloysio Nunes Ferreira Filho.

Às 17:32h, por telefone, Aloysio Nunes Ferreira Filho falou com o ex-Ministro da Justiça, Raul Jungmann, durante 45 segundos.

Às 17:48h, o telefone (61) 3217-4187 do gabinete do Ministro Gilmar Mendes tentou realizar contato com Aloysio Nunes.

Às 18:33h, por telefone, Aloysio Nunes tentou falar com o ex-Ministro da Justiça, Raul Jungmann.

Às 18:39h, por telefone, Aloysio Nunes conseguiu falar com o ex-Ministro da Justiça, Aloysio Nunes, durante 1 minuto e 52 segundos.

Às 18:42h, por aplicativo de mensagens, Aloysio Nunes recebeu do ex-Ministro da Justiça, Raul Jungmann o número do celular aparentemente atribuído ao Ministro Gilmar Mendes.

Às 19:10h, por aplicativo de mensagens, o ex-Ministro da Justiça, Raul Jungmann perguntou a Aloysio Nunes se ele havia falado com o Ministro Gilmar Mendes: “Falou?!”

Entre 19:11h e 19:13h, por telefone, Aloysio Nunes tentou realizar contato com telefones aparentemente atribuídos ao Ministro Gilmar Mendes, inclusive aquele que foi transmitido a Aloysio Nunes por Raul Jungmann imediatamente antes.

Às 19:13h, por telefone, Aloysio Nunes falou com o ex-Ministro da Justiça, Raul Jungmann, durante 1 minuto e 30 segundos.

Às 19:18h, por aplicativo de mensagens, o ex-Ministro da Justiça, Raul Jungmann enviou a Aloysio Nunes um novo número de contato aparentemente atribuído ao Ministro Gilmar Mendes, com o texto: “Tente esse outro”.

Entre 19:26h e 19:29h, o telefone (61) 3217-4187 do gabinete do Ministro GILMAR MENDES tentou realizar contato com Aloysio Nunes.

Às 19:29h, por telefone, Aloysio Nunes foi contatado pelo telefone (61) 3217-4187 do gabinete do Ministro Gilmar Mendes, e manteve conversa por 52 segundos.

Entre 19:31h e 19:34h, por telefone, Aloysio Nunes tentou falar com o ex-Ministro da Justiça, Raul Jungmann.

Às 19:34h, por aplicativo de mensagens, Aloysio Nunes informou ao ex-Ministro da Justiça, Raul Jungmann que falou com o Ministro Gilmar Mendes: “Falei”.

Às 19:51h, o ex-Ministro da Justiça, Raul Jungmann perguntou: “E?!?!”

Às 21:19h, Aloysio Nunes respondeu: “Vago,  cauteloso, como não poderia ser diferente”.

Em paralelo, às 19:34h e 19:35h, por aplicativo de mensagens, Aloysio Nunes informou ao seu advogado José Roberto Santoro que falou com “o amigo” Ministro Gilmar Mendes: “Falei. Resposta vaga: sim,j á estou sabendo…”, e “Compreensível dadas as circunstâncias”.

Em resposta, às 20:02h, José Roberto Santoro escreveu a Aloysio Nunes: “Vc é um anjo”.

No dia 13/02/2019, às 22:28h, por aplicativo de mensagens, José Roberto Figueiredo Santoro informou a Aloysio Nunes que o Ministro Gilmar Mendes deferiu o HABEAS CORPUS nº 167727, em que figurava como interessado Paulo Vieira de Souza, afilhado político de Aloysio Nunes.

No dia 14/02/2019, quando a notícia sobre o HABEAS CORPUS chegou à grande imprensa, às 16:51h, Aloysio Nunes escreveu ao ex-Ministro da Justiça, Raul Jungmann: “Nosso causídico é foda!”

Em resposta, às 21:36h, o ex-Ministro da Justiça, Raul Jungmann escreveu: “Sr de escravos.”

Gilmar soltou Paulo Preto duas vezes. Mas, agora, o operador tucano tem duas condenações, uma delas a 145 anos.

Uma das filhas dele já foi gravada dizendo que o pai deveria fazer delação premiada.

O que Paulo Preto contará sobre José Serra, Geraldo Alckmin, Aloysio Nunes e outros tucanos de bico avantajado?

Será induzido a dizer alguma coisa contra Gilmar, que pode ser afastado com os votos de dois terços do Senado?

Certamente haverá fortes emoções adiante.



No Viomundo
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Diplomata exonerado relata ao GGN o caos fundamentalista do Itamarati


Em entrevista ao GGN Paulo Roberto de Almeida, que foi cotado para assumir ministério das Relações Exteriores antes de Ernesto, mostra que decisão de afastá-lo está ligado às críticas que vem fazendo desde antes de Bolsonaro tomar posse. Ele conta que procurou orientar a equipe durante a campanha.

“Não é surpresa [que a minha demissão aconteceria], mas é surpresa no sentido de cair em uma segunda-feira de carnaval pela manhã”, ironiza o embaixador Paulo Roberto de Almeida, exonerado pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, do cargo de presidente do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipre), dia 4 de fevereiro.

Em entrevista ao jornalista Luis Nassif, do GGN, o diplomata e também escritor ressalta que sempre manteve um posicionamento crítico aos governos, desde que iniciou sua carreira diplomática. Como anti-petista, chegou a “ficar na geladeira” do Itamaraty entre os anos 2003 e 2016, até que o ex-presidente Michel Temer lhe deu o cargo no Ipre.

Ainda em 2018, Almeida foi convidado pela equipe que formava o governo Bolsonaro para assumir o ministério das Relações Exteriores. “Recusei de imediato muitos meses antes que o chanceler olavista [Ernesto Araújo] fosse sequer cogitado”. Na ocasião, as tratativas estavam sendo feitas com a equipe econômica do atual governo e Almeida explicou que não era eleitor de Bolsonaro por considerá-lo “um candidato fraco”. Ele votou em João Amoedo.

Almeida conta ainda que chegou a mandar materiais para nortear a proposta de política externa do governo Bolsonaro. Mas quando leu o programa final, publicado entre agosto e setembro, considerou a proposta para política externa “um horror, sem fim”. “Muito medíocre. Critiquei isso e eles não gostaram. E nunca mais falaram comigo”, relembra.



Assim, mesmo sendo anti-petista e crítico às política econômicas keynesianas, Almeida não se aproximou dos grupos “bolsonaristas” e, antes das eleições de 2018, já considerava o “olavismo” (termo que remete às ideias do escritor Olavo de Carvalho), nocivo à política externa brasileira.

“Eu o conheço [Olavo de Carvalho] desde os anos 90, como polemista, um opositor ferrenho do petismo, marxismo vulgar, gramscismo acadêmico, dos filósofos da USP, todo aquele progressivismo dos nossos ‘intelectuais’ de academia, que ele desenhava (…) Mas eu não tinha nenhuma atividade com essa pessoa que julgava apenas um polemista oposto ao petismo”, destaca. Até que um dia foi convidado para uma entrevista-debate com a participação do escritor.

“Eles [entrevistadores] tinham definido os temas que estão na berlinda: globalismo e globalização. Eu disse o que eu pensava da globalização, o que é, digamos, o common sense [senso comum] entre os acadêmicos bem informados, e disse todo o mal que pensava dessa imbecilidade, dessa estupidez do globalismo, que é um monstro metafísico alimentado por illuminates e adeptos das teorias da conspiração que juntam George Soros com a esquerda”, pontua.

Após bater de frente com Olavo de Carvalho, ridicularizando sua principal teoria, Almeida tornou-se mais um desafeto do escritor.

“Hoje mesmo o Olavo de Carvalho disse que provou que eu era ignorante em matéria de globalismo. Isso ficou mais na opinião dele, evidentemente, não com base em nenhuma evidência empírica”, sorri.

O filósofo das massas de direita emplacou, pelo menos, dios ministros no governo Bolsonaro: além de Ernesto Araújo, Ricardo Vélez Rodríguez na pasta da Educação – o ministro que ganhou destaque recente por mais um escândalo do governo ao enviar para as escolas um e-mail pedindo vídeos de alunos e funcionários cantando o Hino Nacional, junto a leitura de uma mensagem, escrita por ele, finalizada com a frase “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Após a repercussão negativa, Vélez Rodríguez voltou atrás.

Já Ernesto Araújo é conhecido entre seus pares do Itamaraty como um crítico ferrenho do globalismo e do PT. Algumas das frases publicadas em seu blog, antes de assumir o novo cargo, causaram preocupação internacional como essa: “Ao longo do tempo […] a esquerda sequestrou a causa ambiental e a perverteu até chegar ao paroxismo, nos últimos 20 anos, com a ideologia da mudança climática, o climatismo”.

No GGN
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Reestatização de serviços públicos é tendência mundial

A privatifaria não deu certo. Falta avisar aos neolibelistas…


Do UOL:

Privatizar é ideal? 884 serviços caros e ruins foram reestatizados no mundo

Desde 2000, ao menos 884 serviços foram reestatizados no mundo. A conta é do TNI (Transnational Institute), centro de estudos em democracia e sustentabilidade sediado na Holanda. As reestatizações aconteceram com destaque em países centrais do capitalismo, como EUA e Alemanha.

Isso ocorreu porque as empresas privadas priorizavam o lucro e os serviços estavam caros e ruins, segundo o TNI. O TNI levantou dados entre 2000 e 2017. Foram registrados casos de serviços públicos essenciais que vão desde fornecimento de água e energia e coleta de lixo até programas habitacionais e funerárias.

"A nossa base de dados mostra que as reestatizações são uma tendência e estão crescendo", disse a geógrafa Lavinia Steinfort, coordenadora de projetos do TNI, em entrevista ao UOL. De acordo com ela, 83% dos casos mapeados aconteceram de 2009 em diante.

Término de contratos de concessão que não são renovados é a forma mais clássica de "desprivatização" que aparece entre os mais de 800 casos levantados.

Rompimento antecipado de contrato, como aconteceu com a PPP (Parceria Público-Privada) do metrô de Londres em 2010, e mesmo recompras milionárias de infraestruturas que haviam sido vendidas, como vêm fazendo diversas cidades alemãs com suas distribuidoras de energia, são outros tipos de reestatizações que também estão acontecendo.

O levantamento do TNI encontrou processos do gênero em 55 países em todo o globo. (...) Todos eles foram compilados no relatório "Reconquistando os serviços públicos", e uma parte também pode ser acompanhada pelo "Rastreador de remunicipalizações", mapa interativo do TNI com as reestatizações do setor de água (ambos em inglês).


No CAf
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O que é prova robusta? Moro e TRF-4 divergem! Em jogo, pena de 11 anos!

Resumo: Quando duas pessoas olham para um barco e uma vê um avião, alguma coisa deu errado”. E uma pergunta: o que fazer com haters?

Nas redes sociais, Aury Lopes Jr. rebateu, e o fez muito bem, as críticas daqueles que pedem por “estatísticas” de condenações injustas/juridicamente equivocadas — voltarei a essa (não-)dicotomia depois — no Brasil. Aliás, acrescento que, no Brasil, estatísticas funcionam assim: dou um tiro no pato e erro por um metro à esquerda; dou outro tiro e erro à direita. Na média, matei o glorioso onívoro Cairina Moschata.

Sigo. Primeiro, Aury disse suspeitar que não há um estudo desses pelo “impacto colossal na política de banalização da prisão preventiva”. Bingo, Aury. Vou além: as estatísticas, as tabelinhas, os números, no Direito, parecem interessar somente às análises econômicas (também conhecidas como direito tributário para ricos). Não existe AED para a patuleia. A malta não cabe no Excel.

Sigamos. Aury disse que, mesmo assim, entre muitos outros, cruzou com um caso específico; paradigmático, arquetípico do punitivismo ad hoc que se instalou no Brasil. Trago texto da ConJur à época, assinada por Pedro Canário:

Em julgamento de apelação contra as penas relacionadas à operação “lava jato”, a 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região reformou integralmente a sentença da primeira instância que condenou executivos da construtora OAS por corrupção e lavagem de dinheiro. O julgamento havia começado em junho e foi concluído na quarta-feira (23/11) depois de voto-vista do desembargador Victor Laus.

Pois é. Um dos réus foi condenado a 11 anos de prisão com base naquilo que o ex-juiz Sergio Moro considerou “prova robusta” (sic). Depois — isto é, depois de nove meses preso, depois de perder o nascimento de uma filha, depois de perder o próprio casamento por um divórcio —, o mesmo réu condenado por “prova robusta” foi então... absolvido. Por quê? Por... falta de provas. E ficou nove meses preso.

Pois é. E esse ainda foi absolvido. Quantos não o são? Não sabemos ao certo. Por quê? Claro. Não há estatística definitiva, confiável. Porque a malta não cabe no Excel. Como já falei aqui várias vezes, cerca de 80% dos processos de primeiro vinham bichados, aos tempos em que fui procurador de Justiça. Dava um trabalhão tentar consertar condenações feitas com prova ilícita, “prova robusta”, falta de laudos, laudos ilegais feitos por despachantes de trânsito e quejandos, sem considerar a inversão do ônus probatório, coisa então normal (até hoje). Cheguei a pegar coisas como “advogado confessou pelo réu”, “tentativa de suicídio com o pobre diabo processado por porte ilegal de arma”, “prisão preventiva por furto”, etc.

Pois bem. Ainda que a malta coubesse no Excel, ainda que o malabarismo tabelístico-numérico diga que “as absolvições são obtidas em apenas 0,035% dos casos”; daí se segue que os réus têm “chances irrisórias” de reverter suas condenações? “Ah, é só zero-zero-trinta-e-cinco...” E se fosse você?

Porque o ponto é exatamente esse: ainda que a estatística seja baixa (não é; estou dando o argumento de barato). Não vem ao caso. Porque o Direito não é uma questão utilitarista.

Até imagino o sujeito de terno Calvin Klein, gel no cabelo, gravata italiana, chave do Audi na mão, dizendo que os números (ah, sempre os números...) dizem que há mais culpados presos (imagina se fosse o contrário!), e que por isso o punitivismo vale a pena. Porque é eficiente, então, veja bem, não se faz omelete sem quebrar alguns ovos...

Meus caros, o Direito existe exatamente para que não saiam por aí quebrando ovos a troco de nada. Liberdade e ovos são coisas frágeis. Entendam: ainda que os numerólogos tivessem razão — não têm —, eles não teriam razão. Se eles estão certos, estão errados. Porque, em Direito, não se escolhe; não se faz cálculo, não se pesa preferências, não se mede graus de eficiência. O Direito é uma questão de princípio. Direitos, em Direito, não são trunfos apenas contra as maiorias raivosas; são também trunfos contra esse utilitarismo ad hoc.

Perder o casamento e o nascimento na filha não entra no cálculo. Essa variável não cabe na fórmula e nem no Excel.

Porque os números são tão poderosos que, com eles, você faz qualquer coisa. E a fórmula é sempre ad hoc. Um pé nas brasas e um pé no gelo: temperatura média ótima...

O que me leva a outro ponto, bem ilustrado pelo caso lembrado por Aury. Para o juiz Moro, “prova robusta”; para o TRF, “ausência de provas”. Ora, tem algo errado aí, não? Esse é mais um símbolo do nosso fracasso. O Carnaval tem seus critérios para as escolas de samba... e o Direito não tem uma criteriologia mínima por meio da qual pode valorar as provas apresentadas em juízo. Já existe uma epistemologia para “medir” o carnaval. Mas ainda não sabemos o que é uma prova “robusta” ou “quando ela não existe ou é insuficiente”. Por que? Por causa do relativismo. Por causa do emotivismo, praga pela cada um dá a sua opinião. E por causa da ausência de constrangimentos externos aos “chutes epistêmicos”.

O que temos? Um Direito sem padrões e sem respeito aos próprios elementos que lhe constituem enquanto Direito legítimo. Ora, só podia dar nisso.

Somos uma sociedade cada vez mais marcada por desacordos. Nossos desacordos, por sua vez, cada vez mais marcados pela praga do emotivismo: é tudo questão de opinião, tudo é relativo. Inclusive a prova “robusta”. E aí, quando a democracia presenteia a nós com a instância adequada de resolução desses desacordos, surge a algaravia completa: emotivizamos o critério.

O resultado é isso. Um Direito capenga, sem epistemologia própria, sem uma criteriologia mínima, sem inteligibilidade e coerência consigo mesmo, sem uma teoria da decisão. Decide-se com base em qualquer coisa. Eficiência vira critério jurídico. Pragmatismo vira razão de decidir.

Chamemos as coisas pelos seus nomes e digamos o que se quer dizer. “Veja bem, só tantos pouquinhos por cento são absolvidos” é dizer “veja bem, é só a plebe que vai pra cadeia mesmo, então que se dane”. No caso, esse nem era da “malta”.

Na sequência, quando for possível, escreverei sobre “O que é isto — prova robusta” e “o que é isto — a prova robusta que se transformou em raquítica-ou-nenhuma”. O que é isto — a verdade no processo?

Post scriptum: Meu artigo sobre o neto de Lula e o comportamento imbecilizado de certo tipo de gente (?) nas redes sociais — a neocarverna — teve grande repercussão. Já nos comentários aqui do Conjur, elejo Roberto Melo e Persistente como os que resumiram melhor a querela. Quanto aos haters de sempre — que vaiam e odeiam até minuto de silêncio e velório — o látego do silêncio é a melhor resposta. Meanwhile, the haters' level of shame rises.

Lenio Luiz Streck é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito. Sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br
No ConJur
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Monitoramento nas redes das imbecilidades de Bolsonaro mostra que não há ‘cálculo’ e sim pulsão suicida

Carluxo e Bozo em ação
É inevitável, diante de algo muito absurdo, surgir uma explicação “racional”.

Serve para o empate do Corinthians com o São Bento, a morte de Teori Zavascki, os discos do Fagner e o governo Bolsonaro.

O vídeo obsceno postado pelo Presidente da República é uma imbecilidade evidente.

Nem à sua base agradou.

Alguns bolsonaristas inventaram que a conta de Twitter do sujeito foi hackeada.

Analistas vieram com a conversa de que era uma “cortina de fumaça”, clichê usado por todo cidadão que quer parecer que sabe algo que você não sabe.

Diante de tanta estupidez, é tentador, mesmo, achar que existe algo por trás disso.

Não tem nada. Zero. Niente. Zip.

É som e fúria perpetrados por idiotas para idiotas, significando coisa alguma.

A lógica que move o bolsonarismo é a da agitação permanente e é por aí que vai cair.

Ninguém aguenta uma cambada de delinquentes berrando e xingando o tempo todo — especialmente a ala militar e seu representante mais visível, o general Mourão.

“É uma tática orientada de ‘fora’, de Steve Bannon, que subverte nas redes todos os protocolos de funcionamento da democracia moderna”, escreveu Tarso Genro. “Desvia crises”.

Ora.

Que crise foi desviada?? Tudo continua de pé, inclusive o Queiroz.

Uma coisa é Donald Trump fazer isso com uma economia estável e baixo desemprego.

Outra é um fulano fantasiado de bexiga de salame histérico à frente de um país em recessão.

Essas patacoadas em série provocaram a desmobilização de parte da milícia de apoiadores na internet, diz a Folha:

Monitoramento feito nas contas do governo e do próprio presidente mostrou que as críticas não vêm só de oposicionistas, mas de pessoas que votaram em Bolsonaro por se identificarem com pautas conservadoras, mas especialmente por serem críticos aos governos do PT.

A preocupação de auxiliares palacianos é que esse tipo de publicações leve a uma geração de crises espontâneas recorrentes e que isso prejudique sua popularidade antes mesmo de o governo chegar aos primeiros 100 dias. (…)

O controle do conteúdo publicado nas redes sociais não está a cargo da Secom (Secretaria de Comunicação Social), como era feito em gestões anteriores. Ao assumir o governo, o presidente passou o tema aos cuidados de assessores especiais, ligados diretamente à Presidência.

Entre os assessores especiais está Tercio Arnaud, que era do gabinete do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), um dos filhos do presidente e o responsável por criar uma estratégia de comunicação agressiva do pai com usuários das redes sociais. (…)

Não foi cálculo, não foi estratégia, não foi uma jogada incrível.

É o modus operandi dessa gangue. É assim que Carluxo, o pai e quejandos funcionam.

O mindset é de campanha e, por razões que eu arrisco psiquiátricas, não sabem viver de maneira diferente.

Assim prosseguirão até se auto destruírem.

Ou, como diz o Zé Simão, o fiofó parar de arder.



Kiko Nogueira
No DCM
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Não, Bolsonaro, democracia não é “só se militar quiser”




Jair Bolsonaro acaba de fazer letra morta da Constituição Brasileira, que dá missão, deveres e limites às Forças Armadas.

Em cerimônia no quartel do Corpo de Fuzileiros Navais, no Rio, disse que “democracia e liberdade, só existe(m) quando a sua respectiva Força Armada assim o quer”.

Hein? Por acaso as Forças Armadas são um bando sem regras, como uma milícia, e impõe as coisas como querem que sejam?

Está escrito na Constituição que elas  “destinam-se à defesa da Pátria (e) à garantia dos poderes constitucionais, não que pode derrubá-los.

Que tipo de comandante chulé é você que diz aos soldados que o que está na Carta Magna do país é “se quiserem”?

Senhores comandantes militares: se querem que não se desenvolva o golpismo em suas fileiras, se querem que seus soldados não ajam de acordo com “o que quiserem”, mas com a lei, a hierarquia e os regulamentos, não ofereçam os quartéis para este tipo de barbaridade.

Porque este “exercício de vontade armada” já levou até mesmo certas figuras do exército pretenderem explodir bombas em quartéis, porque se achavam no direito de ter aumento.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Escola sem Partido e devaneios do ministro: educação chega à demência


Pense naquela sua tia que compartilha correntes no WhatsApp, envia mensagens de alerta sobre os novos tipos de golpes que bandidos estão a aplicar na praça e, abduzida por insuspeita militância, bombardeia sua caixa de entrada com abaixo-assinados em série. Imagine que essa sua tia, hoje uma aplicada combatente da mamadeira de piroca, decidiu enveredar-se na trilha do comentário político ao inaugurar um canal no YouTube, onde é possível acompanhar seu pensamento vivo. Vociferante e furibunda com os inimigos, amável com os amigos, foi catapultada ao sucesso como “influenciadora digital” da nova direita, espécie de Alexandre Frota dispensada do filme pornô, embora suas vergonhas estejam à vista do internauta que se animar a assisti-las. Sua tia é a culpada de tudo: foi ela quem apresentou Bolsonaro a Paulo Guedes, propiciando o casamento que terminaria em bem-sucedida relação de poliamor com o grande capital. Como Frota, virou deputada federal do PSL, de cujo laranjal soergue sua principal bandeira, o da ressurreição do projeto Escola sem Partido. A sua tia das correntes, raro leitor, ela existe, tal e qual sua improvável trajetória. Trata-se da procuradora aposentada Beatriz Kicis Torrents de Sordi, a Bia Kicis, de 58 anos, eleita pelo Distrito Federal com os votos de 86.415 adversários da urna eletrônica.

Gente estranha. No destaque, o ministro da Educação,
Ricardo Vélez Rodríguez, da ala psicodélica do governo. Acima,
aparentemente oriunda do mesmo universo paralelo,
a youtuber Bia Kicis, agora deputada do PSL,
de cujo laranjal soergue sua principal bandeira.
Foto: Reprodução/Redes Sociais
Kicis – melhor seria Kisses, mas não podemos exigir mais da realidade – surgiu primeiro na internet como uma golpista incauta a clamar pelo impeachment da presidenta Dilma. Na sequência, tornou-se militante do voto impresso. A partir desse moinho de vento, a quixotesca personagem passou à luta contra outros gigantes, em especial a “doutrinação” de alunos nas escolas por “esquerdopatas” e a “ideologia de gênero”, que acabaria por fabricar a tal mamadeira, sem dúvida o produto mais criativo do mercado nacional, quiçá mundial, de notícias falsas. Ao chafurdar na produção audiovisual de Kicis, fica-se a par de seu desejo de processar os antigos professores de história que lhe ensinaram tudo errado, certamente uns doutrinadores de meia-tigela. Por outro lado, encontra-se “o mestre e o homem que despertou uma nação”, o Napoleão de hospício Olavo de Carvalho, em colóquio com a dita-cuja e “o querido Edu, Edu Bolsonaro, o filho do Jair”. Enquanto se desenrola o besteirol, o público eriça-se nas caixas de comentários. “Glória a Deus!”, louva um cristão. “Senta o dedo!”, sugere outro.

A necessitar de um compêndio de fake news, vale a pena recorrer à Kicis. Está lá, por exemplo, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, em sua convocatória aos terroristas árabes da Al-Jazeera (que seria uma célula da Al-Qaeda não fosse um canal de televisão) para que cerrassem fileiras por Lula Livre. No dia do assassinato de Marielle Franco, a youtuber já sabia se tratar de um “assalto” àquela que “provavelmente defendia essa agenda desarmamentista”. A produção de Kicis é também uma fonte inesgotável de comédia involuntária, como no caso do vídeo em que alardeia “EM PRIMEIRA MÃO” a candidatura a deputado de Nelson Barbudo, aquele que foi à posse no Congresso com chapéu de vaqueiro e barba de Karl Marx. Parte de suas publicações é de chamamentos a Tico e Teco, a dupla de neurônios que habita o bolsominion clássico. Em uma dessas pérolas, Kicis convoca a massa a “bater sinos”, acender e apagar as luzes de casa no momento em que Sérgio Moro estivesse em entrevista com Gerson Camarotti no GloboNews. Para tanto, vestia-se com chapelão verde e amarelo, a pecar apenas na escolha do modelo cowboy no lugar daquele de bobo da corte.
No novo projeto, grêmios estudantis não fazem política e professores podem ser filmados
Esta é a pessoa, pois, à frente do redivivo projeto Escola sem Partido, arquivado no fim do ano passado pela comissão que analisava a proposta na Câmara dos Deputados, sob pressão de educadores e do STF. Protocolado por Bia Kicis no primeiro dia de trabalho da nova legislatura, o PL nº 246/19 é ainda mais radical do que as ideias defendidas pelo fundador do “movimento”, o advogado Miguel Nagib. Em sua nova versão, defende a gravação de aulas a pretexto de “uma melhor absorção do conteúdo e garantia do direito de pais e responsáveis terem ciência do processo pedagógico e avaliação da qualidade dos serviços prestados na escola”. A proposta afronta a liberdade de cátedra assegurada pelo artigo 206 da Constituição Federal e pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Além disso, proíbe que grêmios estudantis promovam qualquer atividade político-partidária. “O Escola sem Partido, assim como a ‘ideologia de gênero’, foi factoide criado para desviar a atenção dos temas importantes durante a elaboração do Plano Nacional de Educação que entrou em vigor em 2014”, diz o ex-ministro da Educação do governo Dilma, o filósofo e cientista político Renato Janine Ribeiro. “É uma pena que setores progressistas tenham mergulhado nessa piscina com tanto prazer e engano, no lugar de ter exigido que a discussão fosse sobre educação. Agora Inês é morta, e esse tema está aí, presente e forte.”

O novo Escola sem Partido certamente encontrará guarida no Ministério da Educação, sob o comando de Ricardo Vélez Rodríguez, um teólogo, filósofo e professor que, embora nascido na Colômbia, parece oriundo do mesmo universo paralelo de onde saiu Beatriz Kicis, ambos em guerra contra inimigos imaginários como o “marxismo cultural”. Indicado por Olavo de Carvalho, Rodríguez integra a ala psicodélica do governo, onde perfilam também o chanceler Ernesto Araújo e a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves. Não se tem certeza ainda sobre qual é o mais doidão entre os três cavaleiros do Apocalipse, mas com certeza o apetite de Damares para o tema sexual lhe tem garantido a dianteira nessa corrida maluca. Rodríguez, no entanto, vem baixando seu tempo a cada volta. A última da semana compete com a afirmação de Damares de que parte de seus diplomas não seria universitária, mas “bíblica”. No caso do ministro, descobriu-se constar em seu currículo um livro de sua autoria organizado por Alexis de Tocqueville, que morreu em 1859. Antes, um outro morto já havia sido molestado em seus devaneios. Em entrevista à Veja, Rodríguez atribuiu a Cazuza a frase “liberdade é passar a mão no guarda (na bunda do guarda, a bem da verdade)”, dita pelos humoristas do Casseta & Planeta. Sob ameaça de um processo pela mãe do cantor, foi obrigado a desculpar-se no Diário Oficial, quer dizer, no Twitter.
Delírios: Segundo o ministro, Cazuza queria passar a mão no guarda. E o jornalista Ancelmo Gois era da KGB.
Os delírios avolumam-se, a demonstrar que talvez tenhamos todos sido recolhidos a um hospício, sem no entanto nos darmos conta, temática explorada pelo escritor Campos de Carvalho em A Lua Vem da Ásia. Na mesma entrevista à Veja, o ministro disse que “o brasileiro viajando é um canibal, rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião, acha que sai de casa e pode carregar tudo”. Em nota oficial com erro de português e letras em caixa-alta, o MEC classificou o jornalista Ancelmo Gois, de O Globo, como um agente do KGB “TREINADO EM MARXISMO E LENINISMO” pelo serviço secreto soviético. Motivo: o colunista publicara um texto mostrando que vídeos de pensadores de esquerda tinha sido suprimidos de uma web tevê pública. Houve também o caso das alterações dos critérios para a adoção dos livros didáticos, que não precisariam mais tratar de temas como a não violência contra a mulher e a promoção da cultura e história quilombolas e dos povos do campo. Ficariam eliminadas as exigências das referências bibliográficas, seriam aceitos os erros de revisão e a publicidade de marcas. Com a óbvia repercussão negativa das novas medidas, anularam-se as mudanças.
Descarte: Para o ex-ministro Renato Janine Ribeiro, o MEC joga fora o conhecimento acumulado nas últimas três décadas
Para Renato Janine Ribeiro, o problema maior reside menos nos devaneios do ministro do que no desmonte que vem sendo operado no MEC. “O fato é que em 20 e tantos anos construiu-se a base para o progresso da nossa educação. Mas o novo governo jogou fora toda essa expertise, todo o conhecimento acumulado”, diz. “Apesar das minhas divergências com o governo Temer, as pessoas trazidas por ele tinham alguma qualificação. A recusa de nomes como (a socióloga e ex-secretária-executiva do MEC) Maria Helena Guimarães de Castro ou (o educador e diretor do Instituto Ayrton Senna) Mozart Neves Ramos me choca, ainda mais quando chegam outros que não têm o menor conhecimento sobre o assunto, nem teórico nem prático.” O professor de bacharelado e pós-graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC Salomão Barros Ximenes vê “uma completa mudança de eixo na concepção do que é a escola e o papel da educação pública, que tem agora como uma de suas prioridades a militarização do ensino como forma de combater a criminalidade. Algo preocupante, porque reacionário, regressivo e autoritário. Tem-se pela primeira vez o abandono declarado do Plano Nacional de Educação. E tudo aponta para uma sinergia sinistra: corte de investimentos, censura e privatização”.

Bia Kicis, a nossa tia das correntes do WhatsApp, tornou-se figura de proa da República. Em novembro de 2017, com a ajuda do empresário Winston Ling, do Grupo Ling, apresentou o “liberal” Paulo Guedes aos filhos de Bolsonaro. Quinze dias depois, iniciava-se a incendiosa relação do pai com o Posto Ipiranga. Deu no que deu. Hoje, Kicis é uma das candidatas à Presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a mais importante da Casa. Periga vermos na educação brasileira a escola sem noção.

Fred Melo Paiva No CartaCapital
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Dos sonhos

Conheceram-se na queima de fogos em Copacabana, no fim de 2017. Começaram a conversar ali mesmo, na areia da praia, e só pararam quando acabaram os fogos. Ele pediu o endereço dela e ela – já se afastando, puxada pela mãe impaciente – gritou “é longe!”

E ele: “Onde?”. E ela: “No interior. Longe!”. Ele:

– Ano que vem! Aqui mesmo! Quinze pra meia-noite!”

E ela:

– Tá!

Claro que ela não ia se lembrar. Mas se lembrou! Fogos de 2018 em Copacabana e lá estava ela, 15 para a meia-noite, no mesmo lugar, mais linda do que um ano antes, com a mesma mãe atenta.

– Oi.

– Oi.

– Pensei que você tivesse...

– Esquecido? Passei o ano inteiro pensando neste encontro.

– Eu também!

E quando viram estavam de mãos dadas. Seria possível que ele tinha encontrado a mulher da sua vida, daquele jeito, por acaso, na rua, numa noite de Ano Bom? Essas coisas não acontecem, pensou ele.

– Como foi o seu ano?

– Legal.

– Fora o Temer, né?

– Quem?

O ano dele também tinha sido legal. Viajara bastante. Estivera em Nova York e visitara o local das torres gêmeas.

– Torres?

– As torres do World Trade Center, que vieram abaixo. Os atentados.

– Eu não fiquei sabendo.

Foi quando ele pensou: era bom demais para ser verdade. Não era a mulher dos seus sonhos. Paciência. À meia-noite se abraçaram, não se beijaram porque a mãe estava de olho, mas ele já sabia que não ia dar certo. Não tinha nada contra a moça ser do interior. Mas não tão do interior assim.

– E o que você está achando do Bolsonaro?

– Em que novela?

Pronto, pensou ele. Fim das ilusões. Mas espera um pouquinho! Uma mulher completamente desinformada. Uma mulher sem opinião, que não estaria sempre pedindo a dele... Uma mulher ideal.

E linda. Ainda mais com o rosto iluminado pelos fogos de artifício de Copacabana.

Luís Fernando Veríssimo
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A demagogia de Bolsonaro: usa caneta Bic e estoura no cartão de crédito pago pela população


Se o combate à corrupção e à ineficiência administrativa já tinha sido desmoralizado como marcas do governo Bolsonaro, outra bandeira dele vai ao chão: o da austeridade.

Os gastos públicos com ele e com família, realizados com cartões corporativos, aumentaram 16% em relação à média dos últimos quatro anos, que incluem o governo de Dilma Rousseff.

Foram 1,1 milhão de reais nos dois primeiros meses do ano.

No que a família Bolsonaro gastou? O Palácio do Planalto não informa.

O aumento das despesas com cartão corporativo contrasta com a farsa do homem simples que chegou à presidência.

Só com a verba desses cartões  ele poderia comprar 1,1 milhão de canetas iguais à que usou para assinar o termo de posse.

Caneta que ficou famosa como marca de que um novo tempo de austeridade viria por aí.

Tudo mentirinha para agradar bolsominion.

Outro teatrinho: O chefe da Casa Civil dele, Onyx Lorenzoni, já tinha prometido abandonar os cartões corporativos.

“No primeiro dia, eu vou abrir mão do cartão corporativo. Porque vem um novo tempo. A gente está ministro. A gente tem consciência de que, para mudar o Brasil, ou o governo federal dá o exemplo ou não há nenhum sentido”, disse.

“A decisão é pessoal. Mas vou estimular todo mundo, no dia 8 de janeiro, a adotar a mesma medida”, acrescentou, em referência à data da primeira reunião ministerial do futuro governo.

Como se vê, não foi atendido.

Na prática, o discurso de Bolsonaro e seus auxiliares é outro.

Quando era deputado, Bolsonaro bateu nos gastos com cartões corporativos.

Numa discussão com Orlando Silva, do PCdoB, que foi ministro dos Esportes no governo de Lula, atacou.

“Ele inclusive assaltava com cartão corporativo até para comprar tapioca”, disse, tentando transformar em algo negativo o que, a rigor, era positivo.

A tapioca do ministro custou R$ 8,30, muito menos do que os R$ 500 reais gastos com cartão corporativo por um funcionário do Ministério da Defesa, já na era Bolsonaro, em uma churrascaria do Rio de Janeiro.

O cartão corporativo foi criado em 2001 pelo presidente Fernando Henrique.

A ideia era agilizar a administração.

Os cartões deveriam ser usados em pequenas despesas urgentes, ligadas a obras e serviços.

Não são um problema em si. Pelo contrário.

No conjunto de gastos do governo federal, representam uma gota no oceano.

Mas têm valor simbólico, facilmente compreendido pelo população, já que muita gente tem cartão de crédito e sabe da dificuldade para pagá-lo.

Por isso, a revelação de que aumentou os gastos com o cartões corporativos representa um risco para Bolsonaro.

É aplaudido por usar caneta “Bic”, mas pode ser vaiado quando vem a público a informação de que ele e a família estão gastando demais no cartão, sem que tenham de se preocupar com a fatura no final do mês.

O povo paga. Mas uma hora derruba a casa, quando descobre que o inquilino é um demagogo, que faz pior o que condenava nos outros.

Como dizia Tim Maia: A demagogia é a pior das mentiras, porque é uma mentira mentirosa.

Bolsonaro é isso: “uma mentira mentirosa”.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Golden shower mascara despreparo e suspeitas de corrupção



https://www.blogdokennedy.com.br/golden-shower-mascara-despreparo-e-suspeitas-de-corrupcao/
Barbárie é usada como arma política no debate público

Jair Bolsonaro e seus filhos Flávio, Eduardo e Carlos usam a bárbarie como uma arma política para mascarar o despreparo do presidente, as suspeitas de corrupção que rondam membros da família e as relações perigosas do clã com milicianos do Rio de Janeiro.

A selvageria no discurso político é método. Bolsonaro agiu assim a vida inteira. Era previsível a repetição da fórmula quando chegasse ao Palácio do Planalto.

Surpreendem-se apenas aqueles que aceitaram a “normalização” de Bolsonaro na campanha eleitoral, tratando-o como um candidato democrata. Ao longo de sua carreira política, ele defendeu a ditadura militar de 1964, dedicou o voto pró-impeachment de Dilma ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, ameaçou a imprensa, atacou gays, quilombolas e mulheres. É um autocrata.

Em 2018, empresários, militares, políticos, jornalistas e eleitores optaram pelo autoengano para evitar o retorno do PT ao poder e para implementar um programa econômico ainda mais conservador do que o do governo Temer. A enxurrada de fake news que beneficiou Bolsonaro foi considerada uma novidade eleitoral e não um crime contra a democracia.

Também é curioso achar que o ministro Sergio Moro (Justiça) é vítima de uma “bolha” do bolsonarismo radical muito atuante na internet. Moro estimulou o crescimento dessa bolha. Quando juiz, o hoje ministro ajudou a criar o monstro que poderá devorá-lo, como fizeram jornalistas que hoje estão espantados com o modus operandi do presidente da República.

Pouco antes do Carnaval, Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro, deu a seguinte explicação ao Ministério Público. Tomava dinheiro de funcionários empregados legalmente no gabinete do então deputado estadual para contratar informalmente mais assessores para trabalhar para Flávio Bolsonaro.

Confessa um crime para acobertar a suspeita de outro: apropriação indébita de salários de funcionários da Assembleia do Rio. Pelo padrão Lava Jato, a fragilidade de tal justificativa já teria desencadeado uma série de pedidos de prisões temporárias e preventivas de Fabrício Queiroz, seus familiares e funcionários envolvidos.

O que fez o clã Bolsonaro? Usou a bárbarie como arma política para desvirtuar a atenção de uma acusação de corrupção contra Flávio Bolsonaro, hoje senador pelo PSL do Rio.

Em tuítes escritos geralmente num português capenga, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) abriu fogo, sobretudo contra a imprensa.

No Twitter, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL) agiu como um monstro moral, desrespeitando a dor do avô Lula que perdera o neto Arthur de 7 anos de idade.

Na mesma rede social, o presidente da República publicou um vídeo escatológico em reação às críticas e xingamentos que recebeu nos blocos de Carnaval. Pegou um acontecimento isolado e sem relevância para generalizar e depreciar a nossa maior festa popular. Um presidente da República não pode fazer isso com um ativo cultural e turístico do país. Prejudicou a imagem do Brasil perante o mundo.

(...)

Em resumo, as redes sociais são usadas pela família Bolsonaro para não ter de explicar a perda de mercado para os Estados Unidos, que vão vender mais carne e soja para a China. O presidente também não responde à completa falta de rumo na articulação política em geral e na reforma da Previdência em particular. De propósito, o clã deixa em segundo plano trapalhadas de ministros que não estão à altura dos cargos que ocupam.

No debate público, leva vantagem quem consegue ditar a agenda em discussão. Bolsonaro e filhos escondem o despreparo para o poder com uma nuvem de tuítes que coloca o “golden shower” no centro do debate público, deixando as questões que interessam ao país em segundo plano. Eles também acenam para esse núcleo original do bolsonarismo que só tem a oferecer ao país regressão social e fundamentalismo político.
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Ministro condenado não gosta de matéria de canal alemão e usa o nazismo para atacar o país


O ministro do Meio Ambiente usou do argumento de que a Alemanha foi responsável pelo nazismo para desqualificar uma matéria do jornal Deutsche Welle que critica o governo Bolsonaro e a pasta pela qual é responsável

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, demonstrou ter ficado incomodado com a repercussão negativa do governo de Jair Bolsonaro e de sua pasta na imprensa internacional.

Nesta quarta-feira (6), pelo Twitter, Salles usou do argumento que a Alemanha foi responsável pelo nazismo para tentar desqualificar uma matéria do canal público alemão Deutsche Welle (DW) que tece inúmeras críticas à política ambiental que vem sendo adotada pelo ministro e pelo presidente brasileiro.

“Lamentável que um canal público alemão escreva isso do Brasil. Essa sua descrição se parece mais com o que a própria Alemanha fez com as crianças judias e tantos outros milhões de torturados e mortos em seus campos de concentração…”, escreveu.

A matéria que incomodou Salles tem a seguinte chamada: “O novo governo está caminhando para transformar o meio ambiente brasileiro num inferno. Um inferno de soja, pastos, agrotóxicos, cana-de-açúcar e lama da indústria de mineração”

Confira a íntegra da matéria aqui.

No Fórum
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Deliverance, o Amargo Pesadelo do Brasil, ante a família Bolsonaro


Em suma, é uma terra de ninguém. Em algum momento, esse vácuo político será ocupado, sabe-se lá por quem

Se cercar vira hospício; se cobrir, vira circo. É impressionante o que o aventureirismo político produziu no país. É o desmonte institucional completo, com a presidência entregue a uma família desequilibrada e com requintes de depravação.

Parece uma cena de “Deliverance” – ou “Amargo Pesadelo” -, o filme que mostra os amigos que querem se aventurar em uma corredeira e acabam se deparando com uma família de interioranos, isolados da civilização, desequilibrados e violentos contra qualquer “estrangeiro”.



É a síntese do Brasil, depois da aventura inconsequente do impeachment, encontrando no final das corredeiras a família alucinada dos Bolsonaro. Durante anos se esconderam em suas bolhas de WhatsApp, da mesma maneira que os interioranos do filme. De repente, por conta da “refundação” do país, os lunáticos assumem o comando, e se vê todos os cidadãos urbanos cercados por vultos toscos, moralmente desequilibrados, violentos, com ligações nebulosas com o submundo.

E agora?

A quantidade de sandices cometidas há muito deixou de ser folclórica para se constituir em ameaça concreta aos interesses nacionais e à imagem do país no mundo. O país que se orgulhava de ter como representante um Fernando Henrique Cardoso e um Lula, agora é humilhado diretamente pela exposição grotesca de um presidente desajustado.

Nem se fale da pornografia distribuída pelo Twitter do presidente da República, valendo-se do álibi de criticar a “imoralidade” do carnaval brasileiro para dar vazão às suas taras. Não é apenas a desmoralização de um sujeito imoral, mas de todo o país que cometeu a loucura de elegê-lo presidente.

Logo depois, o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, reage contra uma crítica do Deutsche Welle – a BBC alemã – tratando os alemães como nazistas. O chanceler Ernesto Araújo, com pouco tempo à frente do Itamaraty, foi saudado como o pior Ministro das Relações Exteriores do mundo. E o colombiano Ricardo Vélez, Ministro da Educação, a exemplo de seu chefe, Jair, acusou todos os brasileiros de pilantras.

E não param de tuitar, de ofender, de atacar, de desmoralizar o país aos olhos do mundo. Eduardo, Carlos, Flávio, Jair, Salles, Vélez, e mais um enorme cordão de puxa-sacos, copiando suas truculências para ganhar cargo no governo.

Não se trata mais de inexperiência política, falta de verniz intelectual. São desajustados sociais.

Não adianta buscar consolo na suposta racionalidade de Paulo Guedes, Sérgio Moro ou General Augusto Heleno. Guedes jamais conseguiu comandar uma estrutura com mais de duas pessoas e se move exclusivamente por ideologia, sem a menor sensibilidade para as construções sociais, econômicas ou administrativas.

Moro é submisso, provinciano, de pouco brilho, apesar dos esforços ingentes de seus porta-vozes na mídia, de apresenta-lo como um Ministro com luz própria. O general Heleno, na opinião de uma pessoa que conversou longamente com ele, é um “fofo” – ou seja, sem nenhuma vocação para o comando ou para administrar conflitos.

Tudo fica preso à reforma da Previdência, conduzida por Onix Lorenzoni, um parlamentar medíocre, que parece sentir orgasmos ao ouvir a própria voz.

O poder não comporta o vácuo. O país está tão desmontado que a Lava Jato, depois de ajudar o Departamento de Justiça norte-americano a processar a Petrobras, fica com R$ 2,5 bilhões, praticamente tudo o que ela diz que recuperou para a Petrobras. E o vácuo de autoridades é tão grande que a PGR Raquel Dodge não se manifesta, a mídia finge não se tratar de um mega escândalo, Ministros boquirrotos do STF (Supremo Tribunal Federal) se calam.

Em suma, é uma terra de ninguém. Em algum momento, esse vácuo político será ocupado, sabe-se lá por quem. Mas dá para acompanhar online a historia e compreender porque o Brasil nunca conseguiu se tornar uma nação desenvolvida.

Luís Nassif
No GGN
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Bolsonaro “toca reunir” aos fanáticos, sugere a Folha


Reportagem de Talita Fernandes, na Folha, aprofunda aquilo que mais cedo se disse aqui: o surto de agressividade de Jair Bolsonaro nas redes sociais pode ter relação com uma espécie de “tocar reunir” da parcela fanatizada que o apoiava inicialmente, na qual se detectou – não me perguntem com quais instrumentos – alguma deterioração depois de 65 dias de governo.

(…) a primeira identificação de dissidentes se deu em fevereiro, no processo de fritura pública do ex-ministro Gustavo Bebianno, demitido por Bolsonaro após ter sido chamado por ele pelo Twitter de mentiroso.

O monitoramento das redes mostrou que apoiadores viram no processo de desgaste do ex-ministro, que foi um dos principais aliados do presidente na campanha, um sinal de deslealdade de Bolsonaro.

Após a Folha revelar um esquema de candidaturas de laranjas, Bebianno passou quase uma semana pendurado no cargo após ter sido chamado publicamente de mentiroso pelo presidente.

Quem, por dever de ofício, acompanha diariamente o que se passa no campo da direita, não deixou de parceber que núcleos do fanatismo, como aquele site a que sempre me refiro como O Bolsonarista tiveram várias vezes de fechar a área de comentários por conta da verdadeira autofagia que ali se estabeleceu. E outra vez com a baixaria em torno da morte do neto de Lula e, de novo, ontem, com o vídeo escatológico.

Bolsonaro já não reúne “apoio externo”aos seus grupos. Para a mídia, tornou-se repugnante assumir até a leve simpatia que se tinha sobre ele ser o viabilizador da reforma da Previdência e do desejado desmonte do que tínhamos do vestígios, ainda, de uma Estado de proteção social.

Até Merval Pereira diz que seu comportamento não é de “uma pessoa séria” e que foi uma reação de “vingança pessoal” contra as manifestações dos blocos carnavalescos contra ele. Convenhamos que um presidente de direita não ter o apoio nem de Merval é algo sério.

Não achem que Bolsonaro está agindo apenas por seu destempero pessoal.

Ele está remobilizando suas falanges e contando que o núcleo militar vá permitir que o faça impunemente.

Resta saber se, desta vez, funcionará o “não me deixem só” precoce.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Carluxo critica Mangueira por presidente preso; ele é deputado pelo PSC, partido de Tonho


Carlos Bolsonaro, vereador pelo Rio de Janeiro e filho do presidente Jair Bolsonaro, usou o seu perfil nas redes sociais para criticar a Mangueira após a escola de samba se sagrar campeã do Carnaval do Rio de Janeiro nesta quarta-feira (6).

“Dizem que a Mangueira, escola de samba campeã do carnaval e que homenageou Marielle, tem o presidente preso, envolvimento com tráfico, bicheiros e milícias. Esse país está de cabeça pra baixo mesmo”, escreveu o político nas redes sociais



Carlos refere-se a Chiquinho da Mangueira, que foi preso em novembro passado na Operação Furna da Onça, acusado de receber dinheiro para votar a favor do governo na gestão de Sérgio Cabral (MDB) como governador do Rio de Janeiro. O que o filho de Bolsonaro não disse em seu tuíte é que Chiquinho da Mangueira é deputado estadual pelo PSC, o seu partido. O PSC também é o partido do atual governador do Rio, Wilson Witzel, apoiador de Bolsonaro.

Ao contrário do pais e dos irmãos, que migraram do PSC para o PSL em 2018 para concorrer nas eleições, Carlos, que não concorreu no ano passado, permaneceu no PSC. O seu site pessoal e a página da Câmara de Vereadores do Rio apontam que ele permanece na legenda.

Chiquinho, que foi reeleito em outubro passado, recebeu o benefício da prisão domiciliar em janeiro. Ele presidia a Mangueira desde 2013 e, neste Carnaval, foi substituído pelo seu antigo vice, Aramis Santos, que é apresentado na página da escola como atual presidente.

O fato dos dois serem correligionários foi lembrando por internautas nas respostas à postagem de Carlos.










No Sul21
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A escolha ideal

O autor da cafajestada tuiteira que escandaliza as classes média e rica tem todo o direito de estar, ele sim, com o mais sincero e legítimo espanto. Tudo o que levou a fazê-lo presidente veio de iniciativas dessas classes. Não por acaso, as mais informadas sobre o tenentinho desordeiro, depois sobre o político estadual defensor da ditadura e das milícias, e logo o deputado federal que enriqueceu as características precedentes com duas demonstrações: a ignorância sem brechas e uma variedade insuperável de atos qualificáveis, desde sempre, como molecagens, cafajestices, falta de decoro e de educação, e daí para pior. Não cabe falar em deselegância, em falta de sensibilidade.

Foram três décadas de exibição, bem exposta ao país pela comunicação em geral, até que esse personagem anômalo se revelasse o ideal, político e de governante, das classes média e rica para o Brasil. O direitismo de Geraldo Alckmin e Henrique Meirelles foi desprezado como insignificância diante do "mito".

O Jair Bolsonaro com título de presidente é o Jair Bolsonaro que todos, mesmo se dotados só de informações mínimas da política, puderam saber quem era, como era e do que se mostrava capaz. E quem, em 30 anos, não teve sequer esse resíduo de informação, na campanha recebeu do candidato uma síntese bastante fiel da sua sedução pela violência, pela morte alheia, pelas palavras e atos moldados no primarismo feroz.

Não há eleitor ingênuo nesse drama brasileiro, se não for tragédia. Não há, portanto, eleitor inocente nos que produziram a vitória nas urnas. Nem mesmo o grande contingente dos evangélicos. Do qual não se sabe se mais usou ou foi usado pela classe rica, na busca de um poder que só compartilham na aparência, enquanto afiam as lâminas.

Nas responsabilidades da classe média estão as dos militares, em particular a da oficialidade do Exército, ativa e reformada. É imaginável que seu pudor profissional, já com muitos hematomas, esteja agora envolto em sentimentos misturados que a perplexidade silencia. Aos olhos da paisanada, a formação do militar do Exército está sob muitas interrogações. Não só pela figura central, mas também pelo endosso que lhe foi dado e pela associação que, noticiou o "Estado de S. Paulo", já conta com mais de uma centena de militares em postos do governo.

Aos militares do núcleo de poder há que reconhecer o respeito demonstrado por suas funções, na relação com os cidadãos. Nada de arroubos, nem de exibicionismo. Apesar de daí decorrer, também, o desconhecimento geral do que pensam esses militares, mesmo que só como definições de políticas públicas. E isso inquieta, porque é quase unânime a percepção do péssimo estado do país. E do que alguns ministros já começaram para piorá-lo.

Má conduta tuiteira tem a ver com o Ministério da Justiça, embora também com a área da comunicação. O cargo de ministro pode ser um prêmio, ou retribuição, mas isso não dispensa de deveres. O ex-juiz hoje é tão ministro quanto fugitivo: sempre fugindo de indagações a que não responde porque não disse, nem fez, o que as dispensaria, e era do seu dever.

Na casa de Sergio Moro, a vitória de Jair Bolsonaro teve comemoração, levada por sua mulher às redes sociais. Prova de identificação que elimina as hipóteses de encontro com o inesperado, por parte de quem renegou a toga para estar ao lado de quem hoje escandaliza. Moro leva a muitas afirmações de surpresa, entre seus admiradores, mas não pode se surpreender com "o mito".

Jair Bolsonaro encerrou sua mensagem suja com este pedido: "Comentem e tirem suas conslusões" (sic). No que me cabe, pedido atendido.

Janio de Freitas
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