6 de mar de 2019

Lá vem o Brasil descendo a ladeira...

Retrato do Brasil varzeano
A política de Bolsonaro e de seus hiperativos acólitos tem densidade de cosmovisão ou será apenas um ruído sem sentido? Há “Leitmotiv” na desgovernança dos últimos dois meses ou estamos à deriva num mar de non-sense? O que é isso que estamos experimentando no espaço público brasileiro?

A perplexidade tem razão de ser. Seria fácil rotular essa coisa instalada no comando da nação como “fascista”, autoritário ou populista.

E, de fato, o furacão Bolsonaro tem muito disso, mas apresenta elementos não-coincidentes com esses fenômenos encontradiços na política do século passado.

O fascismo do século XX era nacionalista e usava a força, o terror e o arbítrio contra a população de forma calculista, para amalgamar um rebanho e excluir dissidentes. Extraía desse amálgama sua força, com objetivo de criar uma “política nacional” frente a “inimigos internos e externos”. O “nacional” era o elemento que oferecia razão de ser a toda sorte de violência.

Era glorificado para criar uma identidade de “povo”, em nome do que se justificavam ações de Estado. Agradar à massa com melhoria de vida era necessário para manipulá-la contra os eleitos pelos fascistas a serem o anti-povo.

O populismo era essencial na dinâmica da agitação propagandística: “Ein Volk, ein Reich, ein Führer” – um povo, um Estado, um líder, em bom português. O modelo sofreu mínimas variações entre os regimes de Hitler, de Mussolini, de Franco ou de Salazar: todos mobilizavam massas na disciplina, para ressaltar o valor do povo e da autoridade na construção do “nacional”.

A prática de Bolsonaro tem quase nada disso.

Ela é profundamente autoritária apenas como expressão de um achaque intolerante; é incapaz de mobilizar massas; antes, o próprio Bolsonaro é mobilizado por uma horda virtual de bronca a tudo e todos e, de “nacional”, não entende lhufas: despreza as prioridades estratégicas do país como “coisa de esquerda” e adula o trumpismo tosco de supremacia do interesse norte-americano (“America first”).

A semelhança com fascismo, porém, está na forma, no manifesto: Bolsonaro injeta ódio no espaço público, feito os nazistas, para estigmatizar e destruir quem ele abomina.

Mas, existe “bolsonarismo” como ideologia? Parece que não, pois a tosquice do discurso não permite identificar um modo uniforme, concatenado de idealizar a realidade com valores claros. Simplesmente nega tudo o que houve antes de Bolsonaro ser ungido presidente, desqualificando ações e princípios afirmados no como “coisa de esquerdista”.

No entanto, esse discurso primário tem utilidade; há quem tire proveito dele. E quem o faz tem ideologia, tem propósitos e tem valores. A bancada evangélica, por exemplo, é um dos atores que sai claramente ganhando com o desgoverno de Bolsonaro.

No meio da barafunda de dizes e desdizes de autoridades desautorizadas, ela avança com sua pauta fundamentalista e de intolerância para com quem não compartilhe seus pontos de vista, que servem à desmobilização da população miserável insatisfeita.

Da mesma forma, certas corporações da carreira pública conseguem impor uma agenda gestada muito anteriormente a Bolsonaro, de “law and order”, que tem na transgressão – criminosa ou não – a fonte de todos os males do país e justifica, com isso, o empoderamento de atores da repressão, a expansão do direito penal e a limitação de garantias fundamentais.

Está em marcha o desmonte do estado democrático de direito como foi concebido na Constituição de 1988. Esse desmonte é radical e não para nem mesmo diante de obstáculos institucionais. O STF, por exemplo, guardião máximo da ordem jurídica posta, é alvo de permanente ataque.

Seus ministros são insultados como corrompidos, sua independência é transformada em vício. Não terão paz enquanto não se adequarem à agenda fundamentalista e de “law and order”. O garantismo é posto como fraqueza e traição à “cidadania de bem”.

Quem é acusado pelo ministério público é, por isso mesmo, já condenado e não merece qualquer defesa. Advogados são expostos como o capeta na terra, a força da degeneração: ganhariam dinheiro “sujo” de quem já fadado à desgraça por ter caído nas malhas dos justiceiros. Há, entre os ministros supremos – agora permanentes candidatos à execração pública – os que, embevecidos por serem festejados como liberais nos costumes, preferem, em matéria penal, já vestir a capa de verdugos, por acreditarem, com isso, estarem menos expostos à ira dos novos tempos.

Tornam-se incapazes de enfrentar contramajoritariamente a balbúrdia fundamentalista.

Com o esfacelamento da cidadania democrática e a emasculação de seus garantes, não há mais princípio sagrado a segurar a empáfia dos novos donos do poder. Gabam-se de suas heresias contra os tabus da correção política. Esbravejam racistas, misóginos e homofóbicos contra todos que vislumbram fracos o suficiente para não resistirem a sua fúria verbal e de fato.

E, no entanto, com tanto vitupério e tanta bazófia, são, eles, os fracos e enfraquecem o Estado que assaltam na ignorância. Nisso, estão na contramão do fascismo.

A começar pelos símbolos nacionais. A ideologia do estado-nacional é a do consenso em torno do Estado. O patriotismo é como combustível psicológico de massa para produzir esse consenso.

Símbolos nacionais como o hino, a bandeira e, no futebol, a camiseta da seleção não podem pertencer a grupo, seja ele religioso, seja político, pois essa indevida apropriação fragmentaria o sentimento de nacionalidade, enfraquecendo o consenso necessário a todo projeto nacional.

Pois bem: Bolsonaro e seus apoiadores fizeram exatamente isso – tomaram para si os símbolos nacionais, de certa forma até com conivência da justiça eleitoral, para se distinguirem de seus adversários, principalmente o PT e o PCdoB, que adotavam, como marca partidária, a bandeira vermelha.

“Nossa bandeira nunca será vermelha”, porque é “nossa” e não “deles”. Ao assim procederem, arriscaram a rejeição a esses símbolos por todos que não comungam com o fundamentalismo dessa turma. Sem dúvida, criaram ambiente de clivagem política a afetar seriamente o consenso sobre projetos nacionais.

Mas não foi só isso.

A vulgaridade com que Bolsonaro tem se havido no exercício da presidência da República tem comprometido gravemente o decoro da função e a majestade do cargo: fez-se fotografar com camiseta falsa de seu time de futebol, de chinelos sem meia, no Palácio da Alvorada, em ato de governo; tem batido boca em redes sociais com jornalistas, artistas e professores; tem usado redes sociais para fazer ameaças a categorias de servidores e, mais recentemente, até reproduzido vídeo pornográfico para achincalhar os festejos populares do carnaval.

Bolsonaro não tem se portado como se espera do magistrado mais alto da nação e, sim, como um garoto estúpido a chamar todas e todos para a briga na rua.

Com isso, infligiu indiscutível prejuízo à dignidade do cargo que ocupa, destruindo o simbolismo da função presidencial na formação da nacionalidade.

No futuro, mesmo com outro mandatário, vai ser difícil exigir respeito ao detentor do cargo, depois de tanta deslavada vulgarização do titular e isso tem consequências sérias para a fidelidade que se espera de cidadãs e cidadãos à ordem e à autoridade constituída, cerne da estatalidade.

A quem interessa tamanha destruição do sentimento nacional?

As movimentações políticas externas do governo de Bolsonaro oferecem algum indicativo para a resposta. Ao infringir flagrantemente, no trato com a crise venezuelana, o artigo 4.º da Constituição, que determina reger-se, a República Federativa do Brasil, “nas suas relações internacionais”, dentre outros, pelos princípios da “não-intervenção” e da “autodeterminação dos povos”, alinhou-se, contra toda a tradição diplomática do país, aos Estados Unidos da América do Norte de forma absolutamente acrítica.

Fez o papel de menino de recados do presidente norte-americano, desqualificando o governo legítimo eleito do Presidente Nicolás Maduro.

Não muda em nada essa constatação a circunstância de o vice-presidente general Mourão ter recusado, mais por prudência do que por convicção, o desejo yankee por uma aventura armada contra o país vizinho.

Permanece, no governo Bolsonaro, a clara postura de se arrogar a condição de julgador da legitimidade de governos estrangeiros, se estes não compartilharem sua condição subalterna aos interesses de Washington.

Nem mesmo nos anos de ditadura militar se viu tamanho desprezo pelo interesse nacional.

Washington agradece. Foi de lá dirigido o processo político que redundou no golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, ao se criar, através da “Operação Lava-Jato”, o esgarçamento da governabilidade.

Os norte-americanos, cooperando com setores da corporação policial e do ministério público, cuidaram de destruir, junto com a indústria da construção civil e da produção petrolífera nacional, a reputação dos atores políticos. Abateram a Petrobrás e garantiram a participação altamente lucrativa de suas empresas na exploração do petróleo do pré-sal brasileiro.

Bolsonaro foi feito presidente para dar continuidade ao esquartejamento da economia nacional. Para tanto, contou com a neutralização de seu principal adversário, o ex-Presidente Lula, e o impulsionamento de mensagens mentirosas por redes sociais, em escala industrial, com custo coberto por fontes suspeitas a merecerem averiguação.

Bolsonaro é isso: o destruidor do sentimento de brasilidade, a bactéria feita para decompor o interesse nacional. Conseguiu, em meros dois meses, dizer a que veio – transformar o Brasil em “failed state”, pronto a ser explorado pela ganância hegemônica norte-americana.

Ideologia, não tem nenhuma, mas serve à dos outros, se isso for útil para lhe facilitar a missão.

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça
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Conheça o bloco onde foi filmado vídeo de ''golden shower'' compartilhado por Bolsonaro

De São Paulo, o BloCU publicou nota em repúdio à publicação do presidente, que classificou como "irresponsável e indecorosa". BloCU esclarece não ser responsável pela ação de cidadãos em local público

BloCU se concentrou no Pátio do Colégio e desfilou pelo Centro de São Paulo na tarde de segunda-feira
O vídeo com cenas obscenas compartilhado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi filmado na segunda-feira, durante o desfile do BloCU, no Centro de São Paulo. O bloco, que defende o respeito à diversidade, publicou declaração sobre a repercussão da publicação do presidente.

O BloCU lamentou que “o atual presidente do Brasil tenha escolhido, de forma irresponsável e indecorosa, um fato isolado sobre o carnaval de 2019 para postar em suas redes sociais”.

A nota também afirma que nenhum problema de segurança ou ofensa foi reportado durante o transcurso da festa. Segundo o grupo, a atitude de Bolsonaro “incita o ódio à comunidade LGBT+ e desmerece a voz das ruas na maior e mais importante festa brasileira, o carnaval, uma manifestação política por natureza e vitrine cultural da primeira economia da América do Sul”, diz a nota.

O BloCU lembra que o Brasil é o país que mais mata a população LGBT no mundo e informa que a missão do bloco é propagar o respeito às diferenças, repudiando toda forma de intolerância.

O BloCU também desfilou em Lisboa (Portugal), no sábado, dia 2. O desfile foi chamado de cortejo-manifesto "pelo direito às ruas e pela tolerância, contra fascismo, homofobia e todo tipo de discriminação".

No vídeo repercutido por Bolsonaro, dois homens, em cima de um ponto de ônibus, aparecem fazendo gestos escatológicos e obscenos. Um deles urina sobre o outro, numa prática conhecida como “golden shower”, na tradução, chuva dourada. Trata-se da excitação sexual associada ao ato de urinar.

O presidente, junto da publicação, diz que não se sente "confortável em mostrar, mas temos que expor a verdade para a população ter conhecimento e sempre tomar suas prioridades. É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro". Bolsonaro voi alvo de uma série de críticas e protestos durante o carnaval em todo país.

Flávia Ayer
No EM
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Presidente da República (sic) rasga a fantasia no twitter


Só não digo que seita fechada é o seu cu porque não averiguei o estado das pregas. Olavo de Carvalho, guru da família Bolsonaro, em comentário público sobre opinião de que liderava uma seita, dada por outro ultraconservador, Rodrigo Constantino

Vamos libertar o povo do socialismo e do politicamente correto. Jair Bolsonaro, em discurso após receber a faixa presidencial

“Ele tomou um porre de corote com catuaba”, resumiu uma bem humorada internauta sobre o comportamento do presidente da República do Brasil, Jair Bolsonaro, no twitter.

Ela se referia ao fato de que o perfil presidencial publicou, para quase 3,5 milhões de seguidores, um vídeo gravado em um bloco de carnaval registrando um golden shower, um banho de urina, e generalizando: “É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro”.

Antes de banhar os cabelos com a urina alheia, a pessoa filmada enfia o dedo no próprio ânus.

As imagens foram gravadas no Carnaval deste ano durante o desfile do Blocu, em São Paulo.

O fato é que o vídeo, que poderia se esperar na postagem de um adolescente, está correndo o mundo como simbólico do carnaval brasileiro.

Além de mentira, parece refletir resposta às críticas e ofensas feitas a Bolsonaro por foliões que desfilaram em blocos de várias cidades do país e sugeriram ao presidente da República fazer o mesmo que a pessoa do vídeo.



“Bolsonaro é o carai” foi outra expressão incorporada por milhares de brasileiros aos festejos deste ano.

Internautas sugeriram que a conta, na verdade, é controlada pelo vereador Carlos Bolsonaro, que administrou as redes sociais do pai durante a campanha eleitoral de 2018.

Depois da demissão do ministro Gustavo Bebianno, fritado no twitter supostamente por Carlos, a imprensa corporativa especulou que o núcleo militar do governo pretendia afastar os três filhos de Bolsonaro do dia-a-dia do governo.

Porém, dias depois o próprio presidente escreveu, também numa rede social, que continuaria a ouvir o filho.

A disseminação do vídeo pelo perfil do presidente causou estupefação em alguns.

A jornalista Monica Waldvogel, por exemplo, perguntou se o perfil era mesmo do presidente da República e, respondendo a um segundo comentarista, acrescentou: “E falta decoro”.

Ao que Jair Bolsonaro, de maneira inacreditável, respondeu: “E pra vocês. Falta o que?”

Qualquer colegial dirá que por trás da pergunta está a sugestão de que falta à jornalista alguma coisa no âmbito sexual.

O correspondente escocês Andrew Downie retuitou a mensagem original de Bolsonaro, aquela acompanhada do vídeo, com a hashtag #naoestouinventando.

Depois, acrescentou: “O que há com estes malucos de direita e vídeos de gente urinando?”

Christopher Steele, um ex-agente do serviço de espionagem M16, do Reino Unido, escreveu um dossiê segundo o qual a Rússia teria gravado o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, envolvido num golden shower com mulheres russas num quarto de hotel.

O vídeo, cuja existência jamais foi provada, seria a peça através da qual Vladimir Putin faz chantagem política contra Trump.

Outro correspondente internacional, Tom Phillips, do diário britânico Guardian, reproduziu a troca de mensagens entre o presidente da República e a jornalista Monica Waldvogel e apelou: “Alô, alô Brasil, alguém tome o telefone dele, rápido”.


No Viomundo
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Um maluco no Planalto


O tenente que virou capitão ao ser expelido do Exército voltou à toda. Jair Bolsonaro faz questão de exibir sua total incapacidade de ocupar o cargo conquistado devido a fraudes de todo o tipo. É um caso para os hospícios que sua equipe pretende ressuscitar. Em vez de uniformes pirateados, Bolsonaro estaria melhor vestido com uma camisa de força.

Em poucos dias, disparou contra as universidades, defendeu a legalização do extermínio praticado por policiais ou qualquer cidadão e atacou artistas que criticam suas ideias paleolíticas. Tudo mediante mensagens de twitters, que comportam o número de caracteres que ele consegue escrever sem tropeçar no vernáculo elementar.

Aos olhos do Planalto, essa estratégia parece suficiente para dirigir um país como o Brasil. Ledo engano. O Brasil é uma das dez maiores economias do mundo. Tem a quinta maior população do planeta. Suas reservas de petróleo estão entre as maiores da Terra. O mercado interno possui um potencial cobiçado internacionalmente. A Amazônia é uma joia da coroa do meio ambiente.

Deixar tudo isto nas mãos de um desequilibrado de extrema-direita vem se mostrando um perigo maior do que qualquer um poderia imaginar. Mesmo os abutres do capital financeiro se perguntam se não foram longe demais.

Eles também se perguntam se uma coalizão de milicianos paramilitares, ladrões assumidos de dinheiro público e adversários de costumes civilizados podem dirigir um país como o Brasil. Em política, mesmo as aparências valem bastante. Para a famiglia Bolsonaro, porém, nada valem.

Todos sabem que a Previdência é a “mãe de todas as batalhas”. A liquidação das aposentadorias, em benefício da banca privada, preocupa dez entre dez interessados em avançar sobre o dinheiro do povo. A recolonização do Brasil depende disso, junto com a privatização sem limites de estatais como a Petrobras, Caixa Econômica, Banco do Brasil etc.

Bolsonaro foi quem sobrou para dirigir o trabalho sujo. Por incrível que pareça, o Congresso pode ser um obstáculo. A bancada do Partido Só de Laranjas, o PSL do tenente que virou ex-capitão, é uma incógnita. O restante dos parlamentares ainda pesa na balança quanto custaria em votos e em dinheiro o apoio a um projeto tão impopular.

O decisivo, em todo caso, é a reação do povo. A CUT e as demais centrais sindicais, que insistem em chamar greves gerais fora de hora para depois recuar, tem o dever de levar a sério o combate que está em jogo. E repetir, em escala ampliada, a greve vitoriosa de abril de 2018. Se a oposição não se der conta de que Bolsonaro e sua turma estão determinados a incinerar os tímidos avanços que o Brasil conseguiu, os aeroportos serão a única saída.

Ricardo Melo é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia
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Suprema Obscenidade

Não sei o que é mais obsceno, se o vídeo postado pelo capitão ou a indignação tardia daqueles que o ajudaram a se eleger.

Esperavam outra coisa de uma abominação intelectual e moral?

Qualquer pessoa medianamente informada sabia, há muito tempo, que o capitão sempre foi isso. Uma obscenidade política ambulante que, em mais de três décadas de vida pública, se dedicou a defender as piores e mais desavergonhadas barbaridades.

Afinal, o que é mais obsceno, o vídeo ou a defesa entusiasmada da tortura e de torturadores? O que é mais obsceno, o vídeo ou o elogio desavergonhado à ditadura? O que é mais obsceno, o vídeo ou propugnar, em praça pública, a morte ou o exílio de opositores?

O laranjal não é obscenidade típica de baixo clero?

O assassinato sem solução de Marielle não é uma grande obscenidade? O exílio forçado de Jean Wyllis, comemorado pelo capitão, não é uma obscenidade antidemocrática?

Racismo, homofobia e misoginia, insuflados abertamente pela armada Bolsoleone, não são gigantescas obscenidades “anticivilizatórias”? A reforma da Previdência não é uma profunda obscenidade social?

Bater continência para a bandeira americana e para qualquer delegado de Trump não é uma obscenidade contra a pátria? Aliar-se acriticamente a Trump, prejudicando os interesses nacionais, não é uma obscenidade ofensiva ao Brasil?

Que pudor há em gente que quer vender o país e os direitos de seu povo na bacia das almas da ganância do capital financeiro?

Era inteiramente previsível que o governo Bolsonaro fosse resultar nesse caos desavergonhado de propostas estapafúrdias e de declarações obscenas que envergonham o Brasil perante o mundo todo.

Até este modestíssimo escriba fez inúmeras advertências sobre a aposta irresponsável na criminalização da política e do PT. Chegamos a escrever, cerca de um ano antes das eleições, que o Brasil teria de escolher entre Lula e o fascismo que se agigantava.

Os hipócritas que hoje manifestam indignação ante as inúmeras obscenidades de Bolsonaro preferiram, no entanto, derrubar Dilma, sem crime de responsabilidade, e prender Lula, sem crime algum. O importante, diziam, era tirar o PT. Prometiam que, dois meses após a queda do governo progressista, tudo voltaria à “normalidade”.

Pois agora temos de tudo, menos qualquer coisa que se pareça com normalidade.

Não temos normalidade democrática, nem social, nem econômica. Vivemos a pior crise da nossa história, e essa crise vem sendo “administrada” por gente que não seria capaz de administrar um singelo condomínio.

Com base no ódio insuflado pela mídia corporativa e a direita tradicional, e por fake news bancadas por grandes grupos econômicas, elegeu-se escória semelhante à que existia na barragem de Brumadinho. Previsivelmente, essa escória inundou a representação política e o aparelho de Estado.

Agora reclamam que a escória é suja? Não sabiam?

A grande obscenidade não é o vídeo que Bolsonaro postou. A grande obscenidade é ter se estimulado a eleição de alguém como Bolsonaro. Alguém que causa repugnância até mesmo na extrema direita que tem um verniz mínimo de civilidade. Alguém que transformou o Brasil na grande chacota mundial.

A suprema obscenidade é eleger Bolsonaro e manter Lula como preso político.

Marcelo Zero
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Bolsonaro decide processar o presidente autoproclamado Zé de Abreu


Após divulgar em conteúdo obsceno para mais de três milhões de seguidores no Twitter, configurando quebra de decoro para o cargo que ocupa, Jair Bolsonaro agora decidiu partir para cima do presidente autoproclamado José de Abreu. 

Também pelo Twitter, Bolsonaro afirmou que irá processar o presidente Zé de Abreu. "Estamos processando alguns e este 'meteoro' será o próximo!", escreveu Bolsonaro em resposta a tweet em que Zé de Abreu o chamava de "fascista". 

Depois de postar o vídeo obsceno, Bolsonaro tentou amenizar apresentando-se como alguém "inocente" e perguntou: "O que é golden shower?", "chuveiro dourado", expressão para uma pessoa urinar no cabelo de outra. Recebeu a resposta do presidente autoproclamado Zé de Abreu.

"Golden shower é um termo em inglês para se referir a cheques depositados na conta da primeira dama, referentes ao pagamento de um suposto empréstimo de R$ 40 mil para quem movimentou R$ 7 milhões em três anos, presidente. Chove ouro".

O jurista Miguel Reale Júnior, um dos autores do processo que resultou na deposição da presidente eleita Dilma Rousseff, disse que a divulgação do vídeo contendo atos obscenos por Bolsonaro configura quebra de decoro e pode justificar a abertura de um processo de impeachment. 

Segundo Reale, Bolsonaro pode ser enquadrado na lei 1.079 de 1950, que diz que é crime contra a probidade na administração pública "proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo"

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É constrangedor ter um mentecapto na Presidência da República

É constrangedor ter um mentecapto na Presidência da República – faz ter vergonha de ser brasileiro, de ser concidadão de 58 milhões de pessoas que escolheram um sujeito assim, que nunca disfarçou que é assim, apenas porque ele expressava melhor suas fobias, seus preconceitos, sua mesquinharia, sua truculência e sua estupidez. Constrangimento e vergonha à parte, porém, é impossível refutar que é melhor que ele seja desse jeito. Ele é incapaz de governar, mas capaz de atrapalhar o governo. O ethos machista e autoritário que é parte fundamental de sua persona pública tornou-se tão entranhado que, mesmo sendo obrigado a reconhecer sua própria incompetência, ele não aceita ser tutelado.

Estamos andando no fio da navalha. É importante que existam, dentro do governo, grupos capazes de impedir irresponsabilidades criminosas – como a guerra contra a Venezuela, que, se dependesse do chefe e de seu alucinado chanceler, já estaria em curso. Mas certamente estaríamos em situação pior caso o poder fosse transferido para o general, inteligente o suficiente para fazer o media training, aprender com ele e se metamorfosear magicamente do golpista hidrófobo, antipovo, antinação e racista que sempre foi nesse sábio avozinho moderado e tolerante que agora vemos nos jornais todos os dias.

Dilemas da situação dramática em que nos encontramos, em que o campo democrático e popular está tão fragilizado que depende desesperadamente dos erros de seus adversários para continuar no ringue.

Mas, para além da conjuntura imediata, o episódio de ontem – o goldenshowergate, por assim dizer – faz pensar sobre a presença de governantes em mídias sociais. Sim, temos aqui um caso extremo, um desocupado que não tem condições cognitivas de exercer as funções que o cargo exige, então é instado a buscar incessantemente uma gratificação imediata com os brados de “mito” que são lançados pela turbamulta virtual que o acompanha. Irrelevante no governo que preside, ele precisa buscar um simulacro de importância no Twitter.

Mas mesmo para pessoas mais equilibradas as mídias sociais apresentam incentivos equivocados. Elas são um veículo de absoluta personalização da política, que é o contrário do que se espera para o bom funcionamento do regime representativo. Operam por meio da exacerbação dos antagonismos, ao passo que o governo deveria trabalhar para a ampliação dos consensos; por isso, repudiam a negociação e a barganha, que são, porém, instrumentos imprescindíveis da ação política. Exigem resposta imediata a cada evento, trabalhando contra a temporalidade mais distendida necessária a um processo decisório saudável. Promovem uma redução do público a “seguidores”, o contrário dos cidadãos críticos, engajados no debate, que habitam o ideal democrático.

Não tenho nenhuma ilusão de que andaremos nessa direção, mas talvez fosse razoável proibir que ocupantes de cargos públicos tivessem perfis em mídias sociais – só o perfil institucional, em nome do cargo e não de seu ocupante, destinado à divulgação oficial de medidas, proposições e esclarecimentos. Poderíamos ir um pouco adiante e proibir também que qualquer candidato mantivesse perfil pessoal. Não é nenhuma solução milagrosa, mas uma pequena contribuição para a desmemificação do debate público.

Luís Felipe Miguel
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Presidente escatológico

Tuíte com baixaria de Bolsonaro
Tinha escrito, ontem cedo, que Jair Bolsonaro, “mordido”, usava seus arroubos carnavalescos no Twitter como o “que pôde ter como resposta publicável” aos xingamentos que recebeu por toda parte dos blocos carnavalescos.

Não podia imaginar que era tanta a raiva presidencial que ele chegaria ao ponto que chegou: de distribuir um vídeo escatológico como prova de que o carnaval de rua é uma reunião de devassos, imundos e sexualmente promíscuos. E, indiretamente, sugerir que eram estes os que lhe dirigiram impropérios.

Comportamento indecoroso, de dois sujeitos em uma rua qualquer, diante de centenas de olhos durante a folia é caso desagradável que se resolve com delegacia de polícia.

Comportamento indecoroso de um presidente da República, publicando péssima pornografia em redes públicas, perante os olhos de milhões de pessoas, resolve-se como?

Em ambos os casos, o problema é de exposição pública de taras.

No caso dos sujeitos do vídeo, se chocantes, também irrelevantes.

No caso de Bolsonaro, uma tentativa abjeta de um chefe de Estado transferir para seus adversários a chaga de apoiadores da devassidão, usando pornografia.

Temos, além de tudo, um presidente escatológico.

Com tudo o que isso quer dizer sobre o julgamento de suas capacidades mentais e morais para dirigir a vida de 210 milhões de pessoas.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A briga de facções entre Lava Jato e os Bolsonaro


Tales Faria é um dos mais experientes repórteres políticos brasilienses, jornalista de total confiabilidade. No seu Blog na UOL, Tales descreve a reação de procuradores da Lava Jato à humilhação imposta ao ex-juiz Sérgio Moro por Jair Bolsonaro, desautorizando uma indicação dele para um cargo irrelevante.

Mencionaram as investigações sobre o Ministro do Turismo, sobre Flávio Bolsonaro e suas relações suspeitas com milicianos. No artigo de Tales, fica mais do que caracterizada a guerra entre facções políticas, com um dos lados dotado de poder de Estado, de investigar, denunciar e prender.

E caracterizo como facção política porque, com a decisão de se apropriar de R$ 2,5 bilhões das reparações pagas pela Petrobras, a Lava Jato.

A ameaça dos homens da Lava Jato não visa livrar o país da mancha de ser governado por um presidente suspeito de envolvimento com milícias, posto que foram e são sócios do projeto de poder dos Bolsonaro. É disputa de território.

Desde o início havia uma atuação política explícita de Sérgio Moro e seus procuradores, no Power Point, no vazamento de conversas privadas entre Dilma e Lula, na divulgação de depoimentos antigos de Antonio Palocci nas vésperas das últimas eleições. O que pretendia Moro ao aceitar o cargo de Ministro da Justiça de um governo envolvido com milicianos – ou os procuradores cariocas não sabiam disso antes mesmo das eleições, ou Sérgio Moro, o juiz com maior experiência em tratar com organizações criminosas não havia sido informado?

Para quem ainda duvidava, ali ficava explícito que a Lava Jato saira definitivamente dos trilhos e caminhava para se institucionalizar como poder autônomo, sem ser incomodada pelos sistemas de controle do Judiciário e do Ministério Público. Hoje em dia tem mais poder que a própria Procuradoria Geral da República e, agora, mais orçamento.

Aliás, parte da extrema condescendência com que são tratados pela mídia talvez seja explicado pelas operações que desapareceram do noticiário. Por onde andará a lista dos correntistas internacionais do HSBC? E a contabilidade apreendida no escritório Mossak Fonseca, que o MPF e a Polícia Federal invadiram julgando encontrar offshores em nome de Lula, e acabaram se deparando com contas de grupos de mídia? Por onde andam as investigações sobre o escândalo da CBF, os documentos enviados pelo Ministério Público espanhol e pelo suíço? As investigações foram interrompidas? Estão sendo tocadas? O que procuradores que se especializaram há anos no uso político de informações sigilosas, estão fazendo com esses arquivos?

Agora, com o controle de uma fundação dotada de patrimônio de R$ 2,5 bilhões da Petrobras, ganham a possibilidade da institucionalização final, sem as limitações da carreira, sem uma transferência imprevista, uma promoção que os afaste do pote de ouro da Lava Jato: lançando as bases para um partido próprio, o representante maior da ultra-direita com método, que enxerga a disputa política como uma luta de extermínio total dos adversários.

Os abusos da apropriação dos R$ 2,5 bilhões

O dever do MP de reparar interesses coletivos lesados por ações criminosas ou meros desvios administrativos já é regulado por várias leis do país, sendo a mais relevante a Lei 7347, de 1985, que instituiu o Fundo dos Direitos Difusos Lesados. Para garantir uma atuação técnica, imparcial, não individual desses recursos, não poder ser algo ligado do gabinete de um grupos de procuradores. Agindo assim, estão frustrando todo o sistema legislativo, assumindo papel do Executivo, o que representa nítida ofensa à separação de poderes. Com essa fundação, a Lava Jato está ferindo o princípio da separação de poderes e todas as cláusulas pétreas:

§4º. Não será objeto de deliberação a proposta de emenda à constituição tendente a abolir:

I – a forma federativa do Estado;

II – ao voto direto, secreto, universal e periódico;

III – a separação dos poderes;

IV – os direitos e garantias individuais.

Os abusos na criação dessa fundação merecem uma representação correcional. A Procuradoria Geral da República não pode se furtar a essa responsabilidade.

Não se tenha dúvida. A maior ameaça à democracia não é uma família desequilibrada e sem noção, como os Bolsonaro. Nem sequer o poder militar. Pelas informações disponíveis, as Forças Armadas dispõem de um Alto Comando profissional e respeitador da Constituição.

São os jovens turcos da Lava Jato a caminho do poder.

Luís Nassif
No GGN
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Quem matou? Quem mandou matar? Política e polícia no assassinato de jornalistas


Documentário: Quem matou? Quem mandou matar? Política e polícia no assassinato de jornalistas
Duração: 38:55

Direção
Bob Fernandes
João Wainer

Roteiro e Montagem
André Felipe

Reportagem
Bob Fernandes
Bruno Miranda

Produção
Lucas Ferraz

Produção executiva
Thiago Herdy
Guilherme Alpendre

Fotografia
Bruno Miranda

Direção de fotografia
Bruno Miranda

Som direto
Bruno Miranda

Um projeto da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo)
Apoio: Open Society Foundations

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