4 de mar de 2019

O autoproclamado presidente José de Abreu e a "Carta Roubada" de Allan Poe


Teve repercussão internacional, ele chamou o autoproclamado presidente Juan Guaidó para o debate e o Google o reconhece como presidente do Brasil. Estamos falando de uma perfeita bomba semiótica de trolagem (“culture jamming”): através do Twitter, o veterano ator José de Abreu se proclamou presidente do Brasil e vem postando resoluções executivas tais como convocar Chico Buarque para o ministério e Marcelo D2 se colocou à disposição para o novo governo. Uma trolagem perfeita num momento em que a grande mídia vive a saia justa de tentar dar naturalidade e lógica a eventos arbitrários na atual guerra híbrida no Brasil e Venezuela. O impacto estratégico dessa bomba de trolagem está na semelhança da questão semiótica proposta pelo conto "A Carta Roubada" de Edgard Allan Poe: o que procuramos pode estar na frente do nosso nariz – na intransitividade dos signos da grande mídia, tão vazios quanto uma nota de três reais.

Este “Cinegnose” vem insistindo em postagens e workshops nos quais participa que diante de um contexto de guerra híbrida, no qual a grande mídia combinado com a chamada “cultura de convergência” (redes sociais digitais e dispositivos móveis) têm papel central, as táticas de guerrilha semiótica são as primeiras formas de ativismo político.

Se no Brasil foi fácil as táticas de guerra híbrida encontrarem o gatilho cognitivo ideal para chegar ao impeachment de 2016 (a apropriação das manifestações de rua a partir de 2013, anti-petismo e polarização da opinião pública), na Venezuela as coisas fugiram ao script.

Mesmo depois da mídia corporativa internacional e agências de notícias baterem nos “indicadores macroeconômicos em colapso”, no “aumento da desnutrição” e “regressão epidemiológica” (que, de resto, o Brasil apresenta o mesmíssimo quadro) transformando a Venezuela em “tragédia humanitária internacional” e enquadrar o presidente Maduro como “ditador”, o governo insiste em não cair.

A perplexidade é tão grande que o Comandante Sul das Forças Armadas dos EUA, general John Kelly, em entrevista à CNN, apontou explicitamente que o interesse norte-americano na Venezuela é ter o controle sobre as maiores jazidas de petróleo do planeta (clique aqui), mandando às favas qualquer prurido moral.


Golpe virtual

Como acompanhamos recentemente, a última cartada foi o líder opositor Juan Guaidó se proclamar presidente da Venezuela: se do lado dos EUA, sem vacilar, as intenções se tornaram explícitas, então do lado midiático o jogo da cena acabou – se o golpe não deu certo, a mídia empossa Guaidó como novo presidente e cria um golpe virtual, contando até com apoio internacional. Para começar, do inacreditável clã Bolsonaro.

E o Dia D foi 23 de fevereiro, no qual o auto empossado presidente lideraria a entrada de “ajuda humanitária” pelas fronteiras da Venezuela, através do Brasil. Um Cavalo de Tróia, para colocar dentro daquele país armas e agentes mercenários para tentar desestabilizar o governo Maduro. Esperavam-se soldados desertando para o lado brasileiro e um povo aliviado dando apoio à causa “humanitária”. Porém, nada aconteceu! A não ser a figura do presidente virtual acenando para a claque midiática.

Enquanto isso, a grande mídia brasileira vive uma dupla saia justa: de um lado assumiu a missão de dar alguma racionalidade, método ou um mínimo de seriedade nas intenções em um governo brasileiro no qual ministros e generais batem cabeça e falam barbaridades em série; e do outro, dar sua cota internacional de ajuda ao autoproclamado presidente Juan Guaidó e encontrar também alguma racionalidade em um político que repentinamente se auto nomeia alguma coisa.


A trolagem de José de Abreu

Em meio a esse cenário no qual jornalismo corporativo parece ter perdido totalmente o pudor, eis que o veterano ator José de Abreu dispara uma bomba semiótica de trolagem – “culture jamming”, ativismo semiótico de guerrilha que visa romper ou subverter conteúdos midiáticos, expondo suas verdadeiras intenções ou artificialismo.

Na noite do dia 25 de fevereiro, José de Abreu se proclamou presidente do Brasil numa série de publicações no Twitter, ironicamente dizendo que seguia o exemplo do líder da oposição venezuelana.

“A partir de hoje (25) eu sou o autodeclarado Presidente do Brasil. Igual fizeram na Venezuela. Lulá está nomeado chefe da casa civil, militar e religiosa do Brasil”, escreveu o ator. Desde então, publica suas decisões como presidente.

Minutos depois, alguém foi à página da Wikipedia no verbete Brasil e mudou a linha referente ao presidente e colocou: “em disputa”, com uma nota de rodapé na qual lê-se que Zé de Abreu é o “presidente interino constitucional”, visto que “a posse de Jair Bolsonaro seria sem efeito”.

Sentindo o impacto da explosão dessa bomba semiótica, a mídia corporativa brasileira tenta minimizar seu estrago – enquadra a notícia em editorias como “Celebridades”, “Famosos” ou “Televisão”. Enquanto em sites internacionais a repercussão é como notícia política, como na “Brasil Wire”: “Meet Brazil’s new President: José de Abreu”... clique aqui.


Uma bomba perfeita

Uma perfeita bomba semiótica de trolagem. Se não, vejamos:

(a) Uma brincadeira ao mesmo tempo séria e irônica com esses tempos de “democracia plebiscitária” nas redes sociais. Como tenta a direita nacionalista de Trump, Bolsonaro e Steve Bannon, transformar as redes sociais em uma forma populista de “governo direto”, sem representação política. Na qual a discussão pública mediada é substituída por pitacos, bravatas e provocações visando deliberada polarização para travar qualquer debate racional.

(b) A trolagem de José de Abreu explicita no atual momento a ameaça de algo mais sério do que as fake news: a pós-verdade. Como o linguista Noam Chomsky argumenta, as pessoas não acreditam mais nos fatos e que o critério de verdade deixou de ser importante nas interlocuções pessoais. A trolagem do ator confirma de forma tragicômica o diagnóstico de Umberto Eco sobre a Internet e as redes sociais: “as mídias sociais deram direito à fala a legiões de imbecis que antes falavam só no bar, sem causar danos à coletividade”, frase dita após uma cerimônia na Universidade de Turim, em 2015.

(c) O despudor da grande mídia atual é tão grande que fica explícito o artifício e a intransitividade entre discurso e a realidade – como assim, alguém se autoproclama presidente e a comunidade política internacional o reconhece como Chefe de Estado?

O que lembra o conto de Edgard Allan Poe “A Carta Roubada” que inaugura a moderna literatura policial. Poe nos conta a história de uma carta que foi surrupiada e escondida onde ninguém encontra, mesmo estando na frente do nariz dos protagonistas: em um porta-cartas pendurado no meio da lareira.

Pois a constitucionalidade da autoproclamação de Guaidó e a democracia plebiscitária de Bolsonaro (que os analistas políticos do nível de Camarottis ou Mervais tentam encontrar alguma seriedade ou lógica) parecem-se com a carta de Poe: são meros significantes vazios e intransitivos, sem lastro com a realidade. Em termos linguísticos, significantes sem significados.

Enquanto no conto de Poe o delegado que investigava o roubo levava em conta as estatísticas dos seus anos de polícia (sempre os criminosos ocultam objetos roubados em lugares rebuscados), não considerou como um criminoso poderia agir com simplicidade – esconder a carta no lugar mais óbvio.

Pois a autoproclamação de Guaidó, assim como as inúmeras notícias da pauta do mainstream jornalístico, são como a carta roubada de Poe – são narrados e analisados como fatos lógicos, com uma racionalidade histórica.

Mas nada mais são do que nomes, signos tão vazios como uma nota de três reais.

A trolagem de José de Abreu explicita isso, ao repetir no humor e ironia o mesmo gesto de um personagem supostamente pertencente à realpolitik.

“Vamos respeitar a minha presidência como estão respeitando a do venezuelano, por que não”, publicou José de Abreu.

Esse é o objetivo estratégico de toda guerrilha anti-mídia: desmoralizar a agenda da grande mídia.

Wilson Ferreira
No Cinegnose
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O carnaval de Tânatos


Bolsonaro e seus seguidores nada mais são do que o ódio à humanidade que permaneceu recalcado até um conjunto de fatores permitir que viessem à tona. E nisso, bem antes dos robôs e do whatsApp, a grande mídia, com destaque para o grupo Globo, teve um papel fundamental.

Meu amigo de Facebook, Luiz Carlos de Oliveira, escreveu, muito corretamente, que a luta de classes organiza os afetos. Mas há uma dimensão tanática, inerente à nossa sociedade fracionada, que não pode ser esquecida. É nela que a bestialidade se sente legitimada. O ódio a Lula é seu ponto alto, mas como esquecer as ofensas à presidente Dilma, em sua condição de mulher? O discurso chulo, que viraliza e se compraz com o que existe de pior na espécie humana, é ponto identitário desta escória. É neste contexto que vejo a celebração do extermínio de negros: o prazer expresso a cada feminicídio cometido; as piadas sobre as vítimas de Brumadinho; o riso torpe com as agressões à comunidade LGBTQ. É nesse teatro de horrores que se comemora a morte de uma criança de sete anos. Que se toma um dependente químico como inspirador de máscaras e chacotas.

Mas o que são os bolsominions? São as aberrações latentes que se tornaram manifestas. São vermes que nos adoecem. São os que cultuam Ustra e a tortura. São os representados por um capitão de merda que elogia Stroessner, ditador paraguaio, responsável por mais de 400 execuções, e um conhecido pedófilo.

Confesso que estou paranoico. Neste carnaval, ao ver blocos e escolas desfilarem, uma dúvida me assaltava. Perguntava a mim mesmo quantos filhos da puta estão fantasiados de Eros para esconder os Tânatos que são? Mas a gente ainda varre essa escória pro lixo. Ah, varre! Não abro mão da esperança.

Gilson Caroni Filho
No GGN
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Para não esquecer: 3 de março de 1969

Higino João Pio
Em 03 de março de 1969, morreu Higino João Pio. Mesmo sendo prefeito de um dos maiores destinos turísticos do Brasil, Balneário Camboriú/SC, o AI 5 permitiu que fosse preso, torturado e assassinado por forças da repressão política. O mesmo ocorreu com muitos outros políticos importantes da época, que eram contrários ao regime ditatorial, como por exemplo, Rubens Paiva, no Rio de Janeiro/RJ.

Higino nasceu no interior do Estado de Santa Catarina e mudou-se para Balneário Camboriú ainda bem jovem para trabalhar. Era um cidadão simples e extrovertido, gozava de notória credibilidade frente à população local de Camboriú/SC. Tornou-se o primeiro prefeito eleito de Balneário Camboriú, em 1965, pelo Partido Social Democrático (PSD), assim que o município se emancipou de Camboriú. Em virtude de disputas políticas locais, foi acusado de irregularidades administrativas sendo, em fevereiro de 1969, preso por agentes da Polícia Federal. Conduzido para a Escola de Aprendizes de Marinheiros de Florianópolis, Higino foi interrogado e mantido isolado. Morreu em 03 de março, uma quarta feira de cinzas, aos 47 anos de idade, após estrangulamento, em ação perpetrada por agentes do Estado, que alegaram suicídio.

O “modus operandi” da repressão seguiu o mesmo roteiro adotado após o assassinato da maioria das vítimas. Foi emitido um laudo falso e a família obrigada a ficar calada, sob graves ameaças. Apesar do medo de todos, o enterro de Higino teve um dos cortejos mais numerosos já vistos na cidade de Itajaí/SC.

Em decisão de 15 de maio de 1997, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) reconheceu a responsabilidade do Estado brasileiro.

Para a decisão, a Comissão baseou-se principalmente nas fotos do corpo, encontrado trancado à chave, dentro de um banheiro, com o rosto encostado à parede. Tinha ao pescoço uma toalha. Ao contrário do que foi afirmado no laudo, de que ele estaria em posição de suspensão incompleta, o exame das fotos concluiu que a posição de suspensão incompleta era invisível do ângulo tomado. Pelo contrário, o prefeito Higino, um homem de grande porte, tinha os pés completamente apoiados ao chão.

O prefeito Higino recebeu várias homenagens póstumas, inclusive a atribuição, em 1976, de seu nome a uma praça na região central do município de Balneário Camboriú, onde se encontra o busto que consta dessa fotografia.

Resultado de imagem para Higino João Pio

“Para que não se esqueça, para que não se repita.”

P.S. – O presente texto faz parte de uma série de relatos que estamos publicando diariamente, sobre eventos que constituem graves lesões a direitos humanos.

A intenção é dar visibilidade à I Caminhada do Silêncio, em prol das vítimas de violações estatais, que a CEMDP está organizando para o dia 31 de março de 2019, em São Paulo.
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PMs quebram o braço do presidente do PT de Atibaia — assista

Presidente do diretório municipal do PT de Atibaia, Giovani Doratioto
“Meu companheiro teve o braço quebrado por um policial. Quebraram seu úmero e ele perdeu o movimento dos dedos. Não nos calaremos!”

Ontem eu, meu companheiro e outros camaradas estávamos participando da ação contra o assédio no carnaval e fomos interceptados por bolsominions, Geovani vestia uma camiseta do Lula, fomos xingados e ofendidos da maneira mais raivosa possível, quando viramos para ir embora um deles deu um murro no olho do Geovani e os outros pularam em cima dele da maneira mais covarde segurando o cabelo dele pressionando o rosto contra o chão, chutes na cabeça e nas costelas, dois seguravam e outros batiam. Quando chegamos na delegacia, Geovani foi algemado com duas algemas que eles apertaram o quanto puderam para machucar, quando aleguei que ele era diabético e que as extremidades estavam machucadas e arroxeadas eles então soltaram, quando questionamos o motivo dele ter sido algemado e os agressores estarem soltos do lado de fora, o policial disse que toda aquela agressão era pouca.

Do lado de fora eu vi policiais nitidamente defendendo as agressões direcionadas ao Geovani pelo simples fato do meu companheiro vestir uma camiseta do Lula.

Meu companheiro teve o braço quebrado por um policial por questionar as lesões e uso de duas algemas, quebraram o úmero e ele perdeu o movimento dos dedos.

Vivemos uma das fases mais obscurantistas da história do país, somos atacados gratuitamente e nossas vidas valem menos do que uma camiseta.

Não nos calaremos!

E é Lula Livre sim, seus fascistas de merda!

Publicado originalmente no perfil de Facebook de Pham Dal Bello. Sobre a agressão contra o presidente do diretório do PT em Atibaia, Giovani Doratioto

PMs são afastados após quebrarem braço de petista em delegacia, afirma ouvidor

Presidente do diretório municipal do PT de Atibaia -SP, Giovani Doratioto, teve braço quebrado dentro da delegacia
Reportagem de Leonardo Martins e Flávio Costa no UOL informa que pelo menos quatro policiais militares foram afastados do serviço de patrulhamento das ruas por envolvimento na abordagem que resultou na quebra do braço esquerdo de Geovani Leonardo Doratiotto da Silva, advogado e dirigente do PT. O caso aconteceu ontem (3) em uma delegacia de Atibaia (SP). A informação do afastamento dos PMs foi confirmada pelo ouvidor da polícia do estado de São Paulo, Benedito Mariano. “De acordo com a Corregedoria da PM, eles ficarão afastados até a conclusão da investigação.” Procurada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) não confirmou o afastamento.

De acordo com a publicação, Mariano havia enviado a gravação à Corregedoria da Polícia Militar pedindo que fosse aberta uma investigação sobre o caso. Em paralelo, Mariano conduzirá sua própria apuração ao ouvir Doratiotto, cujo depoimento está marcado para a tarde de quarta-feira (6). “O vídeo mostra que a quebra do braço é resultado do uso excessivo da força por parte dos policiais militares, a princípio. Vamos começar a apuração ouvindo Doratiotto, que passará por exames de corpo delito, caso já não tenha feito. Vamos pedir também o registro da ocorrência na delegacia”, afirma.

Procurada pelo UOL, a SSP ainda não se manifestou. Assim que o fizer, este texto será atualizado, completa o portal.



Por uma camiseta

"O Presidente do PT-Atibaia foi à delegacia prestar queixa de agressão sofrida no carnaval, por um fascista que odiou sua camiseta LulaLivre.

Chegando lá, os policiais o algemaram. A esposa filmou a agressão e conta: "Aleguei que ele era diabético e que as extremidades estavam machucadas e arroxeadas, então eles soltaram. Quando questionamos o motivo dele ter sido algemado e os agressores estarem soltos do lado de fora, o policial disse que toda aquela agressão era pouca”.

E continuaram, pelo que está provado no vídeo. Giovani foi submetido ao famoso mata-leão que já matou um inocente, mês passado.

O braço quebrado, a gente pode ver no próprio vídeo.

Os bandidos fardados, (dizem) foram afastados.

Sabemos que o expediente de tortura e filhadaputagem da delegacia, mudou o turno.

Não vai ficar assim. O cidadão não tem que pagar salário de vagabundo bolsonarista nenhum. Quer militar, tire a farda, o trabuco na cintura e vá pra rua lutar por dignidade e salários. Descontar frustração profissional no povo brasileiro, não, vagabundos."

Malu Aires
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“Vocês sabem muito bem o que estão fazendo e são assassinos”


“Os gangsters tomaram o poder no Brasil”, diz o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. E isso tem, naturalmente, consequências graves para as comunidades indígenas. “É uma situação tipo 1984 do [George] Orwell, você coloca o maior inimigo do meio ambiente como ministro do meio ambiente, o maior inimigo dos direitos dos indígenas como responsável pela Funai [Fundação Nacional do Índio. O Governo inteiro é montado nesse princípio: quem é a pior pessoa possível para este lugar?”.

Viveiros de Castro era já muito crítico dos governos anteriores do Partido Trabalhista de Lula da Silva e Dilma Rousseff também na forma como encaravam a questão indígena, mas agora vê uma diferença substancial. “Perto do actual Governo [de Jair Bolsonaro], aqueles eram o paraíso – e eu já os achava muito ruins pela total incapacidade de imaginar uma outra via de desenvolvimento que não fosse a do crescimento económico às custas da natureza, das terras públicas, dos modos de vida que não estão alinhados com a sociedade de consumo e com esse ideal de classe média para todos.”.

O antropólogo vê uma diferença básica na postura de uns e dos outros. “Se os anteriores eram ruins na área ambiental e dos direitos dos indígenas, era mais por omissão, por incompreensão, por uma certa tacanhez ideológica, uma certa miopia, os actuais são pessoas que têm como objectivo acabar com os índios. Acabar mesmo, rever as demarcações, privatizar as terras, catequizar os índios.”.

A crítica que se pode fazer ao PT, diz Viveiros de Castro, é a de que não entendem – “não entendem a questão indígena, o que a Amazónia vale, não entendem que esse modelo de desenvolvimento é uma cópia grotesca do dos Estados Unidos e que não é para funcionar aqui”. Já com o actual Executivo, a situação é outra: “Vocês sabem muito bem o que estão fazendo e são assassinos.”.

Se Bolsonaro e a sua equipa terão ou não meios para levar até ao fim essa agenda, não sabe ainda responder. “Esperamos que não mas até agora estão fazendo exactamente tudo o que disseram que iam fazer, ou pior. Cada dia aparece uma notícia mais sinistra, parece que você está num filme de terror – querem privatizar 100% das terras, acabar com os índios, com os quilombolas, retirar direitos à população mais pobre.”

Identifica neste Governo duas pernas, “de um lado o neoliberalismo mais extremo, mais radical, e do outro o obscurantismo ideológico do fundamentalismo evangélico pentecostal que vê os índios como pecadores, acha que xamã é coisa do diabo, e é ele quem manda missionários para todas as áreas indígenas.”.

Apesar disso, mantém um certo optimismo. “O líder indígena Ailton Krenak falou uma coisa bastante sensata. [Disse que] este Governo é terrível mas a gente está preocupada com vocês, brancos, porque nós, índios, estamos vivendo isso há 500 anos, estamos acostumados, vocês é que não estavam, coitados. Estamos solidários com vocês, com pena dos brancos bons, mas a gente vai escapar desta, passámos 500 anos escapando disso.”.

No centro de tudo está a questão da posse da terra. “Os índios não são mais importantes como mão-de-obra. O que importa é a terra e no Brasil as terras indígenas são da União, são públicas, e existe hoje, absolutamente explícito, o projecto de privatizar 100%, se possível, todas as terras públicas do Brasil para poderem ser comercializadas para o agro-negócio, para plantar soja, criar gado, explorar minério.”.

Claro que a relação dos índios com a terra é fundamental mas, lembra Viveiros de Castro, “a maior parte das terras indígenas estão na Amazónia e 60% da população indígena está fora da Amazónia, tem mais índios fora das terras indígenas do que dentro”. Na Amazónia “tem terras grandes com populações mais isoladas, mas acossadas por hidroeléctricas, por mineradoras, por garimpeiros, fazendeiros de soja, de gado, e essas vão sendo, a pouco e pouco, comprimidas.”

Ligada a esta surge a questão do estatuto do índio. “A Constituição brasileira de 1988 reconheceu pela primeira vez aos índios o direito de permanecerem índios.”. Isso foi uma conquista porque “toda a concepção da nacionalidade é que índio é um estado transitório, que eles vão deixar de ser índios. Havia estádios de integração: índio isolado, em contacto intermitente, em contacto permanente e integrado”.

Mas, afirma, “de 88 para cá há uma campanha concertada da direita para reverter todos os ganhos da Constituição, entre os quais o carácter permanente da condição indígena e o carácter colectivo dos direitos às terras indígenas.”. O que existe hoje no Brasil, na perspectiva de Viveiros de Castro, é “um projecto de reforma não explícita da Constituição para fazer a situação voltar ao statu quo anterior a 88”. E, conclui, “antes de 88 é, mais coisa menos coisa, a ditadura”.

Alexandra Prado Coelho
No Público
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Todos os heróis de Jair Bolsonaro


A cerimônia de posse do novo diretor-geral da hidrelétrica de Itaipu tinha tudo para ser uma ocasião corriqueira na agenda de Bolsonaro. O ex-capitão nomeou um general para o cargo e aproveitou o evento para exaltar os ditadores brasileiros que participaram da construção da usina binacional junto com o Paraguai. Afirmou que Castello Branco foi “eleito em 1964″ e saudou Costa e Silva, Médici e Geisel. O último ditador militar, Figueiredo, foi merecedor de um afago especial: “saudoso e querido”. Nada demais até aí. Prestar homenagens à ditadura militar é um cacoete do nosso presidente.

Mas o que era pra ser um evento trivial acabou ganhando destaque pela exaltação que o presidente brasileiro fez do general Alfredo Stroessner, o ditador sanguinário que comandou o Paraguai com mão de ferro por 35 anos (1954 – 1989), sendo o que mais tempo ficou à frente de um país na história do continente. “É um homem de visão e estadista, que sabia perfeitamente que seu país, Paraguai, só poderia progredir se tivesse energia. Então, aqui, a minha homenagem ao general Alfredo Stroessner”, discursou Bolsonaro para uma plateia de jornalistas, em sua maioria paraguaios.

Desnecessário dizer que o presidente brasileiro mentiu. O legado de Stroessner para o seu país é trágico sob qualquer ponto de vista, inclusive do econômico. Ariel Palacios, correspondente internacional que cobre América Hispânica e Caribe há 23 anos, relembrou no Twitter algumas das atrocidades do ditador que inspira o nosso presidente. Apresento algumas a seguir.

Foi Stroessner o grande responsável por transformar o Paraguai em um país marcado pelo contrabando. Durante seu regime, as Forças Armadas paraguaias eram incentivadas a participar do contrabando dos mais variados produtos — principalmente whisky e carros de luxos roubados — e do tráfico internacional de cocaína. “Ah, mas esse é o preço da paz” era o argumento do ditador paraguaio para justificar o envolvimento das suas tropas com o crime. Os altos lucros mantinham os militares — ou devemos chamar de milicianos? — satisfeitos.

O facínora paraguaio comandou o assassinato de aproximadamente 5 mil civis e, segundo a Comissão Verdade e Justiça do Paraguai, torturou cerca de 18.772 pessoas. Muitos opositores foram torturados e mortos. Alguns foram cortados ao meio por serra elétrica, outros queimados lentamente com maçarico. Talvez seja esse um dos pontos que mais encantam Bolsonaro, que já disse textualmente ser “favorável à tortura”.

Stroessner mantinha um campo de concentração perto da capital Assunção e protegeu criminosos de guerra nazistas como o médico Josef Mengele, o “Anjo da Morte”.

O “estadista de visão” foi também responsável por instalar uma “pedofilocracia” no governo paraguaio. Stroessner e parte da cúpula do regime cometeram uma série de estupro de menores, especialmente de meninas virgens. O ditador ordenava que seus assessores buscassem garotas entre 10 e 15 anos de idade para o seu desfrute. Exigia também que o plantel de meninas fosse renovado regularmente. Investigações do Departamento de Memória Histórica e Reparação do Ministério da Justiça em Assunção, Stroessner estuprava em média 4 crianças por mês. Uma dessas foi Julia Ozorio, sequestrada da casa dos seus pais por um coronel e mantida como escrava sexual de Stroessner durante três anos. Julia foi abusada também por oficiais, suboficiais e soldados. Ela relatou sua história em um livro chamado “Uma rosa e mil soldados”.

O bolsonarismo, que vê pedófilo até embaixo da cama, deveria explicar a exaltação que o seu grande líder fez de um abusador de menores em série dos mais cruéis que a humanidade já conheceu.

Mas no altar dos heróis de Jair Bolsonaro cabe muita gente. Há uma lista grande de ladrões, assassinos e torturadores que ganharam elogios públicos. O presidente da República tem muitos bandidos de estimação. Como bem lembrou Clóvis Rossi em sua coluna na Folha, “quem admira um torturador admira todos eles”.

Pinochet

“Pinochet fez o que tinha que ser feito, porque no Chile havia mais de 30 mil cubanos. Então tinha que ser de forma violenta para reconquistar o seu país”, afirmou Bolsonaro no programa de TV de João Kleber. O ex-capitão nunca escondeu a admiração pelo ditador chileno. Quando Pinochet foi preso pelo governo britânico, o então deputado subiu à tribuna da Câmara para defendê-lo. Perguntou o que seria pior para um povo: “o que o general Pinochet talvez tenha feito no passado, exterminando, matando baderneiros, ou a democracia no país, que hoje mata milhões pelo descaso?”

Mas o chileno não ganhou fama internacional de monstro sanguinário por matar “cubanos” e “baderneiros”. Em 2011, um relatório publicado por uma comissão que investiga crimes da ditadura de Pinochet concluiu que 40 mil chilenos foram torturados ou assassinados. Mas para Bolsonaro, “Pinochet devia ter matado mais gente.”

O regime tinha um apreço especial por torturar e estuprar mulheres, sempre com requintes crueldade. O testemunho de uma das vítimas, revelado em 2004, é aterrorizador: “Fiquei grávida depois de um estupro e abortei na prisão. Levei choques elétricos, fiquei pendurada, fui afogada em um tonel de água, queimada com charutos. (…) Fui obrigada a tomar drogas, ameaçada sexualmente com cachorros, ratos vivos foram colocados na minha vagina. Também me obrigaram a ter relações sexuais com meu pai e meu irmão, que estavam detidos, e tive que ver e escutar as torturas deles. (…) Eles me puseram na grelha elétrica, fizeram cortes com uma espada no estômago. Tinha 25 anos. Fiquei detida até 1976. Não tinha nenhum processo.”

Pinochet foi autor do primeiro atentado terrorista internacional com bomba em Washington, capital dos EUA. Logo depois de derrubar o presidente eleito Salvador Allende com um golpe militar, uma das suas primeiras ações foi ordenar o assassinato de Orlando Letelier, ex-chanceler chileno, que estava exilado em Washington. Seu carro carregava uma bomba e explodiu a menos de 20 quarteirões da Casa Branca. O que diria o mais notável fã brasileiro de Pinochet sobre isso? “Fez o que tinha que ser feito?”

Ano passado, depois de investigação que durou 14 anos, a justiça chilena ordenou que a família de Pinochet devolvesse R$ 19,6 milhões aos cofres públicos. Boa parte do dinheiro roubado durante a ditadura estava escondido em 125 contas secretas nos EUA.

Em 2006, quando já se conhecia todas as atrocidades do chileno, o então deputado Jair Bolsonaro enviou telegrama em solidariedade ao neto do ditador, que havia sido afastado do Exército por fazer um pronunciamento no sepultamento do avô sem autorização. O Intercept Brasil revelou a mensagem:


A paixão do presidente brasileiro por Pinochet é grande. Quando o governo britânico prendeu o ditador, Jair Bolsonaro considerou uma injustiça e chegou a enviar um fax para Tony Blair, então primeiro-ministro britânico, pedindo a imediata libertação do ladrão, torturador, terrorista e assassino chileno.

Fujimori

Em 1991, Fujimori aplicou um autogolpe no Peru, fechando o Congresso e a Suprema Corte do país. Quatro anos depois, o ditador peruano veio ao Brasil e não foi recebido pelas principais autoridades brasileiras. José Sarney, presidente do Senado, Luís Eduardo Magalhães, presidente da Câmara, e Sepúlveda Pertence, presidente do STF, se recusaram a encontrá-lo como forma de protesto. Jair Bolsonaro, deputado do baixo clero, lamentou a decisão dos brasileiros e afirmou que Fujimori era um “homem digno”, que fazia um “excelente governo”.

Fujimori governou o Peru por dez anos (1990 – 2000) e comandou uma ditadura sanguinária. Perseguiu, sequestrou, torturou e matou opositores. Em entrevista para o New York Times em 1993, Bolsonaro disse que tem “simpatia por Fujimori” e que a saída para o Brasil seria a “fujimorização”.

A face mais cruel da “fujimorização” no Peru talvez tenha sido o programa de esterilização em massa. Em 2002, a investigação de uma comissão do Congresso peruano revelou que o governo obrigou 314 mil mulheres, a maioria indígenas, a fazerem laqueaduras.

A versão oficial era a de que o programa de esterilização era voluntário. Só as mulheres que quisessem receberiam a cirurgia do governo. Jair Bolsonaro, claro, comprou imediatamente a versão da ditadura peruana e elogiou o programa em declaração na Câmara: “Pela sua coragem, quero agora louvar o excelentíssimo Sr. Presidente do Peru, Alberto Fujimori, que implantou em seu país, como forma de conter a explosão demográfica, a esterilização voluntária”. No mesmo discurso, o então deputado, vejam só, culpou a Igreja Católica — “uma das grandes responsáveis pela miséria que grassa em nosso meio” — pelo aumento desordenado da população.

Em 2009, o ídolo peruano de Bolsonaro foi condenado a 25 anos de cadeia por corrupção e por comandar dois massacres contra civis, usados como justificativa para combater o grupo guerrilheiro Sendero Luminoso. Fujimori se utilizava de esquadrões paramilitares — você pode chamar de milícias se quiser — para executar homicídios e sequestros. Esse é o homem que Bolsonaro considerava “digno” e que fez um “excelente governo”.

Coronel Brilhante Ustra

O torturador Ustra talvez seja uma das grandes referências políticas do presidente da República. Não é à toa que o livro de memórias do coronel seja sua leitura de cabeceira. Ustra foi o líder das torturas durante o regime militar e o único torturador condenado pela Justiça. No período em que ficou à frente do DOI-CODI, órgão de repressão onde ficavam os presos políticos, 50 pessoas que estavam sob a custódia do Estado foram assassinadas.

Ele se destacava pelo sadismo e pela crueldade. Espancou grávida e torturou uma mãe na frente dos seus filhos. O vereador Gilberto Natalini (PV-SP) tinha 19 anos quando foi torturado pelo herói de Bolsonaro: “Enquanto me dava choques, Ustra me batia com cipó e gritava”.

A ex-presidente Dilma Rousseff também foi torturada por Ustra quando tinha 19 anos. Com muito sadismo, Bolsonaro o homenageou no famoso voto a favor do impeachment da ex-presidente: “o pavor de Dilma Rousseff”.

Coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel

Em 2012, o Ministério Público Federal moveu ação civil pública contra o coronel da reserva por prisão ilícita, tortura e homicídio de quatro militantes do Movimento de Libertação Popular (Molipo), que combatia a ditadura militar no Tocantins.

Lício se orgulha de ter comandado o fim da guerrilha do Araguaia e prendido o José Genoíno, seu principal líder, que afirma ter sido torturado durante meses após a prisão.

Em 2005, quando Genoíno foi prestar depoimento na CPI do Mensalão, Bolsonaro mais uma vez demonstrou o sadismo típico dos seus heróis: levou Lício no plenário para acompanhar o depoimento. Políticos de todos os partidos se revoltaram com a presença do coronel, mas Bolsonaro não se intimidou: “Ele é meu convidado, eu paguei a passagem de avião dele. É um direito meu.”

Grupos de extermínio e milícias

Em 2003, grupos de extermínio aterrorizavam a Bahia. Comandados em sua maioria por policiais e ex-policiais civis e militares, os grupos assassinaram centenas de jovens negros de periferia por supostamente terem cometidos crimes. Bolsonaro subiu ao plenário da Câmara e fez uma defesa apaixonada dos criminosos:

“Quero dizer aos companheiros da Bahia — há pouco ouvi um Parlamentar criticar os grupos de extermínio — que enquanto o estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo. Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o meu apoio, porque no meu estado só as pessoas inocentes são dizimadas. Na Bahia, pelas informações que tenho — lógico que são grupos ilegais —, a marginalidade tem decrescido. Meus parabéns”!

Em 2008, na CPI das Milícias, que pediu o indiciamento de 266 pessoas suspeitas de ligação com grupos paramilitares no Rio, Bolsonaro novamente saiu em defesa da bandidagem:

“Querem atacar o miliciano, que passou a ser o símbolo da maldade e pior do que os traficantes. Existe miliciano que não tem nada a ver com ‘gatonet’, com venda de gás. Como ele ganha R$ 850 por mês, que é quanto ganha um soldado da PM ou do bombeiro, e tem a sua própria arma, ele organiza a segurança na sua comunidade”

Torturadores, homicidas, sequestradores, estupradores, corruptos e pedófilos. Os heróis do presidente da República não morreram de overdose, mas o inspiraram usando o estado para cometer os crimes mais odiosos, sempre em nome do bem.

João Filho
No The Intercept
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O resmungo final


O Exército Brasileiro designou o general de brigada Alcides Valeriano de Faria Júnior para ocupar o cargo de subcomandante de interoperabilidade do Comando Sul. O Comando Sul, atualmente chefiado pelo almirante Craig Faller, é uma unidade militar dos Estados Unidos responsável por coordenar os interesses estratégicos do país na América do Sul, na América Central e no Caribe. “É uma coisa tão insólita, tão inusitada, que eu não me lembro de nenhuma situação semelhante, a não ser em tempo de guerra”, alertou o ex-chanceler Celso Amorim.

A participação do militar brasileiro feita por Faller no Congresso dos EUA é o coroamento do processo de militarização do poder no Brasil e, ao mesmo tempo, da tutela norte-americana sobre o governo Bolsonaro. Por baixo dessa decisão, um batalhão de militares ocupou o primeiro, o segundo e, mesmo, o terceiro escalão do governo, em ministérios, autarquias e estatais. Interessante observar que os principais cargos foram ocupados por generais oriundos da missão do Haiti, patrocinada pela ONU, atendendo interesses dos Estados Unidos e da França, entre 2004 e 2017.

O processo de militarização que culminou na formação do “Partido do Exército”, no entanto, vem de antes do golpe de Estado, em 2016, que já contou com a participação ativa de setores militares. É também fruto da retomada de valores antidemocráticos e antinacionais professados por herdeiros do coronel Brilhante Ustra e, principalmente, do general Sylvio Frota, histórico adversário do general Ernesto Geisel, nos anos setenta. A “parceria” com o “agitador das massas“, como definiu o general Hamilton Mourão, referindo-se ao ex-capitão Jair Bolsonaro, promoveu a aliança entre o “vivandeirismo” político e a conspiração militar intramuros. 

Em maio de 2016, a mídia divulgou áudios de conversas entre os personagens que tramavam o golpe de Estado, que resultou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff. “Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar”, dizia Romero Jucá ao seu interlocutor, o ex-peessedebista e, na época, no PMDB, Sérgio Machado. Os áudios registravam conversas ocorridas em março entre os articuladores do golpe de Estado, dois meses antes da votação do impeachment no Senado Federal, em 12 de maio.

Em 2 de janeiro de 2019, durante a cerimônia de transmissão de cargo no Ministério da Defesa, o capitão-presidente agradeceu publicamente ao ex-comandante do Exército, general Villas Bôas, por sua eleição. “O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”, discursou o presidente eleito, emendando que “o que já conversamos morrerá entre nós”. Agora, nomeado assessor especial do Palácio do Planalto, o general Villas Bôas, por sua vez, afirmou que Bolsonaro “tirou o país da amarra ideológica que sequestrou o livre pensar” e “do pensamento único e nefasto”.

O registro da conversa não deixa dúvidas sobre a participação dos militares, mais exatamente dos “comandantes militares” no processo que terminou afastando ilegalmente a presidente recém-eleita do Brasil. A partir de então, acelerou-se a conspiração intramuros dos quartéis que evoluiu para a eleição do capitão Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Este fato, seguido de uma sequência de outras ocorrências, não deixa qualquer dúvida de que o papel do Exército foi, e segue sendo, maior do que apenas “tutelar” um presidente destrambelhado.

Naquele momento, a conspiração ainda corria em duas frentes, uma linha “oficialista” tendo à frente o general Villas Bôas e, outra, mas não contraditória, liderada pela turma do Haiti, herdeiros do general Silvio Frota e da linha dura. O grupo do Haiti, sob “comando” do general Augusto Heleno, inicialmente apostou na quartelada, mas em 2017 embarca na campanha do capitão Bolsonaro. O comandante do Exército, general Villas Bôas investiu na chantagem “democrática”, buscando a construir uma “saída” pelo centro em torno do candidato Geraldo Alckim, mas sucumbiu às ameaças dos generais Heleno e Mourão.

A turma do Haiti começou a operar/conspirar mais efetivamente em setembro de 2017, quando o general Oswaldo Ferreira foi convidado para participar do programa de governo de Bolsonaro. As reuniões do grupo fechado, formado basicamente por militares do Exército, ocorriam às quartas-feiras, combinando com a agenda parlamentar de Bolsonaro, que assim participava das reuniões. O caráter “militar” e conspiratório das reuniões foi lembrado em recentes áudios do ex-presidente do PSL, Gustavo Bebianno, no bate-boca travado com o presidente Bolsonaro.

Gustavo Bebianno, ex-presidente do PSL – “O senhor se lembra que, no início, eu não poderia participar das reuniões de quarta-feira, porque os generais teriam restrições contra mim? Eu não entendia que restrições eram aquelas, se eles nem me conheciam. O senhor hoje pergunte para eles qual o conceito que eles têm a meu respeito, sabe, capitão?

A “alternativa” trilhada pelo comandante do Exército, por sua vez, tinha origem “orgânica” no golpe, urdido pelo Departamento de Estado dos EUA e suas agências, iniciado com as escutas telefônicas, depois com a Operação Lava Jato e, por fim, operado pelo PSDB e o PMDB, “com o STF, com tudo”. Em 25 de Maio de 2017, o general Villas Bôas participou de evento na Fundação Fernando Henrique Cardoso, em São Paulo, onde debateu o papel do Exército, em especial o Artigo 142 da Constituição Federal. Na mesma época, compareceu a um ato público junto do governador Alckmin, com Bolsonaro presente, em que defendeu a volta do “espírito de 1932” para liderar “um processo de resgate, com capacidade de mobilizar as energias nacionais”.

Em 3 de abril de 2018, os dois centros da conspiração convergem definitivamente, em conjunto com o comando da Operação Lava Jato, quando, sob pressão da corrente da quartelada, o comandante do Exército, general Villas Bôas, em parceria com a Rede Globo, afasta Lula da eleição. Nesse dia, o general Villas Bôas publica dois tweets, com exposição no Jornal Nacional, ameaçando os ministros do STF, em especial a ministra Rosa Weber. Com isso, rompia com um dos preceitos básicos do Artigo 142 da Constituição Federal, ou seja, abandonava os princípios da hierarquia e da disciplina das FFAA, cedendo à pressão dos generais de pijama.

O enquadramento final da aliança militares-Bolsonaro coube à CIA que, em 10 de maio de 2018, disparou suas bombas midiáticas contra a memória do general Ernesto Geisel, com uma extemporânea divulgação de documentos do período da ditadura. Para bloquear qualquer eventual resistência “nacionalista” no interior das FFAA, investiu contra o general Ernesto Geisel, acusando-o de ter sido o ditador mais radical da ditadura, fraude histórica “comprada” por boa parte da esquerda caipira e amplificada pela mídia subordinada ao Pentágono. “Em memorando, diretor da CIA diz que Geisel autorizou execução de opositores durante ditadura”, trombetou a Rede Globo, em seu online e no Jornal Nacional.

A contradição histórica com o pensamento do general Ernesto Geisel unifica o Partido do Exército, encabeçado por herdeiros do general Sylvio Frota e do coronel Brilhante Ustra, adversários do ex-presidente, nos anos setenta. Em especial o general Sylvio Frota simboliza a visão superada de um Brasil alinhado servilmente aos Estados Unidos, pautado por uma visão “anticomunista ficcional” e isolacionista. Ex-combatente ao lado das forças de Getúlio Vargas em 1932, e dono de uma visão ampla do papel do Estado, a memória do general Ernesto Geisel certamente também desagrada ao general Villas Bôas e sua expressa profissão de fé na “locomotiva” quatrocentona.

O então capitão Augusto Heleno, nos anos setenta, foi ajudante de ordens do general Sylvio Frota, segundo o jornalista e escritor Elio Gaspari, em artigo publicado na Folha, em 28 de novembro de 2018. Já o general Hamilton Mourão, em sua despedida do Exército, em fevereiro de 2018, declarou ter sido comandado por Brilhante Ustra, a quem chamou de “herói”. A turma do Haiti, em resumo, significa um retrocesso não apenas ao passado antidemocrático do Brasil, mas principalmente às teses antinacionais derrotadas durante o governo do general Ernesto Geisel que, além disso, mais tarde, chamou o deputado Bolsonaro de “vivandeira” e “mau militar”.

Em sua biografia, publicada nos anos noventa, o general Ernesto Geisel detalha as disputas políticas em torno de temas como a relação com os Estados Unidos, o “comunismo” e a visão de Estado Nacional. O estabelecimento de relações diplomáticas do Brasil com a China e com Angola, durante o governo do general Ernesto Geisel, estiveram no centro do embates. Na época, as mesmas forças que hoje se alinham automaticamente aos EUA posicionaram-se contra a decisão de Geisel – por ser a China e Angola “países comunista”.

General Ernesto Geisel – “O primeiro problema que tive (com a área militar) foi quando se resolveu reatar relações diplomáticas com a China, no começo do meu governo. Silveira tinha conversado sobre o assunto e, após analisá-lo, acabei concordando. O Frota (Silvio Frota) veio a mim, manifestar-se contrário: achava que não era conveniente. Outro que no começo também foi contrário foi o Henning, da Marinha. O Araripe, da Aeronáutica, era mais ou menos contra e chegou a conversar ligeiramente sobre o assunto. Todos traziam opiniões e o pensamento de escalões hierarquicamente inferiores. Reuni os três e lhes perguntei: “Por que nós não vamos reatar relações com a China?”. A resposta foi que a China era um país comunista. “Por que, então, vocês não vêm me propor romper relações com a Rússia?”. “Se vocês querem ser coerentes, então vamos cortar relações com a Rússia também e vamos nos isolar, vamos virar mesmo uma colônia dos Estados Unidos”.

Fiel às origens e ao passado, durante a campanha o general Mourão chamou os países emergentes de “mulambada”, em especial os africanos, asiáticos e latinos. “Partimos para aquela diplomacia que foi chamada de Sul-Sul, e aí nos ligamos com toda a mulambada do outro lado do oceano e do lado de cá, que não resultou em nada, só em dívidas”, disse o general Mourão. O resultado dessa visão é o afastamento do Mercosul, a estupidez de apoiar uma intervenção militar dos EUA na Venezuela, a ameaça de romper com o Oriente Médio, por conta da mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém e, principalmente, o risco de perder o mercado da China.

General Ernesto Geisel – “O mesmo problema surgiu quando reatei relações com Angola. A mesma história: “É um país comunista, os Estados Unidos estão subsidiando a revolução contra o governo de Angola, e nós somos solidários com os Estados Unidos!”. Respondi: “Não, nesse ponto eu não sou solidário. Acho que os Estados Unidos são têm o direito de fomentar a revolução em outro país. Não concordo com esse posicionamento. E tem mais: Angola é fronteira marítima com o Brasil. Nossa fronteira oriental é toda a costa oeste da África. Então não vamos ter relações com um país fronteiriço? Além disso, Angola é descendente de Portugal, fala como nós, a mesma língua!. E há outro interesse: as perspectivas são de que o litoral angolano tenha petróleo, e nós poderemos obter suprimento em Angola”. Respondiam: “Mas o governo é comunista!” E eu: “É, é subsidiado pela Rússia, mas a revolução que existe em Angola é subsidiada pelo americano. O americano está financiando uma revolução lá dentro!”. A Unita até hoje é subsidiada pelo americano em armamentos, em munição, em dinheiro e tudo mais. “Que direito têm os Estados Unidos de intervir em país e lá provocar uma revolução? Não temos nada com isso, não temos nada com a Unita. No passado, sempre transacionávamos com Angola e agora temos interesse em trazer petróleo de lá.” Foi outra discussão. Eu dizia: “Vocês têm que abrir os olhos, o mundo é outro! Vocês não podem ficar nesse círculo estreito!”. Eles engoliram a solução, mas evidentemente resmungando”.

O resmungo regurgitado por quase meio século ganhou voz ativa em pleno 2019, com a adesão à agenda de Donald Trump de “maneira mecânica e caudatária”, como definiu o diplomata Rubens Ricupero. “Fica-se com a impressão de que, na relação com os EUA, o céu é o limite ou, mais apropriadamente, que não existe nessa relação nenhum limite, nem o da decência, nem o da soberania ou do patriotismo”, continuou. Segundo Ricupero, “por motivação puramente ideológica e a fim de agradar os americanos, a diplomacia atual está disposta a sacrificar interesses brasileiros concretos”.

No poder, o Partido do Exército retoma as teses derrotadas da Guerra Fria, do “anticomunismo ficcional”, do alinhamento servil aos Estados Unidos e da visão de Estado anti-povo do tempo da Lei de Segurança Nacional. E fazem isso no momento em que o mundo unipolar esboroa-se dramaticamente, com a irrupção de um multilateralismo liderado pelos países do BRICS, com China e Russia à frente. Pela primeira vez na história, abrindo mão de sua soberania e independência, e por motivos ideológicos, o Brasil se alia ao lado perdedor da guerra em curso no planeta.

Fernando Rosa
No Senhor X
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Banco desmente pastor André Valadão, que lançou cartão de crédito no meio de um culto

André Valadão, da Igreja Batista Lagoinha, promove o cartão de crédito Fé;
BMG nega vínculo com o produto
Vai com Fé que todas as suas contas serão pagas. Fé, aliás, que cabe na palma da sua mão e foi anunciada como um ótimo negócio, um negócio “de Deus”, durante um culto de fevereiro ministrado por um dos pastores mais populares do Brasil.

Menos vantajosa foi a polêmica que se seguiu à propaganda de André Valadão para o mais novo produto de sua marca gospel, #FéPraTodoLado: um cartão de crédito consignado batizado Fé.

Pastor na mineira Igreja Batista Lagoinha, ele foi repreendido dentro e fora do meio evangélico pelo que, Segundo seus críticos, seria a comercialização oportunista  de uma crença.

Popular entre aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), o cartão consignado é uma modalidade em que a fatura é descontada todo mês no contracheque.

O oferecido por Valadão vem com um selo do BMG, embora o banco negue qualquer ligação com o produto.

O pastor é apenas “correspondente bancário, podendo ofertar e recomendar o BMG Card”, disse à Folha a assessoria de imprensa do BMG.

O que não significa, de acordo com a instituição, que haja “qualquer vínculo direto com a marca Fé”.

Não foi o que Valadão deu a entender quando, para fiéis, divulgou a novidade de sua grife evangélica, que contempla de capacetes a produtos escolares.

“No cartão de crédito, você paga 30% de juros. O banco ofereceu isso aqui, nunca fizeram isso antes, então é algo que eu achei muito legal, achei de Deus. Falei, cara, bênção, vai para cima, tira tudo quanto é taxa, deixa só a administrativa”, disse no púlpito.

Continuou a louvar o novo item no portfólio: “Não tem Serasa, não tem nada. Aleluia!”.

Valadão lidera uma banda gospel famosa no segmento, a Diante do Trono, e chegou a ser cogitado para engrossar a bancada evangélica no Congresso, como candidato ao Senado simpático ao bolsonarismo.

Ante a controvérsia instaurada com seu cartão, ele gravou um vídeo para se explicar pelo empreendimento.

“Tem muita gente que está revoltada, pensando que a gente está comercializando a fé ou a igreja”, afirmou.

Mas não confunda as coisas, pediu em seguida: “Gente, deixa eu te falar, a marca Fé é uma marca como outra”.

Não vá achando o fiel que, se usar uma das mercadorias dessa grife, Deus vai iluminar sua vida. “Compre da marca Fé e seu casamento vai ser restaurado” ou “use o boné Fé e seu cabelo vai crescer” são dois exemplos do que aí, sim, seria, segundo Valadão, falsa propaganda.

O pastor não quis falar com a Folha. No vídeo, disse que divulgou o cartão em um momento do culto específico para avisos “de coisas que acontecem fora da igreja”.

“Imagina se vou falar de lançamento de cartão de crédito no meio de uma pregação. Eu não misturo as coisas.”



Anna Virginia Balloussier
No Folha
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Suspeito de estuprar dois coroinhas, padre é preso no interior de SP

Ele
O padre Cláudio Cândido Rosa, de 43 anos, suspeito de estuprar dois coroinhas menores de 14 anos na paróquia em que atuava, em Presidente Epitácio, extremo oeste do Estado de São Paulo, foi preso na quinta-feira, 28, depois de se apresentar à Polícia Civil. Ele estava com mandado de prisão preventiva expedido desde o mês passado, mas não havia sido localizado.

O padre Cláudio se apresentou à polícia de Presidente Prudente acompanhado por um advogado. Ele nega as acusações, mas foi recolhido à penitenciária de Lucélia, na mesma região. A defesa informou que vai entrar com pedido para que o religioso responda às acusações em liberdade. As denúncias surgiram no fim de 2017, quando o padre atuava na paróquia de São Pedro, em Presidente Epitácio. Um comerciante da cidade procurou a polícia após ouvir relato do próprio filho de suposto abuso.

Durante as investigações, outro adolescente também fez denúncias e entregou à polícia uma foto em que o padre aparecia nu em sua residência – a casa paroquial. Em busca no imóvel, a polícia apreendeu um celular e três computadores do padre, concluindo que havia provas consistentes de crimes sexuais.
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Chanceler russo diz que declaração de Bolton sobre Doutrina Monroe é um insulto a toda América Latina


A declaração do conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, John Bolton, de que Washington não tem medo de usar as palavras "Doutrina Monroe" em relação à Venezuela é um insulto a toda América Latina, disse o chanceler russo Sergei Lavrov.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, lembrou que, após a criação da ONU em 1945, a lei internacional é regulada por essa organização, a mais legítima e universal.

"A teoria e prática dos 'quintais' é, de uma maneira geral, ultrajante. Suponho que os países da América Latina reagirão a essa declaração de John Bolton. Ele mencionou a Doutrina Monroe em relação à Venezuela, mas insultou toda a América Latina", declarou Lavrov após as negociações com o chanceler do Qatar, Mohammed bin Abdulrahman al-Thani.

Recentemente, Bolton declarou que os EUA buscam criar uma coalizão para mudar o governo atual na Venezuela, acrescentando que "nessa administração não temos medo de usar as palavras Doutrina Monroe".

Em 23 de fevereiro, a oposição venezuelana tentou fazer entrar na Venezuela, a partir do Brasil e da Colômbia, a chamada ajuda humanitária que inclui medicamentos e alimentos provenientes dos EUA e de outros países.

As autoridades venezuelanas rejeitaram as entregas de ajuda patrocinada pelos EUA e afirmaram que as declarações sobre a crise humanitária se destinam a justificar uma invasão da Venezuela.

A tensão política na Venezuela aumentou desde que, em janeiro de 2019, o líder da oposição Juan Guaidó se declarou presidente interino do país.

Os EUA e vários países da Europa e América Latina, inclusive o Brasil, reconheceram Guaidó como presidente interino do país. A Rússia e muitos outros países manifestaram seu apoio a Maduro como presidente legítimo do país e exigiram que os outros países respeitem o princípio de não interferência nos assuntos internos do país latino-americano.

No Sputnik
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Youtuber preso nos EUA por pedofilia e por oferecer esquemas ilegais a brasileiros é bolsonarista

Ele
O brasileiro Danilo Ramscheid, 30 anos, foi preso em Winchester (MA), nos EUA, sob acusação de abusar sexualmente de uma menor de idade, posse de pornografia infantil e filmar uma pessoa nua sem o consentimento dela.

Mais conhecido como youtuber Malandragem USA, ele foi entregue aos agentes do Departamento de Imigração e Alfândega.

O canal de Danilo dava serviços e dicas ilegais para quem queria tentar a sorte nos Estados Unidos. Gostava de ostentar sua “riqueza” para os seguidores.

Ele cobrava para facilitar a ida dos imigrantes que queriam trabalhar ilegalmente, serviço que chamava de “assessoria”.

Num vídeo, Danilo contou, orgulhoso, que era “bolsominion desde 2014” (abaixo). Foi logo depois da faca em Juiz de Fora.

Ramscheid aparece chorando, enxugando muco e dizendo que o “mito” é “um cara que eu gosto e que vai mudar o país”.

Ele foi acusado pelo Departamento de Polícia de abuso sexual e de produzir pornografia infantil.

Será posto em processo de deportação depois do julgamento. Vive em situação migratória irregular.

Está sendo mantido na Penitenciária de Plymouth desde o início de fevereiro.

Diz o site Brazilian Times:

Danilo responde pelas acusações de “posar e exibir uma criança em um ato sexual, fotografar uma pessoa nua, sem que ela percebesse, possuir pornografia infantil e abusar sexualmente de uma menor”. 

A prisão é resultado de uma investigação que ainda está em andamento. No dia 22 de janeiro a polícia de Winchester executou um mandado de busca na casa de Danilo, de acordo com MacDonnell.

Tudo aconteceu após uma festa realizada na casa do youtuber, no dia 12 de janeiro. De acordo com documentos judiciais, a festa que aconteceu em meados de janeiro, na High Street, deveria ser uma reunião de amigos, mas devido a uma publicação nas redes sociais um número maior de pessoas foi atraído.

Um vizinho informou que um carro passou em alta velocidade na rua e comunicou à polícia de Winchester que apareceu na vizinhança e, logo depois, na porta da casa de Danilo.

Entre os convidados estava uma jovem de 17 anos, com quem Danilo supostamente já tinha se encontrado anteriormente. Com posse de um mandado de busca, no dia 22, os policiais foram à residência e encontraram uma gravação em vídeo de um encontro sexual entre o brasileiro e a garota.

Segundo a vítima, ela não sabia que estava sendo filmada e que também não consentiu com a relação sexual. Antes da prisão, os policiais conversaram com outras pessoas que estavam na festa.

De acordo com documentos judiciais, Danilo, um motorista da Uber e autodenominado “YouTuber”, assediou a jovem desde o primeiro encontro que teve com ela, mas repetidamente ela a rejeitou. O irmão dele começou a namorar a amiga dela, então as jovens frequentavam a casa em Winchester com frequência, principalmente em festas.

De acordo com o registro do tribunal, a vítima disse à polícia que ela ingeriu bebida alcóolica na festa do dia 12 de janeiro, mas “deixou claro” para Danilo que não queria ter intimidade com ele.



Em algum momento, durante a noite, a vítima disse que ele a levou para um quarto onde a porta tinha uma fechadura ativada através de impressões digitais, as paredes eram brancas e havia um tapete branco e três câmeras apontadas para a cama.

Segundo o relatório, a jovem disse à polícia que foi abusada sexualmente e que nunca consentiu em ser filmada. O nome da vítima está mantido em segredo.

Dois amigos da vítima, cujas identidades também não foram reveladas, disseram à polícia que encontraram a jovem encolhida na cama de Danilo, no segundo andar da casa. Segundo o relatório, eles desviaram a atenção do brasileiro, vestiram a vítima e saíram da festa.

Em seu relato à polícia, o brasileiro afirmou que a vítima queria fazer sexo com ele. Ele acrescentou que as câmeras apontadas para a cama estavam “lá para sua proteção”, para que ele pudesse gravar seus encontros amorosos com as mulheres, “e ter provas de que não as estuprou”.

Danilo possui milhares de seguidores no You Tube e nas redes sociais, com inúmeros vídeos publicados sob os nomes “Dan Shelby” e “Malandragem USA”.

Imigrante ilegal

Danilo aluga a casa através de uma agência. O proprietário acreditava que ele estava morando lá com seu irmão e a namorada de seu irmão. Uma verificação de antecedentes, realizada pela polícia de Winchester, mostrou que várias pessoas estavam usando o endereço da casa como seu endereço e que 26 carros estão registrados no mesmo endereço.

Nos documentos, o relatório policial afirma que 14 veículos estavam registrados em nome de Valhalla Services, Inc, uma empresa de propriedade de Danilo, com a qual ele supostamente prestava assessoria para brasileiros recém-chegado ao país ou para quem queria deixar o Brasil.

Embora Danilo tenha se tornado conhecido pela polícia local recentemente, o Departamento de Segurança Interna o mantinha em seu radar por algum tempo. Ele estava com o visto vencido e o departamento suspeitava que estivesse envolvido em atividades ilegais.

A investigação está em andamento, segundo MacDonnell. “Estamos ativamente envolvidos nesta investigação e de olho nesta situação”, disse ele. (…)



Kiko Nogueira
No DCM
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Nova chance do PT de se redimir com Lula

Ricardo Stuckert
As circunstâncias e a conjuntura estão dando ao PT uma nova oportunidade de se redimir para com Lula. O PT é um grande devedor de Lula, pois o partido não foi capaz de defende-lo e de mobilizar a sociedade contra a sua condenação e prisão injustas. Lula sempre foi maior do que o PT. Claro que o PT foi e é imprescindível para Lula. Mas dificilmente o PT existiria sem Lula. No mínimo, sem Lula, não teria a importância que veio a ter. 

Lula, como líder, é uma daquelas raríssimas singularidades que cumpre um papel demiúrgico na política, capaz de criar o novo, de colocar no mundo da atividade política algo que não existia, de gerar uma esperança de sentido universalizante, para além das hostes partidárias e de seus seguidores e para além das fronteiras do próprio país. Num mundo cada vez mais desigual e injusto, Lula se constituiu como símbolo da luta pela igualdade e justiça. Num país pobre e abissalmente desigual, Lula se forjou como uma esperança de redenção dos pobres e dos humilhados. 

Em novembro do ano passado publiquei um artigo (Destino de Lula: abandono e solidão), chamando a atenção para os riscos que Lula corria na prisão. O artigo foi contestado por Gleisi Hoffmann, presidente do PT. É forçoso constatar, no entanto, que de lá para cá o PT pouco fez de significativo em prol da liberdade de Lula. Tudo o que fez foi mais no plano simbólico, no plano declaratório, das intenções e das resoluções partidárias. Não que isto não seja importante. Mas é absolutamente insuficiente para que a campanha adquira uma dimensão social, para que a liberdade de Lula se torne uma exigência majoritária da sociedade e para que ela adquira uma dimensão de mobilização de rua. Somente quando isto se tornar realidade Lula terá chance de ser solto. Agora mesmo, Lula sofreu uma segunda condenação e o que se viu foi uma tíbia reação do PT. 

Em dois momentos pregressos havia um ambiente político e social favorável para que se fizesse uma mobilização de massa para a liberdade de Lula: 1) no contexto de sua condenação e prisão; 2) no momento em que Lula liderava as pesquisas de intenção de voto para as eleições presidenciais de 2018 e que ainda não havia uma interdição final à sua candidatura. O PT foi fraco e omisso naqueles momentos e deixou as oportunidades passarem. Um prócer do petismo culpou a ausência de cultura de mobilização popular por não ter havido fortes manifestações. Somente em circunstâncias muito singulares as massas se mobilizam espontaneamente. Cabe aos líderes, aos partidos e aos movimentos sociais criar uma cultura de mobilização popular. O que falta hoje no campo progressista são lideranças virtuosas e corajosas e capacidade de direção e comando.

Agora, as circunstâncias, o destino, a Fortuna, estão dando ao PT uma nova ocasião para que o partido mobilize a militância, os simpatizantes e a sociedade em favor da liberdade de Lula. Esta conjugação de fatores favoráveis pode ser resumida nos seguintes pontos: o governo Bolsonaro começou de forma desastrosa e a pesquisa CNT/MDA mostra que a sociedade não lhe concede nem o bônus de início de governo; mesmo sendo tirado da liberdade, da atividade política e silenciado em Curitiba por um judiciário persecutório, Lula permanece vivo na alma de parte importante da sociedade que o tem como paradigma de bom governante; a morte do menino Arthur, neto do ex-presidente, desencadeou uma onda de solidariedade pelo seu sofrimento e pelo caráter trágico dos acontecimentos que o envolvem; no carnaval, vozes espontâneas da multidão, em vários pontos do país, protestaram contra Bolsonaro e pediram Lula Livre.

O fato mais importante da conjuntura que favorece Lula é a rapidez com que se autodecompõe o governo Bolsonaro. O presidente se revela que é política e psicologicamente incapaz de governar. É o principal inimigo de si mesmo: promoveu várias trapalhadas com sua equipe econômica, desagrada os militares, triturou publicamente o ex-ministro Bebianno e desmoralizou Sergio Moro. Permanece em guerra aberta contra a oposição e as esquerdas. No caso da Venezuela, junto com seu chanceler, feriu claramente a Constituição. Nenhum governo sério teria um ministro da Educação que este governo tem. 

O entorno ideológico de Bolsonaro e de seus filhos vem se mostrando, todos os dias, aos olhos da sociedade, o quanto sórdido e desumano que é. As declarações de Eduardo Bolsonaro em relação a Lula em face da morte do seu neto causaram nojo, asco e repulsa. Trata-se de gente perigosa porque portadora de mente psicopata. Não há nem misericórdia e nem compaixão no coração desse entorno. Por isso, são pessoas capazes de cometer as maiores atrocidades, as maiores vilanias, as maiores monstruosidades. Os nazistas já mostraram o que a psicopatia política é capaz de fazer. 

A brutalidade mental dessas dos bolsonaristas ideológicos, alimentada por ódios e recalques, os impele para a violência para a maldade banal, para o crime sistemático. Não era de se esperar que esses portadores de psicopatia política sentissem compaixão pela dor de Lula e pelo infortúnio do pequeno Arthur. Afinal de constas, os seus congêneres pelo mundo afora mataram idosos, estupraram mulheres e crianças e as queimaram vivas e construíram campos de concentração, de tortura e de morte. Dessas pessoas se pode apenas esperar o pior. Precisam ser contidos e a sociedade precisa ser advertida quanto ao perigo que representam.

Quanto mais se decompõe o governo Bolsonaro, quanto mais agride direitos, quanto mais desumano e retrógrado se mostra, quando mais se degrada moralmente, mais a figura de Lula torna-se uma falta terrível para a recomposição e união do Brasil. Quanto mais indecente se torna esse governo, mais a falta da presença livre e pública de Lula se torna uma tragédia para um país que se embrutece e para um povo que não encontra limites em sua dor e em sua desesperança. Mais criminosa se torna a condenação injusta de Lula porque ela impediu que o Brasil e o seu povo pudessem ser conduzidos por um Lula sensato, unificador, assentado sobre o trono de sua sabedoria e de sua experiência que advêm de sua capacidade de entender as necessidades e a alma do povo brasileiro. 

A decomposição do governo Bolsonaro e a falta crescente que Lula faz ao Brasil não se tornarão frutíferas se não se transformarem em energia ativa, em mobilização e em combate. São coisas que se não forem transformadas em mobilização e protesto podem alargar a desesperança, aprofundar a frustração, a resignação e a impotência. 

O PT não ganhará nada se não for capaz de resolver dois graves problemas: ser efetivo na luta por Lula Livre; e, renovar-se junto à sociedade reduzindo drasticamente os graus de antipetismo persistente. Poderá caminhar para nova derrota eleitoral em 2020, nas eleições municipais, se não mudar seu modo de ser, de proceder e de agir. A decomposição e o fracasso do governo Bolsonaro não se traduzirão, automaticamente, em ganhos para o PT e para as esquerdas. Os dirigentes dos partidos de esquerdas, dos sindicatos e dos movimentos sociais deveriam ser atormentados todos os dias por esta advertência para que ela sirva de estímulo para que saiam de suas zonas de conforto político e mental.

Existem elementos de sobra para fazer uma campanha eficaz e mobilizadora em favor da liberdade de Lula. É preciso mostrar amplamente que o juiz e os desembargadores que condenaram Lula não eram juízes naturais do caso e agiram como juízes de exceção; que Lula foi condenado sem crime e sem prova; que Lula está preso e que políticos acusados de alta corrupção, a exemplo de Aécio Neves, Temer, Serra e outros, estão soltos; que sob o governo Lula o Brasil teve um de seus melhores momentos de sua história; que Lula legou muitos benefícios ao povo brasileiro; que enquanto Lula uniu o povo e engrandeceu o país perante o mundo, Bolsonaro desagrega o povo com ódio e destrói a credibilidade do Brasil no exterior. Elementos de convencimento existem. O que parece não existir são capacidades e vontade. 

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)
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Um homem Lula da Silva

Ricardo Stuckert
Lula, em silêncio, comandou com os olhos o espetáculo de dor e esperança do que deveria ter sido apenas um enterro triste, como sempre são devastadoramente tristes os enterros de crianças.

Em silêncio, coroado de cabelos brancos, Lula fez o mundo tremer.

Pois o mundo todo que viu os seguranças, as polícias, os soldados, as armas e o rancor mobilizados, todos cagados de medo, sem compreender a força daquele homem.

Aquele homem que os deixou nus.

As pessoas não foram enterrar Arthur, foram levar amor a Lula, foram oferecer seus corações, sua fé, seus olhos para que por eles Lula pudesse chorar também. Vieram pedir Justiça, esperar nem que fosse um milagre.

Em silêncio, Lula falou mais alto do que todos, foi além da roupa de mártir que se recusa a vestir. Cruzou o mar de dor com dignidade. E, no pouco tempo que lhe deram para sofrer, fez o mundo sofrer com ele, cada pessoa decente, cada humano em sintonia com o outro, cada irmão, cada irmã.

Lula enterrou Arthur e, generoso, trouxe calor de novo aos nossos corações. Encheu nossa alma de coragem e se colocou, outra vez, à frente da luta.

De novo, esse homem preso sem provas, vítima de um Judiciário apodrecido, deixou apavorados seus algozes, seus detratores e os dementes que os seguem.

Um velho calado, vestido apenas de coragem e amor, fez toda essa gente tremer.

Preso, Lula nos deu liberdade. Sempre vamos dever isso a ele.

Leandro Fortes, Jornalista e integrante da Rede de Jornalistas pela Democracia
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