3 de mar. de 2019

Caxemira, Coreia, Venezuela, Irã: guerra quente, fria e híbrida


Girando e girando em uma espiral crescente, a geopolítica do jovem século XXI se assemelha a uma mandala psicodélica concebida por Yama, o Senhor da Morte.

Essa mesma frase, se tivesse sido pronunciada há pouco tempo, teria provocado gritos de escárnio transcontinentais.

Contrariamente à liderança desprovida de nuclear do Irã, o presidente Kim, dono de um pequeno arsenal nuclear, é considerado como um interlocutor pela Superpotência, contradição tão mais flagrante quando se sabe que a mesma Superpotência abandonou um acordo nuclear multilateral funcional e aprovado pela ONU.

Simultaneamente, a fronteira mais quente da Ásia não é, surpreendentemente, a Zona Desmilitarizada entre as Coréias, mas, mais uma vez, a Linha de Controle entre as potências nucleares da Índia e do Paquistão na Caxemira.

Em uma escalada de tensão, apesar de Islamabad e Delhi poderem, em teoria, vir a apontar seus mísseis nucleares entre si, a Coréia do Norte não apontará um só míssil com ponta nuclear para Guam e Teerã não direcionará os seus contra nada, já que não os possui.

Como em uma comédia de animação de mau gosto, a mudança de regime em Pyongyang deixa o palco, enquanto a mudança de regime no Irã permanece, e entra em cena a mudança de regime na Venezuela. O Irã ainda pode ser colocado no Eixo do Mal, mas o novo lema é a troika da tirania (Venezuela, Cuba, Nicarágua), já que o governo de Caracas faz "beep beep" no nariz do Wily Coyote da Superpotência.

Uma série de duvidosos neocons e obscuras "fundações" americanas mantêm viva a chama da mudança de regime no Irã, chegando ao ponto de fabricar um eixo Teerã-Al-Qaeda, e ao mesmo tempo avança na Venezuela um cenário sub-reptício. Um assombroso briefing no Ministério das Relações Exteriores em Moscou na sexta-feira passada revelou que “forças especiais e unidades de tecnologia dos EUA serão entregues mais perto das fronteiras da Venezuela. Temos informações de que os EUA e seus parceiros da OTAN estão organizando uma entrega massiva de armas vindas de um país da Europa Oriental para a oposição na Venezuela”.

Os fatos são implacáveis. Após quase duas décadas, a OTAN, foi miseravelmente derrotada no Afeganistão. A guerra por procuração do Conselho de Cooperação OTAN-Golfo na Síria falhou. Os vencedores são Damasco, Teerã e Moscou. O conflito no Donbass está congelado. Então, a solução foi um retorno a um remix da doutrina de Monroe, ainda que a manobra humanitária - reminiscente do "imperialismo humanitário" que levou à destruição da Líbia – parece ter fracassado, por enquanto.

O vice-presidente brasileiro, general Hamilton Mourão, introduziu uma dose de sanidade no debate ao pronunciar-se contra a mudança de regime ao estilo “todas as opções estão sobre a mesa” de seu próprio presidente, Jair Bolsonaro. Mourão ressalta com freqüência que “a questão da Venezuela deve ser decidida pelos venezuelanos”, acrescentando que as ameaças dos EUA soam “mais como retórica do que como ação”, pois um ataque militar seria “sem propósito”.

Observe esse K

O que há em um nome? Se Paquistão em urdu significa deveras a "terra dos puros", a chave está na sigla, onde K está para Caxemira - ao lado de P para Punjab, A para Afeganistão (em realidade, as áreas tribais pashtuns), S para Sindh e T para o “tan” no Baluchistão. O K é uma questão de identidade nacional.

A Caxemira é um prêmio geoestratégico crucial. Assumindo que a Índia seguirá possuindo-a integralmente, isso representaria uma ponte direta para a Ásia Central e uma fronteira com o Afeganistão, enquanto privaria o Paquistão de uma fronteira com a China, anulando em grande medida o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), um dos principais projetos da Iniciativa Um Cinturão Uma Rota (BRI).

Se o Paquistão a possuísse integralmente, isso resolveria as preocupações do país com a segurança da água. O rio Indus começa no Himalaia, no Tibete, e passa pela Caxemira controlada pela Índia antes de entrar no Paquistão e percorrer todo o caminho até o Mar da Arábia. O Indus e seus afluentes fornecem água para dois terços do Paquistão. Nova Delhi acaba de ameaçar militarizar o fluxo de água ao Paquistão.

É difícil prever um fim às intermináveis escaramuças ou mesmo conflagrações parciais entre os jihadis - protegidos por Islamabad em diferentes níveis - e o exército indiano que permanentemente agitam o Caxemira. O islamista Jaish-e-Mohammed (JeM) aspira a anexação integral da Caxemira a um Paquistão governado pela lei da Sharia.

A obsessão de JeM pela Caxemira também é compartilhada por seus aliados de fato Lashkar-e-Taiba (LeT). Ambos são apoiados - com graus de nuance - pela agência de inteligência do Paquistão, o ISI. Acima de tudo, ambos são fortemente apoiados financeiramente pela Família Real Saudita, de prática wahhabita, e pelos Emirados Árabes Unidos.

Não há solução para a Caxemira que não envolva cortar pela raiz o proselitismo, o financiamento e o armamento sauditas - coquetel tóxico que alimentou a famosa cultura Kalashnikov no Paquistão. E não haverá solução enquanto a habilidade da Família Real Saudita em ter as armas nucleares de Islamabad “sob encomenda” continuar sendo o principal segredo público no sul da Ásia.

Rússia e China como vozes da razão

Se este fosse um campo sensato, alheio a Yama, Índia e o Paquistão dialogariam, como o primeiro-ministro Imran Khan acaba de oferecer, através da plataforma da Organização de Cooperação de Xangai, da qual ambos são membros, com a Rússia e a China como mediadores.

Isso nos leva ao que aconteceu em Yueqing, na China, quarta-feira, totalmente sob o radar ocidental; uma reunião de nível ministerial de facto do “RIC” nos BRICS, reunindo o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, o Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, e o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia, Sushma Swaraj.

Lavrov pode ter denunciado “tentativas absolutamente descaradas” de se “criar artificialmente um pretexto para uma intervenção militar” na Venezuela. Mas no cerne da agenda géostratégica internacional estava o que Rússia, China e Índia discutiram sobre a Caxemira - tentando desarmar um cenário ainda explosivo - e que pode eventualmente ter um impacto direto tanto em Islamabad quanto em Nova Delhi.

As posições coordenadas da China e da Rússia foram absolutamente fundamentais para facilitar o diálogo da Coréia do Norte com a administração Trump. No entanto, ainda está muito distante do sonho do presidente sul-coreano Moon: Trump declarando oficialmente o fim da guerra da Coréia de 1950 a 1953, por meio de um tratado de paz que substitui o atual armistício por garantias de segurança. Afinal, essa é a condição número um para a Coréia do Norte começar a contemplar a desnuclearização.

A China e a Rússia, em teoria, também têm o que é preciso para levar Índia e Paquistão ao caminho da razão – e dispõem da influência necessária para igualmente pressionar o wahhabismo militarista da Arábia Saudita.

Ainda assim, do ponto de vista de Washington, China e Rússia são “ameaças” – opinião mantida tanto pela Estratégia Nacional de Segurança como por funcionários como o General da Força Aérea Terrence O'Shaughnessy, comandante do Northcom, que acabou de dizer ao comitê do Senado que a “intenção da Rússia para manter os EUA em risco” representa uma ameaça urgente.

Uns são mais iguais do que outros

China, Rússia e Irã são nós essenciais da integração da Eurásia, que interligam vetores-chave das Novas Rotas da Seda, por meio do acordo comercial do Irã com a União Econômica da Eurásia e expansão do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC). Considerando os interesses em jogo, Lavrov e Yi não teriam como não ficar chocados com a renúncia do ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, de seu cargo, via Instagram.

Fontes em Teerã afirmam que a principal razão da renúncia de Zarif foi ele não ter sido informado - e acabou por não comparecer - sobre uma reunião de alto escalão em Teerã na segunda-feira sobre a Síria de Bashar al-Assad, na qual estariam presentes o líder supremo Ayatollah Khamenei, o comandante da Força Quds do IRGC, Qassem Soleimani, e o Presidente Hassan Rouhani quando discutiram estritamente assuntos militares sírios, não diplomacia. Zarif pode não ter estado presente na sala, mas seu número dois, Abbas Araghchi, estava.

Ao final, Rouhani rejeitou a renúncia de Zarif, ressaltando que isso era contra os interesses nacionais do Irã. Essencialmente, Soleimani disse que Zarif tinha total apoio de Khamenei. Ainda que várias facções dos radicais iranianos possam estar se irritando com Zarif e Rouhani, caracterizando-os como tolos que caíram em uma armadilha americana, a última coisa que Teerã precisa no momento - sob pressão da guerra híbrida - é de divisão interna. Paralelamente, o apoio da Rússia e da China permanece o mesmo.

Washington pode implantar variações da Guerra Híbrida, mas a maioria dos reflexos seguem sendo os da Guerra Fria, sem distinção. O mecanismo permanece o mesmo. Uma fortuna do dinheiro dos contribuintes dos EUA é despejada no complexo industrial-militar, com empresas de defesa e grandes corporações pagando contribuições de campanha fabulosas para a classe política. É por isso que alguém como Tulsi Gabbard, que é contra a guerra - quente, fria e híbrida - e contrário à estratégia de mudanças de regime, será banido para o Reino por Vir pelo lobby de fabricante de armas, e impedido de concorrer à presidência.

O Sul Global aprendeu que, ao girar e girar na espiral crescente, alguns países são de fato mais iguais do que outros. Mesmo que alguns possam ser implacavelmente criticados como facilitadores de terrorismo (Paquistão), e as potências nucleares devem ser apaziguadas (RPDC) e seduzidas (a Índia como um pilar da estratégia “Indo-Pacífico”). O Presidente Kim é agora um "grande líder" que pode dar à sua nação um "tremendo futuro".

Potências não-nucleares, especialmente aquelas ricas em recursos naturais e implementadoras de estratégias que permitam contornar o dólar americano, como Irã e Venezuela, enfrentam o destino de serem alvos de mudança de regime, lenta e dolorosamente devoradas por Yama, o Senhor da Morte.

Traduzido por Sylvie Giraud

Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais
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Moro explicita que Lula é custodiado por inimigos, não pelo Estado


A liberação do Lula para acompanhar a cerimônia de despedida do Arthur, seu netinho mais próximo, seguiu o roteiro e o tratamento de exceção de que Lula é vítima.

A liberação autorizada por Carolina Lebbos, a encarregada da execução penal da república de Curitiba, significa mais um ato de crueldade, inumanidade e arbítrio da Lava Jato.

Os termos da autorização não encontram amparo no Código de Execução Penal, realidade que confirma a condição excepcional do Lula como refém de um sequestro; alguém sem direitos e sem prerrogativas legais.

As restrições estipuladas – estranhamente postas em sigilo pela verduga – são dantescas. Lula “ganhou” não mais que 90 minutos para acompanhar o velório, não teve o direito de processar o luto com seus familiares, foi proibido de conversar com o público, de ser fotografado, de ser abraçado e, finalmente, proibido de compartilhar a dor lancinante com seus amigos, familiares e companheiros – afora outras imposições ainda não reveladas.

À bestialidade daquela juíza curitibana, branca e rica, o ministro da Justiça e chefe hierárquico da PF, Sérgio Moro, adicionou um componente de terror do Estado policial.

Além do exagerado e injustificável aparato de guerra montado para o velório de um menininho de 7 anos de idade, Moro escalou para escoltar Lula ninguém menos que um policial federal armado de fuzil e com insígnia da SWAT/USA no uniforme e que atuou como segurança de Bolsonaro durante a campanha e depois da eleição.

Danilo Campetti se assume manifestamente bolsonarista e anti-petista. Depois de atuar como segurança de Bolsonaro na solenidade de posse no Congresso, ele participou como convidado da recepção no Itamaraty, de onde enalteceu via rede social a “Gratidão e reconhecimento do Capitão pela nossa equipe. E foi assim durante todo o período que o acompanhamos, um líder que sempre se preocupou com a tropa” – referindo-se à Equipe Messias, o exército da segurança bolsonarista na eleição.

A revelação de quem são os custodiantes do Lula deixa claro que o ex-presidente corre evidente risco de morte. A vida do Lula, decididamente, não está em segurança.

Moro escalou para custodiar Lula no cativeiro agentes que, como ele, Moro, odeiam Lula como a um inimigo. Eles se mordem de raiva ao ver a honra e a altivez desse gigante moral indestrutível, que ostenta dignidade e resistência inquebrantáveis ante cada monstruosidade que perpetram contra si.

Ficou muito evidente que Lula poderá sofrer atentados e ser assassinado por facínoras que o odeiam, que o consideram o inimigo perigoso que deve ser aniquilado.

Quem garante que em situação de urgência médica Lula será socorrido a tempo por verdugos que preferem vê-lo morto e que terão prazer em assistir sua agonia enquanto se excitam com doses pavorosas de sadismo?

A condição do Lula não é reconhecível nem mesmo nas regras ainda seguidas pelo regime de exceção. Sua condição nem de longe se assemelha a de um preso – comum ou político –, porque se equipara a de um prisioneiro de guerra: sequestrado, encarcerado e custodiado pelo exército inimigo.

Com a anuência do chefe Bolsonaro, que é óbvia, Moro expõe Lula ao terror do Estado policial e, ao mesmo tempo, negligencia os dispositivos mínimos para a garantia e a proteção da sua vida.

A luta pela liberdade do Lula adquiriu mais dramaticidade e urgência. Espera-se dos setores não apodrecidos do judiciário, sobretudo no âmbito do STF, a resposta necessária para o rápido restabelecimento da justiça e do Estado de Direito antes que Moro, Dallagnol e a Lava Jato executem a sentença de morte do Lula.

Jeferson Miola
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'Para os Bolsonaros, família é maior do que partido'

Para professor, mesmo com longa história política, o clã do presidente não construiu uma

O sociólogo Ricardo Costa de Oliveira
As três décadas dos Bolsonaros na política ainda não lhes permitiram construir uma vasta rede de contatos, como fizeram outras oligarquias. Por isso, eles colocam a família acima da política partidária, o que produz crise atrás de crise. A avaliação é do sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e organizador do livro “Família importa e explica” (Liber Ars), que descreve como dinastias políticas se apropriam das instituições em benefício próprio. Ao Globo, ele explicou por que é tão difícil combatê-las.

O que é uma dinastia política?

Uma dinastia política é uma família engajada em atividades políticas. A política brasileira se organiza em torno dessas famílias, que acumulam poder político e econômico. Todas as instituições que deveriam ser o centro da vida democrática são menos importantes do que as famílias. Como nunca houve uma modernização plena no Brasil, uma ruptura ou uma revolução, as forças sociais arcaicas do antigo regime continuam mandando. Os novos atores que emergem se associam aos interesses desse passado arcaico e ajudam a reproduzir a velha ordem. Na Índia, uma sociedade de castas, a proporção de parlamentares pertencentes a famílias políticas é de 30%. No Brasil, esse número chega a 60%.

É natural que filhos médicos, advogados ou empresários sigam a profissão dos pais. Por que isso é um problema quando os antepassados são políticos?

A reprodução das famílias na política não é natural, é socialmente produzida por meio de privilégios e abuso de poder econômico. A reprodução familiar na política brasileira aponta formas de nepotismo estrutural, instituições políticas fracas e pré-modernas. Também não é natural que os filhos dos pobres continuem pobres e que as mulheres, os negros e os índios continuem excluídos, com baixíssima representação política. Há uma cadeia hereditária de proteções e recursos para que os ricos fiquem cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

A família Bolsonaro já é uma dinastia política?

É uma dinastia recente, de 30 anos, mas é. Jair Bolsonaro organizou um complexo de nepotismo primeiro com a ex-mulher, depois com os filhos, e também cunhados e irmãos. Essa relação entre parentesco e poder político viabiliza uma máquina mais forte e mais importante do que os partidos. Bolsonaro não chegaria aonde chegou se não tivesse construído sua linhagem política com filhos, as ex-mulheres e outros parentes. Até Carlos Bolsonaro, que é vereador no Rio, colocou um primo em Brasília, Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio, para circular nos ministérios desde a posse.

Os Bolsonaros vêm do baixo clero da política. Isso influencia como eles gerenciam sua dinastia?

Por serem uma família emergente, os Bolsonaros operam com mais agressividade, uma vez que eles não têm uma rede de contatos antiga e estabelecida. Eles atropelam qualquer um. É só observar os filhos do presidente. Ninguém sabe quem manda mais, se o pai ou os filhos. Para eles, os vínculos familiares são mais importantes do que os vínculos partidários. É por isso que eles mudaram tanto de partido e podem mudar de novo. E é por isso que Gustavo Bebianno (ex-secretário-geral da Presidência), um nome importantíssimo, foi rifado depois de bater de frente com Carlos Bolsonaro. O que importa para eles é a família. Isso gera crises permanentes, porque a família atravessa qualquer protocolo, qualquer decoro. Não há mais Presidência da República, mas uma família que troca informações e atravessa o interesse público. O partido político, o ministério, as relações público-privadas, tudo isso é secundário se comparado à família.

Como lidar com as dinastias políticas?

Em primeiro lugar, precisamos de leis efetivas e rigorosas. Em segundo lugar, precisamos modernizar a cultura partidária. Muitas legendas são siglas de aluguel lucrativas que permitem movimentações espúrias e são controladas por famílias. Se tivéssemos poucos partidos, que fossem sérios, ideológicos e programáticos, diminuiria a deslealdade partidária. E, por último, precisamos daquilo que é básico em qualquer sociedade: uma cultura política que conscientize a população contra o clientelismo e o nepotismo.

Ruan de Sousa Gabriel
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A escola de samba de Jair Bolsonaro atravessa o samba precocemente


Fosse uma escola de samba, a esta altura já se poderia dizer que, desde o início do desfile, o governo Jair Bolsonaro vem mostrando que atravessa o seu samba passadista.

Não é de todo imprópria a comparação, porque, afinal, todos percebem que este governo está composto de alas bem diferentes entre si.

Tem de tudo, desde a comissão de frente do bolsonarismo neanderthal, o abre-alas do fundamentalismo religioso – onde Damares Alves é o destaque no alto do carro alegórico em formato de goiabeira - , os personagens da escolinha do Professor Olavo e o Cérbero familiar  – onde uma cabeça dá “mordidas”, outra rosna e a terceira baba ódios

Tem também a ala do “Bandido bom é bandido morto”e a da “A Justiça sou Eu”, que pretendia poder evoluir sob a batura de Sérgio Moro, mas deu chabu e está murcha e temerosa, até porque pode ser dissolvida por um cabo e um soldado, com ou sem jipe. A imensa ala militar, que é a que ocupa mais espaço, anda desanimada, embora o seu porta-bandeira Hamílton Mourão receba muita atenção.

Mas, ao contrário do que se esperava, o cortejo não foi capaz de levantar a plateia com seu espetáculo chinfrim.

Não conseguiu a adesão do decisivo bloco parlamentar, onde Rodrigo Maia puxa o coro do “venham a nós”.  O cordão da mídia, quase em uníssono, canta o samba “Assim não, capitão”, chocada com a heterodoxia da diretoria. Até a banda do mercado, que vai com qualquer um que lhe faça dengos, começa a desconfiar que não vai ser tão animado assim o desfile.

Quando terminar o Carnaval, este pessoal todo volta ao asfalto.

E há poucas esperanças que ganhem pontos nos quesitos harmonia e evolução, já que no enredo e nas fantasias irremediavelmente desfilam para trás.

Fernando Brito
No Tijolaço
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“Para que não se esqueça, para que não se repita”.


E o que significa o 2 de março na memória nacional?

02 de março representa o dia de uma das maiores derrotas do Exército brasileiro para revoltosos. Foi na Guerra de Canudos, no interior da Bahia, em 1897.

O Exército chegou a ser derrotado em 03 batalhas na Guerra de Canudos.
Isto gerou extremo desconforto no Exército e as notícias que foram veiculadas apavoraram a opinião pública. Esta, portanto, exigiu a destruição do arraial de Canudos e deu legitimidade ao massacre de vinte mil sertanejos apenas naquele ano. As baixas militares durante toda a Guerra (1896-1897) foram em torno de cinco mil.

O fim da Guerra deu-se em setembro de 1897, com a rendição do município de Canudos, com a maioria de seus habitantes saindo de suas casas e agitando bandeira branca, Mesmo assim, todos os homens ali presentes, e até grupos de mulheres e crianças, acabaram sendo degolados – uma execução sumária que se apelidou de “gravata vermelha”.

O arraial ainda resistiu por um mês, mas em 05 de outubro, os quatro últimos habitantes foram executados; o cadáver do líder Antônio Conselheiro, morto um mês antes, foi exumado e sua cabeça decepada a faca.

Todas as casas do arraial foram incendiadas.

A Guerra de Canudos constituiu-se num dos maiores crimes já praticados em território brasileiro.

As razões de toda essa tragédia foi a crença de que o movimento popular, de fundo sócio-religioso liderado por Antônio Conselheiro, deveria ser sufocado.

A região, historicamente caracterizada por latifúndios improdutivos, secas cíclicas e desemprego crônico, passava por uma grave crise econômica e social. Milhares de sertanejos partiram para Canudos, unidos na crença de uma salvação milagrosa que pouparia os humildes habitantes do sertão dos flagelos do clima e da exclusão econômica e social.

Os grandes fazendeiros da região, unindo-se à Igreja, iniciaram uma forte pressão junto à República recém-instaurada, pedindo que fossem tomadas providências contra Antônio Conselheiro e seus seguidores.

O Exército então, mais uma vez, ao invés de atuar com base nas leis vigentes e de respeitar o primado de que essas forças existem para defender o país de ataques externos, atacou os cidadãos brasileiros, a quem deveria proteger.

A modesta estátua de António Conselheiro, que se vê nesta foto, situa-se na cidade de Canudos, em frente ao museu – tão modesto quanto – que conta a história do município.

“Para que não se esqueça, para que não se repita”.

Da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos
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Negação da política pela mídia ajudou a levar Bolsonaro ao poder, diz pesquisador

Segundo João Brant, programas "jornalísticos" policialescos estimulam a violência e atacam a presunção de inocência, além de reforçar e legitimar processos de tortura e violência policial

Jornal Nacional é o ícone do poderio jornalístico da TV Globo, líder de audiência desde 1971
O entendimento democrático de que a informação deve ser compreendida a partir do interesse dos cidadãos no Brasil não vigora. Aqui, os meios de comunicação – leia-se redes de televisão – impõem uma visão segundo a qual eles é que são os titulares únicos da liberdade de expressão. 

Em sua tese de doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), o pesquisador João Brant discute o lobby e as estratégias das empresas de televisão para fazer pressão política junto aos poderes da República. A tese é intitulada "A atuação das empresas de televisão como grupo de interesse: estratégias e táticas de pressão no caso da política de classificação indicativa".

“Estudo o lobby das empresas de TV a partir do caso da política de classificação indicativa. O auge do enfrentamento entre empresas e poder Executivo se deu entre 2006 e 2007. Embora seja um caso antigo, ele só se resolveu em 2016, quando o STF derrubou a posição do Executivo", explica Brant.

Naquele ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela inconstitucionalidade da regra do Estatuto da Criança e do Adolescente que obrigava as emissoras de TV a veicular programas de acordo com o horário estabelecido pela classificação indicativa. A maioria dos ministros considerou a imposição do horário ilegal, por configurar censura prévia.

A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) foi movida pelo Partido Trabalhista Brasileiro contra dispositivos da lei, então defendida pela Presidência da República.

Para o pesquisador, o papel desempenhado pelas empresas de comunicação na história recente do país levou grande parcela da sociedade a desacreditar a política como atividade organizadora da sociedade. “Isso é fatal e afeta o funcionamento da democracia”, diz. “Não à toa, isso nos levou a um quadro de negação do sistema político, o que é parte constituinte da eleição do Bolsonaro.”

Em entrevista à RBA, João Brant falou sobre o lobby dessas empresas, suas estratégias de poder, liberdade de expressão e a violência social estimulada por programas “jornalísticos” policialescos.

“Há estudos de que esses programas estimulam práticas e comportamentos violentos. Mais do que isso, estimulam medidas de solução de conflitos que passam por fora do sistema de Justiça, atacando a presunção de inocência. Também reforçam e legitimam processos de tortura e violência policial.”

Confira abaixo os principais trechos da entrevista: 

O lobby 

– Empresas de televisão, por um lado, são parecidas com outras empresas. Buscam influenciar os processos de decisão que as afetam por meio de várias estratégias que caracterizo como ‘ordinárias’: negociação no Executivo, pressão direta nos tomadores de decisão, divulgação de estudos e pesquisas que as favoreçam, mobilização de parceiros e até judicialização. Por outro, elas têm estratégias ‘peculiares’, que só existem porque controlam parte do acesso à esfera pública.

– Elas têm à sua disposição o uso da própria mídia a seu favor, o que um grupo como a CNI (da Indústria) ou a CNA (da Agricultura) não têm. A pesquisa demonstra que eles não precisam necessariamente usar esses recursos para que eles lhes beneficiem diretamente. O uso direto desses recursos, por meio do direcionamento de sua cobertura jornalística e de sua programação, não é a forma principal de exercício de seu poder. O fundamental é o lastro que o controle do acesso à esfera pública confere às estratégias ordinárias de pressão política pelas empresas.

O poder

– A visão da Globo sobre economia, por exemplo, condiciona sua cobertura sobre o tema. Mas a pesquisa é sobre os interesses específicos, como grupo empresarial. E para esses casos eles não usam todo seu poder de fogo. No caso que estudei, enquanto o jornal O Globo tinha uma cobertura enviesada a favor dos interesses da empresa, o Jornal Nacional praticamente silenciava sobre o tema.

– É como se fosse uma guerra fria. Eu te pressiono para tomar uma decisão sem usar minha arma mais pesada, porque você sabe que eu posso usá-la se precisar. Poder, nesse caso, não é apenas usar seu cacife todo. É ter o cacife como forma de pressão para se obter o que se quer. É o que a literatura chama de poder presumido.

– No caso do Parlamento, o poder das empresas está ligado à sua capacidade de calibrar a visibilidade de atores que dependem da mídia para manter sua viabilidade política. Para o Judiciário e para atores-chave do Executivo (como ministros e presidente), o poder está ligado à capacidade de emprestar reputação positiva ou negativa, condicionando a imagem pública e o prestígio dos agentes políticos.

– É reveladora a capacidade das empresas de mobilizar arenas alheias ao processo decisório, usando o Poder Legislativo e setores do próprio governo para pressionar as áreas responsáveis pela decisão – no caso da classificação indicativa, o Ministério da Justiça. A capacidade de atuar com ‘alarmismo político’ combinou-se, nesse caso, com tentativas pontuais de acuamento político e pessoal sobre agentes públicos.

Liberdade de expressão e classificação indicativa 

– Os meios de comunicação tentam fazer valer uma visão como se eles fossem os titulares únicos e principais da liberdade de expressão, quando a liberdade de expressão e de informação deve ser entendida sobretudo a partir de um interesse do cidadão e da cidadã brasileiros.

– Havia uma disputa de entendimento sobre se a Constituição permitiria ou não que a classificação indicativa levasse à indicação de horários específicos para a veiculação de programas, se um filme recomendado para 18 anos poderia ser exibido às três da tarde. A defesa que o Executivo fez e conseguiu passar em 2007 era de que não podia exibir porque isso dificultava a aplicação da regra: se a criança precisa sozinha olhar um quadradinho escrito 18 anos e desligar a TV, isso não vai acontecer.

– As emissoras defendiam que a aplicação da regra deveria ser classificativa, e não impositiva. As empresas conseguiram ganhar no STF. Portanto, hoje, qualquer programa pode ser exibido em qualquer horário e as empresas não serão multadas em caso de descumprimento de um horário recomendado pelo Ministério da Justiça.

A violência na TV

– O debate sobre a violência dos programas jornalísticos, principalmente os policialescos, é muito importante. Acho que a discussão é não só a banalização, mas o estímulo à violência dado pelos programas que passam no Brasil inteiro. Há estudos de que esses programas estimulam práticas e comportamentos violentos. Mais do que isso, estimulam medidas de solução de conflitos que passam por fora do sistema de Justiça, atacando a presunção de inocência. Também reforçam e legitimam processos de tortura e violência policial.

– Há uma gravidade muito grande na naturalização desse tipo de programa. Não há uma resposta fácil sobre o que fazer, porque determinadas questões podem ser entendidas como censura, e obviamente não queremos nenhuma prática de censura. Mas acho que precisamos entender antes de tudo os efeitos sociais desses programas, e há responsabilidade das empresas que os promovem, com a violência que legitimam.

Globo, Record e Band

– O crescimento da Globo nos anos 1970 se dá numa combinação entre opções empresariais bem-sucedidas e de qualidade, principalmente da dramaturgia, no caso da Globo, com um apoio explícito da ditadura militar em duas direções: promover uma infraestrutura que facilitasse a chegada da Globo em todos os rincões do Brasil, a partir da exploração do uso dos satélites da Telebrás, e com a tentativa de dificultar a chegada de concorrentes de peso.

– Em 1979 e 1980 a ditadura resolve não distribuir concessões para o grupo Abril e Jornal do Brasil, e sim ao SBT (TVS do Silvio Santos na época) e Adolpho Bloch, da Rede Manchete, depois Rede TV. Isso gera crescimento e domínio de mercado pela Globo e dificuldade dos concorrentes. Não é à toa que estamos falando de alguém que está em primeiro lugar na audiência desde 1971. Como comercialmente se torna difícil manter programação de qualidade, Bandeirantes e Record buscaram modelos alternativos. 

– A Band, com arrendamento de espaço para igreja, o que é do meu ponto de vista ilegal, mas há leniência por parte do poder público; e, no caso da Record, uma associação com a IURD, que faz com que a própria igreja pague um valor alto pela compra de horários. Essa prática de arrendamento de horário é ilegal e deveria ser coibida. 

– Há a necessidade de estimular pluralismo e diversidade por um conjunto de medidas que protejam o interesse público: mais canais, mais pluralismo, mais diversidade. Deveria haver uma avaliação das concessões a cada 15 anos sobre se cumpriram ou não o papel de interesse público e se contribuem ou não para um cenário de diversidade e pluralismo. O público precisa ter o direito de receber isso. Isso pode ser feito por uma mudança radical no sistema de comunicação brasileira.

Publicidade 

– As verbas publicitárias públicas têm um papel tanto maior quanto menor é a emissora. As grandes empresas dependem menos das verbas públicas, ainda que tenham significação razoável. O que a Europa faz em certos casos é aplicar um fator de diminuição na verba distribuída aos grandes para que não se gere um círculo vicioso de crescimento e monopolização.

Mensalão e o processo contra Lula

– Segundo conclusão de tese da professora Liziane Guazina, da UnB, a cobertura dos veículos naquele caso ajudou a criar uma lógica contra a política, de enfrentamento à política. Não é só de um viés político em relação a um grupo político ou outro, mas funciona como um questionamento de legitimidade do próprio funcionamento da política. 

– Isso pode ser entendido como natural num processo em que muitos dos procedimentos da política são pouco visíveis ao público e o público pode ver isso como imoral ou ilegal. Mas, na verdade, o problema é que gera uma sensação de cinismo e ceticismo que afeta de forma muito negativa a cultura  política do país. Todo mundo passa a desacreditar a política em si como atividade organizadora de uma sociedade. Isso é fatal e afeta o funcionamento da democracia e não à toa nos levou a um quadro de negação do sistema político, o que é parte constituinte da eleição do Bolsonaro.

Artigo 220 da Constituição

– O artigo 220 se tornou uma utopia e isso é muito grave, porque esse é o único setor em que a Constituição proíbe o monopólio e oligopólio. A Constituição reconhece que não estamos falando apenas de um setor econômico, mas de um setor  com enorme influência no processo democrático. Mesmo que economicamente o monopólio não gerasse grandes prejuízos  ao consumidor, na prática ele gera para a sociedade, por manter o controle num só grupo do debate público.

– A situação é hoje muito mais complicada do que era há 30 anos, quando a Constituição foi promulgada. Hoje, os meios de comunicação social se confundem com meios de distribuição de infraestrutura. Você tem empresas de telecomunicação que têm TVs por assinatura, empresas de TV que controlam distribuição de conteúdo por vídeo sob demanda, uma série de propriedades cruzadas entre esses setores, o que faz com que a definição de mercado relevante, monopólio e oligopólio se torne mais complicada. Mas uma nova definição deveria ser feita à luz de um novo cenário, e não no cenário de 1988.

Eduardo Maretti
No RBA
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Só defesa eletrônica e armas a laser podem combater novo míssil russo


Os especialistas ocidentais subestimaram as características do míssil hipersônico russo Tsirkon, escreve o jornalista alemão Gernot Krumper.

O artigo de Kramper publicado na revista Stern aponta que o último avanço militar desenvolvido pelos engenheiros russos é capaz de viajar a uma velocidade de 11 mil quilômetros por hora.

"Cinco minutos serão suficientes para alcançar e destruir o Pentágono", escreve Krapper.

Nessa conexão, o jornalista está convencido de que os especialistas não esperavam tal eficácia do míssil Tsirkon.

Em particular, anteriormente os analistas ocidentais estimaram a velocidade do míssil naval russo em seis mil quilômetros por hora.

O autor da publicação afirma que o Tsirkon não apenas superou as expectativas: na verdade, essa arma não pode ser intercetada devido à sua alta altíssima velocidade e alcance significativo de mil quilômetros.

"Apenas os sistemas eletrônicos de defesa e as armas a laser são capazes de fazer frente a esses mísseis com eficiência", resumiu Krumper.

Mais cedo, o contra-almirante aposentado russo Vsevolod Khmyrov também assegurou que "um sistema hipersônico como o Tsirkon praticamente neutraliza qualquer sistema de defesa antiaérea ou antimíssil. Não há proteção contra ele".

Em 20 de fevereiro, o presidente russo, Vladimir Putin, disse em seu discurso sobre o estado da nação à Assembleia Federal (parlamento russo) que o míssil hipersônico Tsirkon, projetado para armar navios e submarinos de superfície, teria uma velocidade de 9 Mach (11.000 km/h) e um alcance de mais de 1.000 km.

Os testes governamentais do novo míssil hipersônicos devem ser realizados já no ano corrente.

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Venezuela: nem fome, nem crise humanitária, nem ditadura


O que os Jornalistas Livres viram na terra de Bolívar e Chávez é muito diferente daquilo que aparece na TV Globo, na Folha de S.Paulo e na grande mídia corporativa.

Laura Capriglione, dos Jornalistas Livres

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Os ratos do esgoto bolsonarista da internet começam a mostrar o focinho

Leonardo Oliveira (à esquerda) num vídeo da fan page de Ênio Mainardi
“Eu não sei mais o que é real e o que não é, porque é tão estimulado. Na televisão você tem ali, mas na internet você pode replicar, discordar e isso cria uma bola de neve que ninguém confia em ninguém”, diz o publicitário e diretor de arte Leonardo Oliveira num vídeo da fanpage A Reunião publicado em 25 de outubro de 2018. A página foi criada por Ênio Mainardi, também publicitário e pai de Diogo Mainardi, o ex-Veja e editor do blog de extrema direita O Antagonista.

Leonardo, conhecido como “L0en” no Twitter, criou e teve contas apagadas na rede social. Em 2015, ele foi responsável pela fanpage de Facebook “Humans of PT”, que atacou celebridades como Gregório Duvivier, PC Siqueira e o próprio Jean Wyllys. A mesma página também atacou desconhecidos que nunca votaram no PT, mas tiravam sarro de Aécio Neves, e chegou a criar uma loja de camisetas pró-Bolsonaro chamada Oprestore. O DCM contou essa história em 2016.

A nova de Leonardo é um podcast gravado neste ano. Ele fez parte de um uma série de programas chamado “Ninguém se importa”. De todas as gravações, 16 delas ainda estão online na data de publicação desta reportagem no Soundcloud. Dois programas contam com a participação de Leonardo Oliveira.

Um deles, que está fora do ar, foi obtido com exclusividade pelo DCM de fontes que pediram anonimato. Seria a terceira participação de Leonardo no programa. Ele tem uma hora e 27 minutos de duração.

No minuto 27, Leonardo confessa que criou fake news sobre Jean Wyllys. “Outro dia eu tava neurótico com fake news, do tipo ‘será que fake news que a gente tá fazendo zoando tá certo ou tá errado’? Falar que o carro HB20 do Adélio [Bispo, o homem que deu a facada em Bolsonaro] tá no nome do Jean Wyllys”.

E ele complementa, criando outra fake news: “comecei a pensar que era certo. O Jean Wyllys falou que ele tá exilado e foi morar na Alemanha. Os caras mentem sem parar o dia inteiro. Então tem que bater com a mesma força nos caras, sim. Por que o Jean Wyllys ligou pro presidente da Vale 25 vezes no dia que explodiu Brumadinho? Por quê? Explica essa pra mim, Brasil”.

O podcast é conduzido também por Hiram Galdino, conhecido no Twitter como @estadohiramico, e “Gugu Faraó”, outra figura da extrema-direita que troca de nicks dentro da rede social. O presidente Jair Bolsonaro segue Hiram na rede.

Na mesma gravação a que o DCM teve acesso, os autores do podcast também falam de forma racista e preconceituosas com mulheres e aproveitam para atacar a ex-presidente Dilma.

Em uma hora e cinco minutos de gravação, Hiram diz o seguinte: “o baiano é engraçado, você sabe quando é baiano pelos óculos amarelados, calça com bolso na canela e [um carro modelo] Kadett. Baiano adora um Kadett”. Na mesma parte da gravação, Gustavo e Hiram falam de sexo e soltam, de maneira preconceituosa: “mas o que me atrai mesmo é só as baianas gostosas, as negonas dançando. Pelo menos isso aí é o que tem de mais especial na Bahia. Porque de resto é tudo bosta”.

Rodando mais cinco minutos de podcast, Leonardo Oliveira diz que gostaria de entrar na política, no cargo de vereador. “É 15 mil votos, easy, vou me candidatar sim em 2020, to esperando um partido me aceitar. É 30 pau [30 mil reais] mais a grana do gabinete. Vereador deve ser uns 15. Imagina eu com 15 pau”.

No mesmo diálogo, Hiram solta: “nosso erro foi não ter ido nessas eleições, viajamos”. E Gustavo complementa: “se o Frota conseguiu, vocês conseguem”.

Ao longo da gravação, os três afirmam que as mulheres são o verdadeiro “mal da humanidade” e, com uma hora e 18 minutos de gravação, atacam a ex-presidente Dilma Rousseff.

Falam sobre fazer estuprar Dilma fantasiados de Ustra pra “ela ficar molhada”, além de “se vestir de rato e chupar ela”. Um deles solta: “o único torturado foi o rato, que merece a pensão”.

A fonte define muito bem os três comunicadores no podcast: “é a síntese do esgoto que está aliado aos filhos do presidente no Twitter fazendo o serviço sujo de fake news”. Um deles, Leonardo Oliveira, admite na gravação.

Provavelmente um deles se tocou do risco dessa gravação e tirou o conteúdo do ar.

A Agência Pública publicou uma reportagem no dia 11 de fevereiro rastreando algumas das fake news que tentavam associar a facada em Bolsonaro com Jean Wyllys. Em comum, as postagens de Olavo de Carvalho, Lobão e outros nomes da extrema direita apontavam para perfis anônimos e o site Renova Mídia, retuitado pelos filhos de Bolsonaro.

O segundo inquérito aberto pela Polícia Federal reforçou que Adélio Bispo, o autor da facada em Bolsonaro na cidade de Juiz de Fora, agiu sozinho. Nenhuma investigação associa o autor do crime com o PSOL.

O DCM procurou o publicitário Ênio Mainardi por email, mas não obteve resposta. Também procuramos Leonardo. O publicitário falou, em mensagem: “Pedro Zambarda, cheire o meu saco. Um efusivo abraço!”.

A revelação de Leonardo Oliveira no podcast “Ninguém se importa” vazado pro DCM ajuda a esclarecer que esses movimentos na rede pró-Bolsonaro nada tem de espontâneo. É o mesmo Leonardo que estava reunido com Ênio Mainardi nas eleições, em outubro de 2018, afirmando que “eu não sei mais o que é real e o que não é”.

Na medida em que os autores das farsas na internet são revelados, dá pra saber muito bem o que é verdadeiro e o que não é na rede.

Só acredita quem quiser.

* * *

PS: O próprio Leonardo Oliveira, no Instagram, e seguidores dele (alguns fakes) atacaram a conta do Pedro Zambarda no Twitter depois que o jornalista o procurou para a entrevista. A atitude covarde fala por si.

Pedro Zambarda
No DCM
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O rambo da “S.W.A.T” que escoltou Lula foi segurança de Bolsonaro durante a campanha


Caiu na rede um imagem que compara a do policial que usava colete com escudo da S.W.A.T ontem na escolta de Lula com a do homem que atendeu Bolsonaro no dia em que este levou a facada em Juiz de Fora.

Parece a mesma pessoa, e talvez seja.

Agente estrangeiro infiltrado? Não é crível.

É apenas o mesmo policial, que trabalhou na segurança de Bolsonaro — por lei, cedida pela PF — e agora porta metralhadora para escoltar o ex-presidente.

O Diário da Região, jornal de São José do Rio Preto, publicou um breve perfil dele, quando se destacava na segurança de Jair Bolsonaro.

É Danilo Campetti.

No DCM

Reprodução | Ricardo Stuckert

Danilo Campetti, o policial federal com brasão da SWAT que conduziu Lula no velório do neto, em São Bernardo do Campo, é o mesmo que estampa com orgulho em sua página no Facebook "TchauPT, agora é com o Mito". Pergunta: alguém com este perfil é adequado para proteger a vida de alguém sob custódia do Estado? O policial ainda debocha: "O mesmo PF que fez a escolta do Lula, fez a segurança do Bolsonaro nas eleições. VEJAM A DIFERENÇA"

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Guru de Bolsonaro, Olavo de Carvalho omite declarações de renda


Esse documento acima mostra que o filósofo Olavo de Carvalho, guru da família Bolsonaro, tem problemas com a Receita Federal.

Sua empresa – Olavo de Carvalho Produções – é classificada pela Receita Federal como inapta.

Motivo: omissão de declarações.

Outros documentos mostram que ele nem sempre omitiu declarações de renda.


A empresa de filósofo tem as mais diferentes funções. Até administração de atletas.


A situação de Olavo de Carvalho também tem problemas nos Estados Unidos, onde ele vive.

Ele próprio admite ao pedir socorro aos amigos e leitores.


Mas Olavo de Carvalho não detalha quanto deve.

Nem como chegou a dever para o governo americano e hospitais.

Começa com a posição de vítima para sensibilizar os doadores: “acossados por uma rede internacional de caluniadores e difamadores, recebemos ainda uma cobrança monstruosa de despesas médicas e impostos”.

O que tem a ver a “rede internacional de caluniadores” com as dívidas?

Eles influenciaram o governo americano a cobrar impostos atrasados do filósofo?

Um jornalista do Estadão tentou entrevistar Olavo de Carvalho.

Mas o filósofo preferiu o ataque.


Um tal de Gregory, do Estadão, pediu entrevista sobre as dívidas. Respondi-lhe o seguinte:

Vagabundo intrometido. Minhas aulas você não quer acompanhar, mas qualquer dificuldade financeira minha deixa gente como você sexualmente excitada. Vá à merda. NUNCA MAIS direi uma palavra a qualquer órgão dessa mídia brasileira criminosa. Olavo de Carvalho.


Há mais um detalhe: ele mora nos Estados Unidos há muitos anos.

E mesmo assim não tem uma conta bancária no país?

Basta ver que ele só apresenta a conta de sua mulher, Roxane.

Gilberto Dimenstein



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Para justificar a morte de uma criança de 7 anos, li de tudo, estas últimas 26 horas.


Li que Lula mereceu porque proibiu vacinas contra a meningite. É fake news.

Li que Lula não era avô de Arthur. Fake news!

Li que a mãe merecia solidariedade, o pai de Arthur, não.

Li que a morte do pequeno era parte da sentença.

Li que o pequeno foi tirado da Terra para que não tivesse Lula como avô, Sandro como pai, Marisa como avó.

Li tudo o que meus olhos queriam desler.

Vi o ódio estampado com foto no perfil, com netinhos no colo.

Vi uma avó que dizia: "meu neto não terá sua casa arrombada pela PF porque somos 'cidadãos de bem'". Não, não são.

Entregam seus próprios filhos à guerra, porque não têm coragem de encarar nem a faxina doméstica, nem encargos trabalhistas, nem a cara do Brasil negro, indígena, nordestino, pobre, porém honesto e valente.

Os que odeiam Lula, votaram num que manda matar, em 2014. Votaram num que disse que ia matar todos, em 2018.

É gente que só queria hoje comemorar morte de alguém, mesmo que este alguém fosse uma criança.

É gente que espalha fake news, até hoje, acusando dona Marisa Letícia, já falecida, de ter deixado "milhões" de herança, vendendo Avon.

É gente que espalha fake news de que Lulinha, biólogo, trabalhava num zoológico limpando jaula de elefante e ficou zilionário, dono da Friboi, inclusive. Gente que mente, até hoje, sobre a vida dos filhos de Lula.

Acham que esse ódio que pregava a desgraça da família, nunca interferiu na vida dos netos?

Gente que não enxerga que o padrão social de Lula, após 8 anos de mandato, centenas de títulos e prêmios no exterior, continua simples.

Mora numa mesma casa, desde que foi eleito. Moro não encontrou uma só fazenda em seu nome, com pista de jatinho particular. Uma só conta na Suíça.

Gente que mente, ate hoje que Lula esconde fortuna no Uruguai, também esconde que o laranjal dos Bolsonaro, o paradeiro de Temer, as contas na Suíça de Aécio e Serra, esconde Queiroz e jura que Flavio Bolsonaro é uma vítima.

Gente que esconde, até hoje que, atrás da Bic de Bolsonaro, daqueles moletons xexelentos e amarrotados, daquele pão com leite condensado nojento, ele não se dá ao trabalho de esconder nem o que sonega, nem o patrimônio incompatível que adquiriu, em 30 anos de vagabundagem parlamentar em família e quadrilha, que ultrapassa R$15 milhões (que a gente sabe).

Lula tem que ficar preso, para que a mentira destas pessoas possa continuar respirando por aparelhos celulares.

Lula é vítima da mentira que começou com "Lulinha é dono da Friboi, da Ferrari de ouro, da maior fazenda do mundo" e que acabou em duas condenações movidas a fofoca, na morte precoce de Dona Marisa, na prisão ilegal, na perseguição até em dia de luto do irmão, na perda irreparável de um neto.

Cada mentira encomendada pelo juiz corrupto e malandro, garantiu a Moro as tetinhas do laranjal de Bolsonaro e seus milicianos.

Cada mentira contra Lula pegou carona nas demais mentiras: "Bolsonaro é honesto", "patriotas beijam bandeira norte-americana", "o Brasil quebrou", "a Previdência vai quebrar", "a conta é o povo quem tem que pagar", "vamos entuchar dinheiro no rabo dos banqueiros pra gerar emprego", "Agora vai!", "Porte de armas para manter segurança", "o Brasil precisa entrar numa guerra latino-americana em nome de Deus", "o pré-sal dá prejuízo pro Brasil", "tem que privatizar, destruir o setor industrial do Brasil que, pagar em dólar, vai ficar mais barato".

Mentiras e mais mentiras que precisam de muito ódio para soterrar este país no vexame, na falência e na miséria econômica e social.

O vexame, a falência, a miséria moral, intelectual e humana, já soterram o Brasil, toda vez que Lula paga pela ignorância, pelo preconceito e pela mesquinharia de uma gente que não é povo. É castigo.

Malu Aires
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Nesse grande Carnaval

O apelido, Zé Garoto, com certeza vinha de longe, porque os cabelos, além de vencidos por duas entradas ambiciosas, já branqueavam. Para nós, da Redação, não teve nome.

Baixo, maciço, cabeça esférica e volumosa, tipo perfeito do sertão nordestino. Cicatrizes de cortes no rosto de lua, no pescoço, agravavam o ar sinistro vindo do olhar duro e da sisudez imóvel. Foi guarda-costas e chofer de J.E. de Macedo Soares, jornalista lendário e fundador do Diário Carioca, até que a inatividade do patrão o fizesse só motorista do jornal. Mas nenhum repórter ou fotógrafo se sentia à vontade na velha caminhonete do DC. Com razão.

Certa vez, Armando Nogueira (o que veio a dirigir por longo tempo o jornalismo da TV Globo) saiu com Zé Garoto para reportar a rebelião no presídio de Anchieta, longa viagem até o litoral de São Paulo. Rebeliões assim eram raras na época, e as primeiras informações daquela eram alarmantes.

Já no lado paulista, e próximo de um retorno, Zé Garoto embicou o carro e disse, como um aviso vulgar: "Vou voltar". Armando lançou-se aos argumentos, jornalísticos, lógicos, éticos, para ao fim só ouvir um eco: "Vou voltar".

Emitido por voz e cara que não pediam concordância. Zé Garoto entregava o primeiro reparte das edições no sul fluminense, zona de influência política de Macedo e do DC, e no retorno recolhia remessas de pequenos agricultores, faturando um extra. Seguir ainda, noite já avançada, impediria os dois serviços.

Por muitos, passava como se não os visse, talvez reunidos na expressão que dele ouvi mais de uma vez: "coitado do que pensa que me faz frio". Como Gilson Campos, também sobrevivente do DC, e um ou outro mais, pude me dar bem com Zé Garoto.

Em noite logo depois de um Carnaval, íamos em seu furgãozinho buscar um carro neurótico que tive, e que ele se oferecia para consertar, quando começou a chuviscar e levantei o vidro do carona. Notei uma rachadura e, no alto, a falta de um pedacinho em forma de vê. "Estava chovendo, não desci o vidro todo, e a bala raspou aí. Mas não atrapalhou. Foi o último."

Anos atrás, na guerra entre capangas de políticos, Zé Garoto foi atacado ao chegar em casa, muito esfaqueado e jogado na vala imunda. Supunham-no morto. "No primeiro Carnaval quando fiquei bom, peguei um. No outro Carnaval, peguei o segundo. No outro, o terceiro. Todos na rua. No ano passado perdi o quarto. Nesse ano, aproveitei que tava chovendo, não ia ter movimento na rua dele, dei um plantão lá. Uma hora ele ia aparecer. De noite ele saiu, eu tava esperando no outro lado. Aí estragou esse vidro, que eu tinha que abaixar mais. Mas não atrapalhou."

O ano inteiro pensando no Carnaval, esperando o Carnaval, ansiando pelo Carnaval. O Carnaval não é o mesmo para quem sai de saiote no bloco de rua, para quem quer a exibição no desfile da escola de samba e para quem vai ao baile do Copacabana Palace. O Carnaval é de cada um. Zé Garoto esperou e gozou os seus com razões e expectativas pessoais como todo carnavalesco. Seus carnavais de crime e de morte.

Naquela altura, o Carnaval também morria, quando os maiores contraventores, acusados de uma infinidade crimes, resolveram ressuscitá-lo. Por sua conta. O Estado fez no Rio um Maracanã do samba para o Carnaval que os contraventores organizavam e pagavam. Em São Paulo foi igual.

O feito dos contraventores projetou o Carnaval pelo mundo. Com incentivo e proveito das economias urbanas, com formidável promoção da TV, dos jornais, das revistas e rádios, e lucros altos para todo lado. E, por todo o ano, ataque e polícia para cima dos contraventores, acusados sempre, presos e soltos, considerados a laia da sociedade e do crime — até chegar o Carnaval.

É a grande festa da hipocrisia nacional. Agora estendida ao país pelos carnavalescos Bolsonaros, Damares, Ricardo Vélez, Ernesto, Queiroz, e tantos outros fantasiados.

Janio de Freitas
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Bolsonaro e o fetiche da mercadoria | Café Bolchevique #1, com Mauro Iasi


A TV Boitempo apresenta sua mais nova vídeo-coluna: o "Café Bolchevique", com Mauro Iasi. Todo mês, o professor e comunista de carteirinha vai introduzir conceitos-chave da tradição marxista a partir de reflexões sobre acontecimentos da conjuntura política e social recente no Brasil e no mundo. Se inscreva no canal e venha tomar este café mensalmente conosco!

Neste episódio de estreia Mauro introduz o famigerado conceito de "fetichismo da mercadoria" e procura sublinhar sua relação com as formas políticas do capitalismo para nos ajudar a compreender a eleição de Bolsonaro.

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