28 de fev de 2019

Indústria da Delação: Petrobras entrega 2,5 bilhões para Lava Jato do Paraná administrar

Se a Procuradoria Geral da República e o Supremo Tribunal Federal permitirem esse escândalo, será a pá de cal em sua imagem


Por aqui, já revelamos vários capítulos obscuros da indústria de delações da Lava Jato. Mas o último capítulo conseguiu ser o mais escandaloso de todos.

A Lava Jato acertou um acordo inédito com a Petrobras. Por ele, a empresa pagou R$ 2,5 bilhões de reparação, para serem aplicados em projetos sociais administrados por uma fundação de direito privado recém constituída e controlada pelo Ministério Público Federal do Paraná, em conta vinculada com a 13ª Vara Federal de Curitiba, à qual pertencia Sérgio Moro.

Os estatutos da fundação foram aprovados pela 13ª Vara. Na coordenação haverá um representante do Ministério Público do estado do Paraná, indicado pelo próprio chefe da Procuradoria. A sede será em Curitiba. Pelo acordo, terá uma orçamento anual superior ao da própria Procuradoria Geral da República.

Segundo o acordo, os R$ 2,5 bilhões serão aplicados em

“iniciativas e desenvolvimento institucional de entidades e redes de entidades idôneas, educativas ou não, que reforcem a luta da sociedade brasileira contra a corrupção com os seguintes fins:
  • afirmação de uma cultura republicana de respeito à legalidade e aos valores democráticos, de modo apartidário, por meia da promoção da cidadania, da formação de lideranças e do aperfeiçoamento das práticas políticas
  • promover a conscientização da população brasileira sobre importância da integridade no ambiente público e privado;
  • fortalecimento da sociedade civil brasileira e fomento à cidadania participativa, na prevenção e controle social da corrupção.
  • Desenvolvimento do controle social, da cultura de compliance e de estudos sobre corrupção, Impunidade e suas causas;
  • reparação, proteção e promoção de direitos civis, políticos. sociais e económicos, especialmente por meio da educação, treinamento e profissionalização, de comunidades direta ou indiretamente afetadas.
Nos últimos anos, o Ministério Público Federal empenhou-se em combater fundações ligadas a Universidades. E a entrega de dinheiro público a organizações sem controle social, como as APAES (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).

Se a Procuradoria Geral da República e o Supremo Tribunal Federal permitirem esse escândalo, será a pá de cal em sua imagem.


Luís Nassif
No GGN
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Manato, homem forte de Bolsonaro, manda prender amante para evitar vídeo íntimo do casal

Simone Lima Silva gravou vídeos e premeditou a extorsão, sendo presa em flagrante. Carlos Manato é Secretário da Casa Civil do Presidente Jair Bolsonaro (PSL)

Ela
A amante do ex-deputado Carlos Manato (PSL), homem forte do presidente da República, Carlos Manato, é natural de Ecoporanga e mora atualmente em Vila Velha. Ela tem 37 anos: Simone Lima Silva.

Ele
Ela já foi presa em 1995 por furtar loja. Justificou que estava em depressão na época. E no seu depoimento, Simone disse que conheceu o ex-deputado Carlos Manato antes de se casar, mas era um caso extra-conjugal pois ele sempre foi casado com a deputada federal, Doutora Soraya (PSL).

De forma peculiar, disse que numa ocasião em Guarapari pediu R$ 5 mil ao ex-deputado que negou, alegando não ter aquele dinheiro. A partir de então decidiu chantagear Manato que acordou em lhe dar R$ 25 mil para não mostrar os vídeos a ninguém.

Para não aparecer no escândalo, pediu para o motorista do ex-deputado, Luiz Dayr, levar R$ 10 mil em mãos no Shopping Praia da Costa e levar documento em que manteria sigilo. Os outros R$ 15 mil seriam depositados.

Para conseguir chegar a este ponto, Simone enviou um dos vídeos íntimos dos dois, o que levou o Secretário da Casa Civil da Presidência da República a colocar o motorista como suposta vítima em seu lugar.

Existe a suposição de que a amante não teria agido sozinha no plano de extorsão. O caso está sendo apurado. A Delegada Rhaiana Bremenkamp teria preservado o nome do ex-deputado, inserindo só o nome "Carlos" em toda citação referente ao assessor do presidente da República.

No FolhaES
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Bolsonaro é o Recruta Zero que se acha o general do quartel Brasil


Jair Bolsonaro, eleito graças a um derrame de fake news na campanha, sorria tanto durante o encontro com o presidente fake da Venezuela, Juan Guaidó, que parecia estar ganhando o Nobel da Paz – e, quem sabe, reside aí sua esperança com essa política externa tresloucada no estranho universo paralelo em que vive o Capitão, talvez algo parecido com o quartel Camp Swampy.  Num governo em que o chanceler de fato é o vice Hamilton Mourão, em que seu filho Eduardo viaja o mundo como um adido biruta para assuntos aleatórios, e em que Ernesto “No Che” Araújo vive brincando de war num Itamaraty de fantasia, Bolsonaro vai se convertendo em um comandante-em-chefe de mentirinha, o Recruta Zero achando que vai mandar no Sargento Taínha – ou, pior, no General Dureza.

Nesta quinta, 28, o Capitão envergonhou milhões de brasileiros e venezuelanos fazendo um pronunciamento no Palácio do Planalto ao lado de Juan Guaidó, após os dois se reunirem mais cedo. Distribuiu sorrisos forçados, soltou frases que não dizem nada – “Nós não pouparemos esforços dentro – obviamente – da legalidade, da nossa Constituição e de nossas tradições, para que a democracia seja restabelecida na Venezuela” – e constrangeu até o próprio autodeclarado presidente, que certamente esperava mais que confete e serpentina, mesmo na véspera do Carnaval. O que continua valendo é o que disse Mourão: o Brasil tentará encontrar uma solução “sem qualquer medida extrema” para “devolver a Venezuela ao convívio democrático das Américas”. 

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O presidente Jair Bolsonaro e o autodeclarado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, durante encontro no Planalto. “Deus é brasileiro e venezuelano”, disse o Capitão com pendores de Papa.
Foto: Marcos Corrêa/PR

Na véspera, em Itaipu, Bolsonaro, o colecionador de ossos, chamara o ditador paraguaio Alfredo Stroessner, déspota do mais longevo regime de exceção sul-americano, de “estadista”. Isso ao lado do filho de um ex-assessor de Stroessner, o atual presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, outro que, por sinal, receberá Guaidó.

O errático comandante do quartel Camp Swampy prepara mais duas viagens internacionais, onde, para variar, falará como um tuiteiro e voltará a prometer o que não vai cumprir, mas que será suficiente par causar mais danos diplomáticos e comerciais. Primeiro visitará os Estados Unidos e, se depender de seu filho Eduardo, dará alguma declaração sobre o assunto que confronta Donald Trump com seu Congresso. Não se espante se Bolsonaro defender a construção do polêmico muro na fronteira dos EUA com o México e, quem sabe, solte uma piadinha em fazer o mesmo com a Venezuela bolivariana. Vocês duvidam mesmo?

Depois, no fim de março, Bolsonaro irá para Israel, e certamente voltará com a baboseira de transferir a embaixada do Brasil naquele país de Tel Aviv para Jerusalém – o que já causou estragos nas relações muito mais relevantes com as nações árabes e islâmicas, grandes importadoras de proteína animal do Brasil. Confirmadas as visitas, Bolsonaro, depois de agir como cheerleader de Trump, poderá ser caso eleitoral de Benjamin Netanyhau. A viagem a Israel, prevista para 31 de março a 4 de abril, ocorrerá dias antes das eleições locais, marcadas para o dia 9 de abril. O primeiro-ministro Netanyhau disputa a reeleição. Para Netanyahu, a transferência da embaixada seria o melhor dos mundos. Apenas Estados Unidos e Guatemala mudaram as embaixadas para Jerusalém até hoje.

No Gilberto Pão Doce
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Bolsonaro inflou declaração de bens com van vendida um ano antes para ex-assessor

Veículo está desde 2017 em nome de ex-soldado que atuou como motorista da família do presidente

Jaci Santos, motorista que trabalhou com a família Bolsonaro e comprou a van (na foto)
na época em que trabalhava com Jair Bolsonaro
Ricardo Borges/Folhapress
O presidente Jair Bolsonaro (PSL) inflou sua declaração de bens à Justiça Eleitoral em 2018 com um micro-ônibus que havia sido vendido no ano anterior para um ex-assessor dele e do filho Flávio, hoje senador.

O veículo, declarado em agosto do ano passado como patrimônio de Bolsonaro, está desde fevereiro de 2017 em nome do ex-soldado da brigada de Infantaria Paraquedista Jaci dos Santos, que trabalhou anos atrás como motorista da família do presidente.

Esse micro-ônibus, uma Mercedes Benz Sprinter 313, ano 2004, foi avaliado por Bolsonaro em R$ 89 mil e aparece em suas declarações de patrimônio desde 2006. Jaci diz ter pago R$ 10 mil pelo veículo, em algumas prestações.

À época da compra, ele era funcionário do gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Assembleia do Rio, com salário líquido de R$ 2.571,94.

​Segundo o artigo 350 do Código Eleitoral, a prestação de informação irregular à Justiça Eleitoral pode ser caracterizada como crime de falsidade ideológica. Seu autor fica passível a até cinco anos de reclusão, além de multas, desde que comprovada a intenção do candidato de burlar a lei.

Segundo especialistas em direito eleitoral ouvidos pela reportagem, a inclusão extra de bens na lista encaminhada ao TSE poderia servir para inflar o patrimônio para, depois, mascarar uma futura evolução.

Procurada desde o início desta semana e informada sobre o teor da reportagem, a Presidência da República não quis se manifestar. "O Planalto não irá comentar", afirmou a assessoria de Bolsonaro.

Microônibus declarado por Jair Bolsonaro havia sido vendido a mais de um ano antes para um ex-assessor dele e do filho Flávio
Ricardo Borges/Folhapress
Faz-tudo da família

Atualmente, o micro-ônibus fica estacionado diante de uma casa de cimento à vista, na comunidade de Jardim Novo, em Realengo, uma região dividida entre milicianos e traficantes da facção ADA (Amigos dos Amigos).

Jaci, espécie de faz-tudo da família e o novo proprietário da van, trabalhou no gabinete de Flávio de março de 2012 a dezembro de 2016.

Antes de ser transferido para a Assembleia, Jaci ocupou por pouco mais de um mês um cargo no gabinete do próprio Bolsonaro na Câmara dos Deputados, para assessoria do então deputado no Rio de Janeiro. “Fazia um pouco de tudo. Dirigia, fazia faxina", afirma Jaci.

Jaci conta ter comprado a van no final de 2016. A data do Certificado de Registro do Veículo é 10 de fevereiro de 2017, um ano e sete meses antes de Bolsonaro ter apresentado a lista de seus bens ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

A declaração de Bolsonaro inclui ainda um micro-ônibus Mercedes Benz Sprinter 415, ano 2014, avaliado em R$ 141 mil. De cor cinza, é guardado em sua casa, em um condomínio na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio.

Certificado de registro de veículo do microônibus
Ricardo Borges/Folhapress
Jaci lembra que ele e, eventualmente, também Bolsonaro pilotavam as vans. Jaci trabalhava nas campanhas eleitorais de Bolsonaro e também nas dos filhos do presidente. “Levava o pessoal para fazer área [panfletagem em regiões riscadas em um mapa]. Depois voltava para buscar”, afirma o ex-faz-tudo do presidente.

Como é antigo, o micro-ônibus comprado por Jaci não tem licença para uso comercial, sendo usado para eventos, festas e jogos com amigos. “Essa van é uma relíquia para mim”, afirma Jaci, que conhece o presidente da República desde 1984, quando foi seu aluno na Brigada Paraquedista.

Em 2012, quando Jaci ainda atuava na Assembleia, ele e Bolsonaro foram autuados pelo Ibama por pesca ilegal na Estação Ecológica de Tamoios, em Angra dos Reis. Eles estavam acompanhados de Edenilson Garcia, marido de Walderice Santos da Conceição, funcionária fantasma do gabinete de Bolsonaro na Câmara dos Deputados.

A denúncia por pesca ilegal contra Bolsonaro feita pela Procuradoria-Geral da República foi arquivada em março de 2016. Jaci respondeu por crime ambiental na Justiça Federal da Angra dos Reis. Ele e Garcia foram absolvidos em janeiro de 2016 porque o caso não foi considerado grave. Para o juiz Ian Vermelho, a autuação não ocorreria se o então deputado não tivesse discutido com os fiscais ambientais.

No Folha
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A aposta furada de Carlucho na Bolsa

Segundo filho do presidente perde R$ 130.800 no mercado de ações e tenta, sem sucesso, recuperar o prejuízo na Justiça

Apesar da má aposta na Bolsa, Carlos Bolsonaro multiplicou seu
 patrimônio nos últimos anos e, ao ser reeleito vereador em 2016,
declarou ter R$ 608 mil.
Foto: Marcelo Regua / Agência O Globo
Em maio de 2007, Carlos Bolsonaro, o filho do presidente da República também conhecido como Zero Dois, Carluxo e Pit Bull, começou a investir em ações pela corretora Intra, com sede em São Paulo. Um ano antes, a Bolsa de Valores de São Paulo havia sido o investimento mais rentável. O clima era de otimismo no mercado acionário. Entre 28 de maio de 2007 e 18 de setembro de 2008, Carlos aplicou R$ 130.800 na corretora. Dois anos depois do primeiro aporte, em maio de 2009, com a crise financeira internacional já instalada, ele foi informado de que não só havia perdido tudo que investira, como ainda estava devendo R$ 15.500.

Inconformado com a perda, em julho de 2010, Carlos foi à Justiça pedir ressarcimento do prejuízo e indenização por danos morais. A essa altura a Intra já havia sido vendida à Citigroup Global Markets Brasil Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, hoje ré na ação. À Justiça, Carlos afirmou que, assustado e sem dinheiro em conta-corrente, pediu que o gerente da corretora fosse a sua casa buscar R$ 15.500, em espécie, para saldar o débito. Seus advogados argumentaram que ele era um investidor de perfil conservador, que queria aplicar em ações de empresas de primeira linha, como Petrobras e Vale, e acabou vendo os recursos sumir pelo ralo porque a corretora fez inúmeras operações a sua revelia, incluindo apostas no mercado futuro — quando o investidor aposta se o preço de uma ação vai cair ou subir e, se acertar, embolsa o lucro.

Em agosto do ano passado, Carlos perdeu a ação em primeira instância. A juíza Gisele Valle Monteiro da Rocha, da 35ª Vara Cível de São Paulo, considerou a ação improcedente e foi implacável ao rebater a tese de que Carlos ignorava o que acontecia com o dinheiro aplicado. Na sentença, ela afirma que competia ao vereador carioca zelar por sua situação financeira e controlá-la, e que ele tinha pleno conhecimento dos negócios realizados em seu nome durante dois anos, mas que só reclamou depois de perder tudo que havia investido. A juíza ressaltou que a BM&F Bovespa manda extratos quinzenais das operações e comunicados sobre compra e venda de ações e opções no mercado futuro toda vez que elas são feitas. Rocha ainda escreveu que, se Carlos se dispôs a cobrir o prejuízo informado pela corretora, “não pode falar agora que não concorda com as operações realizadas”. O fato de Carlos ter R$ 15.500 em espécie em casa não mereceu grande atenção. “A alegação de ignorância não prospera, o mercado de ações espera conhecimento mínimo sobre as operações que realiza”, escreveu a juíza. Os advogados de Carlos recorreram da sentença.

Fora a alegação de ignorância, o que chama a atenção é a quantia vultosa aplicada em ações para um jovem que tinha na época apenas 25 anos e estava em seu segundo mandato como vereador no Rio de Janeiro — com salário de R$ 9.288. Na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral nas eleições de 2008 — o registro da candidatura foi apresentado em 28 de junho daquele ano —, Carlos disse ter apenas um automóvel Peugeot 307, avaliado em R$ 65 mil, e um apartamento na Rua Itacuruçá, na Tijuca, Rio de Janeiro, que valia R$ 195 mil. Somados, ele declarou ter em bens R$ 260 mil. O valor investido em ações, que Carlos omitiu da Justiça Eleitoral, somava metade de seu patrimônio declarado.

Pela Lei 9.504/97, que regula as eleições, os candidatos são obrigados a apresentar uma declaração de bens à Justiça Eleitoral. Mas a legislação é condescendente com omissões. Não estabelece que a declaração seja a mesma apresentada no Imposto de Renda e não prevê qualquer tipo de reprimenda a quem esquece de declarar um ou outro bem. A lei era assim em 2008 e continua inalterada até hoje. Há, porém, quem defenda que a omissão de bens pode ser incluída no artigo 350 do Código Eleitoral, como falsidade ideológica eleitoral. “A declaração de bens à Justiça Eleitoral tem de representar a realidade. Se um bem deixa de ser declarado, isso configura um ilícito”, afirmou o advogado Silvio Salata, especialista em Direito Eleitoral e Político em São Paulo. O advogado Filippe Lizardo, também da capital paulista, defende que a declaração de bens dos candidatos deve ser completa, mas ressalta que a Justiça Eleitoral não trata omissão de bens como crime.

Apesar da liberalidade da legislação, vários candidatos à Câmara Municipal do Rio nas eleições de 2008 foram mais detalhistas do que Carlos. Aloisio Freitas, que foi eleito pelo DEM e hoje está no PDT, declarou ter 2 mil ações da Vale do Rio Doce, que na época valiam R$ 102.200. O então candidato Eliomar Coelho, do PSOL, informou à Justiça Eleitoral ter na época uma poupança com R$ 27 mil e Rubens Andrade, do PSB, chegou a declarar ter 1/8 do direito de uso de uma linha telefônica, recebida de herança, que valia R$ 437. Teresa Bergher, do PSDB, declarou ao TSE ter R$ 208 numa poupança no Itaú e R$ 17,10 em ações de uma empresa de telefonia.

O fato de Carlos ter perdido um terço de seu patrimônio no mercado acionário não o deixou mais pobre por muito tempo. Em 2012, ou seja, cerca de três anos depois de ter contabilizado a perda de R$ 130.800, ele declarou à Justiça Eleitoral ter um patrimônio 73,8% superior ao de 2008. Além de carro, motocicleta e dois apartamentos — acrescentou um imóvel em Copacabana —, o vereador informou ter o equivalente a R$ 20 mil em moeda estrangeira e R$ 12 mil em conta-corrente. O total era de R$ 452 mil. De 2012 a 2016, outro salto superior a 70% no patrimônio. Na última eleição para a Câmara Municipal, Carlos disse ter um patrimônio de R$ 608 mil.

Uma ação idêntica contra a mesma corretora foi movida pelo irmão de Carlos, Flávio Bolsonaro, o Zero Um. Flávio afirmou ter investido R$ 90 mil entre agosto de 2007 e setembro de 2008. Os valores são distintos, mas a história é semelhante. Flávio disse também ter sabido do prejuízo por um gerente da corretora e, assim como o irmão, fez um depósito imediato de R$ 15.500, em dinheiro. A ação de Flávio corre na 36ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo. No período entre o investimento em ações e o prejuízo — 2007 a 2009 —, Flávio não apresentou declarações de bens à Justiça Eleitoral, já que foi candidato em 2006 — antes do investimento — e em 2010, depois de já ter tido o prejuízo.

Na Justiça, Flávio também argumentou que jamais teve o controle sobre os valores aplicados no mercado de capitais. Um laudo de perícia incluído no processo, porém, mostrou que ele acessou 66 vezes o Home Broker, sistema on-line para acompanhar operações. “Nem a mais pueril das criaturas poderia tomar a história de Flávio como crível”, alfinetaram os advogados da corretora. No caso de Flávio, a Justiça ainda não deu seu veredito. Procurado por Época, o gabinete de Carlos informou que ele não está dando entrevistas. Os assessores de Flávio responderam dizendo que o senador não se pronunciaria sobre esse assunto.

Cleide Carvalho
No Época

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A demolição do Brasil

O governo Bolsonaro tem uma noção extremamente superficial e distorcida de nacionalismo.

De um lado, veste-se de verde-amarelo, proclama “Brasil acima de tudo” e quis até obrigar as crianças cantar o hino nacional nas escolas. De outro, porém, dedica-se com afinco a destruir o setor produtivo interno e a soberania nacional.

Na prática, em vez de “Brasil acima de tudo”, o real lema político do governo é “EUA acima de tudo”.

De fato, em razão de uma subserviência política e ideológica a Trump, o governo Bolsonaro vem tomando uma série de iniciativas em política externa que estão causando prejuízos sensíveis ao setor produtivo do Brasil, notadamente, mas não exclusivamente, à agricultura nacional.

Por exemplo, o anúncio da transferência da Embaixada do Brasil de Telavive para Jerusalém, mesmo ainda não concretizada, já causou prejuízos diplomáticos e comerciais ao Brasil.

Transferir a embaixada para Jerusalém significa assumir apoiar os interesses exclusivos do Estado de Israel, em detrimento claro dos interesses do povo palestino. Significa tomar lado numa disputa geopolítica sensível que envolve todo o mundo, direta ou indiretamente.

Isso não convém aos interesses objetivos do Brasil.

Exportamos US$ 11,6 bilhões para o Oriente Médio e US$ 13,5 bilhões para a Liga Árabe, em 2017. Para Israel, exportamos somente US$ 466 milhões.


Esse grande mercado consumidor árabe foi conquistado, diga-se de passagem, pelos governos do PT, e é responsável por absorver boa parte das nossas exportações de alimentos, principalmente de carnes.

Em razão dessa decisão ideológica de Bolsonaro, subserviente a Trump, já sofremos uma retaliação da Arábia Saudita, que cortou a importação de 33 frigoríficos brasileiros. Caso a transferência da embaixada se confirme, nossas exportações de commodities, principalmente de carnes, perderão clientes de grande peso.

A extinção das tarifas antidumping que o Brasil impunha à importação de leite da UE e da Nova Zelândia, por ordem do Ministério da Fazenda, é outra trapalhada que vai provocar prejuízos de monta aos agricultores brasileiros.

O Brasil impôs essas medidas antidumping, com o aval da OMC, porque o setor leiteiro recebe uma montanha de subsídios governamentais na União Europeia e, em menor grau, na Nova Zelândia.

Essas tarifas antidumping eram de 3,9% para a Nova Zelândia e de 14,8% para a União Europeia. Ao se somar essas tarifas compensatórias de dumping ao imposto de importação de 28%, a alíquota total para se importar leite da Europa era de 42,8% e, para a Nova Zelândia, de 31,9%.

Quando o Brasil impôs, seguindo as regras da OMC, essas medidas antidumping às importações de leite, o Brasil não tinha autossuficiência nessa produção, pois o leite europeu, dados os imensos subsídios conferidos a essa produção na Europa, chegava aqui muito barato, inviabilizando parcialmente a produção nacional.

Entretanto, graças, em grande parte, a essas medidas antidumping, o Brasil tornou-se autossuficiente em leite, nos anos subsequentes.

Agora, todo esse esforço em prol da produção nacional poderá ser jogado por terra.

Com essa decisão antinacional, corre-se o sério risco de o mercado brasileiro ser inundado com leite em pó europeu subsidiado, o que inviabilizaria parte da produção nacional, com o Brasil perdendo a sua recém conquistada autossuficiência na produção leiteira.

Saliente-se que cerca e 60% da produção leiteira do Brasil vêm de pequenas propriedades. Nesse caso, portanto, os mais afetados serão os agricultores familiares, que já estão sofrendo com as restrições ao crédito.

Outra posição que deverá pesar sobre os agricultores do Brasil tange à postura do governo Bolsonaro em relação à China, tomada em virtude de pressão do governo Trump.

Como se sabe, os EUA estão em guerra comercial com a China e vêm pressionando o Brasil para combaterem a influência dos chineses na América Latina. Alinhando-se a essa estratégia norte-americana de tentativa de restauração de uma perdida hegemonia inconteste e absoluta e a Trump e sua guerra comercial, Bolsonaro, assim como seu chanceler pré-iluminista, fizeram declarações contra a China, afetando nossa participação no grupo do BRICS.

Ora, a China é nosso primeiro parceiro comercial e o maior importador de nossa produção agrícola de exportação. Em 2017, exportamos para lá US$ 47 bilhões, com um superávit a nosso favor de US$ 20 bilhões. Em contraste, exportamos apenas US$ 26,8 bilhões para os EUA, com um superávit a favor do Brasil de somente US$ 2 bilhões, dez vezes menor que o obtido com a China. Saliente-se que, em 2018, nossas exportações para a China, estimuladas pelas compras de soja, foram de quase US$ 67 bilhões, sendo que as exportações para os EUA foram de apenas US$ 28 bilhões.


No que tange às exportações agrícolas do Brasil, a China, sozinha, absorve cerca de 37% do total. Em relação aos EUA, a China importa 4 vezes mais alimentos brasileiros.


Ironicamente, a China e os EUA estão prestes a fechar um acordo comercial, para pôr fim a sua disputa, pelo qual a China se comprometeria a importar mais produtos agrícolas dos EUA, como soja e carnes, de forma a reduzir o superávit que hoje tem com os EUA. No tocante à soja, o Secretário de Agricultura dos EUA, afirmou, em seu twitter, que os chineses teriam se comprometido a importar mais 10 milhões de toneladas dos EUA, neste ano.

Esse compromisso implicará a substituição de produtos brasileiros por produtos norte-americanos no mercado chinês de alimentos, o mais volumoso e dinâmico do mundo, responsável pela absorção da maior parte de nossas exportações agrícolas. Observe-se que 80% das nossas exportações de soja vão para a China.


A China importa cerca de 65%, quase dois terços, da soja comercializada no mercado internacional. Desse total, o Brasil supre 45%, os EUA 39% e a Argentina 13%. A tendência, agora, é que os EUA, nosso grande concorrente no mercado chinês, se tornem o primeiro fornecedor de soja para a China.

Não bastasse, a União Europeia, também pressionada pelos EUA e insatisfeita com as negociações com o Mercosul, também anunciou que passará a importar mais carne bovina dos EUA.

E o dano não para por aí. Bolsonaro e seu novo chanceler, emulando seu ídolo Trump, resolveram brigar com todo o movimento ambientalista mundial, pois questionam abertamente o caráter antropogênico do efeito-estufa.

Assim, por decisão do governo eleito, o Brasil voltou atrás em sua decisão de sediar a COP-25. O capitão prometeu até retirar o Brasil do Acordo de Paris, compromisso internacional de extrema relevância para o combate mundial ao efeito-estufa. Já o chanceler inquisitorial diagnosticou que o aquecimento global é mera ideologia inspirada no “marxismo cultural”. Mereceu artigos jocosos na imprensa internacional.

Como consequência, Macron anunciou que, caso o Brasil mantenha tal decisão, o Acordo Mercosul/UE não será concluído. A referida decisão da UE de deixar de importar carne bovina do Brasil tem relação direta com essa nova postura antiambientalista do Brasil.

Assim sendo, o quadro que o governo Bolsonaro está criando para o agronegócio brasileiro é desastroso. Estamos perdendo todos os grandes mercados para nossos produtos alimentares.

Mas não é apenas o setor agropecuário que sofre com as trapalhadas ideológicas da política externa de Bolsonaro. A nossa indústria também.

As declarações do “superministro” Paulo Guedes e da ministra da Agricultura contra o Mercosul e a integração regional de um modo geral podem vir a comprometer seriamente os interesses da nossa indústria de transformação. De fato, o Mercosul e a integração regional asseguram ao Brasil um grande mercado cativo, particularmente para nossos produtos manufaturados, que não são competitivos em outros mercados. Cerca de 90% do que exportamos para o Mercosul são produtos manufaturados, de alto valor agregado, como carros, caminhões, máquinas, celulares, geladeiras etc.

A patética armada Bolsoleone não tem a menor ideia da posição do Brasil no mundo. Acha que o centro do planeta são os EUA de Trump. Ora, os EUA, mesmo ainda sendo a primeira economia mundial e um parceiro relevante para nosso país, já não têm mais a centralidade que tinham para a economia do Brasil.


Como se vê no gráfico acima, os EUA tiveram, nos últimos 10 anos, relevância comercial menor que outras regiões e países, como China, União Europeia, América Latina e América do Sul. A bem da verdade, a relevância dos EUA para o nosso comércio é equivalente à relevância do Mercosul, tão desprezado por nossos conservadores, como Paulo Guedes. Eles desconhecem totalmente as profundas mudanças geoeconômicas que se processaram no planeta, neste século.

Diga-se de passagem, o superministro, um ultraneoliberal oriundo da Escola de Chicago, pretende abrir a economia de forma brutal e intempestiva.

Uma medida a ser implementada tange à revisão das tarifas consolidadas que o Brasil tem na OMC.

As tarifas consolidadas são aquelas tarifas que os países inserem na OMC como suas tarifas máximas de importação, aquelas que eles consideram necessárias para a proteção dos seus diversos setores produtivos. No caso do Brasil, tais tarifas situam-se em torno de 35%.

Pois bem, a equipe econômica pretende rever tais tarifas, com redução sensível de seu teto. Embora ainda não se saiba exatamente o montante de tal redução e quais os setores que seriam afetados, o objetivo é blindar, na OMC, a opção neoliberal da abertura acrítica da economia, tão cara ao novo tzar da economia, Paulo Guedes.

Uma vez inseridas, essas novas tarifas reduzidas na OMC dificilmente elas seriam revertidas, o que imporia aos próximos governos obstáculos de monta para a prática de políticas comerciais mais protetivas, bem como empecilhos praticamente intransponíveis para políticas de industrialização, o que aceleraria o processo desindustrialização que hoje afeta o Brasil.

Hoje mesmo (28/02/2019), o Ministério da Economia, mediante duas portarias, reduziu a zero as alíquotas de importação, até 31 de dezembro de 2020, de cerca de 600 produtos de informática e bens de capital. Entre eles, estão impressoras, certos tipos de tablets, servidores de informática, autoclaves, motores de diversos tipos, combustores, fornos, bombas de vácuo, panelas, centrífugas, paletizadores, máquinas de ensacamento, máquinas agrícolas de pulverização, aspersores, empilhadeiras, tratores, perfuratrizes, máquinas de costura, máquinas têxteis, centros de usinagem, fresadoras, prensas hidráulicas, trilhos, trituradoras, etc., etc., etc. A lista é interminável. O dano à nossa indústria também.

No ano passado, nossa indústria permaneceu praticamente estagnada (0,6%).

Obviamente, a combinação dessas trapalhadas em política externa com essa política suicida de abertura incondicional da economia implodirá o setor produtivo nacional, já gravemente afetado pela recessão e a austeridade eternizada pela Emenda Constitucional nº 95.

Não bastasse, a contração do crédito, a fragilização do BNDES, nosso único grande banco de investimentos, bem como dos demais bancos públicos, e o fim da política de conteúdo local da Petrobras, entre muitas outras medidas destruidoras, contribuirão também para a configuração de uma tempestade perfeita que poderá demolir a economia nacional e o Brasil soberano.

Teremos de fazer “arminha” com mãos importadas. E nossa bandeira e nosso hino, mesmo que memorizados à força por nossas crianças, não terão mais qualquer significado.

Restará, apenas, a eterna vergonha de ter de bater continência para os EUA.

Marcelo Zero
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Delação de ex-braço direito de Dom Orani implica Igreja Católica na Lava Jato

Ex-padre, Wagner Portugal virou delator e confessou
corrupção em entidade ligada à cúpula da Igreja Católica que
administra hospitais do Rio de Janeiro
Um homem que durante anos foi braço direito do cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, admitiu participar de esquema de corrupção na Saúde do governo Sérgio Cabral e se tornou delator premiado. O ex-padre Wagner Augusto Portugal, um dos colaboradores da Operação S.O.S., desdobramento da Lava Jato no Rio, confessou sua participação no desvio de R$ 52 milhões dos cofres estaduais envolvendo contratos da Secretaria de Estado de Saúde do Rio com a organização social católica Pró-Saúde em 2013. Uma das linhas de investigação da força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF) no Rio apura se parte dessa propina bancou despesas pessoais de sacerdotes.

O delator, diretor de Relações Institucionais e de Filantropia da Pró-Saúde, frequentava o Palácio São Joaquim, residência oficial de Dom Orani, e tratava o arcebispo com intimidade, chamando-o de “você” — muito distante do protocolar “Eminência” reservado aos demais cardeais. Afastado do sacerdócio pelo Vaticano por desobediência, a pedido do bispo de Juiz de Fora, Dom Gil Antônio Moreira, Portugal acompanha os passos de Dom Orani desde que ele foi eleito bispo da Diocese de São José do Rio Preto, em São Paulo, em fevereiro de 1997. A entrada de Wagner Portugal nos negócios com a saúde pública, de acordo com investigadores, ocorreu em Belém, no Pará, quando o cardeal atuava como arcebispo da capital paraense, entre 2004 e 2009. Apoiado pelo amigo, o ex-padre assumiu a gestão de seis hospitais públicos paraenses.

As investigações, conduzidas pelos procuradores da República da Operação Calicute, versão da Lava Jato no Rio, caminhavam em segredo até a terça-feira dia 26, quando o ex-governador Sérgio Cabral, em nova estratégia de defesa assentada na confissão, prestou depoimento ao juiz Marcelo Bretas: “Não tenho dúvida de que deve ter havido esquema de propina com a OS (organização social) da Igreja Católica, da Pró-Saúde. Não tenho dúvida. O Dom Orani devia ter interesse nisso, com todo respeito ao Dom Orani, mas ele tinha interesse nisso. Tinha o Dom Paulo, que era padre e tinha interesse nisso. E o Sérgio Côrtes nomeou a pessoa que era o gestor do Hospital São Francisco. Essa Pró-Saúde certamente tinha esquema de recursos que envolvia religiosos. Não tenho a menor dúvida”.

A força-tarefa da Lava Jato ainda busca conexões entre o dinheiro desviado e a vida pessoal de sacerdotes ligados à Pró-Saúde. As investigações apuram se compras de roupas, artigos religiosos, refeições e viagens aéreas, incluindo voos fretados, foram ou não pagas com dinheiro da corrupção. Não há indício até agora do envolvimento direto de Dom Orani no esquema, como insinuou Cabral, nem de que ele soubesse que suas despesas fossem bancadas por dinheiro desviado de contratos públicos.

Uma das maiores entidades de gestão de serviços de saúde e administração hospitalar do país, a Pró-Saúde é sediada em São Paulo, mas os contratos com o Rio de Janeiro chegaram a representar 50% do faturamento nacional da entidade, que cresceu de R$ 750 milhões em 2013 para R$ 1,5 bilhão em 2015. Hoje, a organização tem sob sua responsabilidade mais de 2 mil leitos e o trabalho de cerca de 16 mil profissionais, sendo 2.900 médicos, atuando na rede do Sistema Único de Saúde.

A organização é comandada por uma diretoria estatutária, formada por cinco sacerdotes católicos liderados pelo bispo Dom Eurico dos Santos Veloso, e contrata diretores executivos para gerir as filiais regionais e os contratos com entes públicos. A organização se define como “alicerçada na ética cristã e na vasta experiência católica de trabalho social, voltada aos mais diversos públicos, nas mais distintas realidades”. “A Pró-Saúde prima pela valorização da vida e pela defesa das condições essenciais para o desenvolvimento das pessoas”, informa em seu site.

As investigações da Lava Jato contra a organização criminosa comandada por Sérgio Cabral desaguaram, no ano passado, na Operação S.O.S., que levou à prisão 21 pessoas, entre elas o ex-secretário de Saúde Sérgio Côrtes e os empresários Miguel Iskin e Gustavo Estellita. O objetivo da operação foi aprofundar a investigação sobre as fraudes ocorridas na Secretaria de Estado de Saúde do Rio com a contratação da Pró-Saúde, que administrou vários hospitais estaduais a partir de 2013, como Getúlio Vargas, Albert Schweitzer, Adão Pereira Nunes e Alberto Torres.

As investigações apontam que Iskin tinha influência tanto sobre o orçamento e a liberação de recursos pela Secretaria de Saúde quanto sobre as contratações pela Pró-Saúde, indicando empresas e fornecendo toda a documentação necessária, como cotações de preços e propostas fraudadas, para instruir o procedimento de contratação. Em contrapartida, Iskin cobrava a devolução de 10% sobre o valor dos contratos dos fornecedores da organização social, distribuídos entre os demais membros da organização criminosa, como Sérgio Côrtes e Gustavo Estellita.

Em denúncia encaminhada em outubro ao juiz Bretas contra 30 envolvidos, a força-tarefa relatou que a entrada da Pró-Saúde no estado do Rio foi arquitetada por Miguel Iskin, com aval de Côrtes. A denúncia imputa aos denunciados os crimes de quadrilha, organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, constrangimento ilegal com emprego de arma de fogo e corrupção ativa e passiva por fatos apurados nas investigações.

Um dos trunfos da investigação foi a delação de Wagner Portugal, reforçada pela colaboração de sua irmã, Wanessa Portugal, que morreu em janeiro passado, e de outros quatro delatores. Wagner e Wanessa, ambos advogados, mantinham em São Paulo, na época, um escritório que funcionava na prática como o departamento jurídico da Pró-Saúde. Eles detalharam o esquema de corrupção, que usava contratos fictícios de fornecimento e prestação de serviços para o desvio dos repasses do governo fluminense.

De acordo com uma das linhas de investigação, reforçada a partir da declaração de Cabral — “Dom Orani devia ter interesse nisso”, disse o ex-governador —, a Cúria Metropolitana pressionava o então secretário de Saúde Sérgio Côrtes a interceder pela liberação dos pagamentos à Pró-Saúde. No depoimento à Justiça Federal, Cabral também citou “Dom Paulo”, provavelmente se referindo a Dom Paulo Cezar Costa, ex-bispo-auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, um dos organizadores da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em 2013 e atual bispo diocesano de São Carlos, em São Paulo.

Conhecido como uma figura influente nos bastidores da Igreja Católica, com boa interlocução no mundo empresarial, Wagner Portugal era visto como o homem forte da Pró-Saúde, usando outros sacerdotes e executivos para conduzir indiretamente a entidade. Gostava de contar vantagem em público sobre a proximidade com políticos, autoridades e até sobre um grande trânsito junto à Fiesp. A família do ex-padre é formada por cafeicultores do município mineiro de Boa Esperança, a 295 quilômetros de Belo Horizonte, onde os Portugal cuidam de três fazendas.

A amigos, Portugal afirmou que comprava sistematicamente roupas para Dom Orani, principalmente camisas, acrescentando que o arcebispo do Rio transpira muito. Numa única ocasião, Portugal disse ter adquirido 52 camisas em Roma. Também relatou ter presenteado o arcebispo com vários báculos — espécie de cajado usado nas cerimônias litúrgicas —, comprados numa loja especializada em artigos religiosos de Roma, a Comandini, além de ter comprado passagens aéreas e contratado voos fretados para viagens de Dom Orani pelo Brasil.

A relação do ex-padre com a Igreja Católica está sendo esmiuçada pelos procuradores da República. A força-tarefa investiga suposto crime de peculato, uma vez que entidades filantrópicas não podem auferir lucros. Portanto, não poderiam usar recursos próprios — obtidos em contratos com entes públicos — para finalidades privadas. Wagner Portugal perdeu o direito de usar batina por não exercer as funções regulares de padre em paróquia mineira.

Os investigadores também sustentam que, como entidade filantrópica, a Pró-Saúde não poderia ter figurado como uma das patrocinadoras da Jornada Mundial da Juventude, como ocorreu. Outro desafio da investigação é comprovar se seis ou sete pessoas que trabalham diretamente para Dom Orani eram pagas pela instituição, assim como os carros que transportam os integrantes da cúpula da Arquidiocese. Oficialmente, o MPF informa não se manifestar sobre inquéritos em andamento.

Não é a primeira vez que a Arquidiocese do Rio tem um de seus membros envolvidos em escândalos financeiros. Em maio de 2009, a própria Mitra fez uma auditoria para investigar como foram usados cerca de R$ 15 milhões de sua conta, depois da descoberta da compra — por R$ 2,2 milhões, em valores da época — de um apartamento de 500 metros quadrados na Avenida Rui Barbosa, no Flamengo. Segundo a Cúria, o imóvel serviria de residência no Rio para Dom Eusébio Oscar Scheid, que havia deixado o posto de arcebispo um mês antes.

Na época, a Mitra também investigou a Associação de Solidariedade Justiça e Paz, fundada por Dom Eusébio e pelo padre Edvino Steckel, o ecônomo da arquidiocese, responsável pelas finanças da Igreja. A organização foi criada em junho de 2006, para realização de ações sociais. Com a constatação das irregularidades, o padre Edvino foi afastado da função de administrador dos bens da arquidiocese e da direção da Rádio Catedral pelo então arcebispo Dom Orani Tempesta, que sucedeu a Dom Eusébio. O monsenhor Abílio Ferreira da Nova, de 87 anos, assumiu o cargo e disse ter encontrado o caixa zerado, com recursos apenas para as despesas básicas como água, luz, telefone e folha de pagamentos de 200 funcionários.

Em 2010, o Ministério Público Federal denunciou o monsenhor Abílio por evasão de divisas. Ele foi preso com parte de € 53 mil não declarados à Receita Federal. Como ecônomo da Mitra, ele fazia viagens frequentes à Europa e morava em condomínio de frente para o mar na Barra da Tijuca, com direito a carro e motorista. As ditas mordomias eram oferecidas porque, segundo a Arquidiocese, ele não recebia salário para exercer o cargo.

Em nota sobre o depoimento do ex-governador, a assessoria de imprensa da Arquidiocese do Rio divulgou um curto pronunciamento: “Podemos afirmar que a Igreja Católica no Rio de Janeiro e seu arcebispo têm o único interesse que organizações sociais cumpram seus objetivos, na forma da lei, em vista do bem comum”.

A Pró-Saúde informou que, em 2017, a nova diretoria da entidade tomou, espontaneamente, a iniciativa de colaborar com a apuração do Ministério Público Federal do Rio de Janeiro, no âmbito da Operação S.O.S: “A ação está em segredo de Justiça e tem resultado em importantes desdobramentos na investigação de práticas irregulares na gestão da saúde pública no Brasil. Em virtude do sigilo legal, a instituição não pode se manifestar sobre seu teor”.

A entidade também assegurou que as atuais despesas dos colaboradores da instituição “observam atualmente a legislação, bem como as diretrizes e normas internas, que alcançam, inclusive, o reembolso das despesas relacionadas ao exercício de atividades institucionais pela sua diretoria Estatutária”. De acordo com a nota oficial, “viagens e reembolsos de suas despesas institucionais são custeados em conformidade com os regulamentos internos, sempre em função da sua participação ativa nas ações da Pró-Saúde. Sua remuneração, ademais, obedece rigorosamente os limites do artigo 12 da Lei n. 9.532/97 e das demais normas de regência”.

A Diocese de São Carlos, também em nota, disse que a pessoa identificada no depoimento de Sérgio Cabral, ao mencionar religiosos da Arquidiocese do Rio, como “Dom Paulo” não é Dom Paulo Cezar Costa, bispo da cidade paulista: “Esclarecemos ainda que Dom Paulo Cezar Costa, no tempo em que foi padre na Diocese de Valença e bispo auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, nunca participou de diálogos com a Pró-Saúde, tampouco de negociações com o senhor Sérgio Côrtes”.

Impedido de falar por causa da colaboração premiada, Wagner Portugal indicou os advogados da Pró-Saúde para falarem por ele. Alegou que o processo canônico de seu afastamento citado ocorreu em período anterior ao vínculo institucional dele com a Pró-Saúde, razão pela qual não se manifestaria.

Chico Otavio e Vera Araújo
No Época
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O papel das redes sociais em um deserto de notícias


A reportagem em vídeo de Ana Terra Athayde para o Observatório da Imprensa mostra como se dá a circulação de informações nas redes sociais em Cidade Ocidental, município goiano a apenas 50 km de Brasília. Sem rádios ou emissoras de TV locais e com único jornal dependente do poder público e sem periodicidade definida, não há, na cidade, opções de informações que seguem protocolos de checagem de fatos e busca de diversos lados da história que caracterizam as boas práticas jornalísticas. Veja porque a Cidade Ocidental é considerada um deserto de notícias.

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Especialista da ONU diz que não há crise humanitária na Venezuela


O advogado e historiador norte-americano Alfred de Zayas, especialista independente da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Promoção da Ordem Internacional Democrática e Equitativa, afirmou que "não há crise humanitária" na Venezuela, e que o termo vem sendo usado como pretexto para intervir no país e derrubar o governo atual.

"Comparei as estatísticas da Venezuela com as de outros países e não há crise humanitária. É claro que há escassez, mas quem trabalhou por décadas para as Nações Unidas e conhece a situação de países da Ásia, África e alguns da América, sabe que a situação na Venezuela não é uma crise humanitária ", disse Zayas, em uma entrevista na terça-feira (20) a um programa da emissora Telesur.

O especialista esteve na Venezuela no final do ano passado e participou de reuniões com funcionários do governo, vítimas de violações de direitos humanos e da violência das chamadas "guarimbas" (protestos violentos da oposição) a fim de conhecer a situação política, econômica e social do país. Em março, deve apresentar seu relatório às Nações Unidas.

Ele explicou que, embora muitos pensem que o país está à beira de um desastre, como mostram os meios de comunicação do exterior, "a Venezuela sofre uma guerra econômica, um bloqueio financeiro, sofre um alto nível de contrabando e, claro, necessita de solidariedade internacional para resolver esses problemas".

Zayas ainda acredita que a comunidade internacional deve trabalhar em solidariedade à Venezuela para suspender as sanções, "pois são essas que pioram a escassez de alimentos e remédios". "É insuportável pensar que, tendo uma crise de malária na Amazônia venezuelana, a Colômbia bloqueou a venda de medicamentos e a Venezuela teve que importá-los da Índia", disse.

O especialista afirma que o discurso atual de crise humanitária por parte de porta-vozes dos EUA, além de não ser válido, somente visa à troca de governo na Venezuela, e que "desde 1999, uma série de Estados querem a troca de regime na Venezuela, esse desejo de destruir a Revolução Bolivariana e revogar todas as leis sociais adotadas nos mandatos de [Hugo] Chávez e [Nicolás] Maduro".

Zayas denunciou a ausência de notícias sobre sua visita à Venezuela nos meios de comunicação dominantes que, segundo ele, não estão interessados em disseminar uma imagem completa da situação do país.

O especialista contou à Telesur que o comum, sendo ele um antigo funcionário das Nações Unidas, secretário do comitê de Direitos Humanos e chefe do departamento de reclamações do Alto Comissionado da ONU, seria que meios como BBC e The New York Times publicassem suas declarações quando ele se pronunciasse sobre algum tema.

"No caso da Venezuela, tanto a CNN como a BBC me ignoraram, é como se eu não tivesse visitado a Venezuela", o que ele qualifica como manipulação pública, acrescentando que apenas a Telesur e Sputinik o entrevistaram.

O historiador norte-americano também apontou que certas organizações ditas não governamentais, "mas cujas lealdades são duvidosas", não querem especialistas independentes, "desejam especialistas que venham ao país para condenar, por isso quando me nomearam, disseram que eu não era o relator pertinente para falar da Venezuela".

O escritório das Nações Unidas recebeu cartas do exterior com reclamações sobre a visita de Zayas à Venezuela, nas quais se exigia quais pontos deveriam ser investigados. "Considerei isso uma ingerência à minha independência, eu sou o relator, eu determino meu programa, eu sei qual informação é pertinente para meu relatório, no entanto, não quero que o relatório seja ditado para mim e algumas organizações não governamentais me sugeriram de forma pouco cortês, com cartas contendo insultos, dizendo o que eu tinha que fazer quando estivesse na Venezuela"

Para elaborar o relatório sobre a situação da Venzuela, Zayas viajou para visitar setores da oposição, Fedecamaras, a sociedade civil e Igreja. Falou com 16 ministros do governo, visitou as Missões Sociais e supermercados, "não para ter uma impressão completa em oito dias, mas de boa fé sobre a situação".

Ele constatou que existem problemas de abastecimento, de distribuição de alimentos e medicamentos, porém o mais grave são as sanções e a guerra econômica pois prejudicam o comércio de remédios e comida subsidiados na fronteira com a Colômbia.

No Opera Mundo
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A tempestade perfeita, o governo de Bolsonaro

Em resumo, a tempestade perfeita se aproxima, e tempos muito bicudos para a nação também, achamos que estamos no fundo do poço, porém este não tem fundo


Já escrevi que o governo de Bolsonaro apresenta uma disfuncionalidade. Segundo o meu próprio texto: “A disfuncionalidade do governo Bolsonaro para o Imperialismo Internacional?”. Neste texto concluo que esta disfuncionalidade poderia agredir as vontades do Imperialismo Internacional, porém também escrevi em numa série de artigos que culmina num denominador que: “O Império não quer mais sócios, quer servos”, onde numa série tento colocar como hipótese que as vontades do Imperialismo Internacional, por problemas ecológicos ou por problemas de matérias primas, o Império deseja antes de outra coisa a destruição de sociedades emergentes por disputa dessas matérias primas.

No fim do primeiro artigo concluo que a disfuncionalidade do governo Bolsonaro pode levar a uma forte ruptura no tecido social, podendo despertar forças internas no país que poderão causar uma verdadeira mudança institucional.

Pois bem, seguindo no raciocínio anterior, esta ruptura deverá levar a um dos extremos políticos, ou um fascismo aberto ou uma saída para uma mudança à esquerda bem mais radical do que a maior parte das chamadas “forças progressistas” não desejariam, pois estaria mais à esquerda do que o comodismo da pequena burguesia deseja.

Porém, com a rápida evolução do governo Bolsonaro, e com eventos externos na Venezuela, que poderiam gerar uma guerra civil que se alastraria por todo o continente, podemos até imaginar que a disfuncionalidade do governo Bolsonaro que, no lugar de acalmar, cada vez fica mais aguda, e com a associação carnal deste governo com forças insanas do Imperialismo Norte-Americano. Talvez o pior ou o melhor, de acordo com as expectativas de cada um, a hipótese do surgimento de uma tempestade perfeita ocorra no nosso país e continente.

O único aspecto positivo que vejo é que se o caminho idealizado pelos grandes irmãos do norte, de uma intervenção armada ocorra na Venezuela, levará necessariamente que o Brasil se alie ao crime que cometerão os norte-americanos, isto mesmo a contragosto das forças armadas brasileiras. Porém uma intervenção armada na Venezuela, se não houver uma forte ruptura das forças armadas bolivarianas, certamente degenerará para uma invasão com resistência, que mesmo fraca, levará a conflitos das forças de ocupação contra remanescentes do exército e milícias populares venezuelanas. Devido a características geográficas da região de fronteira entre a Venezuela e Brasil, certamente alguma luta deverá ocorrer dentro do Brasil. Somando a resistência na Venezuela, como ações que poderão ser feitas dentro do território nacional, não se pode esperar uma ação militar rápida e sem perdas econômicas e humanas para nossos jovens.

Apesar de estarmos acostumados a um grau de violência excepcional, a este será acrescido mais violência e custos econômicos elevados, que farão que o orçamento brasileiro sofra necessidade de aumento de impostos ou retirada de rendimentos dos brasileiros.

Devido a tudo isto, e o comprometimento das forças armadas neste problema, não podemos imaginar um governo como o de Bolsonaro ou mesmo um governo militar que o suceda sem forte possibilidade de serem levados a sair do cenário político, e esta saída será ocupada não por forças mais conciliadoras pois o ânimo do povo não estará para conciliação.

Em resumo, a tempestade perfeita se aproxima, e tempos muito bicudos para a nação também, achamos que estamos no fundo do poço, porém este não tem fundo, e só cavar mais que se atinge maiores profundidades que serão maiores conforme a intensidade da tempestade.

Rogério Maestri
No GGN
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Estudo do Bloomberg aponta Cuba como país latino-americano mais saudável e à frente dos EUA

E o Bloomberg é ligado ao tal “mercado”, não tendo nada de socialista. E Bolsonaro expulsou daqui os médicos cubanos, cuja medicina ajuda aquele país a ser o 2º mais saudável das Américas, estando apenas atrás do Canadá. Leiam o artigo:

Menina cubana recebe atendimento médico em hospital de Havana
Qual é o pais mais saudável do mundo? Segundo um estudo, divulgado pelo site Bloomberg, é a Espanha. Na classificação os espanhóis ficaram com mais de 92 pontos. Quanto mais pontos mais saudável é o país.

Além da Espanha, faz parte do Top 10 das nações mais saudáveis do planeta: Itália, Islândia, Japão, Suíça, Suécia, Austrália, Singapura, Noruega e Israel.

Já Cuba (30º no mundo) é o melhor país da América Latina e o 2º melhor do continente americano, perdendo apenas para o Canadá, que aparece em 16º. Entre os latino-americanos, Cuba é seguida de perto pelo Chile e Costa Rica (que estão empatados no 33º) e está bem à frente de Uruguai (47º) e Panamá (50º), que estão entre os 50 melhores. A ilha socialista, que subiu uma posição em relação ao estudo de 2017 (31º), foi a única nação “não desenvolvida” classificada no bloco de países de renda alta. Um dos fatores que teria contribuído para a boa posição de Cuba, segundo a reportagem, seria o foco cubano na prevenção de doenças.

10 países mais saudáveis do mundo  (+ Cuba e EUA) e suas pontuações
Arte: Bloomberg – Adaptação: Sturt Silva  

Na investigação anterior, dois anos atrás, a Espanha (que subiu 5 posições) era apenas a 6º no rank e a Itália era a líder. Além dos espanhóis, a Coreia do Sul (de 24º para 17º), Reino Unido (de 23º para 19º) e Japão (de 7º para 4º) também ganharam posições na comparação entre os dois levantamentos quanto aos países do topo. Por outro lado, Singapura (de 4º para 8º), Alemanha (de 16º para 23º) e Grécia (de 20º para 26º) foram os países que tiveram maior queda.

Já os EUA caiu uma posição e agora aparece na 35º, 5 lugares atrás de Cuba. O Brasil sequer aparece na lista dos 56 mais bem colocados.

Na outra ponta estão os países da África. Das 30 piores posições do rank, 27 são nações africanas, as outras três são: Afeganistão, Iêmen e Haiti.

Na edição deste ano, que envolveu 169 economias, a sondagem levou em consideração fatores relacionados à saúde das populações como: expectativa de vida; consumo de drogas e taxa de obesidade; acesso à água potável e rede de saneamento.

Lista dos 56 primeiros colocados; Cuba ficou na 30ª posição com 74.66 pontos
Gráfico: Bloomberg

Sturt Silva
No Luíz Müller
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Consultor de segurança de Witzel, homenageado por Flávio Bolsonaro, é preso em operação contra policiais suspeitos de extorsão

Investigação mostra que agentes exigiram R$ 10 mil para liberar o dono de uma oficina mecânica. Policial Flávio Pacca auxiliou o governador Wilson Witzel durante a campanha.


Policiais suspeitos de praticar extorsões são alvos de operação na manhã desta quinta-feira (28). Entre os presos está o policial Flávio Pacca Castelo Branco, consultor de segurança do governador Wilson Witzel. O Ministério Público do Rio de Janeiro e a corregedoria da Polícia Civil tentam cumprir quatro mandados de prisão contra estes agentes:

Flavio Pacca Castelo Branco, consultor de segurança do governador Wilson Witzel (preso);
Helio Ferreira Machado;
Ricardo Canavarro (já estava preso);
Tiago Pereira.

Os policiais Helio Ferreira Machado e Tiago Pereira não foram encontrados em casa e são procurados pela polícia.

Em nota, a assessoria do governador Wilson Witzel informou que não "tolera qualquer ato de corrupção":

"A prisão foi resultado de uma parceria da Corregedoria da Polícia Civil com o Ministério Público e mostra que o meu governo não tolera nenhum ato ilícito, seja de quem for. Que ele tenha seus direitos garantidos, como qualquer cidadão. Mas seja quem for que tenha cometido ou cometa algum ato ilícito ou de corrupção, esta pessoa será punida de acordo com a lei", informou a nota.

Os investigadores afirmam que os quatro policiais participaram de uma extorsão contra os dono de uma oficina em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, no dia 5 de julho de 2017. O grupo os levou até a 52ª DP (Nova Iguaçu) para tentar obter R$ 10 mil a fim de liberá-los.

Essa é a terceira fase da operação Quarto Elemento, parceria da Corregedoria da Civil com o Grupo de Atuação Especializada e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP-RJ. A primeira fase da operação teve início na subsecretaria de Inteligência e com o fim da Secretaria de Segurança seguiram para o Ministério Público do RJ.

A investigação

De acordo com as apurações, Ricardo Canavarro tinha sido preso na segunda fase da operação, que investigava policiais acusados de extorquir dinheiro de pessoas supostamente envolvidas com atividades ilícitas no Rio de Janeiro.

O grupo investigado, segundo a força-tarefa, conta com a ajuda de informantes. Estas pessoas se juntavam às equipes de policiais, normalmente com três pessoas em cada carro - por isso, o nome Quarto Elemento.

Um dos policiais já havia pedido a um informante que passasse nomes de alvos para o que eles chamavam de “botes”.

Malote apreendido na casa do Pacca — Foto: Fernanda Rouvenat / G1
Malote apreendido na casa do Pacca 
Foto: Fernanda Rouvenat / G1

No episódio da oficina de Nova Iguaçu, no bairro Valverde, o grupo procurado recebeu de um informante a "dica" de que poderia haver ligações clandestinas de água e de luz no estabelecimento.

Na loja, eles encontraram um “gato de água” e um Siena roubado. Chamaram o proprietário do carro ao local, avisaram aos donos da oficina sobre a ligação irregular e levaram todos para a delegacia. No entanto, o veículo não foi periciado ou apreendido.

‘Boa sorte’, disse policial às vítimas

Ao chegarem à 52ª DP (Posse), diz a investigação, os quatro policiais entraram em uma sala, com as vítimas do lado de fora. Pouco depois, um policial saiu, desejando “boa sorte” aos "convocados", levados para o escritório.

Celulares foram retidos. A sós com as vítimas, um dos informantes de Canavarro disse que elas deveriam “perder um dinheiro” para os policiais, e que era melhor que o fizessem logo.

Inicialmente, segundo a denúncia, os policiais exigiram R$ 50 mil às vítimas, que alegaram não ter o dinheiro. O informante, então, saiu da sala e negociou com os policiais uma redução para R$ 10 mil. Ao voltar para a sala, disse ainda que os policiais não deixariam a oficina de veículos em paz caso não aceitassem “perder um dinheiro para eles”.

As vítimas aceitaram pagar o valor, em duas parcelas de R$ 5 mil. Só depois do pagamento é que os celulares foram devolvidos.

Toda a ação durou uma hora, de acordo com o Ministério Público, tempo no qual as vítimas sofreram pressões psicológicas e ameaças. Um dos policiais envolvidos, inclusive, nunca havia trabalhado na 52ª DP e estava de licença médica.

Depois disso, um informante foi até casa de uma das vítimas da oficina e conseguiu os R$ 5 mil da extorsão. Ele voltou à 52ª DP e entregou o valor a um dos policiais, que deu como pagamento ao informante R$ 1 mil pelo trabalho.

Homenagem na Alerj

O policial Flávio Pacca recebeu moção da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a pedido do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, em 28 de outubro de 2005.

A homenagem aconteceu pela operação da Polícia Civil que resultou na morte do traficante Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-te-vi, da Rocinha, na Zona Sul do Rio.

"A operação foi lograda de êxito, sem baixas de policiais e culminando com a morte de um dos traficantes mais procurados do Estado, conhecido por “Bem-Te-Vi. Assim sendo, este policial foi um dos responsáveis por “recuperar” esse marginal, visto que a sociedade tem a certeza de que ele nunca mais estará apto a viciar o filho de ninguém, nem a levar o terror aos cidadãos fluminenses, prestando um relevante serviço social à população", informava o texto da moção assinada pelo então deputado Flávio Bolsonaro e o deputado coronel Rodrigues.

No G1
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Bolsonaro em junho de 2013

A Pesquisa CNT-MDA de fevereiro de 2019 da Confederação Nacional do Transporte não traz boas notícias para o presidente Bolsonaro. Próximo de completar os primeiros 60 dias de governo, seu índice de aprovação é de 39% positivo, 29% de regular e 19% negativo.


Após quatro anos de presidente com avaliações positivas em torno dos 10% – Michel Temer as tinhas abaixo de 5% – e com índices negativos acima dos 70% – 82% na última avaliação de Temer – os índices de Bolsonaro poderiam parecer um latifúndio de aprovação.


Ocorre que Bolsonaro está hoje com índices semelhantes aos da presidente Dilma Rousseff após as manifestações de junho de 2013 – as já históricas Jornadas de Junho.


As manifestações de junho de 2013 são um divisor de águas na história política recente brasileira. Marcaram o início do fim do ciclo petista no comando do governo federal.


Junho de 2013 – manifestantes ocupam a Esplanada dos Ministérios em Brasília

Não parece nada alvissareiro que Bolsonaro, presidente recém-eleito, dono de um exército de seguidores fiéis que o chamam de mito, esteja no mesmo nível de aprovação de uma presidente em metade de mandato e que enfrentava um dos maiores movimentos popular de contestação da história do Brasil.

Mais do que isso, quando se compara os resultados de Bolsonaro com os índices de Dilma pré-manifestações, a diferença é de chamar atenção; Dilma tinha, então, na metade do seu mandato, 54% de aprovação positiva, 39% de regular e apenas 9% de avaliações negativas – 15 pontos percentuais a maior que Bolsonaro em avaliações positivas e 10 pontos percentuais a menos em avaliações negativas.


Esses resultados também devem fazer pensar os que acreditam na capacidade do presidente de fazer amigos e influenciar pessoas utilizando as redes sociais. Principalmente quando está prestes a despejar – com a reforma da Previdência – um saco de maldades sobre os trabalhadores, logo no início de seu mandato. Há ainda quatro anos inteiros até 2022.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia
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Nós, testemunhas

O interesse moderado da imprensa e a farta oferta de assuntos ao gosto da burocracia do jornalismo obscureceram, mundo afora, o gigantismo moral e histórico do que o papa Francisco fez agora no Vaticano. A reunião de quase 200 prelados para reconhecer, ouvir, narrar e debater, sem restrição ao conhecimento público, os abusos sexuais no clero é, talvez, o mais importante ato no âmbito da Igreja Católica desde o rompimento de Martinho Lutero, a completar 500 anos daqui a 14 meses.

São muitas as indicações de que testemunhamos, sem consciência disso, uma revolução global em que o ato de Francisco é um cume jamais imaginado.

Expor a instituição incomparável da Igreja Católica, e seus prelados de ares monárquicos e intangíveis, como campo tolerante do mais abjeto, é algo sem precedente sequer parecido. Pensei no que poderia ser equivalente, em nosso universo de agnósticos, ateus e religiosos, à grandeza moral e à coragem implícitas no ato do poder vaticano. Só me ocorreu uma possível (ou impossível) equivalência: os Estados Unidos fazerem o mesmo quanto ao seu belicismo, aos seus crimes de guerra em Hiroshima, Nagasaki, Tóquio, Vietnã. Além da destruição apenas vingativa, que até o obsessivo guerreiro Churchill denunciou, de cidades alemãs. E ainda a perversidade de sua dominação, direta ou indireta, de tantos países sem condições de enfrentamento.

Caso da América Latina. Os nomes espanholados indicam a propriedade original e legítima: Califórnia, Colorado, Alabama, Texas, Nevada, Flórida. O major general Smedley D. Butler fez outra lista: em 33 anos de ações militares, participou de guerras dos Estados Unidos ao México (várias invasões e ocupações), Haiti, Cuba, Nicarágua, República Dominicana, Honduras e China. Em outra lista, relaciona aos países os interesses que moveram tais ações bélicas: petróleo, National City Bank, Banco Brown Brothers, produtores/exportadores de açúcar, companhias frutíferas (United Fruit, Chiquita Banana), Standard Oil (para nós, Esso ou Exxon).

As palavras do general, reproduzidas por C. Wright Mills em "Listen, Yanqui" (assim mesmo), terminam com com esta comparação: "Al Capone só pôde operar em três distritos de uma cidade. Os "marines" operamos em três continentes". Os sucessores de Butler aumentaram a área para cinco continentes. Na segunda parte do século passado, estiveram outra vez na República Dominicana, aí também com tropas brasileiras oferecidas por Castello Branco; Nicarágua, Haiti, Granada, Guiana, Panamá, Cuba, Porto Rico, Venezuela, Colômbia, se não mais.

Os Estados Unidos apoiaram todas as ditaduras de direita na América Latina. Suas reservas aos ditadores Getúlio e Perón não eram de oposição. Como complemento desse repúdio à democracia, jamais colaboraram para a instalação da democracia em país algum da AL. Quando ajudaram a subida de novo governante, foi pela certeza de que teriam um títere ("laranja", para a intelectualidade brasileira). E sempre que um governante insinuou pretensões de soberania, os governos dos Estados Unidos o combateram, por ações diretas e por via das suas redes de nacionais subservientes por interesse.

Hugo Chávez sabia o que queria. Maduro, não. Chávez, na luta de poder, estava no seu ambiente. Maduro é neófito, entrou logo no jogo pesado, que não entendeu ainda. Donald Trump sabe o que quer e está bem em qualquer ambiente que não seja de pessoas de bem.

Nem por isso é preciso adulterar os fatos. Não é certo que só os militares estejam com Maduro. A miséria histórica do povo venezuelano recebeu de Chávez o que nunca lhe fora dado nem em pequena parte. As primeiras grandes e terríveis favelas da América do Sul surgiram em Caracas, circundando a cidade. A grande riqueza concentrada no poder econômico era fruto do petróleo e de entrega do patrimônio mineral.

Isso mudou com Chávez. Diminuiu. Antes, a Venezuela passara por uma fase de luta interna, e os militares se preocupavam com seu possível retorno. As atenções com a pobreza, embora insuficientes, reduziram esse risco —e por aí se entende parte da atual posição militar e se nega que Maduro só tenha apoio das Forças Armadas. Nem é Maduro. É o que resta do legado de Chávez.

E não esqueçamos que o desabastecimento já foi vitorioso aqui, contra o Plano Cruzado do governo Sarney. Aqui, foi o empresariado. Lá, foram os governos americanos e alguns europeus. Não é obra Chávez nem do perplexo Maduro.

Janio de Freitas
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