27 de fev. de 2019

O que o PIG nativo não mostra

"Caminhões de ajuda humanitária" levam pregos e arame para construção de barricadas, afirma chanceler da Venezuela, com fotos

O chanceler venezuelano mostra o material apreendido: rolos de arame para construir barricadas (Reprodução: RT)
Em pronunciamento ao Conselho de Segurança da ONU, o ministro das relações exteriores da Venezuela, Jorge Arreaza, afirmou que os caminhões supostamente carregados com "ajuda humanitária", na verdade, levam pregos e arame - ele fez as afirmações enquanto mostrava fotos da carga apreendida.

A operação "humanitária", organizada pela oposição venezuelana e financiada pelo governo dos EUA, visa a entrega de suprimentos através da fronteira da Venezuela com a Colômbia e já causou diversos embates com a polícia. Alguns caminhões foram incendiados e policiais hospitalizados.

Arreaza chamou a tentativa de entrega de "uma operação bem-orquestrada para violar o território da Venezuela" e apresentou evidências do que considera um "cavalo de Troia" liderado pelos EUA, com o objetivo de dar um Golpe no país.

"Quando inspecionamos os caminhões, vimos que não havia apenas comida e remédios neles, mas material para barricadas. Pregos, arames e assim por diante. E é esse material que está sendo utilizado pela oposição na Venezuela", disse Arreaza, mostrando fotos do material.

(...) Arreaza elogiou a apreensão do material pelo Exército e polícia, afirmando que tratava-se do "mais recente capítulo do Golpe".

Arreaza também atacou o senador norte-americano Marco Rubio, do partido Republicano que, no Twitter, vem declarando apoio a uma "mudança de regime" na Venezuela. (...) Um post de Rubio, publicado no sábado, mostra uma foto do ex-presidente da Líbia, Muammar Gadaffi, linchado por uma turba de milicianos apoiados pelos EUA. (...)

O apoio de Rubio e de outros membros do governo americano a um Golpe na Venezuela pode ser parte de uma estratégia para a campanha de Trump pela reeleição, disse Arreaza. (...)

No RT
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Brasil tem o pior diplomata do mundo, diz revista Jacobin

'É evidente que sua tendência ideológica parece ter sido o que lhe deu o emprego; o maluco, em suma, foi promovido precisamente por ser um maluco', diz a revista norte-americana


Indicado por Olavo de Carvalho para assumir a chancelaria brasileira, as práticas e pensamentos do ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro, Ernesto Araújo, marcam uma ruptura no histórico da diplomacia brasileira, além de possuir contradições e serem conduzidas por teorias da conspiração. É o que diz uma reportagem publicada nesta segunda-feira (26/02) pela revista norte-americana Jacobin, que expõe os problemas lógicos das crenças de Araújo, além de classificar o ministro como "o pior diplomata do mundo".

De acordo com a revista, o chanceler brasileiro é "um ávido discípulo de Olavo de Carvalho, o pseudointelectual, guru da extrema direita do Brasil, que veiculou por décadas as conspirações que ajudaram na ascensão de Bolsonaro".

Araújo é um defensor das ideias do escritor, como uma "definição elástica de comunismo" e um pânico do "marxismo cultural", uma teoria da conspiração que sugere que líderes da esquerda possuem controle sobre "todos os aspectos do pensamento na sociedade moderna".

A Jacobin, que tem linha editorial à esquerda, ainda aponta para as palavras do ministro a respeito de Carvalho, elogiando o escritor por ter sido "a primeira pessoa do mundo [...] a usar a palavra 'comunismo' para descrever a estratégia do PT", enquanto o mundo todo pensava que isso "havia morrido com a União Soviética".

Segundo o periódico, Araújo uniu o combate ao comunismo e a postura "antiglobalista" com o comprometimento incondicional com os Estados Unidos, em uma "onda transnacional reacionária" que mudou a forma como se fazia diplomacia no Brasil.

Por apostar em uma parceira exclusiva com os EUA e desconsiderar outros parceiros comerciais importantes para o Brasil, como Rússia e China, o chanceler brasileiro recebeu críticas da revista neoliberal The Economist e do jornal New York Times

"O que ele irá fazer, por exemplo, se Trump não se reeleger em 2020? As relações que o Brasil rejeita hoje poderiam facilmente transformar o país em um pária amanhã", afirma a reportagem da Jacobin

Além disso, destaca o periódico, "Araújo pode ver uma luta civilizacional compartilhada que coloca o Brasil ao lado dos Estados Unidos, mas os presidentes americanos nunca trataram a maior nação da América Latina como um parceiro igual".

Diplomacia do PT

A revista norte-americana ainda aponta para as inúmeras rupturas que a nomeação da Araújo para o Ministério de Relações Exteriores do Brasil causou. Para tanto, destaca a posição de destaque que o país assumiu perante o mundo durante os anos em que o Partido dos Trabalhadores (PT) esteve no poder (2003-2016).

"Começando sob a administração de Lula, Brasil assumiu um papel proativo nos assuntos globais, rompendo com a austeridade do neoliberalismo das décadas passadas", afirma a reportagem.

Jacobin também aponta para o fortalecimento das relações Sul-Sul pelos governos progressistas da América Latina como o de Lula, no Brasil, e Néstor Kirchner, na Argentina. 

"O governo Lula, com o aliado chave na Argentina de Néstor Kirchner, [...] trabalhou para fortalecer o Mercosul", ao invés de apenas aceitar as propostas de Washington para, por exemplo, a criação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas).

Segundo a revista, avanços como o fortalecimento de relações políticas brasileiras no continente africano, na América Latina e, na área econômica, a criação dos Brics, estão agora longe do escopo de Araújo e sua política de alinhamento aos EUA.

"As tendências ideológicas pessoais de Araújo são bizarras. É evidente que sua tendência ideológica parece ter sido o que lhe deu o emprego. O maluco, em suma, foi promovido precisamente por ser um maluco", diz a revista.

No Opera Mundi



Chanceler desacreditado


A propósito, qual o valor de um chanceler que não inspira confiança?

A tensão política na Venezuela é uma situação que se arrasta há décadas, desde que milhares de venezuelanos foram às ruas, no caracaço de 1989, e centenas foram mortos. A partir dali, Hugo Chávez tentou e fracassou em um levante militar, foi preso, anistiado, eleito e eventualmente reeleito, não sem antes promulgar uma constituição que alterasse as estruturas de poder e refundasse a lógica econômica estatal, convertendo a Venezuela de nação dependente do petróleo, mas com renda concentrada nas mãos de pouquíssimos (com 95% da população na margem de pobreza e só 2% nas classes A e B), em um país social, voltado para a distribuição mais equilibrada do proveito de seus recursos, interessado em fortalecer os níveis de parcerias regionais e globais, diminuindo, paulatinamente, a dependência dos EUA.

Na contramão, a oposição aplicou um golpe de Estado em 2002, depondo Chávez da presidência (e prendendo-lhe), fechando o congresso e revogando a nova constituição, conspiração que resultou frustrada pela reação popular nas 48h seguintes, apoiada por setores das forças armadas.

Acirrada a crise, os bolivarianos reforçaram, doravante, a integração com os movimentos populares, aceleraram o processo de renovação das forças armadas e apostaram no incremento do potencial geopolítico venezuelano, buscando novas parcerias comerciais, enquanto a oposição passou a tentar, de qualquer modo, evitar a consolidação do “socialismo do século XXI”, a esta altura, com o apoio aberto dos EUA.

Inicialmente, a tentativa de desestabilizar o governo foi via midiática e de financiamento privado de manifestações contrárias ao chavismo. Eventualmente, com a não renovação de concessões de mídia devido ao menoscabo ético na divulgação de informações, prisão de personagens usurpadoras do equilíbrio institucional e derrotas eleitorais sucessivas, as ações da oposição começaram se dar via sabotagens com participação armada de sicários, a partir da fronteira colombiana.

A oposição venceu eleições parlamentares, mas um novo processo constituinte soberano foi aprovado pelo povo. Eleições gerais renovaram o executivo nos diversos níveis de governança, e, embora com participação ativa de segmentos da oposição nos pleitos eleitorais (apenas setores oposicionistas optaram por não participar de todos os processos), nem a oposição em seu conjunto nem a assembleia nacional sob sua influência reconheceram os resultados, especialmente o de 2018 em que Nicolás Maduro foi reeleito.

Em 2017, Donald Trump assumiu o governo dos EUA e passou a comandar o bloqueio econômico contra a Venezuela. Primeiro, interviu nas operações mercantis; eventualmente, congelou os bens da petroleira e subsidiárias venezuelanas nos EUA; por fim, após o presidente da assembleia nacional Juan Guaidó não reconhecer o mandato de Maduro e autoproclamar-se presidente do país, os EUA iniciaram movimentação para direcionar os recursos venezuelanos congelados para a oposição.

Com Guaidó começaram as chantagens abertas, com promessas de um novo modelo de governo, anistia às deserções militares e apoio à população via ajuda humanitária, suposto socorro que Maduro acertadamente não deixou se viabilizar, por entender que poderia ser uma forma de envio de armas ao país, coisa que os EUA já provaram saber fazer, pois agiram exatamente assim quando alimentaram os contras da Nicarágua na década de oitenta, inclusive usando o mesmo homem que encontra-se, hoje, à frente da “ajuda” à Venezuela, Elliott Abrams.

Após o fracasso do “Cavalo de Tróia humanitário” há quem defenda que o Brasil deva interceder diplomaticamente no drama venezuelano, auxiliando na busca de uma saída conciliatória para as partes envolvidas. Mas o fato é que o Brasil, por haver precipitadamente reconhecido o autoproclamado governo de Guaidó e, em ato contínuo, apoiado suas ações insidiosas, já se descredenciou como agente isento para eventuais negociações. Se quiser ser recebido como mediador, ator capaz de interceder por bons ofícios, precisa mudar a postura política que vem adotando, a iniciar pelo afastamento do Ministro das Relações Exteriores da condução dos interesses internacionais brasileiros. A propósito, qual o valor de um chanceler que não inspira confiança?

Marcelo UchôaAdvogado e professor de Direito Internacional Público (Fortaleza/CE)
No GGN
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Toga alugada


A constatação de que a juíza Gabriela Hardt copiou a sentença de Sérgio Moro para condenar o ex-presidente Lula, naquela patacoada do sítio de Atibaia, é reveladora do nível de amadorismo do Judiciário brasileiro – para não falar dos níveis de crueldade e ódio de classe envolvidos.

Quando uma juíza federal se dá ao desfrute de usar o mesmo arquivo digital de outra sentença para, sem nenhum pudor, copiar e colar trechos inteiros escritos por seu ídolo da Lava Jato, pouco importa se lá na ponta está Lula ou Dona Celeste da Quitanda: é o Estado de Direito, em si, que está sendo vilipendiado.

Autora da frase seminal "se o senhor começar nesse tom comigo a gente vai ter problema", Dra. Gabriela logo caiu nas graças da alcateia hidrófoba do antipetismo, não sem algum prazer, o que talvez tenha lhe dado essa sensação plena de impunidade penal e histórica.

Foi pega, quem diria, pelo Ministério Público Federal, parceiro de lutas da Lava Jato, primeiro, em um erro grotesco: a juíza, simplesmente, condenou Lula pelo crime errado, corrupção ativa, embora a denúncia do MP tenha sido por corrupção passiva.

Além disso, vale lembrar, Gabriela Hardt citou dois delatores no processo, Leo Pinheiro e José Adelmário, como se fossem pessoas diferentes, sem saber que o primeiro nome era o apelido do segundo. Ou seja, leu os autos sem nenhuma atenção, isso se chegou a lê-los.

Em meio a esse delírio copia-e-cola, foi encontrado um trecho da sentença com referência a um "apartamento", obviamente, retirado do texto original da sentença de Moro, que dizia respeito ao tríplex do Guarujá, e não ao sítio de Atibaia.

São motivos para anulação imediata da sentença e afastamento sumário da magistrada. Mas, no Brasil de hoje, é mais provável que ela receba o Prêmio Faz Diferença, do Grupo Globo.

Leandro Fortes, Jornalista e integrante da Rede de Jornalistas pela Democracia
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Procurador envia à PGR suspeitas de improbidade e peculato contra Bolsonaro

A suspeita é de que Nathália Queiroz, filha de Fabrício Queiroz, teria sido funcionária “fantasma”, quando Bolsonaro era deputado federal


Carlos Henrique Martins Lima, procurador da República do Distrito Federal, encaminhou à Procuradoria-Geral da República representações que indicam suspeita de crime de peculato e de improbidade administrativa contra Jair Bolsonaro (PSL).

A representação está baseada na suspeita de que Nathália Queiroz, filha de Fabrício Queiroz e ex-assessora parlamentar de Bolsonaro, então deputado federal, entre 2007 e 2016, tinha registro de frequência integral no gabinete da Câmara dos Deputados. No entanto, ao mesmo tempo trabalhava em horário comercial como personal trainer no Rio de Janeiro.

A suspeita é de que ela seria uma funcionária “fantasma”, recendo salários sem trabalhar.

Conforme Martins Lima, o caso pode ou não ser investigado, pois caberá à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, decidir se pede ou não abertura de inquérito contra Jair Bolsonaro.

Sem impedimento

“Tem-se, portanto, que nada impede que o Presidente da República seja investigado e responsabilizado na esfera cível e, na esfera penal, veja a investigação por tais atos ter regular andamento, entendimento partilhado pela atual Procuradora-Geral da República. A imunidade restringe-se à ação penal e respectiva responsabilização por atos estranhos ao seu exercício, no curso do mandato”, declarou o procurador.
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Contra a escalada fascista, desobediência civil é a saída

Xavier: ministro “colombiano” transforma escolas em laranjais do PSL


O Conversa Afiada oferece a seu distinto publico sereno (sempre!) artigo de seu exclusivo colUnista Joaquim Xavier:

Tudo tem limite, até a decantada paciência dos brasileiros. Ele foi atingido nesta segunda-feira com a divulgação de uma circular do ministro da Educação de Bolsonaro. Tal qual um édito nazista, o documento obriga alunos e professores a repetirem slogans da campanha do ex-capitão e a cantarem o hino nacional. Tudo a ser filmado. Um escândalo mundial.

Ricardo Vélez é colombiano naturalizado brasileiro. Antecipando-me aos patrulheiros, digo que este não é o problema. Tivéssemos um ministro da Educação como Albert Einstein, Gabriel García Márquez, Noam Chomsky, Philip Roth ou tantos outros, todos estrangeiros, só teríamos a festejar. Isto sem falar de um sem número de brasileiros sabidamente capacitados a ocupar posto de tal importância.

O problema de Vélez é outro. É um sujeito medíocre. Nada em sua biografia o credencia a ocupar qualquer cargo público. Não tem produção acadêmica relevante, vagou por faculdades inexpressivas e desconhece os rudimentos da administração governamental. Seu “orientador” intelectual é um astrólogo desmiolado com domicílio americano.

Os diretores de escolas, professores, alunos, assim como os pais e mães de família, só podem dar uma resposta a suas diretivas: uma banana. Assim como à montanha de despautérios disparadas por esse governo.

É verdade que uma parte importante do povo assiste, entre aparvalhado e assustado, à atuação deste governo minoritário, eleito na base da fraude e da manipulação do voto popular.

O Brasil virou motivo de chacota no cenário internacional. A “ação humanitária” na Venezuela, apoiada pelo governo Bolsonaro, ficará mesmo conhecida como o dia “D” – só que o D, no caso, é D de Derrota, diferentemente da invasão da Normandia que martelou os últimos pregos no caixão de Hitler e do Terceiro Reich.

No ambiente interno, as propostas da famiglia Bolsonaro atentam diretamente contra o povo. Nem se fale do festival de roubalheiras que infestam as notícias mesmo da mídia gorda. Alguém ouviu falar de liquidação da aposentadoria durante a campanha? Não, até porque o candidato usurpador fugiu dos debates alegando problemas de saúde. Agora que a caixa de Pandora foi aberta, a ficha começa a cair.

Não dá mais para aguentar calado Damares, Araújo, Menendéz, Guedes, Moro e Bolsonaro. Tampouco essa tropa de militares aboletados no Planalto. Eles foram treinados para matar, não para ensinar, educar, criar empregos, incentivar a indústria local, defender a soberania nacional, reduzir a injustiça social e a distribuição tão desigual da renda.

Os ritmos, prazos e intensidade desta oposição entre governo ilegítimo e vontade nacional são difíceis de prever. Mas um primeiro passo é a desobediência pura e simples. Começar é preciso. As escolas são sempre um bom começo.

Joaquim Xavier
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Rafael Braga, preso por portar desinfetante, encarcerado novamente por postar uma foto criticando o governo que o prendeu, impedido de tratar da tuberculose

Introdução

Por estes apontamentos, produzidos após a leitura do artigo “Kafka penalista: Da ficção literária à realidade penal”, de Raphael Henrique Figueiredo de Oliveira, e contextualizados com um atual caso de seletividade penal, chegou-se a conclusão de o quanto os dois microcosmos, o de Josef K. e o de Rafael Braga são próximos.

Não buscou-se encerrar as discussões acerca dos casos práticos de seletividade penal, nem discorrer sobre o labelling approach ou sobre criminalização, sendo estes assuntos reservados a gêneros textuais mais extensos, como determina suas complexidades.

Apenas procurou-se traçar um paralelo entre dois casos diferentes, de sociedades, de países, de classes sociais, de culturas, de espaços distintos, um ficcional e outro real, mas que convergem em um ponto: os dois foram julgamentos de condenação.

Do julgamento de condenação

O que se buscou definir aqui como julgamento de condenação é o trâmite processual pelo qual os acusados, desde a investigação policial, denunciação pelo órgão acusador, citação do réu e demais atos, já pendiam tendenciosamente à condenação.

No caso de Rafael Braga, percebemos que o poder judiciário já estava facciosamente decidindo em sentido condenatório quando consideramos os materiais encontrados com ele durante as manifestações e a quantidade ínfima de droga apreendida na sua outra condenação – que ocorreu mesmo com decisão do STF acerca do tráfico privilegiado.

Quanto à personagem do livro, Josef K. não sabia o teor da sua acusação, qual o órgão pelo qual estava sendo julgado, pelo que estava sendo acusado, e nunca teve qualquer tipo de defesa técnica.

Rafael Braga

No dia 20 de Junho de 2013, ocorria no Brasil uma das maiores ondas de manifestações populares já vistas em sua história: milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra, dentre outras reivindicações, o aumento na tarifa de ônibus. Na Rua do Lavradio, bairro da Lapa, cidade do Rio de Janeiro, ocorria a dispersão de quem estava protestando e, nesse ponto, começa a história trágica de Rafael Braga.

Rafael, negro, pobre, catador de material reciclável, vivia em situação precária. Muitas vezes, para guardar dinheiro, não voltava para sua casa, na qual residia com seus pais, na comunidade da Vila do Cruzeiro. Ou seja, suas condições de vida eram extremamente delicadas.

Aliás, não estava participando da manifestação, estava apenas transportando duas garrafas de plástico, uma de pinho-sol e outra de desinfetante.

Quando estava chegando a um casarão abandonado onde por vezes dormia, foi detido pela Polícia Militar. Na delegacia, os policiais presumiam que aqueles materiais apreendidos seriam usados para fabricação do artefato incendiário “Coquetel Molotov”.

É notório e de conhecimento geral que para a fabricação do referido explosivo é necessário uma garrafa de vidro, álcool etílico ou outro comburente e um pano.

Como o catador de latinhas faria o coquetel Molotov? Se não participava dos protestos qual seria sua intenção ao fazer algum artefato explosivo? Pinho-Sol e desinfetante são explosivos? São perguntas que ficam no ar.

Rafael passou 5 meses no Complexo Penitenciário de Japeri aguardando julgamento, sendo sua defesa técnica feita pela Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. No dia 23 de Outubro, houve pedido de revogação da prisão preventiva, o qual foi negado pelo juízo. Quatro dias depois, foi condenado a 5 anos e 10 meses de reclusão pelo juiz da 32ª Vara Criminal, sendo transferido para o Complexo Penitenciário de Bangu.

Os artefatos apreendidos foram inspecionados pelo esquadrão antibombas da Polícia Civil, que concluiu, mediante laudo técnico, que os produtos de limpeza tinham uma insignificante possibilidade de funcionar para a produção de artefato explosivo.

Após condenação em 1ª instância, a defesa de Braga foi assumida pelo Instituto de Defesa dos Direitos Humanos – IDDH, o qual apelou da sentença condenatória. Porém, a 3ª Câmara Criminal do TJ/RJ manteve a prisão, somente diminuindo a pena em 4 meses.

Em outubro de 2014, Rafael progrediu de regime, passando do fechado para o semiaberto, razão pela qual poderia trabalhar fora do presídio, o que de fato aconteceu. Começou a laborar em um escritório de advocacia, emprego este conseguido pelo IDDH. Um de seus advogados postou uma foto na qual Rafael estava em frente a uma parede em que estava pichada a frase: “Você só olha da esquerda p/ direita, o Estado te esmaga de cima p/ baixo”.

Por causa dessa foto, perdeu vários direitos adquiridos, regrediu ao regime fechado e passou 1 mês na “solitária”.

Progrediu novamente ao semiaberto no dia 1º de Dezembro de 2015, motivo pelo qual voltou a residir com seus pais na comunidade Morro do Cruzeiro, com a medida cautelar da tornozeleira eletrônica.

No dia 12 de Janeiro de 2016, Rafael saiu para ir a padaria a pedido de sua mãe quando foi abordado por policiais da UPP que diziam que ele era suspeito de envolvimento com tráfico daquela região e que ele deveria assumir as alegações. Foi espancado no caminho até a delegacia e, chegando lá, imputaram a Rafael um “kit flagrante”, com 0,6g de maconha, 9,3 de cocaína e um rojão.

A partir dessa data passou a responder criminalmente por Tráfico de drogas, associação e colaboração para o tráfico.

Nos meses de abril, maio e junho, de 2016, houve audiência de instrução, na qual foram ouvidos os PM´s envolvidos na abordagem. Seus depoimentos possuíam fortes contradições com aqueles proferidos na delegacia, na data da prisão.

A defesa de Rafael requereu diversas diligências, entre elas as imagens externas e internas da viatura, para que se apurasse o que de fato ocorreu. Contudo, todas foram negadas pelo juízo.

Após as alegações finais tanto da defesa quanto do Ministério Público, Rafael foi condenado a 11 anos de reclusão, por tráfico de drogas e associação para o tráfico. Logo após a sentença foi impetrado um Habeas Corpus perante o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o qual foi negado.

Em Agosto de 2017, Rafael Braga contraiu tuberculose na prisão, razão pela qual houve pedido de prisão domiciliar para o tratamento da doença infecciosa, negado pelo TJ.

Houve novo pedido para o STJ, o qual foi acatado em 13 de Outubro. No dia 15 de Outubro, Rafael deixou a penitenciária, sob prisão domiciliar durante 6 meses, para tratamento da doença.

A defesa interpôs apelação contra a sentença condenatória de 11 anos e, nas palavras do advogado Lucas Sada, do IDDH, “Nós esperamos que a apelação que pede a absolvição de Rafael pelos crimes de tráfico e associação para o tráfico seja julgada em breve para que consigamos reverter, definitivamente, essa condenação injusta e arbitrária”.

No dia 22 de Novembro de 2018, a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro absolveu parcialmente Rafael, afastando a condenação ao crime de associação ao tráfico, porém manteve a pena relativa ao crime de tráfico de drogas.

Rafael atualmente encontra-se em prisão domiciliar para tratamento de tuberculose.

Josef K.

A personagem do livro O Processo, escrito por Franz Kafka, era um bancário, morador de uma pensão que em uma manhã, após uma vida pacata e sem sobressaltos, é detido. A história se inicia com sua própria prisão, em sua casa, sem qualquer tipo de explicação e de forma totalmente arbitrária, sendo uma das partes do livro que aqui retomo:

– O senhor não tem o direito de ir-se embora, porque está detido.

– Tem todo o ar disso – retorquiu K. – Mas então porquê? – perguntou em seguida.

– Não fomos encarregados de lho dizer. Vá para o seu quarto e espere. O processo judicial acaba de ser instaurado, e saberá tudo na altura oportuna. Ultrapasso a minha missão ao falar-lhe tão amistosamente. Mas espero que ninguém, excepto Franz, me ouça, e, aliás, também ele o trata simpaticamente, à revelia do regulamento. Se continuar a ter tanta sorte como para a designação dos seus guardas, pode ficar sossegado.

A confusão jurídica da detenção de Josef não se resume somente a esse trecho. Algumas linhas adiante lê-se Josef clamar por respostas:

“Que espécie de homens eram estes? De que estavam falando? A que Departamento oficial pertenciam?”

Na narrativa, ainda na fase de detenção, é negado ao detido o conhecimento de quem o está interrogando, “Quem me acusa? Que autoridade superintende o inquérito? Vocês são funcionários?”, além de ser lhe negado a constituição de um advogado, “Carece porventura de sentido chamar pelo telefone um advogado, já que sou declarado detido?”.

Adentrando-se a fase instrutória – se é que se pode dizer que houve uma fase instrutória na história, pois qual a razão de se instruir um processo, de se buscar fundamentos para se decidir, sendo que uma decisão já estava tomada –, quando a personagem comparece à audiência a qual havia sido intimado, nota que o magistrado que presidia a seção portava em seu pescoço um cordão com um símbolo de um partido político da época. Ou seja, o juiz não tinha imparcialidade para julgar o caso, conforme mostra o trecho do livro:

“no pescoço deste que se achava tranquilamente sentado com as mãos no regaço olhando para baixo, o mesmo emblema”.

No andamento do processo de Joseph K., a personagem, juntamente com seus prepostos, deparam-se com obstáculos injustos e desumanos. Diante de seu processo, nem ele nem ninguém pode ter acesso aos autos, justamente para que não soubessem nada de esclarecedor que fornecesse subsídios para elaborar a defesa.

“De modo que os expedientes da justiça e, especialmente, o escrito de acusação eram inacessíveis para o acusado e o seu defensor, o que fazia com que não se soubesse em geral ou ao menos com precisão a quem devia se dirigir a demanda.

(…) no curso das declarações do acusado, as perguntas que se lhe formulavam revelavam com alguma claridade ou então permitiam adivinhar de quais coisas era acusado e os motivos em que se fundamentava a acusação.”

Conclusão

Percebe-se como estes dois universos, ainda que diferentes quanto à natureza, são parecidos.

Kafka, na época da primeira guerra mundial, em 1915, buscou questionar o quanto, já naquele momento, o ideário de justiça proposto pelo poder judiciário não era alcançado.

O desrespeito aos direitos fundamentais do ser humano acontecia já naquele momento e continua nos dias atuais.

Continua com a flexibilização das garantias fundamentais, como a prisão definitiva sem trânsito em julgado, as conduções coercitivas decretadas na Operação Lava-Jato, sem a fundamentação do art. 260 do Código de Processo Penal, a falta de controle de juízes da execução penal sobre o prazo de cumprimento de pena, fazendo com que muitos presos permaneçam em regimes mais gravosos quando já poderiam ter progredido ou obtido o livramento condicional, o sensacionalismo jornalístico na cobertura de infrações penais, a midiatização do processo e, o mais recente, a tentativa do atual Ministro da Justiça em importar dos EUA o plea bargain, um instituto no qual o acusado “negociaria” com o Ministério Público sobre sua pena, regime, condições, verdadeira afronta ao contraditório e à ampla defesa, além de ser ofensa à própria advocacia, essencial a função da justiça, conforme preceitua o art. 133 da CF/88.

Por fim, enquanto juízes mantiverem um desejo de vingança sobre os acusados, enquanto não aplicarem a Constituição Federal e a legislação penal como devem ser aplicadas, enquanto não for presumida a inocência desde o momento do início da investigação policial até o trânsito em julgado da sentença, muitos Josef K´s serão acusados e condenados sem ao menos terem um direito concreto a defesa.

Leonardo Martins Mendonça é bacharel em Direito, pós graduando em direito e processo penal, membro da Comissão de Direito e Literatura – Franz Kafka, do Canal Ciências Criminais
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Sobre Bernie Sanders

Senador, talvez o principal líder da “nova esquerda” estadunidense, no passado votou favoravelmente à guerra contra o Iraque (2003) e sempre teve vínculos com as alas mais moderadas do sionismo


O parlamentar democrata, por Twitter, demarcou posição contra o governo Maduro, colocando-se ao lado de Juan Guaidó e seus aliados na disputa sobre a chamada “ajuda humanitária”.

Foi prontamente criticado por vários intelectuais e artistas, entre esses Roger Waters.

Não é de se surpreender. Sanders, talvez o principal líder da “nova esquerda” estado-unidense, no passado teve dubiedades em relação à guerra contra o Iraque (2003) e sempre teve vínculos com as alas mais moderadas do sionismo.

Assim como a maior parte da social-democracia europeia, Sanders não é anti-imperialista.

Lembremos que a social-democracia do velho continente, com raras exceções, jamais apoiou as guerras de libertação nacional na Ásia, África ou América Latina.

Os socialistas franceses, por exemplo, apoiaram a burguesia colonialista de seu país no combate contra os movimentos revolucionários do Vietnã e da Argélia.

Sanders representa essa vertente: reformadora, opositora do capital financeiro dentro dos limites do sistema, crítica ao uso da força militar, mas de forma alguma disposta a um compromisso antagônico ao imperialismo.

Claro que Sanders é melhor que Trump e aparentemente que os demais pré-candidatos do Partido Democrata. Trata-se de uma alternativa que força as fronteiras do sistema bipartidário e introduz uma agenda que inclui a ampliação dos direitos da classe trabalhadora.

Mas para por aí. Certamente é um aliado da esquerda anti-imperialista, mas não a representa, sob qualquer hipótese.

Sempre devemos levar em conta que o compromisso contra o imperialismo é a grande linha de corte no movimento operário e socialista dos países da periferia capitalista.

Breno Altman
No Desacato
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Um ano e 6 meses depois, herdeiro da RBS que atropelou três pessoas e matou uma segue livre e caso sem solução


Tudo pronto para o julgamento do ano em Floripa – ou do ano que vem, ou do próximo – dependendo se e quando o juiz Renato Mastella, da Vara do Tribunal do Júri, levar ao banco dos réus Sérgio Orlandini Sirotsky, 22, um dos herdeiros do poderoso grupo de jornais e TVs RBS, afiliada da Rede Globo no Sul.

Conforme a denúncia do Ministério Público de SC, Sirotsky, bêbado e drogado, dirigindo um carro em alta velocidade, atropelou três pessoas no acostamento da rodovia SC402, matando uma.

O crime do qual ele é acusado aconteceu na madrugada de 6 de agosto de 2017.

O promotor Andrey Amorim remeteu o caso concluso para a Vara do Júri como sendo “crime de dolo eventual”, como adiante veremos, em 6 de outubro de 2018.

Um ano e seis meses depois o caso ainda está sem solução – a Justiça em Santa Catarina não tem os recursos da Lava Jato, que quase ao mesmo tempo condenou Lula em três instâncias, jogou o homem na cadeia e a chave fora.

Sirotsky ainda está na primeira instância, sem prazo para a etapa da pronúncia, que o poria no banco dos réus.

E não pegou nem um diazinho de cadeia: conseguiu escapar ao flagrante fugindo da cena do atropelamento.

Segundo o MP, depois do acidente ele não parou para socorrer as vítimas, continuou dirigindo até um local isolado, onde abandonou o carro.

De lá, conseguiu carona para se refugiar na casa da mãe, no centro de Floripa.

Notem um detalhe: neca de bafômetro.

Uma vez no conforto do lar, caiu no sono.

No dia seguinte, foi à polícia, já acompanhado do mais caro advogado criminalista da cidade. Confessou que tinha bebido dois vodkas com energético.

Mais tarde, na versão oficial à Justiça, se corrigiu e disse que bebeu “um vodka com frutas” – assim, estaria possivelmente mais sóbrio do que o juiz da audiência. Saiu livre.

O caso não teve muita repercussão porque seu pai até poucos meses antes fora sócio dos principais jornais e TVs de SC e o pessoal aliviou o pé.

Dali pra frente, e até hoje, manteve uma regra indigna de quem é dono de jornal: jamais deu entrevistas.

Nota do autor: como cada caso é um caso, a Justiça e a imprensa locais estão mais duras com bêbados que matam.

Exemplo: neste sábado, 23 de fevereiro, um motorista embriagado dirigindo um Jaguar bateu noutro carro e matou duas jovens, em Gaspar.

O homem enfureceu a mídia e a lei. Rendeu manchetes por três dias.

Neste prazo, a polícia deu o flagrante, a prisão foi mantida na audiência de custódia e ele já puxa cana em Itajaí, aguardando o julgamento entre a turma do PCC – e só estamos no dia 26!

No caso Sirotsky, em menos de duas horas a polícia já sabia quem era o fujão da cena do crime, o que pode explicar luvas de pelica durante a apuração e depois do incidente.

O delegado que presidiu o inquérito percebeu uma pequena negligência: os agentes não fizeram, ou não foram instruídos a fazer, a perícia no local. Também não houve teste de bafômetro.

Assim, provar que ele estava bêbado pelo testemunho de gente que viu o carro passar voando vai ser duro e pode custar o caso ao MP, que quer ver Sirotsky preso.

Mesmo assim o promotor Amorim pediu a condenação dele pelo dolo eventual – este é o crime que o levaria a júri e pode lhe render cadeia em regime fechado.

Amorim sustenta que “é claro que o réu (Sirotsky) não desejou diretamente matar ou tentar matar alguém, mas isto não diz respeito ao presente caso, pois não se trata de dolo direto, mas sim de dolo eventual”.

Na linguagem popular, o promotor quis dizer que ele assumiu o risco de matar alguém.

Nos autos, o promotor Amorim contou que “após a ingestão voluntária de bebida alcoólica e outras substâncias psicoativas, conduzindo o veículo AudiA3 placas QHZ 0609, no sentido centro-bairro, em alta velocidade e dirigindo perigosamente, assumindo o risco de qualquer resultado lesivo,  ao tentar ultrapassar um ônibus, pelo lado direito, atropelou as vítimas, Sérgio Luz, Edson Mendonça e Rafael Machado, que caminhavam no acostamento”.

Precisa desenhar? Sirotsky saiu de uma balada depois de tomar todas, e pilotando seu Audi saiu voando pela avenida que leva o nome do tio-avô, Maurício Sirotsky, fundador da RBS, hoje a rota das baladas de Jurerê Internacional.

Foi quando fez seu strike no acostamento.

O juiz que primeiro pegou o caso deu uma leve dura nele: mandou ficar em casa durante as noites e fins de semana, largar as bebidas, drogas e o volante de qualquer carro.

Sirotsky passou quase um ano longe do radar, desfrutando do confortável apê da mãe num edifício de um por andar e da mansão da família em Jurerê Internacional, podendo pegar ondas durante o dia.

As fofocas sobre este príncipe da juventude gaúcha e catarinense foram muitas.

O Audi de Sirotsky após o atropelamento

Renan Antunes de Oliveira, de Florianópolis
No DCM
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Trump diz que Maduro é ‘ditador’ e Kim, “um grande líder”


Enquanto seu ex-advogado Michael Cohen, depondo na Câmara dos Deputados, dizendo que ele é “racista, vigarista e trapaceiro”, Donald Trump, no Vietnã, dá declarações de que Kim Jong-un, da Coreia do Norte, é “um grande líder”, que levará seu país “a um tremendo futuro”.

Kim preside a Coreia, basicamente, filho do filho do outro Kim, o que libertou o país no pós II Guerra.

Nicolás Maduro, mal ou bem, foi eleito, mas este é um “ditador” que merece que os marines estejam prontos a invadir o país, em nome da democracia, se não puderem mandar para lá brasileiros e colombianos para fazerem o serviço.

A imprensa brasileira nem conseguiu mostrar o que a BBC mostrou, que a maioria dos brasileiros rejeita ajuda para deixar o país nem mesmo em caso de conflito, segundo o próprio Itamaraty.

Talvez seja preciso reunir a alta cúpula da diplomacia brasileira – Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo e Eduardo Bolsonaro – para analisar esta questão complexa.

Pena que não vão chegar a uma conclusão tão simples quanto a de Damares Alves: bobinhos puxam saco, governos fazem negócios.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A volta do monstro


O “monstro golberyano” está de volta. A Lava Jato representa hoje a mesma ameaça à sociedade que o SNI representou ao final da Ditadura de 64. E foi necessário, então, destruir a Ditadura para destruir o monstro.

Um pouco de história

Golbery do Couto e Silva, general articulador do golpe de 1964, foi o idealizador e o primeiro chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), que ganhou vida própria e, posteriormente, engoliria o próprio criador por ocasião das bombas do Riocentro em 1981. Golbery pediu a cabeça do general Gentil Marcondes, comandante da Vila Militar de onde haviam saído os terroristas fardados. O general Octávio Medeiros, então chefe do SNI, se opôs com o apoio do ditador Figueiredo. A demissão de Golbery não tardaria – “criei um monstro” – Carta Capital.

Barata voa

O ministro Gilmar Mendes do STF – Supremo Tribunal Federal – sente-se perseguido. Declarou-o a uma reportagem da Revista Época de 21 de fevereiro de 2019. Na semana anterior, tornara-se pública uma inédita investigação da Receita Federal sobre ele – um magistrado da mais alta Corte do país. Gilmar, disse também que é alvo, inclusive, de um procurador integrante da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba que tentaria incriminá-lo através de uma delação e que além de si próprio, vítima do que chama de “milícias institucionais”, há um ministro do STF sendo chantageado por uma das grandes operações investigativas em curso no país: “a toda hora plantavam e plantaram que esse ministro estava delatado. Qual a intenção? Isso é uma forma de atemorizar, porque essa gente perdeu o limite. Este ministro ficou refém deles”.

Alguns dias depois, em 25 de fevereiro de 2019, o “procurador integrante da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba” não se fez de rogado e mostrou a cara e as garras. Deltan Dallagnol repercutia a Lava Jato do Rio de Janeiro: “Afirmação em público de que a Receita Federal presta serviços de “pistolagem” por encomenda de procuradores e juízes demonstra que o Min. Gilmar Mendes continua a ofender gratuitamente a honra de magistrados e servidores porque acredita estar acima do bem e do mal”.




A bem da verdade, a Lava Jato do Rio de Janeiro, em reposta a mesma Revista Época, entre ataques a Gilmar Mendes – suas acusações não passariam de “devaneios sem qualquer compromisso com a verdade” – negava que investigasse o ministro: “Os membros da Força-Tarefa da Lava Jato no Rio de Janeiro não têm conhecimento de qualquer atuação do órgão fazendário que tenha relação, ainda que indiretamente, com o ministro Gilmar”. Ainda que dizer que “não têm conhecimento” seja diferente de negar, de que outro modo entender um posicionamento oficial de um órgão oficial – o Ministério Público?

Escandaloso por qualquer lado que se olhe tal bate-boca público entre figuras que deveriam, em princípio, portar-se com temperança, moderação e recato, já que guardiões no nosso Estado democrático de direito – o STF e o Ministério Público. Sintomático que tenha despertado tão pouca repercussão. Um ministro da Suprema Corte denunciando que membros do Ministério Público o perseguem e chantageiam pelo menos um outro ministro – mesmo em tempo de família Bolsonaro no poder – deveria fazer mover a República e as máquinas da imprensa. Silêncio geral.

A volta do monstro

Aparentemente as piores previsões para a Lava Jato – que já podiam ser antevistas desde três anos atrás – se concretizaram. A Lava Jato tornou-se um poder acima dos Poderes republicanos. Nos moldes do que já foi o SNI – Serviço Nacional de Informações – na Ditadura de 64. Um poder com interesses próprios – e muito provavelmente com candidato próprio para as eleições presidenciais de 2022. Um poder com uma agenda de poder.

O que o ministro Gilmar fez foi mostrar que também sabe jogar o jogo. E que tem merda para jogar no ventilador, caso seja atacado. Acompanhemos o desenrolar dos acontecimentos.

De qualquer modo, o “mostro golberyano” parece estar de volta. A mesma autonomia depravada, a mesma quebra de hierarquia e os mesmos métodos de arapongagem. O mesmo silêncio por parte do que o conhecem. Dele não a quem esteja a salvo – empresários, ministros do Judiciário, políticos e donos da imprensa – basta, para tornar-se sua vítima, estar contra seus interesses ou contra os interesses de seus patrocinadores.

A Ditadura de 64 acabou no mostro SNI – e foi preciso derrubar a Ditadura para destruir o mostro. Mas ele resistiu – com bombas, inclusive. E agora?

O Golpe de 2016 acabou na Lava Jato que não respeita nem ministro do STF. Custará acabar com o Golpe para acabar com o monstro?

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia
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A Lava Jato e o desmonte do país


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Jorge Paulo Lemann e Vale: o ocaso dos CEOs genéricos


No início dos anos 90, a racionalização de despesas era essencial para um país que, em virtude do período inflacionário, jogara para segundo plano ganhos de produtividade






Prédio da Sharp do Brasil
Nos anos 80, a Sharp, uma das líderes do mercado de televisores do país, contratou um CEO para equilibrar suas contas. Em três meses, o CEO colocou as contas no azul. Desmontou departamentos de desenvolvimento de novos produtos, encolheu o marketing, reduziu a força de vendas. Um ano depois, a empresa estava inviabilizada, com a entrada de competidores com novos produtos e muitas inovações.

Jorge Paulo Lemann resolveu o dilema entre custos (que têm efeito no presente) versus inovação (que tem efeito no futuro): apostou em setores tradicionais e, portanto, segundo ele, com baixa efeito inovação.

Graças a essa simplificação, com fusões sucessivas, criou empresas com enorme poder de mercado fundado exclusivamente no mantra da eliminação de custos. E o poder de mercado tem o condão de ocultar falhas de estratégia durante algum tempo. 

Essa simplificação permitiu o advento de um CEO universal, o sujeito cuja única especialização consistia em acompanhar os balanços trimestrais e exterminar custos, com olhos de gestor financeiro. A única política de recursos humanos premiava, com participação em resultados presentes, aumentos pontuais de rentabilidade.

Com essa estratégia, não se deu conta dos tremendos processos de mudança na economia mundial, com as novas ferramentas de marketing, a flexibilidade no fluxo de capitais, as micro estratégias guerrilheiras solapando o poder dos grandes grupos.

De um lado, emergiu o fenômeno das pequenas cervejarias artesanais, disputando o segmento premium de bares e restaurantes. Estudos recentes do Ministério da Agricultura constataram que, nos últimos cinco anos, houve um crescimento de 130% nesse mercado. São quase 835 cervejarias e quase 170 mil produtos, que já conquistaram 1,5% do mercado nacional e continuam em franca expansão.

Agora, seus insucessos recentes nos Estados Unidos, ao não identificar as transformações no ramo de alimentos, mostram que a fórmula matador-de-custos se esgotou. Ainda continuará dono de uma das maiores fortunas do planeta. Mas seu modelo de gestão não se aplica mais nem a setores tradicionais, todos eles expostos às mudanças radicais, previstas há anos por Moisés Naím, de fim de todos os modelos concentradores de poder.

Foi nessa ilusão do CEO universal que os acionistas da Vale selecionaram seu novo CEO através de headhunters. A presidência foi entregue a um executivo premiado e fora do setor de mineração. E aí houve a dupla armadilha. Numa ponta, a falta de noção sobre os riscos ambientais da mineração, especialmente das barragens de rejeitos. Na outra, falta de acesso dos setores técnicos a um chefe que não falava sua língua nem compartillhava das mesmas preocupações.

Dos programas de qualidade às estratégicas sistêmicas

No início dos anos 90, a racionalização de despesas era essencial para um país que, em virtude do período inflacionário, jogara para segundo plano ganhos de produtividade. Foi o que consagrou nomes como Vicente Falconi e o INDG.

Em fins dos anos 90, consultorias como a Dom Cabral, McKinsey e outras, passaram a trazer conceitos muito mais sofisticados do que o foco único em corte de despesas. Era hora da gestão de processos se recolher ao papel de uma das peças dos processos de qualidade.

Parcerias entre o Ministério de Ciência e Tecnológica e associações como a Confederação Nacional da Indústria, inclusive, tentaram cooptar os técnicos em gestão pela qualidade para se tornarem promotores da inovação. Houve conferências nacionais do setor, juntando empresas, mercado, sindicatos, que pareciam prenunciar o novo desenho de país, moderno, integrado, pactuado em torno da busca da eficiência.

As novas condições econômicas permitiram o surgimento, ainda que fugaz, de grandes sonhadores, como EIke Baptista, com projetos grandiosos – e, infelizmente, sem gestão adequada. A terrível polarização do período o colocou como o empreendedorismo aventureiro, em contraponto ao empreendedorismo sólido, de baixos riscos e, por isso mesmo, de baixo impacto tecnológico ou de transformação da realidade econômica, de Jorge Paulo Lemann, o investidor que julgou ter conseguido, ao investir em setores tradicionais, a segurança e ausência de risco da renda fixa brasileira.

Agora que o modelo Lemann se esgotou, será possível ao país recuperar a saga dos verdadeiros financistas, os que ousavam desbravar novos terrenos e a participar das grandes reestruturações econômicas do país, como Walther Moreira Salles.

Aliás, se Pedro Moreira Salles tivesse se espelhado no pai, e não em Lemann, não teria precisado vender a joia da família, o Unibanco. Lá, implantou cegamente os métodos de Lemann. Para cortar custos, acabou com o banco de investimento, quando o mercado se abria para novos atores, com bancos como BBA, Pactual, Garantia avançando sobre a alta renda; inibiu a criatividade do período anterior, em que se apostava no banco online, e jogou todas as fichas em operações de arbitragem de câmbio e juros, pensando no balanço trimestral. Quando o câmbio explodiu, a única saída foi a venda.

Naufragou antes que o mundo corporativo se desse conta das vulnerabilidades do modelo Lemann.

Luís Nassif
No GGN



Caiu a máscara do gênio da Brahma!

Podcast: Lemann era o símbolo da excelência da Casa Grande colonizada!

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Zé de Abreu se auto-proclama Presidente do Brasil!

Alexandre Frota já está na oposição!


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Cabral diz que esquema na Saúde envolvia o arcebispo do Rio — que fez campanha para Bolsonaro pelos ‘valores cristãos’




O ex-governador do Rio Sérgio Cabral disse, em depoimento na terça, dia 26, que resolveu revelar seus esquemas de corrupção para ficar bem consigo mesmo.

Depois de dois anos e três meses preso, Cabral alegou ao juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Criminal Federal, que é um homem “muito mais aliviado”.

“Em nome da minha mulher, da minha família e da história, decidi falar a verdade”, mandou. 

“Esse foi o meu erro de postura, de apego ao dinheiro, ao poder. Isso é um vício”.

Cabral é um pilantra e o arrependimento vale um ovo frito, mas o que ele contou a respeito de uma das figuras mais honoráveis do estado é curioso.

Segundo ele, o desvio de recursos na saúde pública envolvia religiosos. E não se fala aqui de evangélicos.

Citou o purpurado cardeal Dom Orani Tempesta, arcebispo da Arquidiocese do Rio.

“Não tenho dúvida de que deve ter havido esquema de propina com a O.S. da Igreja Católica, da Pró-Saúde. O dom Orani devia ter interesse nisso, com todo respeito ao dom Orani, mas ele tinha interesse nisso”, acusou.

“Tinha o dom Paulo, que era padre, e tinha interesse nisso. E o Sérgio Côrtes nomeou a pessoa que era o gestor do Hospital São Francisco. Essa Pró-Saúde certamente tinha esquema de recursos que envolvia religiosos. Não tenho a menor dúvida”.

Sem fins lucrativos, a entidade é uma das maiores em gestão de serviços de saúde e administração hospitalar do Brasil. Tem sob sua responsabilidade mais de 2 068 leitos e 16 mil profissionais.

Vale lembrar que Tempesta era figurinha fácil nos convescotes dele e do prefeito Eduardo Paes.

Não são os únicos políticos que conheceu biblicamente.

Abraçou Jair Bolsonaro.

Em outubro, Jair encontrou-se com o eclesiástico para uma papagaiada moralista da campanha

“Assumimos o compromisso em defesa da família, em defesa da inocência da criança, em defesa da liberdade das religiões, contrários ao aborto, contrários à legalização das drogas”, disse Bolsonaro ao lado do clérigo.

“Não queremos mais flertar com o desconhecido ou com aquilo que não deu certo em lugar nenhum do mundo”.

Como parte do teatro, assinou um documento vagabundo exaltando valores conservadores. No final da reunião, prestou-lhe continência.

Dom Orani nunca se manifestou sobre o rendez vous.

Uma foto viralizou: funcionárias da Arquidiocese com camisas da CBF posaram para as câmeras fazendo sinais de arminha diante de uma imagem de Jesus Cristo.

É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que uma delação premiada seja sugerida para santos como Dom Orani.



Kiko Nogueira
No DCM
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