24 de fev de 2019

Xadrez da Venezuela e dos golpes de Estado


Criticam-se muito os debates nas redes sociais, pela visão estritamente bipolar de todos os temas: é bom ou mau, é a favor ou contra. No caso brasileiro, esse simplismo é fruto de décadas de cobertura jornalística monofásica, de se concentrar em apenas um ângulo da questão, com receio de que os leitores possam se confundir se expostos ao tico e ao teco.

Tome-se o caso da Venezuela. Do lado da mídia, a discussão se dá exclusivamente sobre os vícios do governo Nicolás Maduro, como se a simples queda dele resolvesse todos os problemas. É uma versão ampliada do “fora Dilma”, cuja consequência maior foi o advento da ultradireita tosca de Jair Bolsonaro. Do lado das esquerdas, sobre as artimanhas da indústria do petróleo, que está por trás de quatro em cada quatro golpes de Estado, sem pensar em saídas alternativas.

Abstraindo-se todas as torcidas e exageros, há poucas dúvidas de que o governo Maduro se tornou inviável. Mas passa-se ao largo do ponto central da discussão: qual a solução para a questão venezuelana? É central porque decorrerão, daí, consequências relevantes para o continente e, especialmente, para os países que fazem fronteira com a Venezuela, incluindo o Brasil, submetido a um governo sem-noção, de abibolados fundamentalistas.

Dez de dez golpes de Estado dos últimos tempos estavam ligados à questão do petróleo. E a Venezuela é dona das maiores reservas de petróleo do planeta. Está aí o caso brasileiro, para ninguém duvidar. E, mesmo em países conduzidos por déspotas reconhecidos, sua deposição legou uma realidade muito mais cruel e despótica.

Peça 1: Iraque


Em 2003, nas ondas dos atentados às torres Gêmeas, impulsionado pelo vice-presidente Dick Cheney, os Estados Unidos invadiram o Iraque, controlado pelo ditador Sadam Hussein.  O mote da invasão foram notícias falsas – difundidas pelos grandes jornais – da existência de armas químicas no país e das ligações de Hussein com a Al Qaeda. As duas informações eram falsas.

A ideia era a luta mundial contra o terrorismo. Em nome da guerra, flexibilizaram-se os direitos individuais, autorizou-se a tortura.

Em 28 de abril de 2004, explodiu o escândalo da prisão de Abu Ghraib, com fotos tiradas por soldados foram divulgadas pela CBS News. Havia prisioneiros nus, amontoados, forçados a simular atos sexuais. Outra mostrava uma soldada segurando um prisioneiro pela coleira.

Foi uma guerra de oito anos, que só terminou em 18 de dezembro de 2011.  O resultado imediato foi a morte de milhares de pessoas, a desorganização total do país. A consequência posterior foi o aparecimento da facção terrorista Estado Islâmico, sucedendo a Al Qaeda.

O desmantelamento do modelo anterior – ainda que fincado em Hussein – criou um caos permanente, com a impossibilidade dos grupos étnicos e de poder de negociarem. Este ano, o Plano de Resposta Humanitária tentava captar US$ 700 milhões para fornecer assistência básica a 1,75 milhão de iraquianos vulneráveis.

 Peça 2 – A Líbia


Em 2011 a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) comandou a invasão “humanitária” da Líbia. Muhamar Kaddafi foi apresentado ao mundo como um ditador sanguinário. Até então, era visto como âncora de racionalidade ocidental no Oriente Médio. O que mudou foi sua tentativa de alterar o jogo do petróleo, afastando a Total francesa, a italiana ENI, a britânica  British Petroleum (BP),  a espanhola Repsol,  a ExxonMobil, Chevron, Occidental Petroleum, Hess and Conoco Phillips, em favor da Corporação Nacional do Petróleo, da China.

Logo após a execução da Kadafi, explodiu a violência entre os diversos grupos apoiados pela OTAN para a deposição do ditador.

Em 2014, o general Khalifa Haftar tentou dissolver o Congresso. Pressionado, o Congresso permitiu novas eleições. Os islamitas foram derrotados e reagiram com uma ofensiva para tomar o Aeroporto Internacional a Líbia. Houve reação que espalhou a violência descontrolada por todo o país.

Desde a morte de Khadafi, 19 jornalistas já foram executados na Líbia. Segundo o Jornalistas sem Fronteiras, há inúmeros casos de desaparecimento e total impunidade para os autores.

“Informar tornou-se uma missão quase impossível, face à diversidade de autoridades e de milícias, a oeste e este da Líbia a procurarem silenciar jornalistas”, dizem o JSF.

As reações contra o governo explodem em várias direções. Recentemente, um pequeno grupo de homens armados tomou o capo de Sharara, que produz 314 mil barris de petróleo por dia, mantendo-o paralisado no mês de dezembro. Sua reivindicação era simples: melhores condições de vida na região.

No início do mês, aviões norte-americanos bombardearam regiões da Líbia sob controle da AL-Qaeda (https://goo.gl/3cxgAZ). Dias atrás, o governo líbio pediu ajuda à ONU para manter a segurança contra o jihadismo.

Foi preciso um longo calvário para o governo líbio chegar à conclusão racional:

“Acreditamos, que todos os partidos aprenderam a lição, tomaram consciência das graves consequências da crise contínua. É hora de recorrer à razão, agora, que o caminho para a estabilidade está claro e todos perceberam que não há solução militar para a crise”, foi sua declaração.

As disputas entre o governo reconhecido pelo Acordo Nacional da ONU e o Exército Nacional Líbio (LNA) de Khalifa Haftar criou uma terra de ninguém, ao sul do país, que tornou-se espaço para a proliferação de diversos grupos armados.

Peça 3 – Zimbabue


Um ano de protestos com a crise econômica do Zimbábue promoveu a queda de Robert Mugabe. O exército deu um golpe de Estado colocando em seu lugar o vice-presidente Emmerson Mangagwa. Em 30 de julho de 2018 houve eleições gerais. Mangagwa foi eleito e sua vitória contestada pelo principal partido de oposição, o MDM Alliance. Mas o Tribunal Constitucional confirmou a vitória de Mangagwa.

Ele chegou ao poder anunciando os novos tempos de democracia.

Em fevereiro deste ano, 19 personalidades internacionais assinaram um manifesto contra os abusos contra direitos humanos no país.

Estamos profundamente preocupados com as graves violações dos direitos humanos no Zimbabué e condenamos a violenta repressão de manifestantes pacíficos, incluindo os líderes e membros do Congresso de Sindicatos do Zimbabué, que apelaram a uma greve pacífica de três dias em meados de janeiro. Desde então, as forças de segurança usaram munição real contra civis, matando pelo menos 12 pessoas e ferindo 78 outras. Ativistas da sociedade civil e políticos da oposição foram arbitrariamente presos e detidos. Os nossos colegas dos grupos de defesa dos direitos humanos do Zimbabué relatam que policiais e homens em uniformes militares estão realizando ataques porta-a-porta em áreas urbanas, durante os quais violações e espancamentos ocorreram.

Peça 4 – A Venezuela


O que ocorreria com a deposição de Maduro por um golpe armado? A consequência óbvia seria a transformação de parcelas relevantes das Forças Armadas e das milícias em organizações clandestinas armadas. Haveria a desestruturação política final do país, dividido entre os chavistas órfãos de representação, e a oposição que não dispõe de uma liderança capaz de unir a própria oposição, com o país convertendo-se em palco para disputas em torno do petróleo.

E, afinal, Maduro tem o apoio das Forças Armadas, do Judiciário e de parte do Parlamento. O que se pretende com a intervenção? Eliminar totalmente as instituições, ainda que manipuladas por ele?

Se não tivesse sido inviabilizado politicamente pelo golpe, Lula poderia estar cumprindo seu papel de mediador.

Luís Nassif
No GGN
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Um olhar


Chamar Nicolás Maduro de "ditador" virou uma espécie de autoconcessão da esquerda namaestê para poder falar da Venezuela e dessa ajuda humanitária criminosa que tem como único objetivo convulsionar aquele país, de modo a provocar um golpe de Estado.

"Maduro é  ditador, mas os EUA querem apenas o petróleo da Venezuela" é o novo "não sou fascista, mas essa negrada está passando dos limites".

Apenas para esclarecer uma coisa: não sabemos nada do que ocorre, de verdade, na Venezuela, um país que tem um histórico impecável de eleições livres, todas monitoradas por observadores internacionais.

A cobertura da crise, pela mídia brasileira, é primária, rasteira e maniqueísta - como, de resto, todas as demais coberturas dessa gente.

O país está na merda, sim, porque os EUA colocaram sobre ele a mão pesada de sanções econômicas e mantém a pressão sobre o preço baixo do barril de petróleo, para esmagar a Venezuela, última nação livre da América do Sul que se recusa a voltar a ser um quintal de Miami.

Os EUA mantém em Guantánamo, dentro de território Cubano, um centro clandestino de tortura e extermínio, mas ninguém chama Donald Trump de ditador.

Essa crise na fronteira só existe, no nosso caso, porque voltamos a ser, com a Dinastia Bozo, um país subalterno e ridículo que, apesar de estar voltando para o Mapa da Fome, fica posando de doador de alimentos para um país com IDH maior que o nosso.

Leandro Fortes, Jornalista e integrante da Rede de Jornalistas pela Democracia
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'Estamos do lado certo da história': leia íntegra do discurso de Maduro em Caracas


“Temos uma grande mobilização desde as primeiras horas da manhã, 8h30, 9h. O povo já estava em marcha, mobilizado. É impressionante a consciência das declarações que ouvi de vocês, homens e mulheres do povo. Os que nunca saem. Nunca aparecem em televisões internacionais. Estamos muito orgulhosos da força que temos. Da consciência, da coragem e do poder popular. E que se sintam orgulhosos por serem os invisíveis. Porque os invisíveis são os indestrutíveis. Os invisíveis para as caras internacionais, para os jornalistas que vêm do mundo. Ninguém mostra a consciência majoritária, porque somos maioria.

Somos alegria, somos os filhos de Hugo Chávez. Isso soa bem. Aqui está o povo nas ruas. Dou os parabéns a toda a revolução política, por estar na rua todos os dias. De ponta a ponta. A Venezuela está nas ruas, mobilizada.

Estamos numa batalha pelo direito de ter paz. Como digo sempre, estamos numa batalha pela paz, mas com independência, com integridade nacional. Com justiça social. Pela dignidade da Venezuela, ante aqueles que querem deixar nosso país de joelhos para o império americano. Estamos defendendo as fronteiras da pátria pelo direito de sermos livres. Não é tempo de traições. É o tempo de lealdade com a pátria e com os ideais supremos da Venezuela.

Eu me alimento do amor e da lealdade de vocês. Todos os dias. Sou um homem do povo. Não sou um boneco da oligarquia. Sou um homem simples. Minha escola são as fábricas, os trabalhadores. Nunca serei parte de nenhuma elite. E posso dizer do meu amor mais profundo e da minha lealdade maior. E contem com Nicolás Maduro, porque serei leal hoje e sempre nesta batalha de defender nossa independência e nossa liberdade.

Em pé, governando nossa pátria agora e por muitos anos. À frente do destino, segurando as rédeas da pátria. Em nome de você, mulher trabalhadora. Em nome de vocês, estudantes da educação média. Trabalhador, trabalhadora, camponês, camponesa, pescador, pescadora.

Governando de maneira democrática, livre, constitucional. Para o bem-estar da maioria, do povo trabalhador. E o meu compromisso supremo. Hoje, 23 de fevereiro. Há um mês, exatamente nesta hora, eu disse: passarão os dias, as semanas, e o presidente Maduro seguirá à frente da pátria. Aqui estou, cumprindo meu juramento.

E porque estou aqui? Porque vocês são aqueles que decidem o que acontece na Venezuela. E é um soco soberano que estamos dando na intervenção gringa. Aqui quem decide são os soberanos e ninguém mais.

Soberanos que me escutam: estamos aqui pelo povo que eu jurei respeitar e defender. Com a minha vida, se necessário for. Pergunto para a minoria da oposição: até quando vocês vão prejudicar o país inventando joguetes para desestabilizar a nação? Pergunto: o que vocês conseguiram em 20 anos de oposição? O que conseguiram em 30 dias com esse presidente fantoche? Pergunto: por que não pediram nova eleição se têm o poder? Ela deveria ser convocada hoje.

Eu assumi como interino, porque era vice. E convoquei eleições em 30 dias porque mandava a Constituição. Vocês sabem disso. Quando há um presidente interino, precisa convocar em 30 dias. E pergunto ao mundo: onde está a convocação da eleição presidencial se supostamente há um presidente interino? Estamos esperando que o senhor fantoche, o palhaço de mil caras, convoque eleições. Palhaço, fantoche do imperialismo americano. Vamos ver quem tem os votos e quem ganha as eleições deste país. Fantoche. Palhaço.

Eu também me pergunto: se ele é presidente, onde estão as medidas econômicas que ele tomou? As medidas sociais? Onde está o conselho de ministros? É um jogo para enganar e manipular. Um jogo fracassado de antemão. Disse e reitero hoje: o golpe de estado fracassou. A vitória nos pertence.

Fracassaram. E o que vai fazer agora? E o que vai fazer agora? Hoje quiserem ter um show a mais. Todo processo tem seu dia e sua hora. Haverá justiça na Venezuela. Para que haja paz, haverá justiça.

Ontem e hoje fizeram um show e perturbaram a vida do nobre povo da fronteira. Levaram o crime, agrediram uma jornalista chilena. Queimaram um ônibus em San Antonio. Que tremendo governo este que enche as ruas de violência. Os quadrilheiros foram identificados e irão presos.

Me vi obrigado, diante do show e da violência anunciada, a fechar a fronteira com a Colômbia. Estou avaliando o que fazer porque vamos garantir a paz e a soberania da fronteira. Não temo ninguém. Meu pulso não treme. E se é para brigar, brigo primeiro. Não devo nada à oligarquia.

Por trás dessa comida que chamam de ajuda humanitária escondem a ameaça que são Estados Unidos. O monstro Trump que nos ameaça. Traidores para sempre. Vão secar diante dos olhos do povo. Traidores.

O plano foi descoberto. Quem anunciou foi o próprio Trump na Casa Branca. Anunciou que ele está contemplando uma invasão militar contra a Venezuela. O que pensa o povo da Venezuela dessas ameaças? Fica um chamado à consciência dos homens e mulheres que têm pensamentos humanistas e pacifistas.

Chamo a solidariedade mundial. Chegou a hora de levantar as vozes. Chegou a hora do nosso povo. Tire suas mãos da Venezuela, Donald Trump. Yankee, go home. Ajuda humanitária? A quem ele ajudou na vida? Ele ama muito o povo da Venezuela…

E por que essa oposição yankee se arrasta na direção de Trump? Por que não ama nada, porque caiu num fosso profundo. Nunca caiu tão baixo. Deram golpe de estado contra Hugo Chávez em 2002 e esse povo voltou o comandante ao poder naquele heroico 12 de abril. Mas nunca haviam caído tão baixo.

Um pequeno grupo sequestrou o comando político da oposição. Eles não têm vontade própria, não têm pensamento próprio. O que seria da Venezuela se caísse no governo desta gente? O que seria de nossa pátria tão bonita se um dia esse pelego chegasse a Miraflores?

E se amanhece um dia em que sequestraram Maduro? E que o povo faria? Isso não vai acontecer. Quero dizer mais uma coisa: minha vida é consagrada integralmente à pátria. Nunca me renderia. Defenderia a pátria com a minha vida se necessário fosse. E quero que vocês saibam. Uma ordem que dou ao povo e aos militares patriotas e todas as forças armadas. Se algum dia vocês amanhecerem com a notícia que fizeram algo contra Maduro, saiam às ruas. E façam a revolução. Não duvidem nem por um segundo.

Estou seguro de que a paz vai reinar na Venezuela. Tenho certeza de que a cada dia que passa acumulamos vitórias parciais. Tenho certeza disso, vejo nos olhos de vocês, vejo no povo.

Não vamos esquecer que o ódio que despertaram é muito grande. O ódio de uma minoria. O ódio de Donald Trump contra a Venezuela. Trump odeia a Venezuela. Odeia os povos latinos e do Caribe. Por isso quer construir um muro.

Estão fazendo uma operação para trazer militares para cá, para tomar nosso país. E sempre digo: os problemas que nós temos na Venezuela devem ser resolvidos aqui em casa, entre venezuelanos e venezuelanos. Aqui em casa, sem ameaças militares. É ilegal. A carta das Nações Unidas proíbe o uso de força para se impor sobre outro Estado.

Estamos do lado certo da história. Estamos defendendo o direito internacional, o direito humanitário, a integridade e a soberania de nossa terra. Por isso que digo aos venezuelanos: por trás da ajuda humanitária há um plano de invasão. Comida podre que sobrou do exército gringo. Não sabiam o que fazer com aquilo e trouxeram. E a comida não daria para 15 mil lares. É um show fracassado. Um pacote podre. É a verdade e com a verdade não temo nem ofendo.

Quero dizer à União Europeia, que temos enorme diferenças. Nos fizeram saber que estão dispostos a ajudar. Eu falei, aceito. Mas estão bloqueando alimentos, estão bloqueando medicamentos. Serão aceitas as ajudas da União Europeia. Chegando legalmente, por portos. Não sou mendigo de ninguém, não sou mendigo de nada.

O que mesmo digo a outros países. Brasil, por exemplo. Mandei mensagem. Estamos dispostos a comprar todo arroz, açúcar, leite em pó e carne que queiram vender. De Roraima. Tudo pagando. Não somos maus pagadores nem mendigos. Somos gente honrada. Querem trazer leite em pó, arroz? Venham. Eu compro agora. Já. O que acham? Estão de acordo? Dentro da Constituição, tudo. Fora da Constituição, nada.

Ontem me contava um parente de um amigo que ele vivia aqui, na sua casa, com família, trabalho. E um dia ele pensou que no Chile iria ganhar mais, prosperar. Se deixou enganar pelas redes sociais. Com tanta propaganda. Vendeu o carro, a moto. E foi com a mulher viver no Chile. Atendendo num estacionamento por 12 horas por dia. Vivia num escritório sem banheiro. Era maltratado. Após um ano disse para a mulher: erramos, vamos voltar para casa. E agora deve estar em casa ouvindo isso.

Claro que temos problemas. Mas não fechamos uma escola. Fechamos universidades? Deixamos de construir casas? Deixamos de pagar as pensões? É importante que saibam disso. Porque com tanta campanha, as pessoas ficam sem saber o que temos. Falta muita para construir. Temos problemas? Lógico que sim. Mas quem resolverá? Donald Trump? O fantoche? A direita fascista?

Algum problema resolveremos mais rápido. Outros não vamos, mas seguiremos trabalhando. Assim é a vida, uma batalha permanente. Com suas coisas boas e ruins.

Eles poderiam ter confundido o povo em trinta dias. Conseguiram? Poderiam ter confundida as Forças Armadas? Conseguiram? Nada. Seguimos enfrentando o imperialismo. A linha-chave deste momento história é a lealdade. Lealdade sempre. A outra chave é a consciência: defender a verdade em cada bairro e em cada cidade. A outra chave é nos mantermos mobilizados sempre. Ruas e mais ruas. Povo e mais povo nas ruas. A Venezuela vai ganhar a paz. Estamos ganhando a paz todos os dias. A Venezuela vai ganhar seus direitos.

Nunca antes um governo da Colômbia tinha caído tão baixo e feito o que fez o senhor Duque. Ele tem cara de anjo. Mas eu o pegaria pelos cachinhos e diria: você é um diabo, senhor Duque.

Tudo tem limite. Tive muita paciência. A paciência que tenho é porque amo o povo da Colômbia. São 5 milhões e oitocentos mil colombianos entre nós. Que viva a Colômbia de Bolívar. Viva a Colômbia sempre. Tive paciência e pedi a Deus, dai-me paciência. Por amor ao povo colombiano que vive entre nós. Um povo órfão, sem governo.

Cúcuta, na Colômbia, tem 70% de pobreza, 40% de miséria. E não tem ajuda humanitária pata Cúcuta? Então pedi paciência, mas ela se esgotou. Não podemos seguir suportando. Decidi romper toda a relação com esse governo fascista da Colômbia. Os cônsules têm 24 horas para sair da Venezuela. Fora, oligarquia. Basta.

Pelo amor de Deus. Que nos dê sua benção. Jesus de Nazaré. Peço a benção de Deus, de todos os anjos e arcanjos. Peço a benção de nosso comandante Chávez, amado para sempre. Peço a benção do povo da Venezuela para seguir e neutralizar essa agressão que vem da Colômbia. E seguir triunfando pelo caminho da paz.

Temos uma poderosa Força Armada Bolivariana. Armada e espalhada, e pronta para defender a segurança do povo. Que viva a Força Armada Bolivariana. Digo como comandante: estou orgulhoso de seu profissionalismo, capacidade operacional, sua disciplina, obediência e de sua lealdade absoluta. Não esqueçamos nunca deste lema: leiais sempre, traidores nunca.

Quero saudar partidos de vários países que estão com a gente. A Venezuela deve seguir em paz. Trabalhando. Amanhã é domingo. Passear com a família. Defendendo a pátria. Preparando-nos para o Carnaval. Decretei dia 28 e dia 1 feriados para o grande Carnaval na Venezuela. Vamos dançar em paz. Nós merecemos, não é verdade? Vou sair de férias pela Costa Francesa, me acompanham? Vou para Nova York? Para Miami? Vou é sair para dançar junto com o povo. Não sou homem das oligarquias. Sou um de vocês. O comandante Chávez me deixou para algo. Sou tão humilde e tão simples quanto qualquer um de vocês. Tenho amor, paixão pela pátria e direito a um futuro próspero. É essa força que me anima.

E me anima o juramento que fiz ao maior bolivariano deste século, o comandante Hugo Chávez. Escute bem, Trump. Jamais sou trair o juramento que fiz, de construir o socialismo do século 21. Que viva a força revolucionária do povo. E digo de coração, hoje 23 de fevereiro, Chávez vive! O sol da Venezuela nasce. Que viva a revolução bolivariana. Abaixo a oligarquia. Acima, pátria.”
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Por que só agora tucanos vão em cana?


A volta espetaculosa das ações da Lava Jato pode dar a impressão de que “agora a coisa vai.” De repente, o tucanato vira alvo de prisões, apreensões, investigações, acusações.

Gente séria vê nisso uma coincidência nada casual. Bastou Sérgio Moro sair da vara de Curitiba para liberar as amarras que poupavam o PSDB de qualquer investigação séria. Até então, o único condenado, com décadas de atraso, havia sido um morto (Sérgio Guerra) e Eduardo Azeredo, que já não oferecia perigo a uma mosca.

Pausa: até aquele momento, o alvo sempre foi o PT, Lula em especial. O roteiro estava escrito e não permitia “cacos”. Tratava-se de tirar o maior líder popular da história do Brasil das eleições, as quais ele ganharia com o pé nas costas. Todo o resto não vinha ao caso. O serviço uniu executivo, legislativo, judiciário e o capital abutre – todos embalados com a voz uníssona da grande mídia.

De lá pra cá, a cronologia dos fatos pregou algumas surpresas para esta gente. Os candidatos de sempre do andar de cima experimentaram um vexame sem precedentes nas eleições. Sobrou um ex-capitão (que só virou capitão quando foi expelido para a reserva – era um mero tenente) evidentemente despreparado para qualquer missão pública digna do nome.

Mesmo assim, Bolsonaro só “ganhou as eleições” graças a todos os tipos de fraude, desde a eletrônica até as velhas práticas de roubo escancarado, caixa-dois. Mas é o que tínhamos para hoje, diria a coalizão antiBrasil que guilhotinou Lula e pretendia (e pretende) retroagir o Brasil à época do bispo Sardinha.

Bolsonaro nunca foi bem quisto pelos ricos cheirosos. Não pelas ideais, mas pelos modos. Rústico no tratamento, jamais ligou para cuidados na hora de encher os bolsos dele e da filharada, cuidados que os milionários normalmente tomam na hora de avançar sobre o dinheiro do povo.

Mesmo estes não imaginavam o tamanho da capivara (exposta) que cerca a famiglia. Aliança com milicianos paramilitares, roubo escancarado de recursos públicos com o uso de assessores, candidatos fantasmas usados para desviar verbas eleitorais, um laranjal de fazer inveja à Cutrale, maior produtora de suco da fruta do mundo...

Voltando um pouco no tempo, surgiu o escândalo Queiróz/Flávio Bolsonaro. As evidências das relações promíscuas da famiglia com assassinos e familiares destes são de clareza solar. Já se sabia disto desde antes das eleições, mas o ministério público do Rio atrasou o quanto pôde as apurações. Os motivos nunca ficaram muito nítidos, mas são fáceis de imaginar. Simultaneamente, surgia um gabinete coalhado de militares. Além deles, ministros que, quando não estão encrencados com justiça, habitam um universo paralelo onde circulam fantasmas de Marx, Mao-Tsé-Tung, pés de goiaba, Olavo de Carvalho e, acima de tudo e de todos, o “Deus Trump”.

Era preciso mudar o foco urgentemente. Não bastam generais órfãos das atrocidades da ditadura militar, como Mourão Filho, ora fantasiado de pequinês para quem quiser acreditar. Ou Augusto Heleno, cérebro do Planalto, idólatra de homicídios em massa como comandou no Haiti (aliás, vocês viram como está o Haiti depois da “heroica” missão brasileira?). Isso só para citar dois dos expoentes da facção verde-oliva.

Quem melhor que tucanos para “ressuscitar” o combate à corrupção? O PSDB já cumpriu o seu papel como pilar do impeachment da presidenta Dilma e da sustentação do usurpador Michel Temer. Agora virou uma legenda esfrangalhada, enterrada viva, sem expressão nacional e com uma bancada raquítica no Congresso.

Melhor ainda: todas as roubalheiras de que agora seus cardeais são acusados são conhecidas da PF, do Judiciário e da mídia estufada há décadas. Paulo “2 Geddeis” Preto é figura carimbada até no ministério suíço. José Serra, idem. Geraldo Alckmin, a mesma coisa. Aloysio Nunes Ferreira frequenta os livros de escrivães de polícia há anos. Beto Richa é delinquente contumaz. A lista é imensa. Caso não possua arquivos, basta à PF recorrer ao Google.

Por que só agora então? A sincronia dos fatos ilumina o debate. Nada disso anistia os criminosos que forem identificados dentro de processo legais negados à Lula. Longe disso: antes tarde que nunca. Mas acreditar que finalmente a justiça está sendo feita não passa de ingenuidade. Antes disso, está em marcha uma operação para blindar Bolsonaro dele mesmo exumando crimes suspostamente maiores que os dele ele e sua famiglia. De repente, sumiram do noticiário Queiróz, Marielle Franco e o motorista Anderson, Flávio Bolsonaro etc.

A PF, aliás, é subordinada a Sérgio Moro. Já viu ele dar ponto sem nó? Com a maior cara de pau, amenizou suas críticas ao caixa-dois para arrastar uma parcela do Congresso. Seu guia não está no Planalto, mas na Casa Branca. O objetivo final está à vista de todos: conquistar a ferro e fogo a liquidação da aposentadoria em benefício dos ganhos da banca privada mundial. A propósito, isto sim um estelionato eleitoral, como o próprio tenente e ex-capitão reconheceu ao vivo e em cores. Em 30 anos de Congresso, Bolsonaro sempre votou contra a reforma da previdência.

Ricardo Melo é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia
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Globo os Diários Associados de amanhã?


Um medo ronda os herdeiros de Roberto Marinho. O medo do declínio ou mesmo do fim de seu império midiático, do qual a Rede Globo de Televisão é o braço mais visível.

De detentores de um poder quase absoluto no Brasil, seja no regime autoritário (1964-1985), seja na chamada Nova República que a ele se seguiu, os Marinho se deparam com uma realidade antes impensável.

Até então, a Globo era duramente criticada apenas pelos setores democráticos e de esquerda, por seu descompromisso histórico com a verdade dos fatos.

Ela foi decisiva na manutenção dos militares no poder por duas décadas, na criminalização do PT, no golpe – travestido de impeachment – contra Dilma Rousseff, e na condenação e prisão, sem provas, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Desde a última campanha eleitoral para a presidência da República, o capitão reformado Jair Bolsonaro, por outras razões, passou também a criticar e a ameaçar a TV Globo.

“Façam matéria pesada sim, bastante, contra mim. Que se eu chegar lá, não vou perseguir vocês. Vou pagar pra vocês o que vocês merecem”, bradou em várias ocasiões.

Mesmo fazendo uma cobertura para lá de protocolar e quase ignorando a campanha de Fernando Haddad, candidato do PT, Bolsonaro não se deu por satisfeito em relação à Globo.

Tanto que ele não falou com exclusividade para a Globo depois de eleito, como se tornou praxe no Brasil. Preferiu a TV Record, do empresário e bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus.

Em 13 de dezembro, fez questão de almoçar com outro empresário da mídia, o apresentador e dono do SBT, Sílvio Santos. O teor da conversa não foi revelado e nem precisava. No dia seguinte, o SBT passava a dar uma cobertura ufanista à montagem do novo governo, digna dos velhos tempos da ditadura.

Ao contrário de outras posses, em que os repórteres e comentaristas da TV Globo – “Grobo”, para os bolsonaristas – circularam com desenvoltura por todos os recintos oficiais, impenetráveis para o resto da mídia, na do “capitão”, a emissora foi mantida à distância.

E já nos primeiros dias de governo, ficava claro que era a Record, inimiga de longa data dos Marinho, quem assumia a posição de emissora “chapa branca”.

É a TV Record agora quem dá, em primeira mão, as notícias do interesse do Planalto, seguida de perto pelo SBT e pela TV Bandeirantes, da família Saad. As três, aliás, travam uma disputa para ver quem vence no quesito subserviência.

BRAÇO ARMADO

O ex-ator pornô e ex-funcionário da “Grobo”, agora deputado federal, Alexandre Frota (PSL-SP), promete ser o braço armado de Bolsonaro na guerra contra a “Vênus Platinada”.

Através de projeto de lei elaborado com a ajuda dos concorrentes da emissora, Frota pretende proibir o “instrumento” que levou o sistema publicitário brasileiro a uma espécie de cartelização, em que a Globo tem primazia sobre todas as demais emissoras, a chamada Bonificação por Volume (BV).

O mecanismo foi introduzido pela Globo no final dos anos 1960, com o objetivo de “estimular o mercado publicitário”. No entanto, ele é considerado um “câncer” por um de seus maiores adversários, o vice-presidente e sócio da RedeTV, Marcelo de Carvalho.

O funcionamento do BV é simples: o anunciante contrata uma agência de publicidade para divulgar um produto. Os veículos de comunicação pagam uma comissão para as agências, o BV, para que elas os escolham como destinatários da verba.

Isso cria um ciclo vicioso, em que o meio mais rico no Brasil, a TV aberta – e dentro dela a TV Globo – mantenha seu domínio sobre o bolo publicitário alimentando as agências com o BV. Grandes contratos de publicidade costumam ter um BV variando entre 10 e 20% do seu valor.

Frota aguarda apenas a palavra final de Bolsonaro para apresentar o projeto na Câmara dos Deputados.

Em 14 de janeiro, outra bomba caiu no colo dos irmãos Marinho. A emissora estadunidense CNN terá um canal no Brasil. A emissora vai operar como TV fechada e não virá sozinha.

Junto com ela também chega a sua agência de notícias, ambas funcionando 24 horas por dia e dedicadas exclusivamente ao jornalismo. Douglas Tavolaro, sobrinho do bispo Edir Macedo e ex-diretor de jornalismo da TV Record, será o responsável pelo acordo de licenciamento com a matriz da CNN. Associado a ele estará ainda o empresário mineiro Rubens Menin, da construtora MRV.

Com risco de perder o BV, enfrentando a disputa dos concorrentes na TV aberta, e, em breve, da CNN na TV paga, o império dos Marinho corre sério risco de repetir a história do apogeu e queda dos Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand.

AMBIÇÃO E PODER

O BV é, sem dúvida, um dos grandes responsáveis pelo poder avassalador que a Globo teve e ainda mantém no Brasil. Mas não é o único culpado pela emissora ter se transformado em uma espécie de “estado dentro do estado”.

Grande parte dessa responsabilidade deve ser creditada aos militares que assumiram o poder após o golpe de 1964.

No período áureo dos negócios, ainda sob o comandado de Assis Chateaubriand, os Diários Associados chegaram a ter 36 jornais, 18 revistas, 36 rádios e 18 emissoras de TV, constituindo-se no maior conglomerado de mídia da América Latina.

Endividado e mergulhado em crises de gestão, entraram, em meados da década de 1970, em um processo que culminaria na cassação das suas concessões de TV em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, no início de 1980. Ficava patente a derrocada do grupo.

Os Associados possuem hoje alguma presença apenas em Minas Gerais e no Distrito Federal.

O que isso tem a ver com os herdeiros de Roberto Marinho?

Chateaubriand e Roberto Marinho não tinham nada em comum, exceto a ambição e o gosto pelo poder.

Paraibano de família rica e formado em Direito, desde cedo Chateaubriand percebeu que seu negócio era a imprensa.

Veio parar no Rio de Janeiro e, como advogado, logo caiu nas graças da poderosa Light, empresa canadense de eletricidade. Foi com o dinheiro da Light que comprou, em 1924 seu primeiro diário, que batizou de O Jornal. Começava aí a carreira do mais bem sucedido e igualmente mais inescrupuloso magnata da mídia no Brasil até o aparecimento de Roberto Marinho.

Sem papas na língua, um “entreguista” sem compromissos com o Brasil e preocupado exclusivamente com seus interesses, Chateaubriand mandou e desmandou em políticos, empresários, na Justiça e demais autoridades de sua época.

Ridicularizava o presidente Eurico Dutra, a quem, em mais de uma ocasião, passou-lhe em público a mão na bunda. Infernizou a vida de Getúlio Vargas. Conseguiu quase tudo o que quis de Juscelino Kubitschek. Foi peça fundamental na derrubada do governo João Goulart e na vitória do golpe civil-militar de 1964.

Chatô, como era conhecido, morreu em maio de 1968, preso a uma cadeira de rodas, tetraplégico, meses antes da edição do AI-5, o golpe dentro do golpe.

Em seu sepultamento não faltaram políticos e militares com as palavras elogiosas de sempre. Antes de morrer, triste e amargurado, pode presenciar episódios que, para qualquer pessoa perspicaz, eram evidentes: os Diários Associados começavam a ser rifados pelos novos ocupantes que ajudaram a colocar no poder.

CASTELO ESQUECEU O RELATÓRIO NA GAVETA

Pessoa de temperamento afável, discreto e dotado de grande capacidade para agradar aos interlocutores, Roberto Marinho possuía um jornal, uma emissora de rádio e uma emissora de TV, os três no Rio de Janeiro.

O jornal e a emissora de rádio estavam longe de qualquer liderança e a televisão, inaugurada em 1965, engatinhava.

A favor de Marinho havia ainda o fato de ser “um revolucionário de primeira hora” e de nutrir, a exemplo dos militares no poder, enorme admiração pelos Estados Unidos, que ele definia como “nação líder e condutora do mundo democrático”.

Foi JK quem deu, em 1957, a concessão do Canal 4 do Rio de Janeiro, a Roberto Marinho.

JK havia prometido o canal à direção da Rádio Nacional, emissora estatal e líder de audiência. Mas para se livrar de Chateaubriand, que ameaçava colocar todos os seus veículos contra ele caso a Rádio Nacional recebesse aquela concessão, JK viu em Marinho um tertius. Até porque ninguém acreditava que ele tivesse dinheiro para montar uma TV.

É aí que entra a sociedade entre o então gigante da mídia estadunidense Time-Life e a TV Globo.

Na época, a Constituição brasileira proibia a participação de capital estrangeiro em qualquer veículo de mídia no país. No entanto, o Grupo Time-Life contribuiu com alguns milhões de dólares para criação da TV Globo, valor muitas vezes maior que o patrimônio do grupo de Roberto Marinho, à época.

Os contratos firmados entre ambas previam ainda colaboração técnica, incorporação de tecnologia e, até mesmo, participação de funcionários estadunidenses em sua direção. Elementos essenciais para que pudesse se implantar e rapidamente suplantar a concorrência.

Registrado posteriormente em detalhes pelo jornalista Daniel Herz no livro “A história secreta da Rede Globo” (1986) essa parceria, quando descoberta na época, provocou um escândalo.

Além de dezenas de artigos em tom de denúncia escritos por Chateaubriand, rendeu uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que teve como relator o senador carioca Saturnino Braga e como um de seus mais destacados membros o também senador capixaba João Calmon, o número dois na hierarquia dos Diários Associados.

No relatório final, a CPI Globo-Time/Life condenou a sociedade de Roberto Marinho com o grupo estadunidense, mas o escândalo não deu em nada.

O então presidente da República, marechal Castelo Branco, recebeu o relatório e o esqueceu em alguma gaveta. Em 1971, o acordo foi formalmente desfeito, sem qualquer problema para a TV Globo.

Sacramentava-se aí a parceria de Roberto Marinho com os militares que atravessou quase duas décadas e foi extremamente vantajosa para ambos os lados.

Os militares tinham na Globo o seu porta-voz e a garantia de boa imagem junto à opinião pública, mesmo nos momentos mais sombrios dos “anos de chumbo”. A Globo, por sua vez, crescia à sombra das benesses do poder.

MONOPÓLIO E DESINFORMAÇÃO

Nos Estados Unidos, onde a mídia audiovisual é regulada, nunca uma rede de televisão comercial monopolizou a opinião pública e menos ainda as verbas publicitárias.

A tradição lá é de três a quatro grupos de mídia aberta dividirem a atenção dos telespectadores, a exemplo da CBS, NBC, ABC e, mais recentemente, da Fox.

Some-se a isso que os Estados Unidos contam com uma importante TV Pública, a PBS, com mais de 400 emissoras espalhadas pelo país, que servem de contraponto à mídia comercial, além de dezenas de TVs pagas que podem ser assistidas via cabo ou satélite.

Na Europa, as TVs nasceram públicas e seguiram assim por cinco décadas até a vitória de governos neoliberais, a começar por Margaret Thatcher, no Reino Unido, em 1979.

A partir daí foram obrigadas a disputar com as emissoras comerciais e até o momento continuam vencendo, a exemplo da BBC inglesa, considerada “a melhor TV do mundo”.

Nessas cinco décadas, as TVs Públicas se mostraram essenciais para que a população desenvolvesse censo crítico em relação aos seus governos, ao dia-a-dia de suas sociedades e à própria mídia.

Enquanto isso, o Brasil é um caso raro dentre as 15 maiores economias do mundo. Além de nunca ter regulado os veículos audiovisuais, não conseguiu garantir sequer um padrão mínimo aceitável de concorrência empresarial e de seriedade jornalística no trato das informações. O que também explica o poderio dos Associados e, depois deles, o monopólio das Organizações Globo.

Para um europeu ou estadunidense, por exemplo, é impensável que uma única emissora de TV possa deter uma fatia de 70% da audiência, como ainda acontece com a Globo. Sem falar que até bem pouco tempo, essa audiência encostava nos 90%. Vale dizer: todo um país se informava e se pautava pela ótica da Globo.

A exceção de alguns poucos acadêmicos e de entidades ligadas ao assunto, no Brasil não se discute e não se sabe o que é regulação democrática da mídia.

Há, igualmente, um profundo desconhecimento do que seja uma TV Pública. A mídia comercial, TV Globo à frente, sempre fez questão de confundir o respeitável público sobre esses temas, tachando-os de “censura à liberdade de imprensa” ou de “televisão do governo”.

Um dos primeiros a sentir isso na pele foi JK, nos idos de 1958, quando, incomodado com a pressão que Chateaubriand fazia a seu governo, encomendou a um grupo técnico, um anteprojeto de lei para a radiodifusão. Antes que o anteprojeto pudesse ser enviado ao Congresso, o assunto vazou para a imprensa e passou a ser criticado.

Aconselhado por amigos sobre a repercussão negativa para o seu futuro político, esqueceu o assunto.

Esse anteprojeto foi retomado por João Goulart, quando, em 1961, assumiu o poder. Os episódios que antecederam à sua posse fizeram com que percebesse que o Brasil não poderia avançar na linha do desenvolvimento e da justiça social com a mídia concentrada nas mãos de poucas famílias e avessas a quaisquer medidas de interesse popular a exemplo das Reformas de Base, do aumento do salário mínimo e da criação do 13º.

Os Diários Associados e Roberto Marinho estiveram juntos na campanha pela deposição de João Goulart, mas foi Marinho quem soube melhor capitalizar a simpatia e o apoio dos militares nas décadas seguintes.

Mesmo quando a TV Globo não pode mais esconder as manifestações pelas eleições diretas e na, sequência, a favor da candidatura de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, Marinho buscou maneiras de tutelar o poder civil.

SEM APOIO NA ESQUERDA E PERDENDO O DA DIREITA

Na primeira eleição direta para a presidência da República, em 1989, depois de duas décadas de regime autoritário, a Globo foi decisiva para a vitória de Fernando Collor, candidato desconhecido de um partido minúsculo, que passou a ser apresentado por ela como o “caçador de marajás”.

O termo “marajá” significava na época algo muito próximo ao “combate à corrupção” dos dias atuais.

A desilusão popular com Collor foi tamanha que antes de completar o segundo ano de mandato, já era alvo de processo de impeachment que o levou a renunciar ao cargo.

Nos dois governos do tucano Fernando Henrique Cardoso, as organizações Globo nadaram de braçada.

O império de Roberto Marinho combateu o quanto pode o Partido dos Trabalhadores (PT) e seu candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo assim, em 2002, na contramão de suas previsões, Lula e não o tucano José Serra, candidato de FHC, era eleito.

A história recente é conhecida, mas vale ressaltar que mesmo Lula não mexendo em questões essenciais no que diz respeito aos interesses da Globo, ela não o perdoou por suas políticas voltadas para os mais pobres, como os programas Bolsa Família e Universidade para Todos, e pela soft tentativa de regular a mídia.

A Globo e seus amigos estadunidenses também nunca perdoaram Lula por sua política externa independente e por fortalecer a Petrobras, o que redundou na descoberta do pré-sal e no compromisso de destinar os recursos do petróleo para a educação e saúde do povo brasileiro.

Bolsonaro e a turma que o apoia – sobretudo militares e evangélicos – há muito criticam a atuação da Globo, seja por seu enorme poder, seja em função de um fundamentalismo religioso que vê pecado em tudo e quer regredir os costumes ao século XIX.

Nos dois casos, advogam em prol de uma Globo enfraquecida ou desejam o seu fim. Os episódios da deposição da presidente Dilma Rousseff e os dois anos do governo Temer fizeram com que chegassem a uma conclusão bastante próxima dos vitoriosos do golpe civil-militar de 1964 em se tratando dos Associados.

É bom lembrar que Bolsonaro nunca foi o candidato dos sonhos dos filhos de Roberto Marinho.

O papel que eles lhes atribuía era apenas o de anti-Lula. O clã Marinho bem que tentou emplacar outros nomes na corrida presidencial – de Luciano Huck a João Amoedo, passando por Henrique Meireles e Geraldo Alckmin -, mas não funcionou.

Com Lula impedido de disputar e a Globo há anos martelando a opinião pública contra o PT, Bolsonaro acabou eleito, mesmo que num pleito marcado por gravíssimas denúncias de uso de caixa 2 e de fake news.

Como em situações anteriores, os Marinho pensavam resolver seus problemas da forma “tradicional”.

Leia-se via negociações onde a Globo batia, assoprava e, no final, acertava-se tudo.

O que explica as idas e vindas do noticiário da emissora e dos demais veículos do grupo no primeiro mês de governo Bolsonaro e no período entre a vitória na eleição e a posse.

Só que o velho expediente não está funcionando, com a “Vênus Platinada” passando a ser o alvo da fúria do “Mito”, de seus filhos, de correligionários e seguidores.

Basta uma rápida conferida nas redes sociais para se constatar a raiva e o ódio que os bolsonaristas destilam contra a “Grobo”, que chega a ser acusada de “comunista” e de “ter parte com o diabo”.

Os herdeiros de Roberto Marinho – que tinham como objetivo central impedir a volta do PT ao Palácio do Planalto -, são obrigados a lutar agora pela própria sobrevivência.

Há muito poder e dinheiro em jogo e eles sabem que se já não contavam com o apoio dos setores democráticos e da esquerda, estão perdendo também o da direita e da extrema direita.

Um império de mídia não morre de um dia para o outro, mas a morte começa bem antes do seu fim.

Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Eliara Santana é jornalista, doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.
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Guaidó não pôde controlar situação em torno da ajuda humanitária à Venezuela

Guaidó decepcionado
O opositor Juan Guaidó, que no mês passado se proclamou presidente interino da Venezuela, não conseguiu assumir o controle sobre a situação na Venezuela, bem como realizar a entrada da ajuda humanitária no país, disse o analista Viktor Jeifets.

O professor Viktor Jeifets, da Faculdade de Relações Internacionais da Universidade Estatal de São Petersburgo e especialista em assuntos latino-americanos, opinou que "ontem [23 de fevereiro] era um dia importante para Guaidó mostrar que ele podia controlar algo, mas isso não deu certo".

Jeifets sublinhou que, ao se declarar presidente interino da Venezuela, Guaidó deveria convocar eleições em 30 dias, mas não conseguiu fazer isso. "Por isso não é claro quais sejam os poderes de Guaidó como presidente interino", disse ele.

O cientista político indicou que o plano não funcionou como foi planejado, mas o fracasso da tentativa de transferir a ajuda humanitária era previsível.

"A entrada da ajuda humanitária à Venezuela, prevista para 23 de fevereiro, desde o início que era vista como uma provocação e terminou como deveria terminar, com o caos na fronteira e vítimas humanas", afirmou Jeifets.

Para o especialista, a coisa mais perigosa não foram as desordens na fronteira com a Colômbia, mas a partida de um navio com ajuda humanitária de Porto Rico, que a guarda fronteiriça venezuelana prometeu atacar se se aproximasse do seu país.

"Se isso acontecesse, se o navio não tivesse voltado atrás, isso poderia ter sido um pretexto direto para uma intervenção das Forças Armadas dos EUA, levando em conta que Porto Rico é um Estado livre associado dos EUA", avisou ele.

Em 23 de fevereiro, a oposição venezuelana tentou fazer entrar ajuda humanitária na Venezuela. Na chegada, vários caminhões com ajuda foram queimados na fronteira com a Colômbia, enquanto quatro pessoas foram mortas na fronteira com o Brasil, segundo a organização não-governamental venezuelana Fórum Criminal.

A tensão política na Venezuela aumentou desde que em 23 de janeiro Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela e líder da oposição, se declarou presidente interino do país.

Os EUA e vários países da Europa e América Latina, inclusive o Brasil, reconheceram Guaidó como presidente interino do país. Rússia, China, Cuba, Bolívia, Nicarágua, Turquia, México, Irã e muitos outros países manifestaram seu apoio a Maduro como presidente legítimo do país e exigiram que os outros países respeitem o princípio de não interferência nos assuntos internos do país latino-americano.

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Vale ditou regras para simplificar licenciamento ambiental em MG


Em reunião a portas fechadas, diretores da Vale discutiram com servidores do governo de Minas Gerais regras para simplificar e acelerar o licenciamento ambiental no Estado, conforme revelam áudios e documentos obtidos com exclusividade pela Repórter Brasil. As sugestões feitas pelos funcionários da mineradora, em encontro em outubro de 2014, foram adotadas três anos depois, quando o governo de Minas Gerais, sob comando de Fernando Pimentel (PT), simplificou o licenciamento ambiental no Estado.

A nova norma enfraqueceu a fiscalização e acelerou o licenciamento da mina de Córrego do Feijão, que rompeu em 25 de janeiro e deixou pelo menos 176 mortos e outros 134 desaparecidos em Brumadinho (MG).

A reunião sigilosa aconteceu na sede da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad), em Belo Horizonte, durante a gestão do ex-governador Alberto Pinto Coelho (PPS), que assumiu o cargo no lugar de Antonio Anastasia (PSDB). O encontro contou com a participação de quatro funcionários da mineradora e de pelo menos dois servidores da secretaria. A presença de funcionários da Vale neste grupo de trabalho viola norma interna da própria secretaria.

Responsáveis por fiscalizar e regular o setor, os servidores ouviram durante três horas as sugestões da mineradora, em clima amigável e sem questionar os riscos das mudanças na legislação.

Após uma hora de encontro, a gerente-executiva de Meio Ambiente da Vale, Gleuza Jesué, sugere que o processo de licenciamento, que em alguns casos se dá em três etapas, “poderia se transformar em licenciamento único”, o que de fato foi acatado pelo governo. As demandas da empresa continuam sendo discutidas até que o então subsecretário de Gestão e Regularização Ambiental Integrada do governo, André Luiz Ruas, responde: “É possível? Tudo é possível. Lei que não muda é lei que está errada” (ouça ao final trechos dos áudios).

A ata do encontro, obtida pela Repórter Brasil, confirma o teor das conversas ao registrar que a equipe da mineradora fez uma apresentação “sobre o sistema atual de regularização ambiental, destacando dificuldades enfrentadas e oferecendo suas contribuições para o seu aprimoramento”.

Secretaria se contradiz

Além de revelar a proximidade entre a mineradora e os responsáveis pela sua fiscalização, a reunião mostra que os servidores do governo violaram norma interna, que determina que os grupos de trabalho criados para discutir novas regras para o licenciamento devem ser compostos “exclusivamente por servidores”, segundo nota da Semad enviada à Repórter Brasil.

Quando questionada se membros da Vale tinham estado em algum encontro na instituição em 2014, a assessoria de imprensa da Semad negou. Porém, após a reportagem revelar os áudios e a ata do encontro, a secretaria se contradisse e reconheceu a presença dos funcionários da Vale, que teria acontecido “a convite de um dos membros do grupo de trabalho” para apresentar estudo que avaliava os modelos canadense e australiano de licenciamento. “Portanto, a Vale não integrou o referido grupo de trabalho, mas realizou uma apresentação aos membros desse grupo”, concluiu a nota.

A nota esclarece ainda que os grupos de trabalho receberam contribuições de outros órgãos e entidades da administração pública e da sociedade civil. “Portanto, afirma-se que essa reunião [com a Vale] não pautou a edição das normas posteriores”. Leia a íntegra da resposta.

Maria Tereza Corujo, que participa de frequentes reuniões na Semad, afirma que em 2014 a sociedade civil não foi convidada em nenhum momento para discutir alterações na legislação. Ela foi a única conselheira do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) a votar, em dezembro de 2018, contra a autorização para obras na barragem de Córrego do Feijão. “Sempre denunciamos a relação promíscua entre Estado e os representantes dos setores econômicos, principalmente as mineradoras”, conclui, ao saber das gravações.

“É no mínimo estranho que um grupo de trabalho criado exclusivamente para servidores do Estado para discutir algo tão importante quanto a regularização ambiental tenha sido aberto para representantes de empresas”, afirma Bruno Milanez, doutor em política ambiental e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Milanez afirma que não é a primeira vez que a Vale interfere diretamente na política. Em 2015, por exemplo, o Código de Mineração foi elaborado com a ajuda de advogados da mineradora.

Diretora da Vale sugeriu ao governo de MG, em 2014, simplificar o processo de licenciamento ambiental.
Foto: Ricardo Lanza/Repórter Brasil

Além da presença da executiva Gleuza Jesué, esteve no encontro o atual secretário de Meio Ambiente de Minas Gerais, Germano Vieira Lopes. Servidor de carreira, aprovado em concurso público em 2012, Germano Lopes teve rápida ascensão na Semad até chegar ao principal cargo da pasta, em novembro de 2017. Ele foi o único secretário do primeiro escalão do governo de Minas, nomeado por Pimentel e mantido após a posse de Romeu Zema (Novo).

À época do encontro, Lopes era chefe de gabinete do secretário e coordenador do grupo de trabalho. Ao final da reunião, ele agradeceu a presença da equipe da Vale e disse que a secretaria estava “estabelecendo os critérios e diretrizes macro” para que, quando fossem continuar as discussões no próximo ano (2015) já teriam “um trabalho concluído com o que temos que fazer”.

Foi Germano, já no posto de secretário, quem assinou a norma, de dezembro de 2017, que alterou os critérios de risco de algumas barragens, o que permitiu a redução das etapas de licenciamento ambiental no Estado, conforme revelou a Repórter Brasil um dia após o desastre da Vale em Brumadinho. Antes da medida, os casos de significativo impacto ambiental do Estado passavam sempre por três fases de aprovação: Licença Prévia, Licença de Operação e Licença de Instalação. Com os novos critérios de risco, mais flexíveis, as três licenças são concedidas simultaneamente.

Atual secretário de Meio Ambiente de MG, Germano Vieira participou da reunião com a Vale em 2014.
Foto: Janice Drumond/Semad

O governo de Minas informou, à época, que a mudança representou um “grande avanço para a legislação ambiental mineira”. Em nota enviada hoje (22) à Repórter Brasil, o governo afirma que “desconhece as sugestões feitas pela Vale nesta ocasião, em razão de tratar-se de reunião ocorrida no ano de 2014” , e esclarece que o grupo atuou na gestão anterior. Leia o posicionamento na íntegra.

A Vale confirma a participação de seus funcionários em reunião na secretaria, mas esclarece que eles não faziam parte do grupo de trabalho. “Seus representantes foram convidados apenas para uma reunião, assim como tantos outros representantes de empresas, para colaborarem nas discussões técnicas”, disse em nota à Repórter Brasil.

Depois da mudança, os licenciamentos ambientais aceleraram em Minas Gerais. De janeiro a agosto de  2018, foram concluídos em média 15 licenciamentos por dia; antes da mudança, eram quatro por dia.

‘Tudo pode ser revisto’

Confira três momentos da conversa a porta fechadas entre executivos da Vale e servidores da Secretaria de Meio Ambiente de Minas Gerais — órgão responsável por fiscalizar e regular a atividade da mineradora



Aos 51 minutos de reunião, a gerente-executiva de Meio Ambiente da Vale, Gleuza Jesué, sugere que o processo de licenciamento, que para alguns casos se dá em três etapas, “poderia se transformar em licenciamento único”. Ou seja, em apenas uma etapa.



Alguns minutos depois, André Luís Ruas, do governo mineiro, comenta que em caso de aumento de produção e geração de mais rejeito de minério é preciso um novo licenciamento. Jesué, da Vale, pergunta se essa premissa pode ser revista. “Tudo pode ser revisto, na verdade”, responde Ruas.



A representante da Vale prossegue sugerindo alteração na lei possibilitando a mineradora se comprometer por uma declaração de responsabilidade e ressalta que não precisa de resposta imediata. Ruas responde: “É possível? Tudo é possível. Lei que não muda é lei que está errada”.

Maurício Angelo
No Repórter Brasil
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Relembre: Xadrez de como Barroso tornou-se um Ministro vingador

Publicado originalmente em 12/06/2017


Peça 1 – o iluminista e o negro de primeira linha

A intenção era criar um momento de paz, indicar publicamente que as desavenças no Supremo Tribunal Federal se resumiam ao campo jurídico. Daí a ideia de inaugurar dois retratos de ex-presidentes – Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski – e incumbir dois colegas de saudá-los.

Quando se optou por Luís Roberto Barroso para saudar Joaquim Barbosa, ficou no ar a suspeita de que algo poderia dar errado. Barroso é mestre na arte de se auto louvar, permanentemente atrás dos holofotes e do protagonismo, das declarações reiteradas de bom-mocismo. Teria o desprendimento de focar o elogio na celebração de um colega?

Mas, enfim, foi convidado dois dias antes da cerimônia e, portanto – pensavam os anfitriões – com bom tempo para preparar o discurso e retirar eventuais inconveniências.

Mal começou o discurso, um frêmito perpassou os demais Ministros e um frio na espinha acometeu a organizadora do encontro.

Barroso lembrava a primeira vez que conheceu Barbosa, na França.  Ou na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), quando Barbosa prestou concurso e ele, Barroso, já era chefe de departamento. E o grande Gatsby não parou mais. Joaquim Barbosa tornou-se um mero álibi para a pregação salvacionista do vingador, bradando seu patriotismo, sua cruzada em prol da moralidade e da erradicação de toda corrupção.

Vez ou outra, lembrava rapidamente a relatoria de Barbosa na AP 470 e voltava à catilinária inicial, sua intenção de limpar a pátria, acabar com a corrupção, jogando os corruptos no fogo do inferno.

Um Ministro mais sarcástico virou-se para um colega e murmurou:

– O “Iluminista” está impossível!

Referia-se ao apelido que lhe foi pespegado pelo blog, quando seus acessos de humildade fora de série o faziam se declarar um arauto do Iluminismo e um par dos grandes juristas que atuaram na vida política nacional, como Joaquim Nabuco, Ruy Barbosa e San Thiago Dantas.

Até que o “iluminista” soltou a pérola máxima, saudando Barbosa, “um negro de primeira linha”.



Mal terminou a auto louvação, os repórteres cercaram Joaquim Barbosa perguntando o que achou de ser qualificado como “negro de primeira linha”, uma versão capciosa do “negro de alma branca”. E Barbosa, impassível:

– Sem comentários.

No mesmo instante, portais e blogs, acostumados com as platitudes do ministro “iluminista”, espalharam manchetes de home com a frase que expunha o  dandy deslumbrado e preconceituoso.

Naquele dia, uma transexual fez um discurso histórico no Supremo Tribunal Federal em defesa do direito de identidade, um homossexual assumido enfrentou as verrinas machistas-cafajestes de Gilmar Mendes (https://goo.gl/bwYya6) com a dignidade das grandes figuras jurídicas que hoje escasseiam, sem se intimidar por um minuto com as armas do preconceito.

No Supremo, um negro combativo, polêmico, vencedor, impávido como Mudammad Ali frente a um lutador bailarino e cheio de firulas, apenas olhou duro e deu um jab de direita com o seu “sem comentários”. E o jurista, socialmente preconceituoso, mas, de qualquer modo, responsável por alguns dos avanços morais ocorridos nos últimos anos, escorregou na própria verborragia incontrolável.

No dia seguinte, o “iluminista” subiu ao púlpito do Supremo se desfazendo em lágrimas, se desculpando pela demonstração involuntária de preconceito. Interrompeu várias vezes a penitência com voz embargada.



Peça 2 – os negócios de família

Fiz o preâmbulo não para condenar Barroso por um caso típico de má expressão, mas para expor sua vulnerabilidade, de se desmanchar nas lágrimas da auto-compaixão meramente ante a cobertura da mídia, expondo seu escorregão.

Barroso nunca foi considerado um progressista, na acepção do termo. Mas também nunca foi o juiz vingador, selvagem, o pregador prometendo fuzilar os ímpios com os raios de Poseidon.

Parte do clima persecutório atual, com reputações sendo assassinadas, prisões desnecessárias sendo implementadas, em nome de uma genérica luta contra corrupção, a suspeita espalhando-se por todo o país, os receios com grampos, a derrubada da auto-estima nacional deve-se a ele, o Ministro do Supremo que mais assumiu o papel de vingador.

Se Barroso se desmanchou apenas com as críticas ao seu “negro de primeira linha “, o que ocorreria se a imprensa passasse a explorar os episódios abaixo, se ele se tornasse vítima da mesma sanha macarthista que estimula?

O caso BHS

Trata-se de uma construtora de propriedade de Detta Geertruce Van Brussel Telles, sogra de Barroso, de nome BHS/Beehive.

A construtora é especializada em reformas de prédios, na construção de mansões e tem algumas construções de edifícios.

Com esse histórico, trabalhou para a ICN- Itaguaí Construções Navais braço do  Grupo Odebrecht para o programa PROSUB, do submarino nuclear e para o BTG Pactual.

Detta entrou para a sociedade da empresa em 2012, junto com Sandra Murat.  Atualmente mora em Brasília, na casa onde morava Valdemar Costa Neto, na época do mensalão. A casa pertence a Antonio Carlos Osório Filho, dono da Capital 1, grande tomador de financiamentos da Caixa Econômica Federal.

A offshore em Miami

Tereza Cristina Van Brussel Barroso, sócia e esposa de Luís Roberto Barroso, em 9 de junho de 2014 abriu a offshore Telube Florida LLC em seu nome de solteira. Quem montou a offshore foi um conhecido operador brasileiro em Miami, com problemas na justiça brasileira, de codinome Barbosa Legal.

O imóvel fica na Ilha Key Biscayne, avaliado em US$ 3 milhões e é o sonho de todo brasileiro deslumbrado com Miami.

Com o nome de casada, Tereza é sócia do marido na LRBT Empreendimentos e na Chile 230 Participações.

Além disso, Barroso responde ainda por duas empresas, a Casa da Cultura Jurídica do Rio de Janeiro e o Instituto de Direito do Estado e Ações – Ideias.

Peça 3 – os assassinatos de reputação

Desconsidere as acusações acima. Provavelmente as operações do Ministro e seus familiares estão dentro dos limites flexíveis dos negócios privados. A offshore é apenas uma maneira esperta de defesa contra o fisco, típica do pensamento de Barroso e seu meio social – embora ele costume apresentar como prova da malandragem brasileira a empregada doméstica de um amigo, que não quis o registro para poder acumular os benefícios do Bolsa Família.

Pode causar dúvida o fato da offshore estar no nome de solteira de sua esposa e sócia. Como o fato do pai ser advogado de um processo milionário da Eletronorte.

Mas, provavelmente, se fosse dada a palavra ao Ministro, haveria explicações plausíveis para cada acusação, inclusive a informação se a esposa registrou todos os repasses à offshore no Banco Central. “Acusações”, como o nome do proprietário da casa em que reside a sogra de Barroso, não teriam a menor relevância ou significado.

Essas acusações foram veiculadas por sites de direita – coincidentemente sediados em Curitiba – com algumas informações obtidas diretamente do site da Receita Federal – e repercutidas em blogs da revista Veja, na fase mais expressiva do jornalismo-esgoto da revista e quando Barroso ensaiava alguns voos de independência jurídica.

A intenção política era óbvia. A notícia do site curitibano era encimada por uma foto do Ministro e pelos versos:

“Meu boi Barroso,
Meu boi Pitanga,
O teu lugar
É lá na canga”
Na canga do PT

Como uma pessoa tão frágil, que se desmancha em lágrimas devido às críticas recebidas por uma expressão descuidada, resistiria a uma campanha pesada, da mesma maneira de outras campanhas produzidas pela Lava Jato-mídia-blogs de direita, em que basta juntar registros comerciais, informações da Receita e algumas coincidências, para destruir uma pessoa?

Logo em seguida à divulgação dessas “denúncias”, Barroso votou pela prisão após condenação em segunda instância, tornou-se um templário implacável contra a corrupção e em defesa da flexibilização do estado de direito, o principal alimentador – por seu cargo de Ministro do Supremo – da sanha persecutória que tomou conta do país. O Barroso dos primeiros tempos, contra o clamor das ruas e da mídia, acabou.



Que ele tenha se atemorizado, desculpa-se: a maior ou menor resistência a pressões depende da têmpera de cada indivíduo. E, desde seus tempos de UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Barroso era reconhecido como o advogado brilhante, mas de têmpera frágil. Ministros como Marco Aurélio de Mello, Ricardo Lewandowski e o próprio Gilmar Mendes jamais se atemorizaram com tentativas de assassinato de reputação – ainda que Gilmar por razões distintas.

O que não se perdoa foi a maneira como negociou seu salvo-conduto. A fim de ser poupado dos ataques desqualificadores do macarthismo caboclo, optou por aliar-se aos vingadores, tornando-se seu principal avalista.

A história não o perdoará. E não será por conta do “negro de primeira linha”.

Lourdes Nassif
No GGN
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Mercê

Curiosa palavra, “mercê”. Estar “à mercê” de algo que você não pode controlar, ou de alguém com o poder de decidir sua vida. Depender de algo ou de alguém sem reação possível. Estar entregue ao capricho – ou à benevolência, ou à maldade – de outro. Estar indefeso diante da vontade alheia, ou das forças da Natureza.

Faça um inventário de tudo que tem você à sua mercê, a começar pela sua própria saúde. Você é refém dos seus órgãos, não manda em nenhum deles. Você está à mercê de todos os perigos da cidade em que vive, quanto maior a cidade, mais perigosa. Você está à mercê do trânsito, do possível galho de árvore que o vento derruba na sua cabeça, do assaltante, do etc. Viver normalmente é estar à mercê do que pode acontecer.

No Brasil dos últimos tempos, nos descobrimos à mercê de outra coisa, de uma síndrome que se aproxima de um vício nacional. Os desmoronamentos com mortes em Mariana e Brumadinho e os dez meninos mortos no Rio não podem ser atribuídos à fatalidade, que tudo desculpa. Houve descaso, negligencia, má administração, decisões erradas – enfim, culpados.

Vivemos à mercê do velho hábito brasileiro de deixar pra lá que as coisas se ajeitam (em Mariana não se ajeitou nada ainda). Este caso – talvez pelo fato de as tragédias terem sido tão próximas umas das outras, incluindo aí a terrível morte do Boechat – pode mudar alguma coisa, mas não aposte nisso. O velho hábito se solidificou. Afinal, são décadas de predomínio do lucro sobre a segurança e indiferença pelo social. E nós à mercê da incompetência.

Luís Fernando Veríssimo
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A trampa de Trump contra Maduro

Xavier: tirem as mãos da Venezuela!


O Conversa Afiada tem prazer inigualável de oferecer a seus navegantes serena (sempre!) análise de seu coUnista exclusivo Joaquim Xavier:

Seria apenas grotesco não estivessem em jogo milhões de vida e a soberania de um continente inteiro. Sob a regência de Donald Trump, assumidamente desequilibrado, mas com objetivos bem determinados, o grande capital armou uma operação em grande escala para asfixiar a Venezuela. Criou fóruns internacionais clandestinos, arregimentou cúmplices como Jair Bolsonaro e seu congênere colombiano e batizou a tramoia de “operação humanitária”.

O ato mais provocador e despropositado foi a investidura farsesca de Juán Guaidó. No meio da rua, debaixo de um guarda-chuva, o candidato a títere proclamou-se “presidente interino da Venezuela”. Alguém votou nele? Disputou alguma eleição presidencial? Nada disso.

Como se fosse uma caricatura de mau gosto de Ginger Rogers em “Cantando na Chuva”, simplesmente declarou que a partir daquele momento mandava no país. Trump e sua quadrilha saíram vendendo mundo afora que isto é um exemplo de democracia!

Eleições, conquistas e, sobretudo, o respeito à soberania nacional e ao voto popular não valem nada no universo do Deus Trump, como é chamado pelo aloprado chanceler bolsonarista Eugênio Araújo. (Esse Bessinha...)

Vale o esquema de governantes de direita e extrema-direita que despacham por twitters, seja para acionar um artefato nuclear, convocar tropas, atacar amantes ou xingar opositores e aliados de antanho (pergunte ao Bebianno).

Ajuda humanitária?

Os EUA, dizem, reservaram 20 milhões de dólares em esmolas para os venezuelanos. Em compensação, roubaram 30 BILHÕES de dólares do país congelando ilegalmente bens depositados no país de Trump. Dinheiro mais do que suficiente para amenizar a carestia que aflige milhões de venezuelanos vitimados pelo boicote econômico de tubarões nacionais e internacionais.

Ninguém tem dúvida de que o objetivo maior é se apossar das reservas de petróleo da Venezuela, as maiores do planeta (o pré-sal brasileiro é o próximo, alguém ignora?).

A farra que antecedeu o governo Chávez foi interrompida bruscamente. O grande capital nunca digeriu isso. Na cabeça dos abutres, a morte de Chávez abriu uma brecha para a volta dos caracazos e submissão obediente a Wall Street.

Como já se disse, faltou combinar com os russos (e os chineses), literal e metaforicamente. Literal, porque Vladimir Putin não assiste passivamente à ofensiva de Trump. Mal ou bem, tratou de reforçar a ajuda militar e econômica ao governo de Maduro. Idem os chineses. Metafórica porque o povo venezuelano se recusa a retornar aos tempos de Carlos Andrés Perez e companhia. A gigantesca manifestação em apoio a Maduro neste sábado fala por si só.

A mídia gorda prefere ressaltar alguns mortos e feridos na tentativa de a coalizão intervencionista invadir a Venezuela sem contar nem sequer com o apoio da OEA, quintal histórico dos EUA. Bem, queriam o quê?

Um presidente eleito de forma legítima – não há país na América Latina que tenha realizado tantas eleições como a Venezuela — tem todo o direito, e o dever, de defender suas fronteiras contra uma agressão disfarçada de “ação humanitária”. De mandar a Colômbia passear enquanto servir de bucha de canhão para os americanos. Maduro não faz outra coisa que não seguir o princípio consagrado internacionalmente de autodeterminação dos povos. Infelizmente, isto supõe sangue escorrendo na calçada.

O governo Maduro certamente tem defeitos, muitos deles produtos do cerco internacional a que foi submetido. A luta pela sobrevivência da democracia e da soberania nacional não é fácil nem simples. Mas isso, no caso, é assunto dos venezuelanos.

É uma galhofa trágica ver gente como Trump, que pretende construir um muro na fronteira com o México, ou Bolsonaros da vida, cercado de milicianos paramilitares, adversários irreversíveis da civilização e da solidariedade, posarem de salvadores do mundo. Tirem as mãos da Venezuela.

Joaquim Xavier
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O fracasso de Guaidó e o desespero do PIG

Viralizou nas redes sociais a foto de Guaidó, Duque (Colômbia), Piñera (Chile) e Almagro (OEA) com expressões decepcionada
A promessa de fazer entrar a "ajuda humanitária" do líder opositor Juan Guaidó, autoproclamado "presidente interino da Venezuela, não foi cumprida, apesar das diferentes tentativas em vários pontos das fronteiras venezuelanas. Os atos opositores na fronteira com a Colômbia provocaram ações violentas e deixaram 49 pessoas feridas, entre elas sete militares. Três pessoas apresentaram ferimentos com queimadura. Não houve registro de mortes nessa região de fronteira com a Colômbia, até o momento. O balanço de feridos foi feito pelo representante do governo nacional no estado fronteiriço de Táchira, Freddy Bernal.

As pontes internacionais Simón Bolívar, Francisco de Paula Santander, em Ureña, e Las Tienditas foram os centros dos protestos opositores, mas também ocorreram distúrbios no centro das cidades fronteiriças de Ureña e San António de Táchira, onde um guarda nacional teve o rosto queimado por um coquetel molotov lançado por simpatizantes de Guaidó.

As rodovias foram cortadas por opositores em vários pontos do estado de Táchira. A Guarda Nacional Bolivariana também fechou algumas estradas e rodovias. O aeroporto de Ureña foi tomado por um grupo opositor, mas depois recuperado pelos militares venezuelanos. No final do dia, o número de militares desertores eram sete, entre eles o major-general Hugo Parra Martínez. No entanto, o governo afirma que essa quantidade de deserção é insignificativa.

Así está el puente Santander este #24Feb. La policía colombiana que ayer daba logística a la guarimba hoy acomoda las cosas y no deja pasar a los encapuchados. Ya los utilizaron, hoy no les sirven, fin del espectáculo. Así es la derecha. #EnVenezuelaLaPazVencerá #FelizDomingo pic.twitter.com/RFqdFn0ITI
— Marco Teruggi (@Marco_Teruggi) 24 de fevereiro de 2019

Do lado colombiano, o número de manifestante opositores em todos os pontos de enfrentamento eram em média entre 300 e mil pessoas. Do lado, venezuelano quem liderou a resistência para impedir a entrada de opositores e militares colombiano foram os civis, das brigadas bolivarianas, uma organização cívico-miltar com treinamento, mas composta por trabalhadores comuns, operários, professores, camponeses. A professora Rubio Godoy, era uma das que estava na frente da defesa da ponte internacional Simón Bolívar. "Nós estamos aqui dispostas a defender nossa pátria com nossa vida se for preciso", afirma a brigadista. Como ela, cerca de 1.500 cidadão ocuparam a ponte. Um carro foi queimado por opositores do lado colombiano. Opositores e defensores do governo Maduro enfrentaram-se por várias horas, com pedras e uso da força física, mas sem uso de armas de fogo.

Já em Las Tienditas, palco da disputa política internacional, se encontrava Juan Guaidó, junto com o presidente colombiano, Ivan Duque e o secretário da Organização de Estados Americanos (OEA), Luis Almagro. As equipes de transmissões dos grandes canais de televisão internacionais também se concentravam nesse ponto. Do lado, venezuelano, na linha fronteiriça da ponte, era possível ouvir a voz do líder opositor Juan Guaidó, que em dois momentos fez discursos inflamados convocando as pessoas a adentrarem à força o território venezuelano. Cerca de 300 pessoas, entre jornalistas e opositores estavam no local. Por volta das 16h, Guaidó anunciou que já não tentariam entrar na Venezuela nesse dia. E, pela noite, afirmou que irá a Bogotá, na segunda-feira (26), para participar da reunião de ministros do grupo de Lima, que reúne 13 países.

Em outro ponto do município de Ureña, poucos quilômetros distante da ponte Las Tienditas, ocorreram protestos na ponte Santander. Três caminhões carretas com ajuda humanitária foram queimados por opositores, segundo apurou a reportagem do Brasil de Fato. Alguns meios de comunicação publicaram a informação dizendo que foram incendiados por militares da Guarda Nacional Bolivariana. No entanto, fotos e relatos de testemunhas mostraram depois que foram os opositores simpatizantes de Guaidó quem realizaram a queima dos caminhões, que não puderam cruzar a fronteira.

Simpatizantes de Guaidó são flagrados queimando caminhão de "ajuda humanitária" 
Foto: Brigadas Bolivarianas

Governo venezuelano rompe relações com a Colômbia

O governo colombiano deu apoio político e militar para o opositor Juan Guaidó, nesse sábado (23), dia que marcou o aniversário de um mês de sua autoproclamação como presidente interino. Depois da série de eventos violentos, o governo da Venezuela informou que rompeu relações diplomáticas com a vizinha Colômbia.

"Governo da República Bolivariana da Venezuela decidiu pela ruptura integral das relações diplomáticas e consulares com o governo da República da Colômbia. Consequentemente, é concedido um período de 24 horas, a partir da publicação deste comunicado à imprensa, para que diplomatas e funcionários consulares colombianos deixem a Venezuela. Durante este período, o Ministério das Relações Exteriores da Venezuela oferecerá todas as facilidades para o cumprimento desta disposição pelos funcionários diplomáticos e consulares colombianos", afirmou o governo de Nicolás Maduro, através de um comunicado.

"Os governos dos EUA e da Colômbia violaram praticamente todos os princípios e propósitos da Carta da ONU, fato que constitui uma provocação inaceitável contra a República Bolivariana da Venezuela, e que coloca a paz nacional e regional em risco", destacou.

Nesse domingo (24), está programado um discurso do presidente da Colômbia, Ivan Duque, na cidade de Cúcuta, próximo à ponte Simón Bolívar.

Fania Rodrigues
No Brasil de Fato



Comentarista da GloboNews disputa com bolsonarista quem xinga mais Maduro: “cleptocrata, incompetente e palhaço”


Eis o correspondente da Globo News em Nova York, Guga Chacra, uma espécie de Wesley Safadão hipster, orgulhoso do jornalismo que pratica:

Guga, como seus colegas de emissora, passou o dia fazendo “análises” da situação na fronteira da Venezuela com o Brasil.

Entenda-se como uma cobertura completamente enviesada, viciada, carente de informações e repleta de pitacos — sem contar os simples xingamentos, como os supracitados.

Chacra, que provavelmente nunca esteve em terras venezuelanas e fala com um grau de conhecimento do assunto à altura do bolsominion da esquina, se jacta de chamar Maduro de “cleptocrata, incompetente e palhaço”.

Parabéns.

Compare com o artigo de Robert Fisk, veterano jornalista britânico que oferece profundidade, complexidade, visão.

Guga Chacra nunca será Fisk, ok. Mas poderia se espelhar em homens como ele.

Não há, na prática, diferença alguma entre esse tipo de simplificação grosseira de Guga e as sandices de Ana Paula do Vôlei, sua interlocutora bolsonarista no Twitter.

Ambas são fruto da mesma indigência intelectual.

Ele, no entanto, acha que é, de alguma forma, superior.

Isso é o mais patético.

Kiko Nogueira
No DCM



Partidários de Guaidó impedem jornalista de TV espanhola de dizer que eles são minoria na Venezuela

A jornalista Anya Parampil relatou no Twitter cena que viu em Caracas no sábado, dia 23.

Acabei de testemunhar os partidários de Guaidó impedirem uma jornalista da @telecinco [canal de TV espanhol] que tentou explicar que a oposição representa a minoria na Venezuela. Ela não conseguiu terminar a reportagem. Esses são os amantes da democracia de Trump.

Agora observe como os oposicionistas se comportam com as câmeras da @globovision. Se esses dois vídeos não convencerem você da guerra da mídia que está sendo travada contra a Venezuela, não sei o que o fará.

A Globovisión, subsidiária da CNN, teve um papel importante na decepção da mídia em torno do golpe fracassado liderado pelos EUA contra Chávez em 2002, recusando-se a mostrar imagens de pessoas nas ruas exigindo seu retorno. 17 anos depois, outro golpe falha e a revolução ainda não será televisionada.




"Lo que están haciendo es inmoral e ilegal"

El músico británico grabó un nuevo video donde muestras las razones por la que Estados Unidos busca el golpe de Estado contra Nicolás Maduro y le exige al presidente Trump y a Juan Guaidó que "saquen las manos de Venezuela".


El músico británico Roger Waters emitió un nuevo video donde se refiere al proceso desestabilizador y golpista que se está desarrollando en Venezuela. En un largo discurso, donde el músico hace un recorrido de la historia de ataques norteamericanos a los gobiernos de Hugo Chávez y Nicolás Maduro, para luego enviar un mensaje a Juan Guaidó y al gobierno de Donald Trump: "Tengo un mensaje para la marioneta y sus dueños de Washington DC: Manos afuera de Venezuela, lo que están haciendo es inmoral e ilegal".

Waters no oculta su respaldo al gobierno bolivariano e incluso intentó hacer comprender a los organizadores del recital Venezuela Aid Live que estaban favoreciendo al golpe de estado que impulsa Estados Unidos.

Ahora, en un nuevo mensaje, el músico relata con mucha sencillez pero con datos cómo los gobiernos estadounidenses buscaron terminar con el gobierno de Chávez en 2002 a través de un fallido golpe. Incluso se refiere a las diferentes sanciones que las administraciones de Barack Obama y Trump impusieron a Venezuela: "Fueron 16 años de sanciones ilegales y draconianas y ha madurado la fruta y que es lo que EEUU pretendía de Venezuela al destruir la economía y alentando la inflación".

En otro tramo del video, Waters afirma que Guaidó, al cruzar a Colombia, "se está encontrando con sus titiriteros que se encuentran al otro lado del puente. Con una gran mentira a través de los aviones norteamericanos de transporte con los que pretenden ser los salvadores, que van a salvar a los venezolanos fruto de la supuesta crisis creada por el actual gobierno. Esto, por supuesto, no tiene ningún sentido y solo buscan lograr aquello que en 2002 no pudieron: un cambio violento".

Por último, Waters asegura que "millones de nosotros apoyamos al pueblo de Venezuela. Somos millones a pesar de lo que lees en los periódicos del mundo. Los queremos" y advierte que "la historia mostrará que el socialismo en Venezuela fue una brillante luz para la manera en que posiblemente podamos organizar la política en el resto del mundo".





Jornalista premiado no mundo inteiro explica a farsa estadunidense


O jornalista John Pilger, premiado internacionalmente, publicou um artigo no Counterpunch onde explica as sucessivas razões para tentar derrubar o governo venezuelano desde a eleição de Gugo Chávez, já falecido, até o atua presidente Nicolás Maduro. "Toda grande reforma chavista foi votada, nomeadamente uma nova constituição, que 71% dos venezuelanos aprovaram — cada um dos 396 artigos consagrando liberdades inéditas, como o artigo 123, que pela primeira vez reconheceu os direitos humanos dos mestiços e negros", destaca Pilger. Segundo ele, "isto incomodou aqueles que hoje vivem nos bairros chiques, nas mansões e penthouses do leste de Caracas, que se deslocam para Miami, onde se consideram "brancos". Eles são o núcleo poderoso do que a mídia chama de "oposição", ressalta.

"Embora a política identitária ocupe espaço nas páginas de jornais liberais do Ocidente, raça e classe são duas palavras quase nunca proferidas na "cobertura" mentirosa da mais recente tentativa de Washington de agarrar a maior fonte mundial de petróleo e recuperar o seu 'quintal'", avalia.

Para ele, "apesar de todas as falhas dos chavistas — como permitir que a economia venezuelana continuasse refém das fortunas do petróleo, nunca seriamente desafiando a desigualdade estrutural e a corrupção — houve justiça social para milhões de pessoas e isso foi feito com democracia sem precedentes".

Pilger observa, porém, que "desde a morte de Chávez, em 2013, seu sucessor, Nicolas Maduro, apareceu na imprensa ocidental como o "ex-motorista de ônibus" que se tornou encarnação de Saddam Hussein". "No entanto, como o jornalista e cineasta Pablo Navarrete relatou esta semana, a Venezuela não é a catástrofe que foi pintada", completa.

"Como uma página da festa do chá de Alice no País das Maravilhas, o governo Trump agora apresenta Juan Guaidó, uma criação pop do National Endowment for Democracy e da CIA, como o 'Presidente legítimo da Venezuela'", mas "para 81% do povo venezuelano, segundo The Nation, Guaidó não foi eleito por ninguém".

O jornalista relembra, ainda que "como seu "enviado especial à Venezuela", Trump nomeou um criminoso condenado, Elliot Abrams, cujas intrigas a serviço dos presidentes Reagan e George W. Bush ajudaram a produzir o escândalo Irã-Contra na década de 1980 e a mergulhar a América Central em anos de miséria encharcada de sangue".

"Caso Guaidó e seus supremacistas brancos tomem o poder, será a 68ª derrubada de um governo soberano pelos Estados Unidos, a maioria deles democracias", afirma.

Leia a íntegra no Counterpunch.
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