15 de fev de 2019

Um ministro de R$ 20 milhões!

Ele vale Gold, quer dizer ouro...


O Conversa Afiada extrai da Crusoé trechos reveladores da fortuna do Ministrário Gilmar Mendes e sua mulher, advogada de escol:


Crusoé fez um amplo levantamento do patrimônio de Gilmar Mendes e de sua mulher, Guiomar Feitosa. Entre cotas e dividendos das empresas de que são sócios, imóveis urbanos e propriedades rurais, a conta passa das duas dezenas de milhões de reais. Sucessivos empréstimos, no Brasil e no exterior, bancam a constante expansão da fortuna da família

Mas por que, afinal, o patrimônio de Gilmar Mendes e Guiomar Feitosa chamou a atenção (da Receita Federal)?

Ao menos uma parte da resposta para essa pergunta está em um levantamento minucioso feito por Crusoé a partir de informações públicas, como registros de transações imobiliárias, escrituras e contratos formalizados em cartórios do Brasil e do exterior. Casados em regime de separação de bens, Gilmar e Guiomar são donos de um vasto patrimônio, que inclui casas, apartamentos, fazendas e rebanhos de gado. Também são destinatários de vultosos pagamentos – ele, como sócio do IDP, o instituto de direito do qual é proprietário, e ela, como sócia de um escritório de advocacia estrelado com sede no Rio de Janeiro. São, ainda, tomadores de sucessivos empréstimos, no Brasil e na Europa, que justificam a constante ampliação do patrimônio da família — que, em uma conta bastante conservadora, ultrapassa a casa dos 20 milhões de reais.

Um dos imóveis adquiridos pelo casal é um apartamento de 137 metros quadrados e nove cômodos situado em uma das regiões mais nobres do centro de Lisboa, a capital de Portugal. Uma das cinco unidades de um prédio construído no século 19 e recém-reformado no Príncipe Real, área que virou objeto de desejo de milionários, o imóvel foi comprado pelo casal há pouco mais de dois anos. O contrato, assinado por Gilmar e Guiomar, registra que o negócio foi fechado por 550 mil euros – hoje, de acordo com estimativa de especialistas ouvidos por Crusoé, apartamentos similares na mesma região chegam a custar 1 milhão de euros (cerca de 4,2 milhões de reais).

O apartamento foi comprado pelos Mendes de um outro brasileiro, Márcio Corrêa da Silva, que havia adquirido o imóvel cinco meses antes por 500 mil euros. De acordo com os registros oficiais, do valor que Gilmar e Guiomar pagaram pela unidade, 350 mil euros foram financiados junto a uma agência do Santander em Portugal – o casal é titular de uma conta conjunta em uma agência do banco em Lisboa. Não há informações no contrato sobre a forma utilizada pelo casal para pagar os 200 mil euros restantes (algo próximo a 600 mil reais em valores da época) restantes. Em Portugal, a aquisição de imóveis acima de meio milhão de euros – como é o caso do apartamento adquirido pelo casal – dá direito ao chamado visto gold, que permite residência permanente no país.

(...)

Gilmar Mendes é a grande estrela da família. Dono de faculdade e um dos mais influentes ministros do Supremo, ele concentra seu patrimônio sobretudo em Brasília e Diamantino, sua cidade natal, em Mato Grosso. Mas boa parte do dinheiro (e dos bens) do casal vem de sua mulher, a advogada Guiomar Mendes. De família rica com negócios no Ceará, ela é sócia de uma das bancas mais requisitadas (e caras) do Rio de Janeiro, a do advogado Sergio Bermudes. Documentos obtidos por Crusoé mostram que Guiomar recebe cerca de 280 mil reais por mês do escritório.

Ex-assessora em gabinetes de tribunais superiores em Brasília, Guiomar alcançou o sucesso na carreira depois do casamento com Gilmar, com quem, a despeito do casamento em regime de separação de bens, costuma compartilhar diversos negócios. A advogada declarou a polpuda renda de 268 mil reais em 2017, ao pedir um empréstimo de 1 milhão de reais à Caixa. O dinheiro seria usado para comprar uma casa no Lago Norte, em Brasília. Valor total do negócio: 1,4 milhão de reais. Era um plano de expansão da área onde o casal já tem uma casa, às margens do Lago Paranoá, com jardins bem cuidados que abrigam emas, lembrando os gramados extensos do presidencial Palácio da Alvorada. A mulher do ministro tem, ainda, outros 3 milhões de reais, em valor de mercado, em imóveis localizados na parte sul da cidade. São duas salas comerciais pequenas, com cerca de 30 metros quadrados cada, em áreas nobres de Brasília. É proprietária também de um flat, de valor estimado em 400 mil reais, e uma casa no Lago Sul, onde um imóvel vale pelo menos 1,6 milhões de reais.
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O herói do bolsonarismo


Pode-se dizer várias coisas a respeito da eleição de Bolsonaro. Mas não que foi normal, que decorreu de fenômenos naturais na democracia. Ao contrário, foi uma vitória eleitoral artificial, fruto de intervenções ilegítimas e manipulações, que maculam o mandato que dela proveio. Há vícios de origem na ascensão de Bolsonaro, na disputa eleitoral que travou e no governo vergonhoso que, nominalmente, chefia.

Um dia, quem sabe, ele resolve contar como ganhou a eleição. Não que seja grande a esperança de que essa data chegue, considerando seu histórico de falsificações. Mas pode acontecer. Afinal, não é ele que repete que não tem papas na língua, que fala tudo?

Seria bom que falasse, para ajudar o País a entender o que aconteceu na eleição, especialmente em seu momento decisivo, os dez dias que antecederam o primeiro turno. Aquela reta final permanece um mistério: depois de Fernando Haddad quase empatar com ele, abriu-se entre os dois uma grande distância, tão expressiva que, apesar do crescimento de Haddad no segundo turno, terminou sendo ele o vencedor. Ninguém melhor que o próprio Bolsonaro para explicar o que ocorreu e qual o principal responsável pela mudança, pelo menos a seu ver.

Conhecendo um pouco os bolsonaristas, é certo que, na hora em que fosse feito o anúncio de que o nome do herói seria revelado, eles entrariam em alvoroço. Todos iriam querer ser o indicado.

Sérgio Moro, por exemplo, ficaria se roendo. Imaginaria que ninguém mais que ele tem motivos para receber a distinção. E não estaria errado. Sem sua atuação, Bolsonaro teria tido que enfrentar Lula. Qualquer um é capaz de imaginar o resultado.

E os militares que mandam em Bolsonaro? Poderiam responder a Moro que, sem eles, de nada teria adiantado forçar a barra, pois seria natural a revisão de suas decisões pelas instâncias superiores do Judiciário. Quem tinha bala para obrigar o STF e o STJ a engolir a pílula eram as Forças Armadas.

Os empresários da mídia e do mercado financeiro não teriam dúvidas de que seriam eles que receberiam o reconhecimento do capitão. Torceram tanto, há tanto tempo, soltaram tantos foguetes quando o resultado saiu, que têm o direito de se sentir como mães do governo. Sem a atuação cotidiana de seus veículos para criar um quadro de opiniões favoráveis a Bolsonaro e sem seu endosso, ele não sairia do subúrbio.

Um personagem hoje esquecido talvez achasse, emocionado, que Bolsonaro iria finalmente reconhecê-lo. A turma do "baixo bolsonarismo", os anônimos que vestiram camisetas toscas enaltecendo o "mito", que foram fazer guerrilha na internet sem sequer saber se expressar, estaria certa de que o lugar era dela.

Nada disso. Na hora em que Bolsonaro revelasse o verdadeiro herói de sua eleição, nenhum desses seria o agraciado. Nem Moro, nem militares, nem banqueiros, nem a ralé bolsonarista. Naqueles dez dias finais, tudo que esses podiam fazer já estava feito. E revelava-se insuficiente: Haddad permanecia favorito.

Foi aí que o verdadeiro herói da eleição de Bolsonaro entrou em campo. Ninguém sabe seu nome, onde mora, em que trabalha. Ninguém sabe sequer se é uma ou mais de uma pessoa.

Para prestigiá-lo, Bolsonaro pode escolher o símbolo de sua campanha: a mamadeira de piroca. E anunciar o herói: o inventor da mamadeira, que inventou também que Haddad era o criador. Através dele, homenageia outros, que inundaram a internet com postagens semelhantes, freneticamente reproduzidas através do WhatsApp e destinadas a públicos bem identificados: a baixa classe média conservadora e religiosa, particularmente evangélica.

Foi esse soldado desconhecido que deu a Bolsonaro a eleição. A golpes de mamadeira, transformou Haddad em alguém tão amoral que Bolsonaro se tornou palatável.

Com as pesquisas disponíveis, é possível fazer um exercício: se o eleitorado evangélico chegasse à véspera da eleição do mesmo modo que estava dez dias antes, ela terminaria empatada e os dois iriam para o segundo turno em pé de igualdade. Sem enganar pessoas simples, Bolsonaro e os interesses que representa teriam morrido na praia.

Honra ao mérito: o criador da mamadeira de piroca é o herói de todos eles. Em seu louvor, podem construir-lhe um monumento. Seria impagável ver Moro, os generais e os banqueiros, engalanados e circunspectos, cantando o hino nacional e prestando-lhe continência.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
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País sofre derrota dupla com a manutenção de Bebianno no Governo

Bebianno e Bolsonaro; suspeita de corrupção e ambiente tóxico

(Atualizando: O presidente Jair Bolsonaro (PSL) decidiu exonerar nesta sexta-feira (15) o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gustavo Bebianno. 

Bolsonaro optou por demitir Bebianno após uma reunião com outros ministros. A decisão será publicada no Diário Oficial da União desta próxima segunda-feira (18) e ocorre depois que Bebianno vazou áudios privados de Bolsonaro para veículos de imprensa.)

Bebianno havia afirmou ainda nesta sexta que não sabia se continuaria no cargo ou não. Além disso, deixou claro que não havia nenhum tipo de crise envolvendo ele e o presidente.

O ex-presidente Fernando Henrique foi ao Twitter na manhã desta sexta para falar sobre os primeiros 45 dias do governo Bolsonaro.

“Início de governo é desordenado”, escreveu. “O atual está abusando”.

Abusando e mais um pouco.

O que Jair Bolsonaro está conseguindo é um fato inédito no mundo: colocar um país inteiro para defender um suspeito de grossa corrupção como o secretário-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno.

Segundo a Folha, Bebianno autorizou o repasse de R$ 250 mil do fundo eleitoral para a candidatura de uma ex-assessora — esta, por sua vez, justificou o uso de parte deste dinheiro com notas fiscais de uma gráfica que seria de fachada.

O secretário-Geral da Presidência também teria autorizado os repasses de R$ 400 mil para uma suposta candidata laranja apoiada pelo atual presidente nacional do PSL e deputado federal por Pernambuco, Luciano Bivar.

Nada disso, porém, incomodou mais a opinião pública e o meio político que a forma atrapalhada e truculenta como o presidente lidou com as denúncias.

Do leito do hospital, tramou com o filho Carlos uma operação Tabajara para fritar o subordinado e forçar a sua demissão.

Bebianno fez como Paulo Preto, em São Paulo, quando o ex-diretor da Dersa se viu abandonado por Serra por conta das denúncias de desvio de recursos da estatal e transferência para a Suíça.

“Não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada”, ameaçou o ex operador tucano. “Não cometam esse erro”.

Se funcionou com Paulo Preto, por que haveria de ser diferente com Bebianno?

Bastaram duas ou três ameaças de contar tudo o que sabe para que o capitão da reserva decidisse, entre Carlos, o filho, e o auxiliar, quem seguiria dando as cartas no Planalto.

Bebianno venceu, mas o Brasil perdeu duas vezes.

Porque a manutenção de um suspeito de corrupção dentro do núcleo duro do poder é tão nociva quanto o ambiente tóxico imposto ao país por Bolsonaro e seus filhos.

José Cássio
No DCM
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Rogério Marinho, mais um tucano intocável

Ele
Responsável pelo texto-base da reforma da Previdência que será enviado ao Congresso Nacional após a análise final do presidente Jair Bolsonaro (PSL), o ex-deputado federal do Rio Grande do Norte e atual secretário especial de Previdência e Trabalho Rogério Marinho (PSDB) é investigado em quatro inquéritos e ainda espera pela decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a quinta denúncia já apresentada pelo Ministério Público.

As investigações contra o potiguar vão de corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro, crime contra a ordem tributária e falsidade ideológica.

Ele ainda não é réu em nenhum dos inquéritos.

Parte das investigações permanece no STF e algumas já desceram para o tribunal de origem no Estado, como a acusação de que Marinho “contratou” funcionários fantasmas para trabalhar na Câmara Municipal de Natal, na época em que ele presidia a Casa, em 2007.

Apesar da extensa ficha, o ex-deputado segue protegido pela mídia tradicional.

A explicação passa pelos interesses corporativos e econômicos de grandes empresas.

Relator da Reforma Trabalhista que alterou mais de 100 artigos da CLT e retirou direitos conquistados pelos trabalhadores desde o governo do ex-presidente Getúlio Vargas, Rogério Marinho ganhou a simpatia e confiança de grandes empresários, muitos ligados à Federação das Indústrias de São Paulo.

Prova dessa “gratidão” foi a generosa contribuição financeira de empresários na campanha eleitoral do tucano no Rio Grande do Norte, a segunda mais cara entre os candidatos a deputados federais, com receitas declaradas ao Tribunal Regional Eleitoral de R$ 1,8 milhão.

Entre os doadores estavam os donos das lojas Riachuelo, Centauro, Polishop, Localiza, Drogasil, Habib’s e Magazine Luíza, entre outros.

A campanha de Marinho só perdeu em arrecadação para o deputado federal João Maia (PR), cujas receitas chegaram a R$ 2,4 milhões.

Adorado pelos empresários, rejeitado pelos trabalhadores. Apesar da rica campanha, o tucano foi apenas o 12º candidato mais votado, ficando na 2ª suplência, e não fosse o ministro da Economia Paulo Guedes para lhe estender a mão, era mais um desempregado no país.

Assim como já aconteceu na Reforma Trabalhista, a mídia tradicional puxada pelas Organizações Globo está defendendo a ferro e fogo as mudanças previdenciárias que o governo Bolsonaro pretende aprovar no Congresso Nacional.

De aliados declarados, Bolsonaro tem os presidentes da Câmara Federal Rodrigo Maia e do Senado David Alcolumbre, ambos do DEM, que já anunciaram apoio irrestrito e empenho pessoal para conquistar os votos dos deputados e senadores nas duas Casas.

Os discursos dão a medida da violência da Reforma. Semana passada, em entrevista a Globo News, Rodrigo Maia disse que “todo mundo consegue trabalhar até os 80 anos”.

Maia e Alcolumbre serão, na verdade, facilitadores para Rogério Marinho. Logo que confirmou o nome do tucano potiguar na secretaria da Previdência, Paulo Guedes disse que o ex-deputado federal do Rio Grande do Norte havia feito um ótimo trabalho de articulação junto aos congressistas para aprovar a pauta trabalhista, o mais duro golpe desferido contra os trabalhadores e trabalhadoras do país.

Logo, a exposição das investigações que pairam contra Rogério Marinho arranharia a imagem da reforma da Previdência.

Mas o silêncio da mídia será recompensado. O Governo Bolsonaro está finalizando uma campanha publicitária em defesa da Reforma que começará a ser veiculada assim que o texto-base coordenado por Rogério Marinho passar pelo crivo de Bolsonaro.

 Campanha publicitária significa dinheiro na conta das grandes agências e empresas de comunicação do país.

Segundo dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação pelo portal Congresso em Foco, só o governo Temer gastou R$ 110 milhões em campanhas sobre a Reforma da Previdência durante 14 meses, entre janeiro de 2017 e fevereiro de 2018.

O dinheiro é proporcional à boa vontade da imprensa.

Levantamento realizado pela Repórter Brasil em abril de 2017 mostrou que os veículos das organizações Globo foram os menos críticos: 91% do tempo dedicado ao tema pela TV Globo e 90% dos textos publicados no jornal O Globo foram alinhados à proposta do Palácio do Planalto. Nos impressos O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, 87% e 83% dos conteúdos foram positivos. O Jornal da Record foi o mais equilibrado, com 62% do tempo sendo favorável à Reforma.

Com o governo Bolsonaro alinhado à emissora de Edir Macêdo e buscando trégua com a Rede Globo e outros veículos em razão das denúncias de corrupção envolvendo Flávio Bolsonaro e o PSL na campanha eleitoral não é difícil prever que o bolo publicitário vai crescer ainda mais para vender uma reforma da previdência dos sonhos.

Já se sabe que as medidas de Bolsonaro terão um impacto ainda maior sobre os aposentados do que a reforma de Temer com um efeito ainda mais devastador para o país.

Com o currículo que tem, não foi à toa que chamaram Rogério Marinho para fazer o serviço.

O que dizem os inquéritos e a denúncia que envolvem Rogério Marinho

Confira quais inquéritos foram abertos contra o deputado federal Rogério Marinho e o que diz cada investigação:

Inquérito 3026

Investiga se houve superfaturamento de obras realizadas na época em que Rogério Marinho foi presidente da Câmara Municipal de Natal

Inquérito 3386

Investiga se existem laranjas nas empresas dele na época Câmara Municipal. Uma dessas empresas, a Preservice, é acusada de coagir funcionários demitidos a renunciar às verbas rescisórias e a devolver a multa do FGTS. Através das fraudes, segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), a empresa se apropriou ilegalmente de R$ 338 mil devidos a mais de 150 trabalhadores.

Inquérito 4474

Investiga convênios efetuados quando Rogério Marinho era presidente da Federação das Câmaras Municipais do Rio Grande do Norte

Inquérito 4484

Rogério Marinho é acusado de contratar funcionários fantasmas pela Câmara Municipal de Natal, mas que na realidade davam expediente numa clínica particular de propriedade do parlamentar ou na sede da Federação das Câmaras Municipais do RN (Fecam) para atender a interesses de correligionários. O ministro Dias Toffoli autorizou o retorno do processo para o Tribunal de Justiça e o inquérito está sob a responsabilidade do juiz Ivanaldo Bezerra.

Denúncia

O Ministério Público Federal pediu abertura de inquérito contra Rogério Marinho por indícios de crimes praticados na campanha para a prefeitura de Natal em 2012. Segundo a denúncia, há indícios de caixa 2 e de participação de Marinho nos crimes de falsidade ideológica, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O relator deste processo é o ministro Gilmar Mendes.

Rafael Duarte
No Saiba Mais
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Presa a mulher que ajudou os donos da Globo a se livrarem de um processo por crime de sonegação

Cristina, de costas, José Roberto, Roberto Irineu e João Roberto Marinho
A Divisão de Captura da Polícia Civil do Rio de Janeiro postou em sua página no Facebook a foto de uma mulher de costas com vestido de oncinha, e registrou que se trata de uma condenada por inserir dados falsos em sistema de informação (artigo 313-A do Código Penal).

Seria apenas mais registro de rotina — prisão de uma condenada pela Justiça — não fosse a mulher a detentora de segredos que podem abalar a Rede Globo.

A presa é Cristina Maris Ribeiro da Silva, que também assina Cristina Maris Meinick Ribeiro, a mulher que deu sumiço no processo da Receita Federal em que os donos da Globo são denunciados por sonegação fiscal.

O crime é de doze anos atrás, e ela chegou a permanecer presa na época por três meses, mas foi colocada em liberdade através de um habeas corpus concedido pelo ministro Gilmar Mendes.

Os donos da Globo nunca responderam pela acusação de sonegação nem foram chamados para depoimento no caso do sumiço do processo, em que os maiores beneficiados foram eles.

Se o processo não tivesse desaparecido, a denúncia seria encaminhada à Procuradoria da República, à qual caberia a iniciativa de pedir a abertura de processo criminal.

Cristina impediu que isso acontecesse quando, no dia 2 de janeiro de 2007, interrompeu suas férias para ir à delegacia da Receita Federal onde estava o processo.

Ela levava uma bolsa vazia quando entrou e, ao sair, a bolsa estava cheia, conforme registraram as câmeras de segurança.

Cristina levava na bagagem os três volumes do processo. Denunciada, respondeu a uma sindicância e, mais tarde, por ordem da Justiça, foi presa preventivamente.

Solta, voltou a morar no apartamento de um andar, na avenida Atlântica, em Copacabana, avaliado em 4 milhões de reais.

Sempre que prestou depoimento, disse não se lembrar por que deu sumiço nos processo da Globo.

Seus advogados alegavam que o esquecimento era em razão de forte estresse emocional.

A investigação da Receita revelou que a Globo não foi a única empresa beneficiada pela ação criminosa dela.

Funcionária de baixo escalão da Receita, tinha sob sua responsabilidade digitar dados no Comprot, o sistema informatizado que registra os dados dos processos em tramitação na Receita.

Ela não tinha poderes para criar novos processos, mas podia modificá-los. Num processo em que um taxista carioca pedia isenção do IPI para  um carro novo, ela mudou os dados da ação. Tirou o nome do taxista, João Pereira da Silva, e colocou o da empresa Cor e Sabor Distribuidora de Alimentos Ltda.

Também alterou a natureza do processo. Em vez da isenção de IPI, passou a constar crédito tributário para a empresa.

A Cor e Sabor Distribuidora de Alimentos, que era a maior fornecedora de quentinhas para os presídios do Estado do Rio de Janeiro, obteve assim declaração de compensação tributária e, em consequência, a certidão negativa de débito, necessária para celebrar contratos com o poder público.

Depois de cinco anos, a homologação da compensação se tornou automática, ainda que o processo físico nunca tivesse existido, e as informações colocadas no sistema fossem fictícias.

Em outro processo, uma pequena empresa, a Ótica 21, pediu seu reenquadramento no Simples, mas, com a inserção de dados falsos, se transformou num caso de compensação tributária em favor da Cipa Industrial de Produtos alimentares Ltda., dona da marca Mabel.

Muitas outras grandes empresas foram beneficiadas, como a Megadata, que faz parte do grupo Ibope.

Cristina também conseguia emitir novos CPFs para pessoas com nomes sujos na praça.

Todos esses processos andaram e levaram à prisão de Cristina, mas o caso da Globo ficou pela metade.

Cristina respondeu pelo desaparecimento do processo, mas o caso não identifica nem responsabiliza o mandante. 

A troco de que ela cometeu o crime? Por quê? Ela nunca explicou.

O processo desaparecido revelava sonegação da Globo no valor de mais de 600 milhões de reais, em valores da época, decorrentes da fraude que permitiu ao grupo comprar os direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002 sem recolher impostos no Brasil.

Presa mais uma vez, agora pela condenação judicial, Cristina talvez recobre a memória e diga de uma vez por todas por que e a mando de quem resolveu ajudar os donos da Globo — Roberto Irineu Marinho, João Roberto Marinho e José Roberto Marinho — a se livrarem de uma acusação por crime contra a ordem tributária.

Joaquim de Carvalho
No DCM

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Chefão do PSL, Bivar contratou empresa do filho para a campanha


O presidente nacional do PSL, deputado federal Luciano Bivar (PE) utilizou R$ 250 mil do fundo eleitoral para contratar a empresa Nox Entretenimentos, pertencente Cristiano de Petribu Bivar, um de seus filhos, durante a campanha eleitoral do ano passado. O gasto com a Nox foi o segundo maior da campanha de Bivar nas eleições de 2018.

De acordo com o blog do jornalista Fausto Macedo, do jornal O Estado de S. Paulo, a contratação da empresa, que está sedada em Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife, já é alvo da Procuradoria Eleitoral de Pernambuco. Na prestação de contas da campanha, o procurador Francisco Machado Teixeira aprovou as contas com ressalvas e destacou a necessidade de uma investigação para apurar o possível desvio de finalidade com a contratação.

"Foram realizadas despesas com fornecedores de campanha que possuem relação de parentesco com o prestador de contas, o que pode indicar desvio de finalidade. O Ministério Público Eleitoral informa que extrairá cópia dos autos para investigação dos fatos", ressaltou a Procuradoria.

A suspeita de irregularidades na contratação da empresa do filho do deputado joga mais lenha na fogueira da crise política do governo Jair Bolsonaro, que vem sendo alvo de denúncias pelo suposto uso de recursos do fundo eleitoral público para montar uma série de candidaturas laranjas em Pernambuco e Minas Gerais.

Na época da contratação, o responsável pela distribuição dos fundos eleitorais era o netão presidente do partido e atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno.

Durante o período eleitoral, a Nox teria sido contratada para produzir vídeos para a campanha de Bivar. Ainda segundo a reportagem, o telefone da empresa que consta na Receita Federal é o mesmo do escritório recifense de advocacia Rueda e Rueda, que tem como um dos sócios o advogado Antonio Rueda, que exerceu a presidência do PSL estadual no período eleitoral. O filho do parlamentar também é sócio da Mitra Participações, que aluga salas para o diretório do PSL na capital pernambucana.

Por meio de nota, Luciano Bivar alegou que a contratação da Bivar afirmou, via assessoria, que a contratação da Nox se "deveu ao fato de ela ter oferecido o menor preço para produzir os vídeos da campanha" e que está "tudo perfeitamente legalizado".
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Deputado nazi propõe doação compulsória de órgãos


Deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), que ficou famoso ao rasgar placa em homenagem a Marielle, propôs doar compulsoriamente órgãos e tecidos de mortos por policiais e de cadáveres com indício de morte por ação criminosa.

“Inaceitável” e “reedição do nazismo” foram avaliações de especialistas na área de direitos humanos consultados por Fórum sobre projetos de lei do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) prevendo a doação compulsória de órgãos. O parlamentar, que ficou famoso ao rasgar placa em homenagem à vereadora do PSOL Marielle Franco, propôs doar compulsoriamente órgãos e tecidos de mortos em confronto com policiais e de cadáveres com indício de morte por ação criminosa.

“Isso é inaceitável. Vai gerar mortes encomendadas de pessoas pobres, jovens, moradores da periferia. Alguém precisa de um fígado, um rim ou um coração vai contratar policiais pra matarem alguém. É um estímulo à violência da polícia, tipo ‘salve uma pessoa de bem matando um bandido’”, disse à Fórum o advogado Ariel de Castro Alves, especialista em direitos humanos pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos do estado.

O advogado destacou, ainda, o desvirtuamento de um tema importante como a doação de órgãos. “A doação de órgãos não é compulsória. Depende da manifestação da pessoa em vida e do consentimento da família. Os corpos dos mortos, independente quem for, não são do estado, e sim dos seus familiares”, afirmou.

Afirmou, ainda, que os projetos ferem vários princípios constitucionais, como o da dignidade da pessoa humana, da liberdade e da inviolabilidade da intimidade, vida privada e da imagem das pessoas. Além disso, Ariel lembrou a existência do Decreto Lei 2.848 de 1940, que prevê pena de detenção de um a três anos e multa por vilipêndio de cadáver.

“Essa proposta é totalmente inconstitucional e ilegal. Uma aberração total. Mais um parlamentar que quer se promover com propostas absurdas e grotescas. Infelizmente esse tipo de parlamentar tem público e respaldo desse governo constrangedor, leviano e vergonhoso”, lamentou.

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Até quando Catilina...

Damares sugere que pais e mães de meninas fujam do Brasil


A ministra disse, ainda, que o governo estuda trabalhar por uma lei para aumento de pena quando o sacerdote comete abuso sexual. Ela pregou uma 'revolução cultural', com meninos dando flores e volta dos 'bailinhos'

Em entrevista ao Jornal da Manhã da rádio Jovem Pan João Pessoa, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, disse que, se pudesse aconselhar pais e mães de meninas, sugeriria que “fugissem” do Brasil. A ministra disse, ainda, que o governo estuda trabalhar por uma lei para aumento de pena quando o sacerdote comete abuso sexual.

“Agora, a gente recebeu uma pesquisa que o país é o pior da América do Sul para criar menina. Se eu tivesse que dar um conselho para quem é mãe de menina, pai de menina, seria ‘foge do Brasil’”, declarou a ministra. Ela disse que um dos principais problemas é o abuso sexual de meninas e mulheres e propôs o aumento das penas como uma das soluções.

“Estamos nos deparando com muitos casos de sacerdotes abusando de mulheres. Estamos querendo rever a legislação. Quando essa pessoa é um sacerdote, aumentar a pena dele. Mas acredito que não é só repressão. Tem que começar lá na escola”, afirmou.

A ministra reduziu a questão do machismo a uma suposta falta de cavalheirismo e perda de valores conservadores, pregando uma “revolução cultural”. Ela sugeriu que meninos levem flores para as meninas e o retorno dos antigos ‘bailinhos’.

“Já pensou a gente fazendo uma grande campanha nacional para os meninos levarem flores? Os namorados não estão dando mais flores. Já pensou a gente fazer os antigos bailezinhos? O que nós vemos com os meninos de 12 anos? Um baile extremamente sensual em que a menina é consumida. Alguns valores foram perdidos. Ensinar os meninos a abrirem a porta do carro para mulher. Ensinar os maridos a levar presentes, flores”, disse a ministra.

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Desconstruindo Maria Bonita (e os cangaceiros)

"Uma visão romântica do cangaço não é compatível com um momento em que discutimos feminicídio", diz biógrafa da mulher de Lampião

Maria Bonita em cena do filme de Benjamin Abrahão

A série da Rede Globo que eternizou, em 1982, a imagem de Maria Bonita para a geração que hoje está com mais de 40 anos, trazia a mulher de Lampião como uma sertaneja coquete, sexy, ciumenta e que atirava de pistola nos “macacos” da polícia, lado a lado com os homens do bando. Era a mesma época em que programas como Malu Mulher e TV Mulher desafiavam a censura do fim da ditadura militar falando em divórcio, sexo e feminismo. A Maria Bonita de Tânia Alves tinha tudo a ver com a nova mulher brasileira que nascia com a redemocratização.

Nas imagens em preto e branco feitas pelo fotógrafo sírio Benjamin Abrahão entre 1936 e 1937, Maria Bonita (que aliás só ganharia este nome após se tornar uma lenda) surge como uma moça brejeira e algo tímida, mas com um semblante maroto, e esposa dedicada do cangaceiro, a quem serve água do cantil e penteia os cabelos lustrados com brilhantina.



Maria de Déa foi, na verdade, uma das poucas mulheres do cangaço a escolher aquela vida errante sob o sol do sertão. Na biografia de Maria Bonita escrita pela jornalista Adriana Negreiros, se está longe de ser a pioneira do feminismo que tantos pintaram, Maria Bonita é uma mulher “arretada” que foge dos maus tratos do marido para seguir Lampião, movida pelo desejo de aventura e pelo amor a Virgulino.

Bem ao contrário de suas contemporâneas de cangaço, que se assemelham a vítimas de Síndrome de Estocolmo, afeiçoando-se aos sequestradores e estupradores que se tornariam seus companheiros. Libertam-se de pais e irmãos opressores, é verdade, mas se dobram ao jugo dos amantes cangaceiros e são, no fundo, tão invisibilizadas quanto suas mães e avós: nas notícias sobre o bando de Lampião, os cronistas dedicam parcas linhas às mulheres, preocupando-se mais em descrever (e menosprezar) sua aparência.

Os cronistas pouco se interessariam pelas mulheres. Sobre Maria Bonita, um escritor comentou que tinha 'mãos de unhas sujas, descuidadas' e o 'semblante sem a beleza de um sorriso meigo'. Como acontece hoje, as mulheres eram reduzidas à aparência

“As cangaceiras eram submetidas à mesma lógica que aprisiona as mulheres na vida privada (no caso delas, os coitos, onde se escondiam da polícia e realizavam tarefas domésticas convencionais, como cozinhar e costurar), ao passo que aos homens era destinada a vida pública, o espetáculo”, afirma Adriana. Dadá, a mulher de Corisco, é o caso mais evidente de sequestrada que se liga emocionalmente ao sequestrador: aos 12 anos, foi deflorada pelo cangaceiro e trazida para o convívio no bando anos mais tarde, quando Lampião se une a Maria Bonita e abre a possibilidade de os cabras terem companheiras.

Lampião também se dedicava à costura e ao bordado de suas roupas e acessórios, como revelou o historiador Frederico Pernambucano de Mello em Estrela de Couro: A Estética do Cangaço – o que não significa, para a biógrafa, que os cangaceiros dividissem as tarefas domésticas. Mas é fato que o “rei do cangaço” costurava e bordava à máquina, com perfeição, seus bornais coloridos, cinturões, as capas dos cantis, seu chapéu de couro… Lampião teria inclusive alcançado alguma fama como alfaiate de couro antes de entrar para o cangaço.


Lampião na máquina Singer. 
Foto: Benjamin Abrahão

“No sertão do começo do século 20, o manejo de linhas e agulhas não era uma atividade exclusivamente feminina. Os vaqueiros produziam os próprios gibões e chapéus e primavam pela beleza, além do aspecto utilitário da indumentária. Cangaceiros também se dedicavam à produção de seus trajes – mais do que simples vestimentas, verdadeiros uniformes de guerra. Se Lampião apreciara o bordado de Dadá era porque dominava o assunto e sabia reconhecer a sofisticação de uma trama. Entre os sertanejos, costurar e bordar não era ocupação que denunciasse pouca macheza”, conta Adriana no livro.

A vida familiar no cangaço era sofrida, o que não transparece nas imagens feitas por Abrahão, com as mulheres atirando e se divertindo a valer diante da câmera. Na realidade, de acordo com a jornalista, Maria Bonita não participava das ações do bando, assim como a maior parte das cangaceiras – ao que consta, Dadá era a única mulher a carregar um fuzil. “Raras foram as bandoleiras que pegaram em armas. Ao contrário do que propõe uma visão romanceada do cangaço, as mulheres não participavam dos combates”, diz. Apesar de ter sido aparentemente feliz ao lado do amado, Maria foi obrigada, como as demais, a dar à adoção sua filha, Expedita.

Leia abaixo a entrevista com a biógrafa de Maria Bonita. De bônus, o documentário Feminino Cangaço, de Lucas Viana e Manoel Neto, do Centro de Estudos Euclydes da Cunha, sobre a presença das mulheres entre os cangaceiros.


Socialista Morena – Percebi que você teve muita dificuldade em encontrar informações sobre Maria Bonita. As cangaceiras foram invisibilizadas pelos cronistas da época?

Adriana Negreiros – Sim. Os cronistas da época mal se referiam às mulheres. A presença das cangaceiras só começou a ser noticiada mais de um ano depois do ingresso delas no bando – e, ainda assim, de maneira bastante fantasiosa. As primeiras notícias davam conta de que as moças – ou meninas, porque algumas delas tinham 11, 12 anos – compunham um harém de Lampião. Posteriormente, quando a dinâmica no interior do bando começou a se mostrar mais clara (com casais em relação tradicionais), os cronistas pouco se interessariam pelas mulheres. Quando muito, referiam-se à sua aparência. Sobre Maria de Déa (a futura Maria Bonita), um escritor comentou que tinha ‘mãos de unhas sujas, descuidadas’ e o ‘semblante sem a beleza de um sorriso meigo’. Como acontece ainda hoje, as mulheres eram reduzidas à aparência. E exigia-se que fossem lindas, limpinhas e fofas.

– As cangaceiras não pegavam em armas? Só ficavam nos bastidores? Quais as principais funções delas?

Raras foram as bandoleiras que pegaram em armas. Ao contrário do que propõe uma visão romanceada do cangaço, as mulheres não participavam dos combates. As cenas que vimos em séries e filmes, de cangaceiras atirando contra homens das forças volantes (os ‘caçadores’ de cangaceiros), não passam de licença dramatúrgica. Os combates eram importantes demais para serem delegados às mulheres – tratava-se de tarefa de ‘macho’, algo que exigia valentia, senso de estratégia e força, atributos que não eram considerados femininos naquele ambiente extremamente machista. As cangaceiras eram submetidas à mesma lógica que aprisiona as mulheres na vida privada (no caso delas, os coitos, onde se escondiam da polícia e realizavam tarefas domésticas convencionais, como cozinhar e costurar), ao passo que aos homens era destinada a vida pública, o espetáculo.

– Mas Lampião também era um exímio bordador, não é?

Era, mas não porque fosse um homem delicado, e sim porque essa é uma tradição do vaqueiro, que produzia os próprios gibões. Lampião é um herdeiro dessa tradição.

– Você mostra uma história bem pouco heroica dos cangaceiros, onde havia muitos estupros. Inclusive as cangaceiras foram sequestradas por seus futuros maridos. Você acha que, ao longo da história, a imagem dos cangaceiros foi mitificada como espécies de Robin Hood do sertão sem sê-lo? 

Sim. Ainda com Lampião em vida, criou-se uma narrativa segundo a qual ele era uma espécie de camponês revolucionário, quase um comunista, homem empenhado em arrancar dos ricos e distribuir entre os pobres. Trata-se de uma visão, a meu ver, bastante ingênua. Lampião era muito mais chegado à elite política e econômica do que ao sertanejo simples. Este, aliás, era a grande vítima do cangaço – sofria violência por parte dos bandoleiros e, ao mesmo tempo, da polícia. O estupro, arma utilizada tanto pelos cangaceiros quanto pelas forças volantes, atingia sobretudo as mulheres pobres. E se Lampião tocou o terror durante quase duas décadas, sem ser capturado, não foi porque tivesse pacto com o sobrenatural ou proteção de Padre Cícero, como se comentava no sertão, mas porque era protegido por coronéis e políticos. Um de seus melhores amigos era o interventor de Sergipe, Eronides de Carvalho, homem da confiança do então presidente Getúlio Vargas. Não vejo Lampião como herói, embora não o considere um bandido comum. Nisso, concordo com Ariano Suassuna. O escritor diz que, a despeito de ter sido um sanguinário, Virgulino ‘não era uma alma pequena e vulgar’. O cangaço é um fenômeno complexo demais para ser preso em categorias simples, como o herói versus o bandido, o bem contra o mal. Como quase tudo, não comporta maniqueísmos.

As mulheres não participavam dos combates. As cenas que vimos em séries e filmes, de cangaceiras atirando contra homens das forças volantes, não passam de licença dramatúrgica

No livro Bandidos, Eric Hobsbawm chega a chamar o cangaço de “banditismo social”, por ser “contra os opressores”. Você leu o livro dele? Discorda dessa visão?

Li o livro do Hobsbawm e tenho a opinião de que o conceito de ‘bandido social’ não foi compreendido por parte de seus leitores. A meu ver, Hobsbawm não enaltece a figura de tipos como Lampião, tampouco sugere que sejam revolucionários sedentos por igualdade. Ao contrário, apresenta como uma de suas características a ausência de consciência política. Contudo, reconhece que a atuação criminosa tem um componente de protesto por uma situação crítica dada – no caso dos cangaceiros, a vida dura no sertão, enfrentando a seca, a fome e a falta de perspectivas (a não ser que fosse um estoico, um sertanejo pobre dos anos 30 tinha todos os motivos para ser revoltado). Acredito que quem melhor explicou essa questão foi o historiador Frederico Pernambucano de Mello, ao referir-se ao “irredentismo” do cangaço. Para Mello (sem qualquer dúvida, a maior autoridade no tema), Lampião é o arquétipo do ‘irredento’ brasileiro, um homem que não se subordinou aos valores do colonizador. Mas isso não o torna um socialista, digamos assim. Seu sonho era ser rico, dono de fazendas.

Tânia Alves e Nélson Xavier, o Lampião e Maria Bonita da Globo em 1982

– E as cangaceiras? Você vê algum “feminismo” nelas?

Nenhum. No interior do bando, vigorava um código de conduta extremamente machista, que previa pena de morte para as mulheres em caso de adultério – embora aos homens fosse dado o direito de envolver-se em toda sorte de aventuras sexuais. Não há notícias de que as mulheres se opusessem a essas normas, muito pelo contrário. Dadá costumava conclamar suas colegas de bando a ‘respeitar’ os homens aos quais pertenciam, o que significa obedecer cegamente a tudo o que eles determinassem. Também não havia no bando o que hoje chamamos de sororidade – as mulheres não se apoiavam. Maria de Déa e Dadá, por exemplo, se detestavam. Antes de ser morta por apedrejamento por ‘trair’ Zé Baiano, Lídia pediu ajuda de Maria de Déa, que se recusou a intervir a favor da colega. Depois de assassinadas, essas mulheres ainda eram vistas, pelas próprias companheiras, como assanhadas. A mensagem era: se tivessem respeitado seus homens, estariam vivas. Como se tivessem feito por merecer a punição.

– Ao contrário de Dadá, Maria de Déa foi para o cangaço por vontade própria, fugindo de um marido abusador. Você acha que ela foi feliz ao lado de Lampião?

Acredito que ela tinha uma vida compatível com seu espírito aventureiro e transgressor – comportamento muito valorizado nos homens, mas sempre reprimido nas mulheres. Maria era, de fato, uma mulher arretada e amava Lampião. Conseguiu algo que muitas não conseguem até hoje, que é dar fim a uma relação abusiva e começar uma vida nova. A despeito disso, Maria enfrentou uma existência miserável, em meio ao sertão, passando fome, sede, dormindo ao relento e tendo que abrir mão da própria filha, entregue a uma família de vaqueiros. Certamente foi feliz em muitos momentos e extremamente infeliz em outros.

Lampião é o arquétipo do 'irredento' brasileiro, um homem que não se subordinou aos valores do colonizador. Mas isso não o torna um socialista, digamos assim. Seu sonho era ser rico, dono de fazendas

– O que aconteceu com as crianças das cangaceiras?

Foram criadas por famílias sertanejas e tocaram suas vidas, quase todas sem nenhum contato com os pais biológicos.

– No livro, você fala que Lampião se enfurecia ao ser ligado a estupros. Ele não participou das violências sexuais?

Sim. Algumas delas, inclusive, estão relatadas no livro, como o estupro coletivo do qual foi vítima a esposa de um senhor de 80 anos. Lampião achou uma sem-vergonhice tremenda aquela situação, um idoso casado com uma mocinha (a esposa era bem mais jovem do que o senhor), e decidiu dar um corretivo no homem – obrigou-o a presenciar sua mulher sendo violentada por todos os cabras de seu bando (ele, como chefe, foi o primeiro a penetrar a jovem).

– Se você roteirizasse “Lampião e Maria Bonita”, da Globo, hoje em dia, após a pesquisa para o livro, como mostraria os protagonistas?

Esse é um desafio que transfiro para o Heitor Dhalia, o Manoel Rangel e o Egisto Betti, da Paranoid, produtora que comprou os direitos audiovisuais do meu livro. Estou segura de que eles irão dar ao tema o tratamento que os tempos atuais exigem – uma visão romântica do cangaço não é compatível com um momento em que discutimos feminicídio, relacionamentos abusivos e os perigos da exaltação de figuras autoritárias e justiceiras.



Cynara Menezes
No Socialista Morena
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O país das gambiarras e as vítimas de 2019 - até agora

http://www.maurosantayana.com/2019/02/o-pais-das-gambiarras-e-as-vitimas-de.html


Este é o país das gambiarras.

Das gambiarras técnicas.

Das gambiarras jurídicas.

Das gambiarras políticas e de marketing.

Mas, sobretudo, das gambiarras morais, já que, em suas motivações e justificativas, elas se sustentam, na maioria dos casos, pela cobiça, a hipocrisia, a manipulação e a mentira.

Este é o país em que helicópteros, alguns do tempo da guerra do Vietnã, com autorização apenas para filmagens e aerofotogrametria transportam regularmente passageiros.

No qual barragens de rejeitos minerais são construídas a montante, com o agravante da edificação de instalações e até mesmo de refeitórios para dezenas de pessoas a jusante, bem no caminho da lama.

Em que o colapso das barragens da Vale em Mariana e Brumadinho foi fruto de gambiarras técnicas, da mesma forma como as punições à empresa pelo primeiro acidente foram gambiarras jurídicas espetaculosas e inúteis, para não dizer contraproducentes, a julgar pelo seu resultado prático do ponto de vista da fiscalização de outras barragens semelhantes.

Afinal, depois da porta arrombada, nos dias e semanas que se seguem a esses “acidentes”, não falta quem queira aparecer e tirar sua casquinha, seus cinco minutos de fama, posando de implacável defensor do bem comum, com a imposição de multas e bloqueios gigantescos, imediatos, aleatórios, quando a intenção deveria ser punir a empresa e indenizar exemplarmente as vítimas, sim, mas, principalmente, estabelecer e fazer cumprir novos e concretos paradigmas de segurança, sem colocar em risco sua existência a médio e longo prazos, seus empregos e a geração de impostos e de riqueza que produz, dos quais dependem o próprio país e centenas de milhares de trabalhadores e investidores e suas famílias.

Para não repetir no setor de mineração o furor devastador da Lavajato, por exemplo, que simplesmente acabou com a grande engenharia nacional e interrompeu, destruiu e sucateou centenas de obras e negócios em todo o país, tornando setores inteiros da economia brasileira presas atraentes para sua aquisição ou eliminação, em negociatas, a preço de banana, por concorrentes estrangeiros.

Da mesma forma que a segunda condenação de Lula, ocorrida alguns dias antes, foi uma gambiarra jurídica, que não se sustentaria em nenhum lugar do mundo na descarada tentativa de ligar as reformas do sítio mambembe de Atibaia às bilionárias obras da Petrobras, e as barragens da Vale em Mariana e Brumadinho, como já dissemos, foram gigantescas gambiarras executadas a montante de forma que não se faz mais em nenhum lugar do planeta, o improvisado, para não dizer quase clandestino dormitório do Flamengo, feito de contêineres escondidos, sob telhas de lata, em um local em que constava haver um estacionamento - como ocorria até 2010 com certas prisões do Estado do Espírito Santo - abrigando seis pessoas em cada cubículo - já que não há outro nome para o lugar em que os meninos mortos dormiam - também não passou de uma gambiarra que não foi submetida a nenhum projeto ou teste de engenharia e a nenhuma fiscalização ou interdição direta por parte da prefeitura ou do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro.

Uma gambiarra que contrastava, antes de se transformar em cinzas, vergonhosamente, com as condições das 42 luxuosas suítes que fazem parte do complexo do centro de treinamento, que se encontravam, com certeza, todas elas, seguras, confortáveis e provavelmente desocupadas, enquanto meninos ardiam em chamas a poucos metros de distância, por ainda não serem atletas famosos mas apenas garotos pobres cheios de sonhos - vistos como uma espécie de "investimento" para o clube - que, como gerações de aprendizes de gladiadores nos subterrâneos do Coliseu em Roma, perseguiam, em seus corpos cansados, todas as noites, o anseio de dar um destino melhor a suas famílias, mergulhados em devaneios plenos de ilusões, de desafios e desejos de conquista.

Daqui a alguns meses, o que restará da memória das vítimas de 2019 do mau caratismo, da interessada e repentina hipocrisia holofótica, do "jeitinho brasileiro", do gambiarrismo generalizado e universal brasileiro?

O que sobrará dessas perdas irreparáveis e injustas que atingiram para sempre - como se fossem fruto de cataclismas naturais ou da suposta vontade de um deus dos humildes e dos incautos que tudo justifica - a existência de tantas famílias, e de quem conheceu e amou os trabalhadores de Brumadinho e os meninos do Ninho do Urubú?

É preciso que se separe algum dinheiro, das dezenas de bilhões de reais em multas e bloqueios, para cimentar com concreto o chão por onde passou o barro amassado pelo diabo com o rabo nas profundezas da piscina de dejetos da Vale, em Brumadinho, para que nada mais cresça em uma parcela simbólica daquele solo, a não ser as silhuetas evocativas, feitas de aço forjado com ferro arrancado do local, de cada um dos 313 mortos e desaparecidos no rompimento da barragem do Córrego do Feijão.

Assim como deveriam ser cobertos de concreto, como que para imobilizá-los no tempo, os escombros de casas e dos carros que, três anos depois, ainda afloram da paisagem lunar e vulcânica da pequena vila de Bento Rodrigues, sepultados pelos 55 milhões de toneladas de rejeitos da Barragem do Fundão, em Mariana, na mesma região

Se a Vale não o fizer, quem sabe o Inhotim não possa tomar a iniciativa, abrigando a memória das vítimas da insensatez e do cinismo nacional em Brumadinho em seu vasto patrimônio artístico, para que neste país de hipocrisia e de jeitinho as futuras gerações se envergonhem e deixem de repetir a mesma história, o mesmo sofrimento e, com pequenas variações - vide o incêndio da Boate Kiss e o agora já antigo naufrágio do Bateau Mouche - as mesmas tragédias de sempre, tecidas na trama de fatos encadeados e sucessivos, absurdos e inenarráveis.

Da mesma forma que, no Ninho do Urubú, o Flamengo deveria, se tivesse vergonha, substituir o monumento à desigualdade, à ganância, ao descaso, à criminosa irresponsabilidade, representado pelos restos calcinados dos contêineres que se abrigavam no estacionamento por trás das luxuosas instalações de seu CT de dezenas de milhões de reais, imortalizar o sonho dos futuros jogadores que perdeu, colocando aqueles 10 meninos, quase anônimos, que em alguns anos terão seus nomes esquecidos a não ser por suas famílias e amigos, para se exercitar para sempre, com a graça e a leveza de sua juventude e talento, em uma roda de bola forjada em bronze, em tamanho natural ou ainda maior, a ser montada sobre uma plataforma circular, como um marco à glória dos humildes.

À força e à determinação de milhares de garotos que, nos mais recônditos cantos deste país padrasto, sonham com um futuro melhor para si, seus país, mães e irmãos, em uma nação hipócrita, desigual e desumana, gravando seus nomes para sempre ao pé de suas estátuas, sob um arco de concreto encimando o conjunto, com a expressão OS 10 DE 2019.

Se o Flamengo não o fizer, já que até agora seus dirigentes se dedicam apenas a tirar o do clube da reta, quem sabe sua torcida apaixonada e anônima não se cotize, dividindo o amor ao esporte - e ao seu clube - com os heróis que não o foram e coloque esse monumento em área pública, do lado de fora do "ninho" que para as vítimas se transformou em túmulo, se lhes for negado o espaço que os viu queimar até a morte, no solo do pseudo estacionamento em que dormiam.
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PODER [ES]: Briga de foice no laranjal do PSL. Bebianno, ministro de Bolsonaro, no chão


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Xadrez do pai do Carlos Bolsonaro

O pai é emocional e politicamente dependente dos filhos. E os filhos são completos sem-noção


Peça 1 – o desmanche do governo

O governo Bolsonaro não precisa de inimigos. Ele e a família se bastam. Imaginava-se que o primeiro mês de governo seria das cabeçadas. Depois, haveria uma articulação inicial para começar a implementar seus diversos sacos de maldade.

O episódio Bebianno mostrou que Jair e filhos são incontroláveis.

Como se recorda, a Folha denunciou o desvio de verbas partidárias para laranjas do PSL. Imediatamente, Carlos Bolsonaro – o filho pitbull – apontou o dedo para Gustavo Bebianno, Secretário Geral da Presidência. Para se proteger, Bebianno declarou ter conversado três vezes durante o dia com o pai de Carlos. Carlos desmentiu e o pai de Carlos confirmou o desmentido.

Frágil até a medula, o pai de Carlos anunciou que esperava chegar em Brasília com Bebianno fora do governo. Sabendo no tête-à-tête o pai de Carlos é frágil, Bebianno disse que só sairia depois de conversar pessoalmente com o pai de Carlos.

O pai é emocional e politicamente dependente dos filhos. E os filhos são completos sem-noção. O governo Bolsonaro não sobrevive com os filhos no centro dos acontecimentos. E o pai não sobrevive sem eles. Como é que se resolve esse drama nelsonrodriguiano?

Peça 2 – Bebianno e Sérgio Moro

A encrenca Gustavo Bebianno respingou pesadamente em Sérgio Moro.

Em entrevistas à imprensa, Bebianno sugeriu que se caísse levaria junto o pai de Carlos Bolsonaro. Já o Ministro Sérgio Moro anunciou que investigaria a denúncia contra Bebianno a pedido do pai de Carlos. Ora, se Bebianno diz que haveria respingos no pai de Carlos, e o pai de Carlos pede expressamente para Moro conduzir a investigação, a suspeita que fica é que o pai de Carlos tem esperança de que Moro deixe o laranjal inteiro no quintal de Bebianno.

E se o próprio Ministro Moro avisa que vai investigar o laranjal, a pedido do pai de Flávio, mais eloquente ainda ficou seu silêncio em relação ao envolvimento do motorista Fabrício Queiroz com o irmão de Carlos.

Com imbróglio dessa natureza, não adiantou sequer chamar outra vez a cavalaria – o enésimo vazamento da delação do ex-Ministro Antônio Pallocci. A esta altura do campeonato, nem as milícias virtuais de Bolsonaro acreditam mais em Pallocci.

Aliás, a maior defesa de Carlos foi o elogio que as contas do PSL receberam do ínclito Ministro Luís Roberto Barroso, do Tribunal Superior Eleitoral. Para saber para onde caminham os ventos, sugere-se ficar de olho nas declarações de Barroso. Se ele criticar os Bolsonaros, é porque não há nenhum risco de eles manterem o poder.

Peça 3 – barbárie avança sem comando

Mesmo com quatro aloprados no comando, a barbárie avança em várias frentes:
  • Chacinas no Rio de Janeiro, sob o guarda-chuva de dois alucinados, o governador Wilson Witzel e o próprio Sérgio Moro.
  • Invasões de terras indígenas e mortes de lideranças de sem terra.
  • Paralisação gradativa da rede pública de saúde, por cortes nos repasses.
  • CPI para investigar a Comissão Nacional da Verdade.
  • Intenção de instituir a auto regulação nas instituições de ensino.
Peça 4 – as reformas de Paulo Guedes

A única esperança da família Bolsonaro seria a melhora na economia. Não há perigo de melhorar, a não ser uma pequena melhora cíclica que manterá o PIB distante do período pré-crise.

O país entra no 4º ano de recessão, após a maior queda do PIB da história. Quedas desse nível só ocorrem quando existem problemas insolúveis com a dívida externa e fuga de capitais.  E, depois de quedas drásticas, há enorme condição de recuperação rápida da economia, porque em cima de uma base já instalada.

Nada disso ocorreu por aqui. A jabuticaba foi uma recessão da qual a única causa foram erros de condução avalizados por todo o mercado e pela mídia.

Repete-se, com muito mais perdas, as ilusões de ótica da economia norte-americana. A história de que se houver cortes nos impostos, a resposta automática seria o crescimento da economia.

Quando Joaquim Levy implementou seu pacote fiscal, em uma economia já em queda, aprofundou violentamente a recessão. Resposta dos economistas de mercado, a posteriori: o ajuste não foi radical o suficiente. Depois, mais três anos de desastres do governo Temer, com Lei do Teto e tudo, e nada da economia se recuperar, o álibi é que faltou a reforma da Previdência.

É evidente a necessidade de uma reforma da Previdência. Mas, por aqui, a reforma está sendo empurrada goela abaixo da opinião pública midiática por meio de uma mentira: a ideia de que bastará a reforma para recuperar o crescimento.

Com mais gravidade, é o mesmo que foi aplicado nos Estados Unidos quando, em outubro, de 2017, o Secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, apostou que o mercado de ações explodiria se os republicanos aprovassem uma lei cortando impostos. O crescimento seria tanto que, mesmo com alíquotas menores, o aumento da arrecadação reduziria os déficits em um trilhão de dólares.

No final de 2018, o déficit fiscal norte-americano aumentou 17% em relação o ano anterior, em um total de acréscimo de US$ 779 bilhões. Depois do impacto inicial no PIB, com crescimento de 3,1% em 2018, as previsões indicam desaceleração para 2,4% em 2019 e para 1,6% nos três anos seguintes. Sem aumento da demanda, as empresas contraíram crédito para recomprar suas próprias ações.

Por aqui estimula-se a informalidade no emprego, esvazia-se a principal fonte de financiamento de longo prazo – o BNDES -, cortam-se  gastos sociais para a baixa renda, anuncia-se mais redução dos impostos, paralelamente a uma redução proporcional nos gastos sociais.

Mata-se o mercado interno, secam as fontes de financiamento de longo prazo, e espera-se que desse salseiro nasça a luz.

Peça 5 – a peça Hamilton Mourão

O governo Bolsonaro, os Ministros de confiança de seus filhos, compõem a mais estabanada equipe ministerial da história. Tem-se um Ministro da Educação, Ricardo Velez,  sem nenhuma noção do ofício; uma Ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, que parece vendedora de Bíblia do velho oeste; um Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, delirante; um Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles,  ignorante e com condenação por falsificação de documento público, e um chefe da articulação política, Onix Lorenzoni, o mais completo caso de solenidade vazia da República.

Não há a menor condição de ter vida longa. A maior prova é do STF (Supremo Tribunal Federal) começar a colocar as mangas de fora.

A dúvida é sobre o que virá depois. Pelo simples fato de falar coisa com coisa, o general Hamilton Mourão emerge como a salvação da lavoura – apesar de sua única atitude concreta ter levado à inviabilização da Lei da Transparência.

Luís Nassif
No GGN
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Bozo revela despreparo político e comunicacional

Bolsonaro vestido de bexiga de salame numa reunião é o retrato do que virou a presidência da República

Retrato do Brasil varzeano

O retrato de Bolsonaro com a equipe que discutiu a reforma da Previdência viralizou.

Bolsonaro aparece vestido como uma bexiga de salame à frente de um painel de Di Cavalcanti.

A ideia é parecer um homem do povo, coisa do manual básico do populista sul americano.

Já se deixou fotografar no caixa automático, no barbeiro, tomando café da manhã com a mesa suja de migalhas.

Falta posar coçar o saco.

É demagogia primária. Há vários vídeos dele no YouTube contando lorota e jogando na Mega-Sena enquanto apara o telhado.

Truque sujo e barato para enganar os trouxas que acreditam ou fingem acreditar em sua “simplicidade”.

A foto é reveladora do caráter e do estilo de Jair — não no sentido da humildade, mas do absoluto descompromisso com a liturgia do cargo, do desequilíbrio e do despreparo.

Ainda está sob efeito de medicamentos e deveria ser interditado pela família, não fossem os familiares quem são.

Aquele molambo rico de chinelo Rider e camiseta pirata do Palmeiras sob o blazer é o mesmo que governa o país pelo Twitter com um filho descompensado.

Rodrigo Maia lhe passou uma carraspana pública sobre o caso Bebianno.

“Ele é presidente da República, não é? Não é mais um deputado

, ele não é presidente da associação dos militares”, disse.

Não, Maia.

Ele é o pai do Carluxo, dedicado a se rebaixar — e ao Brasil — a cada dia.

Kiko Nogueira



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Ministro estaria chantageando o presidente?

E agora, corajoso capitão?

Vai encarar ou vai se submeter a esta chantagem?

A simples ameaça do ministro já mostra o que de “sujeira” está sendo escondido.

Se as Forças Armadas sabem de algo ilegal, devem comunicar os ilícitos à Procuradoria Geral da República, mesmo que sejam eleitorais.

Nunca o Brasil passou por uma situação tão vexatória.

Nunca tivemos um ministro de estado chantageando um presidente da república.

Nunca tivemos um presidente que conviveu e convive com marginais e milicianos.

Nunca tivemos um presidente eleito através de tantos expedientes escusos.

Nunca tivemos um presidente tão despreparado e que defendia, publicamente, a tortura e o extermínio de seus adversários ideológicos.

Nunca tivemos um ministério tão tosco e retrógrado.

Nunca tivemos tanto receio da truculência dos grupos político, militar e policial que apoiam um presidente da república. Ressalvo o tempo da ditadura militar.

Nunca um governo se desgastou tanto em tão pouco tempo.

Ver também:




Afrânio Silva Jardim é professor associado de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
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Bolsonaro pensa que ganhou a eleição

Os desatinos sucessivos a que o Brasil assiste perplexo têm uma origem inapagável: a famiglia Bolsonaro e seus cúmplices acreditam mesmo que ganharam as eleições.

A realidade sempre disse o contrário. Somando-se os votos de Fernando Haddad, os nulos, brancos e abstenções, Bolsonaro foi claramente minoritário. Pura aritmética. Isso sem falar no principal: o candidato favorito dos brasileiros, Lula, foi impedido de concorrer graças a um processo manipulado por Sérgio Criminoso Moro.

O fato ficou ainda mais escancarado quando se revelou que o ex-capitão, praticamente expulso do Exército, valeu-se de uma máquina de mídia eletrônica ao mesmo tempo ilegal e difusora de mentiras. Os acontecimentos recentes vão na mesma direção. Fabrício Queiroz, laranjas eleitorais, ministros corruptos – tudo aponta para um governo ilegítimo, "eleito" fora da lei, com o intuito exclusivo de destroçar os tímidos avanços sociais conquistados a partir do governo Lula.

Vamos combinar, nem mesmo Bolsonaro acreditava que o Planalto cairia no colo dele. Prova disso é a falta absoluta de programa, equipe, propostas verdadeiras que não imprecações vulgares em posts de duas centenas de caracteres. Depois que a gigantesca fraude eleitoral foi consagrada pelo grande capital e a mídia gorda como "alternância democrática", tratou-se de montar às pressas algo parecido com um governo.

Daí surgiu esse monstrengo que vemos em ação. Um presidente que, além de ignorante e despreparado, carece de saúde - dizem que fruto de uma facada muito mal explicada -; uma famiglia idólatra de milicianos paramilitares, genocídios e saudosa da ditadura; generais e coronéis a rodo na administração; uma turma econômica semelhante aos velhos vendedores de enciclopédia destinada a entregar o Brasil e os brasileiros à banca local e internacional; e outra chusma de ministros que, quando não carregam extensas capivaras judiciais, são devotos de um astrólogo alucinado ou pés de goiaba.

Não se tire daí a conclusão de que inexista uma confluência de interesses nessa maionese administrativa vencida. Toda essa gente está determinada a retroceder o Brasil à condição de colônia. Nessa conspiração anti-Brasil inclui-se o Judiciário e o Legislativo.

Só que, mesmo para isso, é preciso "combinar com os russos", como diria Garrincha. Os russos, no caso, são os brasileiros que em sua maioria rejeitam as propostas reacionárias, privatistas e liquidadoras de direitos sociais. As pesquisas confirmam isso. Direto e reto: você acha que esse Congresso eleito à base de um laranjal representa o povo? Ou que esse STF acovardado pode defender a Constituição?

Os tempos pela frente não serão fáceis. Bolsonaro é um presidente ilegal e ilegítimo. Um usurpador barato, títere a serviço dos interesses do "Deus Trump". As cartas estão na mesa. Resta saber se a oposição terá caráter, determinação política e disposição de combate para organizar a maioria em defesa da soberania do país contra os fraudadores da vontade popular.

Ricardo Melo, é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia
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