14 de fev de 2019

O que é que o Bebianno tem?


Em menos de 24 horas, formou-se por todo lado em Brasília uma onda de solidariedade a Gustavo Bebianno.

Ônyx Lorenzoni sai em sua defesa. Rodrigo Maia vai (ou diz que vai, o mais provável) pedir a intervenção de Paulo Guedes porque sua queda ameaçaria reforma da Previdência. Mourão quer fazer o apaziguamento com os “meninos” e o Estadão diz que “Militares agem para estancar crise e evitar demissão de Bebianno”.

É evidente que Bebianno por si não tem este peso político, é um advogado que farejou a oportunidade e “colou” no fenômeno Bolsonaro. Ainda mais porque, como mostra a Folha, no mínimo autorizou pessoalmente as transferências “laranja” do Fundo Eleitoral. Traduzindo: assinou os cheques.

O problema é outro, ou são outros.

O mundo político e até o mundo dos militares na politica ficou horrorizado com o papel desempenhado pelo filho e imediatamente secundado pelo pai presidente. Um ministro ser chamado publicamente de “mentiroso”, assim, com todas as letras. Na Record, a palavra “mentira” sobre as conversas alegadas por Bebianno saiu da boca do próprio Jair.

Se Bebianno, homem da “cozinha” de Bolsonaro é escrachado assim na via pública, o que está reservado para outros que se aproximaram do presidente?

O segundo motivo é o chamado “imponderável”. Não se sabe o que Bebianno tem de segredos – ou que pode alegar ter – dos intestinos da campanha de Jair Bolsonaro. Era dele o controle do dinheiro e quem controla o dinheiro sabe de tudo.

Na newsletter Drive, o jornalista Fernando Rodrigues conta que Bebianno teria dito a um figurão do PSL que “se sair, vou sair atirando”.

Bolsonaro, entretanto, foi longe demais para que um eventual recuo possa ser possível sem danos imensos. Voltar atrás agora, mesmo que seja “até o fim das investigações” vai transmitir a ideia de que ele foi emparedado pelos políticos e especialmente por Rodrigo Maia, o “menino superpoderoso”.

Bebianno sequer é um ministro “externo”, que pudesse ser colocado numa “Sibéria” administrativa. É “Ministro da Casa”, com direito a sala e corredores do Palácio do Planalto. Não tem como seguir em suas funções e claramente o que faz é chantagear o Presidente. O que usa para isso, um dia se saberá.

Fernando Brito
No Tijolaço
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“Se eu cair, Bolsonaro cai junto”, disse Bebianno a jornalista


Humilhado publicamente pelo vereador Carlos Bolsonaro e pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, o ministro Gustavo Bebianno, secretário-geral da Presidência, mandou um recado direto aos que defendem sua demissão por conta do escândalo de candidaturas laranjas do PSL. 

Segundo o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), Bebianno ameaçou expor os podres da campanha que levou Bolsonaro à Presidência. "'Eu posso cair. Caso isso aconteça, Bolsonaro cai junto!', Conversa de Gustavo Bebiano com um jornalista de Brasilia hoje de manhã", escreveu Teixeira pelo Twitter. 

Mais cedo, Gustavo Bebianno também mandou outro recado ao governo. "Não se dá um tiro na nuca do seu próprio soldado. É preciso ter um mínimo de consideração com quem esteve ao lado dele o tempo todo", disse ele em uma conversa com interlocutores. "Não vou sair escorraçado pela porta dos fundos", disse Bebianno, segundo o jornalista Gerson Camarotti (leia mais).

Aliados do ministro como o advogado Sérgio Bermudes indicam que ele tem munição para permanecer no governo. Segundo Bermudes, Bolsonaro deve sua eleição a Bebianno, o que pode ser interpretado como uma indicação de que o ministro pode revelar os podres de uma campanha ancorada em fake news (leia mais).

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Leitão: Bolsonaro enganou seus eleitores


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Bastaram 45 dias para Bolsonaro provar que não tem condições de governar o Brasil

https://www.balaiodokotscho.com.br/2019/02/14/bastaram-45-dias-para-bolsonaro-provar-que-nao-tem-condicoes-de-governar-o-pais/

Quinta-feira, 14 de fevereiro de 2018.

Está na hora de falar português claro, com todas as letras: o capitão reformado Jair Messias Bolsonaro já provou, apenas 45 dias após a sua posse, que não tem a menor condição de governar o país por quatro anos.

O batalhão de  generais que ele levou para o governo já sabe disso.

Eleito presidente da República sem participar de debates, sem apresentar qualquer plano concreto de governo, apenas atacando os adversários e repetindo bordões imbecis nas redes sociais, era uma caixa preta levada pelo voto ao Palácio do Planalto para derrotar o PT.

Agora, que o país vai descobrindo, a cada dia mais assombrado, de quem se trata, não adianta repetir que “é preciso torcer para dar certo porque estamos todos no mesmo avião”.

Não tem como dar certo. Bolsonaro vai pilotando a esmo, sem qualquer plano de voo, desviando das nuvens pesadas em meio a tempestades que ele mesmo e seus celerados filhos não cansam de provocar.

Os militares que o apoiaram sabiam muito bem quem era o capitão reformado pelo Exército aos 33 anos por atos de indisciplina, não podem alegar inocência.

Bastava consultar seu prontuário no breve tempo em que serviu ao Exército.

Mesmo sabendo o risco que corriam, foi a forma encontrada pelos militares e seus aliados daqui e de fora para voltarem ao poder, apenas 34 anos após o fim da ditadura.

Definido pelo general Ernesto Geisel como “mau militar”, Bolsonaro passou sete mandatos escondido no baixo clero da Câmara, sem fazer nada que preste, e resolveu ser candidato apenas por capricho para combater seus inimigos reais ou imaginários.

Fez da campanha eleitoral uma guerra, imitando arminhas com as mãos, e ameaçando fuzilar a petralhada.

Uma vez no poder, continua sua guerrilha nas redes sociais, sob o comando do filho Carlos, mais conhecido por Carlucho, o 02, chamado pelo presidente de “meu pitbull”.

Ao retornar a Brasília nesta quarta-feira, depois de passar 17 dias internado num hospital em São Paulo, recuperando-se da terceira cirurgia, sem passar o cargo para o vice, em quem ele e os filhos não confiam, Bolsonaro encontrou um banzé armado no Palácio do Planalto.

O 02 resolveu detonar pelo twitter o secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno, dono do cofre da campanha do PSL, denunciado por variadas falcatruas com a verba do fundo eleitoral.

Em mais uma entrevista à Record, Bolsonaro apoiou o filho e resolveu carbonizar o seu ministro mais próximo, dando uma ideia do clima no Palácio do Planalto.

Bebianno, que deve saber demais, não pediu demissão nem foi demitido até a hora em que escrevo este texto.

Como devem se sentir agora os outros auxiliares do presidente, que nem conhecia a maioria deles, e foi montando seu ministério meio a olho, catando o que de pior encontrou em cada área?

Este já é de longe o pior ministério da história da República. E vai governar com o pior Congresso e o pior Supremo Tribunal Federal que já tivemos.

Com a revelação do laranjal de candidatos bancados com dinheiro público, desviado para gráficas fantasmas, sabemos agora como foi montado o esquema da “nova política”, que levou uma manada de cacarecos para Brasília.

Antes que se pudesse imaginar, eles já estão se engalfinhando por nacos de poder no governo e no Congresso, num clima de desconfiança generalizada, todos andando de costas para a parede.

Twitter, WhatsApp, Facebook, tudo isso pode ser muito bom e bonito para eleger um presidente pelas redes sociais, mas é impossível governar com um celular na mão, sem ter a menor ideia do que se pretende fazer para enfrentar os gravíssimos problemas sociais e econômicos do país.

A impressão que me dá é que Jair Bolsonaro não esperava ganhar a eleição quando se lançou candidato e agora já deve estar arrependido de ter vencido.

De crise em crise, de recuo em recuo, de trombada em trombada, a caixa preta desse circo de horrores vai sendo aberta para espanto do mundo civilizado.

Das duas uma: ou os generais vão tutelar o ex-capitão por mais quatro anos ou o país enfrentará uma crise institucional sem precedentes.

A primeira providência deveria ser tirar os celulares das mãos dos Bolsonaros.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
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O vira–lata desdentado e a disputa pelo Atlântico Sul

A participação do Brasil no SOUTHCOM dos EUA faz parte de um processo mais amplo, que se iniciou com o golpe de 2016. A agressão à nossa soberania é bem mais grave do que se imagina. Explico.

A projeção dos interesses de um país no complexo e competitivo cenário mundial dá-se, essencialmente, de duas formas: pela política externa e pela política de defesa.

Assim, a plena projeção dos interesses estratégicos do Brasil no cenário internacional, embora dependa de uma política externa consistente, não pode prescindir, também, de uma política de defesa sólida.

Sem dúvida alguma, a persuasão diplomática deve ser o meio principal de afirmação dos interesses das nações, principalmente das nações pacíficas, como o Brasil. No entanto, é forçoso reconhecer que tal persuasão funciona de forma mais eficaz quando complementada pela dissuasão estratégica.

Como assinalou o ex-ministro das Relações Exteriores e ex-ministro da Defesa Celso Amorim:

Não se pode ser a sétima economia, ser membro do BRICS e do G-20, ter toda a importância que o Brasil assumiu e não ter Forças Armadas devidamente equipadas. A existência de forças equipadas e adestradas fortalece a capacidade diplomática e minimiza a possibilidade de agressões, permitindo que a política de defesa contribua com a política externa voltada para a paz e o desenvolvimento.

Com efeito, um país das dimensões geográficas, demográficas e econômicas do Brasil não pode prescindir de uma política defesa eficiente. Mesmo no contexto de uma região pacífica, como a América do Sul, o Brasil, pela abundância de seus recursos estratégicos (água doce, biodiversidade, terras, pré-sal, etc.) e por sua recente projeção geopolítica internacional, desperta cobiça e rivalidades que tem de ser neutralizadas.

A política externa e a política de defesa são, pois, políticas complementares. Ambas projetam que tipo de país que se pretende ser no cenário mundial.

E que tipo de país essas políticas projetam hoje?

Tanto a política externa quanto a política de defesa que vêm se delineando desde o golpe, e que agora se consolidam e se aprofundam com Bolsonaro, projetam um país menor, frágil, que se coloca, de forma submissa, na órbita dos interesses geopolíticos e geoestratégicos dos EUA.

Estamos nos transformando num grande Porto Rico.

Os retrocessos em política externa já se tornaram bastante evidentes. Ao mesmo tempo em que se busca ansiosamente o alinhamento acrítico aos EUA e a alguns aliados, como Israel, se descontroem todas as vertentes exitosas anteriores de uma política externa que havia aumentado extraordinariamente nosso protagonismo internacional, tais como a do Mercosul e a integração regional, a cooperação Sul-Sul, a inserção no BRICS, as parcerias estratégicas com países emergentes, o investimento nos países árabes e africanos, a ênfase no multilateralismo e na geração de um mundo multipolar, etc.

Porém, os retrocessos, um pouco mais discretos e menos perceptíveis, também estão acontecendo na política de defesa. Eles vêm se processando também desde o golpe de 2016, mas agora adquiriram maior celeridade e profundidade com o governo que bate continência para os EUA.

Nos governos do PT, procurou-se articular a política externa “ativa e altiva”, que projetava um país independente e forte no cenário mundial, com uma política de defesa consistente, que se propunha criar a dissuasão estratégica plena e contribuir ativamente para o desenvolvimento econômico e tecnológico do Brasil.

Desse modo, em 2005, foi lançada a nova Política de Defesa Nacional (PDN), que conferiu especial destaque à capacitação na produção de materiais e equipamentos com alto valor agregado em tecnologia, com vistas a diminuir a dependência externa do país nessa área estratégica. Além disso, foram criados ou robustecidos vários projetos estratégicos de peso, como o submarino nuclear e o do novo caça, que tinham por objetivo promover a dissuasão estratégica em todos os cenários.

Por sua vez, a Estratégia Nacional de Defesa (END), lançada em 2008, estabeleceu a “revitalização da indústria de material de defesa” como um dos três eixos estruturantes para a defesa do país, ao lado da reorganização das Forças Armadas e de sua política de composição dos efetivos. Dessa forma, a Estratégia afirmou o vínculo indissociável entre defesa e desenvolvimento. A BITD (Base Industrial de Defesa) passou a ser vista como indutora de inovações tecnológicas, com aplicações civis. A END também estimulou o desenvolvimento tecnológico independente, especialmente nos setores nuclear, cibernético e espacial.

A Política Nacional de Defesa e a Estratégia Nacional de Defesa complementavam, dessa forma, a política externa independente daquele tempo, tanto no que se referia à obtenção do armamento adequado e à promoção da dissuasão estratégica, quanto ao estímulo ao desenvolvimento econômico e tecnológico autônomo. A política externa e a política de defesa apontavam, assim, para uma mesma direção: a construção de um país independente, com interesses geopolíticos e geoestratégicos próprios.

Agora, a política de defesa, complementando a desastrada política externa do governo Bolsonaro, aponta também para fragilização do país e para um aprofundamento da dependência econômica, política e tecnológica do Brasil.

Já em 2016, foi assestado o primeiro grande golpe contra a política defesa anterior. Com efeito, a Emenda Constitucional nº 95, de 2016, que congelou as despesas primárias por longos 20 anos, significou inevitável constrangimento econômico à busca da dissuasão estratégica e do desenvolvimento de uma base industrial significativa de defesa.

Nas simulações realizadas, os investimentos em defesa deverão sofrer contrações brutais, pois a despesas constitucionais obrigatórias, somadas ao aumento populacional, deverão aumentar substancialmente, nos próximos anos.

Mesmo supondo que os gastos com defesa não sofram contração nominal ao longo desse período, uma hipótese altamente improvável, seu mero congelamento implicará, supondo que o Brasil volte a crescer a uma média anual de 2,5%, um decréscimo substancial do gasto como percentual do PIB. Assim, cairíamos de 1,4% do PIB, em 2014, para 0,85% do PIB, em 2036.

Além desse dano que a Emenda Constitucional nº 95, de 2016 inevitavelmente ocasionará à Estratégia Nacional de Defesa, é preciso analisar também que a Lava Jato vem causando prejuízos consideráveis à Base Industrial de Defesa. De fato, todas as firmas que vêm sendo paralisadas e fragilizadas pela Lava Jato desempenham papel crucial nessa Estratégia e nessa Base Industrial, já que estão fortemente presentes nos grandes projetos da área.

Não temos dúvida de que a combinação da Lava Jato, que está fragilizando o braço empresarial da Estratégia Nacional de Defesa, com a Emenda Constitucional nº 95, de 2016, que reduzirá drasticamente o investimento estatal nessa área, poderá fazer o Brasil retroceder à década de 1990, quando a tônica dada pelo neoliberalismo era a do desarmamento do país.

Ademais desses fatores econômicos, é preciso lembrar que o Exército dos EUA participou, a convite do governo brasileiro, de um exercício militar conjunto que foi realizado, em novembro de 2017, na tríplice fronteira amazônica entre Brasil, Peru e Colômbia. Tal fato revela uma decisão política preocupante para a soberania nacional, no campo da defesa e da indústria de defesa.

Tratou-se de uma decisão inédita na história militar recente do Brasil, que causou estranheza. O nosso país, até o golpe, vinha investindo na gestão soberana da Amazônia, em parcerias com países da América do Sul, estabelecidas em mecanismos de cooperação regionais, particularmente os da Unasul e os da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Assim, esse convite a uma superpotência estrangeira, que não faz parte da Bacia Hidrográfica da Amazônia, representou um “ponto fora da curva”, na tradição de afirmação da soberania nacional numa região estratégica para o país.

Na realidade, esses exercícios vieram na esteira de uma série de iniciativas bilaterais que fazem parte de uma estratégia dos governos pós-golpe de reaproximação subalterna aos EUA, tanto no campo da política externa, quanto no campo da política de defesa.

Nesse diapasão, o Ministério da Defesa do Brasil e o Departamento de Defesa dos EUA assinaram o Convênio para Intercâmbio de Informações em Pesquisa e Desenvolvimento, ou MIEA (Master Information Exchange Agreement), na sigla em inglês. Com tal decisão, os governos pós-golpe investirão na cooperação com os EUA, como forma de “desenvolver” nossa indústria de defesa. Na prática, isso significa renunciar a ter real autonomia no campo do desenvolvimento industrial e tecnológico da defesa nacional.

Ao que tudo indica, setores das Forças Armadas, renunciaram ao desenvolvimento tecnológico relativamente autônomo, previsto na Estratégia Nacional de Defesa, e, agora, apostam equivocadamente numa relação de dependência com os EUA para o seu reaparelhamento.

No mesmo sentido, a anunciada renegociação do famigerado Acordo de Alcântara com os EUA, que impediria o desenvolvimento do nosso veículo lançador e propiciaria a criação de uma base militar norte-americana em solo pátrio, denuncia a retomada de uma nova relação de dependência com aquele país.

A compra da Embraer pela Boeing, face ao uso dual, civil e militar, da tecnologia aeronáutica, deverá também comprometer projetos militares de relevo, bem como inviabilizar o desenvolvimento tecnológico autônomo, num campo sensível e estratégico.

Esses retrocessos, verificados a partir de 2016, agora se aprofundaram claramente com o governo Bolsonaro.

A oferta, anunciada pelo próprio Bolsonaro e por seu chanceler templário, para a instalação de uma base militar norte-americana em território brasileiro, embora temporariamente desmentida por Mourão, nos equipararia a países como Honduras, que são, em seus atuais governos, meros satélites dos EUA.

A participação abjeta do Brasil no plano belicoso e perigoso dos EUA para desestabilizar o governo da Venezuela é outro indicador de uma subserviência que contraria frontalmente os interesses do nosso país na região, os quais estariam muito melhor servidos com uma estratégia de negociação que preservasse a integração regional e a paz no subcontinente.

E agora surge a notícia que joga uma pá-de-cal nas esperanças de quem ainda apostava na preservação da soberania do Brasil.

A anúncio, feito pelo Almirante Craig Faller, chefe do UNITED STATES SOUTHERN COMMAND (SOUTHCOM), ante o Senado dos EUA, de que o Brasil participará do SPMAGTF (Special Purpose Marine Air-Ground Task Force) daquele comando e liderará o exercício naval multinacional UNITAS AMPHIB, significa que o nosso país se engajará ativa e diretamente em operações militares concebidas e lideradas pelos EUA. Ou seja, o Brasil se colocará voluntariamente numa posição de subordinação militar aos EUA, em suas ações em nossa região.

Além disso, o almirante Craig Faller também anunciou, no documento oficial dirigido ao Senado norte-americano, que o Brasil enviará um general para servir como Vice-Comandante para Interoperabilidade do SOUTHCOM.

Os fatos são graves, muito graves.

Os EUA estão fortemente empenhados no combate à influência da China e da Rússia em nossa região e identificam países como Venezuela, Nicarágua e Cuba como aliados desses “inimigos”, que precisam ser duramente combatidos.

Portanto, o SOUTHCOM deverá ser usado de forma ofensiva na América Latina para cumprir com esse objetivo geopolítico norte-americano. Não se trata, como poderiam imaginar os panglossianos, apenas de meros exercícios de treinamento com objetivos humanitários, mas também de ações militares que visariam desestabilizar governos da região e estabelecer vínculos de dependência com as forças armadas de “países amigos”.

Os EUA não gostariam de envolver suas tropas em terra nessas operações, mas estimulariam de bom grado o envolvimento de tropas brasileiras, colombianas, etc. Faríamos o trabalho sujo.

Há também a intenção de assegurar o acesso privilegiado aos recursos estratégicos de nossa região. Deve-se lembrar que a Quarta Frota dos EUA, a força naval do SOUTHCOM, foi recriada, após 58 anos, justamente em 2008, coincidentemente ou não, após o Brasil anunciar as fantásticas descobertas do pré-sal.

Na realidade, desde que o Brasil se empenhou na constituição da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), criada pela Resolução 41/11 da ONU, de 27 de outubro de 1986, que os EUA vêm tentando opor-se à projeção do Brasil nesse oceano. Assim, em 2008, mesmo ano da recriação da Quarta Frota, os EUA criaram também o Comando Africano (USAFRICOM), com a intenção clara de contrapor-se à projeção de interesses sino-brasileiros naquele continente.

Aliás, em 2010, tanto o Pentágono como a OTAN pressionaram o governo brasileiro a apoiar a extensão da jurisdição da OTAN ao Atlântico Sul. Contudo, o governo da época manifestou, com vigor, a oposição brasileira à pretensão dos EUA e da OTAN. O então ministro da Defesa, Nélson Jobim, afirmou que considerava como distintas “as questões de segurança das duas metades desse oceano”, e que, após a Guerra Fria, a OTAN havia passado “a servir de instrumento de seu membro exponencial, os EUA, e dos aliados europeus”. Bons tempos.

Agora, com essa decisão vergonhosa, o Brasil tende a perder projeção geoestratégica própria no Atlântico Sul e na Amazônia Azul, onde está o pré-sal.

Observe-se que, já há alguns anos, a Marinha dos EUA (US Navy) realiza exercícios multinacionais reunindo países membros da OTAN e africanos, para “manobras de patrulhamento no Golfo da Guiné”, área onde se situa contraparte africana do pré-sal.

Todas essas medidas e ações convergem para um só cenário: estão sendo minadas as bases econômicas e institucionais da Política de Defesa e da Estratégia Nacional de Defesa e estão sendo tomadas decisões políticas que colocam nossas forças armadas como meras forças auxiliares e subalternas dos EUA.

Essas decisões políticas em matéria de defesa, somadas à política externa de subordinação geopolítica aos EUA, que tanto agrado causa ao capitão sôfrego por continências e ao chanceler templário, nos transformam em lamentável cão vira-lata do Império.

Já a destruição da Base Industrial de Defesa e os constrangimentos econômicos aos investimentos em Defesa Nacional, que deverão ser agravados com a aposta no ultraneoliberalismo, apontam para o desarmamento, a fragilização dos grandes projetos estratégicos, a dependência tecnológica e a absorção de material militar obsoleto.

Assim sendo, não seremos apenas um vira-lata. Seremos um vira-lata desdentado, a latir para os inimigos dos nossos donos.

E o Atlântico Sul será dominado pela OTAN.

Marcelo Zero
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A quem responderá o general brasileiro no Texas


Quando o general brasileiro Alcides Faria Jr., hoje num comando de brigada em Ponta Grossa (PR), desembarcar no Forte San Houston, em San Antonio, no Texas, no fim de abril, para assumir suas funções de subcomandante das Forças Armadas americanas, já terão se esgotado todos os prazos dados pelos Estados Unidos para que a Venezuela aceite a remessa de alimentos e remédios enviada ao país.

Comida num país que passa fome, é comandado por um ditador e tem um governo paralelo é um ativo evidente nas mãos de quem esteja disposto derrubar o poder constituído. Como as autoridades americanas já determinaram que a questão não é se a Venezuela vai ou não aceitar mas quando, uma ação militar revestida de ajuda humanitária é um desfecho real.

O cenário abre uma lista de dúvidas frente às quais o Congresso Nacional não teve a possibilidade de se confrontar porque não foi consultado e, ao contrário do americano, nem mesmo informado. Se o Pentágono enviar a ordem para o Forte San Houston, o que deverá fazer o general brasileiro? Interromperá a cadeia de comando que passou a integrar ou cumprirá as diretrizes da ação militar do Pentágono? Uma pista é saber quem pagará seu salário, mas não há nem mesmo um acordo público, ou designação já publicada no Diário Oficial, para saber se a tarefa caberá ao governo brasileiro ou americano.

Pelo prazo em que foi anunciado o engajamento do general, no 37º dia do governo Jair Bolsonaro, é provável que o convite e seu aceite tenham se dado na gestão Michel Temer. Não há registro que a cooperação tenha nascido no Ministério da Defesa onde se teme que um engajamento militar do Brasil na Venezuela aumente a pressão de refugiados em Roraima e exponha a inferioridade bélica nacional. Em 29 de setembro de 2015, um tanque blindado de mais de 50 toneladas que saíra de Campo Grande e atravessara a Amazônia, fez disparos na Serra do Tucano, próximo a Boa Vista. Exibido para o vizinho ao Norte, armado de submarinos, baterias de defesa antiaérea e caças Sukhoi, foi um ensaio de teatro amador.

Para convencer os senadores americanos de sua proposta orçamentária, o almirante americano discorreu sobre as ameaças de o Exército Islâmico vir a estabelecer vinculações com narcotraficantes latino-americanos. No governo passado, quem mais deu asas a esta tese foi o ex-ministro do gabinete de Segurança Institucional, o general Sérgio Etchegoyen.

Uma visita ao Livro Branco da Defesa Nacional, aprovado há apenas sete anos pelo Congresso Nacional, não poderia ser mais claro sobre as razões pelas quais o Brasil se mantém há 140 anos em paz com seus vizinhos. O país deve se empenhar pela multipolaridade de uma comunidade global participativa e inclusiva e atuar, no entorno sul-americano, contra posturas conflituosas e excludentes.

O texto não poderia ter sido mais confrontado pelo depoimento do almirante em que foi anunciada a inédita adesão do general brasileiro ao comando do Texas. Craig Faller quer inimigos que temam os Estados Unidos. Os três maiores que citou, Rússia, China e Irã, são os mesmos que lideram as transações de petróleo por moedas alternativas ao dólar.

Como o depoimento se destinava a justificar a demanda orçamentária do Pentágono para 2020, tratava-se ali de mostrar por que está em jogo, na região, um capítulo do cerco eurasiano que ponha em xeque a moeda do país no seu quintal. Se China e Rússia operam para aumentar esse cerco aos EUA via Venezuela, como mostra o jornalista brasileiro mais enfronhado no tema, Pepe Escobar, no Asia Times, não se deveria esperar outra coisa da Defesa americana senão uma reação.

A pergunta que se faz é por que o Brasil deveria ser sócio desta aventura. A barreira que se ergue na Ásia, na África e no Oriente Médio a uma ação militar na Venezuela congrega alguns dos maiores parceiros comerciais e diplomáticos brasileiros. O engajamento na ofensiva confronta os interesses comerciais brasileiros e contraria alguns dos mais estabelecidos princípios da doutrina diplomática e militar do país. Dá asas à ameaça de as grandes potências mundiais balcanizarem a América Latina disputando aliados e jogando uns contra os outros.

Até aqui, as pretensões de alinhamento do governo Jair Bolsonaro com os Estados Unidos foram lideradas pelo chanceler Ernesto Araújo, que recebeu o almirante Faller no Palácio do Itamaraty três dias depois de sua exposição aos senadores americanos do feito de engajar o Brasil à sua tropa de comando. As Forças Armadas, a despeito dos sinais de arrefecido nacionalismo, patente na abertura à venda da Embraer, por exemplo, ainda se mantinham como um anteparo às trampolinagens do chanceler.

Todos os militares da ativa e da reserva que hoje ocupam postos de comando no governo Bolsonaro foram alunos aplicados das doutrinas da defesa nacional mas a era Jair Bolsonaro no poder liberou os instintos mais primitivos. Tem comandante que faz curso nos Estados Unidos e volta com um minibroche da bandeira americana na farda. E outro que toma posse exaltando a parceria com os Estados Unidos em "três guerras", a 1ª Guerra Mundial, a 2ª, e a guerra fria.

A formalização da ida do general para o Texas demonstra que se o alinhamento não nasceu na Defesa já não encontra entre os militares a mesma resistência. Parece uma eternidade, mas há menos de cinco anos, generais brasileiros ainda recusavam convites de escolas militares. Preferiam repassá-los a civis a ver seus oficiais disputando lugar nas filas de latino-americanos fardados a esperar o ticket-alimentação das escolas.

A Guerra da Coreia, nos anos 50, costuma ser citada como o momento mais próximo de um engajamento brasileiro numa empreitada bélica americana, excluindo-se, por óbvio, os grandes conflitos mundiais. A ofensiva, feita entre os governos Eurico Gaspar Dutra e Getúlio Vargas, resultou numa mobilização espraiada por passeatas, comícios, enterros simbólicos. Entre a resistência brasileira e a pressão americana, Getúlio ficou com o povo. Para que o exemplo histórico influencie Jair Bolsonaro vale até manter em segredo que a liderança da resistência foi do Partido Comunista.

Maria Cristina Fernandes
No Valor
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O represado

O rompimento das barragens em Mariana e Brumadinho, onde ainda procuram corpos na lama, não se presta a nenhum tipo de analogia. Nada deve diminuir o puro horror das tragédias repetidas, nenhum outro sentimento salvo os da dor e da indignação – preâmbulos, quem sabe, para o fim da impunidade, e para medidas preventivas antes que outra barragem mate mais. Mas poupar as tragédias de Minas da literatura não quer dizer que não podemos, cada um como quiser, escolher uma metáfora no acontecido.

Eu escolho as barreiras que não resistiram como metáforas para as fobias e ressentimentos represados da direita brasileira, que, assim como os especialistas em barragens que não previram os deslizes em Mariana e Brumadinho, não previram a explosão Bolsonaro nas últimas eleições. Foram a classe média, o antipetismo, o cansaço com a corrupção, a crise econômica, a ausência do Lula, etc. – uma direita compreensível, portanto – que elegeram Bolsonaro, mas foram os valores e preconceitos antigos que tomaram posse. Foi o represado que assumiu.

Assim a formação do ministério Bolsonaro tornou-se uma espécie de jogo, em que se tentava adivinhar quem – depois, por exemplo, de um ministro da Educação que quer a volta dos cursos de Moral e Cívica e bibliotecas escolares purgadas de marxismo e outros venenos – seria o próximo a ser lamentado. Isso sem falar no máximo de restauração sentimental, a volta dos generais para o Planalto.

Ninguém sabia que o represado tinha essa força. A nostalgia certamente nos trará de volta outras coisas lembradas com carinho, não apenas o bambolê, a Cuba Libre e campanhas pela pena de morte. O que mais estará represado na alma brasileira que não se sabe? Pra que lado ainda vai nos levar essa mistura de saudade de nós mesmos e como éramos simples, e ao mesmo tempo torcer pelas milícias?

Luís Fernando Veríssimo
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Moçadinha decepcionada com o Bolsonaro


"Sabe essa moçadinha que está decepcionada com o Bolsonaro com menos de um mês de governo? Votaram no Alckmin, votaram no Serra, votaram no Aécio e daqui 4 anos irão votar no Ciro, Dória, no Moro ou no Amoedo. Quando se é analfabeto político vota-se no primeiro moralista de plantão. Esse pessoal nunca vai entender que política não é debate entre quem "rouba mais ou quem rouba menos". Corrupção é crime e não alvo de debates políticos. Bater na tecla da corrupção é a maneira mais eficiente de fugir dos temas realmente importantes.

Política é debater qual é o papel do Estado na nossa vida. Política é debater sobre o que são direitos e o que pode ser mercadoria. Política é debater até aonde vai a nossa soberania e as relações econômicas e diplomáticas com outros países. Política é entender se o Estado deve ou não deve fazer políticas sociais para as classes mais pobres e minorias, como a população indígena e a comunidade gay. Política é debater se devemos privatizar a saúde a educação a previdência social ou se isso são responsabilidades do Estado. Política é debater a diferença entre direitos e privilégios. Política é debater sobre a importância do estado laico e a luta constante pela sua manutenção contra lunáticos religiosos e mercenários cujo Deus é o dinheiro e o poder.

Todo mundo que vai a Europa ou EUA passear volta maravilhado, mas ignora que aquilo tudo é fruto do que ainda resta do Estado de bem estar social daquelas bandas. E não do neoliberalismo que não funciona em absolutamente nenhum lugar do planeta Terra. Mas quem não quer debater esses assuntos apela para moralismo de fachada e boataria descontrolada.

Aqui e no mundo milhões de pessoas acompanharam estarrecidas a campanha eleitoral de Bolsonaro com seu esquema milionário - e estrangeiro - de mensagens e notícias nas redes sociais. Um notório vagabundo de três décadas que nunca fez nada na vida além de mamar nas tetas do Estado conseguiu convencer grande parte da população de que era honesto e capaz de resolver os nossos problemas.

O resultado é esse que estamos vendo com menos de 20 dias de governo: despreparo, ódio, burrice, capachismo a interesses de fora, guerra aos pobres.

Se a gente conseguir fazer nos próximos 4 anos que pelo menos metade da população brasileira entenda a diferença entre Estado de bem-estar social e comunismo, já teremos avançado 100 anos no processo civilizatório.

Mas para isso eles tem que parar de acreditar em boatos de mamadeira de piroca.

Malu Aires
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Precisamos do Barão e o Barão precisa de nós


Em 10 de maio de 2019, o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé completa nove anos.

Mais do que nunca, ele precisa de todos comprometidos com a democracia e a liberdade de informação e de expressão: jornalistas, blogueiros, ativistas digitais, artistas, movimentos sociais, entidades da sociedade civil.

Em 24 de novembro do ano passado, o Barão de Itararé lançou campanha para arrecadar R$ 50 mil, que serão usados para cobrir as despesas de aluguel e manutenção da sede durante 2019.

A campanha termina em 10 dias – precisamente 24 de fevereiro às 23h59min.

Porém, até agora só atingiu 62% da meta.

Às 9h45 desta quarta-feira, 14/02, havia apurado R$ 31.135.

Faltam ainda R$ 18.865.

E sem esses recursos o Barão de Itararé corre o risco de fechar as portas.

Em qualquer período isso seria péssimo para todos nós.

Em tempos bicudos como os que vivemos é trágico.

Quem viveu o outubro de 1975 sabe o quanto o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo foi vital na luta que se seguiu ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, num dos porões da ditadura militar,  o DOI-CODI paulista.

Mais do que nunca, portanto, precisamos manter o Barão de Itararé aberto.

Questão de resistência e sobrevivência.

É pela democracia, é por nós todos.

Se você ainda não colaborou, faça-o agora, não deixe para depois.

Se já contribuiu, tente convencer um amigo, parente, a fazer o mesmo.


Se ainda tem alguma dúvida, acompanhe a nossa entrevista com o jornalista e blogueiro Altamiro Borges, o Miro, presidente do Barão de Itararé.

Viomundo – Miro, como o Barão se manteve nesses oito anos de existência?

Altamiro Borges – Desde o seu nascimento, em 2010, o Barão tem basicamente cinco fontes de financiamento.

Uma primeira fonte são os chamados “amigos do Barão”: pessoas físicas ou jurídicas,  como entidades sindicais e do movimento social, que contribuem mensalmente com a entidade.

Tem gente que vai à sede para doar R$ 30,00 todo mês. É muito bonito!

Uma segunda fonte são os eventos. O Barão realiza muitos debates, seminários, cursos e cobra por eles – mesmo que sejam valores pequenos.

Há ainda a edição de livros. Já publicamos vários e eles são vendidos e rendem uma grana.

Nos últimos anos, conseguimos algumas publicidades de prefeituras, governos estaduais e entidades sindicais ou do movimento social.

E tínhamos, ainda, patrocínio do governo federal para alguns eventos, como os encontros nacionais de blogueiros e ativistas digitais.

Essa fonte, por razões óbvias, não existe mais. Logo após o golpe que derrubou a presidenta Dilma, em 2016, uma das primeiras medidas do Judas Michel Temer foi exatamente cortar dois patrocínios já contratados e executados para o encontro de blogueiros, realizado em Belo Horizonte.

—  O Barão nunca fez uma campanha nos moldes desta agora. O que aconteceu para isso ser necessário?

— A situação no país está muito difícil para os movimentos sociais e as entidades que lutam por democracia.

Com o golpe de 2016, que levou ao poder a quadrilha de Michel Temer e criou as condições para a ascensão do fascismo e a eleição do miliciano Jair Bolsonaro, o cenário ficou muito adverso. Inclusive do ponto de vista da estrutura.

O movimento sindical, com a “deforma trabalhista”, foi asfixiado financeiramente. Ele dava importante ajuda ao Barão de Itararé.

Houve, como já disse, o fim de qualquer patrocínio do governo federal, o que era totalmente legítimo — afinal, é grana dos nossos impostos.

A própria crise econômica, com a explosão do desemprego e a acentuada queda da renda, dificulta a realização de atividades.

Ou seja, o que aconteceu é que a vida ficou mais difícil. Mas a gente é teimoso e não desiste.

— Para que esses 50 mil reais são necessários?

— Como diz na apresentação do Catarse, essa grana garante basicamente a manutenção da sede da entidade em São Paulo. Banca aluguel, condomínio, conta de luz e água, gastos de internet.

— Tem gente que talvez diga: "ah, mas é só uma sede, as pessoas podem ser reunir em outros lugares e o Barão vai continuar existindo enquanto entidade".

— De fato, se não conseguirmos manter a sede, o Barão seguirá existindo. Vamos tocar a vida. Ocorre que a sede virou uma referência de amplitude e pluralidade.

É local de reunião, encontro, festa, de jornalistas, blogueiros, ativistas dos movimentos sociais, artistas –, enfim de uma vasta fauna.

Aqui, são feitos inúmeros debates, cursos, seminários. Serve de ponto de encontro de vários movimentos sociais. Seria uma derrota o fechamento da sede. Não vamos deixar que isso ocorra.

— Nesses oito anos que momentos marcantes do Barão você destacaria?

— Acho que tivemos vários momentos marcantes, emocionantes.

As primeiras reuniões de organização do movimento dos blogueiros progressistas, o chamada blogprog, já ficaram para história.

Ocorreram em 2010, logo após a fundação do Barão e por proposta do Azenha.

Foram momentos ricos, hilários, de muito companheirismo e unidade, apesar da enorme diversidade. Era uma zona. Ninguém concordava com quase nada, mas todos estavam dispostos a montar o blogprog, a questionar a mídia monopolista e manipuladora, a fortalecer a nova blogosfera progressista.

O que temos até hoje nasceu naqueles encontros intensos, estridentes, alegres, pulsantes.

A sede também já teve seu momento pop, com a visita e debate do Pepe Mujica e a palestra do Noam Chomsky. A ex-presidenta Dilma também esteve conosco.

Isso sem falar no ex-presidente Lula, que sempre apoiou as iniciativas do Barão, como o IV Encontro Nacional dos Blogueiros Progressistas e Ativistas Digitais,  em maio de 2014, em São Paulo, e  do qual ele participou.

Foram vários momentos. Cito só estes.

– Embora todo afável, sempre sorrindo, você faz o estilo durão: homem não chora (rsrs). Algum momento o comoveu mais?

– Que nada. Não tenho nada de durão. Choro bastante.

Procuro racionalizar as coisas, mas sou muito emotivo. Alguém outro dia assistiu a alguns vídeos dos encontros de blogueiros e disse que me viu com lágrimas nos olhos várias vezes.

De fato, todos os encerramentos dos encontros – e já foram sete – foram carregados de emoção.

Não é fácil juntar gente de vários estados, de diversas origens e tantas opiniões diferentes.

É um empreendimento que envolve muito esforço, muita paciência, muita gente com enorme talento, energia e dedicação.

Também foram ricos, emocionantes, os vários seminários, como o realizado no Maranhão e o em Maricá, sobre os desafios da comunicação nas administrações públicas.

PS de Conceição Lemes: A propósito, o Barão de Itararé fica na mesma rua do Sindicato dos Jornalistas, a Rego Freitas, e mesmo lado da calçada.


A outra coincidência da vida: a Laerte e eu somos da mesma turma de ECAUSP. Salve, Laerte! bj

No Viomundo
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Lambança no laranjal


Era para ser o grande dia: alta (ou baixa, como ele diz) do hospital e anúncio das regras de reforma da previdência.

Mas todas as atenções - e as capas dos jornais – estão afundadas no “Laranjal do Jair”, o escândalo que virou gigante quando Bolsonaro atiçou o filho a chamar de “mentiroso” o seu ex-parceiro de negócios da campanha, Gustavo Bebbiano, o homem que “acertou” a entrega do PSL de Luciano Bivar para servir de montaria à candidatura do ex-capitão.

É claro que, àquele casamento de conveniência não faltou o dote e, farto, porque o aluguel da legenda foi “de porteira fechada”, tanto que a presidência foi entregue do partido foi entregue ao próprio Bebbiano e só devolvida no pós-eleição, para que o agora “mentiroso” fosse ser o articulador da transição de governo.

Como é claro que, por mais inapetência que Jair Bolsonaro tenha pelos negócios – neste caso, literalmente – partidários Gustavo Bebbiano não teria autonomia para fechar o acerto, que até um comunicado-contrato teve, sem o conhecimento do chefe.

É a carta que ele tem no bolso, provavelmente, mas que dificilmente poderá usar, tamanho é o poder do agora ex-amigo e da “filhocracia” que o cerca.

Há um inegável clima de espanto e medo diante da violência que está marcando o episódio.

O ex-capitão Bolsonaro seguiu, ao que parece, à risca o roteiro do outro capitão, ficcional, o Nascimento. O “pede pra sair” foi diante de todos, com direito a cusparada, tapa na cara e humilhação. Em matéria de “escracho”, anos-luz distante ao “some, por favor” dito a Fabrício Queiroz.

O resultado prático é que a cena de um governo equilibrado e ponderado, que iria ser levada ao palco hoje, com o “bom” Bolsonaro propondo uma idade mínima para a aposentadoria que não fosse tão dura quanto a “além-túmulo” com que a turma de Paulo Guedes acenava, foi roubada pelo “tiro, porrada e bomba” que está na ribalta, neste momento.

Há medo e uma sensação de que os métodos do “ex e sempre” capitão não servem ao generalato político que assumiu.

Este negócio de “quem piar leva uma tuitada” não funciona com gente grande.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Carlos Bolsonaro é o alter ego do pai presidente

Estratégia é útil em guerra cultural nas redes sociais

Carlos é o alter ego de Jair Bolsonaro. O filho vereador no Rio de Janeiro é o “segundo eu” do pai presidente. Tudo sugere que é aquele em quem Jair Bolsonaro confia tanto quanto em si mesmo.

Em tuítes, Carlos Bolsonaro desmentiu hoje o ministro Gustavo Bebbiano (Secretaria Geral). O ministro teria faltado com a verdade ao dizer que conversara com o presidente e que estaria tudo bem em relação às suspeitas de uso de candidaturas laranjas pelo PSL na eleição passada, quando Bebbiano presidiu o partido.

A dureza com que Carlos Bolsonaro tratou Bebbiano deixou claro que ele estava falando em nome do presidente da República. O noticiário brasiliense dá conta do desconforto de Jair Bolsonaro com o ministro, bem como do aval presidencial aos tuítes.

A condição de presidente da Republica impede e desaconselha a adoção de um discurso tão contundente como o feito por Jair Bolsonaro na campanha eleitoral.

Nesse contexto, entra Carlos Bolsonaro. Ele tem feito críticas duríssimas à imprensa, à oposição, ao vice-presidente Hamilton Mourão e, agora, a um ministro de Estado. É ingenuidade achar que não há autorização do presidente da República para essa atitude.

Trata-se de uma estratégia de comunicação que o presidente endossa dentro da guerra cultural que o campo político propriamente dele, o de extrema-direita, faz desde a campanha eleitoral.

Dos três filhos do presidente que atuam na política, Carlos é o que tem a retórica mais beligerante. Isso é uma estratégia que cumpre um papel importante nessa lógica de guerra cultural, típica das redes sociais.

Há coisas duras que um presidente não pode dizer. É útil ter quem diga por ele.

Assim, o presidente se preserva, adotando tom mais moderado, como pede o cargo, mas tem um aliado estratégico, no caso, o próprio filho, cumprindo uma função importante dentro do plano de comunicação do governo.

Que coisa!

À noite, ficou claro o aval do pai ao filho. A entrevista de Bolsonaro à TV Record também elevou a tradicional fritura de ministros a um novo patamar. Presidente sugerindo demissão em público é novidade preocupante. Mostra despreparo para lidar com os códigos do poder, porque aumenta a temperatura das crises.

Núcleos de poder

Há vários núcleos de poder na administração federal. Um deles é composto pelo presidente e seus três filhos políticos. O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) está encrencado com Fabrício Queiroz. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) está mais voltado para as questões da política externa. E o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) fica mais dedicado à política de comunicação.

Os relatos de quem conversou com o presidente são de que ele é um pai sentimental, com forte relação afetiva com os filhos. Nesse contexto, é um núcleo de poder lastreado em significativa relação pessoal e não política. Isso tem peso na hora de governar.

Outro núcleo de poder é o militar. Incluindo Bolsonaro e Mourão, são nove integrantes do primeiro escalão com formação nas Forças Armadas. A ampla presença militar tem sido, até o momento, a voz mais moderada do governo.

Há o núcleo de quatro ministros que criam polêmicas: Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), Ricardo Vélez (Educação), Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores). Com frequência, esses quatro alimentam noticiário negativo.

Por último, temos os superministros Sergio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Economia) enfrentando seus primeiros desafios e percalços.

Será dureza colocar essa orquestra toda para tocar afinada.

Avanço civilizatório

O STF discute a criminalização da homofobia. A população LGBT é vítima de crimes de ódio. Sofre muito com preconceito e violência. É importante criminalizar a homofobia no Brasil. Há amparo constitucional para uma decisão do Supremo Tribunal Federal nesse sentido.
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Laranjas venenosas

A bancada do PSL de Bolsonaro está constituída, na Câmara, com a inclusão de beneficiários de burla eleitoral. E não só eleitoral, por se tratar de atos lesivos aos cofres públicos. Essa é a realidade.

A revelação desta Folha que Bolsonaro considerou acabada, de candidatos-laranjas para tomar dinheiro do fundo partidário, não se soluciona com a responsabilização de um ou outro dirigente do PSL na última eleição. É o que querem os Bolsonaros. Mas a realidade vai mais longe, porque a Câmara está contaminada.

Também não bastam investigações do Ministério Público e da Polícia Federal em Minas e em Pernambuco, estados com a burla de "laranjas" já exposta na Folha. Como o próprio Bolsonaro dirige o indicador para Gustavo Bebianno, hoje secretrário-geral da Presidência e presidente do PSL no ano passado, há mais motivo para suspeitar que a burla rendosa fosse uma orientação ampla. Além disso, o já comprovado desvio de verba eleitoral, para pagamento de gráfica inexistente, atesta um método de desvios para caixa dois ou para bolsos pessoais.

Os eleitos com recursos partidários provenientes de dinheiro público, em montante aumentado por golpe, tiram a legitimidade das votações de que participem. E o provável, com isso, é que sujeitem os resultados a questionamento judicial, para anulá-los. Diante disso, e apesar de mais interessado nas boas relações com Bolsonaro, Rodrigo Maia tem obrigações próprias de presidente da Câmara, e não se justifica sua indiferença ao surgimento do caso.

Ser mais um na série diária do governo Bolsonaro não faz desse um episódio qualquer. Mas, se não houver atenção pública, dos órgãos oficiais não se deve esperar o predomínio da imparcialidade e da lei. Sob o pretexto de "pacificação" e "harmonia", ninguém quer nada. De bom.

Lugar do perigo

Determinada pelo Judiciário, a transferência de duas dezenas do PCC para Rondônia e Rio Grande do Norte, área já conflagrada, é um teste particular de São Paulo. O acordo do então governador Cláudio Lembo com o PCC foi um gesto responsável e inteligente. Apesar de toda a crítica fácil e da negação posterior dos seus sucessores. As forças paulistas levavam uma tunda feia, atônitas e incapazes de inverter a situação que já seguia para 600 mortos.

Desde então, o acordo prevaleceu por um motivo tácito: falta de segurança para arriscar o enfrentamento com o PCC e seus aliados. Na ânsia de promover-se, João Doria festejou com a arrogância adolescente a transferência de Marcos Camacho, o Marcola, e 21 companheiros para distantes presídios federais. Mesmo recolhidos a presídios semelhantes, Fernandinho Beira-Mar e outros continuam exercendo sua condição de cabeças, em vários sentidos.

Com a transferência de Marcola, o Exército recebeu mais uma função, aliás, sem precedente: carcereiro externo de presídios. No medo extremo criado por um cabeça e 21 companheiros, os militares do governo poderiam ver o Brasil que de lá não veem.

O problema do teste é que não passará nos gabinetes de governo. Será nas ruas e nos prédios da população.

Janio de Freitas
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Condenações em série do Lula e o fim da justiça


Em 6/2, apesar da precária condição de substituta provisória do Sérgio Moro na 13ª Vara de Curitiba, Gabriela Hardt considerou-se eticamente em condições de proferir a condenação do Lula – a segunda da Lava Jato em 18 meses.

A substituta do Moro acelerou o passo para sentenciar Lula a 12 anos e 11 meses de prisão antes da posse do substituto definitivo do agora ministro do Bolsonaro, prevista para os próximos dias.

A sentença contém trechos plagiados da primeira condenação proferida pelo Moro, o que é grave; mas serve, por isso, para confirmar a perseguição da Lava Jato e a quebra do Estado de Direito [ler aqui].

A peça apresenta erros grosseiros e é juridicamente insustentável. Nela, fica evidente o empenho da juíza em forjar elementos de culpa do Lula, mesmo que inexistentes na realidade e nos autos do processo [nota da defesa].

Caso esta segunda condenação seja confirmada ou ampliada pelo TRF4 – hipótese realista, em se tratando do ex-presidente – Lula então terá de cumprir 25 anos de pena, até os 98 anos de idade.

O plano de justiçamento, entretanto, não pára por aí; seu sadismo vai além. Foram montados outros 6 processos igualmente farsescos contra Lula, fabricados em escala industrial para viabilizar condenações em série, o que equivale condená-lo à prisão perpétua.

A monstruosidade do establishment para manter Lula no cativeiro da Lava Jato até sua morte já não escandaliza só por ser essa farsa brutal, kafkiana e infame que de fato é.

A liberdade com que os perseguidores do Lula já se permitem agir – à luz do dia, sem disfarces, sem dissimulações e sem máscaras – escandaliza tanto quanto essa farsa inaudita.

Juízes e procuradores já nem se preocupam em manter a falsa aparência de honestidade e imparcialidade. No regime de exceção, eles se sentem protegidos e respaldados; intocáveis, inimputáveis e impunes; e, supremo prazer, seus egos narcísicos são recompensados a cada martírio infringido contra o “inimigo-mor” que perseguem com doentia obsessão.

Seria mais edificante e, inclusive, atenuante, se o plágio da Gabriela na sentença condenatória do Lula fosse indicador de preguiça, desleixo, incúria ou mesmo incapacidade técnica dela.

Mas, ao contrário disso, o plágio comprova uma conduta nada edificante para o judiciário, porque indica a existência dum roteiro pré-escrito para condenar Lula independentemente do devido processo legal, da presunção de inocência e da ausência de prova e culpa.

Para o regime de exceção, Lula é um condenado até prova em contrário.

Para o regime, Lula jamais poderia ter nascido; é um nordestino que não poderia ter sobrevivido e, crime superior, este metalúrgico sem diploma universitário jamais poderia ter governado o Brasil para se transformar no melhor presidente da história do país retirando mais de 40 milhões de pessoas da miséria.

Lula é vítima do direito penal do inimigo. Já não há justiça, o judiciário está apodrecido e Lula sofrerá condenações em série. Querem castiga-lo para depois executá-lo no cativeiro da Lava Jato, onde é um refém, sem direito e sem justiça, que foi sequestrado pela extrema-direita para não interditar a execução do plano ultraliberal destrutivo e entreguista do Brasil.

O terror judicial é a arma da tirania no contexto de um Estado autoritário, policial e fascistizado. Um Estado sem Direito, sem justiça e profundamente controlado pelas Forças Armadas … dos Estados Unidos da América, como soubemos pelo relatório apresentado pelo Almirante Craig Falles ao Congresso dos EUA em 7 de fevereiro [ler aqui].

Jeferson Miola
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