4 de fev. de 2019

Para Dallagnol, Davi simboliza que “Brasil está mudando”; currículo do Davi desmente a falácia


Deltan Dallagnol e outros integrantes da Lava Jato interferiram freneticamente na eleição para a presidência do Senado pressionando senadores e senadoras nas redes sociais – e talvez também através de outros meios não-públicos.

Essa turma de juízes, procuradores e policiais federais passa grande parte do expediente de trabalho produzindo e impulsionando conteúdos nas redes sociais para atacar seus inimigos e se intrometer na arena política.

E, apesar de usar o horário no serviço público para fins político-partidários, eles não sofrem descontos nos salários milionários e na variedade de regalias e privilégios pornográficos que recebem por mês.

Exigindo dos/as senadores/as a transparência que não exigem em relação ao caso Queiroz e da conexão da família Bolsonaro com gangues criminosas e chefes milicianos, a turma da Lava Jato constrangeu parlamentares exigindo a quebra do segredo de voto em nome de suposta transparência [sic].

Alinhados com o governo Bolsonaro, em especial com o Ônyx da Caixa 2 perdoada por Moro, eles foram fundamentais na demonização do candidato Renan Calheiros, abrindo uma avenida para a eleição de Davi Alcolumbre com 42 votos.

Depois do resultado, Deltan Dallagnol, o DD, celebrou no twitter: “O Brasil está mudando”.

É infrutífero exigir-se medidas disciplinares do CNMP em relação a este procurador da República que tem tido, assim como tinha Sérgio [Bolso]Moro quando político togado, frenético ativismo político-partidário, porque todas estas instituições estão apodrecidas e incorporadas ao Estado de Exceção vigente no Brasil. Do contrário, seriam demitidos a bem do serviço público e, em casos de atentado contra o Estado de Direito, seriam presos.

Isso posto, resta apenas perguntar: a eleição do Davi Alcolumbre para presidir o Senado é, de verdade, um sinal de que o Brasil está mudando?

Diogo Cabral, no perfil de twitter @Diogotapuio, mostra porque a afirmação do DD é pura hipocrisia. Numa sequência de postagens, Diogo mostra a ficha indecorosa do senador que a Lava Jato elegeu para presidir o Senado:

 “Sobre Davi Alcolumbre (DEM), eleito presidente do Senado da República, algumas informações de utilidade pública nessa thread:

Responde aos inquéritos Nº 4353 – Crimes eleitorais e Nº 4677 – Crime contra a fé pública, uso de documento falso.

– Suspeito de corrupção passiva na Operação Pororoca no ano de 2004, por fraude em licitações, em inquérito do Supremo Tribunal Federal. A investigação apura o desvio de R$ 103 milhões em obras públicas no Amapá.

– Dos cerca de R$ 2 milhões de doações que Alcolumbre recebeu oficialmente em 2014, R$ 138 mil foram oriundos de doações do grupo JBS.

Empregou, com recursos públicos, a mulher de um primo, Vânia Alcolumbre, em seu escritório político em Macapá.

– Em outubro de 2017 votou a favor da manutenção do mandato do senador Aécio Neves derrubando decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal no processo onde Aécio é acusado de corrupção e obstrução da justiça por solicitar dois milhões de reais ao empresário Joesley Batista.

– Votou a favor da reforma trabalhista, que aniquilou direitos dos trabalhadores brasileiros.

– Por meio da cota para o exercício da atividade parlamentar dos senadores (Ceaps), entre 2015-2018, reembolsou R$ 1,46 milhão de recursos públicos, com divulgação da atividade parlamentar, sobretudo! É o campeão no Senado nesta prática!

– Em 2014, declarou o patrimônio de R$ 585.000,00 para a Justiça Eleitoral. Em 2018 um pouco mais de R$ 770.000,00.

– Em 2017, o desembargador Agostino Silvério, do Tribunal Regional Eleitoral do Amapá (TRE-AP), determinou a quebra do sigilo bancário de uma conta de Rynaldo Antônio Machado, contador da campanha eleitoral do senador Davi Alcolumbre (DEM-AP).

A controvérsia envolve dados extraídos da prestação das eleições 2014, questionando-se inúmeros vícios, como a falsificação de notas fiscais e de documentos públicos, o que teria contribuído para a configuração de abuso de poder econômico e político.

Na mesma acusação, consta a suspeita de que tenha constrangido servidores comissionados da prefeitura de Macapá a apoiá-lo, sob pena de serem demitidos, e do Batalhão de Operações Especiais da PM/AP e do Corpo de Bombeiros Militar, sob pena de transferência para outra unidade.

A sra DENISE VEBERLING, esposa do Ministro Chefe da Casa Civil, Sr.@onyxlorenzoni, exerce cargo em Comissão no Gabinete do Sr. Presidente do Senado, desde 2016.

– De acordo com @valoreconomico, Alcolumbre já foi alvo de investigação no passado por sua ligação, enquanto deputado, com o doleiro Fayed Trabouli, alvo da Polícia Federal (PF) na Operação Miquéias, em 2013.

A investigação, no entanto, travou no Supremo Tribunal Federal (STF) depois que o relator do caso, ministro Marco Aurélio Mello, anulou as interceptações da PF
”.

Jeferson Miola



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Irmãos chutam Johnny Saad para fora da Band

Ele quebrou a empresa que deve mais de R$ 1 bilhão!

Johnny que quebrou a empresa e o que vai quebrar São Paulo
Por Geraldo Samor, no BrazilJournal:

Na Band, a maioria dos acionistas quer mudar de canal

Desde que seu pai morreu há quase 20 anos, João Carlos Saad tem sido o rosto e o pulso firme que lidera a Rádio e Televisão Bandeirantes, um dos maiores grupos de mídia do País.

Mas agora, pela primeira vez sua liderança está sendo questionada pela família, preocupada com a capacidade da Band de resistir a uma dívida bancária cada vez mais impagável e ao cenário desafiador para a mídia tradicional.

Num processo que corre na Justiça, as irmãs Marcia e Leonor Saad pedem que os tribunais removam Johnny da liderança do grupo e obriguem a Band a iniciar um processo de profissionalização.

A ação expõe pela primeira vez os bastidores dos Saad — e as dificuldades de uma companhia familiar em concordar sobre o que é melhor para seu destino comum: deixar como está e aguardar resultados diferentes, ou romper com duas décadas de uma gestão que mistura negócios privados com a gestão da empresa.

A história de como as irmãs Saad perderam a paciência e tomaram a decisão dura de se voltar contra o irmão começa em 2014, quando os Saad assinaram um acordo de acionistas pela primeira vez.

São cinco os Saad que podem chamar a Band de sua: Johnny, Ricardo, Marisa, Marcia e Leonor. Cada um tem 20% da empresa fundada pelo pai, João Jorge Saad. A mídia entrou na família pelo lado da mãe: o velho Saad casou-se com Maria Helena, filha do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Nas décadas seguintes, o genro transformou a rádio do sogro — a Bandeirantes — num império de comunicação.

Com a morte de Saad em outubro de 1999, o comando do grupo passou a Johnny, que — exceto pelas discussões e brigas comuns a qualquer família — dirigiu a empresa por 15 anos sem contestação.

Em 2014, com a situação da empresa se deteriorando, alguns irmãos pressionaram por um acordo de acionistas. O contrato previa duas coisas: o cargo de CEO teria que ser renovado a cada três anos, e a Band contrataria um CFO externo para começar a profissionalizar sua gestão.

Mas como a maioria dos grupos familiares de mídia, a Band resiste a se reinventar. A empresa é descrita por atuais e ex-funcionários como uma estatal tecnicamente falida, em que diretores ganham salários acima do mercado, não entregam resultados e mal são cobrados por metas. Dos 3.200 funcionários, mais de 50 têm o crachá de diretor.

O grupo deve cerca de R$ 1,2 bilhão — mais de oito vezes a geração de caixa — incluindo uma dívida crescente com as afiliadas, algumas das quais já ameaçam trocar de emissora.

Enquanto isso, a concorrência avança. A Globo criou o GloboPlay e a Record, o PlayPlus — seu serviço de streaming — mas a Band ainda não fez nada significativo em termos de transformação digital.

Logo que assumiu, a nova CFO, Magali Leite — uma executiva com passagens pela Claro e pela Contax — contratou a G5 Evercore para ajudar a Band a negociar sua dívida com os bancos, disseram fontes da Faria Lima. Da dívida total, cerca de R$ 800 milhões estão nas mãos do Banco do Brasil, Bradesco e em debêntures carregadas por bancos como o BTG Pactual e a Caixa. Outros R$ 400 milhões são devidos a fornecedores — há até uma dívida com a Globo, por direitos de futebol devidos e não pagos.

Em abril do ano passado, os bancos concordaram em dar à Band um ano de carência no principal da dívida. Os credores aceitaram a trégua porque a companhia se comprometeu a fazer uma restruturação financeira e operacional, sem a qual não conseguirá honrar os compromissos.

Dentro e fora da Band, pessoas que conhecem a situação da empresa dizem que Johnny resiste às mudanças. “Ele faz uma gestão antiga, com pessoas que estão lá há 30, 40 anos e não entenderam que o business da televisão mudou,” diz um ex-executivo. “Não dá pra fazer televisão como se ainda estivéssemos nos anos 90.”

Na família, o maior agitador por mudança é José Saad Duailibi, o primogênito de Leonor. Duailibi, de 35 anos, é um dos 14 membros da terceira geração que se preocupam com o futuro do grupo e, dado seu desejo de mudança, sempre teve uma relação complicada com o tio. Até meados do ano passado, quando deixou o grupo, Duailibi liderava a Band Minas.

Em julho, o topo da pauta da assembleia de acionistas era a recondução de Johnny ao comando do grupo, visto que seu mandato expirava no final daquele mês. Marcia Saad e Leonor, conhecida na família como Nonô, disseram não ter informações suficientes para reconduzir o irmão.

Dias depois, foram à Justiça.

Na ação, os advogados das irmãs desancam Johnny como “um dono que nunca foi,” falam de sua “influência devastadora” sobre o grupo, “fruto do temor reverencial e paralisante”. À época, os advogados reconheciam no processo que as irmãs ainda não contavam com a maioria no conselho para destituir “o tirano”.

Na ação, as irmãs listam uma série de decisões unilaterais de Johnny que teriam contribuído para a derrocada da empresa — incluindo um laudo da Ernst & Young, auditor da Band, que mostra um pagamento de R$ 14,5 milhões feito pela Band Rio a uma empresa do ex-governador Sergio Cabral sem contrapartida conhecida.

Enquanto Marcia e Leonor tentavam destituir o irmão, a posição dos outros dois Saads não era clara até recentemente. Ricardo sempre foi visto como solidamente pró-Johnny, e Marisa estava dividida. Por um lado, acreditava que a gestão tem que mudar; por outro, não queria antagonizar o irmão.

Mas em dezembro, Marisa escolheu um lado.

Antes da assembleia de acionistas marcada para aquele mês, os herdeiros de João Jorge Saad (cujo inventário continua aberto) se reuniram para instruir Ricardo Saad — o inventariante — como votar. Donas de 60% do capital da empresa, as três irmãs determinaram que Ricardo votasse contra Johnny. Mas no dia da assembleia, Ricardo descumpriu a determinação e votou a favor do irmão. Johnny — que cultiva uma rede de amigos que inclui juizes, desembargadores e políticos — continua no cargo, e as irmãs continuam a pedir na Justiça seu afastamento.

Conhecida por sua cobertura esportiva, jornalismo independente e por ser a pioneira dos debates presidenciais desde a democratização, a Band tem um lugar especial no coração do brasileiro. Mas para que a empresa sobreviva, algo vai ter que mudar.

Com dívidas reperfiladas vencendo em abril, os credores estão cada vez mais nervosos. Para piorar, na semana passada, a vp financeira encarregada das negociações pediu demissão. Num comunicado interno, Johnny disse que ela estava saindo para se dedicar a “projetos pessoais”.

No CAf
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Autor do Escola sem Partido, deputado que empregou filha de Damares esteve no meio do “Escândalo do Cotão”

Damares e Erivelton Santana
Erivelton Santana é o pastor evangélico e deputado federal que empregou de outubro a dezembro de 2018 Lulu Kamayurá, a filha “adotiva” da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves.

Santana é autor do projeto de lei do Escola sem Partido, frontal ataque à liberdade de ensino e à pluralidade de pensamento. Também possui um escândalo para chamar de seu.

Trata-se de um esquema descoberto de uso ilegal dos recursos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP), a conhecida verba indenizatória da Câmara Federal.

Segundo denúncia do jornal Correio Braziliense, Erivelton Santana compunha um grupo de 15 parlamentares (9 sendo da bancada da bíblia) que estariam envolvidos no esquema que ficou conhecido como o “Escândalo do Cotão”.

A partir de empresas de fachada pertencentes a ex-assessores de Silas Câmara, outro pastor e também deputado federal, mais de R$ 1 milhão foram pagos a título de marketing e locação de veículos sem jamais terem sido prestados os serviços.

Como quase tudo na política brasileira, o caso até hoje não foi devidamente esclarecido e os principais envolvidos, como os pastores Silas e Erivelton, continuam a empregar pessoas e empresas sem qualquer necessidade e/ou capacidades técnicas.

Tudo ao custo dos cofres públicos e para a honra e glória do Senhor, é claro.

Carlos Fernandes
No DCM
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O que se sabe até agora sobre a morte de Sabrina Bittencourt


Passadas 24 horas desde a alegação do suicídio da ativista, colegas e familiares dão respostas diferentes e evitam comentar detalhes do caso

Os detalhes da morte de Sabrina Bittencourt, a ativista que revelou as denúncias de abuso sexual de João de Deus e outros líderes religiosos, ainda são incertos. Passadas 24 horas desde a alegação do suicídio da ativista, colegas e familiares dão respostas diferentes sobre como e onde ela morreu.

A notícia veio a público às 11h24 do domingo 3, através de uma nota assinada por Maria do Carmo Santos, fundadora da ONG Vítimas Unidas, do qual Sabrina participava. De acordo com o comunicado, a ativista se suicidara em Barcelona por volta das 21h do sábado, deixando uma carta de despedida.

No texto, o grupo também pedia “a todos que não tentem entrar em contato com nenhum integrante da família, preservando-os de perguntas que sejam dolorosas nesse momento tão difícil”.

Gabriel Baum, filho mais velho da ativista, é o único parente próximo a se pronunciar sobre a morte. As declarações do adolescente contradizem a versão apresentada pela nota da ONG – segundo ele, a mãe morreu no Líbano e será enterrada naquele país.



Gabriel contou ainda que se encontrou com a mãe pela última vez em Paris, antes de ela seguir para Barcelona e, mais tarde, para o Líbano com a namorada. O ex-marido, Rafael Velasco, estaria em estado de choque e medicado. Gabriel tem dois irmãos, de 8 e 10 anos de idade.

Ele também reagiu às cobranças por informações mais consistentes sobre a morte da mãe. “O corpo é dela e nenhum governo, youtuber, jornalista sensacionalista e gente corrupta de merda vai agora querer caçar também o corpo dela! Deixem minha mãe em paz”, escreveu nas redes sociais.

Na última postagem que fez, na madrugada desta segunda 4, Gabriel diz que o corpo da mãe não será ‘troféu’ e nem tocado sem consentimento.

Gabriel e a mãe, a ativista Sabrina Bittencourt
Em entrevista à Época, Gabriel disse que a família não autoriza a embaixada brasileira a repassar nenhuma informação sobre a morte. O Itamaraty só divulga informações sobre a morte de terceiros sob autorização da família.

Também à revista, Gabriel disse que o velório acontecerá no Líbano dentro de alguns dias. Segundo ele, devem comparecer a namorada, o ex-marido Rafael, ele, os dois irmãos e duas líderes espirituais.

A reportagem entrou em contato com as embaixadas brasileiras em Beirute, capital do Líbano, e Barcelona para verificar se há registros de uma mulher brasileira nos últimos três dias, mas não obteve resposta.

“Pra mim, a Sabrina partiu”

Maria do Carmo Lopes falou pela primeira vez sobre o caso nesta segunda.  A ativista conta que soube da morte da amiga por Gabriel, via recado nas redes sociais, e que acabou se confundindo ao informar o local onde ela teria sido encontrada.

“Entendo essa angústia de vocês, eu entendo que as pessoas queiram saber. O que eu, Maria do Carmo sei e posso provar: conversei com Sabrina no sábado, três, quatro horas da tarde, quase uma hora. Conversamos longamente, conversamos sobre o desânimo de secar gelo. E não só de ter que ficar denunciando, mas se antecipar os que os bandidos de colarinho branco em Abadiânia (…) Sá estava muito desanimada, a sensação é de que a gente está secando gelo. Ela estava longe dos filhos, tendo que se esconder e etc. Essa foi a nossa conversa. Disse a ela que faria uma live, às 7, 8 da noite. As 18h58, Sabrina me ligou e eu não atendi”, disse a ativista em transmissão ao vivo nas redes sociais.

Thais Reis Oliveira
No CartaCapital
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Bem-vindos à Era Mourão


Não foi preciso nem um mês para confirmar a precarização sistêmica do clã Bolsonaro. O novo presidente, de forma eficiente, demostrou que as predições negativas feitas nos meses prévios, na campanha eleitoral, não eram simplesmente discursos eleitorais de candidatos opositores. Estamos vivendo a tragédia anunciada. Existe um paradoxo: o aspecto mais previsível do atual governo é justamente sua imprevisibilidade, tendo em vista a alta dose de improviso que está em jogo.

Por um lado, nada foi proposto, nem uma política pública honesta foi estabelecida como norte do novo governo, exibindo incapacidade e pouco planejamento. Por outro lado, os discursos e símbolos que desfilaram no primeiro mês de governo nos deixam um sentimento misto de vergonha e desconfiança. É só lembrar alguma fala aleatória de parte dos ministros mais visíveis do governo nacional.

Menos de um mês foi o suficiente para conhecer e se desesperar com as novidades. Enquanto isso, o silencio nas áreas vitais preocupa mais ainda. Mas além do desfile de paradoxos, temos na nossa frente o precipício do novo momento nacional. E desse precipício não se sabe quem vai cair. Foi descoberto um esquema de corrupção que tiraria a qualquer agente de governo, mesmo um presidente. Não se trata só disso, mas também do seu vínculo com a milícia que nos deixa no limite do precipício dos sentidos institucionais e humanos. Assim, a continuidade do Clã Bolsonaro é a aceitação de um novo tipo de estado brasileiro, mais perto do Oriente Médio que da trajetória histórica brasileiro.

As milícias representam hoje a forma de criminalidade mais espúria para a ordem democrática. Isso porque ela conjuga crimes de colarinho branco (lavagem de dinheiro, empresas fantasmas, cabides de emprego no setor público etc.) com crimes contra a vida, principalmente, os homicídios e desaparecimentos forçados. Elas expressam, assim, um vórtice entre o poder econômico das elites nacionais e a propagação da manifestações agudas da barbárie no nível local. O caráter explícito das relações entre a família Bolsonaro e as milícias (vínculos de amizade, homenagens públicas, contratações suspeitas em gabinete parlamentar) define as linhas gerais da chegada ao poder nacional dessa rede criminosa. É, portanto, a expressão de outro paradoxo: o exercício de um governo que desconstitui a ordem para a qual foi eleito.

Neste cenário, esperar que Bolsonaro e sua turma continue no poder, coloca ao Brasil nas cordas. O Brasil como um todo. E significaria a aceitação e cumplicidade, dos setores tradicionais e do âmbito militar, de um governo miliciano. Assim, entraríamos na era do boxe e da prepotência, desfazendo os sentidos da democracia minúscula na que estamos vivendo. Mas na verdade pareceria que tudo se está orientando numa virada de rumo, dentro do mesmo norte. Ou seja, estamos entrando na nova era do passado. A era Mourão. Os setores do judiciário, militar, empresários, velha política e mídia, a tradição em pé novamente e mais forte que nunca.

Tudo passará da tonalidade explícita, literal, óbvia e simplória que marca o bolsonarismo para um poder que possui profunda relação com o artifício das aparências. Ao estancar a sangria do furor bolsonarista, Mourão empregará meios mais sutis e, por isso, mais eficientes de manutenção da mesma ordem defendida pelo capitão-bufão. Seria, portanto, um passo importante para a consolidação dos setores conservadores no poder: a volta para expressões mais próprias do conservadorismo à brasileira.

Ao invés de bocas espumando ódio, a cordialidade cruel das relações de poder mais abusivas. No lugar da guerra declarada contra o “politicamente correto”, o triunfo da naturalização da mentalidade e das expressões conservadoras. É como voltar a ver uma pornochanchada sem que o machismo, o racismo e a misoginia dessa escola do cinema brasileiro causem espanto ou indignação. Isso porque não se trata mais de expressão do passado, algo datado, mas experiência do presente.

Depois da experiencia do delírio-bolsonarista, que durara um suspiro no melhor dos casos, entramos na artificial normalização da vida política brasileira com o mais velho que há no Brasil. Por um lado, o judiciário garantindo a permanência do estado de direito pós-impeachment. Os militares, por outro, como guardiães da democracia brasileira, da tutela dos últimos tempos e garantidores da ordem, ou o que eles consideram ordem. E os empresários e os políticos de sempre, fazendo fluir com normalidade a dinâmica nacional do corporativismo e repartição territorial, com ar de vida ordinária. Todo carimbado pela mídia restituída no seu rôle de garantia de um accountability seletivo e arbitrário. Enfim, Bem-vindo ao passado.

Neste percurso, a memória da trajetória do progressismo do Partido dos Trabalhadores será reconfigurada, localizando-a como um período de excecional corrupção, nivelando essa experiencia com o suspiro chamado o miliciano Bolsonaro.

A era Mourão se torna um processo de normalização artificial do passado no presente, de restabelecimentos dos papeis tradicionais dos atores e agentes na dinâmica nacional. Assim, com uma população que vai apoiar uma normalização artificial depois de uma experiencia traumática como a bolsonarista, tudo parece novamente ordinário.

Três anos na vida de um pais é pouco e muito ao mesmo tempo. E foi o prazo que demoraram os setores tradicionais para reconfigurar e restabelecer as velhas estruturas e posições de poder dos atores.

Bem-vindos à velha era, bem-vindos a era da ordem dos de sempre.

André Rodrigues é professor doutor de Ciência Política na Universidade Federal Fluminense.
Andrés del Río é professor doutor de Ciência Política na Universidade Federal Fluminense.
No Justificando
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Se o Estadão está certo, a cachaça da vitória fez mal ao bolsonarismo


O Estadão publica, agora à tarde, o que diz ser o rascunho da reforma previdenciária urdida pelo Ministério da Fazenda.

E o que ela contém é explosivo: idade mínima de 65 anos para homens e mulheres, obrigatórios, independente do tempo de contribuição.

Não há notícia sobre regra de transição, o que não é desejado pela Fazenda, par ter efeitos rápidos.

Mínimo de 40 anos de contribuição (o que, na prática, representa uns 45 anos de atividade)  para ter direito ao valor integral do benefício, mesmo com a redução que hoje já tem.

Idosos de baixa renda receberão menos que o mínimo: “pessoas que comprovem estar em condição de “miserabilidade” terão assegurada uma renda mínima de R$ 500, quando tiverem 55 anos ou mais, ou R$ 750, caso tenham mais de 65 anos. Pessoas acima de 70 anos e com dez anos de contribuição terão assegurada uma prestação extra de R$ 150.”

A dose é cavalar e não há possibilidade de que os parlamentares as aceitem a seco.

É possível que a turma do Planalto esteja embriagada com a vitória de Davi Acolumbre e ache que “tá tudo dominado”, mas é improvável que a maioria dos deputados queira aderir de cara a uma reforma que passou do impopular para o cruel.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Como eu descobri o plano de dominação evangélico – e larguei a igreja

Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos
Em meados de 2007, converti-me ao cristianismo, bastante influenciado por uma família de empresários, donos de alguns bazares no 3º Distrito de Duque de Caxias, no Rio, onde moro até hoje, para quem trabalhei no final da adolescência e início da vida adulta, e que depois viriam a se tornar bons amigos. Eu tinha 17 anos e muitas dúvidas existenciais. As clássicas perguntas “por que estamos aqui”?, “para onde vamos?” dominavam os meus pensamentos. Em termos práticos, também não sabia o que fazer profissionalmente.

Depois da entrada na igreja evangélica, a minha mudança de hábitos foi muito rápida. Fui movido por aquele fanatismo típico dos que encontram algo pelo qual são arrebatados. Até quis abandonar tudo para me tornar missionário. Mas minha mãe me dissuadiu da ideia – hoje, penso, ainda bem.

Em poucos meses, eu já havia decidido passar pelo batismo e estava absolutamente integrado à pequena congregação de denominação batista renovada, que era filial de uma igreja matriz localizada no bairro da Taquara, também em Duque de Caxias. Logo nos primeiros meses já havia lido toda a Bíblia e dedicava quase todo o meu tempo à releitura dela e de livros cristãos, bem como a ouvir gravações de sermões de pregadores famosos e a participar das atividades da igreja.

Sempre fui muito influenciado pelos artistas e pastores de ministérios famosos de Minas Gerais. Eu me identificava muito com a abordagem e interpretações dos textos bíblicos, principalmente do pastor Gustavo Bessa (marido da cantora Ana Paula Valadão), que tem uma habilidade fantástica de contextualizar às passagens bíblicas com a época em que foram escritas, e extrair delas uma mensagem com foco no amor de Deus. Na música, era fã de Antônio Cirilo, Ricardo Robortella, do Diante do Trono e dos cantores que saíram de lá para fazer carreira solo, como Nívea Soares, André Valadão, Mariana Valadão.

Há cerca de dez anos, saí numa caravana de amigos rumo ao X Congresso Internacional de Louvor e Adoração do Diante do Trono, realizado na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, onde, atualmente, a ministra Damares Alves exerce o seu sacerdócio.

E foi lá que descobri que, dois meses depois, mais precisamente em junho de 2009, aconteceria um outro evento, o Congresso Nacional dos 7 Montes, que tinha por objetivo reunir cristãos e lideranças de todos os lugares do Brasil para convocar uma grande mobilização em prol da necessidade de a Igreja ir além das suas quatro paredes para conquistar espaços para o Reino de Deus – o que eles chamaram de “7 montes da sociedade”, a saber: 1) artes e entretenimento, 2) mídia e comunicação, 3) governo e política, 4) economia e negócios, 5) educação e ciência, 6) família, 7) igreja e religião.
Não se pode acreditar que obras como as de Edir Macedo e Fernando Guillen sejam  consideradas apenas literatura religiosa. Elas revelam a existência de um projeto de poder.
O tema me pareceu muito interessante, e eu queria muito participar daquele evento também, mas a grana era curta demais e eu não poderia voltar a Minas dois meses depois. Mas o propósito para o qual as lideranças de diversos cantos do mundo se reuniram em Lagoinha estava num livro lançado naquele mesmo ano chamado “SE7E MONTES”, do apóstolo Fernando Guillen, que coordenou o evento.

O livro de Guillen é um manual que procura justificar e contextualizar o projeto de poder das igrejas evangélicas se utilizando de textos do Antigo Testamento, que, segundo o autor, revelariam um modelo ideal de sociedade pretendido por Deus, além de conter estratégias de atuação e oração para que a igreja conquiste cada um dos “7 montes”.

Importante ressaltar que esse movimento das igrejas evangélicas, principalmente as neopentecostais, tem origem em uma interpretação bíblica que alguns teólogos chamam de Teologia do Domínio. Segundo essa teoria, a igreja teria recebido as promessas divinas direcionadas ao povo de Israel no Antigo Testamento, que envolvem fartura, domínio e governo de territórios e lugares de destaque na Terra. Seria o modo de refletir aqui o que seria o Reino dos Céus prometido para os que creem no Cristo.

Daí, por exemplo, o grande avanço das campanhas por prosperidade financeira nas igrejas, principalmente vistos na Igreja Universal do Reino de Deus e nas neopentecostais, e a ascensão da bancada evangélica no Congresso e seu engajamento em relação aos valores e costumes na sociedade. Vale lembrar que esse tipo visão ganhou muito destaque às vésperas das eleições do ano passado, quando Edir Macedo lançou o livro “Plano de Poder”, cujo foco era o mesmo: mobilizar os evangélicos para que a igreja governe o Brasil no sentido literal da palavra.

Estima-se que os evangélicos já sejam mais de 40 milhões de brasileiros e que, em 10 anos, a maior parte da população fará parte do grupo que reúne ao menos uma vez por semana para serem orientados por seus líderes. Desse modo, não se pode ingenuamente acreditar que obras como essas do Edir Macedo e do Fernando Guillen sejam apenas consideradas literatura religiosa. Pelo contrário, elas revelam a existência de um projeto de poder político-religioso em curso – que está sendo bem-sucedido.

A igreja em células

Eu comecei a me dar conta disso alguns anos depois, quando a primeira igreja da qual fui membro iniciou uma transição para um modelo litúrgico e de evangelismo chamado MDA, sigla para Modelo de Discipulado Apostólico. Esse modelo é muito parecido ao que fazem as empresas de marketing multinível, conhecidas popularmente por pirâmide. De acordo com ele, a igreja deve ser dividida em pequenos grupos, chamados células, contendo cada uma um líder, que reúne seus liderados semanalmente na casa de um deles, para ensiná-los de acordo com um roteiro pré-estabelecido e, assim, formar novos líderes para que surjam novas células a partir dali.

Túlio Gustavo, autor do texto, em uma pregação.
Túlio Gustavo, autor do texto, em uma pregação.
Foto: Arquivo pessoal/Túlio Gustavo

Não é nenhuma novidade que ocorram reuniões de cristãos em suas casas. Sempre existiram cultos em lares na história da igreja evangélicas. A novidade é que o MDA – e modelos semelhantes como o G12, o Governo dos 12 – monta essa estrutura de evangelismo baseada numa necessidade de produção de resultados, sujeição de seus membros a rígidas regras de hierarquia e disciplina. Além disso, todos os líderes têm de participar de um retiro espiritual chamado Encontro com Deus.

No retiro, são realizadas técnicas com forte apelo emocional com estímulos ao arrependimento, perdão, “quebra de maldições”, prosperidade, libertação, cura interior e, ao final, quando todos estão absolutamente sensibilizados e comovidos, apresenta-se a visão MDA como o modelo de igreja a ser seguido.

Ninguém que participa tem autorização para revelar aos outros o que acontece no encontro. O que funciona, na verdade, como uma baita propaganda – quem participa apenas espalha para os outros que o que acontece nos retiros “é tremendo”, o que só desperta curiosidade. Assim, quando a transição já se afunilava demais e eu era um dos poucos que resistia à ideia, acabei topando participar. Ainda que de forma indireta, existia uma pressão para que todos participassem. Se eu não fizesse, chegaria o momento no qual eu não poderia estar mais nas atividades de púlpito (cantar e pregar), que eram coisas que eu amava fazer.
Antes de sair, disse aos pastores: “eu tenho certeza que isso vai ‘funcionar’. É uma excelente ferramenta de marketing e foi feito pra dar certo. Mas não acho que seja isso que Jesus queira que façamos.”
De fato, pode ser uma experiência que impressione a quem se deixa envolver emocionalmente. No início do evento, existe um ritual de silêncio, que motiva uma certa introspecção e evita a troca de opiniões que possam distrair os participantes. O que é uma sacada inteligentíssima, principalmente para segurar os crentes mais “cascudos”, que estão sempre desconfiados. O evento se resume a palestras com forte apelo emocional, para no final te dizer: “viu como tudo isso foi legal? É a visão MDA que a gente tem que seguir e espalhar pra todo mundo!”

Por convicções pessoais, nunca acreditei que fosse aquele o jeito certo de fazer as coisas na igreja. Era tudo muito roteirizado e com muitas táticas que me faziam sentir estar vendendo alguma coisa ao invés de estar pregando a fé. Incomodava-me muito, principalmente, a rigorosa hierarquia criada entre discípulos e discipuladores. Resisti o quanto pude mas, por ser um membro influente na congregação, tendo acesso aos bastidores e a ministrar no púlpito, além de amigo de muita gente, larguei a igreja para evitar um mal-estar maior. Parei de ir aos cultos. Voltei à vida normal.

Mas antes de sair, lembro como fosse hoje o que disse aos pastores: “eu tenho certeza que isso vai ‘funcionar’. É uma excelente ferramenta de marketing e foi feito pra dar certo. Mas eu não acho que seja isso que Jesus queira que façamos”.

Tentei depois fazer parte de outra denominação mais tradicional, mas o rigor nos costumes, como o jeito de vestir e o excessivo conservadorismo do ponto de vista das estruturas sociais, em constante conflito com a minha visão e posicionamento político, foi me deixando cada vez mais distante, até que se tornou insuportável ouvir alguns discursos sem que aquilo me fizesse mal, ainda que também tivesse sido muito bem recebido por lá.

Como eu previa, as igrejas que se utilizam desses modelos de “discipulado” vêm crescendo cada vez mais, como é o caso da própria Igreja Batista da Lagoinha, e aumentado seu espectro de influência em diversos setores da sociedade. Somando os avanços desse movimento ao grande poder dos canais de comunicação religiosos, não há outro caminho senão considerar como verdadeiros atos políticos as manifestações de Damares, Macedos, e Felicianos e Malafaias.

Os montes da sociedade

As afirmações da nova ministra “Não é a política que vai mudar esta nação, é a igreja” e “É o momento de a Igreja governar”, extraídas de sermões religiosos nos anos de 2013 e 2016 – período em que já atuava como assessora parlamentar –  estão se tornando realidade. Sem contar o papel decisivo do voto evangélico nas últimas eleições, no monte do governo e política. Em 2016, o PRB, partido dominado por membros da Universal, elegeu 105 prefeitos, incluindo Marcelo Crivella para a prefeitura do Rio.

No monte da mídia e comunicação, a igreja já exerce influência desde as concessões das rádios gospel que foram fundamentais para levar (e manter) no poder nomes como o de Anthony Garotinho, Eduardo Cunha e Arolde de Oliveira. Um estudo da Ancine constatou que 21% da programação da TV Aberta no Brasil em 2016 era de conteúdo religioso.

Quando Damares diz que, no governo Bolsonaro, “meninas seriam chamadas de princesas e meninos de príncipes”, e que “meninas vestiriam rosa e meninos azul”, como metáforas para ilustrar seu posicionamento avesso ao que chama de ideologia de gênero, estamos diante, na verdade, de uma demonstração da intenção de dominar o que eles chamam no livro de monte das artes e do entretenimento.

Conforme esclarecido pelo apóstolo Fernando Guillen, este monte diz respeito a tudo que envolve
“Música, artes, esportes, pintura, escultura, dança, fotografia literatura, poesia, dramatização, teatro, filmes, roupas e vestuário, design, cores, vídeo games, ou seja, tudo o que expressa a criatividade e beleza de Deus, que é usado pela sociedade para celebrar, entreter ou para desfrutar a vida”.
Trata-se, portanto, de uma evidente intenção de adequar elementos culturais de uma sociedade ao que entende por princípios cristãos. Veja a crescente produção de novelas e filmes voltados ao público gospel, e exemplos como as Nights Gospel voltado para jovens, e Cultos à Fantasia para servir de contraponto ao Dia das Bruxas.

A princípio, não é nenhum problema que determinado segmento social se comporte, se vista ou se entretenha conforme o que aprecia ou acredita. É até bem normal que as coisas sejam dessa forma. O problema é querer que essa forma de ser seja a única válida e universal e lançar mão de censura a manifestações artísticas que não se enquadram nas regras cristãs como tem sido feito com o carnaval no Rio de Janeiro, com o corte de subvenções das escolas de samba, e medidas que cerceiam as liberdades individuais e não reconhecem o direitos das minorias.

No âmbito da família, que inclusive integra o nome da pasta ocupada pela ministra, a visão do livro é a de que existe certa hierarquia conjugal entre homem e mulher que seria instituída por Deus:
“Mulheres emergirão no ministério, um poderoso exército de mulheres que entendam a importância de respeitar a ordem sacerdotal do varão, serão levantadas com muita ousadia e poder.” (pág. 131)
Não se sabe ainda o tipo de políticas públicas que se pretende com a criação desse Ministério da Família, mas é importante notar que a ministra Damares já disse que “mulher nasceu pra ser mãe”, e que se preocupa com a ausência da mulher na casa, além de fazer questão de afirmar que é “feminina e não feminista”.

No que tange à ciência e educação, sem entrar no mérito das especulações que rondam o novo governo, imbuídas de anticientificismo e avessas ao debate crítico em sala de aula, o livro do apóstolo Fernando Guillen aborda o tema da seguinte forma:
“A educação, próxima da religião cristã, é um elemento indispensável das instituições republicanas, a base sobre a qual os governos livres devem se apoiar. O Estado deve se apoiar na base da religião, e deve preservar esta base, ou ele mesmo irá ruir. Mas o suporte que a religião dá ao Estado irá obviamente terminar no momento em que a religião perder seu alcance na mente do povo. O próprio fato de que o Estado precisa da religião como um suporte para a sua própria autoridade exige que alguns meios para o ensino da religião sejam empregados. O melhor que se pode fazer é desistir das instruções de que a religião não deve ser ensinada em suas escolas.” (pág. 175)
Note como o discurso no livro é alinhado com as declarações de Damares quando ela diz que a igreja teria perdido espaço nas escolas quando “deixou” que a teoria da evolução entrasse sem questionar a ciência. Assim, travestidos de uma luta contra uma inexistente doutrinação marxista nas escolas, os interesses por trás do programa Escola sem Partido, com amplo apoio da ala conservadora da sociedade, o que inclui os evangélicos, têm o cunho de eliminar o debate crítico e progressista, baseado em crenças humanísticas das salas de aula, e podem abrir espaço para implantação de métodos de ensino baseados numa cosmovisão cristã, e significar um danoso retrocesso científico a longo prazo.

O fator Melquisedeque

Note também que ao mesmo tempo que Jair Bolsonaro defende a “integração dos índios à sociedade” – como se os índios precisassem se adequar ao homem urbano e não fossem gente –, de rever a demarcação das terras indígenas e de enfraquecimento da Funai, a nova ministra dos Direitos Humanos demonstra uma grande preocupação em alcançar esses povos indígenas e resgatar os que precisam de ajuda.

Mas que ajuda é essa?

Ao final de seu discurso de posse, Damares, que no início se autointitulou “terrivelmente cristã”, fez referência ao “Grande Tupã”, uma demonstração que pareceu ser de tolerância à cultura dos povos indígenas. Mas não se engane. Curiosamente, foi exatamente essa, a de fazer alusão ao Deus Cristão. uma das ferramentas dos primeiros jesuítas na catequização dos índios.
A agenda do novo governo pode estar abrindo espaço para um novo movimento de catequização de indígenas em pleno século 21.
Essa é uma estratégia de evangelização que missionários cristãos chamam de “Fator Melquisedeque”. Baseada numa tese desenvolvida por Don Richardson, num famoso livro que leva o mesmo nome, acredita-se que Deus tenha preparado todos os povos para receberem o evangelho através de uma revelação geral que serviria de base para receber a revelação especial que é a do cristianismo.

O exemplo bíblico que embasa a tese é extraído de uma passagem no livro de Atos dos Apóstolos 17.22-23, onde o apóstolo Paulo prega aos gregos em Atenas que cultuavam em um altar que era dedicado a um “deus desconhecido”. Na passagem, Paulo se aproveita da expectativa dos atenienses em saber quem era o “deus desconhecido” e lhes apresenta o evangelho de Jesus Cristo.

As boas intenções de Damares para com os indígenas precisam ser observadas com muito cuidado – sob a roupagem de trabalho humanitário, explorando o tema do infanticídio de crianças indígenas, que gera comoção pública, a agenda do novo governo pode estar abrindo espaço para um novo movimento de catequização de indígenas em pleno século 21.

O neopentecostalismo cultural

É importante frisar, que a grande maioria das pessoas que chega às igrejas evangélicas sequer se dá conta da interferência dessas relações de poder da igreja na sociedade. Geralmente, as pessoas procuram a igreja para se sentir acolhida e encontrarem alguma esperança em meio ao caos que pode ser na sua intimidade, vida financeira, relações com a família etc.

Lembro-me de uma vez indagar um pastor muito íntegro sobre por que ele apoiava um candidato à prefeitura de reputação conhecidamente péssima. De um modo puro, ele me respondeu: “Ele está aqui próximo da gente. Posso entrar em contato com ele facilmente pra ajudar um irmão a conseguir uma internação ou o enterro de alguém. Infelizmente, a nossa comunidade têm necessidades desse tipo e ele pode nos ajudar.”

Recentemente, membros da bancada evangélica se manifestaram com grande entusiasmo sobre o posicionamento pró-Israel do governo por acreditar ser esse um dos sinais do Apocalipse. Tenho certeza que muitos crentes sequer se dão conta de todas as circunstâncias que envolvem o conflito árabe-israelense e não estão pensando no assunto sob a ótica da política externa. Eles só sabem que Israel é o “povo escolhido”, então deve ser bom apoiá-lo.

Minha crítica não é aos crentes nem ao cristianismo. Na verdade, eu vivi alguns dos momentos mais felizes e importantes da minha vida dentro da religião, fiz grandes amigos e o interesse na leitura depois da conversão foi fundamental pra me motivar a voltar a estudar e ter conseguido passar num dos vestibulares mais difíceis e concorridos do país, que é o do Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a UERJ, onde devo me formar neste ano.

Esse não é o manifesto de uma alma magoada, muito pelo contrário. É um desabafo de preocupação de alguém que é grato e não gostaria de ver a religião sendo usada para fins distintos daquilo que entendeu pela mensagem do evangelho do Cristo, que é levar fé, esperança e amor e não domínio sobre os homens.

Aliás, essa é a lição bíblica da Torre de Babel (Gênesis 11). Quando Ninrode quis construir uma estrutura “que chegasse aos céus” para governar sobre os homens de modo que todos estivessem no mesmo lugar e falassem a mesma língua, Deus não se agradou, e espalhou todos e confundiu suas línguas.

Entendo que o proselitismo é um dos fundamentos do cristianismo. Desde sempre, é uma crença que se propõe a conversão de outras pessoas. O que, a princípio, não é nenhum problema, desde que não se utilize de mentiras, abusos ou violência. Também entendo que é até natural que a representação política de determinado segmento da sociedade aumente se a população que a ele pertence também aumenta de forma expressiva. Mas a laicidade do Estado precisa ser respeitada para que violações dos direitos das minorias não sejam legitimadas em nome de uma imposição moral de viés religioso.

Dentre as muitas comparações possíveis feitas com a figura do presidente Jair Bolsonaro, espero que não estejamos diante de uma espécie de Imperador Constantino do século 21 responsável pela neopentecostalização da República. Quanto a Damares, não a menosprezem. Ela sabe muito bem o que quer dizer.

Tulio Gustavo
No The Intercept
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O pedido de prisão do irmão do vice-governador e o maior escândalo de corrupção de SP desde Maluf e Pitta

Eles
Rodrigo Garcia, vice-governador e homem forte de João Doria em São Paulo, veio a público neste fim de semana para afirmar que o fato de seu irmão estar foragido da Justiça após condenação por corrupção no caso da máfia do ISS paulistano é “assunto de foro íntimo”.

“A Constituição e a lei são para todos”, despistou. “Essa é uma questão de família”.

Não, não é.

É uma questão de Estado, inclusive porque envolve o principal aliado político de Rodrigo Garcia, o ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que sequer tomou posse como secretário da Casa Civil do estado por conta dos processos que responde no âmbito da Lava Jato.

As investigações sobre a máfia do ISS, o maior escândalo municipal desde a Operação Água Espraiada nas gestões Maluf e Celso Pitta, mostram que funcionários da prefeitura, liderados pelo ex-subsecretário de Finanças do prefeito, cobravam propina de empreiteiras em troca de descontos em impostos das obras.

O cabeça do esquema era Ronilson Rodrigues. Além do subsecretário de Finanças, no núcleo duro do esquema atuavam o ex-fiscal Fabio Remesso e Marco Aurélio Garcia, irmão do vice-governador que se responsabilizava por locar salas comerciais no centro da cidade para Ronilson fazer reuniões diárias.

Os desvios ultrapassam R$ 500 milhões, segundo a promotoria. Mais de 400 inquéritos e 24 processos foram abertos.

Marco Aurélio Garcia teve a prisão decretada na semana passada, mas não foi localizado.

Suspeita-se que tenha fugido do país, por isso o MP estadual acionou a Interpol para encontrá-lo.

O vice-governador disse na coletiva à imprensa que não sabe onde o irmão está, tampouco se vai se entregar à polícia.

Ronilson Rodrigues se apresentou aos policiais na sexta (1) e Fábio Remesso também está foragido.

Os três foram condenados em segunda instância pela 4ª Câmara Criminal do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) –  a prisão foi expedida após esgotarem-se os recursos possíveis.

A máfia do ISS foi descoberta no final de 2013 após aperar por seis anos, desde 2007.

Segundo a denúncia, em troca de propina empreiteiras obtinham descontos no pagamento do ISS (Imposto sobre Serviços) para a concessão do Habite-se pós-conclusão de obras imobiliárias.

A investigação surgiu da “incompatibilidade material do patrimônio dos fiscais”, que ganhavam entre R$ 15 mil e R$ 18 mil, mas tinham patrimônio avaliado em até R$ 25 milhões.

Para o promotor Roberto Bodini, é “impossível que esse grupo tenha operado e tenha agido durante todo esse tempo sem que tivesse o apoio político para que isso funcionasse.”

Rodrigo Garcia e Gilberto Kassab formam uma das mais antigas e bem sucedidas parcerias da história recente de São Paulo.

Se juntaram em 1996, no governo de Celso Pitta na prefeitura, com Kassab no comando da secretaria de Planejamento e Rodrigo como seu chefe de gabinete.

Já neste período foram alvos de inquérito na Promotoria de Justiça da Capital – apurou suposto enriquecimento ilícito de ambos, mas a investigação acabou arquivada por falta de provas.

Em 1998, iniciaram a ascensão eleitoral, quando se elegeram, respectivamente, deputados federal e estadual, com um jingle que grudou como chiclete no imaginário do eleitor.

“Quem sabe, sabe, vota comigo, federal é Kassab, estadual é Rodrigo.”

Desde então, trilharam uma carreira meteórica tanto política quanto empresarial.

Foram sócios em empresas de transporte, gráfica, construção civil e pecuária.

Quando assumiu a prefeitura da capital, em 2007 após a renúncia de José Serra (PSDB), Kassab criou uma secretaria, a de Desburocratização, para abrigar o amigo.

O relacionamento entre os dois teve uma pequena interrupção em 2010, quando Kassab criou o PSD, mas retomou com força no segundo semestre do ano passado, quando se juntaram de novo para ajudar na candidatura de João Dória ao governo do Estado.

O plano do gestor foi interrompido pela Lava Jato –  está no pé de Kassab.

A ideia de Dória, para que tivesse tempo de articular nacionalmente sua candidatura à presidência em 2020, era concentrar a articulação política do governo nas mãos do ex-prefeito e ministro das Comunicações e Tecnologia de Temer, com Rodrigo cuidando da zeladoria do estado.

O plano acabou interrompido pela Lava Jato e agora sofre novo revés, com a prisão do ex-subsecretário Ronilson Rodrigues e a Interpol na cola de Marco Aurélio Garcia.

Como se pode observar, ao contrário do que diz o vice-governador do estado, o caso nem de longe lembra questão de foro íntimo.

É decorrência de uma investigação longa sobre uma operação planejada dentro da própria prefeitura e que pode implicar muito mais gente.

José Cassio
No DCM
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Erros de escrita, propositais ou não. Pixuleco é inflável ou inFlávio?

Erros ou problemas de escrita costumam ser tratados apenas sob a ótica da lei. Como se errar uma grafia significasse não ter conhecimento. Longe de apoiar o vale tudo, é preciso entender o fenômeno


A escola – mas também outras instituições, entre elas a imprensa – trata os erros, ou os problemas de escrita, a partir de uma única ótica: a da lei, isto é, dos decretos ou acordos que impõem uma e só uma forma de grafar as palavras.

Em geral, há também uma quase fobia, um exagero enorme em relação a sua importância, como se errar uma grafia significasse ausência total de conhecimento ou, pelo menos, de conhecimento da língua. Importa pouco, para tal viés, se a sintaxe e a morfologia vão bem. O que importa é a grafia.

Que não se leia isso como apoio ou defesa do que alguns chamam de “vale tudo”. Pelo contrário: trata-se de compreender o fenômeno, sem o que nem se saberia como ensinar...

Assim, só determinados erros são vistos e sua explicação é baseada no dicionário ou no último acordo. Mas há outros erros, que os estudiosos analisam, e que revelam fenômenos interessantes, mais interessantes do que aqueles que o sistema prevê. 

Consistem em (a) escolher letras com base na pronúncia real, seja ela regional, seja ela de base social, que afeta de maneira diferente os ricos e os pobres. Exemplos são as “trocas” de U por L; de E por I, de O por U, e vice-versa, casos que a sociolinguística explica muito bem; e em (b) escolher representações divergentes da norma que a psicolinguística explica, tais como separar palavras com base em algum critério, em uma análise intuitiva – (um) a gente –, ou juntar palavras (serumano), também segundo critérios relevantes e muito interessantes; e (c) errar propositalmente, para produzir determinados efeitos.

A escola só trata de problemas previsíveis a partir do sistema. Os exercícios são para fixar grafias com J ou com G, com S ou SS, SC, Ç, X, XC..., com H ou sem, com X ou com CH etc.

Mas os erros derivados dessa inconsistência do sistema ortográfico são menos de metade dos que ocorrem de fato. A outra metade, ou mesmo a maior parte, conforme a classe social e o grau de escolaridade, decorre de “problemas” que surgem de pronúncias locais, e afetam mais os alunos pobres, da zona rural ou das periferias das cidades (frequentemente de origem rural), porque sua língua materna é uma variedade distante da urbana predominante.

Grafias como mininu e curuja são comuns e deveriam ser consideradas “normais”, no sentido de previsíveis, esperados, na pena de escreventes com pouca experiência de escrita. Por isso, ocorrem tanto na escola quanto nas atividades de adultos que escrevem, embora tenham domínio precário da escrita.

Uma palavra como “peixe” apresenta dois problemas ao aprendiz: escrever com “x” ou com “ch”, e escrever com “i” ou sem, já que a pronúncia mais comum é pexe. Algo parecido se pode dizer de “faltou” (faltô), “começou” (começô). Observe-se que ninguém erra a grafia desses ditongos em palavras como “peito” e “oito”, porque elas não apresentam variações de pronúncia.

É instrutivo verificar que, antes de haver regras de uniformização da escrita, esta era variável e os fenômenos que hoje se encontram entre alunos no começo de sua vida escolar e/ou em adultos pouco letrados ocorriam na escrita dos especialistas como os gerais de ordens religiosas ou os cronistas da corte.

A palavra “imprimir”, por exemplo, ocorre com duas grafias (imprimir e emprimir) no documento que libera a impressão de Os Lusíadas, de autoria de Frei Jorge, que foi figura importante na Inquisição – e conhecedor da escrita... A variação da grafia permite uma hipótese não banal em relação à variação de pronúncia do “e” em posição átona já no século 16.

Em tempo: é importantíssimo verificar que as “trocas” de letras ocorrem em posições bem definidas: e/i e o/u são fenômenos que só se dão em posição átona (ninguém diz ou escreve voci (você) ou tinho (tenho); l/u, só ocorre em final de sílaba – autura (altura), locau (local); l/r, só em final – carça (calça) – e em meio de sílaba – craro (claro) etc.

Finalmente, também se pode “errar” propositalmente, para produzir certos efeitos, demandar interpretações. Quando Elio Gaspari fala dos çábios (do governo), pretende que o leitor entenda que essas figuras falam, pensam e fazem bobagens, coisas erradas, coisas de bobos. Quando Paulo Henrique Amorim escreve Fe-lha, escolhe essa forma para sugerir que o jornal que se chama Folha é pouco sério, erra ou é comprometido.

É ainda ele que se refere a uma jornalista como colonista (em vez de colunista), explorando a semelhança entre as duas palavras, derivando esta palavra de coluna e a outra de cólon... (cólon é parte do intestino grosso; assim, sugerem-se certos efeitos...)

O mesmo blogueiro refere-se frequentemente à Justissa, e não à Justiça, implicando que ela é pouco justa, uma justiça fajuta.

Enfim, a grafia não é uma arena na qual se disputa apenas o certo e o errado, mas um espaço de jogos mentais que podem ser sofisticados e investidos de significação. Especialmente quando são propositais.

O Enem podia incluir a questão em suas preocupações.

* * *

Todos sabem da circulação de um boneco inflável representando Lula em nossa história política recente. Um dado essencial: ele estava vestido como um presidiário.

Em “Placas do Meu Brasil”, que permite encontrar erros ortográficos variados, que fazem a diversão de muitos (dos que não sabem analisar), encontra-se a grafia inflaveo para “inflável” – que se explica pelas variações de L e U em final de sílaba e de U e O em final de sílaba final átona.

Juntando as duas informações, pode-se interpretar de forma segura a circulação de um boneco similar, chamado “inflávio” ou “inFlávio”.

Sirio Possenti, é professor do Departamento de Linguística da Unicamp
No RBA
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Nova OAB peitará fascistização de Bolsonaro?

Na última quinta-feira (31), o conselho federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) elegeu Felipe Santa Cruz como novo presidente da entidade. De imediato, toda a imprensa destacou que o advogado é filho de um militante assassinado durante a ditadura militar e que já comprou várias brigas contra o ex-deputado e atual presidente Jair Bolsonaro. Ele presidiu a OAB do Rio de Janeiro por dois mandatos e comandará o órgão nacional até 2022, substituindo o paquidérmico oportunista Cláudio Lamachia, que apoiou a cruzada golpista contra Dilma Rousseff e nada fez contra a quadrilha de Michel Temer.

Conforme o perfil publicado na Folha, o novo presidente da OAB “é filho de Fernando Santa Cruz, militante de esquerda e desaparecido político desde março de 1974. De acordo com o delegado Cláudio Guerra no livro ‘Memórias de uma Guerra Suja’, o corpo dele foi queimado na Usina de Cambahyba, na região de Campos, norte do Rio. Esse histórico, inclusive, fez com que Felipe se opusesse a Jair Bolsonaro, então deputado federal. A desavença começou em 2011, quando, numa palestra na Universidade Federal Fluminense, disse que Fernando Santa Cruz ‘deve ter morrido bêbado em algum acidente de carnaval’. Em 2016, Felipe pediu a cassação do mandato do deputado por ‘apologia à tortura’, após o parlamentar ter, durante votação do impeachment de Dilma Rousseff, homenageado o coronel Carlos Brilhante Ustra, que comandou o DOI-Codi em São Paulo. À época, Felipe afirmou que a imunidade parlamentar não poderia ser usada para ‘salvaguardar atitudes criminosas’”.

Já a revista Época revela que uma das primeiras medidas de Felipe Santa Cruz será a criação do Observatório da Liberdade de Imprensa, “para zelar pela livre atuação dos jornalistas no país e criar parcerias para garantir a segurança do exercício da profissão”. A iniciativa não deve agradar muito ao censor Jair Bolsonaro e aos seus aspones, que têm destilado veneno contra os jornalistas e não escondem o seu ódio visceral à liberdade de expressão. Diante do grave risco de fascistização do país, muita gente se animou com o novo presidente da OAB – entidade que teve destacado papel na luta pela democratização do Brasil e que na fase recente sofreu uma impressionante guinada à direita e à estagnação. A conferir! Confesso, porém, que não boto muita fé!

Altamiro Borges



Novo presidente da OAB dá um chega pra lá em Moro!

Santa Cruz: aceitar ser Ministro do Bolsonaro foi um erro histórico!


Do Globo Overseas (empresa que tem sede na Holanda para lavar dinheiro e subornar agentes da FIFA com objetivo de ter a exclusividade para transmitir os jogos da seleção):

'Nosso papel é defender lei que protege as minorias’, diz presidente da OAB

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, diz que não acha que o governo do presidente Jair Bolsonaro coloca em risco as minorias. Santa Cruz ressalta que é um governo eleito democaraticamente, que responde aos mesmos limites de todos os governos, e que o papel da OAB "é mostrar que existe legislação que protege as minorias e defender essa legislação". Recém-eleito para um mandato de três anos, Santa Cruz é contra prisão após segunda instância, porque "Estado persecutório já tem força demais’. Leia a entrevista:

O senhor e o presidente Jair Bolsonaro já tiveram embates públicos. Como será a relação da OAB com o governo?

Não vejo problemas, nem conheço o ex-deputado e hoje presidente. As vezes em que fiz intervenções, foi como um filho que tem o instinto de defender a memória do pai (desaparecido na ditadura). É uma crença minha que, por mais que possamos corrigir a leitura da história, não podemos torcê-la a ponto de transformar a ditadura militar em algo aceitável.

O governo Bolsonaro coloca em risco as minorias?

Não. Acho que é um governo democrático, eleito, que tem toda legitimidade, mas que responde aos mesmos limites de todos os governos. Os excessos, as falas políticas, que são compreensíveis, serão mitigadas pelo debate. Nosso papel é mostrar que existe legislação que protege as minorias e defender essa legislação.

Como a OAB atuará em relação ao pacote de segurança de Moro?

Não há objeção no avanço do controle da impunidade. O país precisa disso. Mas, se vamos importar institutos internacionais, também devemos importar institutos que permitam o exercício da defesa. É natural que o pêndulo tenha derivado para um lado, porque havia uma demanda reprimida por uma impunidade histórica do Brasil. Agora é preciso trazê-lo de volta, senão vamos criar um país onde o ideal é a eliminação de toda e qualquer atividade que entre em divergência com esse Estado todo poderoso.

O Estado sacrificou o direito de defesa na Lava-Jato?

Em muitos momentos, sim. Não pode haver vazamento, é sagrado o direito de defesa. Exorbitamos nas prisões preventivas e na politização dos processos.

Lula afirma que é um preso político. O senhor concorda?

Hoje acho que não, mas a história pode vir a julgar. Se Lula foi preso político ou não, injustiçado ou não, saberemos com o trânsito em julgado. Obviamente que, por se tratar de um ex-presidente, há uma profunda leitura política dos fatos.

Moro condenou Lula à prisão quando era juiz e hoje é ministro de um governo que talvez não seria eleito se Lula estivesse solto. O senhor acha legítima a atuação de Moro?

É um erro, um equívoco histórico, mas é um direito dele. É uma escolha legítima, legal, mas equivocada. Para o processo que o Brasil viveu, o ideal era que ele não tivesse migrado para o Executivo. O processo ainda está em andamento, e ele virou, bem ou mal, símbolo dele.

A credibilidade dele ficou abalada?

Só tenho motivos para achar que é um homem sério e comprometido, mas a migração dele para política, à luz da história, causa danos, como causou concretamente nos processos da Operação Mãos Limpas, na Itália.

O STF decidirá de forma definitiva a possibilidade de prender condenados em segunda instância. Qual a sua posição sobre o tema?

O tema é polêmico e cabe a discussão sobre isso. O que não posso, como voz da defesa, é flexibilizar o texto constitucional. O Estado persecutório já tem força demais. Por mais que eu leia a Constituição Federal, não consigo ter a leitura que não seja o trânsito em julgado das ações como o momento de cumprimento das penas. Estarei na tribuna defendendo a Constituição.

O senhor já foi filiado a PT e MDB. Acredita que pode ser alvo de ataques por isso?

Cresci na redemocratização. Como todo jovem, tive minhas paixões políticas. Mas comecei a participar da vida política no PSDB. Meu tio foi fundador, e eu fiz a campanha de 1990 do advogado Técio Lins e Silva a senador. A criminalização dos partidos é o que pode nos deixar sem saída. Eu não conheço nenhuma forma de resolver conflito que não passe pela reorganização dos partidos e dos seus pensamentos.

O TCU decidiu que a OAB deve submeter suas contas à fiscalização do órgão. Como vai abordar esse tema?

Não teria nenhuma preocupação com o TCU, mas o Supremo fala algo muito relevante. A OAB é o lugar onde a sociedade civil busca proteção, muitas vezes oposição aos poderes do Estado. Dar controle das atividades da OAB a um braço do Legislativo seria, indiretamente, subjugar o que há de mais independente na nossa identidade. Eu realizo congressos de meio ambiente, direitos humanos. Vamos começar a discutir com órgãos do Estado se isso é o fim que a Ordem deve dar à sua receita?

A OAB deve cassar registros de advogados envolvidos em escândalos?

Deve ser dura, com a garantia do contraditório e da defesa. Advogado que fica com dinheiro do cliente e que serve de pombo correio para o narcotráfico não é advogado. Estamos evoluindo nisso, mas não podemos ser casa de ferreiro, espeto de pau. Temos que garantir processos justos. O acusado, e às vezes a opinião pública não entende isso, tem direito a um advogado.

No CAf
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Reportagem transfóbica do Fantástico recebe enxurrada de críticas




Em mais uma reportagem abordando de forma policialesca o tema da transexualidade, a última edição do Fantástico, deste domingo (3), deu o que falar nas redes sociais. Desde o início do programa, as chamadas para a reportagem anunciavam o “segredo” de Lourival Bezerra em um tom dramático, revelando durante a matéria que se tratava de uma pessoa transexual – ainda que a reportagem não utilizasse esse termo. “Divergência de gênero”, foi a explicação dada aos telespectadores pelo agente policial.

Os usuários das redes sociais não perdoaram. Uma série de falhas e descuidos foram apontados por internautas ainda no decorrer da reportagem, especialmente por pessoas transexuais, apontando de forma séria a abordagem transfóbica pela equipe do Fantástico. Entre alguns erros, destacaram a exposição de Lourival que durante 50 anos preferiu não revelar à família, tampouco ao mundo, seu sexo biológico. Em diversos momentos, inclusive na manchete divulgada no portal do G1, a matéria tratou Lourival pelo sexo feminino, desprezando sua identidade de gênero.

Além disso, a reportagem ouviu familiares e instituições públicas (médicos legistas, hospitais, policiais) que de forma lúcida trataram o caso de forma bastante transfóbica. Contudo, em nenhum momento a matéria do Fantástico aprofundou o tema da transexualidade com especialistas do tema. A narrativa conduzida pelo programa da Rede Globo, ainda de forma “dramática” como apontada pelos internautas, abordou a transexualidade como uma patologia séria que traz infelicidades à família e a quem convive com pessoas transexuais. Há mais de 28 anos, Organização Mundial da Saúde deixou de classificar transexualidade como doença mental.

Veja os comentários exibidos no Twitter durante e após a reportagem:

























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