2 de fev. de 2019

Isso a Globo esconde: Jogo de Linguagem


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A ameaça simbólica de Lula e a Síndrome de Brian da esquerda


“Covardia!”, “desumanidade!”, “barbárie!”. Assim reagiu a esquerda, chocada com a proibição de Lula (prisioneiro há nove meses) participar do velório do seu irmão em São Bernardo do Campo/SP. Até a ditadura militar autorizou que Lula fosse ao velório da mãe, em 1980!, acusa inconformada a esquerda. A Polícia Federal apresentou seis motivos para não conceder o benefício. Em cada um deles, está a evidência de que o atual oponente da esquerda não são mais os toscos militares da ditadura que, ironicamente, permitiam até gestos humanitários. Agora há um atento e utilitarista cálculo dos riscos na guerra semiótica: as repercussões simbólicas de Lula repentinamente aparecer em público, diante das lentes das câmeras. PF e Judiciário são mais zelosos com a ameaça simbólica de Lula do que a esquerda jamais foi – entregou de bandeja sua maior arma semiótica, agora condenada à invisibilidade. Enquanto isso, convive com a sua autoindulgente “síndrome de Brian” (relativo ao filme "A Vida de Brian" do grupo de humor Monty Python), imaginando ainda estar enfrentando os velhos inimigos toscos do passado.

Desde que os nazistas atrelaram uma sirene nos aviões bombardeiros de mergulho chamados Stuka, a guerra convencional tornou-se uma batalha semiótica. Enquanto davam voos rasantes e soltavam bombas, o indefectível uivo dos Stukas assombrava toda a Europa.

O projeto Stuka (criado pelo ás da Primeira Guerra Mundial, Ernst Udet, que trabalhou como assessor cinematográfico em Hollywood) foi uma evidência da transformação da guerra tradicional em guerra total (“blitzkrieg”): apenas bombas explosivas que causam morte e destruição não eram suficientes. Era necessário que sobreviventes carregassem para o resto das suas vidas o trauma e o horror em suas mentes – bombas simbólicas de efeito eterno. Assim como o cinema e o audiovisual.

Esse caráter semiótico de todas as guerras (desde a bélica militar até as batalhas jurídicas, midiáticas ou de propaganda) também está evidente nos seis pontos alegados pela Polícia Federal contra a autorização de Lula (prisioneiro na PF de Curitiba desde o ano passado) ir ao velório do seu irmão em São Bernardo do Campo/SP.

Estes foram os motivos alegados: fuga ou resgate de Lula; atentado contra a vida; atentado contra agentes públicos; comprometimento da ordem pública; protestos de apoiadores de Lula; protestos de grupos contrários a Lula.

Estariam preocupados com a integridade física do prisioneiro e agentes públicos? Estaria a PF tensa com a possibilidade de uma fuga espetacular do prisioneiro? Entretanto, esses seis motivos apresentados são meros álibis. A verdade está em uma outra cena: a simbólica.

Guerra semiótica: o mergulho do Stuka sob o uivo das sirenes que assombraram a Europa
O risco Lula

Em cada um desses seis motivos alegados está presente o cálculo dos riscos simbólicos de um personagem como Lula (preso há nove meses, proibido de conceder entrevistas e com visitas restritas) repentinamente aparecer em público, diante do foco das câmeras.

Principalmente nesse momento de comoção com o genocídio provocado pela Companhia Vale em Brumadinho/MG, enquanto o staff do Governo Bolsonaro bate cabeça e o próprio líder está internado no hospital Albert Einstein. Paralelo, a grande mídia cada vez se mostra mais interessada em dar destaque às opiniões do vice General Mourão do que aos arroubos do presidente.

Em todos esses últimos anos de Lava Jato, com os sucessivos nomes criativos das operações da PF para batizar cada show de meganhagem ao vivo na TV, é evidente que o Judiciário está muito consciente da natureza semiótica da atual guerra política brasileira. E, por isso, tem em mente que o simbolismo de Lula se tornou maior do que o próprio PT, partido que ajudou a fundar.

Enquanto, quase diariamente, algum ministro do atual Governo vem nas redes sociais para colocar a culpa de qualquer mazela no PT, no comunismo ou no socialismo (o chefe da casa civil, Onix Lorenzoni, chegou a colocar a culpa pela tragédia de Brumadinho no PT, apesar da Vale ter sido privatizada na Era FHC), o nome Lula é mantido em silêncio. Como se o líder político tivesse desaparecido da face da Terra.

Lembrando a velha máxima: “o que os olhos não veem, o coração não sente”. Razão pela qual o conjunto PF e Judiciário se mostra muito zeloso com a posse da grande arma simbólica chamada Lula.


Muito mais zeloso do que o PT, que entregou de graça a sua mais poderosa arma na guerra semiótica – com Lula protegido no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, o PT virou às costas para qualquer possibilidade tática de empate ou desobediência civil (ou até mesmo pedido de asilo político), que acabaria por gerar uma grande incidente de repercussão global (era tudo o que a PF não queria), e entregou sua maior arma de bandeja – conscienciosos, meses antes já haviam entregue até o passaporte de Lula na PF... – clique aqui.

A reação “Síndrome de Brian”

“Negaram a Lula o direito mais sagrado!”, “violência jurídica”, “cinismo da juíza Carolina Lebbos”, “covardia do STF”, protesta a esquerda revelando, mais uma vez, aquilo que em postagem anterior esse humilde blogueiro chamou de “Síndrome de Brian”.

Principalmente os fãs da trupe inglesa de humor Monty Python devem lembrar do filme A Vida de Brian (1979) onde o pobre protagonista (confundido com Jesus) vive às voltas com a “Frente Popular da Judéia” que pretende livrar o povo do imperialismo romano, mas tudo o que faz é tentar elevar a moral da própria tropa com incansáveis e burocráticas auto-avaliações e planos que jamais saem do papel.

Mas os atuais protestos contra a “barbárie e falta de humanidade dos carrascos do presidente” lembram também a agressividade passiva da Frente da Judéia, cujos membros se auto-vitimizavam, deixando serem presos pelos soldados romanos e gritavam: “VEJAM! VEJAM! Mais um ato violento do imperialismo romano...".

E apontam espantados que mesmo na ditadura militar, em 1980, Lula teve a autorização para comparecer ao velório da mãe.

A questão é que enquanto a esquerda pensa numa perspectiva ética kantiana ou iluminista (a crença na boa vontade e o senso de obrigação moral em relação a direitos universais) a PF e o Judiciário se orientam por uma ética utilitarista de David Hume ou Jeremy Bentham – o moralmente Bom será sempre aquilo que é útil. O princípio utilitarista da guerra semiótica.

"A Vida de Brian": VEJAM! VEJAM! A violência do imperialismo romano...
Durante a ditadura, os militares eram tão “toscos” que até se permitiam a concessões “humanitárias” como a concedida ao prisioneiro Lula em 1980. “Toscos”, porque limitavam-se à guerra convencional – eram como um Stuka jogando apenas bombas, sem sirenes.

Um inimigo muito diferente

Hoje, a esquerda tem diante de si um inimigo muito diferente, porque consciente da importância das armas simbólicas em uma guerra política – principalmente porque foi parida pela guerra híbrida arquitetada pela geopolítica dos EUA. Não é à toa que Bolsonaro volta toda a carga contra a TV Globo: afinal, sabe que a mesma emissora que involuntariamente o criou, pode também defenestrá-lo.

Ao contrário da esquerda, que rifa sua principal arma semiótica (o alto valor político agregado de toda a trajetória de Lula), para depois se auto-vitimizar assim como os impagáveis militantes da Frente de Libertação da Judéia, denunciando a “barbárie” e a “desumanidade” dos algozes.

Talvez a PF e o Judiciário jamais tenham lido Umberto Eco, mas têm faro suficiente para entender, e colocam em prática, a natureza da TV atual que o pesquisador italiano chamou de “neotevê”: “se eu estou transmitindo, então é verdade”, diz a TV. Se a TV não mostrou, logo não existiu – sobre isso, clique aqui.

Se Lula não aparece na tela, logo não mais existe.

Condenado à invisibilidade

Os inimigos da esquerda realizam de forma inversa a tese de Umberto Eco sobre a natureza da atual realidade televisiva. Fala-se que não há vácuo na Política: sempre uma força ocupará o espaço vazio de Poder. Se a esquerda foi negligente com o seu próprio capital simbólico e não aproveitou a oportunidade de transformar a prisão de Lula num acontecimento comunicacional (como as sirenes dos Stukas), o inimigo ocupou o espaço transformando Lula em uma não-evento.

"O Homem da Máscara de Ferro", 1998
Ironicamente, no discurso em frente ao sindicato em São Bernardo diante de sindicalistas e a militância, Lula disse: “não sou mais um ser humano, sou uma ideia”. Mas parece que a direita compreendeu melhor essa tese do que a própria esquerda.

Portanto, Lula deve se tornar a versão brasileira do filme O Homem da Máscara de Ferro (1998) – o prisioneiro que não poderia ser visto porque era o verdadeiro herdeiro do trono da França – o rei Luís XIV mantinha um prisioneiro condenado a esconder para sempre o rosto atrás de uma máscara metálica.

Exatamente por isso, para a PF e o Judiciário, Lula jamais deverá sair da prisão, apesar dos hercúleos esforços do exército Brancaleone kantiano e iluminista formado pelos advogados de defesa.

Os treze anos em que o PT ficou no poder parecem ter afrouxado a perspicácia das esquerdas. Preferem replicar a familiar narrativa da “luta e resistência”, surgida nos tempos em que tinham como oponente uma ditadura militar bruta, sem qualquer familiaridade com firulas semióticas. No máximo, raciocinavam nos termos da propaganda política clássica binária: “Brasil: ame-o ou deixe-o”.

Hoje, simplesmente a esquerda não consegue compreender que seu inimigo se sofisticou: rege-se pela ética do utilitarismo e pelas operações psicológicas e simbólicas – estratégias de criptografia, conjunto de informações dissonantes, controle de categorias etc. Guerra total, análoga ao mergulho atemorizante dos Stuka.

Por trás da “insensibilidade” da juíza de custódia Carolina Lebbos, da “covardia” do STF e da “barbárie” da PF, há um cuidadoso cálculo dos riscos simbólicos de, simplesmente, Lula novamente aparecer para a lentes das câmeras depois de tanto tempo de reclusão.

Além da prisão, Lula foi condenado à invisibilidade.

A esquerda perdeu o timing, e agora se protege na autoindulgente “Síndrome de Brian”.

Wilson Ferreira
No CineGnose
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Reale golpeou a Dilma mas expõe os crimes no bolsonarismo

Bolsomoro também tem dois pesos e duas medidas

A dupla do Golpe canalha: a descabelada e o careca Reale
O Doutor Reale sentou ao lado da Janaína Paschoal para dar o golpe dos canalhas e canalhas.

Foi o jurixta daquilo a que FHC ofereceu a Çosiologia.

Agora Reale dedica-se a envernizar a biografia e esculhamba Bolsonaro, o filho e Bolsomoro:

Ambivalência

O primeiro mês da gestão de Jair Bolsonaro indica as imensas dificuldades vividas pela nova equipe governamental. Essa conclusão não é novidade para quem analisou a carreira do capitão deputado federal, figura irrelevante da Câmara ao longo de 28 anos.

Tratado por mito, Bolsonaro não precisou, ainda mais como vítima de atentado à faca, dizer a que vinha, ausente de todos os debates e limitando-se às poucas palavras cabíveis em mensagens por WhatsApp. Defensor da violência policial, e até mesmo da tortura, era sua marca fazer gestos de revólver ou espingarda, figurando-se como inimigo incansável do crime.

Dois fatos importantes, ligados ao seu campo de preferência, ou seja, ao uso de armas, merecem destaque neste mês: a ligação de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, com o ex-capitão da PM do Rio de Janeiro Aureliano Nóbrega, chefe de perigosa milícia da zona oeste da cidade; e o decreto que ampliou em muito o direito de posse de revólver ou espingarda pelos brasileiros de todo o País.

O vínculo do senador Flávio Bolsonaro com o ex-capitão Aureliano da Nóbrega, líder da milícia Escritório do Crime, constitui dado grave, pois, mesmo preso preventivamente sob acusação de homicídio, Aureliano recebeu, graças a Flávio, então deputado estadual, elevada comenda do Legislativo fluminense, a Medalha Tiradentes, igualmente outorgada ao major Ronald Pereira, outro líder da milícia. A mulher e a mãe de Aureliano trabalharam por anos, até novembro passado, no gabinete de Flávio Bolsonaro. O próprio presidente Bolsonaro na Câmara dos Deputados fez a defesa de Aureliano e exaltou as milícias.

Esses fatos levaram à tergiversação, pois em entrevista à TV a cabo Bloomberg o presidente disse: “Se por acaso Flávio errou e isso ficar provado, eu lamento como pai. Se Flávio errou, ele terá de pagar o preço por essas ações que não podemos aceitar”. Essa manifestação provocou elogios pela imparcialidade ante o erro, a ser punido mesmo que praticado por seu filho.

No entanto, logo em seguida, entrevistado pela TV Record, o presidente claudicou e no pior paternalismo disse sobre o filho: “Ele tem explicado tudo o que acontece com ele nessas acusações infundadas. Não é justo atingir um garoto para tentar me atingir... A pressão enorme em cima dele é para tentar me atingir. Ele esteve com o seu sigilo quebrado, fizeram uma arbitrariedade em cima dele”.

O senador transmuda-se em garoto, menino perseguido para atingir o pai, sofrendo “acusações infundadas”, a mostrar que era apenas breve jogo de cena a correta e digna exigência de sancionar o erro do filho, se constatada sua falta. Próprio da ambivalência do governo durante este mês, passou o presidente de postura corajosa de imparcialidade para mais do que mera defesa do filho, ao adotar o “coitadismo”, desenhando o senador como um garoto envolvido em rede de arbitrariedades e acusações infundadas.

A “luta contra o crime” já serviu para justificar homenagens aos criminosos chefes de milícia. Servirá agora como desculpa para não se investigar o novel senador da República?

No âmbito de pretensa defesa contra o crime, surgiu o decreto presidencial que ampliou a posse de armas, podendo cada brasileiro sem antecedentes deter até quatro armas, constando como condição para aquisição de revólver que o cidadão resida em unidade da Federação cujo índice de violência apresente mais de dez homicídios por 100 mil habitantes no ano de 2016, conforme os dados do Atlas da Violência 2018.

Valeram-se o presidente e sua equipe do Atlas da Violência produzido pela Ipea, mas se ignorou esse mesmo atlas no tocante ao capítulo relativo ao uso de armas, que enfatiza o papel central exercido pelo controle responsável de armas de fogo para a segurança de todos. Tanto é assim que destaca o atlas o aumento vertiginoso do número de homicídios nas Regiões Norte e Nordeste, tendo por uma das causas a não aplicação do Estatuto do Desarmamento.

Em 2016, manifesto de 57 especialistas, dentre os quais se pode lembrar Alba Zaluar, Cláudio Beato e Daniel Cerqueira, Sérgio Adorno, assevera: “Estudos levam à conclusão inequívoca de que uma maior quantidade de armas em circulação está associada a uma maior incidência de homicídios cometidos com armas de fogo. E fazem um alerta: a miséria da política de segurança no Brasil nasce quando leis são formuladas sem levar em conta o conhecimento científico acumulado em anos de pesquisa”.

Valiosa síntese dos mais importantes estudos sobre a posse de armas como indutora de crimes, e não como redutora da violência, é apresentada por Thomas Conti: “A literatura empírica disponível é amplamente favorável à conclusão que a quantidade de armas tem efeito positivo sobre os homicídios, sobre a violência letal e sobre alguns outros tipos de crime”. Examina Conti trabalho de Donohue e outros, reputado como a mais relevante pesquisa sobre posse de armas nos Estados Unidos, cuja conclusão é de que a liberação do uso de armas está associada a maiores taxas de crimes violentos.

Em momento constrangedor, o ministro da Justiça, Sergio Moro, ao ser entrevistado na GloboNews, disse serem não confiáveis as pesquisas indicativas do risco da posse de armas. O estudo do Ipea serviu como base para autorizar a posse de armas para brasileiros de todos os Estados, mas nega-se valor a esse mesmo estudo na parte relativa ao efeito da posse de armas.

Dois pesos e duas medidas: primeiro, o senador, se errado, deve ser punido; depois, o senador passa a ser um garoto perseguido. O Atlas de Violência dá o critério para posse de armas; depois é inconsistente ao destacar o malefício da posse de armas. Ambivalência: por ora, a marca do governo.

No CAf
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Iogurtes quase vencidos da Danone e Nestlé são vendidos com trabalho escravo

Murilo vendia mais de 70 kits por dia, o equivalente a R$ 50 mil por mês.  
Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil
Quando ouviu que era a “galinha dos ovos de ouro”, Murilo entendeu como um elogio. Não viu malícia no comentário do então chefe, Francisco Neivan Alves da Silva, por ser o melhor vendedor porta-a-porta de iogurtes e outros lácteos da equipe de Salto, no interior de São Paulo. Ficou feliz por ter deixado para trás o emprego informal de servente de obras no interior do Ceará, mas não imaginou que seria vítima de uma rede de tráfico de pessoas que o levaria a condições de trabalho análogas à de escravo, com jornadas de 14 horas diárias, descontos salariais e alojamento precário.

No primeiro mês no novo emprego, ele já não receberia o pagamento de R$ 2,2 mil prometido por Silva. Teve R$ 500 descontados “porque a situação piorou com a crise econômica”, na versão do patrão. E aquele foi só o começo de uma série de violações trabalhistas que terminou com o resgate de 28 trabalhadores em condições análogas à escravidão envolvendo duas gigantes do setor alimentício: a Nestlé e a Danone. 

A história de Murilo, que pediu anonimato, foi descoberta por auditores-fiscais do Ministério do Trabalho em fiscalizações que aconteceram entre março e julho de 2018 no interior de São Paulo. Silva, que trazia cearenses do interior com falsas promessas para trabalhar como vendedores de iogurtes, foi preso em abril pela Polícia Federal de Sorocaba, acusado de “tráfico de pessoas para fins de trabalho em condição análoga à de escravo”.

Danone e Nestlé foram corresponsabilizadas pela prática de trabalho escravo por não monitorarem suas cadeias de distribuidores e tiveram que pagar parte das verbas rescisórias dos resgatados – a Danone pagou R$ 185 mil e a Nestlé, R$ 139 mil, segundo relatório dos auditores. “Foi uma cegueira deliberada. As empresas lucraram com o esquema fraudulento e foram cúmplices”, diz o auditor-fiscal do Renato Bignami, que participou das fiscalizações.

O esquema econômico que sugou Murilo e que atrai tantos outros ambulantes movimenta milhares de reais e toneladas de produtos perto da validade, com preços acessíveis para as classes D e E. É chamado de “crediário”, pois funciona com vendas à crédito para o comprador final, e conta com uma complexa rede de distribuidores e subdistribuidores nas periferias das grandes cidades e em cidades do interior. A investigação do Ministério do Trabalho, que aconteceu em parceria com a Polícia Federal, apurou que, para a Danone e a Nestlé, o escoamento desses produtos quase vencidos representa cerca de 2% do lucro das empresas no Brasil.
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Esquema de vendas desova produtos próximos ao vencimento para as classes D e E.
Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil

A Dairy Partners Americas Brasil, que responde pela Nestlé, informou em nota que encerrou o relacionamento comercial com o microdistribuidor autuado pelos auditores-fiscais em julho de 2018, quando soube das irregularidades. A empresa afirmou ainda que não tolera “violações aos direitos humanos e trabalhistas”.

Já a Danone Brasil informou que “repudia qualquer forma de trabalho que contraria os direitos trabalhistas” e não tem relação comercial com o microempresário autuado, já que ele “adquire os produtos por meio de seus clientes ocasionais”. A Danone reitera seu compromisso com a legislação vigente e reforça seu comprometimento na prevenção e combate ao trabalho escravo em sua extensa cadeia produtiva”, disse a empresa.

‘Vendi R$ 500 mil e ganhei um danone’

De porta em porta, os ambulantes ofereciam kits de iogurtes com 33 unidades por R$ 40 – ou R$ 1,21 por embalagem. Em grandes mercados, a unidade pode custar R$ 2. A jornada de trabalho mínima era de 14 horas diárias, mais as duas gastas no deslocamento. Começava às sete da manhã. Sob sol forte ou tempestade, eles empurravam os iogurtes em ruas montanhosas nas periferias e muitas vezes arriscavam a vida ao passar diante de traficantes armados. Murilo vendia mais de 70 kits por dia, o equivalente a R$ 50 mil por mês.

Se os vendedores de Silva precisassem de dinheiro em uma emergência – como quando o filho de Murilo teve uma estomatite grave –, o patrão emprestava, mas cobrava o dobro. Se faltassem no serviço por doença, tinham R$ 100 descontados do salário. Com tantos descontos, teve mês que Murilo nem recebeu. Precisou se endividar com o chefe para comprar comida para a família. “Cheguei a vender mais de R$ 500 mil em um ano, fui a ‘galinha dos ovos de ouro’. E sabe o que eu ganhei? Um pacote de danone para o meu filho”, lamenta.
‘Cheguei a vender mais de R$ 500 mil em um ano. E sabe o que eu ganhei? Um pacote de danone para o meu filho.’
No alojamento que Silva alugou para os trabalhadores, houve infestação por carrapato. Os trabalhadores se amontoavam em uma casa de dois cômodos abafada, sem roupa de cama, toalha ou comida. As condições degradantes e as jornadas exaustivas, colocando em risco a segurança, a saúde e vida dos trabalhadores, caracterizaram trabalho análogo ao de escravo, conforme o artigo 149 do Código Penal.

Dos produtos vendidos pelos ambulantes de Silva, 40% eram da Danone e 30% da Nestlé. Os caminhões das empresas descarregavam toneladas de iogurtes diretamente no galpões dos microdistribuidores. Joseilton Ferreira, um desses microdistribuidores, comprava da Danone e repassava para crediários, como o de Silva. Entre outubro de 2017 e novembro de 2018, Ferreira comercializou R$ 1,8 milhão em iogurtes próximos à data de vencimento da marca. Já os iogurtes da Nestlé chegavam por meio da empresa Baturitense Comércio de Alimentos. De outubro a março, a joint venture Dairy Partners America, ligada à Nestlé, faturou R$ 145 mil em produtos para a Baturitense – o equivalente a 26 toneladas de iogurtes.

A venda dos produtos, com forte apelo para crianças, era fiado. Por isso o vendedor tinha uma ficha de papel para cada cliente, onde anotava as compras e os pagamentos a vencer. Vendas acima de R$ 50 não eram proibidas, mas se o cliente não pagasse, o vendedor era obrigado a assumir o ônus, depois descontado do salário. E eram muitos os clientes que davam calote e faziam ameaças, segundo os trabalhadores ouvidos pela reportagem.

Cada vendedor carregava mais de 100 quilos de alimentos, todos os dias, dentro de um isopor.
Foto: Programa Estadual de Combate ao Trabalho Escravo

Cadeia de distribuição sem monitoramento

Os microdistribuidores que recebiam toneladas de iogurtes diretamente das empresas e que abasteciam crediários como o de Silva constavam no departamento de vendas das empresas, ao lado dos grandes distribuidores. Tanto a Danone quanto a Nestlé criaram uma nomenclatura nova para esse grupo. Na Danone, “cliente-consumidor” ou “spot”. Na Nestlé, clientes BOP, corruptela de “base da pirâmide”.

Na prática, afirmam os fiscais, as multinacionais deixaram de monitorar os microdistribuidores e, assim, de adotar mecanismos de prevenção de direitos fundamentais. A conduta e omissão das empresas, ainda que involuntária, agravou o risco de exploração da força de trabalho. “Essas falhas contribuiram seguramente para que as violações ocorressem”, afirmou Bignami.

Não é possível datar quando essa caracterização corporativa aconteceu, mas a investigação dos auditores mostra que os crediários com venda porta-a-porta de produtos quase vencidos existem há quase duas décadas. A auditoria segue investigando outros crediários.

São Paulo, Brasil 19-12-2018 Nestlé e Danone envolvidas em caso de trabalho escravo. Fotos: Fernando Martinho
Por causa dos descontos, nem no primeiro mês Murilo recebeu o salário prometido. 
Foto: Fernando Martinho

Além de descumprir acordos internacionais em direitos humanos e do trabalhador que o Brasil é signatário, tanto Danone quanto Nestlé também infringiram acordos globais assumidos por suas respectivas matrizes na Europa – França e Suíça, respectivamente. “No exterior, haverá um impacto de reputação muito grande, que pode afetar as operações das empresas. A partir desse impacto de reputação, espera-se que medidas públicas sejam tomadas”, afirma Tamara Hojaij, pesquisadora do Centro de Direitos Humanos e Empresas da Fundação Getúlio Vargas.

Com o fechamento do crediário, Murilo vive de bicos. Sem o segundo grau completo, diz, ninguém quer empregá-lo. “Em dia que não trabalho, fico pensando: e se meu filho pedir um pão para comer, o que eu falo para ele? Eu passei muita fome do Ceará. Não queria que meus filhos sofressem o mesmo.”

Thais Lazzeri
No The Intercept
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O gabinete de Toffoli é uma farmácia que só atende alguns pacientes

Ele
Pego emprestada do ex-ministro da Justiça, o sempre combativo Eugênio Aragão, a alegoria que intitula esse artigo.

Trata-se de um contraponto a um argumento seu exposto recentemente por ocasião do despacho cínico e tardio do ministro do STF, Dias Toffoli, finalmente autorizando a liberação do ex-presidente Lula para se fazer presente ao enterro do irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá.

Aragão, condescendente com Toffoli e com a sobriedade que lhe é peculiar, explicava-nos em seu texto os meandros jurídicos e burocráticos pelos quais se rastejaram as tratativas legais para que, ao fim e ao cabo, Lula tivesse mais uma vez um direito garantido escandalosamente negado.

Pois bem! Após discorrer sobre as chicanas provocadas pela Juíza Carolina Lebbos, a PF e o TRF-4, Aragão enfatiza que o recurso da defesa de Lula só chegou ao STF depois da meia-noite do dia 29/01.

É a partir daí que Aragão pondera:

É razoável se admitir que o gabinete da presidência estava fechado e seus servidores gozando do merecido sono dos justos. No serviço público existe expediente e ele costuma se encerrar às 18:00 horas. Em gabinetes não tem hora para terminar, mas costuma se estender até lá para as 22:00 horas. Gabinete de ministro não é farmácia para ficar aberto vinte e quatro horas”.

Tudo seria de fato razoavelmente admissível se não estivéssemos falando de nossa República bananeira.

Prestadas essas considerações, ficou-se combinado que nesses termos – a despeito do prejuízo do direito que se exigia – não poderia ser considerado absurdo o fato de que a decisão de Toffoli só tenha sido despachada lá pelas onze e meia da manhã, minutos antes do caixão descer à sua sepultura.

Pois é! Desculpas foram dadas, lamentos foram entoados, Lula mais uma vez foi injustiçado e a vida seguiu o seu curso inapelável. Mas nada como um dia após o outro.

Finalmente iniciado o ano legislativo, a esculhambação que se viu no plenário do Senado Federal envergonharia o pardieiro de menor reputação do país.

Sob ameaças de agressões físicas e insultos impublicáveis, a eleição para a presidência da casa simplesmente se viu impraticável e acabou por ser adiada para as 11 horas deste sábado (2).

Instalada a celeuma de como se daria a votação (se por voto aberto ou fechado) aliados do candidato Renan Calheiros entraram com uma representação junto ao STF para que restasse garantido o voto secreto.

Aqui a coisa começa a ficar interessante.

Já batiam as doze badaladas da sexta (1) quando o pedido foi registrado na Suprema Corte. No que pese nesse momento já estarmos no fim de semana e com todos os servidores do STF “gozando o merecido sono dos justos”, eis que às 03:45 h. o proativo Dias Toffoli já determinava o voto secreto na votação do dia que ainda estava por raiar.

A justiça, como se vê, sabe ser célere quando assim lhe convém.

Dias Toffoli, que dormia tranquilamente mesmo sabendo do sofrimento que passava o presidente que o pôs no STF, não mediu sono nem esforços para apaziguar a balburdia de um Senado que não consegue sequer ter a civilidade e competência de exercer a primeira atividade de sua legislatura.

Resta provado que gabinete de ministro é sim uma farmácia que permanece aberta 24 horas por dia.

A única diferença é que, ao contrário desses estabelecimentos comerciais, não é todo paciente que pode ter acesso ao seu remédio.

Carlos Fernandes
No DCM
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Perdidos no espaço

Marta Mello
Pra que Ibama? Pra que uma agência reguladora? Pra que política, direitos humanos e meio ambiente? Aqui é livre mercado! É autorregulação! É triplo A, porra!

O importante é liberar as armas, acabar com as reservas indígenas, garantir a segurança e a soberania nacional. É para a frente que se anda, com agrotóxico, terra produtiva e recorde de grãos. Um cercadinho para a lama tóxica e o nióbio dos ianomâmis é nosso.

Bíblia neles e flexibilização!

Mariana e Brumadinho estão aí para provar, a solução é empresa mista e fiscalização frouxa: o resto é fatalidade. Catástrofe natural. Não tem como prever.

Tragédia é destino, é de Deus. E, quando Deus quer, não tem lei, não tem fiscal, não tem nada que segure. Não inspecionaram 3% das barragens de mineração? Então, é amostragem. Os outros 97% são de responsabilidade divina.

Imprensa... Imprensa é o cão chupando manga. Cambada de vampiro, sanguessugas dos diabos. Bom é aplicativo, é fazer linha direta com o povo, é não dar trela para essa gente ruim que só quer botar o país para baixo.

E Davos é o caramba. Frio da porra naquele lugar. Uma coletiva para falar mal do zero um? Passar bem, obrigado. Esse papo besta de Queiroz... Águas passadas, porra! Melhor o bandejão.

Pergunta para os filhos do Lula quanto eles ganharam com o pai na Presidência. Aquela Gamecorp do cacete. Se o Lulinha era gênio do videogame, o outro é gênio do mercado imobiliário. E estamos conversados. Direitos iguais, porra!

Com o PSDB podia, com o PT não pode mais? O PMDB se locupleta e o resto que se arranje? É democracia ou não é?

É como o deputado boiola que mandou esfaquear o mito e agora se pirulita para o exterior, arrotando mimimi com cuspe grosso. É como essas juízas que ofendem a corporação, essas vereadoras feminazis que acabam levando tiro e, depois, ninguém sabe o porquê. Vaza!

Brasil, ame-o ou deixe-o.

Holandês masturba o filho desde bebezinho. Árabe é terrorista. Tirando americano, não dá para confiar em alemão, francês, belga, sueco, mexicano e muito menos em uruguaio e argentino. 

Chinês, então... Deus me livre de chinês. Um povo que cria cachorro em casa para, depois, comer assado? Vai confiar?

É Brasil acima de tudo e Deus acima de todos, o resto é globalismo marxista. Vade retro, Satanás! É acender uma vela para o santo Trump e torcer para isso aqui não virar a Venezuela.

É avançar no que sobra da Amazônia, cortar madeira de lei e explorar o subsolo. É organizar as milícias de bem, ensinar moral e civismo no fundamental e partir para o abraço.

Fé e produtividade!

O que irrita é essa gente torcendo contra. O que chateia é o Mourão, depois de eleito, dar de ficar em cima do muro, dando entrevista pra essa ralé. Vice opinativo... Quem merece?

Enfim, foi um mês extraordinário. Faltam mil quatrocentos e poucos dias para botar o país nos eixos. É manter o leme firme e não perder o norte.

Segura na mão de Deus!

Fernanda Torres, Atriz e roteirista, autora de “Fim” e “A Glória e Seu Cortejo de Horrores”.
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Dono de empresa de ensino à distância pode se tornar diretor do FNDE


Durante a campanha, o presidente Jair Bolsonaro apresentou como uma de suas bandeiras uma ampla utilização da educação à distância como ferramenta em todos os níveis, do ensino básico ao superior. Quando for executado, o projeto deverá ser financiado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), dono de um dos maiores orçamentos da União, da ordem de R$ 60 bilhões.

E quem deverá comandar esse segmento é o empresário Eli Valter Gil Filho, um dos principais empresários no ramo de ensino à distância, dono da empresa Web Aula, já envolvida em contratos suspeitos em governo anteriores.

No início de janeiro, ele apresentou-se aos funcionários do FNDE como futuro diretor de Ações Educacionais e lá passou a tomar decisões e encaminhar ações. Embora ainda não tenha sido nomeado, funcionários do FNDE acreditam que se isso acontecer o novo governo pode estar colocando uma raposa cuidando do galinheiro.

Uma das razões que estariam emperrado a nomeação de Eli Valter é a Lei 8.213, que trata de conflitos de interesse na gestão pública. Afinal, a empresa de Eli pode ser beneficiária direta da ampliação do ensino à distância. Embora ainda não tenha sido nomeado, ele já indicou para a diretoria Arcioni Ferreira Viagi. Nos corredores do FNDE, comenta-se que Eli Valter poderá ir para o Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep).

(…)

Do IstoÉ
No DCM
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Onix Lorenzoni afirma que vidas perdidas significam pouco perto do “trabalho” da Vale. Acorda Brasil!


“Não há condição de haver qualquer grau de interferência (na Vale). Não seria uma boa sinalização para o mercado”, declarou. “É preciso ter prudência para saber que o que está em jogo, além da vida das famílias, é um setor econômico muito relevante para o país. ”. (Frase de Onix)

Neo Liberalismo que encaminha liquidação da Previdência, fim dos Direitos dos trabalhadores e venda das empresas públicas não esconde a que veio. Vidas humanas não tem valor e menos valor ainda tem os direitos do povo. O lucro gerado pela Vale é dividido entre seus donos. E depois que Fernando Henrique Cardoso vendeu a Vale a preço de banana para Steinbruck, Vice Presidente da FIESP, por 6 bilhões de reais financiados em trocentas vezes pelo BNDES, este a vendeu por mais de 20 bilhões de reais. E hoje a maioria das ações (47%) pertencem aos canadenses, que é quem manda. E é para lá que vai 2/3 dos lucros da Vale. Para os trabalhadores e o povo brasileiro fica a lama cheia de produtos quimicos contaminados, centenas de mortes e muitos prejuízos, por que até hoje a Vale não pagou um centavo das multas de Mariana, acontecido há 3 anos atrás. Recentemente teve suas multas perdoadas. E Onix faz parte deste time. O que ele disse tá na foto. Não basta?

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Quem é Davi Alcolumbre, que se apresenta como anti-Renan, mas parece mais o seu espelho

Davi Alcolumbre e Renan Calheiros
Davi Alcolumbre, o senador que é estimulado pelo governo Bolsonaro a tentar barrar a eleição de Renan Calheiros para a presidência da casa, é um político que, em termos de suspeitas e acusações, não é muito diferente de seu oponente. Com uma diferença: por ser do baixo clero, tem um comportamento que não o recomenda ao exercício de nenhum cargo relevante, principalmente a chefia de um dos poderes da república.

Davi foi indiciado no inquérito que apurou desvios de verbas da Saúde em 2004, na operação que ficou conhecida como Pororoca. Ele era deputado federal e o indiciamento foi autorizado pelo Supremo Tribunal Federal.

Hoje, ele responde a acusações por crime eleitoral, segundo levantamento do site Congresso em Foco. Em processo no Tribunal Superior Eleitoral, vice-procurador geral eleitoral, Humberto Jacques de Medeiros, recomendou em abril de 2018 a cassação de seu diploma de senador eleito.

Ele foi acusado de usar notas frias na prestação de contas da campanha, em 2014, fato que o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá reconheceu, mas entendeu que não era o caso de cassação. Para os desembargadores, não havia provas de que Davi Alcolumbre sabia dessas irregularidades, que são graves.

Não há notícia de que o recurso levado ao TSE contra a decisão TRE do Amapá tenha sido julgado.

Davi Alcolumbre, um dos poucos senadores sem curso superior, foi a favor de Aécio Neves nas duas vezes em que casos de suspeita de corrupção do ex-senador (hoje deputado federal) foi levado à votação.

Foi contra a cassação do seu mandato no Conselho de Ética do Senado e também apoiou Aécio na sua recondução ao Senado, depois que seu mandato tinha sido suspenso pelo Supremo Tribunal Federal.

Em 2005, quando ainda era deputado, assinou o requerimento para instalação da CPI dos Correios, mas recuou, numa atitude típica do baixo clero, de quem toma algumas decisões duras para abrir negociação e voltar atrás.

Ele teve o mesmo comportamento quando a Câmara dos Deputados ameaçou investigar a MSI e o Corinthians, num caso que poderia respingar na CBF.

Alcolumbre, que tem 41 anos, se elegeu vereador em Macapá em 2000, quando era filiado ao PDT. Dois anos depois, elegeu-se deputado federal, cargo que manteve com duas reeleições.

Em 2014, já no DEM, apresentou-se como o oponente ao grupo político de Sarney no Amapá e conseguiu uma cadeira no Senado, em eleição que foi contestada e é objeto de investigação por crime eleitoral.

Agora, na esteira do movimento contra Renan Calheiros e apoiado pelo governo Bolsonaro, tenta chegar à presidência do Senado.

O anti-Renan e seu discurso de moralização são tão autênticos quanto as fake news que o esquema de Bolsonaro produzem no subterrâneo da internet.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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STF anula manobra bolsonarista para eleição no Senado


O presidente do Supremo Tribunal Federal anulou, esta madrugada, o encaminhamento dado pelo candidato de Ônyx Lorenzoni para a eleição do Senado, que iria permitir a eleição “tranquila” de Davi Acolumbre, o brucutu que presidiu a deprimente sessão de ontem da Casa.

Não podia haver outro resultado, porque foi um escândalo o que se passou: um candidato definindo as regras de uma eleição que ele iria “disputar”.

Tão arbitrário que mandou trancar o plenário do Senado para evitar que aquele que deveria presidir a sessão – o senador mais idoso, José Maranhão, como determinou o STF – se sentasse na cadeira de presidente, como registra a Folha.

Em nome de uma suposta “transparência” empurrava-se os senadores – a maioria de estreantes na casa – a escolher um atrabiliário para presidir o Senado e garantir o controle absoluto da casa pelo governismo.

O que não está descartado, porque a leva de senadores que se elegeu em outubro é, em grande parte, afinada com a onda reacionária que se abateu sobre o Brasil.

Mesmo que sejam maioria – ou quase – o que se pretendia era outra coisa: a aniquilação de todas as forças que se opunham ao atual governo, pela abolição do curso normal das escolhas políticas daquela Casa, estabelecendo uma ditadura legislativa.

Recomenda-se aos “moralistas” que se dizem de esquerda que reflitam sobre o que é entregar o controle absoluto do Senado a um candidato que, por inexpressivo, tudo deve ao apoio do governo Bolsonaro.

Fernando Brito
No Tijolaço
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No Senado, guerra verdadeira é entre Guedes e Onyx

https://www.blogdokennedy.com.br/no-senado-guerra-verdadeira-e-entre-guedes-e-onyx/
Impasse no Senado é mais um resultado do desrespeito à Constituição e aos ritos da política, como cansamos de ver nos últimos anos. Davi Alcolumbre (DEM-AP) não poderia ter feito o que fez. A regra é voto secreto. Mas, para derrubar Renan Calheiros (MDB-AL), que tem lá o seus pecados, optou-se pelo casuísmo institucional.

De novo, estamos vendo no Brasil gente aplaudir o infortúnio de Renan, mas amanhã o feitiço poderá se voltar contra o feiticeiro.

Mas isso é detalhe perto do que rola nos bastidores.

Onyx Lonrezoni, ministro-chefe da Casa Civil, trava uma batalha contra o colega da Economia, Paulo Guedes. Para além de Renan, há disputa sanguinolenta no núcleo do novo governo.

Esse tipo de contenda costuma cobrar um preço alto da agenda legislativa de interesse do presidente de plantão.

No Senado, hoje não era Renan x Alcolumbre. Era Onyx contra Guedes.

Para o ministro da Economia, a dupla Maia-Renan tem mais chance de entregar a reforma da Previdência do que Onyx e seus articuladores do baixo clero parlamentar. A sorte foi lançada. Neste sábado tem mais BBB no Congresso Nacional.

* * *

Agora a conversa é outra

Deu Rodrigo Maia (DEM-RJ) na Câmara. Reeleito presidente, ele abraçará a agenda liberal defendida por Guedes, mas manterá compromissos que assumiu com setores da oposição. E terá uma caneta cheia de tinta para lidar com uma articulação política amadora da parte do Palácio do Planalto.

* * *

Barbaridades a granel

Por gentileza, escutem a partir dos 25 minutos e 10 segundos no áudio abaixo o comentário sobre a entrevista do ministro da Educação à revista “Veja”.

Ricardo Vélez é despreparado para o cargo. Ofendeu os brasileiros e o país que lhe deu cidadania. Partiu de um diagnóstico errado formulado pelo presidente Jair Bolsonaro quando o convidou para o ministério mais importante da República.

Erra ao falar das universidades e das cotas. Erra no todo. Enfim, é dose para leão. Vélez é escolha equivocada para a educação brasileira.

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Assassinato de Eduardo Frei reacende suspeitas sobre mortes de líderes políticos brasileiros


Nos anos 70, a repressão latino-americana se uniu em torno da Operação Condor. Compartilharam informações, prisões e métodos.

A comprovação de que o ex-presidente do Chile, Eduardo Frei, foi morto pela repressão chilena reforça as suspeitas, no Brasil, sobre a morte de três das maiores lideranças civis: João Goulart, Juscelino Kubitscheck e Carlos Lacerda.

Trata-se de assunto tabu, que sequer a Comissão Nacional da Verdade ousou enfrentar, apesar do trabalho minucioso sobre a morte de JK, realizado por um grupo de professores e alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Luís Nassif
No GGN
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Bolsonaro no inferno e Mourão em pele de cordeiro


O general Mourão faz forte investida nos meios de comunicação para vender uma imagem de aparente racionalidade e razoabilidade em contraposição à boçalidade e torpeza do Bolsonaro.

Somente na última semana, entrevistas com o vice foram publicadas em todos os principais jornais de circulação nacional – um contraste e tanto com Jair, que só aceita participar, e raramente, de entrevistas de encomenda nas 2 TVs oficiais do regime, SBT e Record.

Nesta investida, Mourão se esforça em mostrar-se alguém com predicados superiores ao capitão, a começar pela capacidade cognitiva de exprimir raciocínios articulando mais de 140 caracteres de twitter.

O general não perde oportunidade para insinuar que possui a compostura e o preparo que faltam a Bolsonaro. Ele também não se exime de marcar diferença em assuntos candentes produzidos pelos lunáticos do ministério, como no episódio do exílio forçado do Jean Wyllys, no arbítrio que impediu Lula sepultar o irmão, acerca do direito ao aborto, da política externa, da embaixada do Brasil em Jerusalém etc.

Em relação à política econômica ultraliberal, contudo, Mourão concorda com Bolsonaro na delegação de poderes para o Paulo Guedes executar o plano entreguista de transformar  o Brasil no nirvana do rentismo e da orgia financeira internacional.

As limitações políticas e cognitivas do Bolsonaro, ao lado do temperamento complicado dos filhos, são realidades que desde o início preocupam o círculo militar do poder, trazendo dúvidas quanto à conveniência dele seguir como chefe do governo ou ser sacado.

O vexame protagonizado no Fórum Econômico de Davos expôs no estrangeiro a desqualificação do Bolsonaro para o cargo de Presidente do Brasil, aumentando as desconfianças externas quanto ao futuro do governo e do país.

A descoberta das ilicitudes dos Bolsonaro em décadas de política, e dos laços íntimos da família com a gangue Escritório do Crime, cujo patrão é suspeito de ser o autor dos disparos mortais em Marielle e Anderson, trouxe extraordinárias dificuldades para a governabilidade.

O Brasil vive a situação inédita de um presidente em 30 dias perder totalmente a capacidade política, moral e institucional de governar.

Bolsonaro é um tremendo incômodo para o estamento militar. Caso não renuncie, será mantido como um morto-vivo e seus filhos tresloucados afastados do governo. Na hipótese mais drástica, ele é afastado num processo de impeachment.

Mourão age de olho neste cenário, porque herda o cargo em quaisquer dos casos – de renúncia ou afastamento. Por isso ele busca “se vender” como alternativa viável, como a “melhor solução” para a legitimidade do regime.

Este Mourão artificial, entretanto, é um Mourão em pele de cordeiro. Este Mourão está mimetizado de civilizado e moderno.

Apesar dessa investida na imprensa para se repaginar, Mourão não consegue apagar da sua biografia discursos a favor de “autogolpe”, intervenção militar e viradas de mesa.

Este Mourão em pele de cordeiro não deixou de enaltecer a tortura e de homenagear facínoras da estirpe de Brilhante Ustra – a quem, aliás, Mourão considera um herói. E, lembra Mourão, “heróis matam”.

Mourão, por fim, é um general revanchista. Ele defende a revisão da historiografia nacional para caracterizar o regime ditatorial de 1964/1985 não como ditadura, mas como uma “guerra”, necessária para defender o Brasil de “inimigos internos”.

Como profetizou Millôr Fernandes, o Brasil tem um grande passado pela frente.

Jeferson Miola
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Vergonha

Resultado da votação para presidente da Câmara
O PT decidiu votar na candidatura de Marcelo Freixo (PSOL) para presidir a Câmera dos Deputados, enfrentando o candidato do bolsonarismo, Rodrigo Maia.

O parlamentar psolista teve 50 votos, quando a expectativa era ter 67 votos, somando as bancadas do PT, do PSOL e uma deputada da Rede.

Parabéns à maioria dos deputados petistas, que honraram a decisão do partido e travaram o bom combate.

Mas envergonham a militância petista os cerca de 16-17 petistas que traíram a orientação partidária de forma covarde e pusilânime, escondidos pelo voto secreto, provavelmente votando em Rodrigo Maia.

A direção do partido deveria exigir que todos os parlamentares petistas abram seu voto e instaurar processo punitivo contra quem descumpriu a resolução da bancada.

O cretinismo parlamentar, que empurra outras legendas para o precipício, não pode mais ter vez e voz no PT.

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Capitão com medo de general: Mourão diz que a única vez que conversou com Bolsonaro foi na campanha

Mourão e Bolsonaro: sem se falar desde as eleições
Há um padrão nos Bolsonaros — posto que se trata de um clã no poder — que se repete tanto para efeito externo quanto interno.

Se agem como leões com Venezuela e Cuba e como gatinhos sabujos com os EUA, repetem esse modelo com o vice Mourão.

O general está livre, leve e solto, falando pelos cotovelos, contradizendo o chefe (ao menos pro forma) em temas-chaves da administração.

Garantiu ao embaixador da Palestina que não há plano sobre Jerusalém, defendeu que Lula deveria ir ao funeral do irmão por “questão humanitária”, afirmou que “aborto deve ser uma decisão da mulher” etc etc.

O papel de tentar enquadrar Mourão fica delegado ao guru Olavo de Carvalho, em vídeos e postagens constrangedores, e aos milicianos virtuais paranoicos que vivem de lamber o saco de Jair.

O desencontro e a bateção de cabeça são evidentes e você não precisa ser um astrólogo como Olavo para ver que isso não vai acabar bem.

Ao Globo, Mourão fez uma revelação inacreditável — mesmo em se tratando desse circo — sobre o nível de desentendimento da dupla: “As únicas vezes que o presidente conversou comigo foram durante a campanha eleitoral.”

Você não precisa ser um picareta especializado em cursos sobre gestão para saber que não tem como um time dar certo jogando dessa maneira.

A pergunta óbvia é a seguinte: por que Bolsonaro não telefona para Mourão e tenta combinar qualquer coisa?

Primeiro, porque Bolsonaro, acuado pelo escândalo do filho Flávio, não tem ideia de para onde vai.

Depois, porque capitão não manda em general. Como todo falastrão, ele tem medo.

Por medo, ele se deixa montar, fisicamente, por seu segundo.

Porque sabe que terá novamente a sensação de quando foi assaltado e entregou tudo: “Mesmo armado, me senti indefeso”.

Kiko Nogueira
No DCM
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Mais do que demitido, ministro colombiano da Educação deveria ser expulso do Brasil


Nunca antes na história desse país um ministro da Educação (ou qualquer outro) humilhou tanto o povo brasileiro como Ricardo Vélez Rodriguez.

Espécie de amostra grátis da miséria intelectual do atual governo, o colombiano que por reiteradas vezes deu demonstrações incontestáveis de sua incapacidade generalizada, ultrapassou de vez os limites da decência ao chamar os brasileiros de ladrões e canibais.

Ignaro às últimas consequências, utiliza-se do seu cargo no comando da educação brasileira para aviltar figuras históricas do pensamento educacional do país.

As ofensas gratuitas a intelectuais como Leonardo Boff e propostas de retiradas das homenagens ao Patrono da Educação Brasileira, o educador Paulo Freire, insultam tudo o que foi a longa e árdua construção do nosso conhecimento.

Vélez não é só um pedante incapaz de reconhecer suas próprias limitações, é também um estrangeiro acolhido pela República Federativa do Brasil que, a despeito disso, vive de diminuí-la e ridicularizá-la.

Ainda que pese reproduzir o que esse estulto afirmou em sua última entrevista sobre todos nós brasileiros, faz-se necessário grifá-la para que se grave bem o que o néscio pensa sobre o povo que o abrigou e que paga o seu salário.

O brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba assentos salva-vidas do avião. Ele acha que sai de casa e pode carregar tudo”.

Para um governo que se elegeu sob o lema mequetrefe de “Brasil acima de tudo”, permitir que um colombiano assuma uma posição de destaque apenas para nos chamar de ladrões só corrobora com a ideia de que Jair Bolsonaro é na verdade o último dos impatriotas.

Menos pelo dever mínimo da compostura no alto escalão do governo, a obediência à lei recomendaria não só a sua demissão imediata do cargo, mas, sobretudo, sua expulsão do país.

Vejamos o que diz o artigo 65 do Estatuto do Estrangeiro (Lei n° 6.815/80):

Art. 65. É passível de expulsão o estrangeiro que, de qualquer forma, atentar contra a segurança nacional, a ordem política ou social, a tranquilidade ou moralidade pública e a economia popular, ou cujo procedimento o torne nocivo à conveniência e aos interesses nacionais.

De barato Vélez se enquadra em pelo menos duas das condições acima elencadas que justificariam a sua expulsão do Brasil.

Propostas suas como a segregação do ensino superior e a abolição do pluralismo ideológico no debate político-educacional brasileiro afrontam miseravelmente os interesses nacionais.

Da mesma forma, querer repaginar o que de fato foi a ditadura militar brasileira transformando-a como uma opção presente e possível para o Brasil fere criminosamente a segurança nacional e o Estado Democrático de Direito.

Ricardo Vélez Rodriguez, por tudo o que já fez e propôs, não pode passar mais um minuto na cadeira que ora ocupa.

Mais do que isso, se num governo minimamente nacionalista e patriota estivéssemos, sua expulsão do Brasil já deveria ter sido prontamente expedida.

Carlos Fernandes
No DCM
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