29 de jan. de 2019

Queiroz, o motorista, só quer depor ao MP por escrito

Ele quer fugir do constrangimento das fotografias, Moro...


De Thiago Prado, na Época:

A tragédia de Brumadinho (MG) ofuscou o noticiário envolvendo o senador eleito Flávio Bolsonaro, mas o caso Queiroz tem data marcada para voltar aos holofotes: na próxima sexta-feira, dia 1º, no retorno do recesso do Judiciário, o ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello deverá devolver para o Ministério Público do Rio de Janeiro a investigação sobre o ex-assessor de Flávio.

O inquérito voltará ao ponto em que parou no dia 17, quando o ministro Luiz Fux suspendeu as apurações a pedido da defesa do senador eleito. Até agora, o único ouvido pelo MP foi o policial militar Agostinho Moraes da Silva, que trabalhou no gabinete de Flávio e repassou recursos para Queiroz, segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Queiroz faltou a dois depoimentos no MP no mês de dezembro, alegando problemas de saúde. Embora tenha feito, de fato, uma cirurgia para a retirada de um tumor no hospital Albert Einstein, em São Paulo, o ex-assessor de Flávio não deixou de dar entrevistas para a imprensa no período.

A primeira foi uma tragédia do ponto de vista da comunicação (e seu próprio entorno sabe disso). Ao SBT, com pinta de malandro carioca, Queiroz falou pérolas como "Sou um cara de negócios, faço dinheiro". Para a última edição da revista IstoÉ , disse, via WhatsApp: "Vou esclarecer tudo quando minha saúde permitir. Não tenho nada a ver com os milicianos do Rio e posso provar que não recebi R$ 7 milhões em três anos".

Ele se referia a duas situações novas reveladas nos últimos dias: O Globo revelou que Queiroz movimentou R$ 7 milhões nos últimos três anos; além disso, foi trazida à tona que Flávio nomeou em seu gabinete a mãe e a mulher do ex-capitão da PM do Rio, Adriano Magalhães da Nóbrega, acusado de chefiar um grupo de extermínio no estado. Segundo o próprio senador, foi o ex-assessor que fez as indicações.

Como não poderá mais fugir do depoimento do MP em fevereiro, a ideia da defesa de Queiroz é apresentar uma peça por escrito detalhando as justificativas de seu cliente. Provavelmente a mulher e as filhas de Queiroz adotarão a mesma estratégia. Para o MP, não há problemas em ouvi-los desta forma. O próprio procurador-geral de Justiça do Rio, Eduardo Gussem, já deixou claro em coletiva que não precisa do depoimento de um investigado para oferecer uma denúncia — o que importa é o "conjunto probatório".

Desta forma, Queiroz evitaria o incômodo de ser fotografado entrando para depor no MP. Evitaria o constrangimento de se enrolar ao responder perguntas (mais ou menos o que ocorreu no SBT). E focaria no principal — explicar o motivo de sua conta bancária receber repasses de pessoas que trabalhavam no gabinete de Flávio.

A história da venda e revenda de carros, aliás, não será usada por Queiroz nas explicações para o MP. Não colou. Aguardemos.

(...)
Leia Mais ►

Ministro do Meio Ambiente não aprende com erros e mantém proposta que ofende vítimas e o bom senso

O ministro (sic) do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante encontro de trabalho em Brumadinho
Tragédias tendem a despertar nos governos um surto de rigorismo. Leis são endurecidas, a fiscalização é ampliada, líderes políticos posam de preocupados e solidários. O efeito frequentemente dura até o assunto ser esquecido pela imprensa, mas às vezes mudanças importantes permanecem. Quando Dorothy Stang foi assassinada, em 2005, o governo Lula mandou o Exército ocupar a Transamazônica. A fiscalização na região nunca mais voltou ao nível anterior ao crime. Quando um tsunami em 2011 destruiu a usina nuclear de Fukushima, Angela Merkel aproveitou para decretar o fim dessas usinas na Alemanha. Quando a taxa de devastação na Amazônia atingiu 29 mil quilômetros quadrados, em 1995, FHC baixou limites do Código Florestal que vigoram até hoje.

É chocante, portanto, que as respostas do atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (Novo-SP), ao desastre da Vale em Brumadinho tenham sido prometer uma afrouxada adicional na legislação ambiental e botar a culpa numa suposta ineficiência da fiscalização. Nas declarações que deu às rádios CBN e Eldorado e ao portal G1 nesta segunda-feira (28), quando a maior parte dos corpos ainda não havia sido resgatada, Salles pouco fez para reconfortar os atingidos e seus familiares: acenou com facilidades ao setor produtivo e nenhuma disposição para reforçar os órgãos de controle ambiental, que operam no osso na União e nos Estados.

Autolicenciamento

Questionado sobre o licenciamento ambiental, o ministro chamou a legislação atual de “complexa e irracional” e disse, erroneamente, que ela foi criada pelos governos de esquerda (o licenciamento no Brasil é disciplinado por um monte de dispositivos e resoluções, alguns com décadas de idade). Afirmou que é preciso ter foco nos empreendimentos de alto e médio potencial de causar impacto e espezinhou a fiscalização: “Esse modelo gigantesco, mastrodôntico (sic) da fiscalização ambiental não funciona”, disse à CBN. E defendeu sua proposta de instituir o autolicenciamento a empreendimentos.

Perguntado sobre se isso não favoreceria tragédias como a de Brumadinho, sofismou: “Ao contrário. Flexibilização e automação é apenas para baixo impacto e baixo risco. Um exemplo: você vai fazer licenciamento para a pessoa plantar milho na sua fazenda e você destaca equipe de técnicos para fazer licenciamento disso. Qual é a lógica? (…) Hoje você está destacando o mesmo funcionário que iria cuidar da barragem para cuidar da plantação de milho. É um contrassenso”.

A linha argumentativa é a mesma que usou quando assumiu o ministério e culpou o Ibama pelo aumento do desmatamento em 2018: responsabilizar pelos malfeitos uma suposta ineficiência da fiscalização e tirar o foco dos verdadeiros responsáveis pelos malfeitos, o setor produtivo. É um sofisma porque os órgãos ambientais federal e estaduais não têm pessoal nem para a barragem, nem para o milho. A resposta correta seria aumentar o pessoal e aprimorar a fiscalização. A proposta do ministro aparentemente é diminuir a lei. Auxiliado pela extrema complexidade do tema e pelo fato de poucos jornalistas terem domínio do assunto para questioná-lo ao vivo, Salles pode se dar ao luxo de pontificar com frases (nem sempre) gramaticalmente corretas, mas que não fazem sentido nenhum.

Pauta ruralista

Jair Bolsonaro foi eleito com a promessa de campanha de “tirar o Estado do cangote de quem produz”, e uma das medidas para isso seria flexibilizar o licenciamento ambiental. No primeiro dia de expediente, o presidente baixou um decreto criando na Secretaria de Governo da Presidência da República uma secretaria de apoio ao licenciamento ambiental. A ela compete “instruir o processo de licenciamento ambiental dos empreendimentos qualificados no PPI [programa de parcerias de investimentos] para aprovação pela autoridade competente”. Até agora, essa atribuição era do Ibama. A medida cheira a institucionalização do fast-track para grandes obras proposto anos atrás pelo senador Romero Jucá (MDB-RR) e nunca aprovado como lei.

O ministro Salles, condenado na Justiça justamente por uma manobra para favorecer indústrias e mineradoras quando era secretário no governo paulista, recebeu con gusto do chefe a missão de acelerar o licenciamento. Em 14 de janeiro, reunido com empresários da construção civil, prometeu tornar o licenciamento mais célere e “colocar a livre iniciativa em situação de respeito”. Na antevéspera do desastre em Brumadinho, recebeu no gabinete o deputado Alceu Moreira (MDB-RS), líder da bancada ruralista, que trazia uma extensa pauta de reivindicações do agro. Um dos principais pontos era a “articulação política para o projeto de lei de licenciamento ambiental (3.729/2004)”.

Projeto de lei

O PL em questão é a mais adiantada das várias iniciativas que tramitam no Congresso hoje para flexibilizar o licenciamento. Trata-se do substitutivo do então deputado Mauro Pereira (cuja versão mais recente foi relatada na Comissão de Constituição e Justiça pelo deputado Marcos Rogério, do DEM-RO), apelidado “licenciamento flex” pela permissividade que introduz no instituto do licenciamento ambiental.

O texto parte de um projeto escrito por representantes da CNI (Confederação Nacional da Indústria), com aportes da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) e acolhido pelos ruralistas. A bancada ruralista tenta encaminhar o texto para votação no plenário após trair uma negociação de dois anos com o MMA (Ministério do Meio Ambiente). Hoje ele tramita em regime de urgência em duas comissões da Câmara (CCJ e Comissão de Finanças e Tributação).

O MMA, então chefiado pelo deputado Sarney Filho (PV-MA), havia elaborado uma proposta de lei geral de licenciamento que estabelecia graus diferentes de rigor conforme o tamanho do empreendimento, o local em que ele está e seu potencial de degradação. A lógica é que um posto de gasolina na cidade de São Paulo não pode ter um licenciamento tão rigoroso quanto uma hidrelétrica na Amazônia ou uma barragem de rejeitos em Minas. A indústria e o agro não toparam: sua intenção é deixar a critério de cada Estado e município qual é o grau de rigor a ser aplicado ao licenciamento de cada obra. Além disso – e daí a referência de Salles ao milho na entrevista – os ruralistas querem isentar de licença a agropecuária extensiva.

Bombas na proposta

Além de deixar a decisão sobre que tipo de licenciamento aplicar a cargo de Estados e municípios (que quase nunca têm estrutura em seus órgãos ambientais e são presas muito mais fáceis de lobbies, como o da mineração) e de conceder uma série de isenções, o projeto de lei de licenciamento da Câmara contém outras bombas. É vago sobre a definição de área de influência do empreendimento e estabelece que “serviços de modernização e ampliação” de obras existentes estão dispensados de licença. Isso em tese permite pavimentar estradas na Amazônia com alto potencial de causar desmatamento sem necessidade de licenciamento. Para ficarmos em Brumadinho, se essa lei estivesse em vigor hoje, a Vale poderia ter aumentado o tamanho da barragem do Córrego do Feijão sem precisar pedir licença ambiental.

Salles não explicou em suas falas, nem foi perguntado, se concorda com a íntegra do projeto dos ruralistas ou se pretende apresentar um outro projeto de lei do Executivo ao Congresso. Dar foco aos empreendimentos de alto e médio impacto, como prometeu, parece sensato, só que a pergunta que ninguém fez ao ministro é: quem define o que é alto e médio impacto?

A única novidade que sinalizou querer inserir na legislação é um elemento tão controverso e tecnicamente frágil que nem a bancada ruralista fez questão de mantê-lo nas múltiplas versões do projeto ora na Câmara: o tal “autolicenciamento”. O próprio empreendedor concede a licença ambiental, jurando de dedinho que fez tudo certo. É caso de torcer para que seja apenas mais um factoide do ministro, cujo desconhecimento dos temas de sua pasta já o fez prometer comprar um sistema de satélite de R$ 100 milhões para fazer o trabalho que o Inpe faz hoje por uma fração desse valor.

Caso Salles esteja falando sério, e caso decida levar adiante a proposta de licenciamento ambiental colocada na mesa hoje, a coisa vai dar em lama.

Claudio Angelo é coordenador de Comunicação do Observatório do Clima e autor de “A espiral da morte: como a alterou a máquina do clima” (Companhia das Letras, 2016).
Do Direito da Ciência
No DCM
Leia Mais ►

Para que prender os engenheiros da Vale antes de qualquer instrução criminal? É um show!


Na manhã dessa terça-feira, 29/01, a Polícia prendeu cinco engenheiros  que atestaram a segurança de barragem Mina do Feijão, da Vale, em Brumadinho (MG), que rompeu na sexta-feira.

Em Minas, foram três funcionários da Vale.

Em São Paulo, dois da empresa alemã TÜV SÜD, que presta serviço para a mineradora.

São prisões temporárias por 30 dias, prazo que poderá ser postergado dependendo das investigações.

Elas foram determinadas pela juíza Perla Saliba Brito, da Justiça de Minas Gerais.

Último balanço da Defesa Civil de MG confirmou que 65 pessoas morreram e 279 ainda estão desaparecidas.

A propósito dessas prisões e do momento político, o jornalista Rodrigo Vianna fez uma reflexão preocupante num grupo de whatsapp de blogueiros.

Ela é um alerta para todos nós.

Com a autorização do Rodrigo, reproduzimos abaixo:

Amigos,

Algo que vai passando batido no meio do caos de lama/cirurgia/Venezuela: o estado policial se consolida!

A nossa fala (justa e correta) de que há abusos e partidarismo no Judiciário se dissolve quando a Polícia prende engenheiros da Vale antes mesmo de qualquer instrução criminal. É um abuso.

Mas a impressão é de que, pelo menos, agora “todo mundo paga”. A sensação de injustiça no povão  é gigante … e daí vem essa vontade torta de que “algo seja feito com os poderosos”.

Estou aqui na região de Brumadinho. E observo isso de perto.

Confesso que eu também (mesmo vacinado contra os riscos do estado policial) chego inconscientemente a comemorar que “alguém pague por esse absurdo”.

Mas aí pensamos: pra que prender antes de qualquer instrução? É um show.

A onda conservadora do “prende e arrebenta” consolida uma nova hegemonia no Brasil . Por baixo. Nas frestas…

E qualquer um de nós pode ser vítima.

Vamos fazendo no Brasil uma espécie de revolução francesa policial: essa coisa de “justiçamento” policial e midiático veio pra ficar. E vai pegar gente de várias linhas, a depender da virada do vento e da maré…

Claro que a Vale tem responsabilidade na tragédia monumental.

Não estou aqui a diminuir o tamanho do crime. Mas prender 3 ou 4 engenheiros parece menos uma resposta adulta e muito mais a tentativa de jogar lenha na fogueira de uma justiça justiceira.

Parece que todo o problema é da “sem vergonhice” de engenheiros “vagabundos”.

E não se toca na lógica perversa que faz a empresa privatizada abrir mão de controles ambientais “caros” para vender nosso minério (o solo do Brasil) por uma ninharia, com alta lucratividade.

É triste ver o tamanho da tragédia. E mais triste o espetáculo policial e midiático. Triste e perigoso.

No Viomundo
Leia Mais ►

Por que a trapalhada de Jair Bolsonaro será demorada


Os atropelos do primeiro mês de (des-)governo do presidente-capitão Jair Bolsonaro foram tantos que passaram a circular nas mídias opiniões insistentes sobre a provável brevidade do reinado de seu clã. Muitas dessas análises não passam de wishful thinking. Outras, mesmo sérias, parecem se confundir com o manifesto, com as aparências.

Mas a realidade latente é mais sinuosa, pois os interesses que levaram à instalação de um governo fascista no Brasil são poderosos e seus representantes tudo menos incompetentes. Sabem onde querem chegar.

À primeira vista, parece que Bolsonaro, até certo ponto, é uma bênção para a esquerda, pois fala tanta besteira, desgasta-se por tantas tolices e demonstra tamanho desconhecimento do que se passa nos vários escalões de seu governo, que logo ninguém mais o suportará. Pensava que governar era fácil como dirigir um fusca e se surpreendeu com a complexidade do cockpit do jumbo que teria que pilotar. Definitivamente não estava preparado para isso.

Ao mesmo tempo, o bando de oligofrênicos que escolheu para as pastas sociais, como educação e direitos humanos, fatalmente respingará na reputação de seus colegas mais competentes de ministério, a ponto que muitos preferirão largar o cargo para não queimar seu filme. Os Moros da vida, que aceitaram o convite para compor a equipe do presidente-capitão por vaidade e carreirismo, verão que escolheram mal seu super-herói e, querendo ou não, terão um fim com a mediocridade que lhes cabe.

Estaria tudo muito bom se ficasse por isso mesmo. Assumiria o vice, o general Mourão, boquirroto no comando de tropa, mas comedido e cauteloso na política e o país teria chances de dar a volta por cima, mesmo que com uma agenda conservadora. Ao menos, se voltaria a fazer business as usual, com a política travando seu legítimo embate de ideias e projetos. E, se o governo do general desagradasse, em 2022 voltaríamos às urnas para mudar o rumo do país.

É mais provável, porém, que isso não passe de uma quimera. Quem colocou o jabuti no poste, não está para gracejos. O que não fecha na conta de quem pretende Mourão rapidamente instalado na carlinga do Jair é a complexidade das relações entre os prováveis diádocos do capitão-presidente por destronar, hoje atores de um mesmo jogo.

O general Heleno e o general Mourão parecem ter preferências estratégicas bem distintas e não guardam nenhum afeto entre si, numa linguagem bem comedida. Mas ambos são firmes que nem as torres no tabuleiro de xadrez do poder. Nesse tabuleiro, Jair não é o rei, nem sequer rainha, mas só um bispo, do mesmo tamanho que o Paulo Guedes. O rei mora na Wall Street e a rainha, na Avenida Paulista. Dos cavalos, por sua vez, um se encontra na terra prometida, transformada em Disneylândia de Jesus para os evangélicos do calibre de uma Damares; o outro é togado e finge ser cego.

Perder um bispo não é bom, mas não significa necessariamente cheque-mate. Mas, ainda assim, o bom jogador, o Tio Sam, não gosta de sacrificar peças dinâmicas à toa. Jair não deve ser sacrificado. Ele tem o papel de bobo da corte, para alegrar os minions que o elegeram. E que esses minions, com domínio de redes sociais, têm um enorme potencial de produzir groselha e atrapalhar qualquer governança se desagradados, ninguém duvida. Eles precisam ser mantidos distraídos com seu Jair fazendo malabarismos atrapalhados. Para isso, o presidente-capitão tem enorme utilidade. É preciso apenas circunscrevê-lo a esse papel e não deixar que desempenhe qualquer outro.

É aí que entram em cena as torres: uma, a varrer o ambiente social à procura de inimigos do projeto político-econômico do mercado e, a outra, corrigindo, feito um copidesque, os escorregões mais sem-noção do bobo da corte. Cada um no seu quadrado. O resto é tudo peão, inclusive o Sr. Moro, que preferiu abandonar sua posição na cavalaria para pegar na enxada fascista.

Portanto, nesse xadrez, o que compete a quem não quer baixar a cabeça para esse projeto entrega-tudo é montar suas peças no tabuleiro e partir para dar cheque mate no Tio Sam. Mas não é substituindo o bispo adversário por uma de suas torres que vai conseguir essa façanha. Trata-se de um jogo demorado com um inimigo que é exímio jogador.

Não nos enganemos com as formas. O presidencialismo como o conhecíamos acabou. Para este funcionar, era imprescindível a figura de uma liderança respeitada e com carisma, um statesman ou uma stateswoman, tudo que o capitão Jair não é. Quem manda são outros,  uma cadeia de comando tão opaca quanto dissimulada e, para eles, o bobo da corte não precisa entregar os pontos, mas apenas fazer o que sabe – criar alvoroço e gritaria na plateia, para o serviço que interessa ser feito sem ruído, atrás dos bastidores.

Bolsonaro ficará por um bom tempo, se do outro lado do tabuleiro não houver estratégia e tática para vencer o jogo. Não esperemos que caia de podre, porque seu estado é que menos interessa a quem o colocou lá. Se souber incomodar, estará fazendo tudo certinho, podre ou maduro, tanto faz.

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça
Leia Mais ►

Veja, IstoÉ e Época detonam o clã Bolsonaro

As quatro principais revistas do país deram capa nesta semana para Flávio Bolsonaro, o filhote do “capetão” Jair, aquele que se elegeu presidente da República posando de ético e que enganou tanto inocente – ou otário – com seu discurso anticorrupção.

A revista Veja, da falida e caloteira Editora Abril, deu uma foto sombria do novo senador carioca e estampou o título em letras garrafais: “A lambança do zero um”.

Já a IstoÉ, mais conhecida no meio jornalístico como QuantoÉ por seu histórico mercenarismo, também publicou uma foto do bem-sucedido agente imobiliário e adorador das milícias cariocas e deu a manchete: “O filho problema”.

A revista Época, que virou encarte do jornal O Globo, abordou “os rolos de Flávio Bolsonaro” numa reportagem recheada de informações sobre as maracutaias do falso moralista do PSL do Rio de Janeiro.

E a revista CartaCapital, a única que nunca vacilou diante da ascensão do fascismo no país, deu na capa: “Os laços sombrios”. A matéria mostra que a proximidade de Flávio Bolsonaro com o líder de uma quadrilha de milicianos, procurado pela polícia sob a suspeita de ter assassinado a vereadora Marielle Franco, complica a vida do pai presidente.

O que explica estas corrosivas capas das revistas semanais? No caso da CartaCapital, como já foi dito, ela sempre criticou a ascensão da dinastia Bolsonaro, alertando que seria um desastre para o Brasil. Já as outras três revistas têm uma postura esquizofrênica, que combina três questões.

Em primeiro lugar, elas sempre apoiaram o receituário ultraliberal defendido por Jair Bolsonaro e o abutre Paulo Guedes, novo czar da economia. Adoradoras do deus-mercado, elas desejam uma radical contrarreforma da Previdência, que acabe com as aposentadorias, um extremado programa de privatizações que entregue todas as riquezas às devastadoras Vales da vida, uma nova "deforma" trabalhista.

Há, porém, duas ameaças que assustam os barões da mídia, os donos das revistas Veja, QuantoÉ e Época. Eles temem a pauta ultraconservadora nos costumes – o fundamentalismo que censura e persegue jornalistas e artistas; e temem um retrocesso democrático que as atinja. No golpe militar de 1964, muitos veículos apoiaram os generais e depois engoliram o próprio veneno.

Além destas esquizofrenias ideológicas-políticas, há também os interesses comerciais. A mídia nativa é venal, sempre foi corrupta. Dependendo das ofertas do novo governo, em anúncios e outras benesses, os mercenários podem ceder. As capas ajudam nessa pressão. A conferir como se comportarão nos próximos meses.

Altamiro Borges
Leia Mais ►

Neto de Figueiredo alvo de operação da PF é fã de Bolsonaro, Olavo, armas — e a Bíblia

Paulo Figueiredo e o antigo sócio Donald Trump
A Polícia Federal deflagrou na terça, dia 29, uma operação que investiga esquema de pagamento de propina a diretores e ex-diretores do banco BRB em troca de investimentos em projetos como o do famoso Trump Hotel, no Rio, atual LSH Lifestyle.

Entre os investigados está Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, neto de João Figueiredo, último general da ditadura.

Foi expedido mandado de prisão contra ele, conta a Folha. Nas redes, Paulo coloca Weston, na Flórida, cidade-dormitório ao lado de Miami, como moradia.

Paulo trombeteava uma sociedade com Trump desde 2013, quando anunciou a construção do empreendimento.

A Trump Organization se retirou do negócio depois que ele ficou na mira das autoridades.

Segundo a Folha, “ao menos R$ 16,5 milhões em subornos foram pagos a dirigentes do BRB para que eles liberassem recursos de fundos de pensão de estatais e de órgãos públicos, administrados pelo banco, e da própria instituição financeira para os projetos que davam prejuízo e não passavam por análise técnica adequada, entre eles o do hotel”.

No Facebook, Paulo Figueiredo defende Trump afetando uma proximidade de insider e com ares de entendido na política americana. 

Se dizia batizado por João Paulo 2º e católico praticante. Ficou rico, alegava, com exploração imobiliária na Barra da Tijuca.

Define-se como “conservador liberal”, eufemismo para direitista bocó. 

O pacote completo: além de Trump, adora Bolsonaro, Olavo de Carvalho e, por último mas não menos importante, armas. Versículos da Bíblia enfeitam a coisa.

“O cidadão tem direito de se defender, e sua proteção não deve ser exclusiva da polícia, pelo mesmo motivo que você tem um extintor em casa, e não depende exclusivamente dos bombeiros”, falou ao El Pais.

Foi diretor do Instituto Liberal, cujo site tinha como colunista Rodrigo Constantino.

Os dois entrevistaram Lobão no YouTube. 

Em 2015, queixou-se de ter sido barrado numa inspeção de segurança em aeroporto dos EUA.

Seu principal argumento: “Não me chamo Ahmed!!!” (veja abaixo).

É dura a vida do ariano brasileiro na América. Especialmente com o FBI no pé.



Olavo de Carvalho e Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, neto de João Batista Figueiredo.
Foto: Reprodução

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Deputado do lobby da lama é da Casa Civil do Ônyx

Mello Franco: Vale engordou lobby na Câmara com R$ 88 milhões


O Conversa Afiada reproduz do Globo Overseas (empresa que tem sede na Holanda para lavar dinheiro e subornar agentes da FIFA com objetivo de ter a exclusividade para transmitir os jogos da seleção):

Bancada da lama blinda as mineradoras no Congresso

O lobby da bancada da lama

Depois da tragédia, vêm as promessas. Nos últimos dias, políticos anunciaram medidas para evitar que o desastre de Brumadinho se repita. Já aconteceu em 2015, quando o rompimento de outra barragem matou 19 pessoas em Mariana.

O Congresso criou duas comissões especiais para discutir a catástrofe da Samarco. O trabalho resultou em seis projetos para reforçar a fiscalização sobre as mineradoras. Até hoje, nenhum deles foi aprovado.

O senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES) tentou endurecer a Política Nacional de Segurança de Barragens. Sua proposta recebeu parecer favorável na Comissão de Meio Ambiente, mas foi arquivada. “Forças subterrâneas impediram a votação”, diz o tucano.

O deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA) propôs regras mais rígidas para as empresas que armazenam rejeitos tóxicos. O texto também foi bloqueado antes de chegar ao plenário. “O lobby das grandes mineradoras é pesado”, ele reclama.

Na Câmara, a bancada do setor é suprapartidária, mas tem um líder conhecido: o deputado Leonardo Quintão (MDB-MG), ex-escudeiro de Eduardo Cunha. Em 2014, as mineradoras bancaram 42% de sua campanha. Ele retribuiu com uma atuação incansável a favor das empresas.

No fim de 2015, Quintão assinou o relatório do Código de Mineração. Antes da votação, descobriu-se que o texto havia sido redigido no escritório de advocacia que defendia a Vale e a BHP. O deputado não se reelegeu, mas foi alojado na Casa Civil do governo Bolsonaro.

Dos 27 titulares da comissão que debateu o Código, 20 declararam doações de mineradoras. A lista incluía o presidente, Gabriel Guimarães (PT-MG), e o vice, Marcos Montes (PSD-MG), atual secretário-executivo do Ministério da Agricultura.

Protagonista das tragédias de Mariana e Brumadinho, a Vale investiu R$ 88 milhões nas eleições de 2014. Com a proibição das doações empresariais, o lobby do setor deve ficar um pouco menos explícito.

“Além de financiar campanhas, as mineradoras oferecem consultorias, fazem pareceres e indicam assessores. Agora ainda não sabemos como vão se articular para continuar operando”, diz a pesquisadora Alessandra Cardoso, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc).
Leia Mais ►

“Os fascistas estão de volta. Vamos derrubá-los novamente.” – Lédio Rosa de Andrade

Elenira Vilela, ao lado de Lédio
Foto: Rafaela Martins
“Os fascistas estão de volta. Vamos derrubá-los novamente”

Essas fortes palavras foram ditas pelo Professor Lédio Rosa de Andrade no velório do Reitor Professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo (1957 – 2017), grande amigo de Lédio, que o considerava vítima da máfia de toga e distintivo.

Lédio Rosa de Andrade nasceu em Tubarão, Santa Catarina, em 1º de dezembro de 1958, foi vítima da poliomielite na infância e conviveu com os desafios de uma sociedade excludente por toda sua vida. Sempre lutou pela democracia e pela justiça, por isso quando estudante de direito na UFSC, onde se tornou amigo de Cancellier, lutou em defesa da democracia e contra a ditadura que se impôs a nosso país em 1964. Nas suas palavras “A democracia não permite descanso.”

Foi presidente do Diretório Central dos Estudantes desta universidade e se formou em 1981. Com apenas 23 anos se tornou o juiz mais jovem do Brasil à época sempre lutando pela justiça. Ele mesmo afirmava que logo compreendeu que o judiciário raramente faz justiça, ainda assim se destacou por conhecer e defender os direitos dos pobres e dos oprimidos, com base nas leis que conquistamos na Constituição Cidadã e no princípio da dignidade em toda sua vida. Era uma pessoa de extrema cultura, ateu convicto amava a ciência –particularmente a psicanálise, a filosofia e a arte, especialmente a poesia e a literatura. Desenvolveu uma vida acadêmica e uma carreira profissional de destaque, tendo se tornado Professor da UFSC e desembargador.

Fazia parte da Associação de Juízes pela Democracia (AJD) exatamente para encontrar colegas que tivessem semelhantes princípios e práticas no judiciário brasileiro.

Como magistrado implantou o programa “Lar Legal” em 2012, que trouxe a possibilidade de regularização de propriedade de suas moradias a mais de 4 mil famílias em todo o estado de SC e que serviu de exemplo para iniciativas semelhantes no Brasil.

Profundamente abalado com a tragédia imposta pela perseguição política de instituições como a Polícia Federal e o Judiciário, que assassinaram, segundo sua compreensão, o seu amigo e Reitor da sua tão amada universidade, afirmou com a voz embargada “Como professor da UFSC tenho orgulho e alegria, como desembargador tenho vergonha”.

Depois da perda trágica do amigo Cancellier, acompanhou com indignação a perseguição do judiciário ao presidente Lula, episódio em que descreveu o Presidente Lula como perseguido político. Em suas palavras “Veja o exemplo do ex-presidente Getúlio Vargas, que cometeu suicídio e foi acusado de corrupção, ou a morte de Tiradentes, todo mundo pensa que foi um bandido que o executou, mas foi um juiz de direito que deu a sentença. A história se repete agora com Lula”.

Descreveu o atual Ministro da (In)Justiça afirmando “Sérgio Moro hora é juiz, hora é promotor, atua também como policial, só falta virar carcereiro”. Sabemos que não faltou e que depois esse que sempre fez política, tardiamente deixou a magistratura para finalmente assumir a política, como reconhecimento aos serviços prestados para o eleito presidente Jair Bolsonaro e almejando ser Ministro do Supremo.

Para permanecer lutando pela democracia e pela justiça se aposentou como desembargador e se filiou ao Partido dos Trabalhadores no dia 24 de fevereiro de 2018, tendo sua ficha de filiação abonada pelo próprio Presidente Lula. Se dispôs a mais um grande desafio e aceitou disputar uma vaga ao Senado pelo PT nessas últimas eleições e foi incansável em percorrer SC denunciando a perseguição e defendendo mais uma vez a Justiça, na forma de Justiça Social e na defesa das liberdades democráticas que tanto aplicou como juiz garantista que era. Conquistou 327.226 votos de catarinenses convencidos em defender nosso país e nosso povo.

Como Celso Martins (1956-2018) e outros lutadores pela democracia que perdemos recentemente, tenho a impressão de que alguns já se vão antes de verem tragédias anunciadas se repetirem.

Ele deixa sua companheira, três filhas e uma neta, além de uma enorme quantidades de amigos, amigas e admiradores.

Ele faleceu em decorrência de complicações de um problema cardíaco que vinha sendo tratado, inclusive com internação, no último mês.

Sua cultura e sagacidade farão muita falta. A democracia em Santa Catarina, no Brasil e no mundo perdem um de seus grandes defensores!

Lédio Rosa, PRESENTE! Agora… e SEMPRE!!!

Seu velório ocorrerá a partir das 15h de hoje no Cemitério do Itacorubi. Às 21h seu corpo será levado para ser cremado.

Abaixo poesias publicadas em seu blog.

A Festa
Em 29 de outubro de 2018
Os fogos lá fora prenunciam choros ardentes
Dos alegres prementes, logo ali à frente
Não estou triste, mas mudado
De coração calejado, vou me importar
Não com o ideal, mas com a vida real
O que importa afinal
Senão os traços da existência
Rabiscados pelas certezas alheias
Tão certas estão, merecem sua própria razão
E eu então, por que chorar a dor?
Se alheia aos meus próprios erros
Mas vinda das verdades que me desmentem…

Alegria de viver
7 de novembro de 2018
Esqueci-me do mundo
Rio à toa
Como um rio que corre
Sem sentido, senão correr
Meu corpo dança
Os lábios mostram os dentes
E estou alegre
Sem pensar
Para a tristeza espantar…

Elenira Vilela, em homenagem ao professor Lédio Rosa de Andrade
No Desacato
Leia Mais ►

O governo Bolsonaro quer criar um país de "cidadões" ignorantes à sua semelhança

Eles
É definitivamente estarrecedora a entrevista concedida pelo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, ao jornal Valor Econômico.

Numa clara investida contra todos os avanços acadêmicos e pela democratização do ensino público superior alcançados em treze anos de governos progressistas, Rodriguez prepara um contra-ataque aos milhões de jovens que finalmente conseguiram ter acesso às universidades via políticas afirmativas de inclusão social.

Sob o perverso e excludente argumento de que “a ideia de universidade para todos não existe”, o atual governo busca construir uma nação em que a arte do livre pensar, o questionamento crítico e a produção de conhecimentos teóricos e científicos sejam bens comuns apenas ao que ele chama de “elite intelectual”.

Toda a massa de não eleitos, ainda segundo o seu brilhante raciocínio, seria destinada tão somente a cursos técnicos de média ou baixa complexidade capazes de atender tão somente as vagas de trabalho no mercado que exigem menor capacidade intelectual e, porque não dizer, maior atividade braçal.

É, trocando em miúdos, o Estado aplicando todos os seus esforços para que todo o conhecimento científico produzido nas universidades públicas – das quais todos nós custeamos – permaneça exclusivamente nas mãos daqueles que habitam o topo de nossa vergonhosa pirâmide social.

Ainda mais a fundo, a investida do Ministério da Educação contra uma universidade pública, gratuita e de qualidade que sirva e atenda a todos os brasileiros sem qualquer distinção de raça, cor, etnia, gênero, classe social ou orientação sexual, garante a primazia de um pequeno grupo de privilegiados ao custo da negação do sagrado direito do saber a milhões e milhões de cidadãos que não tiveram a “sorte” de nascer em berços esplêndidos.

É, em última análise, a garantia do aprofundamento da desigualdade social que, por sua vez, possibilita ad infinitum a exploração laboral de uma massa de excluídos cuja única serventia, na tese esdrúxula dessa gente, é tão somente a de servir, via salários miseráveis, os grandes “meritocratas” do sistema capitalista.

Não é só uma medida irresponsável e elitista, é, por definição, desumana.

Negar a milhões de seres humanos a busca pela melhoria da própria vida através de seus próprios esforços é contribuir para um estado de coisas em que o bem-estar social simplesmente inexiste e cujos principais cargos e funções da sociedade é dado a apenas alguns escolhidos quase como por direito divino.

É a idade média pedindo passagem em pleno século XXI.

E para que ninguém diga que não me esforço por enxergar algum sentido minimamente racional nessa sucessão infindável de trapalhadas e desajustes patrocinados por esse arremedo de governo, penso, sinceramente, que existe alguma empatia nessa medida em particular.

Afinal, numa esquadra em que gente como Damares Alves, Ernesto Araújo e o próprio Ricardo Vélez Rodriguez são liderados por sumidades como Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão, o que se pretende, talvez, pode ser a construção de um país de ignorantes às suas semelhanças.

Charles Darwin, que propôs a teoria da evolução por meio da seleção natural, revira-se no túmulo ao perceber que nessas terras bananeiras, curiosamente, os mais fracos, inaptos e incompetentes estão vencendo a luta pela sobrevivência.

Carlos Fernandes
No DCM
Leia Mais ►

Sergio Moro virou um soldado raso do bolsonarismo


Nos últimos anos, Sergio Moro se tornou o grande herói brasileiro do combate à corrupção. Ganhou prêmios, deu muitas entrevistas, viajou pelo mundo contando seus feitos, enfim, se sentiu muito bem no papel de salvador da pátria. Depois de se dedicar em apressar a prisão do candidato que liderava as pesquisas presidenciais e, consequentemente, pavimentar o caminho para o desfile vitorioso da extrema direita, topou fazer parte do novo governo.

Mas o nosso herói já conhecia o histórico da família Bolsonaro na distribuição de tetas para amigos e parentes no serviço público. Sabia que Jair Bolsonaro encaminhou R$ 200 mil recebidos da JBS para o partido mais investigado pela Lava Jato. Sabia que a Wal do Açaí era uma funcionária fantasma. Sabia que o presidente sonegou e incentivava a população a sonegar impostos. E também sabia da simpatia dele e de seus filhos pelas milícias. Bolsonaro chegou a defender grupos de extermínio da Bahia em plena Câmara dos Deputados. Como diria Jair, basta fazer uma “retrospectiva do passado” para concluir que o juiz topou integrar um governo cujas credenciais éticas do seu líder eram amplamente conhecidas. Moro sabia de tudo.

As notícias desta semana já não deixam mais dúvidas: o presidente tem ligações com as milícias do Rio de Janeiro. Sim, porque não é mais possível descolar as ações do senador Flávio do presidente Jair. Há fatos suficientes para se fazer essa afirmação.

Foi o presidente que apresentou o motorista Queiroz para Flávio, que era apenas uma criança quando seu pai e ele iniciaram uma amizade que já dura mais de quatro décadas. Bolsonaro não explicou o contexto nem apresentou comprovante do empréstimo feito a Queiroz, o homem que conseguiu empregos no gabinete de Flávio para a mulher e ex-esposa do chefe da milícia de Rio das Pedras — o mesmo lugar em que Queiroz ficou escondido antes de ser internado no Albert Einstein. A primeira-dama Michele Bolsonaro está sendo investigada pela Receita Federal por receber um cheque de Queiroz que, segundo Jair Bolsonaro, seria o pagamento do empréstimo feito a ele. O presidente da República é também sócio de Flávio Bolsonaro em uma empresa que o filho omitiu na declaração para o TSE.

Não adianta o presidente dizer que nada tem a ver com as ações do seu “garoto”, que só chegou ao Senado por causa do sobrenome. Trata-se de uma família que cresceu e enriqueceu unida ao longo dos anos na política. Negar isso agora é apenas cinismo. O deputado Eduardo Bolsonaro, por exemplo, é deputado federal, mas tem atuado como um dos porta-vozes do governo federal no exterior. Assim como o vereador Carlos Bolsonaro trabalha com as redes sociais do presidente. Tudo junto e misturado.

Sergio Moro sentado na janelinha do Aerolula.
Foto: Alan Santos/PR

Moro largou uma carreira jurídica admirada por boa parte da sociedade para virar um político bolsonarista. Para todo problema ético do governo Bolsonaro, Sergio Moro tem uma resposta hipócrita e constrangedora. Quando Onyx Lorenzoni foi pego duas vezes no caixa 2 — crime que o ex-juiz considerava “pior que corrupção” — Moro aceitou seu pedido desculpas e afirmou que o chefe da Casa Civil goza da sua “confiança pessoal”.

Na semana em que o núcleo bolsonarista aparece envolvido até o osso com as milícias do Rio de Janeiro, o super ministro da Justiça deixou a violência correndo solta no Ceará e viajou com o presidente para Davos. Eu não entendi muito bem o que ele foi fazer em um fórum econômico além de conferir um verniz ético que falta para o governo Bolsonaro, mas, beleza, a explicação até que é razoável. Ele diz que foi apresentar seu trabalho “contra a corrupção, contra o crime organizado, contra o crime violento” e que trabalhar isso no “ambiente de Davos, é bom para os negócios”. Ok. O problema é que no ambiente do Brasil, as ligações da família do presidente com a corrupção, com o crime organizado e violento do Rio de Janeiro estão ficando cada vez mais evidentes.

Nos dias em que esteve em Davos, Moro evitou ao máximo falar das ligações de Flávio Bolsonaro com milicianos. “Não me cabe comentar sobre isso, mas as instituições estão funcionando”. Como não cabe? Não é adequado para um ministro da Justiça comentar o principal escândalo de corrupção do momento do seu país? Não é essa a postura que se espera de um super-herói empenhado em varrer a roubalheira na política. Muitos devotos de Moro devem estar decepcionados.

Os corruptos certamente comemoraram a notícia de que o Banco Central quer excluir parentes de políticos da lista de monitoramento das instituições financeiras e derrubar a exigência de que todas as transações bancárias acima de R$ 10 mil sejam notificadas ao Coaf. Mas Sergio Moro não pareceu chocado com esse retrocesso no combate à corrupção: “Temos de entender melhor por que os reguladores do Banco Central estão propondo essa medida, e aí podemos discutir com eles se é uma boa ideia”.

Moro quer entender melhor os motivos que levaram o banco a querer afrouxar o monitoramento que ajuda a coibir lavagem de dinheiro e desvios de verbas do Estado. A intenção do banco é clara e objetiva, sem espaço para dúvidas, mas Moro ainda precisa pensar se é uma boa ideia. Ele alegou ainda que essa é uma medida do governo anterior, o que não justifica a sua passividade. Esperava-se uma declaração mais firme do atual ministro da Justiça contra o absurdo. As regras que o Banco Central pretende reverter entraram em vigor em 2009, durante o governo Lula, e ajudaram a desvendar muita roubalheira em família, inclusive o laranjal de Flávio Bolsonaro. É inacreditável que o nosso cão de guarda da corrupção esteja titubeando tanto justamente agora.

Enquanto o ministro da Justiça estava em Davos, outra notícia boa para os corruptos brasileiros: Onyx Lorenzoni e Mourão baixaram um decreto que amplia o número de funcionários públicos que podem decretar sigilo sobre documentos. O ato é um duro ataque contra a Lei de Acesso à Informação, uma importante ferramenta que visa tornar transparente as ações dos governantes e facilitar a fiscalização pela sociedade civil. Agora não são apenas presidente, vice, ministros e embaixadores que podem tornar documentos inacessíveis, como previa decreto de 2012 do governo Dilma, mas funcionários de segundo e terceiro escalão. Segundo apuração do jornalista Breno Costa, agora “mais de 1.200 pessoas no governo federal poderão receber poderes para definir que documentos públicos fiquem em segredo pelo menos até 2034″.

A consequência disso é óbvia: mais documentos se tornarão secretos e haverá menos transparência nas ações do governo. “Transparência acima de tudo. Todos os nossos atos terão que ser abertos ao público”, foi o que prometeu Jair Bolsonaro na primeira semana de governo. Qual será a opinião do nosso ministro da Justiça? Ainda não é conhecida, mas provavelmente ele ainda deve estar pensando se é ou não uma boa ideia.

Sergio Moro se tornou o político que posa para a selfie do Luciano Huck e foge da coletiva de imprensa para não ter que falar sobre a bandalheira da família do seu chefe. Parece que toda aquela volúpia anticorrupção esfriou. A imagem heroica está sendo moída pela realidade. Até agora, Sergio Moro tem se mostrado apenas um soldadinho raso e fiel do bolsonarismo.

João Filho
No The Intercept
Leia Mais ►

Neto do ex-presidente João Figueiredo é investigado por corrupção


A PF deflagrou uma operação para cumprir mandados de prisão, além de busca e apreensão, referentes a uma investigação envolvendo o pagamento de propinas a diretores e ex-executivos do BRB - banco estatal de Brasília-, para facilitar investimentos como o extinto Trump Hotel, atual LSH LifeStyle, no Rio de Janeiro. Dentre os alvos da operação desta terça-feira (29) estão Diogo Cuoco e Adriana Cuoco, filho e nora do ator Francisco Cuoco, e Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho, neto do último presidente da ditadura militar, general João Baptista Figueiredo. Os mandados foram expedidos pela 10ª Vara da Justiça Federal em Brasília.

De acordo com o jornal Folha de São Paulo, Diogo e Paulo Renato teriam tido alvos dos mandados de prisão e Adriana de busca e apreensão. Ainda segundo a reportagem, as propinas aos dirigentes do BRB chegariam a R$ 16,5 milhões e teriam como objetivo a liberação de financiamentos de recursos de fundos de pensão de estatais. O presidente licenciado do BRB, Vasco Cunha Gonçalves, que agora ocupa a presidência do Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes), além dos diretores Financeiro e de Relações com Investidores, Nilban de Melo Júnior, e de Serviços e Produtos, Marco Aurélio Monteiro de Castro, também são alvos de mandados de prisão.

A operação desta terça-feira se baseia em delações premiadas feitas por executivos da Odebrecht.

Leia Mais ►

A penetração do preconceito de classe no Brasil

A origem popular sempre pesou contra Lula. O slogan “Um trabalhador igual a você” gerava reações contrárias em muitas pessoas, em muitos trabalhadores, que haviam introjetado a incompetência política a que são condenados e definitivamente não queriam alguém igual a eles no poder. Lembro do porteiro do prédio em que eu morava dizendo que não votava no Lula porque não ia votar em um “analfabeto” – ele, que não conseguia produzir um bilhete para avisar que o elevador estava quebrado. Certo ou errado, em Lula, ele via a si mesmo. E não gostava do que via.

Das primeiras campanhas até a vitória em 2002, muita coisa mudou em Lula e no PT, que se foram moderando, reduzindo os horizontes de transformação social, ampliando as parcerias ao centro e à direita, criando pontes com o capital, aderindo às formas tradicionais da política no Brasil.

Lula foi deixando de ser o “trabalhador igual a você” para se tornar o líder mundial e o grande negociador. Duda Mendonça explicou como a chapa com José de Alencar seria vendida ao público: dois meninos pobres que subiram na vida, um na política, outro nos negócios. Uma guinada consistente com a mudança no valor central do discurso do partido, da igualdade social substantiva para a “igualdade de oportunidades” liberal.

Parece que com Bolsonaro é diferente. A “simplicidade” do ex-capitão é seu grande trunfo. Mesmo a evidente debilidade cognitiva dele (e de muitos de sua equipe) produz uma identificação positiva com o eleitorado. É uma poderosa proteção que tem garantido que o desastroso início de governo não leve a uma queda brusca de popularidade.

Não é difícil decifrar a charada. Ela ilustra a penetração do preconceito de classe no Brasil.

Luis Felipe Miguel
Leia Mais ►

Morre o jurista e professor Lédio Rosa de Andrade

Desembargador aposentado, ele foi candidato ao Senado pelo PT na eleição de 2018


Morreu na madrugada desta terça-feira (29), em Florianópolis,  vítima de infarto, o desembargador aposentado Lédio Rosa de Andrade, ex-candidato do PT ao Senado (2018), ultimamente dedicado a seu escritório de advocacia. Lédio tinha 60 anos, era natural de Tubarão, formou-se em Direito pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), onde teve intensa militância estudantil, ao lado de outros líderes de esquerda, como Luiz Carlos (Cao) Cancellier de Olivo, que em 2015 elegeu-se reitor da mesma universidade. Ainda no cargo de desembargador, Lédio fez o mais emocionante discurso na sessão fúnebre do Conselho Universitário da UFSC, em homenagem ao reitor, de quem era amigo desde a infância, em 2 de outubro de 2017. Além de advogado, Lédio era psicólogo e escritor.

A trajetória do jurista no PT era recente. Após desligar-se do Tribunal de Justiça, o desembargador filiou-se ao partido e passou a dedicar-se à militância. Foi uma das estrelas do ato pró-Lula realizado em Florianópolis, em março de 2018. Na ocasião, ele era cotado para ser candidato ao governo do Estado, mas na convenção acabou aprovado para o Senado. Ele obteve 327.226 votos.

A despedida de Lédio será realizada na capela do crematório, ao lado do Cemitério São Francisco Xavier (Itacorubi), a partir das 15h desta terça-feira.

Leia Mais ►

Brumadinho manda os dois primeiros para cadeia

Engenheiros atestaram que barragem era segura


O Conversa Afiada reproduz do G1:

Engenheiros que prestaram serviço à Vale são presos em SP e em MG após tragédia em Brumadinho

O Ministério Público de São Paulo e a Polícia Civil do estado cumpriram na manhã desta terça-feira (29) dois mandados de prisão expedidos pela Justiça Estadual de Minas Gerais contra engenheiros que que prestavam serviço para a mineradora Vale e atestaram a segurança da barragem 1 da Mina do Feijão, em Brumadinho (MG), que se rompeu na última sexta-feira. Em Minas, foram cumpridos outros três mandados de prisão.

Na noite de segunda-feira (28), a Defesa Civil de Minas Gerais informou que há 65 mortos e 279 desaparecidos após a tragédia provocada pelo rompimento da barragem da mineradora Vale, na região metropolitana de Belo Horizonte. Nesta terça-feira, começa o quinto dia de buscas no local.

Engenheiros André Yassuda (E) e Makoto Namba (D). 
Reprodução: G1
A prisão dos engenheiros Makoto Namba e André Yum Yassuda em São Paulo ocorreu nos bairros de Moema e Vila Mariana, Zona Sul da cidade. Eles foram levados para a sede da Polícia Civil e deverão ser encaminhados em seguida para Minas Gerais. A reportagem tenta contato com a defesa dos presos.

As ordens da Justiça são de prisão temporária, com validade de 30 dias, e foram expedidas pela Justiça no domingo.

Por meio de nota, a Vale informou que "está colaborando plenamente com as autoridades". "A Vale permanecerá contribuindo com as investigações para a apuração dos fatos, juntamente com o apoio incondicional às famílias atingidas", diz a nota divulgada após a prisão dos engenheiros.

As ações em São Paulo, parte de uma operação que também se desenvolve em Minas Gerais, são coordenadas por promotores do núcleo da capital do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP de São Paulo, e pelo Departamento de Capturas (Decade) da Polícia Civil paulista. (...)

Em tempo: PF vai atrás da empresa alemã que garantiu que Brumadinho era segura: PF faz busca em escritório de empresa alemã que atestou segurança de barragem
Leia Mais ►

O respeito à soberania da Venezuela e a paz no continente


A autoproclamação de Juan Guaidó como presidente insulta a Constituição venezuelana e despreza o senso do ridículo.

Não fosse apenas outra tentativa de golpe de Estado numa Venezuela continuamente agredida pelos EUA, o gesto seria considerado como puro delírio da extrema-direita oposicionista.

Não existe previsão, na Constituição venezuelana, de mecanismo pelo qual, de repente, um indivíduo tresloucado desperta na manhã do dia que se celebra o 61º aniversário do fim da última ditadura do país [23/1] e se autoproclama ditador.

Este ato tem o mesmo valor de uma cédula de 3 dólares; ou seja, é totalmente nulo, insubsistente, bizarro. O autoproclamado ditador sem quartel não tem poder sequer para dar ordens ao porteiro da sala de cinema, quanto menos ao guarda da esquina.

Apesar disso, todavia, Trump instantaneamente reconheceu a presidência fantasma de Juan Guaidó. Na sequência da trama armada, os governos submissos dos países do Grupo de Lima [exceto México], o governo do Brasil e de outros países satélites dos EUA seguiram Trump no intento de rapidamente legitimarem o títere golpista. A manobra, porém, fracassou.

O governo Nicolás Maduro impôs dupla derrota aos EUA e aos governos e agentes que atuam como cônsules norte-americanos. Primeiro, na OEA, em 24/1, e, depois, no Conselho de Segurança da ONU, em 27/1. O fantasma inventado por Trump , o “presidente encarregado” da Venezuela, não foi reconhecido pela comunidade internacional.

Maduro recebeu apoio da maioria dos países, incluindo China e Rússia, que o reconhecem como o presidente constitucional da Venezuela.

O ultimato dos governos da Alemanha, Espanha e França para que Maduro anuncie no prazo de 8 dias o calendário de nova eleição, foi desdenhado pelo chanceler venezuelano Jorge Arreaza como sendo uma “ingerência infantil”, descabida.

Em corajoso e contundente discurso no Conselho de Segurança da ONU [vídeo aqui], Arreaza defendeu a soberania da Venezuela, evocou o princípio da autodeterminação dos povos e não-ingerência em assuntos internos, e denunciou o passo-a-passo da conspiração, detalhando a viagem clandestina de Guaidó à Bogotá, Brasília e Washington para planejar e coordenar o golpe desde o exterior.

Arreaza avisou a comunidade internacional que “As forças armadas nacionais bolivarianas defendem com sua vida esta Constituição”, e que o governo Maduro fará de tudo para impedir que os EUA consigam gerar uma guerra civil na Venezuela, Nação “irrevogavelmente livre”.

A oligarquia venezuelana, organicamente associada ao establishment estadunidense, combate sem tréguas o chavismo desde o primeiro mandato de Hugo Chávez, iniciado em 1999.

Com apoio político, financeiro e militar dos EUA, esta oligarquia promoveu várias tentativas de golpe, sempre de modo combinado com uma estratégia contínua de guerra econômica, locaute e sabotagem; caos, polarização e desestabilização política; violência, conflito social e bandidismo de sicários.

Obediente às ordens mandadas desde Washington, a elite venezuelana recusa-se a dialogar com o governo, chegando a abandonar negociações mediadas pela comunidade internacional.

Os EUA já tentaram, e falharam, em muitas tentativas de golpes – tradicionais ou modernos – para derrubar os governos chavistas. Eles aprenderam, nesse tempo todo, que não terão êxito em nova tentativa de golpe, e, por isso, adotaram tática distinta; evitando, por ora, a hipótese de intervenção militar estrangeira, o que os colocaria em confronto direto com forças russas.

Apostam, agora, numa situação de dualidade de poder para dividir as Forças Armadas, um dos pilares do regime cívico-militar bolivariano, para levar o país a uma situação de guerra civil.

O ataque para golpear Maduro não visa simplesmente instalar um novo governo, mas sim promover uma mudança de regime, mesmo que às custas da devastação do país.

O objetivo continua o mesmo: retroceder a Venezuela, país detentor da 3ª maior reserva de petróleo do mundo, à condição de subúrbio petroleiro da metrópole imperial. E, como efeito colateral, debilitar um dos principais fatores, ao lado de Cuba, da resistência e oposição frontal às políticas imperiais na região.

O respeito à soberania da Venezuela como nação independente e soberana é um imperativo para a manutenção da paz na América Latina, porque a agressão à soberania venezuelana tem potencial de criar uma Síria no hemisfério [ler aqui].

A Venezuela tem o direito soberano de solucionar seus conflitos domésticos com base no diálogo com a oposição, no marco da Constituição Bolivariana. Os EUA, com sua política intervencionista, implodem essa possibilidade, e ameaçam a estabilidade, a segurança e a paz no continente e no mundo.

A defesa do direito à soberania venezuelana, na conjuntura atual, se converte na luta pelo respeito ao Estado de Direito e em defesa da paz no continente.

É uma luta contra a guerra, contra a ingerência estrangeira nos nossos países e em defesa da autodeterminação dos povos.

É, enfim, a luta da civilização contra a barbárie e contra a insanidade promovida pela extrema-direita e pelo fascismo nas Américas e no mundo afora.

Jeferson Miola
Leia Mais ►

Brumadinho e o desprezo pela tecnologia militar brasileira


No desastre de Brumadinho, o inacreditável presidente da República, Jair Bolsonaro, o que bate continência até para assessor de governo norte-americano, esqueceu totalmente do papel das Forças Armadas brasileiras nos trabalhos. Preferiu tornar-se garoto-propaganda da tecnologia israelense. Aliás, a afoiteza com que seu filho Flávio e o governador eleito do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, anunciaram a ida a Israel para comprar equipamentos de segurança, mal terminadas as eleições, pode ser um indicativo dessa paixão incontida.

O Brasil tem uma ampla experiência em defesa civil, aprimorada nas inundações de Santa Catarina e de São Paulo, e na tragédia de Teresópolis. E tem tecnologia militar. As Forças Armadas brasileiras estavam disponíveis. Mas ficaram sem função porque Bolsonaro transferiu para o governador mineiro Romeu Zema acionar ou não sua ajuda. E Zema é um completo jejuno como administrador público. Todas as loas foram prestadas às Forças Armadas de Israel.

Aprendi a admirar a tecnologia militar ainda nos anos 80, quando teve início o programa da Marinha de enriquecimento de urânio.

O governo Ernesto Geisel tinha embarcado na conversa do Acordo Nuclear com a Alemanha. Por ele, caberia ao Brasil financiar inteiramente um processo experimental de enriquecimento de urânio, o jett nozzle. O sistema ainda não tinha comprovação de viabilidade comercial e jamais viria a ter.

Quando se percebeu sua inviabilidade, houve uma forte disputa entre diversos setores, pela paternidade do seu sucessor. Os físicos da USP, liderados por José Goldenberg, faziam ataques ferozes ao Acordo Nuclear, através da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). E ofereciam a alternativa da água pesada, adotada pela Argentina. A Aeronáutica defendia o enriquecimento através de um sistema de laser.

Coube à Marinha apresentar a alternativa vitoriosa, o do enriquecimento através das ultra centrífugas.

Na época, regime militar ainda, começou a ser montada uma cadeia de fornecedores de tecnologia militar, desde aços finos até armamentos, períodos em que se sobressaiu a incrível Avibras e as fábricas de blindados.

Durante décadas, contando sempre com recursos orçamentários escassos, a Marinha logrou desenvolver uma tecnologia avançadíssima e penetrou no universo fechado dos fornecedores de urânio enriquecido. Talvez tenha sido o maior feito tecnológico brasileiro.

Mas a tecnologia militar não parou aí.

Ainda no início dos anos 80, o grande Bernardo Kucinsky escreveu uma série de reportagens para o The Guardian, sobre a possível venda de plutônio brasileiro ao Iraque. O Paulo Andreolli, jovem repórter do Estadão, foi atrás das dicas e publicou reportagens sobre o tema, descrevendo aviões saindo de São José dos Campos para o Iraque.

Na época, o Estadão já atravessava uma de suas crises cíclicas e estava com redação bastante depauperada. Pouco antes, havia sido motivo de galhofa geral com o episódio da “porca assassina”. Um ilustre diretor da sucursal de Brasilia estava no gabinete do Ministro da Justiça, Ibrahim Abi Ackel, quando um projétil arrebentou a vidraça. O caso foi tratado como atentado terrorista.

Logo depois, a sessão de necrológio do jornal, editada pelo inesquecível Toninho Boa Morte, publicou uma enorme elegia à morte de um cavalo, do Jockey, enaltecendo seus nobres sentimentos.

Os concorrentes, especialmente a Folha e a Veja, não perdoaram.

Quando saiu a reportagem do plutônio, a reação foi igual: Veja e Folha caíram matando. E o Estadão ficou na defensiva.

Na época, eu era pauteiro e chefe de reportagem da Economia do Jornal da Tarde. Por coincidência, um pouco antes a revista Nova me pediu uma reportagem especial sobre o acordo atômico. Sem Google, escarafunchei o Departamento de Pesquisa do jornal, levantei xerox de umas duzentas reportagens e ganhei um conhecimento razoável – jornalisticamente falando – da terminologia técnica do tema. Eram nítidos os erros técnicos cometidos pelos dois veículos, particularmente do jovem e agressivo repórter da Folha de nome José Nêumane Pinto, nas críticas ao Estadão.

Falei para o Ruizito Mesquita conversar com seu tio, Júlio. Disse-lhe que, com uma reportagem só, mataria as críticas. Me deram uma página de jornal. Antes de sair, o artigo foi revisto pelo próprio Goldenberg. Nas conversas com ele percebi as disputas não explícitas sobre o acordo nucelar, das quais a SBPC era um biombo. O artigo acabou com a controvérsia, explicitando os erros técnicos grosseiros contidos nas críticas ao Estadão.

Rex Nazareth, tecnólogo militar

Dei essa imensa volta para chegar a Rex Nazareth. Das duas centenas de reportagens que li, as únicas substanciosas, mesmo, eram entrevistas com Rex Nazareth, físico da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), dadas a um suplemento da Folha. O restante era um amontoado de críticas genéricas ao Acordo Nuclear, das quais não se extraía uma informação técnica relevante.

Em 2003, me deu curiosidade de conhece-lo. Ele estava, então, na direção do Instituto Militar de Engenharia. Fui até a Praia Vermelha conhece-lo e ao IME e, lá, me espantei com as pesquisas que comandava, de tecnologia aplicada.



Duas delas me chamaram a atenção. Uma, a construção de protótipos de drones, muito antes da febre de drones explodir. A outra, sensores que, colocados nas águas ou em terra, conseguiam identificar qualquer movimento não natural, como a de um túnel sendo escavado ou, no caso dos rios, até embarcações a remo se aproximando. Seria a tecnologia adequada para os trabalhos em Brumadinho.

O grande Rex, já idoso, me perguntava de que maneira poderia fazer aquelas descobertas chegarem ao Ministério da Justiça. Seriam ferramentas ideais para prevenir fugas de presídios, tráficos de droga nas fronteiras. Nunca soube de seu uso pelo poder público.



Nos anos seguintes, dentro do Projeto Brasil e do Brasilianas, montei vários seminários para discutir tecnologia militar, muitos deles abrilhantados pela competência e raciocínio cartesiano do Almirante Alan Arthou, um dos responsáveis pelo programa nuclear da Marinha.

As Forças Armadas dispõem de três centros relevantes de tecnologia, um para cada arma. Tinham parcerias relevantes com as universidades, com o ITA, no caso da Marinha, com o IPT, através do IPEN (Instituto de Pesquisas Nucleares), no caso do Exército.

Esse trabalho me conferiu algumas comendas militares, todas de associações de engenheiros das três forças.

Por tudo isso, não entendi esse incrível espetáculo de subserviência, de um presidente do baixo clero militar, que se encantou com Israel por razões fundamentalistas, levantou a bola da tecnologia israelense e, em nenhum momento, mencionou a estrutura que as Forças Armadas brasileiras poderiam oferecer para o caso de Brumadinho. E estando cercado por militares da reserva.

A engenharia militar participou dos maiores feitos econômicos e tecnológicos nacionais. Foi essencial na implantação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), na criação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), na montagem da infraestrutura nacional em transportes, comunicações, indústria de base, nas grandes estatais (Embratel, Telebrás, Petrobras). Participou da implantação do padrão Pal-M para a TV a cores no Brasil; além dos produtos tipicamente militares, como radares, blindados, armamentos.

É inacreditável que o espírito anti nacional, de subserviência que marca o grupo de Bolsonaro, tenha feito menosprezar até a tecnologia militar, do seu mais influente avalista.

A FAB possui aviões com a tecnologia

O leitor  Gilberto Correa passou a dica nos comentários do post “Brumadinho e o desprezo pela tecnologia militar brasileira, por Luis Nassif”

A tal dita "tecnologia israelense" é na verdade americana - o Foward Looking Infrared (FLIR). Existem aeronaves do Exército Brasileiro e de algumas policias militares, como a do Rio de Janeiro, que possuem essa capacidade embarcada. É impressionante como aproximações ideológicas são justificadas por "fatos alternativos" neste governo..

Uma breve pesquisa indicará o seguinte:

Os aviões brasileiro EMB-145 e EMB-314 Super Tucano, da Embraer, já são construídos com esses sistemas. O EMB-145 é utilizado para sensoreamento remoto da Amazônia. O EMB-315 Super Tucano para tarefas de interceptação e vigilância para o projeto SIVAM.

Os primeiros dispositivos subiram na década de 60, nos Estados Unidos, “derivados dos sensores de rastreamento e detecção de infravermelho utilizados nos mísseis ar-ar, visando permitir a observação e o ataque de alvos inimigos encobertos pela escuridão, pela fumaça ou pela selva”.

A estreia foi na Guerra do Vietnã.

Hoje em dia é uma tecnologia de uso extensivo na aviação, utilizado em forças militares e civis.

Inúteis

Agora, vem a informação de que o equipamento de Israel tem uma tecnologia para identificar o calor que emana dos corpos. Ou seja, é boa para caçar terroristas vivos do Hamas, não para localizar cadáveres embaixo da lama.

É um mico atrás do outro.

Leia

A epopeia do Ipen, de 11/08/2002

O pai do programa nuclar brasileiro, em 09/04/2003




Aqui, os vídeos do Seminário Brasilianas de Tecnologia Militar



2019-01-28 15:17:58 -0200

Luís Nassif
No GGN
Leia Mais ►