17 de jan de 2019

Supremo Tapetão Federal vira lavanderia dos Bolsonaro

Xavier: tinha que ser o Fux!


O Conversa Afiada publica sereno (sempre!) artigo de seu exclusivo "colUnista" Joaquim Xavier:

Tinha que ser ele. O ministro Luiz Auxílio Moradia Fux, ignorando todas as evidências, mandou parar a investigação sobre o laranja Fabrício Queiroz.

O ex-assessor parlamentar da “famiglia” Bolsonaro, como é notório, foi pilhado movimentando somas milionárias recolhidas de “assessores” do clã.

O esquema, conhecido como rachadinha, consiste em contratar amigos em troca da devolução de parte do salário (ou todo) aos parlamentares contratantes. Foi assim, por exemplo, que uma personal trainer que trabalha no Rio apareceu na folha de pagamentos do então deputado Jair Bolsonaro. O salário dela, tudo indica, foi devidamente embolsado pela ”famiglia”. Não sou em quem diz. É o COAF, órgão de fiscalização do próprio Governo Federal.

Usando de ardis variados, Queiróz recusa-se até hoje a depor. Alega problemas de saúde, embora tenha aparecido em público várias vezes, inclusive saltitando em um quarto de hospital. Flávio Bolsonaro, um de seus patrocinadores, faz coisa parecida. Dá uma banana para o MP e também se recusa a falar.

Ainda assim, o Ministério Público do Rio afirmou que, mesmo sem os depoimentos, os indícios já seriam suficientes para prosseguir o processo e chegar aos mandantes. A luz no fim do túnel apagou-se tão rápido como um fósforo. Mal lembrava o MP que o supreminho é dominado por interesses outros que talvez não seja fazer justiça.

Luiz Fux encarna este espírito como poucos. Aproveitando sua condição de plantonista, mandou parar tudo. Assim como barrou até onde pôde o fim do auxílio-moradia. Sua filha, como sabido, é proprietária de apartamentos na zona mais valorizada do Brasil. Coisa de milhões. Mesmo assim, embolsava auxílio-moradia na mesma cidade em que trabalha, no Rio de Janeiro.

A desmoralização da "justissa" brasileira vai superando todos os parâmetros de malfeitos. Com uma ou outra exceção, cada vez mais rara, aquela que deveria ser a mais alta corte do país poderá se transformar num grupo de chicaneiros, rábulas desqualificados e defensores de oportunistas de plantão.

O presidente do supreminho, por exemplo, acaba de liberar a venda indiscriminada do patrimônio da Petrobrás, que havia sido bloqueada pelo ministro Lewandovski.

É inútil esperar dessas instâncias qualquer reação ao desmonte em curso no Brasil. Sua missão pode se confundir com a de parceiras da corrupção e do desmanche do que resta da democracia e soberania.

Sem mobilização popular, o povo brasileiro será conduzido à condição de gado a caminho do abate. Com armas ou “liquidificadores”.

Joaquim Xavier
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"Queiroz e Flávio não têm foro e liminar é indefensável"

Jurista e professor de Direito Constitucional lembrou que filho de Bolsonaro só terá foro privilegiado a partir de 1º de fevereiro, quando exercerá o cargo de senador


A liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux, desta quinta-feira (17), que suspendeu as investigações criminais contra Fabrício Queiroz, ex-motorista do futuro senador Flávio Bolsonaro, é questionável juridicamente. Quem aponta é o jurista e professor de Direito Constitucional Pedro Serrano que lembrou que nem o futuro parlamentar do Senado Federal, nem o ex-assessor possuem foro privilegiado.

“A posição do ministro, sob ponto de vista jurídico, é indefensável. A fundamentação dele me parece equivocada porque o foro privilegiado só ocorre a partir da investidura no cargo, a partir do exercício do mandato”, disse Serrano ao explicar que o filho de Jair Bolsonaro (PSL) ainda não possui a prerrogativa do cargo de senador.

Reportagem do jornal Estadão revelou que, apesar de não ser formalmente investigado, Flávio Bolsonaro alegou, no pedido liminar que fez ao STF na quarta-feira (16), que vai ganhar o foro perante a Corte, já que vai assumir o mandato de senador no dia 1º de fevereiro. Para o Serrano, no entanto, a decisão de Fux contraria o entendimento do próprio STF, ao qual ele também foi favorável, que em maio de 2018 decidiu que o foro privilegiado ficou restrito a senadores e deputados federais.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, ocupa atualmente o cargo de deputado estadual no Rio de Janeiro. “O foro visa proteger o mandato e não a pessoa. Se o mandato [de senador] não se iniciou, a pessoa ainda não tem a proteção do foro privilegiado”, explica o jurista.

Ainda segundo Serrano, as investigações criminais contra Queiroz devem prosseguir, independentemente, de Flávio Bolsonaro ter foro privilegiado ou não. “A decisão de Fux também foi complicada porque o assessor deve ser investigado. Ele [ministro] tem que verificar o que fundamenta investigar os dois juntos, porque muitas vezes o STF manda investigar as pessoas que não tem foro de forma separada das que tem”, aponta.

Dois pesos, duas medidas

De acordo com Serrano, a liminar serve para fazer uma análise de como a Justiça tem se comportado nos últimos anos. Para ele, tanto o STF, quanto o Ministério Público têm comportamentos diferentes, dependendo de qual força política é investigada.

“Eu abro a notícia de hoje de que o ministro Fux tinha dado a liminar e vejo o Ministério Público dizendo que não sabia os fundamentos da cautelar e que não iria se manifestar sobre a decisão porque é sigilosa. É interessante olharmos esse caso e outros recentes. O ministro preocupado em salvaguardar os direitos do investigado. O MP preocupado com a garantia do sigilo, que são comportamentos corretos do plano constitucional. Mas é interessante como a Constituição Federal só está sendo aplicada para as pessoas ligadas ao governo, ou amiga do governo. Gente da família do presidente da República”.

Para o jurista, tanto o STF, como o MP tiveram comportamentos totalmente contrários no caso do ex-presidente Lula. “No caso dos adversários da direita, como no caso do Lula com PowerPoint do MP, não houve a preocupação com sigilo, com prisão cautelar para fins de confissão. Ou seja, o que nós notamos é que o sistema de justiça é incapaz de ser imparcial no plano da política e isso é muito grave para a democracia brasileira”, critica.

Erick Julio
No Agência PT
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Fux mata no peito. Bolsominions #Xatiados


O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou suspender provisoriamente o procedimento investigatório instaurado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro para apurar movimentações financeiras de Fabricio Queiroz consideradas "atípicas" pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Luiz Fux determinou a suspensão da investigação temporariamente, até que Marco Aurélio Mello tome uma decisão, após o recesso, que termina no próximo dia 31.

O ministro entendeu que, como Flávio Bolsonaro passou a ter foro privilegiado ao ser diplomado – ele tomará posse como senador em fevereiro –, caberá ao relator no STF decidir sobre a continuidade da investigação.

Flavio Bolsonaro também pediu que as investigações do caso fiquem sob responsabilidade do STF e que as provas coletadas até aqui sejam anuladas. Esses dois pedidos serão decididos por Marco Aurélio.

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), em caráter reservado, se disseram surpresos com a decisão do ministro Luiz Fux suspendendo temporariamente o caso envolvendo o ex-assessor Fabricio Queiroz, que trabalhou para o senador eleito Flavio Bolsonaro (PSL-RJ).

Mas, mais do que isso, apontaram surpresa com o pedido feito por Flavio Bolsonaro, uma vez que ele diz não ser investigado - apenas citado no inquérito do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) que apontou movimentação atípica de Queiroz.

Integrantes da área militar do governo demostraram desconforto com o pedido de suspensão da investigação.

Eduardo Bolsonaro pediu fim do foro privilegiado em 2018 para que Lula fosse preso

Eduardo Bolsonaro no Twitter



‘Eu não quero foro privilegiado’, disse Bolsonaro ao lado de Flávio



Ofensiva de Flávio decepciona apoiadores e ‘influencers’ pró-Bolsonaro

Entre escapadas e sumiços, o caso Queiroz sofreu um novo revés. Na quarta 16, o STF derrubou a investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro contra o motorista Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flavio Bolsonaro. O processo foi suspenso por decisão do ministro Luiz Fux, a pedidos do próprio Flavio.

Fux entendeu que, como Flavio é senador eleito e passará a ter foro privilegiado, é melhor esperar para que o Supremo decida o foro adequado, e só então prosseguir com as investigações. A decisão vale até que o ministro Marco Aurélio analise o caso a partir de fevereiro, na volta do recesso.

Queiroz entrou na mira do MP depois que o Coaf identificou que ele movimentava muito mais dinheiro que o compatível com o salário na Câmara. Em um ano, circulou nas contas do motorista 1,2 milhão de reais. O conselho identificou ainda um cheque de 24 mil reais nominal à primeira-dama Michele Bolsonaro.

A ofensiva pegou mal entre a bolsosfera no Twitter. De um lado, o filho Carlos Bolsonaro e os blogueiros e influencers associados ao novo governo discutem as teorias de Olavo de Carvalho. De outro, eleitores e apoiadores declarados do presidente manifestaram decepção e desconfiança.

Afinal, a investigação sequer chegou formalmente ao filho mais velho de Jair Bolsonaro.

O humorista Danilo Gentili ironizou a promessa informal da campanha contra a ‘mamata’.

Outro humorista do SBT, Bob Nunes, sugeriu ainda uma represália a la ditadura contra Flavio e Queiroz

Fernando Holiday, vereador e integrante do MBL, criticou a ofensiva de Flavio Bolsonaro contra uma ‘simples investigação’.

Confira a repercussão:





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Relatório enviado à PF sugere caminho para rastrear fake news

Pesquisador coletou dados de 277 grupos de WhatsApp durante as eleições


A Procuradoria-Geral da República recebeu, em 26 de novembro de 2018, um parecer técnico com rastreamento de algumas das principais notícias falsas disseminadas na campanha eleitoral.

O relatório, elaborado pelo especialista em telecomunicações da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio Miguel Freitas, permitiria identificar quem foram os primeiros propagadores das mentiras que mais circularam na eleição passada.

Celulares usados em empresa para enviar mensagens de WhatsApp em massa
Celulares usados em empresa para enviar mensagens de WhatsApp em massa

O documento foi recebido pela procuradora Raquel Branquinho e enviado para a Polícia Federal.

Após negar ter recebido o relatório, a assessoria da PF afirmou que a documentação foi recebida fora dos autos pelo delegado Thiago Marcantonio, responsável por inquérito sobre envio em massa de mensagens pelo WhatsApp nas eleições.

O inquérito foi aberto em 20 de outubro, logo após reportagem da Folha mostrar que empresários bancaram envio em massa de mensagens contra o PT pelo aplicativo durante a campanha.

Em email a Branquinho, Freitas afirmou que o relatório poderia "auxiliar em algumas linhas de investigação quanto ao uso e disseminação das 'fake news' na eleição de 2018".

Segundo ele, o material reúne "informações técnicas e indícios sobre as origens de algumas das postagens falsas mais relevantes observadas neste processo eleitoral em grupos públicos de WhatsApp".

Freitas diz que sua iniciativa é de caráter pessoal e se colocou à disposição para dar mais esclarecimentos. No entanto, até hoje, quase dois meses depois, ninguém entrou em contato com o pesquisador.

A Folha indagou à PF quais medidas haviam sido tomadas a partir do parecer técnico, mas a assessoria limitou-se a dizer que o material foi recebido fora dos autos e não especificou se foi incorporado à investigação eleitoral.

Freitas coletou dados inicialmente de 115 grupos de WhatsApp e posteriormente acrescentou rastreamento de outros 162 grupos, totalizando 277. Identificou 16 notícias falsas de grande circulação na campanha, citadas por órgãos de imprensa.

O relatório chegou a identificadores sobre o primeiro "upload" de cada vídeo ou imagem no WhatsApp.

"Se a Justiça requerer ao WhatsApp os registros que a plataforma mantém em relação a esses identificadores que nós localizamos, será possível chegar ao endereço IP da pessoa que primeiro fez o upload, ou seja, identificá-la", diz ele, coordenador do laboratório de Pesquisa em Tecnologia de Inspeção (CPTI/PUC-Rio).

Segundo o pesquisador, quando um arquivo de mídia é carregado pela primeira vez, ele produz nos servidores do WhatsApp um registro (log) que permite recuperar posteriormente a identificação do usuário que enviou esse conteúdo.

Também é possível conhecer as informações de conexão, como o endereço IP (identificação única de cada computador ou smartphone conectado à rede), a data e a hora.

As mensagens enviadas por um determinado usuário são criptografadas no próprio celular antes de serem enviadas à rede ou aos servidores da plataforma WhatsApp. Esse processo envolve uma chave de segurança que apenas o destinatário possui, e isso garante que nenhum intermediário seja capaz de acessar o conteúdo.

"Esta é a razão da alegação frequente do WhatsApp perante a Justiça de que não seria capaz de fornecer, por motivos técnicos, o conteúdo das mensagens solicitadas", diz.

Os artigos 13 e 15 do Marco Civil da Internet estabelecem obrigações para os provedores de acesso (empresas operadoras de internet) guardar e fornecer por um ano os registros de conexão e, para os provedores de aplicações (caso do WhatsApp), por seis meses.

O parecer do pesquisador chegou a "identificadores" sobre o primeiro upload dessas fake news, que, segundo ele, permitem ao WhatsApp localizar os registros. Não se trata de revelar conteúdo, que não fica nos servidores da plataforma, mas de trabalhar com metadados (dados por trás desse conteúdo).

"É tecnicamente possível obter, via judicial, informações sobre a origem de uma mídia digital enviada ou encaminhada na plataforma WhatsApp. Essas informações incluem o número do celular associado, a hora do acesso e o endereço IP do usuário que realizou o primeiro envio dessa mídia para a plataforma. Mídias digitais, tais como fotos e vídeos, encaminhados entre grupos e entre diferentes usuários dentro da plataforma WhatsApp preservam a capacidade de rastreamento ao usuário de origem", afirma o relatório recebido por Procuradoria e PF.

Segundo Freitas, a solicitação judicial ao WhatsApp deve ser embasada tecnicamente a respeito do funcionamento da plataforma, porque assim se evita que a empresa diga que é inviável atender ao pedido.

Como o IP identifica a máquina, seria ainda necessário aprofundar a investigação para encontrar o usuário real.

Nos EUA, o WhatsApp já forneceu esses metadados ao FBI (polícia federal americana) algumas vezes, mediante ordem judicial durante investigação de crimes.

Não é possível dizer se uma pessoa repassou um vídeo ou imagem que veio originalmente do Facebook ou por email.

Mas é possível identificar a primeira pessoa que fez o upload de um conteúdo no WhatsApp. Por mais que não tenha criado o conteúdo, essa pessoa é chave na disseminação — e pode ser um IP de uma agência de marketing ou alguém ligado a algum partido.

Entenda as suspeitas envolvendo o uso do WhatsApp na eleição

O que está em apuração na Polícia Federal?

Um inquérito foi aberto pela PF após a Folha revelar, no dia 18 de outubro, que empresários impulsionaram disparos por WhatsApp contra o PT na campanha eleitoral. As agências que prestavam o serviço eram a Quickmobile, Yacows, Croc Services e SMS Market. A Procuradoria-Geral da República, à época, defendeu a apuração para identificar se a integridade do processo eleitoral tinha sido afetada. A investigação ainda não foi concluída

Quais foram os desdobramentos da reportagem?

No dia seguinte à publicação da reportagem, o WhatsApp, que pertence desde 2014 ao Facebook, bloqueou contas ligadas às quatro agências. Anunciou ainda que baniu centenas de milhares de contas em uma tentativa de conter spam e notícias falsas. Jair Bolsonaro na época negou envolvimento em qualquer irregularidade e disse não ter controle sobre o que empresários apoiadores fazem

Um candidato pode fazer campanha usando o WhatsApp?

Sim, mas as regras previstas em lei precisam ser seguidas. O político pode divulgar propagandas e seus apoiadores podem repassar as mensagens, desde que isso não envolva pagamentos nem sejam usados meios tecnológicos para burlar o sistema do WhatsApp (com o uso deliberado de diferentes chips, por exemplo)

Quem pode receber os conteúdos?

A lei impede que o candidato compre listas de telefones com a intenção de disparar mensagens em massa. O político só pode usar contatos que tenham sido fornecidos pelos donos dos números e que façam parte de base de dados do partido ou do próprio candidato. Empresas estão proibidas pelo Supremo Tribunal Federal de financiar despesas de campanha

O que diz o relatório produzido por Miguel Freitas?

Freitas, especialista em telecomunicações da PUC do Rio, rastreou um total de 277 grupos de WhatsApp e identificou 16 notícias falsas de grande circulação na campanha. O relatório chegou a identificadores que podem apontar a origem de vídeos ou imagens que circularam na eleição

Patrícia Campos Mello
No Fe-lha
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“Take off the cheese!”


Crônica sobre a regressão do Brasil a tempos e costumes que deviam ser mero passado

Tirei o queijo aos 14 anos. Quem me levou ao bordel foi o filho do vizinho, quatro anos mais velho. Chamava-se Green Grass – ou Capim Verde. Era uma zona, como dizíamos então, que funcionava no Engenho do Meio. Ficava próximo ao campus da Universidade Federal de Pernambuco, no Recife. Aquele puteiro recebia hordas de universitários como consolo para quem não havia pegado ninguém no forró do Abacaxi. O Abacaxi era um forró que ficava ao lado da universidade. Tocava pé-de-serra e servia retetéu (cachaça, suco e mel) dentro de abacaxis descarnados. A proximidade com o campus encorajara meu vizinho, recém-admitido no curso de engenharia, a se tornar uma espécie de Capitão da Zona. Ele era filho de um coronel lotado no Serviço Nacional de Informações (SNI). Uma figura: por toda a vida manteve duas famílias, dividia o tempo irmãmente entre elas e o quartel. Ao passar para a reserva ganhou a patente de general. Adorava ser chamado de General.

(Pouco tempo depois, quando iniciei sozinho uma outra viagem particular, articulando-me com o Movimento Estudantil secundarista, com Comunidades Eclesiais de Base, com a turma da Teologia da Libertação no Recife, lembro de ter virado cada página de Brasil, Nunca Mais certo de que encontraria o nome do coronel que virou general no capítulo seguinte. Ou no índice onomástico. Não encontrei, mas li descrições que até hoje me fazem ter certeza de que ele era descrito em passagens narradas naquela biografia de um país contra o qual lutamos, vencemos, e que agora voltou triunfante.)

Experiência esquisita, aquela no puteiro. Foi-me designada uma loira meio Chanel de brilho pelo corpo todo. Circulava de biquíni e brilho entre as mesas humildes, cobertas de fórmica azul, onde se bebia rum com Coca Cola. Bebi três doses antes de encarar a estreia. Lembro de ter achado a pele dela muito fria. Mas tirar o queijo era a missão. Tirar o queijo: perder a virgindade. “Queijo” era a metáfora regional à época (não sei se hoje ainda) para quem jamais havia tido uma experiência sexual. Dava-se esse nome, diziam-me, porque a crença era a de que os sêmens podiam coalhar caso não fossem libertados da criogenia natural do líquido seminal.

Revólver na cintura, aluno de Engenharia, já dirigindo o próprio carro, o filho do general me dizia: “take off the cheese, Lula”! E ria. Falava bem inglês, ou achava que falava. Missão cumprida, apavorava-me pegar alguma doença. Eu já o vira se banhar em Baygon líquido (um inseticida fortíssimo) junto com dois outros amigos para debelarem uma infestação de “chatos”. “Chatos” são parasitas da família dos piolhos que habitam a região pubiana de quem tem pouca higiene. Provocam enorme coceira, diz a literatura. Eu estava em pânico – não queria ter de me banhar de Baygon também.

Era alta madrugada quando, saindo do Green Grass, passamos diante do Hospital da Restauração, a maior emergência pública do Nordeste. Movimentadíssima.

- Uma barraca de coco aberta!, alertou o filho do “general”. – Vamos parar para a gente fazer o serviço completo, com segurança.

- Qual serviço completo?, quis saber.

Paramos. Descemos. Pedimos quatro cocos, dois para cada um. “Bebe”, ordenou. O revólver estava exposto na cintura. Passava das 3h. Bebíamos a água dos cocos enquanto acompanhávamos a entrada das ocorrências daquela madrugada de sábado. Feridos da vida: baleados, esfaqueados, vítimas de acidente de trânsito. Subiam pela rampa do Restauração, alguns deixavam embaixo parentes e amigos em desespero.

- O serviço completo é o seguinte..., disse o meu vizinho, filho do coronel que virou general ao passar para a reserva e gostava de exigir “o cano”. Completou: - Bebe muita água de coco, depois a gente para ali no canal (o canal da avenida Agamenon Magalhães, artéria que corta parte da cidade exibindo um veio enlameado de maré e exalando o cheiro agridoce tão característico do Recife) e faz xixi para evitar qualquer doença.

- ?!?, olhei para ele com a expressão de quem, aos 14 anos, já perguntava “que porra é essa”.

- Aprenda: depois de comer alguém beba algo que fará você botar tudo para fora. Água de coco, ou mesmo cerveja. Aí você lava tudo, expele tudo, e evita doenças venéreas. Sacou?

Meu antigo vizinho é terraplanista, votou em Bolsonaro, formou-se em Engenharia, ganha a vida como corretor de imóveis. Numa das vezes em que fui a Recife antes das últimas eleições eu o encontrei por acaso ao sair de uma padaria em Olinda. Estava feliz com a (àquele momento já iminente) vitória de seu capitão. Brinquei com ele citando Walt Whitman – Oh Capitan, my Capitan! – fazendo referência à performance de Robin Williams recitando o poema em Sociedade dos Poetas Mortos.

- ?!?, olhou-me, devolvendo na própria expressão a minha autopergunta de 36 anos atrás.

Sorri. Nos abraçamos. Sabíamos que vivíamos vidas paralelas em mundos paralelos que talvez só se reencontrassem naquela padaria da rua olindense Elesbão de Castro. Sempre guardei esse nome porque ele me soou esdrúxulo a vida inteira, desde a infância.

Ontem, dia em que o governo brasileiro baixou um decreto liberando armas, dando licença para matar, e o presidente que preside essa Nação tão limítrofe com algum lugar distópico na ficção ocidental, lembrei-me do episódio. Talvez a lembrança tenha ocorrido por causa do revólver que ele sempre carregava na cintura – coisas de um tempo em que havia militares no poder, havia uma classe média emergente crendo que podia tudo (sobretudo se fossem filhos de quem estava no poder), havia uma ignorância pueril sobre tantas coisas... até mesmo sobre a fisiologia.

Senti-me derrotado quando cheguei ao aeroporto do Rio, depois de um dia de intensas reuniões, e parei para me atualizar dos fatos antes de embarcar de volta para Brasília. Portar armas, ter licença para matar, virou política de Estado. Nas salinhas e nos salões da capital da República há gente com caneta nas mãos que odeia a Ciência e professa o criacionismo. Água de coco abençoada, em breve, poderá estar sendo distribuída nas escolas como política pública de educação sexual – a ser seguido o manual empírico dessa turma que ouve e admira um quase-filósofo iletrado para quem não há evidências de que a Terra seja arredondada, mas sim plana.

- Take off the cheese!, ouvia em minha memória de vencido enquanto tomava banho no meio da noite que encerrava o massacre moral do 15 de janeiro de 2019.

Eles triunfaram de novo, depois de terem se recolhido às coxias da vida. Resta-nos usar as armas. Cada um saque a sua.

(PS: Nem tudo é verdade. Tudo pode ser verdade. Num Brasil em que Deus sobe na goiabeira, revólveres são comparados a liquidificadores em periculosidade para a vida e motoristas depositam 24 mil reais na conta da madrasta do patrão sem ter de explicar nada a ninguém porque nenhum deles se sentiu traído, tudo está liberado.)

Luis Costa Pinto é jornalista, escritor e consultor na Ideias, Fatos e Texto. É também membro do Jornalistas pela Democracia. Twitter: @LulaCostaPinto, Facebook: lula.costapinto
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Por que o dono da Havan quer o fim da Justiça do Trabalho

Eles
O folclórico Luciano Hang, dono das lojas Havan, acaba de ganhar mais um processo para sua imensa coleção.

O Conselho Federal da OAB entrou com uma ação contra o empresário bolsonarista por suas ofensas contra a entidade e, consequentemente, a de todos os advogados.

Favorável à extinção da Justiça do Trabalho, Luciano Hang utilizou-se das redes sociais – meio oficial da ‘nova era’ – para chamar advogados trabalhistas de “porcos que se acostumaram a viver num chiqueiro” e outras ofensas.

A OAB estipulou a ação em R$ 1 milhão.

Por que Hang quer ver a Justiça do Trabalho extinta?

Antes de mais nada, o empresário tem um abacaxi e tanto nas mãos. Por sua coação a 15 mil funcionários na qual exigiu o voto em Bolsonaro para presidente, ele já está sendo processado pelo Ministério Público do Trabalho de Santa Catarina em R$ 25 milhões por dano moral coletivo.

Nada impede, no entanto, que Hang ainda tenha que ressarcir individualmente a cada um dos 15 mil empregados. O MPT sugeriu o valor de R$ 5 mil para cada funcionário, o que acrescentaria uma conta de R$ 75 milhões.

Tamanho total do abacaxi: R$ 100 milhões.

Justiça do Trabalho e Ministério Público dão urticária em Luciano Hang.

O empresário já foi condenado a 3 anos, 11 meses e 15 dias de cadeia por pagar parte do salário de seus funcionários por fora. Sem o registro em carteira do valor cheio, esse ilibado empresário defensor da moral e dos bons costumes tinha custos menores com a Previdência. Segundo o Ministério Público Federal, a sonegação passou de R$ 10 milhões no período em que praticou-a (Hang, entretanto, nunca foi preso, a pena de detenção foi substituída pela prestação de ‘serviços à comunidade’).

Luciano Hang pactua da filosofia bolsonarista de que ‘é difícil ser patrão’. Jair Bolsonaro, que já extinguiu o Ministério do Trabalho, tem dito agora aos quatro ventos que pensa em acabar com a Justiça do Trabalho, algo que ele considera ‘excesso de proteção’.

A Associação Juízes para a Democracia (AJD) está com um dossiê pronto para rebater o presidente e manifestações em defesa da Justiça do Trabalho estão sendo marcadas para os próximos dias. Em São Paulo haverá um abraço em torno do Forum da Barra Funda.

Pela mesma atitude (o vídeo em que fazia ameaças de fechamento de lojas caso Bolsonaro não vencesse), uma ação foi movida pedindo inelegibilidade de Bolsonaro e a cassação do mandato por abuso de poder econômico. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) arquivou a ação.

Até hoje não está clara a participação de Luciano Hang na alavancagem das mensagens de Whatsapp durante a campanha eleitoral e talvez nunca saibamos dado a propensão a ser mais um caso à la Queiroz do novo governo.

O dono da Havan é o típico hipócrita da direita. Prega o Estado mínimo e quer ver Lula apodrecer na cadeia. Mas durante o governo do petista, Hang obteve pelo menos 50 empréstimos do BNDES para financiar a expansão de suas atividades comerciais no país. Em nove anos ele abriu quase 100 lojas em 13 estados do país. Detalhe: foram R$ 20,6 milhões na modalidade Finame, que se destina à aquisição de ‘máquinas e equipamentos para financiar produção industrial’. Nada a ver, portanto, com uma rede de lojas de varejo.

Hang já foi autuado pela Receita Federal por manobra financeira envolvendo a rede de lojas para tomar o empréstimo para ele mesmo, como pessoa física (eram R$ 100 milhões então dinheiro para a ação trabalhista pela coação feita aos funcionários, em tese, ele tem).

O trabalhador da ‘nova era’ não terá como se proteger das atrocidades de empresários como Luciano Hang e nem verá uma aposentadoria no horizonte. Melhorou né?

Mauro Donato
No DCM
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Boulos entrará com ação judicial contra desembargadora por incitação ao crime


A desembargadora é conhecida por ofensas contra uma professora com síndrome de Down e à vereadora assassinada do Rio, Marielle Franco, entre outros

A desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), Marília Castro Neves, conhecida por ser alvo de vários processos por ataques na internet, desta vez deve responder por incitação ao crime. O autor da ação será o líder do Movimento dos Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos.

Após postagem de um meme o atacando, Boulos retuitou:

“Esta é a desembargadora Marília Castro Neves, do TJ do Rio de Janeiro. Já responde judicialmente por ofensas a Marielle Franco e outras postagens inadequadas. Um magistrado tem que ter equilíbrio, não pode incitar ao crime. Agora responderá mais uma ação judicial.”

Entre os ataques da procuradora estão ofensas contra uma professora com síndrome de Down, à vereadora assassinada do Rio, Marielle Franco, entre outros.

Leia mais sobre o assunto aqui.

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Em nova derrota na Justiça, Frota é condenado a indenizar Juca Kfouri em R$ 30 mil

Alexandre Frota.
Foto: Reprodução/Instagram
Alexandre Frota, deputado federal eleito do PSL e ex-ator pornô, foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP) a indenizar em R$ 30 mil Juca Kfouri por postagens ofensivas feitas no Twitter, informa o Jota.

Logo depois que o jornalista publicou um texto em seu blog chamando Frota de “ator pornô” e dizendo que ele conduzia Roque Citadini, então candidato à presidência do Corinthians, para o abismo, o deputado eleito chamou Kfouri, dentre outros impropérios com conotações sexuais e escatológicas, de “capacho do PT”.

Meses depois, voltou a ofender o jornalista, desta vez fazendo referência também a José Trajano, ao dizer que os dois seriam “dois bêbados que não valem nada”, dentre outros xingamentos.

A  2ª Câmara de Direito Privado do TJSP considerou evidente o dano provocado pelas postagens de Frota e majorou o valor da condenação por danos morais de R$ 15 mil para R$ 30 mil. (…)

Além disso, a reportagem escrita por Kfouri, entende o desembargador, se examinada a fundo não parece conter excessos, mas apenas posicionamento jornalístico.

Como Frota praticamente em seguida ao tuíte que gerou a ação voltou a manifestar-se na rede social para novamente ofender Kfouri “de forma bastante ostensiva e com  xingamentos”, os desembargadores decidiram majorar o valor da indenização.

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O Brasil, o efeito orloff, Macri e a subordinação à Europa e aos EUA

http://www.maurosantayana.com/2019/01/o-brasil-o-efeito-orloff-macri-e.html


A imposição de barreiras e taxas, pela União Europeia, à importação de sete tipos de aço brasileiro, atitude que, de tanto se repetir, já se transformou, do ponto de vista histórico, em um fator recorrente na desigual relação comercial entre o Brasil e a UE, chega em um momento particularmente interessante das relações internacionais brasileiras.

Ela coincide com a visita de Mauricio Macri - a primeira de um dignatário estrangeiro a Brasília - e com a defesa, pelos presidentes argentino e brasileiro, da “flexibiização” do Mercosul e da diminuição da tarifa externa comum do bloco, cedendo unilateralmente aos gringos, sem exigir contrapartida nenhuma dos países ocidentais, justamente quando as grandes potências mundiais, como os EUA, a China e a União Européia, reforçam intransigentemente a defesa de seus interesses estratégicos e comerciais nos mercados internacionais.

Se não fossem as exportações para a China, e, em certa medida, para a União Europeia, de commodities agrícolas e minerais, em uma situação, de fato, colonial, que se repete desde a fundação do Brasil, com o pau brasil cobiçado pelos franceses e lusitanos e o açucar explorado pelos portugueses e os holandeses com sua Companhia das ìndias Ocidentais, o Brasil não teria a quem exportar, já que os EUA não nos compram manufaturados, além de aviões que agora irão adquirir de uma companhia própria, que acabam de colocar sob o seu domínio e controle - a “internacionalização” das melhores empresas brasileiras, como a Petrobras e a Embraer, mesmo com eventual “golden share”, tem nos ensinado que a última palavra fica sempre com os tribunais norte-americanos, que, com a desculpa de defender acionistas daquela nacionalidade, asseguram na verdade a prevalêcia dos interesses geopolíticos de seu país - e não nos adquirem commodities, já que neste aspecto concorrem diretamente conosco vendendo ao mundo, com exceção do café e do minério de ferro, os mesmos produtos que exportamos, como soja, algodão, carne de frango, de porco e de boi, por exemplo.

Isso e o tradicional protecionismo dos EUA, explicam porque os estadunidenses - tão decantados como potenciais parceiros do Brasil nos dias de hoje - acumularam, nos últimos anos, sucessivos superavits no comércio com o nosso país, que por sua vez só obteve lucro em suas exportações de produtos industriais justamente com países e regiões dos quais a atual diplomacia pretende se afastar como o diabo da cruz, como a África subsaariana, as nações árabes e a América Latina, entre eles a Venezuela, com quem chegamos a lucrar mais de dois bilhões de dólares em alguns anos, quando a situação daquele país, antes da queda dos preços internacionais do petróleo, estava melhor do ponto de vista econômico.

Quanto ao tango com Macri e aos perigos do “efeito orloff”, tão famoso na década de oitenta, é preciso tomar cuidado com o abraço dos afogados.

A orientação neoliberal do atual governo argentino acaba de levar Buenos Aires a voltar a passar o penico para o FMI, pouco tempo depois, em termos históricos, de governos anteriores terem pago as dívidas com o país portenho com essa instituição, em 2006.

Situação muito diferente da brasileira, já que o Brasil continua com as sextas maiores reservas internacionais do mundo, 380 bilhões de dólares - mais de 300 deles emprestados aos Estados Unidos - acumuladas entre 2002 e 2015, período em que a dívida bruta caiu de 80% do PIB, no final do governo FHC, para 66% também no final de 2015, o último completo de Dilma Roussef na Presidência da República.

Dinheiro que não impede o avanço da abjeta subordinação aos EUA, como a defesa da liberação de vistos para norte-americanos em troca, eventualmente, de alguns dólares a mais no turismo, sem a existência também de qualquer contrapartida que preserve minimamente a dignidade de milhares de cidadãos brasileiros que visitam, todos os anos, os Estados Unidos.
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O que a China fez, e o Brasil não, para dar certo


Um bom resumo do modelo chinês de desenvolvimento foi preparado por Ricardo Lopes Katz, da Universidade Federal de Santa Catarina, a partir de sua dissertação “A nova rota da seda: entre a tradição histórica e o projeto geoestratégico para o futuro” (https://goo.gl/tu3SnG).

O sucesso do modelo é indiscutível. Tirou 800 milhões de pessoas da linha da pobreza, de 1978 para cá aumentou a renda per capita de menos de US$ 1.0000,00 para mais de US$ 8.800,00. O país representava 3% da economia global quando Deng Xiaoping iniciou seu mandato. Agora, representa 19%. Mais que isso, enquanto as democracias liberais estão em crise, China continua em trajetória pujante, apesar de muitos problemas ainda não resolvidos, como a desigualdade entre o leste e o oeste do país, questões ambientais e de sustentabilidade, envelhecimento da população, bolha imobiliária, como explica Katz.

Xiaoping avançou em quatro grandes modernizações:

1. Agricultura, com o objetivo de se alcançar a autossuficiência alimentar.

2. Forças Armadas, reduzindo a burocracia e investindo em equipamentos de maior intensidade tecnológica.

3. Indústria, mudando do modelo intensivo em capital (herdado da ex-URSS), para indústrias leves intensivas em mão-de-obra.

4. Promoção das exportações, seguindo o modelo vitorioso de outros países do leste asiático.

O modelo de inovação consistiu em abrir zonas econômicas especiais no sudoeste, para atrair investimentos e integrar o país ao comércio exterior. E usou o mercado interno como instrumento de barganha. Empresa estrangeira, para investir na China, deveria obrigatoriamente estabelecer uma joint venture com empresa local.

Ao Estado coube papel central:

1. Grandes investimentos em infraestrutura. No Brasil, tenta-se esvaziar o maior financiador da infraestrutura, o BNDES.

2. Grandes investimentos em ciência, tecnologia e inovação. No Brasil, entrega-se o setor a um ex-astronauta, sem nenhuma familiaridade com políticas de inovação.

3. Investimento em educação básica e superior, incluindo intercâmbios universitários no exterior. No Brasil, acabam com o programa Ciência Sem Fronteias.

4. Proteção às indústrias nascentes e subsídios às empresas chinesas, além de políticas monetária e cambial estimulando a competitividade nas exportações com conteúdo nacional. No Brasil, anuncia-se um processo de abertura indiscriminada da economia, sem negociação de contrapartidas.

Como explica o economista Paulo Gala, no caso da indústria automobilística, exigiu-se que as montadoras estrangeiras tivessem um nível de conteúdo nacional de autopeças de até 70% no prazo de três anos (https://goo.gl/URh1vz). Essa exigência fez com que as montadoras cooperassem estreitamente com os fornecedores locais. A capacitação foi tão completa que, depois de ter sido derrubado esse requisito (quando a China aderiu à Organização Mundial do Comércio), manteve-se a fidelização.

Na fase mais auda da globalização, a China conseguiu se inserir com sucesso. Agora, que a globalização entra em xeque, e até os Estados Unidos acenam com políticas protecionistas, o Brasil caminha célere para a abertura indiscriminada às exportações.

Espera-se que os Ministros da Infraestrutura e de Energia, que parece ter pés no chão, incutam um mínimo de racionalidade e discernimento à tropa bolsonariana-guediana.

Luís Nassif
No GGN
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Dr. Jekyll e Mr. Hyde

O título completo do livro é O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Foi escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson, no século 19, e adaptado para o nosso século. O estranho caso narrado é de dupla personalidade: o respeitado Dr. Jekyll, que todos chamam simpaticamente de “Capitão”, tem um grande círculo de amigos e são estes que o convenceram a concorrer à Presidência do Brasil. Mr. Hyde é o oposto do Dr. Jekyll. Não só não tem amigos como espanta os amigos do Dr. Jekyll com sua truculência e seus modos à mesa. Nada disso teria muita importância – afinal, quem não tem amigos embaraçosos? – se Jekyll e Hyde não fossem a mesma pessoa. Eles constantemente se contradizem. E Hyde tem o irritante hábito de contradizer a si mesmo, argumentando que um dos direitos humanos fundamentais é o direito de voltar atrás.

– Na campanha, você disse que não toleraria o nepotismo no seu governo.

– Pois então? “Nepotismo” é quando se dá cargo a um sobrinho, “nepote”, do papa. E não tem nenhum sobrinho de papa no meu governo!

– Qual é sua posição quanto ao tratado de Paris?

– A de ontem ou a de amanhã?

O problema da candidatura dupla Jekyll/Hyde era que nunca se sabia qual dos dois ia aparecer – e continua não se sabendo. Jekyll faz pronunciamentos perfeitamente sensatos, Hyde, ao contrário, pode chegar cuspindo fogo e assustando os vermelhos. Jekyll pode escolher um ministério no mínimo divertido, nada impede Hyde de preferir um gabinete maluco. Dizem que existe uma força-tarefa de prontidão em Brasília para garantir que Hyde não tenha muita liberdade para improvisar e dizer o quiser, e o seu lado Jekyll apareça mais. Mas sempre há o perigo de que o sensato seja o Hyde disfarçado.

Luís Fernando Veríssimo
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O PIB que cresce agora é o “Pobreza Interna Bruta”


Os números da Comissão Econômica para a América Latina, um órgão da ONU, são avassaladores.

O número de miseráveis nos países latino-americanos subiu e coube ao Brasil a posição de “locomotiva” desta marcha-a-ré.

Diz o El País que “o aumento da pobreza extrema da América Latina se explica, em boa medida, pela má evolução do Brasil, disparadamente o país mais populoso da região, que entre 2015 e 2017 viu a pobreza extrema saltar de 4% para 5,5% da sua população”.

1,5% de uma população de pouco mais de 200 milhões de pessoas são mais de três milhões de seres humanos. Oito milhões de miseráveis passaram a ser 11 milhões.

Gente que vive com menos de 1 dólar por dia.

Considerado o conceito de pobreza – US$ 2 dólares por dia – são 40 milhões, 19,9% da população.

Até agora, o que se expôs para vencer este problema foi o de projeto da bala.

Logo adiante, ao que parece, trata-se de passar os direitos previdenciários pelo liquidificador.

Somos um caso sui-generis de país que diz apostar em desenvolvimento econômico com empobrecimento da população.

Só se PIB agora significar “Pobreza Interna Bruta”.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Sérgio Moro mente sobre Lula na GloboNews


O Ministro da Justiça de Bolsonaro, Sérgio Moro, mentiu mais uma vez sobre Lula, agora caindo em contradição com o que ele mesmo assinou como juiz.

Quando tinha esse cargo, Moro escreveu o seguinte despacho no dia 19 de julho de 2017:

“Este juízo jamais afirmou na sentença, ou em lugar algum, que os valores obtidos pela construtora OAS nos contratos com a Petrobras foram utilizados para pagamento da vantagem indevida para o ex-presidente”.

Ou seja: Mesmo Moro dizia que Lula não tinha recebido recursos desviados da Petrobrás. E isso depois da maior devassa contra uma pessoa da história da Justiça brasileira. Não acharam nada. Saiba mais sobre esse despacho de Moro aqui.

Por isso a sentença de Moro teve que condenar Lula por “atos indeterminados” e por apartamento “atribuído” ao ex-presidente no Guarujá que nunca foi dele. Por que não achou nada: nem ato criminoso, nem vantagem indevida.

Na Globonews Moro disse diferente disso que ele mesmo escreveu e assinou, fazendo discurso de que Lula teria recebido recursos desviados da Petrobras, o que não tem base alguma, nem nas sentença do próprio Moro.

É só mais uma das muitas prova de obsessão, parcialidade, perseguição política e até de crimes cometidos por Moro contra Lula.
Pode ser levada a sério a sua sentença contra Lula, que o impediu de disputar as eleições e ajudou Bolsonaro a chegar ao poder?

No Lula
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Nós, pré-históricos

O argumento de que a livre posse de armas de fogo, como diz Jair Bolsonaro, "é para garantir às pessoas o legítimo direito de defesa", dá uma decoração enganosa ao seu teor pré-histórico: o governo militarizado entrega à população a tarefa de defender-se da criminalidade que a aflige. O homem das casernas quer o seu contemporâneo de volta à autodefesa que restava ao homem das cavernas.

De alguns milênios para cá, a defesa dos cidadãos é atribuição das forças do Estado para isso mantidas. E aos governos compete dirigi-las com inteligência e civilidade. Na falta dessas qualidades, o roteiro cênico que o governo militarizado propõe é empolgante. Segue-se um trailer.

É nas ruas, nas lojas, nos espaços e eventos públicos que a criminalidade assola o cidadão. Se deve praticar a autodefesa armada, a vítima precisaria fazê-lo, a bala, no lugar público onde é atacada. Como são incontáveis os ataques diários, havendo inúmeros casos sem registro policial, o que o governo militarizado espera é um tiroteio assombroso produzido pelas autodefesas. Seriam tiros o dia todo, todos os dias, em toda a cidade, qualquer que seja.

Pior do que a massificação das armas é a obtusidade em que se ampara tal "reforma". O problema da criminalidade se manifesta pela já existente posse (ilegal) de armas. Armar suas vítimas para pretensa autodefesa não reduz, antes amplia os crimes de tentativa e de homicídio mesmo, agora praticados pelos antigos e por novos usuários de armas. A posse livre e legal de armas não tem como contribuir para a redução da criminalidade cometida como meio de vida ou melhora de vida. Não há como atribuir a raciocínios inteligentes o armamentismo trazido pelo governo militarizado.

Por desídia, incompetência, corrupção ou o que mais, as forças do Estado têm perdido, até com humilhação, no confronto com o fenomenal avanço do chamado crime organizado. Mesmo o Exército não consegue se impor, no máximo evitando o insucesso óbvio, com medidas incipientes como as da intervenção no Rio. Por mais chocante que pareça, é justo reconhecer que as grandes facções têm comprovado muito mais criatividade, ordem interna e funcionalidade estrutural do que a variedade de forças a que enfrentam.

Principal incumbido do problema, Sergio Moro ainda não descobriu que a corrupção não é tudo, não é o mais difícil e nem mesmo o principal entre as obrigações do Ministério da Justiça. E entre os males mais urgentes e perigosos no país, sua atenção continua concentrada na "criminalização do caixa dois", nas "contrapartidas em doações", no "aumento de penas", por aí. Nem uma palavra, antes ou depois de empossado, sobre políticas e táticas de ação contra a violência sempre crescente. Nem mesmo as duas semanas do show dado contra policiais e militares no Ceará desligou-o do seu samba de um assunto só.

A propósito, o governador petista do Ceará, Camilo Santana, cometeu um deslize. Recebida a Força Nacional para socorrê-lo, elogiou Sergio Moro como um aliado contra o crime organizado. Moro, na verdade, recusou o envio da Força, que assim mesmo Jair Bolsonaro determinou. Desperdiçar uma oportunidade de referência positiva a Bolsonaro, ainda mais equivocada, é imperdoável. Afinal, não se sabe quando, e se, haverá outra. A pré-história não oferece muito o que imitar.

Janio de Freitas
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Xadrez da indústria de armas e o financiamento da direita


Peça 1 - a indústria de armas e a direita

O jogo da indústria de segurança com o esquema Bolsonaro ficou nítido no primeiro dia após as eleições, quando o governador eleito do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, e o segundo filho, Carlos Bolsonaro, anunciaram ida imediata a Israel para negociar a compra de drones assassinos (https://goo.gl/tK4XfK45). A indústria de segurança de Israel tem uma longa tradição de corrupção com o Brasil, iniciada com a venda de equipamentos superfaturados para o governo Quercia,

Dois twitters dos inenarráveis irmãos Bolsonaro - Eduardo e Carlos - reforçam esse tema, que tem sido pouco abordado nas análises políticas: a parceria da indústria de armas com a ultradireita mundial. E mostram como os profissionais deitaram e rolaram em torno do suposto lobby dos Bolsonaro pela Taurus, empresa brasileira. O buraco era bem mais acima.

O primeiro twitter, de Eduardo, citando o irmão Carlos, a respeito das divisões da ultradireita com fabricantes de armas. Com a naturalidade de quem discute futebol, Carlos denuncia os “fanfarrões” que fazem propaganda da Taurus, mas usam Glock. Quando denunciados, o que fazem os fanfarrões? “Dizem que estamos dividindo a direita! O twitter é de 1º de novembro de 2017.


O segundo twitter, de 17 de janeiro de 2017, mostra o estreitamento de relações de Eduardo Bolsonaro, com a influente NRA, a Associação Nacional de Rifles dos Estados Unidos, quando se preparava para a campanha eleitoral.


De fato, no dia 11 de junho passado, Bolsonaro já mostrara que haviam frutificado suas relações com a NRA. Anunciou que, se eleito, acabaria com o monopólio da Taurus, alterando o artigo 190 do Decreto 3.665, de 2.000, sobre produtos controlados. Diz o decreto:  "o produto controlado que estiver sendo fabricado no país, por indústria considerada de valor estratégico pelo Exército, terá a importação negada ou restringida".

No dia 10 de novembro de 2018, o site da America´s 1st Freedom, da NRA, dizia (https://goo.gl/F7mkKV):  “Tiremos o chapéu para Bolsonaro por ver a situação pelo que realmente é”.

Um ano antes, em 2017, Jair e Eduardo Bolsonaro foram recebido com todas as regalias pela NRA, conforme reportagem da Bloomberg (https://goo.gl/KWcMhy):

“Enquanto estavam lá, eles experimentaram uma AK-47 e outras armas de assalto. Depois, Eduardo, vestindo uma camiseta "F --- ISIS", segurou cartuchos de grande calibre para a câmera e expressou consternação por eles poderem "ter um problema" se tentassem trazer a munição para o Brasil.”

Peça 2 - como funciona a NRA

Mas, afinal, o que vem a ser a NRA?

Foi fundada há 148 anos em, Nova York, por dois veteranos do Exército. Sua missão original seria “uma associação que representa apenas cidadãos individuais”.

Nos últimos anos, seu perfil se alterou radicalmente. Passou a ser bancada por fabricantes de armas de outros países, que exportam para os Estados Unidos; e fabricantes norte-americanos, que buscam novos mercados. De 2010 a 2016, as exportações de revólveres, rifles e espingardas para uso civil aumentaram 60%. Tornou-se o grande negócio da indústria de armas dos EUA e de seu lobby, a NRA.

E aí, a NRA passou a entrar em conflito com interesses nacionais. Em 2014, criticou o Departamento de Tesouro por incluir a Kalashnikov Concern, fabricante da AK-47, nas retaliações à Rússia pela invasão da Ucrânia.

Quando apareceram suas investidas na Austrália, Rússia e Brasil, passou a ser questionada pela imprensa norte-americana, sobre quais interesses representaria.

Lembrou-se que em março de 2.000, quando o governo Clinton anunciou um acordo histórico com a Smith & Wesson, para que incluísse dispositivos de segurança nas armas curtas - que não disparariam sem a impressão digital do proprietário - a NRA foi contra a estimulou a entrada, no país, da Beretta USA Corp, controlada pela italiana Beretta (https://goo.gl/KWcMhy).

Uma de suas ações mais ostensivas foi na divulgação da australiana Glock – a preferida dos Bolsonaro. A empresa produziu um vídeo para celebrar sua entrada nos EUA. No final, há uma mensagem de Wayne LaPierre, o presidente da NRA.

A reportagem da Bloomberg, sobre a internacionalização da NRA, lembrava que EUA e Brasil têm coisas em comum: ocupam o primeiro e o segundo lugar no número de cidadãos mortos a cada ano. E informava que Bolsonaro utilizava, na sua campanha, os mesmos argumentos da NRA.

29 de setembro de 2018, Brasil, Rio de Janeiro: Um defensor do candidato presidencial de extrema direita Bolsonaro está vestindo uma camiseta com sua foto em um comício.

Peça 3 - a crise do lobby

A vida da NRA começou a complicar este ano.

Em 2017, levantou US$ 312 milhões em contribuições dos fabricantes de armas, mas significou uma queda de 15% em relação a 2016. Mesmo assim, investiu US$ 55,6 milhões nas eleições, dos quais US$ 30 milhões em apoio a Donald Trump.

Quando explodiu o escândalo da interferência russa nas eleições norte-americanas, a agente russa Butina, em sua delação, informou que sua missão era encontrar americanos politicamente influentes infiltrando-se em uma “organização de defesa dos direitos das armas”. Justamente, a NRA.

O pior estava por vir  (https://goo.gl/rjPSdA).

A NRA foi alvo de uma campanha pesada do governador democrata de Nova York, Andrew Cuomo. A revelação das ligações com os russos ajudou a cortar os laços da NRA com a mídia norte-americana. Sem a retaguarda da mídia, e com o aumento das ações judiciais, as seguradoras passaram a ter receio de negociar com a NRA. O lobby vendia um seguro de responsabilidade civil para os associados, para cobrir atos de transgressão intencional. Mas constatou-se que usava uma apólice de seguro ilegal, o que lhe custou uma multa de US$ 7 milhões e aumentou o seu descrédito. Reguladores financeiros de NY investiram contra a NRA, espalhando o boicote pelo setor financeiro.

A reação da NRA foi um vídeo ameaçando a mídia tradicional. Mostra um homem destruindo uma televisão com uma marreta, em resposta às supostas notícias falsas. A apresentadora no canal da NRA usa uma camiseta com o slogan “Lágrimas Socialistas”. O vídeo foi visto 200 mil vezes.

Dois dias depois, aconteceu a tragédia na Flórida, com 17 alunos de uma escola secundária assassinados por um colega armado.

Associações contra as armas publicaram um anúncio de duas páginas no New York Times, denunciando 276 políticos financiados pela NRA. Ao lado, foto das crianças que deixaram a escola Marjory Stoneman Douglas durante o tiroteio. E as palavras de David Hogg, sobrevivente de 17 anos: “Nós somos as crianças. Vocês são os adultos ... façam alguma coisa.


Shannon Watts, fundadora da Moms Demand Actions para Gun Sense explicou o anúncio: “A violência armada e sem sentido, devastadora e evitável. Todo legislador que não atua está permitindo que as matanças continuem”.

A reação da NRA veio através de seu líder, Wayne LaPierre, alertando contra uma “agenda socialista” por trás das campanhas contra o desarmamento. E dizendo que o direito às armas “é garantido por Deus a todos os americanos como direito de nascença” (https://goo.gl/QKwpaa).

Garantiu que as “elites” pretendem eliminar as armas “para que possam erradicar todas as liberdades individuais”.


Peça 4 – vá atrás do dinheiro

A decisão de Jair Bolsonaro, de revogar o estatuto do desarmamento, e escancarar o mercado para importações de armamentos, atende a todas as demandas da NRA.

E, assim como por lá, recorreu-se a toda sorte de notícias falsas, como na inacreditável entrevista de Onix Lorenzoni à Globonews, comparando acidentes com armas a liquidificadores, manipulando estatísticas, distorcendo conclusões. Ou na entrevista de Sérgio Moro, procurando legitimar as barbaridades do governo Bolsonaro, como um óbolo a ser pago à opinião pública para conseguir passar reformas condenadas pela opinião pública. Um autêntico circo romano, sangrento e irresponsável.

Luís Nassif
No GGN
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O enforcamento de Dom Quixote na Avenida Paulista


Os tambores rufaram quando Dom Quixote parou diante do cadafalso, armado em frente ao edifício do Itaú Cultural. Magro como uma vassoura, o Cavaleiro da Triste Figura vestia o camisolão branco dos condenados, tinha os pés descalços e as mãos amarradas nas costas.

Na entrada do prédio, 170 artistas (poetas, romancistas, músicos, pintores, escultores, cantores e performers, entre outros) aglomeravam-se em respeitoso silêncio. Entre eles, vários nomes conhecidos, alguns de muito sucesso na televisão.

Nas janelas dos andares superiores, também convidados especialmente para a cerimônia, debruçavam-se ministros, juízes de instâncias superiores, procuradores, deputados federais, senadores, agiotas-banqueiros e operadores de bolsas de valores.

Diante do cadafalso, 666 meninas vestidas de rosa e saias abaixo do joelho empunhavam bíblias e agitavam bandeirinhas do Brasil. Imediatamente atrás delas, 666 meninos vestidos de azul suavam carregando fuzis, submetralhadores e escopetas.

Fora das correntes de isolamento, controladas por soldados armados, enorme multidão de basbaques se acotovelava ansiosa e fremente.

Dom Quixote olhou para cima e seu proeminente gogó subiu e desceu. Olhou para a direita, e lá estava Sancho Pança, seu fiel escudeiro, também de mãos amarradas nas costas, suando como um peba. Olhou para a esquerda – e quem era que estava lá?

Antes que abrisse a boca de susto, viu que se aproximava velozmente um blindado do exército, do qual desceu um Juiz-Togado-de-Alto-Coturno, paramentado que nem um agente funerário, que desceu solene, ladeado por dois praças armados, caminhou sem pressa e parou diante do cadafalso.

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

– Digníssimos senhores ministros e jurisconsultos, nobilíssimos deputados e senadores, distintíssimos senhores banqueiros e financistas, caros artistas convidados, meninos e meninas, senhores e senhoras – principiou ele o Discurso de Condenação, depois de tirar do bolso algumas folha de papel amassado. – Estamos reunidos para dar seguimento à limpeza que o governo iniciou recentemente, e que hoje contempla um dos mais notórios e perversos inimigos da pátria: Dom Quixote.

Sancho, que ouvia com interesse o discurso, não gostou nem um pouco. Então ele não era ninguém? Não era a ele que o Cavaleiro da Triste Figura recorria em busca de conselhos, dicas e sugestões? Por que não era citado?

Irritado com a interrupção silenciosa de Sancho, o Juiz-Togado-de-Alto-Coturno olhou feio para o gorducho, pigarreou com força e continuou:

– Não satisfeito em conspurcar a mente de seus compatriotas há quatrocentos anos, teve esse infeliz a ousadia de, na Nova Ordem de Extrema Direita que se instalou no Brasil, destinada a uniformizar corações e mentes, teve a ousadia, repito, de tentar introduzir entre nossos jovens a maligna tentação do sonho, da fantasia e da esperança.

Aplausos prolongados.

– Obrigado – agradeceu ele, modestamente. – Nosso objetivo, como sabem, é extirpar para sempre essas perniciosas sementes. Nunca mais será permitido a artistas, negros, feministas, minorias e ativistas de movimentos sociais buscarem a diversidade, o direito de ser diferente e de pensar diferente. Pelo contrário: nosso objetivo é o da linearidade mais absoluta. Como prova, ali estão 170 artistas portadores da boa nova, criadores do Realismo Extremista Brasileiro, cujas obras são divulgadas apenas depois de análise rigorosa e minuciosa copidescagem.

Novos e delirantes aplausos, diante dos quais os 170 artistas integrantes do Realismo Extremista Brasileiro se curvaram em agradecimento.

À DIREITA, VOLVER!

– Como amostra – prosseguiu o eloquente orador –, o coral de crianças entoará o início do Hino Oficial da Uniformidade, também conhecido pela sigla HINOFU.

Não se sabe de onde, surgiu um maestro, cujas dragonas sugeriam um tenente do exército, que se pôs a frente da criançada, ergueu a batuta e comandou o coral.

Entoado por vozes estridentes e patrióticas, sobem aos ares os versos iniciais do HINOFU:

Duzentos milhões em delírio

Pra frente, Brasil, do meu coração...

Toda violência é um colírio

Que inunda meus olhos

De pura emoção!

De repente é aquela corrente pra frente

Parece que todo o Brasil

Perdeu a razão...

O entusiasmo foi geral e contagiante.

Do alto do Itaú Cultural começaram a chover moedas de 17 reais, cunhadas especialmente para a ocasião, que a multidão em êxtase disputou a socos e pontapés, resultando em 170 mortos e 1700 feridos que foram atendidos ali mesmo, antes da remoção dos defuntos para o necrotério e dos sobreviventes para o Pronto Socorro.

Sebastião Nunes
No GGN
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