12 de jan de 2019

Os evangélicos, os Bolsonaros, os jumentos e o que diz a Bíblia sobre a burrice


Em sua cavalgada rumo ao Planalto, Jair Bolsonaro não hesitou em se converter evangélico pelas mãos do pastor Everaldo no rio Jordão, em Israel.

“Estou cumprindo missão de Deus”, disse ele na campanha.

Na sabatina do Jornal Nacional, escreveu o nome do Criador, mais “família” e “Brasil”.

É amigo de sumidades como Feliciano, Magno Malta e Malafaia, sua mulher Michelle é de uma igreja na Barra da Tijuca e ele frequenta qualquer palanque, churrasco ou chá de bebê de fundamentalistas religiosos.

Damares Alves, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, contratou para secretário executivo um pastor à altura de seu intelecto, que aparece num vídeo decretando que “casamento é entre homem e mulher e ponto”.

O chanceler e o ministro da Educação são seguidores de um sujeito que refuta Einstein e declara que a Pepsi Cola usa fetos humanos abortados como adoçante.

Todos defendem os valores cristãos.

Mas e a inteligência, artigo que falta a essa administração? Não é um valor cristão?

É evidente que sim. 

O que a Bíblia diz sobre isso?

Em Eclesiastes, o sábio rei Salomão aponta que “o número de estultos é infinito”. Perfeito o diagnóstico.

Questiona: “Até quando, ó estúpidos, amareis a estupidez? E até quando se deleitarão no escárnio os escarnecedores, e odiarão os insensatos o conhecimento?”

Adverte: “O desvio dos néscios os matará, e a prosperidade dos loucos os destruirá”.

O italiano Carlo Cipolla, historiador econômico e medievalista, é autor de um ensaio chamado “As Leis Fundamentais da Estupidez Humana”, lançado em livro.

Resumiu sem querer o bolsonarismo, que transcende a questão ideológica:

“Esse grupo é muito mais poderoso do que a Máfia, o complexo militar-industrial ou a internacional comunista; se trata de um grupo desprovido de estatuto, sem estrutura nem constituição, sem chefe nem presidente, que consegue, no entanto, funcionar de maneira perfeitamente coordenada, de tal maneira que a atividade de cada membro contribui para ampliar e tornar mais forte e mais eficaz a de todos os outros.”

São Tomás de Aquino descreve mais de vinte tipos de imbecisasyneti, cataplex, credulus, fatuus, grossus, hebes, idiota, imbecillis, inanis, incrassatus, inexpertus, insensatus, insipiens, nescius, rusticus, stolidus, stultus, stupidus, tardus, turpis, vacuus, vecors.

Há tolices brandas, graves, inocentes. Outras são pecado, aponta.

Os animais, escreve, agem movidos pela paixão. O cachorro que se irrita e começa a latir, o cavalo que relincha etc.

O insipiente, que abdica da razão, se reduz a um asno ou jumento.

Salomão reclamava que “os néscios me rodeiam como vespas”. 

Salomão não conheceu essa turma. Glória!

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Bozo compara MST e MTST ao PCC e Comando Vermelho


Em sua escalada de criminalização dos movimentos sociais e da esquerda, o novo regime ataca o Movimento dos Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), comparando-os às organizações criminosas PCC e Comando Vermelho (CV). Quem fez isso foi o próprio Jair Bolsonaro, em um tweet no final da manhã deste sábado. O tweet deve ser lido na sequência de outro, postado seis horas antes (às 5h03), fixado pelo presidente no topo de seu perfil. Neste, Bolsonaro manifestava apoio a um projeto de lei do senador Lasier Martins (PDT-RS) que restabelece tópicos da Lei Antiterrorismo de março de 2016 vetados pela então presidente Dilma Roussef. O texto amplia o conceito de terrorismo de maneira sem precedentes no país.

O projeto de Martins foi relatado pelo senador fundamentalista Magno Malta que recusou o lugar de vice-presidente na chapa de Bolsonaro e acabou derrotado em sua pretensão de reeleger-se senador pelo Espírito Santo. Malta já relatou favoravelmente ao projeto e ele deve ir à votação na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado em breve, no início do novo Ano Legislativo, em fevereiro.

Pelo projeto, atos de depredação ou saque "de meios de transporte ou qualquer bem público ou privado" passam a ser considerados atos terroristas. O texto lembra dispositivos típicos de regimes ditatoriais: "Nas mesmas penas incorre aquele que dá abrigo ou guarida a pessoa de quem saiba que tenha praticado crime de terrorismo". Até mesmo a manifestação pública de apoio aos atos tipificados no projeto como "terrorismo" passa a ser enquadrada como crime, até mesmo um simples post numa rede social -com pena prevista de 4 a 8 anos de prisão. 

A tentativa de sufocar os movimentos reivindicatórios e as organizações sociais é notória. Aqueles "condenados a regime fechado cumprirão pena em estabelecimento penal de segurança máxima" -leia a íntegra do projeto aqui. O regime inaugurado com a eleição de Bolsonaro, em que pesem as declarações do general Santos Cruz, da Secretaria de Governo, acenando com diálogo com os movimentos sociais (aqui), escorrega, pela ação do presidente, para o enquadramento das organizações populares como terroristas.

Veja os tweets de Bolsonaro:


Leia Mais ►

Venezuela ou imperialismo


“Venezuela es el centro de una guerra mundial del imperialismo norte-americano y sus satélites”, afirmou alto e bom som o presidente eleito da Venezuela, Nicolás Maduro, durante o ato de posse, na quinta-feira, em Caracas. Não apenas a Venezuela, mas também o Brasil, completamos – ambos países detentores de grandes reservas petrolíferas e alvos de uma guerra de desestabilização desde a década passada. A derrota dos Estados Unidos na Síria e a reorientação de seu foco belicista para a Venezuela, ou seja, América do Sul, deveriam servir para abrir os olhos de quem tem compromisso com a soberania e a paz na região.

“Trata-se, desta vez, de destruir os Estados da Bacia das Caraíbas”, alerta Thierry Meyssan, intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace, em artigo recente. “O que está em jogo é a destruição de todas as estruturas estatais regionais, sem levar em consideração se são amigos (no caso do Brasil) ou inimigos (da Venezuela) políticos”, diz ele. Segundo Thierry Meyssan, “está perfeitamente claro que está já em marcha o processo para a guerra”, que “forças enormes estão em jogo” e, que “pouco há o que possa pará-las”.

Nesta sexta-feira, o governo da Venezuela denunciou um ataque contra galpões do Instituto Venezolano de Seguros Sociales (IVSS), um armazém de medicamentos, o que dá a dimensão da agressividade do imperialismo. Maior atentado criminoso contra a saúde da população na história da Venezuela, segundo as autoridades, o incêndio destruiu com todo o material estocado para os próximos dois meses – talvez não por acaso. Além do bloqueio econômico, a Venezuela é impedida de importar, por exemplo, remédios contra o HIV, além de outros medicamentos importantes para a saúde pública.

De forma corajosa, correta estrategicamente e, certamente, com o aval do presidente Lula, a senadora e presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, levou o apoio e a solidariedade do partido ao presidente Maduro. A posição da senadora expressa um avanço na compreensão e no posicionamento do partido diante do atual cenário de disputa política – definitivamente, geopolítica, regional e internacional. A incredulidade paroquial e, em alguns casos, infantil, ou mesmo oportunista, de parte da esquerda brasileira diante da ação do imperialismo já custou um golpe de Estado, a deposição de uma presidenta e a prisão do maior líder político do país.

O que está em jogo na Venezuela não é, nem de longe, a preocupação com a democracia, com o bem-estar do povo ou com as migrações, aliás, estimuladas e, em boa parte, organizadas pelos golpistas. A Venezuela detém 298,3 bilhões de barris, ou 17,5% de todo o petróleo do mundo, a apenas 4 ou 5 dias de navio das grandes refinarias do Texas – contra 35 a 40 dias do Oriente Médio. De país miserável, com 70% de sua população abaixo da linha da pobreza e 40% do seu povo na pobreza extrema, na Venezuela pós-chavismo a desnutrição é de apenas 5%, e a desnutrição infantil 2,9%.

Em debandada do Oriente Médio, e sem capital para exportar, ao atacar a Venezuela os Estados Unidos apostam impedir o crescimento da influência da China e da Russia na América Latina. Nos últimos meses de 2018, imagens de Maduro com os presidentes Putin e Xi Jinping rodaram o mundo, ilustrando matérias que davam conta de acordos, investimentos econômicos e, mesmo apoio militar à Venezuela. A ponto do novo chefe do Pentágono, Patrick Shanahan, declarar que o principal desafio da segurança dos EUA é a China – ou como ele enfatizou: “China, China e China” – além, claro da Rússia.

O objetivo do imperialismo em decadência é unicamente tentar transformar a América do Sul em um novo Oriente Médio, território de guerras intestinas, assalto às riquezas naturais e mercado para a desova de armamento dos EUA e de Israel. Com países submetidos a uma recolonização selvagem, por meio de corte de direitos sociais, fim do ensino gratuito, dos serviços de saúde, privatizações e Estados a serviço do capital financeiro. Nesse contexto, não existe espaço para qualquer outra posição que não seja a firme luta antiimperialista, em defesa da América Latina, do Brasil, da Venezuela, da auto-determinação dos povos e da democracia.

Fernando Rosa
No Senhor X
Leia Mais ►

Maduro, até o fim!


Eu juro que queria ter essas certezas absolutas que leio em toda parte sobre a tal ditadura de Nicolás Maduro, mas não tenho. E por uma razão bem simples: são todas enviesadas, tanto pela direita que o odeia como pela esquerda que o inveja.

O fato é que Maduro, apesar de ser atacado pelos Estados Unidos sem intermediários, está de pé. A Venezuela não se dobrou, nem mesmo fustigada por uma crise econômica devastadora, com as consequências sociais que todos testemunhamos.

O Brasil, pelas mãos de um juiz de primeira instância apoiado por uma multidão de analfabetos políticos, não só sucumbiu ao um golpe parlamentar como, de quebra, elegeu uma besta quadrada cercada de lunáticos e fanáticos religiosos.

É preciso ter em mente que toda a informação que temos sobre a Venezuela é filtrada pela mídia, a nossa mídia, a pior e mais servil do planeta. Nela, a Venezuela é uma ditadura porque o presidente domina os poderes constituídos e as Forças Armadas, sem dar moleza a uma oposição golpista e entreguista, que ama mais Miami que o país onde mora.

Ou seja, o que o PT foi acusado de fazer, mas não fez, para desgraça de todos.

Todas as eleições na Venezuela, desde a Era Chávez, portanto, há quase duas décadas, são realizadas com a presença de observadores internacionais. Todas.

Na última, foram 200 observadores, sem que nenhuma ocorrência de fraude fosse notificada. Nenhuma. O voto na Venezuela sequer é obrigatório, portanto, não há, como ocorre aqui, a possibilidade de criação de currais eleitorais. Há, sim, gente politizada, principalmente, à esquerda.

A posse de Maduro contou com delegações internacionais de 94 países, além de representantes de organismos internacionais como a diversas agências da ONU, a Organização da Unidade Africana (OUA) e a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) – da qual ele será o próximo presidente.

Maduro e o povo venezuelano são odiados por gente como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Em 2015, uma patética comitiva de senadores comandada por Aécio Neves, do PSDB, com gente do naipe de Ronaldo Caiado e Aloysio Nunes Ferreira, foi a Caracas para criar um factoide contra Maduro. Foram recebidos a pedradas e tiveram que voltar com o rabo entre as pernas.

Aqui, deixaram essa gente se criar. Agora, com a ajuda de certa esquerda ressentida, ficam criticando a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, por prestigiar a posse de Maduro.

Fez ela muito bem.

Leandro Fortes, Jornalista
Leia Mais ►

A Previdência será a prova dos nove

Xavier sobre Bolsonaro: de mito a mitômano


O Conversa Afiada publica artigo sereno (sempre!) de seu colUnista exclusivo, Joaquim Xavier:

Com a palavra o conceituado dicionário Houaiss sobre mitomania:
“Tendência a narrar extraordinárias aventuras imaginárias como sendo verdadeiras; hábito de mentir ou fantasiar desenfreadamente”.
Praticamente o inverso de “mito”, alcunha pela qual o ex-capitão Bolsonaro, transformado em presidente, é chamado por apoiadores em algumas ruas. O percurso entre a propaganda eletrônica, sob comando do americano Steve Bannon, e a realidade poucas vezes foi percorrido tão rapidamente como agora.

Em menos de duas semanas, o governo da “famiglia” brindou o Brasil com uma coleção inesquecível de desmandos. De “aventuras imaginárias”, como a iminência de um poder marxista, à prática de “mentiras desenfreadas” -- mudança de impostos e veto a indicações de amigos e apaniguados --, pouco escapou da verborragia da turma.

Deixem-se de lado os “stand-ups” da ministra Damares. De tão grotescos deixariam Dercy Gonçalves desempregada – com a diferença de que esta era uma comediante genial, não uma ministra. Ou os despautérios do chanceler alucinado, do ministro da Educação e até do novo ministro da Marinha, para quem já houve “três guerras mundiais”.

As mentiras vão além, e são mais graves, que estes momentos pitorescos. A decantada batalha contra a corrupção e malfeitos está solenemente arquivada. Pelo menos nove ministros são alvos de investigações sobre irregularidades de tipos diversos. O filho do vice-presidente é promovido a jato e sem lavagem, atropelando os ritos da Petrobras. Bolsonaro indica amigos a torto e à extrema-direita para cargos de salários polpudos. O laranja Fabrício Queiroz e o filho do presidente fazem pouco da justissa e se negam a explicar como somas milionárias foram movimentadas pelo antigo assessor.

O ex-valentão Sérgio criminoso Moro recolhe-se a um silêncio revelador. Só para refrescar a memória: gente como Temer, Padilha, Moreira Franco, para citar alguns, perdeu o foro privilegiado a partir de primeiro de janeiro. Todos eles são alvos de uma penca de acusações de roubalheira grossa, colocadas debaixo do tapete pelo status de presidente ou ministro. Com o fim do mandato, o tapete teoricamente desapareceu. Alguém sabe de alguma medida tomada a respeito desde então?

Sejamos justos, porém: nem só de farsas vive o governo. Estas mostram um lado barulhento da encrenca em que o Brasil se meteu ao se submeter a uma malta de arrivistas, despreparados, ultradireitistas sedentos em sufocar a democracia, pilhar a nação e domesticar o povo humilde. Outro lado, mais grave, é aceleração da entrega do país ao capital internacional. O ato mais recente é o aval de Bolsonaro à compra da Embraer pela Boeing (que o ex-capitão se dizia contra, mas isto entra na sua cota mitômana). A porteira está aberta para fazer o mesmo com a Caixa, Banco do Brasil, BNDES e o que mais prestar algum serviço ao público, não aos rentistas insaciáveis.

Mas a joia da coroa ainda está em jogo: a Previdência. Paulo Guedes e sua matilha não pretendem descansar enquanto não desmontarem a aposentadoria baseada na repartição e na solidariedade de gerações. É um jogo de trilhões. É nisso que a grande finança está interessada – o resto eles deixam para ladrões de galinha deslumbrados com a chegada ao poder dentro e fora do Planalto.

O tal sistema de capitalização pinochetista proposto por Guedes, conforme explicado em dezenas de artigos de especialistas insuspeitos, implica a liquidação do direito à aposentadoria em favor dos ganhos da banca internacional. Ainda mais num país como o Brasil, em que a maioria das famílias está endividada, a miséria voltou a campear e os trabalhadores, quando empregados, mal têm recursos para custear a sobrevivência – quanto mais para “poupar” pensando no futuro.

Será emocionante acompanhar como Guedes tentará passar goela abaixo sua fórmula a mando de Washington. Qualquer pesquisa indica que o povo é contra. Também importante, no cenário de um governo tingido de verde oliva, é a resistência dos militares. Todo mundo já percebeu: quem manda de fato na quitanda montada pelo ex-capitão Bolsonaro é o general Heleno, superior na hierarquia da caserna, algoz do Haiti, homem da última palavra.

Resta saber como o Congresso irá se comportar. Sobretudo como o povo, a maioria do Brasil, vai reagir a um ataque sem precedentes a seus direitos civilizatórios.

Joaquim Xavier
Leia Mais ►

Na “despetização” de Onix, dos 293 exonerados apenas 3 eram petistas

Em uma semana, governo Bolsonaro exonera 293 de cargos de confiança para eliminar quem “tem marca ideológica clara”, mas só 35 são filiados a partidos, dos quais três, ao PT.

Ilustração: Isabela da Silveira
Anunciada no dia 2 de janeiro como uma “despetização” do governo federal pelo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, a demissão de funcionários públicos com cargos de confiança tem baixo teor de petismo. Entre os dias 3 e 10 de janeiro, 293 servidores comissionados da administração direta e indireta foram exonerados tanto por Onyx quanto pelos demais ministros – o levantamento da piauí desconsidera funcionários públicos de estatais, militares (que não podem se filiar a partidos) e também demissões a pedido do servidor. Desse total, apenas 35 (12%) são filiados a algum partido, três (1%) ao PT e quatro ao PSDB. A sigla com mais exonerados é o MDB de Michel Temer, com seis.

Há até cabo eleitoral de Bolsonaro entre os demitidos. Filiado desde 2008 ao PSC de Barreiras, na Bahia, Sigisvaldo Vilares dos Santos, funcionário comissionado da Subchefia de Assuntos Federativos da Secretaria de Governo da Presidência, foi um dos exonerados. Como muitos no seu partido, Santos fez campanha aberta para Bolsonaro, e chegou a convidá-lo pessoalmente para visitar sua cidade, Luís Eduardo Magalhães, na Bahia – o que não impediu sua demissão, no dia 7.

Entre os servidores demitidos que são filiados, há uma pulverização entre quinze siglas, incluindo algumas das quais apoiam o governo Bolsonaro, como PSC, PRB e PR. É uma contradição em relação às declarações de Onyx sobre o que seria uma “despetização”: “Vamos retirar de perto da administração pública federal todos aqueles que têm marca ideológica clara. Nós todos sabemos do aparelhamento que foi feito principalmente do governo federal nos quase catorze anos que o PT aqui ficou”, disse o ministro, no dia 2.

Naquele dia, Onyx assinou um decreto que exonerava ou dispensava de uma só vez 320 funcionários de primeiro escalão que ocupavam cargos de Direção e Assessoramento Superiores, a DAS – os chamados “cargos de confiança”. A portaria, no entanto, não detalhava quem eram os funcionários públicos exonerados ou dispensados, com nome ou cargo. Na semana seguinte, as exonerações foram publicadas aos poucos em portarias tanto da Casa Civil quanto de outros ministérios, num processo ainda em andamento.

Um dos funcionários exonerados, Rafaela Dias Pires, filiada ao PT de Belém há 15 anos, foi demitida da Coordenação Geral de Segurança e Saúde em Portos, braço do Ministério da Infraestrutura. Procurada pela piauí, ela não quis detalhar o caso. Disse apenas que o fato de ser petista não tem relação com sua exoneração.

Já Sigisvaldo Santos, o funcionário exonerado que chegou a fazer campanha para Bolsonaro, contou que, na sua repartição, “quase todos” foram mandados embora. “O ministro [da Secretaria de Governo, general Carlos Alberto dos Santos Cruz] não sabia como funcionava a nossa área, então chamaram um por um para conversar sobre quais eram seus cargos e como funcionava cada coisa. Depois de ouvirem todos, mandaram embora quase todo mundo. Se sobraram dois foi muito.”

Segundo Santos, assim como ele, muitos fizeram campanha para Bolsonaro na subchefia em que dava expediente. “O presidente Temer não se posicionou, então deixou as pessoas fazerem campanha pra quem quisessem. Fiz muita campanha, na minha cidade só deu ele”. Luís Eduardo Magalhães foi uma das quatro cidades da Bahia em que Bolsonaro venceu Haddad no segundo turno. A vitória foi de 58,8%. Os outros municípios em que o candidato do PSL venceu foram Itapetinga, Buerarema e Teixeira de Freitas. O estado da Bahia tem 417 municípios. Haddad foi o mais votado por lá, com 72,7% dos votos.

Passados mais de dois anos desde que Dilma deixou o poder, a “ideologia” predominante entre os exonerados é, com larga vantagem, a dos funcionários sem partido, seguida pelos emedebistas ligados a Temer. Um deles é Sabonete, apelido que Palmínio Altimari ganhou no sistema Drousys, que organizava as propinas pagas pela Odebrecht. Prefeito de Rio Claro, no interior paulista, entre 2009 e 2012, Du Altimari, como é conhecido, foi nomeado no dia 23 de março de 2017 para o cargo de “assessor especial da subchefia de Assuntos Federativos da Secretaria de Governo da Presidência da República”, com salário de 13,6 mil reais. Duas semanas mais tarde, veio à tona a delação de Guilherme Paschoal, um dos executivos da empreiteira, que citava Altimari como beneficiário de 150 mil reais, dinheiro que, segundo o delator, seria usado como caixa dois na campanha à reeleição para a prefeitura de Rio Claro, em 2012.

Altimari, ou Sabonete, não quis falar com a piauí. Exonerado por Onyx Lorenzoni, evitou criticar a decisão. “Não atribuo a exoneração a questão partidária. É muito natural que o presidente eleito forme a sua equipe de governo com pessoas de sua confiança e aliados. Minha passagem pelo gabinete da Presidência foi para contribuir nas questões que envolvem os municípios. Cumpri a função de estreitar o elo entre os municípios e o governo federal”, afirmou, em nota enviada à reportagem. Sobre a delação da Odebrecht, disse que “ainda está tomando conhecimento dos fatos”.

Onyx Lorenzoni demonstrou menos rigor com duas indicações do emedebista Eduardo Cunha, deputado cassado e preso preventivamente pela Lava-Jato em Curitiba. Dois advogados ligados a Cunha foram mantidos como subchefes adjuntos para Assuntos Jurídicos da Casa Civil.

Thiago Camargo Lopes, filiado ao MDB de Goiânia, teve sua exoneração do cargo de secretário de Políticas Digitais do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações publicada na última quarta-feira. “A única vez que conversei com alguém do novo ministério foi no dia da posse, com o secretário executivo [Júlio Semeghini]. Ele chegou pra mim e disse ‘que pena que você não vai ficar com a gente’. Aí eu perguntei se já tava tudo certo para a minha exoneração, porque eu já queria sair. Ele disse que a portaria seria publicada no dia seguinte. Na verdade, ainda levou uma semana”.

No dia seguinte, de qualquer forma, o ministro Marcos Pontes anunciou a extinção da Sepod, como é chamada a secretaria de políticas digitais, para o dia 30 de janeiro. A informação chegou antes de sua própria exoneração, e deixou Lopes apreensivo. “Recebo no dia 30, então fiquei meio confuso sobre como seria feito meu pagamento. Liguei no RH e eles também não sabiam o que ia acontecer”. O emedebista – “não praticante”, enfatiza – afirma que chegou a receber uma proposta do Ministério da Economia, mas recusou para voltar à iniciativa privada.

A extinção da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário da Casa Civil levou à exoneração de quatro membros ativos do Solidariedade. Líder da sigla, Paulinho da Força tinha influência nessa área durante o governo Temer, que nomeou assessores do partido recém-fundado. Guilherme Menezes Martinelli foi um deles. Ele não acha que a questão partidária tenha influenciado sua exoneração e de seus colegas, “até porque o Solidariedade é de centro. De qualquer forma, ele não faz parte do governo”.

A portaria de Onyx exonerando 320 cargos comissionados não nomeia nenhum servidor. Segundo especialistas em gestão pública, o recomendável seria listar todos os nomes. “Está muito genérico, sugerindo mais um teatro do ato administrativo”, afirma Álvaro Martim Guedes, docente da Universidade Estadual Paulista.

Procurada no dia 7, a assessoria da Casa Civil não respondeu aos questionamentos da reportagem. Quando assumiu a Presidência da República, Temer prometeu cortar 4 mil servidores comissionados, mas terminou sua gestão com 22,9 mil, um aumento em relação aos 21,8 mil no fim da era Dilma Rousseff, em 2016, como mostra reportagem publicada no jornal O Estado de S.Paulo. Esse grupo de funcionários custa R$1 bilhão por ano aos cofres públicos, o equivalente a 0,4% da folha salarial da União.

Allan de Abreu e Marcella Ramos
Do Revista Piauí
No Limpinho & Cheiroso
Leia Mais ►

Confusão

A falha de comunicação e o desencontro de informações que, há uma semana, deram a impressão de que o governo mal começara e já se perdera, foram perfeitamente compreensíveis. Com poucos dias de existência, o governo não poderia mesmo funcionar com a eficiência desejável, e os equívocos foram inevitáveis. De qualquer maneira, o novo presidente convocou uma reunião de emergência com seus ministros para garantir que novos equívocos não aconteçam. Dado o seu caráter de emergência, a reunião custou um pouco a começar. Parte do problema foi o horário marcado: os ministros militares entenderam que 19h queria dizer 7 da noite, mas os civis ficaram confusos. O próprio Bolsonaro se atrasou para a reunião, pois ainda não decorou o caminho para seu escritório.

Outro problema foi a identificação dos ministros, já que havia pouca intimidade entre eles. Alguém teve a ideia de substituir os crachás oficiais por crachás com apelidos, para dar um tom de informalidade ao evento, desde que se evitasse apelidos constrangedores (“Fofo”, “Cabeça”) ou exóticos (“Onix”). Outra ideia com o mesmo fim, o de aproximar os ministros e criar um espírito de equipe, foi determinar que os ministros masculinos vestissem azul e as ministras femininas vestissem rosa. A ideia foi abandonada quando descobriram que no ministério só havia duas mulheres, que foram de amarelo.

A primeira ordem do dia foi a maneira correta de se dizer que o presidente da República se equivocou. Deve-se evitar assertivas diretas (“Equivocou-se, pronto”), ou, de preferência, esquecer o “equivocou-se” e substituí-lo por “enganou-se”, “distraiu-se”, etc. E de modo algum acompanhar qualquer assertiva sobre um equívoco presidencial com uma gargalhada.

– Olha só isso daí – disse o presidente, indicando a pilha de papéis à sua frente. – Como é que eu vou saber o que assinar e o que não assinar? E olhem isso! Que língua é essa? Isso pra mim é grego.

– É um memorando do ministro de Relações Exteriores, em latim, presidente. Recomendando que a linguagem diplomática brasileira passe a ser o aramaico, lido de trás pra diante.

– E pensar que eu quis ser presidente...

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

Escritor americano diz que chanceler de Bolsonaro expõe o Brasil ao ridículo


O escritor norte-americano Benjamin Moser, prêmio Itamaraty de Diplomacia Cultural em 2016 e autor da biografia de Clarice Lispector, escreveu uma carta endereçada a Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores de Jair Bolsonaro, afirmando que a imagem do Brasil no exterior ficou pior com o novo governo, graças às declarações "ridículas" que o chanceler têm dado sobre aquecimento global, combate à globalização e outros assuntos.

"(...) em poucos meses, essa imagem já mudou bastante. Temo que não seja na direção que o senhor pretende. Pois, em todos os meus anos de brasiliófilo, nunca vi tantas matérias ruins sobre o Brasil surgirem na imprensa europeia e americana. Isso deve ser motivo de preocupação para um chanceler. Porque o Brasil, apesar de seus problemas, sempre desfrutou de um nome positivo no mundo."

Moser alertou a Araújo que, quando um chanceler se dirige a um público internacional, deve evitar o emprego dos termos globalistas, marxistas, anticosmopolitas, valores cristãos, "que, em inglês, têm fortes conotações antissemitas. São extraídos do léxico de conspiração global judaica, e, dada a história deste léxico, pessoas civilizadas, tanto de direita como de esquerda, aprenderam a evitá-lo."

O escritor ainda alertou que não só o chanceler, mas outros membros do governo Bolsonaro - incluindo o próprio presidente - têm levado à antiga boa foma do Brasil à lona. "Desde o primeiro dia, este governo deu a impressão de querer abusar das pessoas mais vulneráveis da sociedade. Todos os jornais do mundo têm noticiado os ataques aos índios e à população LGBT, além da redução do salário mínimo para os trabalhadores mais pobres."

Ao final, Moser ainda apela para que Araújo pare de passar vergonha em nível internacional e comporte-se à altura do cargo que recebeu. "O senhor se descreve, no seu Instagram, como 'ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro'. Não é. É ministro das Relações Exteriores do Brasil. Seria bom que se comportasse com a dignidade que tal posição exige."

Leia, abaixo, a carta completa:

Prezado ministro,

Há pouco mais de dois anos, o ministério que o senhor hoje encabeça me outorgou o Prêmio Itamaraty de Diplomacia Cultural. Foi um reconhecimento do meu trabalho e trouxe consigo uma obrigação de continuar trabalhando em prol do Brasil — de ser algo como um amigo oficial do Brasil. E é nesta capacidade que lhe escrevo.

Recentemente, o senhor publicou uma matéria no meu idioma, o inglês, e no meu país, os Estados Unidos (“Bolsonaro was not elected to take Brazil as he found it”, ou “Bolsonaro não foi eleito para deixar o Brasil como o encontrou”, na Bloomberg, em 7/1). Se respondo em português, é por dois motivos. 

Primeiro, porque sua matéria ilustra muito bem que saber a gramática ou o vocabulário de outra língua não implica compreender suas sutilezas: como soa. Se tivesse maior noção do meu idioma, seria de esperar que não houvesse publicado uma coisa que — digo francamente — expõe o Brasil ao ridículo.

E essa é a segunda razão pela qual lhe respondo em português. Apesar de não ser de nacionalidade brasileira, o Brasil não me é de maneira nenhuma alheio. Desagrada-me profundamente vê-lo alvo de risadas internacionais. Gostaria, pois, que esta conversa ficasse entre nós — em português.

Em inglês, a sua vinculação da política externa com Ludwig Wittgenstein soa bizarra. Suspeito que não seja sua intenção — que é, se estou lendo bem, de deslumbrar o leitor com frases como “desconstrução pós-moderna avant la lettre do sujeito humano e negação da realidade do pensamento”.

Sabe aquele estudante de pós-graduação que encurrala a menina na festa falando de Derrida ou Baudrillard?

Pois é.

Aliás, em inglês, proclamar “não gosto de Wittgenstein” soa pretensioso, arrogante. Sabe aquele homem que, diante de um Picasso, diz que sua filha de quatro anos poderia ter feito melhor?

Mas, além do tom, qual é mesmo seu problema com Wittgenstein? Vejo que não é sequer uma frase inteira, mas uma parte de uma frase: “O mundo tal como o encontramos.”

O senhor lê isso como um pedido — uma ordem, até — de aceitar tudo no mundo tal como é, de não tentar mudar nada, de se comportar como se não tivesse vontade própria. Se acompanho a sua lógica, é assim que o Brasil tem se comportado durante todos os governos, de esquerda como de direita, que precederam o atual.

Para quem conhece a obra de Wittgenstein — assim como para quem tem noções da história diplomática brasileira —, isso pode soar inexato. Mas o senhor pretende romper um padrão que tem impedido o surgimento da verdadeira grandeza do Brasil. O país, segundo o senhor, antes disse: “Eu não acho nada. Eu não tenho ideias. Assim como o sujeito desconstruído de Wittgenstein, eu não tenho um ‘eu’.”

Eu não caracterizaria o trabalho de gerações de diplomatas brasileiros assim. Imagino que, em português, possa soar desdenhoso. Mas estamos falando de como soa em inglês, e, se muito ficou incerto na sua matéria, uma coisa ficou clara: sua vontade de mudar a imagem do Brasil no mundo.

De fato, em poucos meses, essa imagem já mudou bastante. Temo que não seja na direção que o senhor pretende. Pois, em todos os meus anos de brasiliófilo, nunca vi tantas matérias ruins sobre o Brasil surgirem na imprensa europeia e americana. Isso deve ser motivo de preocupação para um chanceler. Porque o Brasil, apesar de seus problemas, sempre desfrutou de um nome positivo no mundo.

O racismo, a homofobia e a saudade da ditadura da nova administração têm sido fartamente comentados na imprensa mundial. Em inglês, o tom dessa cobertura tem sido extremamente negativo. Um chanceler deve poder responder num inglês sereno e compreensível e explicar as razões que levam o novo governo a adotar tal e tal medida.

Quando se dirige a um público internacional, uma coisa a evitar a todo preço é o emprego de termos — “globalistas,” “marxistas,” “anticosmopolitas,” “valores cristãos” — que, em inglês, têm fortes conotações antissemitas. 

São extraídos do léxico de conspiração global judaica, e, dada a história deste léxico, pessoas civilizadas, tanto de direita como de esquerda, aprenderam a evitá-lo.

Quando se fala inglês, é preferível, em geral, evitar falar de conspirações. Dá a impressão de ter passado a noite em claro na internet decifrando os segredos das pirâmides. Talvez seja por isso que suas descrições sobre o aquecimento global como trama marxista tenham sido tão amplamente ridicularizadas na imprensa mundial.

Quem, em língua inglesa, quer ser levado a sério evita tais caracterizações. E não é mesmo este o maior desejo do senhor, o de ser levado a sério? É a única coisa que fica clara debaixo da linguagem um tanto acalorada. 

A novidade que o senhor anuncia não é outra coisa senão a mais antiga emoção do conservador brasileiro: o ufanismo magoado. 

Este é o sentimento de quem quer uma nação que esteja à altura da imagem — muitas vezes exagerada — que tem de si próprio.

Se o senhor imagina que o Brasil não é suficientemente respeitado, seria bom nos brindar com pelo menos um exemplo; na minha experiência, vasta, do Brasil no âmbito internacional, confesso que nunca percebi a falta de respeito.

Mas, mesmo que ela existisse, seria bom lembrar que, em qualquer país, o respeito não se exige. Com paciência e trabalho, se ganha.

Ninguém sabe melhor do que eu os lados positivos que tem o Brasil. Mas, sabemos, brasileiros e estrangeiros, que o Brasil também tem uma cara feia. E é essa cara que seu tom me traz à mente. É o tom daquele patrão que grita “faça que tô mandando!” para a empregada. Asseguro-lhe que não fica mais elegante em tradução inglesa.

Infelizmente, não é apenas uma questão de tom. Desde o primeiro dia, este governo deu a impressão de querer abusar das pessoas mais vulneráveis da sociedade. Todos os jornais do mundo têm noticiado os ataques aos índios e à população LGBT, além da redução do salário mínimo para os trabalhadores mais pobres.

É possível que haja explicações razoáveis para tais medidas, mas confesso que até agora não as vi. De novo, seria mais eficaz explicá-las com calma do que andar pelo mundo proclamando que os brasileiros não são mais “robôs pós-modernos” e que não suportarão mais “a opressão wittgensteiniana da morte-do-sujeito.”

Porque, ironicamente, é seu medo de ver as pessoas zombarem do Brasil que fará... as pessoas zombarem do Brasil. Deve ter visto a ministra Damares gritando que “menino veste azul e menina veste rosa!” e notado como isso repercutiu pelo mundo. As suas declarações também não ajudam a que as pessoas levem o Brasil a sério.

Se há um ponto em que estamos em total acordo é que também não gosto de ver o Brasil ridicularizado. Por isso, lhe encorajo a lembrar em nome de quem está falando. E de escolher com mais tato, em português como em inglês, as suas palavras.

O senhor se descreve, no seu Instagram, como “ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro”. Não é.

É ministro das Relações Exteriores do Brasil.

Seria bom que se comportasse com a dignidade que tal posição exige.

E se, no futuro, tiver uma dúvida de inglês, pode sempre entrar em contato comigo.

Cordialmente,

Benjamin Moser
Prêmio Itamaraty de Diplomacia Cultural, 2016 

No GGN
Leia Mais ►

Política externa de governo Bolsonaro segue um mistério, mas sinais são preocupantes

Aroeira
Dez dias depois da posse de Jair Bolsonaro, a política externa do novo governo ainda é um mistério, mas com sinais preocupantes de que as mudanças que devem vir por aí podem mais atrapalhar do que ajudar as relações internacionais do Brasil, especialmente na área econômica.

Especialistas ouvidos pela Reuters são unânimes em afirmar que, por enquanto, é difícil dizer a que veio o novo chanceler, Ernesto Araújo.

Seu discurso de posse — um momento em que o chefe das Relações Exteriores costuma dar as diretrizes de como pretende trabalhar a política externa — apenas serviu para confirmar as ideias que Araújo havia demonstrado em seu blog nos últimos meses, do antiglobalismo à defesa da religião, em sinais avessos à tradicional diplomacia brasileira.

"Nos últimos 30, 40 anos havia uma outra visão de mundo, há na região uma nova geopolítica e, além disso, a ascensão de Ernesto Araújo quebrou a hierarquia tradicional do Itamaraty. Dentro desse quadro fica muito difícil falar sobre o futuro da política externa porque ainda não estão indicadas as diretrizes e as prioridades do Itamaraty", analisa do embaixador Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington.

Os sinais dados até agora caminham para uma ruptura com políticas tradicionais da diplomacia brasileira, como a clara opção pela não-ingerência, o apego ao diálogo e ao multilateralismo e o não-alinhamento.

Barbosa cita o desconvite à Venezuela e Cuba para participaram da pose de Bolsonaro e a decisão do Brasil de deixar o pacto migratório como dois sinais preocupantes.

"Isso não atendeu às melhores tradições do Brasil e nem resultou em nada favorável ao Brasil", avaliou. "A retirada do pacto migratório também não altera nada, porque esse pacto não criava regras para os países. Foi um gesto que causou apreensão no exterior sem nenhum ganho para o Brasil."

O discurso de posse de Araújo foi recheado de críticas ao próprio Itamaraty e à postura da diplomacia brasileira.

"Acho que nossa política externa vem se atrofiando por medo de ser criticada. Não tenham medo de ser criticados", disse o novo chanceler, em uma fala recebida com frieza pelos diplomatas presentes. "Queríamos ser um bom aluno na escola do globalismo e achávamos que isso era tudo. O Brasil volta a dizer o que sente e sentir o que é."

Para um embaixador recém-aposentado, que chegou aos mais altos níveis da carreira, o discurso não atendeu aos interesses do Brasil.

"O que eu vejo é uma política externa coerente com a inclinação ideológica do presidente e de seu chanceler, mas não coerente com as necessidades que o Brasil tem em matéria de externalização da sua política econômica", disse o embaixador, que pediu para não ser identificado.

"O Brasil sempre atraiu investimentos até pelas características não ideológicas da sua política", acrescentou.

A maior preocupação de diplomatas e analistas ouvidos pela Reuters é o reflexo econômico que a política de Araújo e Bolsonaro podem ter. Até agora, as declarações mais fortes feitas pelo chanceler e o presidente rompem com regras diplomáticas tradicionais.

Já durante a campanha, Bolsonaro falou da mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, em um movimento copiado dos Estados Unidos e que atinge diretamente a liga dos países árabes, grandes importadores de proteína animal do Brasil.

Em seguida, ambos mostraram admiração e alinhamento quase completo com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que Bolsonaro criticou, por mais de uma vez, a China, hoje maior parceiro comercial do Brasil.

O professor da Fundação Getúlio Vargas Matias Spektor, doutor em Relações Internacionais, coloca a relação com Estados Unidos e China como os maiores riscos para a política externa deste novo governo. Lembra que os democratas americanos — que venceram a última eleição da Câmara dos Deputados — já reagiram a declarações de Bolsonaro sobre direitos humanos e meio ambiente.

Ao mesmo tempo, Trump, que tem cultivado a relação com o presidente, tem perdido aprovação e força e pode até mesmo passar por um processo de impeachment, segundo analistas norte-americanos. "Ele vem em uma trajetória de enfraquecimento que pode comprometer os interesses brasileiros no médio prazo", afirmou.

Pouco antes da campanha eleitoral se iniciar, Bolsonaro foi a Taiwan, um movimento que desagradou os chineses, que consideram o país uma província rebelde. Depois disso, criticou os investimentos chineses no Brasil.

"Enquanto for retórica, a China não vai retaliar. Mas se o governo começar a discriminar investimentos chineses nas privatizações ou insistir na relação com Taiwan, eles vão não hesitar", disse Spektor. "A diplomacia chinesa é muito realista. Se mexer no bolso ou no brio nacionalista eles irão reagir."

Contrário da diplomacia

A análise do embaixador ouvido pela Reuters é que algumas ações como as que foram tomadas até agora não trazem ganhos ao Brasil, são desgastantes e o contrário do trabalho diplomático.

"O trabalho da diplomacia é de bastidor, sem alardear nada. O que vi se fazendo até agora é o contrário", diz.

A nova postura, analisa Spektor, já gerou desgastes para o Brasil no exterior. Ele lembra que Bolsonaro teve apenas um editorial favorável no exterior, do Wall Street Journal, publicação voltada aos mercados onde o discurso liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, tem mais tração.

Ainda assim, analisa, não há sinais de um abrandamento do discurso.

"O governo acaba de ganhar a eleição, tem uma enorme força política e em um momento em que a oposição está arrebentada e também não se ajuda. A ida de Gleisi (Hoffmann, presidente do PT) à posse de Nicolás Maduro (presidente da Venezuela) veio em péssima hora. Não há motivo agora para presidente e o partido reduzirem o tamanho das promessas que fizeram ao eleitorado", diz Spektor.

"Ainda mais porque vão ter que motivar sua base para fazer o que é o êxito ou o fracasso do governo, que é a reforma da Previdência. Acho que vamos ver mais do mesmo. É pé no acelerador."

Desgaste interno

As políticas, a fala e as mudanças que Araújo está fazendo dentro do Itamaraty também trouxeram desgaste interno ao chanceler e dúvidas sobre como a Casa vai funcionar sob sua gestão.

Uma das primeiras providências de Araújo foi a troca dos subsecretários de embaixadores mais sêniores por diplomatas da mesma geração que a sua, promovidos a ministros de primeira classe —o mesmo que embaixador— há menos de um ano. A providência poderia representar apenas uma mudança geracional, como avaliou o embaixador Rubens Barbosa, mas também deixa sem cargos nomes mais antigos e experimentados da Casa.

Dois experimentados embaixadores que haviam retornado recentemente do exterior para assumir subsecretarias ainda não sabem como serão aproveitados.

"É o famoso departamento de escadas e corredores, aquele pelo qual ninguém quer passar. Deixar nomes experientes nessa condição é um desperdício de investimento público", reclama um diplomata.

Araújo reduziu as subsecretarias — cargos imediatamente abaixo do ministro e do secretário-geral — das nove anteriores para sete. Foram extintas a de Meio Ambiente, criada por Antonio Patriota, no primeiro governo da petista Dilma Rousseff, e a de Brasileiros no Exterior. Ambos os temas caíram na hierarquia e passaram a ser departamentos na Secretaria de Cidadania e Soberania Nacional, que passa a englobar Defesa, Cidadania, Nações Unidas, Meio Ambiente e a área consular.

As relações com os países passaram a ser unificadas em apenas três, chamadas de secretarias de negociações bilaterais: Américas, antes dividida em América do Norte e América Latina; Oceania, Ásia e Rússia; e Oriente Médio, Europa e África.

A relação com a imprensa também caiu nas prioridades do novo chanceler. A Assessoria, antes ligada diretamente ao gabinete, ficará sob as asas de uma nova secretaria, de Comunicação e Cultura.

As mudanças, avaliam diplomatas ouvidos pela Reuters, mostram as prioridades do novo governo, que defende centrar as relações no bilateralismo, não no multilateralismo ou em órgãos internacionais.

As reclamações são muitas. Em sua posse no Itamaraty, Araújo viu aplausos magros a seu discurso e um claro constrangimento. Já há casos de pedidos de transferência para postos consulares, em que o diplomata trata dos casos do dia a dia dos brasileiros no exterior, mas não tem a obrigação de defender o governo.

Mas, apesar de uma reação inicial forte à nomeação de Araújo, com uma carta anônima escrita por diplomatas, as reclamações não passaram de conversas de corredores.

"Mesmo que tenha muita infelicidade no Itamaraty, temos que lembrar que o chanceler tem o poder das promoções e remoções. Quem compra briga se isola e compromete a própria carreira", lembra Spektor.

Lisandra Paraguasu
No Reuters
Leia Mais ►

As contas do presidente

Aquele que, de boa-fé, aguardava o advento de uma “nova era”, se não segue embriagado na catarse das bolhas, está de ressaca. Nova mesmo, até aqui, só a excentricidade do ministério: um ministro das Relações Exteriores antipático às relações exteriores anunciou que “Deus está de volta”; um ministro da Educação antipático à diversidade já extinguiu a Secretaria de Educação Inclusiva (ambos indicados, via Facebook, por astrólogo anticomunista autoexilado); uma ministra-pastora antipática à fraternidade cristã defende ideologia de gênero particular, feita de príncipes e princesas; um ex-astronauta que veste macacão da Nasa em reunião de trabalho; todos antipáticos à ideologia do adversário, berrando uma infantil ideologia anti-ideológica. Se o primeiro escalão assusta, espere até olhar o segundo. Novo também é o grau de extremismo na repressão a minorias. Violência à vista. Prejuízo econômico também.

A novidade prometida — o combate à corrupção — não ganhou tração e parece estar em segundo plano: dos 22 ministros nomeados pelo presidente (que descumpriu a promessa de reduzir a 15 ministérios), nove têm pendências judiciais (que incluem acusações de tráfico de crianças e de fraudes a fundos de pensão, confissão de caixa dois seguida de pedido de desculpas, até condenação à perda de direitos políticos por improbidade). Bolsonaro avisou que isso não importa: “Mais grave que a corrupção é a questão ideológica”. Palavras vazias, traição à vista.

Passada a eleição, evento que esgarçou relações pessoais e consumiu nosso estoque de afetos e emoções, há de chegar a hora em que recobraremos serenidade para olhar os fatos do presente e do passado sem predisposição partidária. Bolsonaro orgulha-se de uma coisa em sua biografia: “Sou acusado de tudo, só não sou de corrupto”. Como não se aceitam autoafirmações de virtude por seu valor de face, melhor investigar, porque suspeitas há.

Um presidente democrático presta contas. As contas são de pelo menos três tipos, cada uma sujeita a uma modalidade de corrupção. “Prestar contas” pode se referir a: conta bancária e patrimônio privado; contas públicas; instituições de controle. Um cidadão interessado em vigiar a política deve cuidar dessas três frentes. As sinalizações de Bolsonaro não são promissoras em nenhuma delas.

Primeiro, a conta bancária e o patrimônio pessoal: não se explicou à sociedade como a família acumulou, ao longo de uma década de política parlamentar, um patrimônio de 13 imóveis avaliados em mais de R$ 15 milhões; tampouco se explicou como um ex-funcionário do gabinete de Flávio Bolsonaro pôde movimentar mais de R$ 1 milhão em sua conta bancária, por que pagou R$ 24 mil a Michelle Bolsonaro ou por que as entradas em sua conta coincidem com a data de pagamento da Assembleia Legislativa carioca. A funcionária-fantasma residente em Angra e o auxílio-moradia que Bolsonaro recebeu por mais de 20 anos, apesar de ter imóvel próprio, passaram batidos.

Segundo, as contas públicas: não basta anunciar cortes de gastos e reformas econômicas “para o bem do país” e omitir a dura competição distributiva pelo Orçamento. É preciso mostrar quem paga a fatura, quem ganha e quem perde, quem vive e quem morre, quem fica mais rico e mais pobre: explicar, por exemplo, o plano de perdoar uma dívida de R$ 17 bilhões de ruralistas, congelar o orçamento do SUS e manter benefícios fiscais à saúde privada. Não é só contabilidade, mas escolha dirigida por valores; ao lado da queda de braço política, ideologia. Vale insistir quando Paulo Guedes ladra e silencia.

Terceiro, Bolsonaro tenta neutralizar instituições de controle eaccountability . Dois exemplos: ao atacar a imprensa e priorizar as redes sociais, foge quanto pode do contraditório e da esfera pública, espaço crucial do controle democrático; ao redesenhar ministérios e fazer transferências extravagantes de competências, não fez só remanejo técnico de funções, mas abalou a estrutura de freios e contrapesos que equilibra forças e interesses sociais dentro do edifício ministerial. Atribuir demarcação de terras indígenas ao Ministério da Agricultura e fundir ministérios da Fazenda, Planejamento e Indústria num superministério são dois exemplos. A arquitetura renovada não é inocente (e não economiza um tostão). É isso que se pode aferir até aqui da “nova era”. O que há de novo ameaça a liberdade; o que há de velho ameaça o patrimônio público.

Para que o culto à personalidade não nos roube a faculdade da razão, procure desconstruir mitos sobre o mito. Fiscalize as contas do presidente.

Conrado Hübner Mendes, doutor em Direito e professor da USP.
Leia Mais ►

Divulgado vídeo da interceptação de mísseis israelenses contra Síria


A agência de notícias síria SANA publicou imagens que mostram como o sistema de defesa antiaérea da Síria interceptou o ataque aéreo israelense desta sexta-feira (11) contra Damasco.

Segundo o canal de televisão estatal Ikhbariya, aviões israelenses que voavam na região da Galileia, na fronteira com o Líbano, lançaram vários mísseis em direção à capital da Síria.

A maioria dos mísseis foi interceptada com mísseis antiaéreos terra-ar.



Segundo uma fonte militar, apenas um armazém foi danificado na região do Aeroporto Internacional de Damasco.

O portal Flightradar informou que, logo depois do ataque, um avião civil da Syrian Air decolou do aeroporto de Damasco para o Bahrein.

Um ataque similar aconteceu em 25 de dezembro, quando aviões israelenses atingiram a Síria a partir do espaço aéreo libanês. O ataque durou mais de uma hora e meia. Segundo a SANA, a defesa antiaérea síria conseguiu interceptar a maioria dos mísseis, mas um depósito de munições foi danificado e três militares ficaram feridos. O Ministério da Defesa da Rússia informou que os aviões israelenses atacaram no momento em que aviões civis pousavam nos aeroportos de Beirute e Damasco.

No Sputnik
Leia Mais ►

Discurso de Villas Bôas elogiando Bolsonaro constrange pelo cinismo

O elogio inaudito de Villas Bôas a Bolsonaro é mais uma comprovação de que a questão militar precisa ser tratada com centralidade no Brasil de hoje.

O discurso do general abraçou a ideia de que posições democráticas e à esquerda são “amarras ideológicas” a serem destruídas. Comprou sem ressalvas a conversa de que o verde-amarelismo hipócrita da direita representa um “sentimento patriótico” antes “adormecido”.

No trecho talvez mais chocante do discurso, construiu a metáfora de que o “rio da história” possui um “curso normal” ao qual deve forçosamente sempre voltar – e louvou o ex-capitão, o ex-juiz e o chefe da intervenção militar no Rio, general Braga Neto, como os grandes responsáveis para que essa volta ocorresse no Brasil.

Está claro que Villas Bôas se inclui nesta lista, com destaque. Não citou o próprio nome para simular modéstia, mas qualquer ouvinte avisado percebe a lacuna. O “curso normal” da história é um país à mercê de sua classe dominante, cioso de suas hierarquias, que nega direitos à maioria da população. Um curso tão estrito que um governo timidamente reformista já era causa de escândalo.

O Exército que Villas Bôas comandou foi o avalista do golpe de 2016 e interveio em momentos cruciais para garantir a continuidade do arbítrio. Um ação mais discreta do que nos anos 1960 – deixou que os juízes e procuradores da Lava Jato sujassem as mãos e permaneceu nos bastidores, garantindo que o trabalho não fosse interrompido – mas nem por isso menos relevante.

Muita gente boa se enganou com Villas Bôas. Mesmo quando a pressão do Exército sobre o STF estava escancarada, como no caso do famoso tuite exigindo a manutenção da prisão e inelegibilidade de Lula, houve quem se contorcesse para fazer interpretações benévolas. O general tem fala mansa e conta com a simpatia que sua condição de saúde desperta. Mas acho que o que pesa mais é um esforço de cegueira voluntária. Preferimos pensar que, embora depois da ditadura não tenha sido feito nenhum esforço para mudar a mentalidade dos oficiais e torná-la mais compatível com os valores democráticos, a questão militar se resolveu por milagre.

Não se resolveu. O discurso de Villas Bôas constrange pelo cinismo, festejandou um governo que em poucos dias já se desvelou, sem surpresa, como entreguista, imoral, incompetente e autoritário. Mas o que ele revela, para além disso, é que o Exército brasileiro continua no papel de cão de guarda da predatória e limitada burguesia brasileira.

Luís Felipe Miguel
Leia Mais ►

Encontramos os carros do Queiroz


Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, se define como "um cara de negócios". Além de seu salário de R$ 23 mil, ele diz que faz dinheiro comprando e revendendo carros. "Sempre fui assim. Comprava um carrinho, mandava arrumar, revendia", corado e bem humorado, em entrevista bastante dócil ao SBT em dezembro – a primeira desde que estourou o escândalo sobre uma movimentação suspeita de R$ 1,2 milhão em sua conta bancária, que incluiu um cheque de R$ 24 mil à primeira dama Michelle Bolsonaro.

Embora goste tanto de fazer negócios com carros, o velho amigo da família Bolsonaro parece não se preocupar muito com os seus – ou, claro, pode ser apenas um homem que não liga para bens materiais. Além de morar em uma casa simples e sem acabamento e ter dois apartamentos em bairros desvalorizados na zona oeste do Rio, Queiroz tem apenas dois veículos em seu nome: um Voyage 1.0 ano 2010 e uma Belina GL ano 1986, segundo o Renajud, sistema do Conselho Nacional de Justiça que permite buscas no Registro Nacional de Veículos Automotores.

O valor dos dois carros de Queiroz, somados, não chega a R$ 25 mil, segundo a tabela Fipe. Não pagaria, nem de longe, sua internação em um dos hospitais mais caros do país, coincidentemente na mesma semana em que familiares seus deveriam prestar depoimento ao MP do Rio. Não compareceram, afinal. "Todas mudaram-se temporariamente para cidade de São Paulo" para dar apoio familiar ao patriarca, alegaram.

Na entrevista para o SBT, ele não disse – e também, sejamos justos, não foi perguntado pela dócil repórter – se tem comprovantes desses negócios lucrativos que diz fazer, e nem se declarou as vendas para a Receita Federal. Quando um carro é vendido, o comprador tem um mês para transferir o documento para seu nome. É comum que intermediários façam essa transação antes do tempo – e, assim, repassem os veículos para quem comprou sem que isso fique registrado.

Se Fabrício Queiroz era mesmo esse tipo de intermediário, poderia explicar por que a movimentação financeira em sua conta – que ele atribui a seus negócios – costumava acontecer bem nos dias de pagamento da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2016, por exemplo, era só a Alerj pagar os assessores que Queiroz recebia dinheiro, sempre em depósitos em espécie, em valores que se repetiam todos os meses. Além disso, os depósitos eram feitos por outros assessores de Flávio e Jair Bolsonaro – inclusive por sua mulher e sua filha, Nathália, que além de receber salário como assessora de Jair Bolsonaro em Brasília também trabalhava como personal trainer de celebridades.

Flávio Bolsonaro também está driblando o MP do Rio, mas decidiu aparecer no SBT para uma “entrevista”. Ele se esquivou das denúncias e disse que "não tem como controlar o que os funcionários fazem fora do gabinete". Falou que Queiroz precisa se explicar e que há um movimento orquestrado para atingir Bolsonaro. O senador eleito não explicou – e, de novo, não foi perguntado – sobre as movimentações de outros de seus assessores na conta do ex-motorista.

Queiroz está desempregado desde 15 de outubro, quando foi exonerado do gabinete de Flávio Bolsonaro. No mesmo dia, em Brasília, sua filha, também foi exonerada da assessoria de Jair Bolsonaro. As duas demissões aconteceram no meio da campanha eleitoral, a 13 dias do segundo turno e um dia depois que saiu a primeira notícia sobre as movimentações suspeitas na conta do agora ex-assessor.

O Ministério Público do Rio de Janeiro, responsável por investigar o caso, está tentando desde dezembro ouvir o que Queiroz tem a dizer sobre seus negócios. Mas está difícil: o ex-assessor já faltou a pelo menos quatro convocações, alegando problemas de saúde. Sua mulher e filhas também foram chamadas e não apareceram. Restou ao MP tentar ouvir Flávio Bolsonaro, que também declinou - via post em sua página, no Facebook – o convite.

Cecília Olliveira | Tatiana Dias
No The Intercept



Queiroz debocha do povo brasileiro em vídeo feito no hospital

O ex-assessor do senador eleito Flávio Bolsonaro gravou um vídeo no hospital com a família em que debocha do povo brasileiro, num misto de escárnio explícito e humilhação. O vídeo viralizou nas redes sociais. Com uma música de fundo, a filha de Queiroz, de celular em punho, diz: "Agora é vídeo, pai!". E prossegue: "Pega teu amigo, pega teu amigo!". Queiroz e família dançam em meio a gargalhadas e sorrisos, tripudiando com olhares de deboche, num claro recado à críticas que vêm sofrendo em função do não comparecimento aos depoimentos convocados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.

Leia Mais ►

A facada no mito - Um novo vídeo...


Leia Mais ►

Quando ele não recuou


Leia Mais ►