11 de jan de 2019

O governo Bolsonaro institucionalizou o nepotismo e a promiscuidade

Bolsonaro e o amigo “Capitão Victor”
Com a chegada ao poder executivo nacional da família Bolsonaro carregando a tiracolo o que de mais atrasado existe no já modorrento militarismo brasileiro, o que era uma prática velada no submundo das administrações públicas, virou política de Estado.

Práticas como nepotismo e apadrinhamento, combatidos à exaustão em todo o mundo civilizado, por aqui se transformaram em medida oficial para o chamado fortalecimento dos vínculos familiares e afins.

É, por assim dizer, um case de sucesso. Tudo em apenas dez dias após o começo da “nova era” do Brasil.

Para muito além do amigo Queiroz que após o estrondoso sucesso de faturamento no mercado de compra e venda de carros usados hoje se recupera de uma operação em um dos mais caros hospitais privados do país, a prosperidade reina aos amigos e consanguíneos do primeiro escalão do governo.

Rápida no gatilho, a primeira-dama Michelle Bolsonaro não se fez de rogada e praticamente abriu os trabalhos já com a “nova” forma de indicação política para a alta administração.

Sua amiga Priscila Gaspar viu o seu posto de tradutora de línguas na campanha eleitoral se transformar imediatamente num invejado cargo na Secretaria Nacional da Pessoa com Deficiência, subordinada ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos do qual, sabemos, atualmente queda-se de joelhos conforme as orações da “terrivelmente cristã”, Damares Alves. Uma glória.

Já o vice-presidente, que besta não é, também obrou o milagre da multiplicação do salário para o seu herdeiro.

Antônio Mourão, o filho, presenciou nos primeiros dias do novo ano, o ano novo de sua redenção profissional.

De uma piscadela do pai para uma canetada do novo presidente do Banco do Brasil, uma trilha que pode levar décadas sem nunca ser totalmente percorrida foi saltada como se num passe de mágicas. Salário triplicado, haja fortalecimento da família.

Tudo confortavelmente sendo arranjado, não seria o presidente Jair Bolsonaro – cujos filhos já ocupam uma espécie de poder paralelo a ser exercido nas redes sociais – que iria deixar os seus a ver navios, óbvio!!!

Carlos Victor Guerra Nagem, “amigo particular” do atual presidente, também ascendeu vertiginosamente na estatal em que trabalha.

A Petrobrás, outrora um “antro de aparelhamento ideológico”, viu um funcionário que se licenciou duas vezes para concorrer a cargos políticos pelo PSC chegar à Gerência Executiva de Inteligência e Segurança Corporativa.

Antes com um salário de cerca de R$ 15 mil, o fracassado aspirante a político a quem Bolsonaro fez propaganda garantindo ser um “defensor dos valores familiares”, Carlos Nagem agora passará a ganhar nada menos que R$ 50 mil. Mas sem ideologia, que fique claro.

Todos os cargos da administração sendo paulatinamente ocupados sob o criterioso perfil de quem bajulou ou não a candidatura vitoriosa, políticas públicas de inclusão social e empresas estratégicas para a soberania nacional caminham a passos largos para se transformaram tão somente numa grande reunião familiar em que os amigos mais próximos são sempre bem-vindos.

Para quem se elegeu sob o discurso do combate à corrupção e o fim do aparelhamento nas empresas públicas, é um início de governo que prova a quão mitológica eram suas promessas.

Por fim, a você que votou no “Mito” a partir de todas essas crenças, mas infelizmente não faz parte do privilegiado círculo de sua amizade, resta curtir o “aumento” salarial de R$ 1.006,00 para R$ 998,00 que lhe foi destinado.

Com competência, economia e um pouco de fé, dá até para comprar uma máscara de carnaval e cobrir sua cara de vergonha.

Carlos Fernandes
No DCM
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Genro de Leo Pinheiro na Caixa e a farsa do triplex: a nomeação dele é suspeita

Leo Pinheiro, Pedro Guimarães, triplex e Lula: peças de um quebra-cabeça
Sem Leo Pinheiro, ex-presidente da OAS, o processo que levou à condenação e, consequentemente, à prisão do ex-presidente Lula não ficaria de pé.

No processo, o que sustenta a condenação é a declaração de Leo Pinheiro de que haveria um caixa geral da propina na OAS e que, nesse caixa, foi debitado o triplex do Guarujá como propina a Lula.

Não existe nenhuma prova de que Lula fosse o dono do imóvel ou que tivesse usufruído do bem. A família dele não tinha chave e nunca passou uma noite sequer no imóvel.

As provas que estão no processo indicam o contrário: o triplex pertencia à própria OAS, que o deu como uma das garantias de uma operação de crédito junto à Caixa Econômica Federal.

Há uma escritura, registrada em cartório de Salvador, na Bahia, que assegura à Caixa os direitos econômicos sobre o triplex.

Se Lula aceitasse o imóvel, mais cedo ou mais tarde ele teria que pagar à Caixa cerca de 2 milhões de reais.

Para a defesa de Lula, conforme consta das alegações finais do processo, essa operação de crédito na Caixa é a prova mais contundente da inocência de Lula.

O problema é que, desde segunda-feira, quem dá as cartas na Caixa Econômica Federal é o genro de Leo Pinheiro, Pedro Guimarães.

Em tese, sua presença lá representa um potencial conflito de interesses.

Se a Caixa é dona dos direitos econômicos do triplex, a obrigação dela é cobrar sua parte no leilão realizado depois da autorização dada por Sergio Moro, quando ainda era juiz.

Mas, se a Caixa cobrar pelo que é seu, estará desmontada a farsa.

A operação de crédito que possibilitou à OAS receber 300 milhões de reais do Fundo de Garantia administrado pela Caixa está descrita no contrato assinado em 2 novembro de 2009, quando a construtora estava assumindo os projetos da construtora.

Em 25 de fevereiro de 2011, a Caixa respondeu, em aditivo, que uma das garantias para a emissão de debêntures seriam as unidades do empreendimento no Guarujá, inicialmente chamado Mar Cantábrico, mais tarde rebatizado para Solaris.

O contrato foi registrado em um cartório de Salvador e só foi localizado depois de intensa pesquisa realizada pela defesa de Lula.

O advogado, Cristiano Zanin Martins, havia pedido a Sergio Moro que determinasse à Caixa a entrega dos documentos, mas, diante da negativa, realizou por conta própria a pesquisa.

O contrato está juntado no processo, mas a defesa não consegue saber se a Caixa recebeu pela operação de crédito.

Em resposta a um pedido formulado pelo DCM, a Caixa informou que não tem direitos econômicos sobre o triplex.

“O referido imóvel não figura como garantia de operações da Caixa, isto é, a Caixa não possui qualquer relação com a propriedade do imóvel, logo não há o que se falar em prejuízo em razão arrematação noticiada”, diz a nota.

A pedido da assessoria, encaminhei as partes do processo que tratam da vinculação da operação de crédito com os empreendimentos da OAS, entre os quais o Solaris do Guarujá.

Até agora, não recebi resposta complementar à minha pergunta: a Caixa vai assumir o prejuízo com o leilão do triplex?

Toda a documentação, que pode ou não ajudar na defesa de Lula, está agora debaixo da autoridade de Pedro Guimarães.

A instituição informa que, nascido  no Rio de Janeiro, ele é Ph.D. em economia pela University of Rochester, mestre em economia pela FGV/RJ e Bacharel em economia pela PUC/RJ.

Tem vinte anos de experiência no mercado financeiro e coordenou diversas operações de mercado de capitais, como ofertas públicas iniciais (IPO’s), fusões e aquisições (M&A’s), entre outras, além de assessoramento em reestruturações de empresas.
Também foi membro dos Conselhos de Administração da Terra Brasis Resseguros e Eólicas do Sul.

É um currículo de valor, mas será que não haveria na sociedade (ou mercado) ninguém com um currículo de peso como este e que não fosse ligado a um elemento chave na condenação de Lula?

Leo Pinheiro mudou o depoimento dele na Justiça, ainda que não fosse aceito na condição de delator — sempre é importante lembrar que, como delator, ele não poderia mentir, mas como co-réu é um direito dele faltar com a verdade.

Os acusadores é que têm de provar que ele mente.

A palavra de Leo Pinheiro foi aceita como parte do conjunto de indícios para condenar Lula.

E, em razão disso, o ex-presidente da OAS obteve redução da pena no processo do triplex e agora, no caso do sítio de Atibaia, pretende benefícios “em grau máximo”.

O que pode desmontar o castelo de cartas levantado por Leo Pinheiro está justamente nos arquivos da CEF, o que faz da presença de seu genro lá uma temeridade.

* * *

Veja os documentos:





Joaquim de Carvalho
No DCM
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"Estamos regredindo à condição de colônia"


O programa "No Jardim da Política" desta semana recebeu em estúdio o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC) e jornalista Igor Fuser. Ele falou sobre políticas internacionais do governo Bolsonaro e afirmou que o Brasil está vivendo o maior processo de desnacionalização da economia em toda história. “Estamos regredindo à condição de colônia. Estamos desistindo da industrialização, do desenvolvimento tecnológico e essa conta vai ser cobrada lá na frente”, alerta. 

Para Fuser, o principal traço da política "bolsonarista" é o alinhamento absoluto e incondicional aos EUA. O Brasil entra nesse novo governo em posição subalterna ao governo Trump de um forma nunca vista antes, nem mesmo durante a Ditadura Militar. Fuser ainda cita o enfrentamento dos EUA com a China como uma questão central nessa política externa subalterna ao governo Trump. “A China é o principal parceiro comercial do Brasil e principal comprador das nossas commodities de exportação, como a soja e o ferro. Então qualquer limitação do comércio do Brasil com a China provocaria verdadeiro colapso em setores estratégicos da economia brasileira”, conclui.  

As possíveis vendas de empresas estatais para o capital estrangeiro é outro ponto que Fuser destaca como perigoso para a economia e soberania do país. Ele denuncia o novo governo como "traidor da pátria e entreguista" e cita o pré-sal como um dos principais exemplos. Segundo ele, durante os governos de Lula e Dilma, o maior tesouro na indústria do petróleo mundial das últimas décadas foi explorado de acordo com uma política de desenvolvimento e investimento interno que foi abandonada no governo Temer. ”Acabar com a Previdência para beneficiar bancos, a educação… privatizar universidades, para entregar esse mercado para o capital externo. Desmantelar o Sistema Único de Saúde (SUS), para aprofundar o setor da medicina privada mercantil que visa o lucro. Então é uma ofensiva em todas as frentes”. 

No entanto, este retrocesso não vai na contramão dos processos mundiais, ao contrário. O jornalista comenta que é preciso entender que esse avanço da direita acontece em vários países e é um resultado do próprio fracasso do capitalismo em atender as demandas das massas. Para Fuser, “existe um descontentamento muito grande. O capitalismo gerou expectativas de melhoria de vida, principalmente pelo avanço tecnológico, mas isso não aconteceu, então as pessoas estão com muita raiva e politicamente essa raiva é canalizada para um lugar e a direita tem conseguido se aproveitar disso. Ela aponta inimigos. É o imigrante na Europa, a esquerda na América Latina, o fundamentalismo religioso em outros países." 

O avanço de governos progressistas nas últimas décadas na América Latina, Caribe e no Brasil, como os governos do PT, foi responsável por grandes avanços nos campos sociais, mas também favoreceu um contra-ataque dessas forças opositoras. Neste sentido, Fuser ressalta a importância da resistência de países como Cuba e atualmente a Venezuela, que passa por uma grande crise política e econômica. Ele ainda critica a cobertura da mídia tradicional, que não mostra o contexto de boicote internacional e sabotagem pelo qual nosso vizinho passa. Aproveitando o gancho da posse de Nicolás Maduro na Venezuela, que acontece nesta quinta-feira (10), o jornalista rebate críticas sobre a legitimidade das eleições venezuelanas. 

“Na Venezuela, trata-se de um governo legítimo, Maduro foi eleito em eleições competitivas. Falam-se em fraude, mas que fraude? Que denúncia foi essa? Ele é mais legítimo que o Bolsonaro, que só foi eleito porque inviabilizaram a candidatura do Lula. Assim como a disseminação massiva de notícias falsas é outra sombra que enfraquece a legitimidade do governo brasileiro. Agora, para a mídia brasileira o que não é legítimo é o da Venezuela, onde não aconteceram essas coisas”, reforça. 

O professor explica que a situação da Venezuela é parecida com a de Cuba no início da Revolução. O país atualmente tem sofrido sanções de outros países, que são as principais responsáveis pela crise de abastecimento de itens básicos que assola o país. Para Fuser, “Maduro foi na contramão das normas injustas do cenário internacional, então enquanto no mundo inteiro estão se eliminando direitos trabalhistas e proteção social, na Venezuela isso aumentou”.

Ele ainda explica que a aproximação da Venezuela com China e Rússia deve ser vista com naturalidade perante o contexto de invasão iminente que o país sofre. Os EUA já deram inúmeros indícios e declarações de uma invasão ao território venezuelano. Fuser relembrou que "a História mostra que quando os EUA ameaçam, a chance de concretização é grande". "O governo da Venezuela está tentando de todas as forças resistir a essa pressão de fora e nisso eles não são bobos, vão buscar aliados no cenário internacional”, pondera.

A entrevista chega ao final com uma importante autocrítica e um apelo para que os novos rumos políticos sejam enfrentados com uma maior integração. “Temos que aprender com as derrotas. Nós que somos de esquerda precisamos aprender a sair da nossa bolha e conversar com as pessoas, voltar ao trabalho de base, ao diálogo e à comunicação. Essa vitória da direita não aconteceu porque de repente todo mundo virou fascista. Mas por falta de diálogo muitos acabaram sendo arrastados e enganados, essas pessoas tem que ser esclarecidas”, encerra Fuser. 

Além da entrevista no estúdio com Igor Fuser, o programa também contou com entrevista com a poeta, atriz e diretora teatral Luiza Romão, premiada nas competições Slam do 13 e Slam da Guilhermina. Ela falou sobre a importância do slam no Brasil, o protagonismo das mulheres na literatura e a importância das manifestações culturais, principalmente no atual momento político do Brasil.

No Brasil de Fato
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Como o YouTube se tornou um celeiro da nova direita radical

Ilustração: Rodrigo Bento
Resolvi fazer um experimento. Com um navegador recém instalado, abri o YouTube e cliquei em um vídeo sobre as máquinas de forjamento de martelo mais rápidas e pesadas que existem. Deixei o sistema rodar mais 13 vídeos na sequência, assistindo aos vídeos, sem deixar likes ou fazer login. A ideia era ver quais eram as sugestões que o YouTube recomendava depois do primeiro.

Após passar por vídeos de halterofilismo, corte de árvores e muitos anúncios de ferramentas pesadas, equipamentos e carne para churrasco e outros, o YouTube me recomendou um vídeo sobre como fazer munição para uma arma semi-automática.


As recomendações e os anúncios, voltados para quem exalta o estilo de vida do Rambo, mostram que os algoritmos entenderam que, porque eu cliquei em um único vídeo de máquinas pesadas, eu sou homem e gosto de armas e churrasco.

Essas conexões que os algoritmos fizeram vêm dos dados que o YouTube analisou sobre meu comportamento no site e sobre os vídeos com os quais interagi, seja clicando sobre o vídeo, pausando, aumentando o volume ou até mexendo o mouse sobre as recomendações. Tudo é monitorado. As métricas que escolhem quais vídeos serão recomendados são baseadas, principalmente, na possibilidade de um vídeo ser assistido pelo usuário. Ela faz parte de um mecanismo sofisticado de inteligência que tem um objetivo principal: fazer com que você passe o máximo de tempo possível no YouTube.

Como conteúdos extremistas naturalmente chamam mais atenção, a plataforma cria uma bolha conectando vídeos bizarros. Assim, usuários mergulham cada vez mais fundo num assunto. Não por acaso, da fabricação de martelos eu fui levada pelo algoritmo para um vídeo sobre munição e armas em apenas 13 passos. A mesma coisa acontece com vídeos relacionados à política.

Recomendação ao extremo

Em 2015, os usuários do YouTube subiam 400 horas de vídeo por minuto. A maior parte desse conteúdo é criada de forma amadora. No site, usuários de todo o mundo gastam mais de um bilhão de horas assistindo a vídeos todos os dias.

Apesar de ter um serviço de assinaturas, o YouTube Premium, o serviço ganha dinheiro mesmo é com anúncios. Para sustentar a infraestrutura necessária – e garantir que o modelo continue crescendo – o site precisa ser gigante. Como na velha TV aberta, quanto mais pessoas assistindo a um programa, mais gente vê os comerciais durante os intervalos.

Para manter o interesse das pessoas nos canais – e garantir que elas sejam expostas a mais e mais anúncios –, a plataforma usa algoritmos para organizar o conteúdo e circular vídeos novos, gerando uma demanda diária por novo material. Esses algoritmos usam uma combinação de dados para recomendar vídeos que visam, literalmente, prender e viciar as pessoas.

Quando o sistema de recomendações foi lançado, em 2010, ele deu resultados imediatos: começou a ser responsável por 60% dos cliques dos usuários, segundo artigo científico escrito pelos cientistas do Google no mesmo ano.

Em 2015, com a liderança do time Google Brain, a empresa começou usar aprendizado de máquina – conhecido em inglês como machine learning – para melhorar o sistema de recomendações. Em 2017, o YouTube começou a rodar tudo sobre uma sofisticada plataforma de inteligência artificial, o Tensorflow.

Estava completa a transição para um sistema que aprende sem ser “supervisionado” por humanos – tecnologia também chamada de unsupervised deep learning, ou aprendizado profundo sem supervisão. Esses algoritmos escolhem quais vídeos vão para a barra de recomendados, quais aparecem na busca, qual vídeo toca a seguir quando no modo reprodução automática (o autoplay) e também montam a homepage dos usuários no YouTube. Sim, cada vez que você abre sua home ela está diferente. Ela foi customizada pelas máquinas para que você assista mais e mais vídeos.

Para tomar as decisões por você, os algoritmos associam significados que eles mesmos aprendem em etapas, de modo a filtrar e combinar categorias para chegar em um conjunto de vídeos ou anúncios para recomendar. Primeiro, dão um significado para um vídeo segundo suas características. Depois, combinam esse significado com mais dados, como por exemplo a quantidade de horas que um usuário gasta assistindo determinados vídeos com significados semelhantes. As categorias vão sendo combinadas pelos algoritmos para encontrar as recomendações que o usuário tem mais possibilidade de clicar e assistir:


O site gera essas recomendações a partir das suas interações, nas informações dos vídeos e nos dados dos usuários. Isso engloba tudo que você faz no navegador: parar o vídeo, colocar o mouse por cima de determinada imagem, aumentar ou diminuir o volume, quais abas você está navegando quando está vendo vídeos, com quem você interage nos comentários e que tipo de comentários faz, se deu like ou dislike e até mesmo a taxa de cliques em recomendações etc.


Gráficos mostram a arquitetura do sistema de recomendação demonstra o ‘funil’ que classifica os vídeos para o usuário.

Como a interação não é só baseada em likes, o YouTube valoriza também os comentários, atribuindo valores de positivo e negativo às conversas. Por causa disso, o feedback do usuário sobre o vídeo é avaliado e pesa na fórmula que calcula a possibilidade da pessoa assistir aos outros vídeos. Mesmo sem dar like, você entrega os seus dados e tem sua interação monitorada o tempo todo.

Os autores dos vídeos sabem muito bem como funciona essa lógica. Os anunciantes também. Os youtubers têm à sua disposição a plataforma para criadores do YouTube, o YouTube Studio, que fornece métricas e informações sobre a audiência. Assim, existe um incentivo para os produtores fazerem vídeos cada vez mais extremos e bizarros para prender a audiência o máximo possível. Isso explica um pouco a obsessão da internet pela banheira de Nutella, e também ajuda a entender como se elegeram tantos youtubers interconectados nas últimas eleições.

Como conteúdo radical dá dinheiro, por conta dos anúncios, extremistas usam também outras ferramentas para incentivar a formação de bolhas e atrair cada vez mais gente. No Brasil, donos de canais de conteúdo extremo e conspiratório, como a Joice Hasselmann, por exemplo, costumam divulgar seu número do WhatsApp, viciando as pessoas em seus conteúdos com base na exploração dessa relação de proximidade ou intimidade.

Redes de extrema-direita

Enquanto o Google terminava a transição da sua tecnologia no YouTube, surgiram denúncias sobre como vídeos de conteúdo extremo começaram a ganhar audiência na plataforma – muitos deles, inclusive, recomendados a crianças. Em 2017, pesquisadores descobriram uma rede de produtores de conteúdo que fazia vídeos com conteúdo bizarro para crianças: afogamentos, pessoas enterradas vivas e outros tipos de violência eram empacotados com música e personagens infantis.

Alguns pesquisadores, como a americana Zeynep Tufekci, escreveram sobre como o YouTube estava lhe recomendando conteúdos da extrema direita americana após ela ter visto um único vídeo de Donald Trump. No Brasil não é diferente. Basta assistir a um vídeo de extrema direita que as recomendações vão garantir que você se aprofunde cada vez mais no ódio:

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Vídeo de Kim Kataguri “puxando” o fio de outros vídeos extremistas, 
com direito a anúncio do Trump e tudo.
Foto: Reprodução/YouTube

A radicalização acontece muito mais à direita do que à esquerda. Primeiro porque os produtores de conteúdo conservadores souberam bem agregar pautas polêmicas e teorias conspiratórias que já faziam sucesso na internet, como o criacionismo. Além disso, há uma coerência em suas pautas – os assuntos em comum ajudam a alavancar a audiência de forma mútua. Já a esquerda, além de ter uma pauta mais fragmentada que nem sempre se conversa – há o feminismo, a luta antirracista, os marxistas etc –, não conseguiu surfar a onda das polêmicas de internet.

Guillaume Chaslot, que é ex-funcionário do Google e hoje trabalha em uma fundação para a transparência de algoritmos, tem argumentado desde 2016 que a plataforma de recomendações do YouTube foi decisiva nas eleições de Trump, espalhando notícias falsas e teorias da conspiração. Segundo ele, o algoritmo vendido como neutro pelo Google ajudou a garantir audiência para vários vídeos conspiratórios, como um em que Yoko Ono supostamente admitiria ter tido um caso com Hillary Clinton nos anos 1970 e outro sobre uma falsa rede de pedofilia operada pelos Clinton.

O impacto desse tipo de conteúdo, porém, não é fácil de ser medido – a fórmula dos algoritmos é mantida em segredo pela empresa, ou seja, não dá para saber exatamente quais são os critérios que determinam o peso de cada característica no processo de decisão sobre qual vídeo indicar.

Esse sistema cria uma rede interligada – que, em conjunto, fica mais poderosa. Analisando mais de 13 mil canais de extrema direita no YouTube, Jonas Kaiser, pesquisador do Berkman Klein Center de Harvard, percebeu que elas estão conectadas internacionalmente dentro do YouTube, especialmente por conta do compartilhamento de vídeos com idéias extremistas. É uma rede fértil para circular a ideia de que políticas afirmativas para negros são parte de uma conspiração para acabar com a raça branca ocidental, por exemplo, o delírio de que vacinas são parte de um plano para acabar com determinadas populações em um experimento ou até a história de que as eleições brasileiras estariam em risco por uma suposta fraude nas urnas eletrônicas.

Os dados levantados por Kaiser mostram que o esquema de recomendação do YouTube “conecta diversos canais que poderiam estar mais isolados sem a influência do algoritmo, ajudando a unir a extrema direita”, ele escreve.
‘A plataforma de recomendações do YouTube foi decisiva nas eleições de Trump, espalhando notícias falsas e teorias da conspiração.’
Não é por acaso que o teor conspiratório dos vídeos dos EUA é bem parecido com as redes de outros países: quase sempre envolve vacinas, terraplanismo, pedofilia e uma suposta organização internacional de esquerda sedenta por tomar o poder.

No Brasil, o cenário não é muito diferente. Temos a nossa própria rede de influenciadores de extrema direita, catapultados para a fama com a ajuda do algoritmo do YouTube. Nando Moura, com quase três milhões de seguidores, já fez vídeos defendendo a existência da cura gay. Outro influenciador, Diego Rox, defende para seus quase um milhão de seguidores a existência da Ursal. Todos recomendados por Jair Bolsonaro, que se beneficia da popularização de teorias conspiratórias de extrema direita.

Recentemente o Google reconheceu o problema. A empresa disse que passaria a sinalizar vídeos que espalhassem desinformação e exibiria, junto com eles, conteúdo da Wikipedia, em uma medida que pareceu um pouco desesperada. E não ataca a raiz do problema: seu modelo exploratório de negócios, uma herança da televisão.

A verdade é que o YouTube é um grande laboratório de machine learning, onde os seres humanos são as cobaias. Resta saber qual é o real impacto do experimento no exercício da liberdade de escolha e expressão. O problema é que eu desconfio que algo não está dando muito certo.

Yasodara Córdova
No The Intercept
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O Brasil e o desafio da automação e da crise do emprego


Em 2017, outro estudo, do McKinsey Global Institute, em cima da mesma base, constatou que apenas 5% dos empregos nos Estados Unidos poderiam ser totalmente automatizados, enquanto 60% poderiam ser parcialmente automatizados.

O estudo “Empregos perdidos, empregos ganhos: o que o futuro do trabalho significará” (https://goo.gl/n1SfAo) analisa quantidade e tipos de trabalho que poderiam ser criados e perdidos até 2030

1. Impacto no trabalho

O relatório constata ser possível manter o pleno emprego até 2030, mas com transições muito desafiadoras, maiores até que aquelas ocorridas com a agricultura e a indústria dos Estados Unidos e Europa no início do século 20. Em cerca de 60% das ocupações, pelo menos um terço das atividades poderão ser automatizadas. O efeito maior será nas tarefas repetitivas, como operar máquinas ou preparar fast food,  coleta e processamento de dados em trabalhos administrativos, como contabilidade e transações administrativas.

2. Cenários possíveis

O trabalho estima um crescimento do consumo, especialmente nas economias emergentes, que poderia garantir entre 250 milhões a 280 milhões de postos de trabalho. Importante: estima que gastos em saúde e educação poderiam gerar de 50 milhões a 85 milhões de novos empregos. Sobre isso falo no final.

Até 2030, haverá pelo menos mais 300 milhões de pessoas com 65 anos ou mais do que em 2014, exigindo mais gastos com saúde e outros serviços pessoais.

Desenvolvimento e implantação de tecnologia

Desenvolvimento e implantação das novas tecnologias poderão aumentar em mais de 50% entre 2015 e 2030, gerando de 20 a 50 milhões de empregos.

Investimentos em infraestrutura e edificações

Poderiam criar demanda de até 80 milhões de novos empregos, especialmente em habitação.

Investimentos em energia renovável, eficiência energética e adaptação climática

Energia eólica e solar; tecnologias de eficiência energética; e a adaptação e mitigação das mudanças climáticas podem criar uma nova demanda por trabalhadores.

”Marketização" do trabalho doméstico anteriormente não remunerado

Estime em 50 a 90 milhões de empregos em ocupações como como creches, educação da primeira infância, limpeza, culinária e jardinagem.

O grande problema é como enfrentar a transição, de preparar trabalhadores de setores automatizados para as outras atribuições. Entre 75 milhões e 375 milhões de trabalhadores precisarão mudar de categoria ocupacional e aprender novas habilidades.

3. Como gerenciar as próximas transições

Todas as sociedades precisarão trabalhar em quatro áreas principais.

Manter um crescimento econômico robusto para apoiar a criação de empregos

Políticas fiscais e monetárias que garantam demanda agregada suficiente, assim como apoio ao investimento e à inovação das empresas, serão essenciais. 

 Dimensionamento e releitura do treinamento profissional

Proporcionar reciclagem profissional e permitir que os indivíduos aprendam novas habilidades comercializáveis durante toda a sua vida será um desafio crítico - e, para alguns países, o desafio central. 

Fornecer apoio de renda e transição aos trabalhadores

Políticas mais permanentes para complementar os rendimentos do trabalho podem ser necessárias para apoiar a demanda agregada e garantir a justiça social. 

No entanto, nas últimas décadas, os investimentos e as políticas de apoio à força de trabalho foram corroídos. Os gastos públicos com treinamento e apoio da força de trabalho caíram na maioria dos países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Modelos educacionais não mudaram fundamentalmente em 100 anos. 

O caso brasileiro

Enquanto o mundo ensaia mudanças centrais, o Brasil volta-se para a Idade Média, submetendo políticas públicas à religiosidade mais obtusa.

Na gestão de José Gomes Temporão, no Ministério da Saúde da Lula, e de Alexandre Padilha, com Dilma, foi desenvolvido o PDP (Programa de Desenvolvimento Produtivo) preparado pela excepcional Fiocruz. A ideia central consistia em tratar os gastos com saúde como investimento, e não como despesa. Criar-se-ia uma enorme cadeia produtiva, indo dos equipamentos e medicamentos aos cuidadores de idosos.

Essa política poderia se estender para Educação, permitindo ao país se inserir na economia global como fornecedor de tecnologias de bem-estar.

No entanto, um projeto precioso disso foi reduzido ao caso Labogen – o laboratório controlado pelo doleiro Alberto Yousseff -, meramente dentro do jornalismo de guerra que se implantou no país.

Ao mesmo tempo, o desmanche das redes de proteção ao trabalho, a ampliação da informalização, o fim do Ministério do Trabalho farão com que o país entre na próxima etapa sem nenhuma visão de futuro, jogando ao mar sua mão de obra.

Luís Nassif
No GGN
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Villas Bôas despe seu anti-petismo

Lippmann não era tão democrata assim, General


De Julia Lindner e Felipe Frazão, no Estadão:

Ao deixar o cargo, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas fez um forte discurso político no qual disse que o presidente Jair Bolsonaro resgatou o Brasil das amarras ideológicas. Ele será substituído por Edson Leal Pujol. A cerimônia de troca do comando acontece no Clube do Exército, em Brasília, com a presença do presidente Jair Bolsonaro.

Diante de Bolsonaro, Villas Bôas afirmou que o presidente "tirou o País da amarra ideológica que sequestrou o livre pensar" e "tirou o País do pensamento único e nefasto". Ele também destacou que o Exército é "democrático, apartidário e integralmente dedicado à Nação". Ao final, Villas Bôas foi aplaudido de pé e cumprimentado por Bolsonaro.

"O senhor traz a necessária renovação e a liberação das amarras ideológicas que sequestraram o livre pensar e nublaram o discernimento e induziram a um pensamento único e nefasto como assinala o jornalista americano Walter Lippmann: 'Quando todos pensam da mesma maneira é porque ninguém está pensando'", afirmou.

O comandante, que sofre de uma doença degenerativa e está em uma cadeira de rodas, fez apenas uma saudação com agradecimentos. Com dificuldade para falar, seu discurso de ordem do dia foi lido por um mestre de cerimônia.

(...)
O general Villas Bôas talvez não tenha tido tempo de ler a excelente biografia "Walter Lippmann and the American Century", de Ronald Steel (An Atlantic Monthly Press Club - 1980).

Se tivesse, saberia que o magistral jornalista Lippmann tinha uma mácula - um certo menosprezo pelos governos derivados da soberania popular...

Ninguém é perfeito, general...

Ou isso não é uma mácula?

(A propósito, não deixe de ouvir o podcast em que Umberto Eco prova que o Fascismo é eterno.)

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“A Esposa”, um filme para as meninas que vestem rosa na Era Damares




A gente costuma identificar o machismo em situações marcadas por casos nítidos de violência verbal, física, psicológica ou desrespeito aos direitos femininos.

Mas sente certa dificuldade de perceber quando ele prospera encoberto sob a capa de uma aparente felicidade conjugal tomada como retrato da família – essa instituição considerada imutável pelos puritanos e usada por eles para legitimar retrocessos, como mostra o Brasil de Jair Bolsonaro e Damares Alves, a ministra da sexualidade cromática.

O filme A Esposa (de Bjorn Runge), em cartaz no cinema e vencedor do Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama pela atuação sufocante de Glenn Close, oferece boa dose de reflexão sobre o tema ao descascar as camadas de uma relação abusiva e fazer aflorar o peso da resignação soterrada pelo tempo em nome de um falso equilíbrio a dois.

O centro da trama são os dilemas de uma prestativa e submissa esposa de um escritor renomado, levada a reconsiderar a vida após o marido ganhar o Nobel de Literatura.

Glenn exala capacidade ao compor uma personagem frustrada pelo fardo da autoanulação: aparece em cena descontente, inquieta, impaciente, refratária à liturgia das conquistas do esposo e intolerante às bajulações a ele direcionadas.

O inconformismo é estranho ao clima festivo e divide a personagem entre estado de espírito e o jogo de cena da celebração conjugal e familiar. Entre ser e representar. Entre condescender e protagonizar. Entre ficar à luz ou à sombra do marido.

O impasse é uma sessão reprise do passado de silenciamento e metáfora da própria condição feminina sob domínio de regras patriarcais.

Durante anos, ela vestiu o papel das limitações machistas, suprimiu desejos, aptidões e encarnou o figurino de companheira solícita, atenciosa, encorajadora e dona de casa. Sublimou a vida para virar função: esposa.

Durante séculos, as mulheres foram forçadas à submissão de sociedades incapazes de enxergá-las como seres iguais, merecedoras de respeito e dignas de direitos. Amargaram humilhação, maus-tratos e violência sob uma concepção machista de família. Eram tratadas como peças a serviço de uma função.

Ao receber o Globo de Ouro, Glenn amarrou ficção e realidade. “O que aprendi com toda esta experiência é que nós, mulheres, somos cuidadoras, isso é o que se espera de nós. Temos nossos filhos, nossos maridos e, se tivermos sorte, nossos pais. Mas temos que encontrar aquilo que nos faz sentir realizadas. Temos que seguir nossos sonhos e dizer: eu consigo e tenho o direito de conseguir”.

Glenn Close no Globo de Ouro
As palavras ressoam como manifesto e resistência diante do teimoso cerceamento à liberdade e à representatividade feminina materializado em omissões e retrocessos de políticas públicas e condutas sociais tipicamente machistas.

O Brasil sob o crepúsculo de Michel Temer, Bolsonaro e Damares é reflexo dessa chancela ao obscurantismo. É o país do louvor à “bela, recatada e do lar”, à primeira-dama bibelô, à menina-princesa vestida de rosa – embalagem física, social e psicológica da mulher para atender a um ideal machista farsesco de família no qual elas devem ser “puras, submissas e úteis”.

A concretização desse estado anômalo e desigual passa pela supressão das oportunidades, valorização da obediência e inibição da coragem de lutar pela igualdade – ou, como relincha o filho do presidente brasileiro, pela proibição de ensinar feminismo nas escolas.

Esse desequilíbrio de gênero soa ainda mais cruel ao atravessar as relações afetivas e domésticas porque se funde a amor, sexo, filhos, familiares – elementos capazes de gerar alegria e forçar a inibição do franco enfrentamento ao machismo.

A sinuosidade do filme está em realçar essa contraposição entre a “vida feliz” da personagem – aparentemente valorizada e desejada pelo marido (interpretado por Jonathan Pryce) – e a inquietude de se sentir eclipsada pela conduta pessoal e profissional desse mesmo companheiro.

A Esposa desmonta as engrenagens criadas para desencorajar o protagonismo da mulher e naturalizar a projeção masculina às custas da invisibilidade feminina. Faz pensar sobre como a dominação masculina distorce o sentido da felicidade porque oprime até quando gera momentos alegres e subverte o conceito de liberdade ao impedir o outro de ser.

Tiago Barbosa
No DCM
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Povo não quer tuíte sobre ideologia, mas saber como o desemprego vai cair

Ele
Uma coisa é segurar a imagem de um candidato durante os poucos meses que duram uma eleição, usando doses cavalares de emoção anabolizada pelo clima de ultrapolarização irracional – que, no caso brasileiro, chegou ao limite de se materializar na forma de infames facadas. Tanto contra o então primeiro colocado nas pesquisas, quanto em um eleitor soteropolitano de seu adversário. Outra é garantir que a popularidade permaneça sem que um eleito mostre de que forma vai entregar o esperado. Ou seja, não será bradando o banimento do mitológico "kit gay" ou defedendo chamar o golpe de 1964 de revolução em livro didático, mas mostrando como irá reduzir o desemprego, a violência e a corrupção. Coisa que é lacuna na comunicação do novo governo.

O inovador estilo de comunicação, que se conecta de forma direta com os cidadãos, sem mediações, tem seus limites. Primeiro, porque a imprensa tradicional (ainda) tem papel fundamental na construção simbólica de nosso cotidiano e na organização da agenda pública. O presidente sabe disso, apesar de decretar a falta de credibilidade de jornais e jornalistas. O que é um paradoxo, pois se realmente não tivessem nenhuma, ele não precisaria repetir isso o tempo todo como se quisesse nos convencer disso. A impressão, portanto, é que ele, tendo chegado lá, também busca validação e reconhecimento junto à imprensa. Claro que, para Bolsonaro, admitir isso seria o ó.

E, segundo, com exceção da militância cega, à direita e à esquerda, capaz de saltar com seus líderes no abismo, incorporando o folclore dos lemingues suicidas, o grosso das pessoas é capaz de perceber que jogar purpurina em cima de uma moita de musgo não a torna uma joia de rara beleza, mas apenas uma moita de musgo que brilha.

Tempos atrás, entrevistei o dono de uma empresa de consultoria especializada na construção e desconstrução de reputações através de redes sociais. Ele comercializava os serviços para políticos e empresas – ué, você acha que passou a amar aquele produto completamente desnecessário a ponto de desejá-lo e comprá-lo apenas por sua livre e espontânea vontade? Sabe de nada, inocente.

Para ele, desconstruir reputações é mais fácil, sempre, do que construir. Mas não se desconstrói uma reputação com musculatura facilmente. A credibilidade de um político, o seu principal patrimônio, é garantida pela importância do que ele faz e pelo reconhecimento público disso. Esse tipo reconhecimento sólido não se constrói do zero. E uma vez erguido, não se destrói de um dia para outro. Ou seja, se os políticos fizessem apenas metade do que deveriam fazer já estavam com a vida ganha. O problema é que gastam energia na campanha e após ela para convencer a população que estão fazendo o que deveriam ter feito, mas não fizeram. Emprego, segurança, ordem e, como sempre, saúde e educação são as principais demandas.

A população se beneficiará da melhoria das contas públicas trazida com a Reforma da Previdência, mas é importante lembrar que não se come indicadores. O governo pode explicar quantas vezes quiser que está agindo de forma a preparar terreno para a economia crescer com reformas. De nada vai adiantar se as empresas não criarem vagas suficientes e em um curto espaço de tempo para aplacar o ranger de dentes de 12,2 milhões de pessoas sem trabalho e 4,7 milhões que desistiram de procurá-lo porque não acreditam mais que irão encontrar. Vale lembrar que, nos últimos anos, a criação de postos de trabalho tem ocorrido da mesma forma que a comunicação do novo governo, ou seja, na informalidade.

É mais fácil destruir do que construir – da Primavera Árabe, passando pelo impeachment de Dilma Rousseff até o discurso antissistêmico e contra tudo o que está aí que ajudou a eleger Bolsonaro, temos exemplos fartos disso. O novo governo mantém sua comunicação em estado bélico, apostando em uma guerra prolongada para unir os apoiadores contra o inimigo, personalizado no PT. O problema é que a estratégia tem limites e a população está cansada.

Se ele não souber como explicar o que o governo está fazendo para garantir uma vida melhor e quando isso vai chegar, não vai importar se as desculpas virão via Twitter ou por um porta-voz.

Leonardo Sakamoto
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Patentes da Gilead e (a falta de) limites da indústria farmacêutica


A voracidade da indústria farmacêutica não reconhece limites e a manutenção de monopólios ignora o impacto que essas estratégias representam na opção entre vida ou morte daqueles que precisam ter acesso a medicamentos. Estamos diante do maior imbróglio político-jurídico dos últimos tempos, com a Gilead tentando a qualquer custo manter o monopólio do fornecimento de Sofosbuvir ao SUS e impedindo a aquisição de uma versão genérica desenvolvida, estritamente dentro da legalidade, por Farmanguinhos e o Consórcio BMK, registrada na Anvisa e ofertada a um preço inferior ao que vem sendo praticado pela Gilead. Inicialmente, houve toda uma polêmica gerada pela expectativa de patente (de 126 solicitações de proteção patentária reduzidas a 13 e depois a apenas 2), que estabeleceu um monopólio de fato, não de direito, pois a patente ainda não havia sido concedida. Essa estratégia acarretou uma mobilização da sociedade civil junto ao INPI e a própria Gilead pleiteando o indeferimento das patentes, em nome do direito à saúde e na defesa dos pacientes antes das patentes.

O deferimento da patente PI 0410846-9, intermediário utilizado pela Gilead no processo de desenvolvimento e produção do Sofosbuvir, levou a uma nova onda de mobilização, gerada pelo receio de essa patente bloquear a produção pública do medicamento. Logo se verificou que a patente, ao não ser parte da rota de síntese do Sofosbuvir desenvolvido no contexto da cooperação de Farmanguinhos com o Consórcio BMK, não impediria a aquisição do produto pelo SUS. Entretanto, santa inocência pensar que a empresa norte-americana não iria utilizar todas as manobras possíveis para impedir qualquer concorrência. Inicialmente questionando que um Acordo de Cooperação Técnica havia sido transformado em PDP sem base legal, tentou impugnar as compras pelo Ministério da Saúde, semeando a discórdia, mostrando que os aspectos econômicos e o lucro representam para a indústria interesses acima dos interesses sociais. Não fosse isso suficiente, a imprensa nos mostra que, utilizando a pressão e conseguindo uma liminar, pela via judicial, paralisaram doze caminhões carregados da versão genérica e mais barata do Sofosbuvir às portas dos almoxarifados, deixando 15 mil pessoas simplesmente sem tratamento no Brasil. Pela imprensa, a Gilead se recusa a comentar o fato em mais esta etapa da queda de braço entre interesses individuais/ comerciais e os interesses coletivos/ sociais.

A alegação da Gilead, de acordo com as notícias da imprensa, foi de que o preço ofertado pela Blanver, empresa concorrente, seria "inexequível". Esqueceu a Gilead de mencionar que, logo depois de lançar o produto em escala mundial ao custo de 84 mil dólares e ser questionada pelos países centrais, sublicenciou 11 companhias farmacêuticas indianas a produzir e comercializar ao preço de 840 dólares pelo curso de 12 semanas de tratamento, mas para eles esse preço seria "exequível". Acabamos de completar 70 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos! Acabamos de ler o Relatório do Painel de Alto Nível em acesso a medicamentos do Secretário-geral das Nações Unidas.

O Conselho Nacional de Saúde, junto com a Fiocruz e outros parceiros, acaba de aprovar a Carta do Rio de Janeiro por ocasião da mobilização de mais de 700 pessoas em dez seminários regionais e o 8o Simpósio Nacional de Ciência, Tecnologia e Assistência Farmacêutica. Mas, que importa tudo isso para essa indústria que coloca o lucro acima de qualquer outro interesse? Se o governo brasileiro propõe um "crime de lesa-Patria" ao tentar empurrar o denominado Deferimento Sumário de patentes sem exame do mérito, certamente podemos afirmar que, ao colocar o interesse econômico acima da saúde das nossas populações, ao judicializar um pleito político e de interesse corporativo, na contramão das discussões.munduais, a indústria farmacêutica, neste caso a Gilead com a insistência intransigente do monopólio, está cometendo e deve ser responsabilizada pelo crime de "lesa-Humanidade"! Com a palavra, nossos juristas e a defesa da Saúde como direito de todos e dever do Estado.

Fernando Pigatto - Presidente do Conselho Nacional de Saúde.
Jorge Bermudez - Pesquisador NAF (Departamento de Políticas de Medicamentos e Assistência Farmacêutica), Escola Nacional de Saúde Pública - FIOCRUZ.
Ronald Ferreira dos Santos - Presidente da Federação Nacional dos Farmacêuticos. 

Pubicado pela Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar), em 22 de dezembro de 2018.
No CEE-FIOCRUZ
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Nossa bandeira será vermelha


Um fantasma assombra o Brasil, o fantasma da bandeira vermelha. O lema "a nossa bandeira jamais será vermelha" não esperou o sr. Jair Messias para despertar do pântano gélido dos medos da República.

Já o sr. Collor terminava seus discursos de punho cerrado garantindo que ele estava lá para que o verde, o amarelo, o azul e o branco continuassem a se inscrever nos céus da nossa pátria. Obrigado, Collor, a história lhe agradece. Como todos sabemos, foi realmente um grande trabalho.

Mas é fato que o medo da bandeira vermelha tem origens que não escondem suas verdadeiras razões. Ela remonta à Revolução Francesa ou, para ser mais exato, a uma lei de 21 de outubro de 1789 autorizando as municipalidades a hastear a bandeira vermelha para indicar que as massas deveriam se dispersar diante do que seria uma ameaça à "ordem social".

Ou seja, se a bandeira vermelha aparecesse, isso significava que as forças do governo tinham autorização para atirar contra a população, já que a denominada "ordem" estava em risco.

Não será por outra razão que rapidamente a revolução verá massas na rua retomando para si a bandeira vermelha, como se fosse o caso de mostrar ao governo onde estava a verdadeira soberania, quem era a verdadeira força soberana.

Esse gesto político maior de retirar do poder seus signos, de inverter seus significados, estará presente nas revoluções de 1830 e, principalmente, na de 1848.

Nesses casos, a bandeira vermelha aparece claramente significando a presença da força popular em sua aspiração à justiça e à igualdade transnacional.

Ela indicava não uma pátria, não uma nação, mas a existência dos que não tinham pátria nem território, porque lutavam por uma existência política por vir, existência que eles nunca tiveram, que fora continuamente sequestrada por quem realmente comandava o Estado.

Em 1848, a massa insurgente em Paris levanta a bandeira vermelha a fim de indicar que seu país ainda estava por ser construído e que se fundaria na solidariedade sem fronteiras entre aqueles que até então não tiveram nada.

As vozes da burguesia, o poeta-político Lamartine à frente, falaram de todos os medos que ouvimos até hoje: da guerra civil, do fracionamento da nação, da partidarização, do sangue e o da violência.

Enquanto essas palavras de concórdia eram ditas, a polícia matava e as prisões eram preenchidas até o teto. Como se vê, a estratégia é antiga. Foi assim que a bandeira azul-branca-vermelha da república francesa permaneceu hasteada.

Isso até 1871, à ocasião da Comuna de Paris, quando a bandeira vermelha é assumida pelos revoltosos vitoriosos e aparece, enfim, como a indicação de uma sociedade cujo poder está agora nas mãos daqueles que eram os alvos da violência do Estado, daqueles que ousaram expor seu descontentamento e revolta contra as forças da perpetuação e da conservação.

Ela fora hasteada como a representação de uma luta de gerações e, a partir de então, continuaria a ser hasteada durante todo o século 20 para indicar a perpetuação dessas lutas.

Hoje, em 2019, o medo da bandeira vermelha ainda está na pauta do dia — e isso diz muito a respeito de como o poder não aprendeu nada nesses últimos 200 anos. Não é contra o uso da bandeira vermelha feito por Estados burocráticos totalitários que ele se volta. É contra o seu significado originário e seu sinal de insubmissão.

Tanto é assim que o poder continua a fazer os mesmos discursos, a levantar os mesmos espantalhos, tal como se estivéssemos de volta ao século 19.

Essa repetição não é um acaso. Ela simplesmente indica que, apesar das diferenças evidentes de contexto e de condições, há um elemento que não cessa de não se inscrever, que não cessa de repetir, indicando a natureza falsa da vida social que impomos às classes mais vulneráveis e desfavorecidas.

Por isso, sr. Jair Messias, nossa bandeira ainda será vermelha.

Vladimir Safatle
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A pequena burguesia deu um tiro no pé!

Três notinhas publicadas pela mídia corporativa nesta semana deveriam servir de alerta à egoísta e tacanha pequena burguesia, também chamada de classe média, que é composta por microempresários, profissionais liberais, empreendedores e outros resíduos capitalistas. Trajando camisetas amarelas da CBF e carregando os patinhos da Fiesp, ela foi às ruas pelo impeachment de Dilma Rousseff, sendo usada como marionete no golpe dos corruptos que alçou ao poder a quadrilha de Michel Temer. Na sequência, manipulada pela escandalização midiática da política, ela foi decisiva para a vitória do ultradireitista Jair Bolsonaro. Aos poucos, porém, ela sente que deu um tiro no pé. O golpe e a ascensão fascista não serviram para melhorar sua vida – já que ela nunca esteve de fato preocupada com a corrupção e com o Brasil. E a tendência é da situação piorar!

Na segunda-feira (7), o novo presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, afirmou em sua posse que o programa “Minha Casa, Minha Vida”, criado pelo governo de Dilma Rousseff, sofrerá mudanças no financiamento. “Para quem é classe média, tem que pagar mais, ou vai buscar no Santander, no Bradesco e no Itaú. Na Caixa, ela vai pagar juros maior do que o do Minha Casa Minha Vida, certamente, e vai ser juros de mercado”, esbravejou o rentista. O programa habitacional, que já encolheu no covil golpista de Michel Temer, deve ser ainda mais reduzido. Adeus casa própria para a “classe mérdia”!

Já na terça-feira (8), o novo secretário especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos da Costa, informou com sarcasmo aos empresários presentes em sua posse que “tem três coisas que estão proibidas de ser discutidas [na sua pasta]. São elas: subsídios, proteção e mais gasto público”. Subalterno do rentista Paulo Guedes, ele disse que as empresas terão que sobreviver sem qualquer apoio financeiro do Estado. Na lógica capitalista, sem qualquer amparo, as pequenas e médias empresas tendem a falir e ser engolidas pelos monopólios. Adeus negócios da “classe mérdia”!

Na quarta-feira (9), o novo presidente do Sebrae-SP, Tirso Meirelles, informou que a “facada” apregoada pelo ministro Paulo Guedes nos recursos do Sistema S terá “impacto direto na sobrevivência dos pequenos negócios". Em 2018, em São Paulo, o Sebrae teve orçamento de R$ 400 milhões para a capacitação e apoio às pequenas e microempresas. O ministro da Fazenda já afirmou, de forma arrogante, que a facada será de 30% a 50%. Para Tirso Meirelles, “uma redução de 30% significaria que 300 mil empresas não seriam mais atendidas pela entidade”. Ele acrescenta:

“O Sebrae atende a um público que é um dos pilares estratégicos de desenvolvimento socioeconômico do Brasil por sua forte atuação na geração de emprego e distribuição de renda. Existem hoje 13,8 milhões de microempreendedores individuais (MEIs), micro e pequenas empresas, responsáveis por ocupação de 43,6 milhões de brasileiros e pela geração de 27% do PIB [Produto Interno Bruto]. Apesar dessa importância, sozinhos ainda enfrentam muitas dificuldades. Precisam de apoio para melhoria da gestão e da produção e de um ambiente favorável para se manter em atividade e se tornarem competitivos. A sobrevivência dos pequenos negócios está diretamente relacionada a algum tipo de tratamento diferenciado”.

Adeus ao empreendedorismo da “classe mérdia”!

Altamiro Borges
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Bolsonaro vai acabar com o aparelhamento — SQN


Carlos Victor Guerra Nagem, capitão-tenente da reserva da Marinha apontado pelo presidente Jair Bolsonaro como seu “amigo particular”, foi indicado pela direção da Petrobras para a gerência executiva de Inteligência e Segurança Corporativa da estatal.

O salário gira em torno de R$ 50 mil. Vamos acabar com o aparelhamento, talquei?


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As políticas de emprego que Bolsonaro não construirá


Há que se discutir uma política pública de emprego, mas para o governo que sucederá Bolsonaro. Não há a menor esperança que o atual governo tenha um mínimo de objetividade para temas estruturantes.

Há uma crise conjuntural na economia, e uma crise sistêmica no capitalismo, com as novas ferramentas da Indústria 4.0 – inteligência artificial, automação, impressora 3D etc.

Esses movimentos provocam terremotos no sistema produtivo, com a eliminação de empregos em muitos setores, e a criação de empregos em novos setores.

Como a mão-de-obra é uma só – corresponde à População Economicamente Ativa -, a reciclagem dos trabalhadores exige um conjunto de políticas públicas para minimizar os efeitos deletérios. E, ai, entram muitas variáveis no jogo da economia.

1. A lógica de consumo

Trata-se de um fantasma que afeta a própria natureza do capitalismo. Capitalismo depende de mercados, que dependem de consumo, que depende de empregos bem remunerados.

Um dos saltos registrados no mercado de consumo brasileiro foi decorrência direta da formalização do emprego, da implantação do MEI (Micro Empreendedor Individual) e da possibilidade de casa própria. Esses movimentos forneceram as bases para a expansão do crédito: a carteira de trabalho, o endereço e a estabilização da renda.

Em países nos quais a ciência se impõe sobre a fé, há preocupação em não permitir que a chamada indústria 4.0 comprometa o mercado de trabalho a ponto de afetar o consumo.

2. A lógica social

Em períodos de profundas mudanças econômicas e sociais, há desmanches sociais, que levam sofrimento às famílias, problemas de saúde, piora da segurança pública. No limite, essas mudanças desestruturam sistemas políticos, como sucedeu na Europa dos anos 20 e, agora, com a eclosão da ultradireita no Brasil e no mundo.

3. A lógica trabalhista

Em períodos da chamada destruição criativa – quando setores velhos são substituídos pelos novos – a transição para o novo modelo será menos traumática dependendo da força dos sindicatos.

Fernando Collor, que tinha um discurso impositivo, entendeu essa lógica quando montou as Câmaras Setoriais, juntando empresas, trabalhadores, fornecedores, em torno de um projeto de reestruturação competitiva do setor.

Mais do que antes, o momento exigiria algo do gênero. Mas como reivindicar de um governo em que a parte mais primária discute criacionismo, e a supostamente mais racional acredita em cubanização do país?

4. A reciclagem da economia

Teria que ser montado um pacto em torno de propostas factíveis, com passos racionais que permitam a reciclagem dentro de bases que não precarizem o emprego.

A Fiocruz desenvolveu o modelo das economias de bem-estar, formas de utilizar os grandes gastos públicos com saúde para o desenvolvimento da uma indústria de base, uma indústria de medicamentos, outra de equipamentos e um setor de serviços. Foi esquecido.

A indústria teria que ser foco central dessas políticas, por ser a maior multiplicadora de riqueza e emprego da economia.

Os principais instrumentos dessa reciclagem – sistema Sebrae, políticas científico-tecnológicas, Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) – estão sendo desmontados pelo fundamentalismo religioso dos Bolsonaro e pelo fundamentalismo econômico de Paulo Guedes.

Luís Nassif
No GGN
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Teses sobre a derrota do PT e da democracia

Foto: Marco Weissheimer/Sul21
1. Entre 1988 e 2016, após superar a ditadura militar, o Brasil experimenta o seu mais longo período de democracia com estabilidade política, promulga a chamada Constituição Cidadã, realiza sete eleições para a Presidência da República, conquista avanços civilizatórios com a universalização de direitos e de políticas sociais. O golpe do impeachment (sem crime de responsabilidade) contra a presidenta Dilma, cassa 54 milhões de votos e encerra o ciclo de governos do PT, conquistado em quatro vitórias eleitorais consecutivas, e joga o país em uma longa crise político-institucional. O golpe parlamentar capitaneado por PSDB/MDB, com aval do STF e cobertura da mídia, rompe o pacto democrático, manipulando hipocritamente a bandeira da corrupção contra o Partido dos Trabalhadores e derruba a experiência de governo liderada por Lula – um projeto nacional de desenvolvimento com soberania e inclusão social.

2. O interregno do governo ilegítimo e desmoralizado de Temer, seguido da eleição de Bolsonaro, o demagogo ultradireitista admirador de Trump que é motivo de espanto mundial, arrasta o Brasil para a regressiva dinâmica neocolonial da internacionalização subordinada aos EUA e para a distopia de uma sociedade neoliberal. O período é de ataque aos direitos das classes trabalhadoras, derrotas políticas e ideológicas da esquerda e reação conservadora. A própria continuidade do PT, partido reformista adaptado às regras do jogo democrático e à dinâmica eleitoral, não está garantida, tendo em vista a intenção golpista de cassar o registro da sigla. A polarização política criada pelas elites dirigentes substitui a lógica da conciliação e o respeito ao pacto democrático da Nova República, o jogo da política muda (para pior), e a esquerda está obrigada a repensar estratégias e táticas, métodos de organização e alianças, além de precisar atualizar rapidamente suas análises da realidade brasileira e mundial.

3. O golpe do impeachment, os ataques aos direitos sociais e trabalhistas, a farsa jurídica da condenação sem provas e da absurda prisão de Lula, derrotam a democracia brasileira, causam indignação nacional e perplexidade internacional. Inauguram um período politicamente traumático e abrem uma crise que será longa. O fracasso político do golpe, que não consegue destruir o PT, nem estabilizar a crise institucional, e viabilizar uma alternativa para a eleição (os golpistas foram devorados pelo processo que deflagraram), foi acompanhado pelo fracasso da economia, que após anos de sabotagem empresarial e congressual (“greve de investimentos”, pautas-bomba), não volta a crescer, como profetizavam os defensores do mercado, com desemprego alto, renda dos trabalhadores em queda e agravamento da crise fiscal. A eleição sem Lula, que venceria no primeiro turno (segundo as pesquisas) e seria capaz de exorcizar o fenômeno Bolsonaro, sepulta a legitimidade do sistema político. O retorno do protagonismo dos militares, a massiva votação obtida por uma figura grotesca como a do capitão-mor (a resposta assustadora de uma sociedade assustada), que consegue capturar o eleitorado centrista e conservador (e no segundo turno, inclusive do lulismo), e os ataques reacionários aos marcos civilizatórios, são consequência da crise que está destruindo o país, marcada pela perseguição implacável de Lula e do PT.

4. Com a adesão da grande mídia e do mercado, igrejas evangélicas pentecostais e neopentecostais, forças armadas e policiais, classes médias e elites capitalistas, a campanha digital de Bolsonaro (massiva, ilegal e clandestina), mas extremamente eficaz, também foi beneficiada pela cobertura massiva de TV após o atentado à faca. Para a burguesia brasileira era inaceitável Lula e o PT conquistarem a quinta vitória eleitoral consecutiva, preferiram rifar a velha direita e desmoralizar o país internacionalmente, aderindo à aventura da nova direita bolsonarista, do que repactuar o regime democrático com as forças progressistas. Não foi a primeira vez que as elites brasileiras seguiram pelo caminho do golpe e do autoritarismo. Na eleição crítica e disruptiva de 2018, que explodiu o sistema político da Nova República, a vitória de um demagogo extremista só foi possível a partir da completa desmoralização da política tradicional e da cassação da candidatura de Lula. Bolsonaro foi capaz de derrotar o PT porque, além do amplo apoio social e econômico que recebeu, conseguiu esconder seu programa antipopular da sociedade e era o único candidato que representava a antipolítica (sua candidatura conseguiu canalizar parte da repulsa ao corrupto sistema político-partidário) e o antipetismo. Tragicamente, para a democracia e para a esquerda, é preciso reconhecer que a campanha de Bolsonaro apareceu no imaginário popular como a mudança.

5. A força popular de Lula e a estratégia petista levaram Haddad ao segundo turno com 30% dos votos; a adesão do eleitorado democrático e antifascista, mobilizou 47 milhões de votos no embate de 28 de outubro. Foi uma grande demonstração de resiliência do PT conseguir sobreviver ao duplo impacto do antipetismo e da antipolítica, conquistando quatro governos no Nordeste e a maior bancada eleita na Câmara de Deputados, além de posição destacada nas Assembleias estaduais. Diante da falência do centro democrático, coube às forças de esquerda sustentarem a candidatura Haddad no segundo turno, última barreira democrática à regressão civilizatória. No ato épico de São Bernardo, antes da prisão, Lula lançou as bases de uma frente de esquerda. O bloqueio jurídico do TSE e do STF à sua candidatura (afrontando a ONU), levou a chapa HaddadManuela a representar o campo democrático e popular contra a aliança do capital e da extrema-direita.

O paradoxal sistema político brasileiro voou pelos ares: combinava concentração de poder com fragmentação partidária, em que poucas forças políticas detinham a maioria dos governos estaduais, do Congresso, das Assembleias Legislativas, das prefeituras e das Câmaras Municipais. Mesmo as sucessivas reformas eleitorais aprovadas pelo Congresso não impediram o tsunami que atingiu o sistema político (represado desde as jornadas de 2013), levando à reconfiguração partidária do centro e da direita, com a redução do MDB e do PSDB à condição de partidos médios, crescimento vertiginoso do PSL e fortalecimento das bancadas da bala, do boi e da Bíblia. Para a esquerda e o progressismo, a eleição de 2018 abre uma conjuntura difícil. No início da nova legislatura, a maioria conservadora deve alterar o regimento interno com o objetivo de reduzir os direitos da minoria parlamentar oposicionista no Congresso. PT, PCdoB, PSOL, PDT e PSB elegeram 393 mandatos de governadores, senadores, deputados federais e estaduais (em 2010, no auge do ciclo de governo lulista, haviam conquistado 527). Portanto, devem reforçar a unidade do campo progressista para enfrentar o governo autoritário e a maioria conservadora no Congresso, sem exclusões e sem subordinar a frente democrática à lógica de candidaturas presidenciais personalistas.

6. Após um longo período de defensiva política e derrotas, o PT precisa realizar um balanço autocrítico e definir, junto com as forças de esquerda, a estratégia de oposição ao governo reacionário e sua agenda entreguista e ultraliberal. Porém, partindo da compreensão de que não será possível retomar a luta pela hegemonia como nos moldes anteriores, em razão da correlação de forças negativa na sociedade, e porque os poderes de Estado e do capital interditaram o PT como alternativa de governo. Com a ultradireita na presidência e maioria conservadora no Congresso, defender os direitos civis e trabalhistas e a democracia, será o horizonte institucional da esquerda e dos setores progressistas. Portanto, articular a frente ampla de oposição na sociedade e nos parlamentos, será fundamental. Para o PT e a esquerda socialista, será vital buscar a unificação política – a unidade como estratégia de resistência e base para o relançamento do novo ciclo – reformulando ideias e táticas políticas, participando da reorganização do mundo do trabalho e das lutas do povo junto com os movimentos sociais. Será necessário rever a estratégia política de conciliação, estabelecendo uma pauta clara que rompa com o domínio das forças reacionárias sobre as instituições, visando aumentar a presença e a participação popular nas decisões políticas.

7. A tremenda derrota política da democracia e do PT, acumulada desde o golpe de 2016 até às eleições de 2018, reconfigura a realidade da luta de classes no país e delimita o arco de possibilidades para relançar um novo ciclo da esquerda. O período impõe uma dinâmica frentista, a reinvenção das formas de luta e de organização dos sindicatos e dos movimentos sociais, e uma reformulação estratégica do PT como partido de esquerda e de massas. Sobre a renovação do partido, algumas questões centrais precisam ser enfrentadas: a) o lulismo e o petismo são muito maiores que o PT, portanto, não cabem na lógica burocrática da atual estrutura partidária; b) o antipetismo, tendo como base a histérica criminalização do partido, tomou uma dimensão social e simbólica que precisa ser compreendida e enfrentada; c) sem a reorganização política do PT, será inviável a reconstrução de uma alternativa popular de esquerda capaz de organizar e hegemonizar a (nova) classe trabalhadora brasileira; d) o período aberto pela Constituinte de 1988 e pela redemocratização do país, que permitiu a vitória petista e o ciclo de governo do lulismo, está encerrado (o maior líder popular e mais prestigiado presidente da história, é um preso político); e) durante 13 anos na presidência da República, o PT pareceu ignorar o papel de classe do Estado, atuando como se fosse um instrumento neutro e a distinção básica entre governo e poder (erros que custaram muito caro).

8. O PT e as forças populares sofreram uma derrota de grandes proporções, mas continuam representando a luta pela igualdade, a justiça social, a democracia e o lado certo da história. Precisam perceber a emergência do novo (ele sempre vem, mas nem sempre é bom), reorganizar sua implantação social e as estratégias adequadas à mudança brutal da situação política. É verdade que a reorganização estratégica do PT enfrenta algum ceticismo sobre a efetiva possibilidade de desburocratizar e renovar o partido (e superar o estigma da corrupção). A respeito desse tema, recentemente, na reunião do Diretório Nacional, o chamado campo majoritário deu mais uma demonstração que vem reforçar esse ceticismo, atropelando o método democrático e pluralista de construção coletiva das resoluções partidárias, apenas um mês após a derrota mais difícil de nossa história. Por outro lado, até o centenário Partido Trabalhista britânico, após décadas de adaptação ao neoliberalismo e a aventuras imperialistas, foi resgatado para a esquerda com o ingresso em massa da militância do movimento Momentum e pela liderança de Jeremy Corbyn. Esse exemplo mostra que máquinas burocráticas podem ser transformadas por movimentos políticos vigorosos, atuando a partir de fora e de dentro da estrutura partidária institucionalizada.

9. A resistência social e a oposição política ao projeto regressivo e autoritário que saiu das urnas será ampla, diversificada e pluriclassista: moderada, por parte da mídia e do acuado centro democrático; institucional, por parte do progressismo; radical, nas ruas e nas trincheiras da sociedade civil organizada, impulsionada por uma militância social jovem e feminista, em grande parte sem referência partidária, e os movimentos populares. Cabe à esquerda socialista, principalmente ao PT, ao PCdoB, ao PSOL, impulsionar a estratégia frentista de oposição democrática à destruição do país em curso desde o golpe. O novo contexto da luta de classes demanda da esquerda brasileira a formação de uma Frente Ampla que não se reduza ao somatório das burocracias dos partidos e dos movimentos sociais tradicionais. O desafio é construir a Frente sem prejudicar a autonomia e a organização partidária da esquerda, mas também sem comprometer a dinâmica política frentista com as limitações específicas e estruturais dos partidos.

É preciso deflagrar o processo constituinte da Frente Ampla, elegendo de forma legítima e democrática a modelagem mais inovadora possível e o seu centro político de direção, com lideranças partidárias e não partidárias, reconhecidas pela militância dos partidos e dos movimentos sociais. Essa seria a forma de constituir a Frente sem desarticular os partidos existentes, mas sem atrelar a sua construção às burocracias partidárias, que seguem (como sabemos) ancoradas na institucionalidade e na lógica eleitoral. Precisamos de uma Frente com instâncias de base abertas à participação da militância política e social das mais diversas matizes políticas e ideológicas de esquerda, com um funcionamento horizontal, em rede e que tenham poder efetivo na definição das posições políticas frentistas. Somente as esquerdas podem salvar a democracia.

10.O PT precisa mudar muito para ser capaz de seguir sendo a referência política de amplos setores das classes trabalhadoras a partir da derrota eleitoral de 2018, e sem contar com a liderança efetiva de Lula no dia a dia das lutas, mas também para dar início a um novo ciclo da esquerda socialista. Desde o golpe de 2016, por exemplo, a maioria do PSOL reorientou a sua linha política, se somando à luta democrática e superando (em grande medida) o seu sectarismo antipetista. A campanha de Boulos, com um posicionamento firme à esquerda e sempre solidário à Lula, foi uma demonstração de abertura dessa força partidária socialista para construir outro patamar de relação política no campo da esquerda. O PCdoB, que através da fusão com o nacionalismo de esquerda do PPL, parece ter superado a barreira eleitoral da cláusula de desempenho, mais uma vez esteve junto com Lula e com o PT na disputa nacional, indicando a companheira Manuela para compor a chapa majoritária com Haddad, uma mulher jovem e combativa que desponta como liderança nacional, com raro talento político e capacidade de comunicação, capaz de representar e defender as bandeiras feministas e da juventude com criatividade (elemento essencial numa cultura política de esquerda).

Para o Partido dos Trabalhadores, entre a hegemonia perdida e a ameaça de extinção, será preciso enfrentar a travessia do deserto da resistência com a necessidade vital de repensar a própria práxis política. O Diretório Nacional deve convocar imediatamente o Sétimo Congresso do PT, que apresenta a dramaticidade dos grandes desafios: realizar um balanço profundo e autocrítico da trajetória do partido (na oposição e no governo), que sintetize as diversas visões existentes internamente; democratizar de maneira real e concreta a vida partidária, tornando-a adequada a um partido de massas, militante e popular, que seja capaz de acolher e integrar, de fato e de direito, a militância petista ampla, e orientar a ação política coletiva; reorganizar a estratégia de luta pela hegemonia na sociedade e para a conquista das maiorias nacionais, tarefa incontornável para uma esquerda democrática, humanista e transformadora, comprometida com a construção de um projeto de futuro para o país, conectado com o internacionalismo dos povos, a justiça global e a sustentabilidade ambiental.

Eduardo Mancuso, Historiador
No Sul21
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