7 de jan. de 2019

A lei sou eu, disse então o fundamentalista religioso...


Bolsonaro e Sérgio Moro sancionaram sua primeira Lei (texto abaixo). Ela garante ao aluno, mediante requerimento prévio motivado, o direito de faltar às atividades escolares por razões religiosas. 


O texto dessa Lei criou um direito cujo exercício depende exclusivamente da declaração unilateral do interessado. Sendo assim, qualquer pessoa pode se declarar judeu num mês e católico, islâmico, espírita, budista e macumbeiros nos meses seguintes. Ninguém é obrigado a conservar a própria fé e, em razão dessa curiosa Lei a consciência religiosa do interessado pode ser ajustada às suas necessidades de faltar às aulas ou às provas.

Outro aspecto curioso da Lei em questão é que nenhuma penalidade foi instituída para o caso de o requerente emitir uma declaração falsa. Suponha que o aluno seja judeu, mas no dia que ele pretende faltar só existe uma comemoração católica. Em razão do texto da Lei, ele pode perfeitamente se declarar católico. E ninguém poderá exigir que ele exiba a circuncisão para provar que é judeu ou puni-lo porque ele trocou de fé apenas por um dia.

Um terceiro problema ainda mais delicado merece atenção. Suponhamos que a instituição indefira o requerimento do interessado alegando que a declaração é falsa (o interessado se declarou judeu quando da matrícula e requereu o direito de faltar no dia de uma celebração budista, por exemplo). O prejudicado poderá recorrer ao Judiciário (art. 5º, XXXV, da CF/88). Como o judiciário vai resolver a pendência?

A mudança de orientação religiosa é garantida pelo princípio da liberdade de consciência e de crença. Portanto, ninguém pode ser obrigado a permanecer numa religião. Em razão da ausência de sanção legal contra o abuso, o Judiciário não poderia considerar inadequada a mudança de religião por algum tempo ou, mesmo, por um dia. E neste caso, além de ganhar na Justiça o direito que lhe foi negado pela Escola o interessado poderia exigir indenização por danos morais escudando-se apenas e tão somente na declaração unilateral que ele emitiu e que foi rejeitada pela direção a instituição.

Além das faltas justificadas que foram discriminadas de maneira taxativa no art. 473, da CLT, o empregado somente pode faltar ao trabalho nos dias considerados feriados por Leis Federais, Estaduais ou Municipais. Ninguém pode, por exemplo, deixar de ir trabalhar porque pretende comemorar o Chanucá ou o Dia de Tupã. Entretanto, se requerer à Escola o direito de faltar naquele dia ele poderá ser dispensado das obrigações escolares apesar de ter que cumprir suas obrigações profissionais.

O mesmo raciocínio empregado para dispensá-lo das atividades escolares não é empregado para desobriga-lo das atividades profissionais. Como reparar essa injustiça? Uma das maneiras seria forçar a Justiça do Trabalho a decidir a questão. Mas se os juízes do trabalho atenderem o requerimento do trabalhador neste caso ocorreria o mesmo problema da proliferação de abusos, pois ficaria a cargo de cada um escolher quando faltar e quando ir ao trabalho.

No mundo antigo, toda vida social era regulada pela religião. A distinção entre política, guerra, atividade comercial e culto religioso era tênue ou simplesmente não existia. Em Esparta, por exemplo, em duas oportunidades os Éforos impediram a convocação do exército para combater os persas alegando que o festival da Carnéia era mais importante https://es.wikipedia.org/wiki/Carneas.

Durante a transição da antiguidade para a Idade Média os ritos antigos foram abolidos ou substituídos por adaptações cristãs. O predomínio da crença no espaço público, entretanto, continuou a ser uma realidade. Isso só deixou de existir quando a Idade Média chegou ao fim.

Ao que tudo indica em 2019 mergulhamos novamente nas trevas. A Lei 13.796/2019, que sancionada pela dupla Bolsonaro/Moro, abre caminho para todo tipo de abuso unilateral por razões religiosas. Não só isso, em algum momento a nova orientação começará a reverberar na Justiça do Trabalho e a dar prejuízo para os próprios empresários que colocaram um palhaço na presidência e um pseudo-jurista no Ministério da Justiça.

Todos nós sabemos quais são os dias considerados comemorativos pelos católicos e judeus. Mas ninguém pode dizer aos pastores quando eles irão realizar suas “fogueiras sagradas”, “exorcismos coletivos”, “benção de vassouras”, “venda de sabão em pó ungido” etc... Sendo assim, a Lei Bolsonaro pode se tornar uma nova fonte de renda para os pastores evangélicos. No princípio, apenas os próprios evangélicos obterão atestados para instruir requerimentos feitos com base na Lei. Mas não vai demorar muito para esses atestados começarem a ser vendidos ou falsificados pelos próprios pastores. Com o tempo, apenas eles irão dizer quando o suposto fiel irá trabalhar ou frequentar a escola. Qual será a punição imposta aos abusos que eles cometerem? Nenhuma. 

Fábio de Oliveira Ribeiro
No GGN
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Diagnóstico errado domina a imprensa do neoliberalismo


O economista Márcio Pochmann afirmou que o "diagnóstico errado domina a imprensa do neoliberalismo". "Só fazer as reformas, que a economia volta a crescer sustentadamente. Ledo engano, pois o sentido das reformas que vêm sendo realizadas desde Temer, aponta para o esvaziamento do mercado interno. Sem demanda, não há retomada", disse.

"No país onde bancos privados emprestam praticamente no curto prazo e em operações de tesouraria com títulos públicos, o BNDES anuncia devolver + recursos para o governo Bolsonaro, indicando crédito morno para retomar a economia e ilusão a proposta de pacto para destravar negócios", afirma.

De acordo com o estudioso, a "burocracia federal está distante ainda da descrita por M. Weber, porém a sua destruição como aponta o governo Bolsonaro leva rapidamente ao desgoverno, quando não à própria ingovernabilidade". "Estaria isso no radar a justificar especie de golpe imperial, de pleno poder ao chefe?", questionou.

"Como a meritocracia, a medida do neoliberalismo, explicaria? Racismo, a base estrutural da desigualdade, que governo Bolsonaro faz desconhecer", acrescentou





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Ciro Gomes reaparece e mostra que é ainda menor do que se imaginava


Dizem que o tempo cura o rancor. Para alguns, porém, esse triste sentimento parece ser indestrutível.

Ciro Gomes voltou a aparecer. Após um atraso secular a respeito do caso Queiroz, agora concede entrevista ao jornal El País.

Mais do mesmo, a única novidade é que se porta como um político ainda menor do que se imaginava.

Transbordando ódio contra o PT e condescendência ao governo Bolsonaro, dá sinais de que perde o foco da realidade ao querer tornar crível a esparrela da direita brasileira de que todo o mal no Brasil passa pelo Partido dos Trabalhadores e, sobretudo, puxar para si uma responsabilidade da qual o povo brasileiro jamais lhe outorgou.

De um lado, considera que o Messias tem força para construir um pacto de governabilidade e que todos nós precisamos ter a “sensibilidade” para ajudá-lo.

Quase servil, se abstém de fazer qualquer crítica ao governo dando pelo menos 100 dias para deixar “Bolsonaro tomar pé das coisas”. A partir daí, diz, começará a cobrar. De que forma e sobre quais pautas, prefere manter segredo.

É a partir dessa centena de dias que invocará “o papel que a nação deu a mim”. O papel da oposição, explica ele.

Quando a nação resolveu dar o papel de principal articulador da oposição ao governo Bolsonaro ao cidadão que passou longe de chegar sequer ao segundo turno das eleições é uma questão insondável para o nobre cavaleiro.

De qualquer forma, é assim que Ciro enxerga a sua atual posição na política brasileira.

Do outro lado, põe lenha na fogueira que aquece as suas frustrações.

Volta a criticar a “burocracia do PT”, Lula (a quem considera um preso comum e não um preso político) e a sua oferta para que fizesse parte da chapa. Um insulto, segundo ele.

Milimetricamente alinhado com os comentaristas da grande mídia antipetista, chamou de “atitude infantil, antidemocrática e burra” o fato do PT não ter participado da cerimônia de posse do presidente eleito.

Atitude infantil, antidemocrática e burra somente do PT, pelo visto, já que não mencionou absolutamente nada sobre o PSOL e o PCdoB que tiveram o mesmo posicionamento.

Ainda se autodeterminou como “a via” e como o “pós PT”, alguém, na sua definição, que “tem coragem de encará-los”. Um devaneio bravateiro de proporções faraônicas.

Tudo já seria um grande absurdo se no auge de sua retórica controversa não chegasse à “brilhante” conclusão que PT e Bolsonaro, na prática, se amam.

O homem é um fenômeno, realmente.

Ciro Gomes, devo reconhecer, possui a inacreditável capacidade de surpreender negativamente até àqueles que nada esperam dele. Quando imaginei que chamar um intelectual da envergadura e importância para o Brasil como Leonardo Boff de “bosta” fosse o seu fundo do poço, eis que o alçapão sempre surge.

Seu dom de se diminuir a cada entrevista que concede ainda vai alcançar patamares subatômicos, ou, em outras palavras, bolsonarianos.

Carlos Fernandes
No DCM
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Ideologia, eu quero uma pra viver


Virou moda, já há algum tempo, dizer que os problemas do Brasil decorrem da "ideologização" promovida por governos petistas. O flagrante mais recente saiu da boca de Onix Lorenzoni, cliente cativo de caixa dois, parlamentar medíocre que assumiu a Casa Civil. "Vamos despetizar a administração", bradou ao anunciar a demissão em massa de servidores comissionados. Nem se deu conta do ridículo, pois desde o golpe de 2016 o PT foi apeado do poder.

Lorenzoni chegou ao ponto mais alto, e também mais grotesco, do bla-bla-bla que a direita e a extrema-direita vêm plantando ao longo dos anos. Economistas a soldo de consultorias abutres martelam dia após dia que as contas não fecham, que sem o tal ajuste fiscal o país vai ao precipício, que a reforma da previdência (ou o fim da aposentadoria, vamos combinar) é o elixir capaz de curar todos os males. Acusam a oposição de ignorar números para defender ideias populistas.

Pera aí. A troco de que estes "especialistas" cerram fileiras para sustentar o corte agressivo nos benefícios sociais, a liquidação de direitos trabalhistas e a eliminação de fato de aposentadorias dignas? De uma ideologia, veja só. Na cabeça desta gente, o correto é que a riqueza seja concentrada com base na "meritocracia", que o mercado controlado por meia dúzia de especuladores comande os destinos da economia e que os sobrenomes, a cor da pele e o obscurantismo teológico se sobreponham aos interesses sociais.

Os números, por mais frios que pareçam, podem ser usados ao gosto do freguês. Ideologicamente. Suponha que exista um buraco nas contas do governo. Como resolver? Os ideólogos da extrema-direita, ora no poder, acham que a saída é passar a faca nos direitos da maioria do povo trabalhador. Não apenas: trata-se de leiloar o patrimônio nacional a preço de banana para equilibrar o livro-caixa. De brinde, o comprador ganha um crucifixo.

Já do outro lado as propostas são outras. Por que não taxar os bilionários que vivem à custa do suor do povo, enriquecem com a especulação, engordam suas contas bancárias sem nunca ter produzido um parafuso? Por que não cobrar os grandes devedores do campo e da cidade que, em vez de pagar seus papagaios, são presenteados com Refis e anistias sucessivos enquanto um trabalhador comum vive atormentado pelo medo entrar na lista do Serasa?

A diferença é ideológica, isto sim. O tamanho do bolo é o mesmo. A questão é como reparti-lo. O governo da "famiglia" Bolsonaro veio ao palco para defender uma ideologia que privilegia os ricos por herança, oportunismo ou sobrenome e pretende impor como verdade absoluta valores anteriores à Revolução Francesa. Nada de igualdade, liberdade, fraternidade. E muito de tradição, família e propriedade. Esta é a luta que está em curso. Cazuza tinha razão.

Ricardo Melo é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia
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Bolsonaro se arrepende e quer médicos cubanos no Brasil

Depois de sucessivos ataques aos milhares de profissionais e baixa adesão de brasileiros, Mais Médicos tem apenas 30% das vagas preenchidas


Depois de criticar publicamente repetidas vezes a participação dos médicos cubanos no Mais Médicos, programa criado pela ex-presidenta Dilma Rousseff, Bolsonaro recua e quer os profissionais de volta. Em mais um capítulo de suas idas e vindas, que mostra o despreparo e falta de conhecimento das políticas públicas brasileiras, Jair vai buscar os cubanos que ainda ficaram no Brasil e tenta reintegra-los, segundo noticiou a coluna Painel da Folha de S. Paulo desta segunda-feira (7).

A tática de colocar as raposas para tomar conta do galinheiro parece ser uma constante no governo Bolsonaro. Na saúde a lógica perversa se mantém. A pasta foi assumida por Luiz Henrique Mandetta (DEM), investigado por fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois e ele conta com o apoio, na chefia do programa Mais Médicos de Mayra Pinheiro, uma declarada inimiga dos médicos cubanos.

Em 2013, na implementação do programa, Mayra participou de protesto na Escola de Saúde Pública do Ceará. Na ocasião, médicos brasileiros receberam os colegas de profissão cubanos com chamando-os de “escravos”.

Sobre o Mais Médicos, programa bastante atacado por Bolsonaro e seus asseclas, parece que há uma contradição recente no discurso, o que também não é nenhuma novidade na atual gestão do País. Com a baixa adesão dos profissionais brasileiros na área da saúde, os cubanos, que eram chamados de “despreparados” e “açougueiros”, agora são chamados de “irmãos”.

“A arrogância e o despreparo do discurso de que o Brasil não precisava de médicos cubanos tem prazo de validade vencida no governo Bolsonaro. Não durou uma semana”, afirma o deputado federal, médico e ex-ministro da saúde e criador do Mais Médicos Alexandre Padilha.

30% “menos médicos”

O ataque aos médicos cubanos causou um buraco na saúde pública, principalmente nas cidades do interior do Brasil. Cerca de 30% das vagas para médicos no programa não foram preenchidas e em Estados como Roraima, por exemplo, das 72 vagas apenas três havia sido ocupadas até início de dezembro passado. Padilha complementa. “quem mais sofre com a postura absurda contra o Mais Médicos e o discurso contra o SUS é o povo brasileiro. Eu não quero que a maioria da população tenha que pagar pelo discurso do Bolsonaro.”

Depois da lambança, Mayra Pinheiro, a mesma que protestou contra os médicos cubanos, agora tenta um novo Revalida (Sistema de Revalidação de Diplomas Médicos) aos profissionais da saúde que ficaram no Brasil. “Esse discurso é bastante controverso, porque se validar o diploma os médicos vão poder atuar em qualquer lugar: no setor privado, nos grandes centros da medicina privada e não nas áreas mais vulneráveis”, acrescenta Padilha.

O recado passado pelos responsáveis pela saúde pública no governo Bolsonaro é bem nítido e ele não se preocupa com o povo. “Cada vez mais se mostra que a preocupação maior do Bolsonaro é fazer uma luta política e ideológica com Cuba e zero preocupação com o povo brasileiro que precisa desses médicos e dessas médicas”, finaliza Padilha.

No Agência PT de Notícias
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Ilegalmente Bolsonaro faz promoção pessoal em TV estatal


Especialistas afirmam que a legislação e a própria Constituição Federal proíbem o uso de símbolos e nomes pessoais em aparelhos públicos

O presidente Jair Bolsonaro pode ter cometido uma ilegalidade, nesta segunda-feira (7), ao utilizar a marca Governo Bolsonaro durante a transmissão da TV NBR na cerimônia de posse dos presidentes dos bancos públicos. Segundo especialistas, a ação configura promoção pessoal, o que é proibido por lei.

De acordo com o primeiro parágrafo do artigo 37 da Constituição Federal, na publicidade dos atos ou campanhas do governo não pode constar "nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos". 

Para a coordenadora do Intervozes, Marina Pita, a transmissão feita pela NBR fere a Constituição, abrindo a possibilidade de Bolsonaro ser processado. "Entendo que é promoção de governante e não de governo, então é pessoal", diz ela à RBA.

Maria Mello, integrante do Comitê do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação do Distrito Federal (FNDC), a Lei 9.784/99, assinada por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), consolida o dispositivo constitucional que veda o uso de comunicação governamental para fins de publicidade pessoal.

Segundo o inciso III do artigo 2º, é garantida a objetividade no atendimento do interesse público, vedando a promoção pessoal de agentes ou autoridades.

O Decreto 6.555, de 2008, assinado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também reforça as diretrizes do canal estatal e a proibição da autopromoção. O inciso sete do artigo 2º estabelece a "vedação do uso de nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos".

Diferentemente de outras emissoras públicas, a NBR é estatal e tem como objetivo "informar e dar transparência às ações do Poder Executivo Federal". Em seu site, se descreve como uma emissora "do Governo Federal, vinculada à Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República".

O ex-prefeito de São Paulo e agora governador paulista, João Doria (PSDB), foi condenado em 2018 por improbidade administrativa, ao utilizar o símbolo "SP Cidade Linda" em ações daprrefeitura. Para o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), o tucano usou o símbolo em ações da administração municipal para se promover.

Felipe Mascari
No RBA
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E a história se repete...


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Não é populismo, é fascismo

Foto: Lula Marques
É surpreendente que sociedades carregadas de injustiças e desigualdades, polarizadas em guetos, se tornem perigosas? Sociedades onde uma ínfima minoria é muita rica e manipula todos os poderes, uma grande parte é extremamente pobre e não tem voz, e no meio fica um enorme massa de seres humanos a deslizar para o lado da privação e da desesperança são sociedades em perigo. Neste contexto, será surpresa surgirem messias providenciais que, prometendo autoridade e segurança, encontram um público disponível para os apoiar e até para lhes propiciar vitórias eleitorais? Não, não é. Está a acontecer hoje o que já aconteceu no passado.

Não é preciso recorrer a eufemismos para designar este tipo de processos políticos. Anda meio mundo a falar do fenômeno do populismo e dos seus perigos, quando o que está na nossa frente são mesmo expressões do fascismo. A diferença na sua manifestação decorre das novas condições das sociedades, das formas de relacionamento, de comunicar, de agir que, aliás, até lhe potenciam camuflagens.

Deparamo-nos com expressões de fascismo como ele sempre foi. O que melhor o carateriza é velho: criminalização de opiniões críticas; opressão de classe; sobre-exploração do trabalho; submissão das mulheres; discriminação de minorias; afirmação do racismo e da xenofobia; ataque à cultura e a uma educação plural; desacreditação de livres representações coletivas que expressam os diversos interesses da sociedade; promoção de animosidades e ódios para abrir campo a um unanimismo ditatorial a que toda a estrutura e organização do Estado se devem submeter, porque pretensamente interpreta o interesse nacional; instrumentalização dos tribunais e dos sistemas de justiça; e, progressivamente, descaraterização e suspensão dos mecanismos democráticos de eleição e representação.

Nas últimas décadas têm-se vindo a gerar e a naturalizar instabilidades, precariedades e inseguranças em vez de se lhes dar combate e de assegurar o seu controlo. Até a maior parte das abordagens sobre os avanços científicos e tecnológicos é apresentada quase só nas variáveis que sustentam visões apocalíticas do futuro, exatamente para submeter os seres humanos. Ampliaram-se as disfunções e roturas nas relações entre as pessoas, as gerações, as comunidades e os povos. As apropriações indevidas da riqueza e a maior expressão do roubo a que hoje assistimos tornaram-se “legais”.

A impotência perante as injustiças revolta as pessoas e atira-as para reações primárias que se tornam alimento do fascismo. Não é essa massa de indivíduos que é fascista ou vê o fascismo como solução. O que se passa é que a falta de segurança numa imensidão de situações – desde as precariedades no trabalho à insegurança pública – gera medos que isolam e acantonam as pessoas, diminuindo-lhes os ângulos de visão e de apreciação objetiva sobre o que se passa na sociedade. Qualquer cidadão, por mais esclarecido que possa ser, já experimentou esses sentimentos e bloqueios.

Temos hoje na Europa e noutros continentes dinâmicas fascistas e uma enorme condescendência perante o seu desenvolvimento. Muita boa gente atribui aos fascistas o “direito democrático” de livremente se explicarem, exprimirem e propagandearem, como se a democracia pudesse suportar tudo.

Em poucos dias, o novo presidente do Brasil e a sua equipe mostram-nos como é perigosa essa “tolerância”. O que eles expressam não são meros tiques de autoritarismo ou excessos conservadores, é sim um programa fascista que estilhaça o quadro de valores e de simbologias que o Brasil conquistou e ofereceu ao Mundo após a ditadura, é a pretensão de proibir a livre expressão de ideias a que chamam “ideologia”, de cilindrar os direitos dos trabalhadores e o próprio direito do trabalho, de pôr polícias a atirar para matar, supostamente bandidos, na prática tudo o que mexa em contracorrente.

Demorará algum tempo até que a maioria do povo brasileiro se dê conta da verdadeira natureza do bicho. Esperemos que não seja, desta vez, o tempo de toda uma geração, como aconteceu no passado.

Temos a responsabilidade de agir para evitar que a besta se instale no Brasil, no nosso país ou em qualquer outro.

Manuel Carvalho da Silva, Pesquisador português e professor universitário. Artigo publicado originalmente no Jornal de Notícias, de Portugal.
No Sul21
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Guantánamo do Sul


Os EUA têm cerca de 800 instalações militares espalhadas pelo mundo, desde grandes bases que são verdadeiras cidades até postos de radar e de telecomunicações. Gastam ao redor de US$ 100 bilhões por ano para mantê-las.

Os EUA são, de longe, o país que têm mais bases espalhadas pelo mundo. Só para se ter uma ideia, França, Grã-Bretanha e Rússia têm, combinadas, apenas 30 bases. Apenas na Alemanha, os EUA têm 34 bases, instaladas na época da Guerra Fria. Na América Latina, os EUA possuem 76 instalações, a maioria concentrada na América Central e no Caribe.

Na América do Sul, os EUA têm nove instalações na Colômbia e oito no Peru. Há também bases e instalações no Equador (Manta) e Argentina (Neuquén - anunciada no ano passado), além do Chile e Paraguai.

Porém, os EUA têm escassez de bases no Atlântico Sul. Deve-se lembrar que, logo após a descoberta do pré-sal, os EUA, por coincidência ou não, resolveram reativar a sua Quarta Frota, sem consultar os governos da região, a qual tem cenário de atuação no Atlântico Sul.

Pois bem, em maio de 2018, o Comando Sul dos EUA, ao qual a Quarta Frota está subordinada, divulgou a sua estratégia para a América Latina e Caribe.

Entre as “ameaças” detectadas pelo Comando Sul, estão, além das tradicionais relativas a “tráfico de drogas”, “imigração ilegal”, “crime organizado”, etc., a crescente presença da China e da Rússia em nossa região e “governos hostis” como os da Venezuela, Cuba e Bolívia.

A grande disputa de poder entre os EUA e aliados, de um lado, e China, Rússia, BRICS e seus aliados, de outro, passou a ser o eixo estratégico da política de defesa norte-americana e substituiu o combate ao terrorismo como a principal preocupação de segurança do grande irmão do Norte.

Assim, a nossa região passou a ser um dos palcos importantes dessa luta mundial pelo poder, que inclui, obviamente, a disputa por recursos estratégicos.

Essa importância da América Latina na luta mundial pelo poder resulta do fato de que os EUA tradicionalmente veem, desde a doutrina Monroe, a nossa região como uma espécie de “quintal”, uma zona de influência exclusiva de interesses norte-americanos.

O Almirante Kurtis Tidd, chefe do Comando Sul, afirmou ao Congresso dos EUA, em fevereiro de 2018, que, dada à “proximidade geográfica”, não havia outra região do mundo que afetasse mais a “vida cotidiana” dos norte-americanos que a América Latina e o Caribe.

Há, portanto, um ressurgimento da Doutrina Monroe e uma grande ofensiva estratégica norte-americana na América Latina, particularmente na América do Sul, a qual visa contrapor-se à influência de China e Rússia na região e desestabilizar “regimes hostis”, como o da Venezuela, de Cuba, da Bolívia, etc.

O general Joseph P. DiSalvo, segunda autoridade no Comando Sul, já fala em transformar o Plano Colômbia, que colocou aquele país na orbita estratégica do EUA, num “Plano América do Sul”, que visaria submeter toda a região aos desígnios estratégicos norte-americanos.

É justamente nesse contexto que o governo Bolsonaro fez a oferta de disponibilizar uma base militar aos EUA, prontamente aceita pelos norte-americanos.

Na realidade, não foi uma iniciativa brasileira. Só um total beócio acreditaria nisso. O governo Bolsonaro simplesmente cedeu, de bom grado, é claro, a um desejo antigo do EUA, exacerbado pela nova necessidade estratégica de disputar o poder mundial numa região tradicionalmente sob sua influência exclusiva.

Embora tenham ocorrido reações negativas no meio militar a tal ideia, é preciso levar em consideração que, desde o golpe de 2016, ocorreu mudança significativa na política de defesa brasileira.

Tal mudança refletiu-se em iniciativas polêmicas.

O convite para que os EUA participassem de exercício conjuntos na Amazônia foi uma delas. Tratou-se de uma decisão inédita na história militar recente do Brasil, que causou muita estranheza. Com efeito, esse convite a uma superpotência estrangeira, que não faz parte da Bacia Hidrográfica da Amazônia, representou um “ponto fora da curva”, na tradição de afirmação da soberania nacional numa região estratégica para o país.

No mesmo diapasão, o Ministério da Defesa do Brasil e o Departamento de Defesa dos EUA assinaram, em 2016, o Convênio para Intercâmbio de Informações em Pesquisa e Desenvolvimento, ou MIEA (Master Information Exchange Agreement), na sigla em inglês. Com tal decisão, o governo do golpe investiu na cooperação com os EUA, como forma de “desenvolver” nossa indústria de defesa. Na prática, isso significa renunciar a ter real autonomia no campo do desenvolvimento industrial e tecnológico da defesa nacional.

No mesmo sentido, a renegociação do famigerado Acordo de Alcântara com os EUA, que impediria o desenvolvimento do nosso veículo lançador, já denunciava a retomada de uma nova relação de dependência com aquele país.

Agora, porém, com o governo Bolsonaro, a submissão estratégica do Brasil será total. A política externa e a política de defesa do Brasil serão colocadas a serviço único dos interesses estratégicos da administração Trump e de seus aliados, como Israel.

A cessão de parte do território nacional para que os EUA tenham uma base no Atlântico Sul representa a capitulação última da soberania brasileira e um marco fundamental da transformação do “Plano Colômbia” no “Plano América do Sul”. O Brasil será o grande “capitão-do-mato” dos interesses do Império na América do Sul.

Trata-se de decisão que, se concretizada, será praticamente irreversível. Teremos uma Guantánamo do Sul, uma mácula eterna no território e na soberania do Brasil.

Observe-se que a criação de base militar com pessoal norte-americano geralmente é precedida pela celebração dos tristemente famosos Status of Forces Agreements (SOFAs). Tais instrumentos foram criados para definir e distribuir a jurisdição sobre delitos cometidos por forças militares norte-americanas no estrangeiro. De um modo geral, os SOFAs distribuem a jurisdição da seguinte forma: os crimes militares são julgados por tribunais militares do Estado que enviou as tropas e os crimes civis são julgados por cortes do Estado receptor. Na prática, no entanto, isso permite total impunidade às forças norte-americanas, pois quem define a natureza dos crimes são os próprios militares norte-americanos.

Mas a criação dessa base não agrediria apenas a soberania do Brasil. Ela agrediria também a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), criada pela Resolução 41/11, de 27 de outubro de 1986, da Assembleia Geral das Nações Unidas. Essa zona de paz foi criada justamente para preencher o vazio geoestratégico que havia no Atlântico do Sul. Por iniciativa do Brasil, a Assembleia das Nações Unidas tomou a iniciativa de tornar o Atlântico do Sul, ao contrário do Atlântico Norte, uma zona de paz, a ser administrada pelos países da região.

Ora, a criação de bases norte-americanas no Atlântico Sul subverte inteiramente essa diretriz multilateral pacífica e passa a incluir a América do Sul numa disputa militarista mundial. Passaremos a ser, potencialmente, uma região geopoliticamente tão instável quanto o Oriente Médio.

Bolsonaro, que não entende de nada e parece não mandar em nada, é o presidente ideal para os interesses do Império. Fraco e obtuso, bate continência para qualquer autoridade norte-americana ou israelense que pise no Brasil. Com seu chanceler templário, que idolatra Trump, faz dupla imbatível no terreno da submissão geoestratégica.

Com eles, terceirizaremos aos EUA as políticas externa e de defesa. O Brasil soberano esvanecerá e se erguerá, impávido colosso, a Guantánamo do Sul.

Marcelo Zero
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De que 'politicamente correto' estamos falando?


Nos dois discursos que proferiu como presidente empossado do Brasil – no Congresso Nacional e no parlatório –, nesta última terça-feira, 1º de janeiro de 2019, Bolsonaro pouco mais fez do que reafirmar “ad nauseam” sua saga messiânica contra a esquerda nacional, repetindo a mesma estratégia forjada nas oficinas do imaginário delirante e quixotesco que acompanha, sem trégua, a recente trajetória do “mito”.

A mídia – tanto a de abrangência interna, quanto a de alcance internacional – surpreendeu-se com o inusitado das falas de um presidente que mesmo já eleito, mais parecia aprisionado ao calor da disputa eleitoral, no interior da qual mais importa detratar e demonizar todo e qualquer suposto inimigo, do que apresentar coerentes plataformas de governo.

Na retórica requentada das falas presidenciais, a ideologia não apenas supera, mas sobretudo oblitera o aguardado pragmatismo de um governo que ensaia seus primeiros passos. No primeiro e mais moderado discurso, com exatos dez parágrafos de extensão, a palavra ideologia – ou suas variantes, em diferentes combinações de adjetivos, sempre ameaçadores e pejorativos –, foi usada quatro vezes. No segundo, dirigido ao povo, com 14 parágrafos, palavras ou expressões equivalentes se repetiram cinco vezes. No vocabulário que seguramente delineará as linhas discursivas do presidente eleito, a ideologia surge representada como “viés”, como “amarra”, como objeto de submissão e como motor sistemático e nefasto de destruição de valores, tradições, famílias e alicerces sociais. As falas presidenciais nomeiam explicitamente, entre seus vitupérios, as expressões sintagmáticas: “ideologia de gênero”, “ideologização de nossas crianças”, “ideologia que defende bandidos e que criminaliza policiais” e o enviezamento ideológico das nossas relações internacionais.

Prato cheio para a Análise do Discurso, campo do conhecimento consolidado no bojo dos turbulentos anos 60, nos quais se concedeu primazia à análise dos conteúdos ideológicos portados pelos discursos políticos.

Nosso propósito, com essa coluna, é o de discutir fenômenos afetos ao tripé comportamento, sociedade e consumo, em seus desdobramentos na conformação da sociedade em que vivemos. Nesse âmbito, um aspecto particular da fala presidencial nos chama ao dever da crítica. Trata-se, especialmente, do trecho do discurso dirigido ao povo, do parlatório, no qual o presidente eleito comprometeu-se literalmente a "libertar" o país "do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”. E surge aqui a pergunta que norteia esse artigo: de que politicamente correto estamos falando? Se é politicamente correto, porque algo deve ser combatido? Se alguma coisa já se diz correta, o que pode haver de condenável nela?

Vamos, então, tentar desatar o nó.

A expressão “politicamente correto”, apesar da imensa generalização do seu uso nos dias atuais, nem de longe comporta sentidos confortáveis, estáveis e confluentes. Pelo contrário, trata-se de um jargão escorregadio e pantanoso, que, em realidade, mais serve para designar tudo o que, nas mais variadas medidas, destoa, conflita ou não compactua com os sentidos sociais dominantes. Nessa direção, reveste-se do papel da denúncia das iniquidades do poder e do desvelamento das crises culturais, sociais ou políticas iminentes. Na outra mão, o fenômeno revela suas nuances falaciosas, ao criar, de forma apenas cosmética, o sentimento de novos consensos possíveis, de valorização e de reconhecimento das diferenças, sem, contudo, abalar os alicerces da dominação real e cotidiana.

Sabemos que os sentidos não estão nas palavras, mas nas condições sociais da produção dos discursos. Palavras de teor racista, machista, homofóbico, xenofóbico, ou denotadoras de outras vertentes da estigmatização social só fazem os sentidos que fazem por ocorrerem e serem utilizadas em contextos de discriminação e de exclusão.

Ao adentrar essa arena estamos, sem dúvida, assumindo discussões a respeito do funcionamento ideológico da linguagem, no interior da qual, os sentidos sociais das palavras entram em disputa. Trata-se de um fenômeno de natureza tanto linguística, quanto política, na medida em que denuncia as consequências da atribuição dos sentidos às palavras em seu funcionamento cotidiano.

Sem dúvida que entre as maiores dificuldades em se enfrentar a discussão sobre o politicamente correto está o fato de que o fenômeno tende sempre a se apresentar como progressista e revelador de avanços na organização e expressão social das minorias. Nesse sentido, adquire status de irrefutabilidade, dada suas evidentes boas intenções em prol da igualdade e do apaziguamento social. Contudo, essa mesma prática discursiva também se desdobra em suas vertentes sociais mais obscuras e restritivas, como o patrulhamento ideológico, o cerceamento da liberdade de expressão e a instauração dos eufemismos que pouco mais fazem que mascarar as reais intolerâncias e perversidades presentes no cotidiano do corpo social. Por isso, chamamos, já de início, a atenção para o paradoxal e o pantanoso no âmbito do politicamente correto.

Entre as maiores vítimas do politicamente correto está o humor, que, em realidade, sequer sobreviveria sem altas doses de incorreção, uma vez que parte substancial da graça vem da subversão dos sentidos cotidianos, corriqueiros e estabilizados. Porém, o humor, mais do que confirmador das práticas sociais vigentes, pode e talvez deva ser visto como aliado e coadjuvante da mudança social. Em 2014, por ocasião da comemoração aos 41 anos ininterruptos da realização do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, e mais especificamente da edição do livro “Caxara de Forfe”, a convite do meu grande amigo Adolpho Queiroz, pude registrar a reflexão de que “do riso também nasce consciência, pois que faz emergir mazelas escondidas e assim elabora a crítica e tensiona as relações sociais aí implícitas”. Sigo, evidentemente, pensando assim.

Mas, retornando aos discursos da posse presidencial, certamente não é de humor que estamos falando. O politicamente correto que surge da fala do líder político eleito da nação é o que deve ser combatido sem trégua, posto que ameaça e abala os alicerces da família e da “tradição judaico-cristã” que conforma a sociedade brasileira vislumbrada na visão do poder ora ascendente.

O politicamente correto visado é, sem dúvida, o que porta, defende e tenta assegurar os mínimos direitos de índios, quilombolas, negros, mulheres e representantes das comunidades LGBT que, não por acaso ou coincidência, foram justamente os primeiros a serem atingidos pelas novas medidas provisórias assinadas, apenas passadas poucas horas da posse presidencial.

Nesse contexto, torna-se evidente que o novo governo instaura intencional e inequivocamente a sua demarcação social. Seu mandato não será para todos os brasileiros, mas para aqueles comprometidos com os valores mais tradicionais, arcaicos e patriarcais da sociedade brasileira. O novo poder instituído não abre frentes inclusivas de negociação e entendimento. Pelo contrário, assume forte e decisivamente o desmonte institucional erigido pelo esforço das lutas sociohistóricas de trabalhadores, de mulheres progressistas e das minorias oprimidas.

O politicamente correto denunciado pelo novo governo e objeto assumido do seu combate é claramente determinado: é todo e qualquer gesto, fala, disposição, atitude, comportamento e pensamento que desafie o status quo do conservadorismo e do autoritarismo estruturante das sociedades ocidentais, colonizadas e economicamente marginais.

Trata-se do “novo” que não aporta nada de novo. Muito pelo contrário, trata-se da consagração do velho, do arcaico, do descabido, do desproposital. Talvez o lado ainda mais perverso desse quadro seja o da sua notável e inequívoca esquizofrenia que se expressa, entre outros trechos discursivos, naquele em que o paladino nacional reafirma textualmente seu “compromisso de construir uma sociedade sem discriminação ou divisão”.

A pesquisadora norte-americana, Moira Weigel, associada da Universidade de Harvard, já havia nos alertado para o fenômeno, em suas inescapáveis similitudes com o governo de Donald Trump, nos Estados Unidos. Para ela, em entrevista ao jornal “El País”, os ataques ao considerado politicamente correto é a nova narrativa adotada pela direita para poder expressar livremente, sem amarras, sem censuras e sem vergonhas, todas as mais antigas formas de racismo e sexismo. Trata-se do estabelecimento de um novo pacto retórico entre a elite e a classe média atônita e desinformada, cujo objetivo maior é o de reassegurar e perpetuar as velhas formas sociais da concentração da riqueza e do poder.

Ao que tudo indica, o fenômeno vem – e seguirá em frente – produzindo seus efeitos de largo e forte impacto. Tanto lá, quanto agora cá.

Referências das citações:


DELLA COLETTA, Ricardo. “Moira Weigel: o discurso contra o politicamente correto é uma retórica que inviabiliza o debate democrático”. Entrevista com Moira Weigel. El País. 8 de setembro de 2018.


JUNQUEIRA, Antonio Hélio. Vidas Secas. Em: QUEIROZ, Adolpho; VICENTE, Evaldo; CIASI, Letícia Hernandez. Caxara de Forfe. 41 anos do Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Piracicaba, SP: Gráfica e Editora Rio Pedrense Ltda. – Centro Nacional de Humor Gráfico, 2014.

Antonio Hélio Junqueira - Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Professor Colaborador e Pesquisador do Mestrado Profissional em Gestão de Alimentos e Bebidas (Universidade Anhembi Morumbi - UAM) e de Pós-Graduação em Comportamento do Consumidor e em Agronegócios, Abastecimento e Alimentação (ESPM e UAM).
No GGN
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Analfabeto funcional: Depois de passar vergonha, coordenador do Enem apaga blog

Ele
Murilo Resende Ferreira, o recém-nomeado diretor Inep que organiza o Enem, já se tornou uma unanimidade negativa.

Do MBL às associações de professores universitários, ele é considerado inepto, incapaz para exercer a função.

“É um maluco completo, fora da realidade”, disse um dos fundadores da entidade de extrema direita, ao revelar que Murilo foi expulso do MBL de Goiás.

Entre os professores e intelectuais, a crítica é melhor fundamentada. Um deles foi à fonte — o blog de Murilo — e detalhou o grau de despreparo do jovem economista.

“O sujeito que vai cuidar, entre outras coisas, do Enem e Saeb, tem um blog com postagens alucinadas como ‘Descartes: pai da ideologia de gênero’”, conta Hélio Alves, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Guilherme de Almeida, que se define ironicamente como “falso intelectual”, escrutinou outro texto — sobre aborto — e encontrou pérolas como considerar o personagem de um livro de Dostoievski escrito em 1866 (Crime e Castigo) como um típico estudante esquerdista influenciado pelos delírios de Nietzsche.

“Para quem leu o romance, sabe que o personagem Raskolnikov (o personagem de Dostoievski) é quase o oposto do que socialismo quer”, disse Guilherme.

Além disso, Nietzsche não era de esquerda nem tampouco era conhecido na época em que o livro de Dostoievski veio à luz. A primeira obra de Nietzsche é de 1872.

Os textos de Murilo revelam que ele é um analfabeto funcional. Não sabe sequer interpretar um texto.

Quando sua inépcia se tornou pública, no fim de semana, Murilo tratou de sair das redes sociais. Seu blog também não pode mais ser acessado.

Ao mesmo tempo, com o novo coordenador do Enem nocauteado pelas críticas, coube ao clã Bolsonaro defendê-lo.

Talvez seja a primeira vez na história que um presidente vem a público para defender o terceiro escalão do governo.

“Murilo Resende, o novo coordenador do Enem, é doutor em economia pela FGV e seus estudos deixam claro a  priorização do ensino ignorando a atual promoção da ‘lacração’, ou seja, enfoque na medição da formação acadêmica e não somente o quanto ele foi doutrinado em salas de aula”, escreveu Jair Bolsonaro.

Já o filho, Eduardo, avisou:

“Atenção, professores: seu aluno q inicia agora o 1º ano do ensino médio não precisa saber sobre feminismo, linguagens outras q não a língua portuguesa ou história conforme a esquerda, pois o vestibular dele será em 2021 ainda sob a égide de pessoas da estirpe de Murilo Resende.”

Para o cientista político Luís Felipe Miguel, o caso de Murilo é mais grave do que simples falta de preparo ou ignorância.

E o apoio que lhe dá a família Bolsonaro mostra a importância do projeto de desconstrução das escolas em geral — e da universidade em particular.

“Busca eliminar do ambiente escolar qualquer traço de pensamento crítico. (…) Não se trata de combater apenas o marxismo ou o feminismo, mas qualquer traço de reflexão crítica sobre a realidade”, disse.

Com isso, se fecha a conta.

“Liberal na economia e conservador nos costumes”, como apregoa a propaganda bolsonarista, significa “naturalizar uma instituição produzida historicamente (o mercado) e os comportamentos suscitados por ela”.

Com pessoas como Murilo em postos-chave do Ministério da Educação, se procura criar um ambiente que “impeça questionamentos e a produção de uma nova e mais igualitária ordem social”.

É, em essência, o objetivo do movimento “Escola sem partido”

Quem achou que Bolsonaro nos levaria de volta a 1964 agora já sabe que o bilhete prevê uma viagem de volta ao passado bem mais longa.

O destino final fica atrás do Renascimento.

Mas ainda dá tempo de parar esse trem.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Moro está preocupado com a corrupção policial. Quá, quá, quá!

Que presidentes, policiais federais e congressistas estão no bolso dos traficantes?


O "PiG cheiroso" revela que aquele a quem o Ciro se refere como a chibata moral da Nação está muito preocupado com a corrupção policial: "problema é apontado como entrave no combate a facções do crime", segundo texto de André Guilherme Vieira.

O Presidente da "Justissa", o "Judge Murrow", caiu na esparrela da "Intervenssão Tabajara" do ex-comunista Raul Jungmann, e mandou um efetivo militar para o Ceará.

Já se sabe no que vai dar, não é isso, mulher da Marielle?

A propósito da corrupção policial, recomenda-se a leitura atenta de reportagem do New York Times sobre as incríveis revelações de dois gigantes do narcotráfico: o mexicano El Chapo e o colombiano Abadia, ambos presos e julgados nos Estados Unidos.

Os americanos da DEA prenderam Abadia num condomínio perto de São Paulo.

No ato, ele fez declaração histórica: para acabar com o narcotráfico em São Paulo é preciso fechar a delegacia que combate o narcotráfico, o Denarc!

À justiça americana, segundo o New York Times, El Chapo conta que subornou:

- dois presidentes do México, um da Guatemala e outro de Honduras;
- o general do Exército que comandava o combate ao tráfico;
- o diretor-geral da Polícia Federal;
- guardas de presídio, policiais de aeroportos, policiais civis, promotores, funcionários da Receita e militares em geral.

A Lista de Abadia não é menos interessante:

- Abadia financiou a campanha a presidente da Colombia de Ernest Samper, com US$ 500 mil;
- gastou US$ 10 milhões em propinas no Congresso colombiano;
- subornou guardas de presídio, agentes de fronteira e advogados.

Trata-se de uma agenda de trabalho interessante para uma chibata moral!

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Caça a "petistas" de Onyx desmantelou área técnica e prejudicou governo


A Folha de S. Paulo desta segunda (7) informa que a demissão em massa encampada por Onyx Lorenzoni com a desculpa de "despetizar" a Casa Civil prejudicou o setor que analisaria se a prorrogação de benefícios fiscais para Norte e Nordeste, sancionada por Jair Bolsonaro, terá impacto no Orçamento de 2019. Ou seja, a perseguição ideológica patrocinada pelo ministro desmantelou uma área técnica e prejudicou o governo.

O PT já não governa há quase 3 anos, desde maio de 2016, mas Onyx decidiu demitir 320 servidores comissionados, incluindo grávidas e lactantes, com a justificativa de que estaria "despetizando" a Casa Civil.

"Os servidores souberam da decisão pela imprensa, o que gerou indignação, e apenas no dia seguinte foram informados de que estavam sendo exonerados. A ideia de Onyx é concluir até o fim desta semana uma espécie de avaliação desses funcionários para definir se serão recontratados para os postos. Antes, eles passarão por entrevistas e análises para apontar se foram indicados nas administrações de Luiz Inácio Lula da Silva ou de Dilma, do PT."

Esses funcionários serão investigados porque Onyx quer saber se eles foram indicados durante os governos Lula e Dilma. Somente após o pente fino, que inclui entrevistas, é que eles poderão ser contratados.

"A situação de incerteza fez com que alguns técnicos temessem, na semana passada, se comprometer com pareceres sobre os possíveis impactos fiscais da lei sancionada por Bolsonaro na noite de quinta-feira (3) — o que levou a uma tomada de decisão longa e errática, contribuindo para agravar o bate-cabeça sobre o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras)."

Bolsonaro sancionou a lei que estendia os benefícios para Norte e Nordeste até 2023 para evitar desgaste com o Congresso neste início de governo. Mas o Executivo precisava que o corpo técnico analisasse o impacto sobre o orçamento de 2019, para saber se há necessidade de "receita compensatória".

O time que deveria fazer essa análise foi desarticulado graças à caça às bruxas de Onyx.

No GGN
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Com Zema no governo de Minas a “máquina parou”, diz sociólogo Rudá Ricci

"Eu faria um paralelo com o início da revolução russa: sem quadros, logo no início dos anos 1920, teve que atrair os antigos engenheiros e repor a lógica taylorista. A extrema-direita faz muito barulho por nada", diz o cientista político.


Após sofrer com a sabotagem do governo golpista de Michel Temer – que reteve cerca de R$ 14 bilhões em repasses ao Estado durante a gestão Fernando Pimentel (PT) -, a população de Minas Gerais agora sente os efeitos da falta de experiência de gestão pública e do perfil centralizador e personalista do governador Romeu Zema (Novo), que em um de seus primeiros decretos, no dia 1º de janeiro, demitiu cerca de 6 mil servidores e travou a máquina – tendo que voltar atrás após críticas de seu próprio secretariado.

“A máquina parou. Já ocorrem os primeiros protestos de servidores na Cidade Administrativa. Desarticulou vários serviços públicos correntes. Este é o problema dos fundamentalistas: sabem o que não querem, mas não sabem o que querem”, analisa o cientista político e sociólogo Rudá Ricci.

Segundo Rudá, Zema se mostrou um dos mais equilibrados políticos de extrema-direita eleitos em 2018, mas as primeiras medidas administrativas mostraram-se desastrosas.

“Dos governos estaduais de direita ou extrema-direita, pareceu o mais equilibrado e determinado. Fez um discurso de posse minimamente republicano. Porém, suas primeiras medidas administrativas foram desastrosas: exonerou sem um plano alternativo. O resultado foi a paralisação de muitos serviços, em especial, na cultura e comunicação. Neste sentido, se alinha com o fundamentalismo extremado de outros governos deste tipo”.

Renata Vilhena e Aécio Neves
Reprodução
Segundo ele, a política prometida – e colocada em prática – pelo único governador eleito pelo Partido Novo não é tão nova assim. “Seu foco parece ser o controle orçamentário. Mas, de fato, não foi tão novo: se socorreu da consultoria de uma ex-secretária de Aécio Neves, Renata Vilhena”, diz Rudá, sobre a ex-secretária de Estado de Planejamento e Gestão dos governos Aécio Neves e Antônio Anastasia, do PSDB.

O sociólogo, que observa os bastidores do intrincado jogo político mineiro, diz que os movimentos e o perfil de Zema têm feito ele perder apoio até de quem seria aliado natural.

“Zema não tem quadros. E seu perfil é muito centralizador e personalista. Bateu de frente com a Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais), que seria seu aliado natural. Eu faria um paralelo com o início da revolução russa: sem quadros, logo no início dos anos 1920, teve que atrair os antigos engenheiros e repor a lógica taylorista. A extrema-direita faz muito barulho por nada”.

Sobre as prometidas privatizações no Estado por Zema, Rudá acredita que possa trazer um ônus ainda maior para o Estado caso sejam concretizadas.

“Privatizar demanda muitas ações om capacidade de atração de investidores. O problema é que se obtiver sucesso, destruirá as possibilidades de reconversão produtiva de Minas Gerais. Explico: a pauta produtiva do Estado é primária, focada em commodities. Esta característica produz duas consequências nefastas: 1) dependência do mercado externo (em especial, China); e 2) baixos salários, dado que não há exigência de qualificação profissional. Assim, Minas Gerais é o terceiro PIB estadual do país com a 15ª média salarial. Sem estrutura de Estado, amargará está sina da dependência”, conclui.

Plinio Teodoro
No Forum
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Bolsonaro: sinais tormentosos da primeira semana


Em análise de conjuntura política não é aconselhável emitir sentenças definitivas sobre o curso dos acontecimentos. Até mesmo os fatos já consumados são passíveis de reinterpretações a partir das mudanças dos tempos ou de novas descobertas acerca das circunstâncias em que se desenrolaram. Assim, partindo da posse e da primeira semana do governo Bolsonaro apenas é possível perscrutar algo sobre o seu futuro a partir das indicações iniciais das palavras e atos do novo presidente e de sua equipe. É sempre importante observar que, dada a natureza mutante da política, um governo pode começar bem e acabar mal e outro pode começar mal e acabar bem.

Feita essa ressalva, o que se pode dizer acerca da posse e da primeira semana do governo Bolsonaro é que os sinais que foram emitidos são mais do que preocupantes, indicando que as forças democráticas e progressistas da sociedade precisam estar em alerta e em prontidão para defender o Brasil, sua soberania, sua débil democracia e sua Constituição. Quanto ao simbolismo da posse e à governabilidade da primeira semana pode-se dizer que se as indicações se tornarem regra, os riscos do governo caminhar para uma rápida desmoralização e desgoverno são altos. A provocação e a incitação a possíveis atos de violência que Bolsonaro fez no final do discurso no parlatório do Planalto indicam que ele não entende o que é ser presidente da República e não tem nenhum apreço pela dignidade do cargo. Tratou-se de algo mais afeto à arruaça política do que a alguém que acaba de ser investido com a mais alta magistratura do país.

Os desencontros de Bolsonaro com sua equipe também suscitaram altas preocupações acerca da capacidade do novo presidente governar o país. Alguns pontos saltaram aos olhos: as confusões em torno do IOF, da redução do imposto de renda para os mais ricos, em torno da reforma da previdência e a da ideia de conceder aos Estados Unidos o direito de instalar uma base militar no Brasil. As declarações sobre os três primeiros pontos criaram perplexidades na equipe econômica e desmentidos da Casa Civil. A ideia da base militar gerou desconforto nos militares.

Bolsonaro e membros de sua equipe parecem não ter entendido que as palavras geram consequências. Em sua carreira como militar, Bolsonaro provocou dúvidas e suspeitas a seus superiores. Sua carreira política foi marcada por evidentes e perigosos exageros retóricos. Se o novo presidente não tiver consciência de que deve respeitar a dignidade do cargo poderá resvalar para caminhos perigosos. A única forma de conte-lo seria estabelecer uma tutela dos generais sobre ele. Assim, ele seria resguardado dos inconvenientes públicos e protegido de si mesmo.

Mas se Bolsonaro adota deliberadamente a confusão como forma de governar, correrá riscos ainda maiores. Poderá perder a credibilidade, pois será visto como um governo espalhafato e do ridículo. O grave é que alguns ministros o secundam neta perspectiva, notadamente o Ministro das Relações Exteriores, da Educação e a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, todos imbuídos de uma ideologia reacionária, conservadora, retrógrada típica dos carolas de sacristia e dos falso moralistas do neopentecostalismo que erguem o estandarte de Deus para esconder seus conluios com o demônio. A necessidade de desconfiar daqueles que, permanentemente, apelam a Deus para justificar atos prosaicos e humanos deve ser uma regra. Testemunho disso é o caso do médium João de Deus.

O recurso a Deus, na verdade, faz parte de uma estratégia da extrema-direita norte-americana e internacional com o objetivo de combater o universalismo lácio e a globalização por conta de uma mal digerida tese de Samuel Huntington que fez uma crítica às pretensões universalistas do Ocidente e defendeu a necessidade da afirmação dos pressupostos da civilização ocidental. Se a direita internacional já entendeu mal Huntington, a direita bolsonarista, desprovida de capacidade intelectual, entendeu mal a direita internacional. Assim, o apelo a Deus aparece de forma literal, grotesca, nada sutil e a impressão que fica é a de que se trata de pessoas movidas por um fanatismo religioso ignorante e primário. Por isso mesmo, não deixa de ser um fanatismo perigoso, pois pode causar muitos estragos na educação, nos direitos civil e na política externa.

O governo Bolsonaro poderá perder algumas de suas mais importantes consignas, defendidas durante a campanha, na posse e nesses primeiros dias de mandato. A primeira bandeira a ser perdida é a do combate à ideologia. Os bolsonaristas parecem não entender o que seja ideologia. O termo foi cunhado por Destut de Tracy (1801) designando a análise das sensações e das ideias. Em seguida a ideologia se constituiu numa corrente filosófica que procurava promover uma transição do empirismo iluminista para o espiritualismo tradicionalista. Mais tarde, Marx será um crítico das ideologias pois às identifica às concepções de mundo relacionadas aos modos de produção. Seriam formas de falsa consciência, destinadas a mascarar a forma científica de ver o mundo. Outros pensadores, a exemplo de Pareto, também contrapuseram ideologias e ciência. Hoje, genericamente, por ideologia se entende um conjunto de crenças que conformam determinadas visões de mundo. As ideologias visam ser convincentes em justificar formas de estabelecer controles sobre a conduta humana.

O governo Bolsonaro é o mais ideológico do período da redemocratização. Ao combater as ideologias no seu sentido formal, as ideologias de gênero, a globalização, a despetização, ao pregar o azul para os meninos e o rosa para as meninas etc., o governo está promovendo ações justificadas em ideologias de direita, reacionárias e retrógradas. Todo governo vem revestido de carga ideológica. Mas acima da ideologia o governo deve colocar os interesses do país, do povo, defender a democracia, a Constituição, o Estado de Direito, a moralidade pública, a ética e os princípios da transparência e da eficiência. Os primeiros sinais que vêm do governo Bolsonaro são os de que ele tende a colocar os interesses ideológicos acima dos interesses do país, da democracia e da Constituição.

Este é o caso da própria noção de soberania. Em nome de afinidades ideológicas, que no discurso de Ernesto Araújo aparecem designadas pelo termo "valores comuns", Bolsonaro se dispõe a permitir a instalação de uma base militar americana no Brasil. Trata-se de uma clara violação da soberania. O Brasil deve ser um país amigo dos Estados Unidos tendo a consciência de que aquele país é a maior ameaça à soberania brasileira pelos seus interesses geopolíticos. Bolsonaro perderá não só a bandeira da defesa da soberania, mas será tachado de falso moedeiro, pois o Brasil não estará acima de tudo e a "Pátria Amada Brasil" será traída.

Se os sinais da posse e da primeira semana se confirmarem, o governo Bolsonaro não será apenas eivado de agudas divisões internas, mas suscitará uma avalanche de conflitos sociais e políticos. A revolução de gênero é um fato inarredável da luta de todos os tempos por igualdade. O século XXI vem sendo marcado pela ascensão das mulheres em todas as atividades. Elas tomarão o poder neste século, pois conquistarão a igualdade com os homens. Combater a luta das mulheres será uma batalha perdida para o bolsonarismo.

Combater a globalização é a mais inócua e desastrada estratégia. Em primeiro lugar, porque o Brasil não é um país globalizado e nem tem força de se contrapor a ela. Aliás, um dos problemas do desenvolvimento do Brasil consiste na falta de uma estratégia de globalização. Os Estados Unidos de Trump combatem a globalização porque estão diante do declínio. Somente Estados que têm estratégias de globalização terão êxito no século XXI. Por fim, mas não por último, querer combater o estudo de Marx nas Universidades é algo grotesco. Como um clássico do pensamento sociológico, filosófico e econômico, Marx precisa ser estudado assim como Maquiavel, Hegel, Kant, Ricardo, Smith, Aristóteles, Friedman, Hayek etc.

Se o governo Bolsonaro não tomar um rumo diferente daquele indicado na posse e na primeira semana comprará brigas monumentais com a comunidade acadêmica, com os trabalhadores, estudantes, militares, mulheres, negros, comunidade LGBT, periferias e setores da mídia. O que o bolsonarismo parece não entender é que, dos votos que lhe deram a vitória, a imensa maioria não o votou por conta de sua ideologia, mas porque queria mudanças. Se as mudanças não vierem em termos de melhoria de vida, Bolsonaro será abandonado pelos seus eleitores. Para atender as demandas da sociedade, o governo Bolsonaro terá que abandonar os discursos vazios, as veleidades belicosas e persecutórias, as fantasias ideológicas e a confusão como método. Os primeiros sinais indicam mais um governo tormentoso e menos um governo eficaz.

Em análise de conjuntura política não é aconselhável emitir sentenças definitivas sobre o curso dos acontecimentos. Até mesmo os fatos já consumados são passíveis de reinterpretações a partir das mudanças dos tempos ou de novas descobertas acerca das circunstâncias em que se desenrolaram. Assim, partindo da posse e da primeira semana do governo Bolsonaro apenas é possível perscrutar algo sobre o seu futuro a partir das indicações iniciais das palavras e atos do novo presidente e de sua equipe. É sempre importante observar que, dada a natureza mutante da política, um governo pode começar bem e acabar mal e outro pode começar mal e acabar bem.

Feita essa ressalva, o que se pode dizer acerca da posse e da primeira semana do governo Bolsonaro é que os sinais que foram emitidos são mais do que preocupantes, indicando que as forças democráticas e progressistas da sociedade precisam estar em alerta e em prontidão para defender o Brasil, sua soberania, sua débil democracia e sua Constituição. Quanto ao simbolismo da posse e à governabilidade da primeira semana pode-se dizer que se as indicações se tornarem regra, os riscos do governo caminhar para uma rápida desmoralização e desgoverno são altos. A provocação e a incitação a possíveis atos de violência que Bolsonaro fez no final do discurso no parlatório do Planalto indicam que ele não entende o que é ser presidente da República e não tem nenhum apreço pela dignidade do cargo. Tratou-se de algo mais afeto à arruaça política do que a alguém que acaba de ser investido com a mais alta magistratura do país.

Os desencontros de Bolsonaro com sua equipe também suscitaram altas preocupações acerca da capacidade do novo presidente governar o país. Alguns pontos saltaram aos olhos: as confusões em torno do IOF, da redução do imposto de renda para os mais ricos, em torno da reforma da previdência e a da ideia de conceder aos Estados Unidos o direito de instalar uma base militar no Brasil. As declarações sobre os três primeiros pontos criaram perplexidades na equipe econômica e desmentidos da Casa Civil. A ideia da base militar gerou desconforto nos militares.

Bolsonaro e membros de sua equipe parecem não ter entendido que as palavras geram consequências. Em sua carreira como militar, Bolsonaro provocou dúvidas e suspeitas a seus superiores. Sua carreira política foi marcada por evidentes e perigosos exageros retóricos. Se o novo presidente não tiver consciência de que deve respeitar a dignidade do cargo poderá resvalar para caminhos perigosos. A única forma de conte-lo seria estabelecer uma tutela dos generais sobre ele. Assim, ele seria resguardado dos inconvenientes públicos e protegido de si mesmo.

Mas se Bolsonaro adota deliberadamente a confusão como forma de governar, correrá riscos ainda maiores. Poderá perder a credibilidade, pois será visto como um governo espalhafato e do ridículo. O grave é que alguns ministros o secundam neta perspectiva, notadamente o Ministro das Relações Exteriores, da Educação e a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, todos imbuídos de uma ideologia reacionária, conservadora, retrógrada típica dos carolas de sacristia e dos falso moralistas do neopentecostalismo que erguem o estandarte de Deus para esconder seus conluios com o demônio. A necessidade de desconfiar daqueles que, permanentemente, apelam a Deus para justificar atos prosaicos e humanos deve ser uma regra. Testemunho disso é o caso do médium João de Deus.

O recurso a Deus, na verdade, faz parte de uma estratégia da extrema-direita norte-americana e internacional com o objetivo de combater o universalismo lácio e a globalização por conta de uma mal digerida tese de Samuel Huntington que fez uma crítica às pretensões universalistas do Ocidente e defendeu a necessidade da afirmação dos pressupostos da civilização ocidental. Se a direita internacional já entendeu mal Huntington, a direita bolsonarista, desprovida de capacidade intelectual, entendeu mal a direita internacional. Assim, o apelo a Deus aparece de forma literal, grotesca, nada sutil e a impressão que fica é a de que se trata de pessoas movidas por um fanatismo religioso ignorante e primário. Por isso mesmo, não deixa de ser um fanatismo perigoso, pois pode causar muitos estragos na educação, nos direitos civil e na política externa.

O governo Bolsonaro poderá perder algumas de suas mais importantes consignas, defendidas durante a campanha, na posse e nesses primeiros dias de mandato. A primeira bandeira a ser perdida é a do combate à ideologia. Os bolsonaristas parecem não entender o que seja ideologia. O termo foi cunhado por Destut de Tracy (1801) designando a análise das sensações e das ideias. Em seguida a ideologia se constituiu numa corrente filosófica que procurava promover uma transição do empirismo iluminista para o espiritualismo tradicionalista. Mais tarde, Marx será um crítico das ideologias pois às identifica às concepções de mundo relacionadas aos modos de produção. Seriam formas de falsa consciência, destinadas a mascarar a forma científica de ver o mundo. Outros pensadores, a exemplo de Pareto, também contrapuseram ideologias e ciência. Hoje, genericamente, por ideologia se entende um conjunto de crenças que conformam determinadas visões de mundo. As ideologias visam ser convincentes em justificar formas de estabelecer controles sobre a conduta humana.

O governo Bolsonaro é o mais ideológico do período da redemocratização. Ao combater as ideologias no seu sentido formal, as ideologias de gênero, a globalização, a despetização, ao pregar o azul para os meninos e o rosa para as meninas etc., o governo está promovendo ações justificadas em ideologias de direita, reacionárias e retrógradas. Todo governo vem revestido de carga ideológica. Mas acima da ideologia o governo deve colocar os interesses do país, do povo, defender a democracia, a Constituição, o Estado de Direito, a moralidade pública, a ética e os princípios da transparência e da eficiência. Os primeiros sinais que vêm do governo Bolsonaro são os de que ele tende a colocar os interesses ideológicos acima dos interesses do país, da democracia e da Constituição.

Este é o caso da própria noção de soberania. Em nome de afinidades ideológicas, que no discurso de Ernesto Araújo aparecem designadas pelo termo "valores comuns", Bolsonaro se dispõe a permitir a instalação de uma base militar americana no Brasil. Trata-se de uma clara violação da soberania. O Brasil deve ser um país amigo dos Estados Unidos tendo a consciência de que aquele país é a maior ameaça à soberania brasileira pelos seus interesses geopolíticos. Bolsonaro perderá não só a bandeira da defesa da soberania, mas será tachado de falso moedeiro, pois o Brasil não estará acima de tudo e a "Pátria Amada Brasil" será traída.

Se os sinais da posse e da primeira semana se confirmarem, o governo Bolsonaro não será apenas eivado de agudas divisões internas, mas suscitará uma avalanche de conflitos sociais e políticos. A revolução de gênero é um fato inarredável da luta de todos os tempos por igualdade. O século XXI vem sendo marcado pela ascensão das mulheres em todas as atividades. Elas tomarão o poder neste século, pois conquistarão a igualdade com os homens. Combater a luta das mulheres será uma batalha perdida para o bolsonarismo.

Combater a globalização é a mais inócua e desastrada estratégia. Em primeiro lugar, porque o Brasil não é um país globalizado e nem tem força de se contrapor a ela. Aliás, um dos problemas do desenvolvimento do Brasil consiste na falta de uma estratégia de globalização. Os Estados Unidos de Trump combatem a globalização porque estão diante do declínio. Somente Estados que têm estratégias de globalização terão êxito no século XXI. Por fim, mas não por último, querer combater o estudo de Marx nas Universidades é algo grotesco. Como um clássico do pensamento sociológico, filosófico e econômico, Marx precisa ser estudado assim como Maquiavel, Hegel, Kant, Ricardo, Smith, Aristóteles, Friedman, Hayek etc.

Se o governo Bolsonaro não tomar um rumo diferente daquele indicado na posse e na primeira semana comprará brigas monumentais com a comunidade acadêmica, com os trabalhadores, estudantes, militares, mulheres, negros, comunidade LGBT, periferias e setores da mídia. O que o bolsonarismo parece não entender é que, dos votos que lhe deram a vitória, a imensa maioria não o votou por conta de sua ideologia, mas porque queria mudanças. Se as mudanças não vierem em termos de melhoria de vida, Bolsonaro será abandonado pelos seus eleitores. Para atender as demandas da sociedade, o governo Bolsonaro terá que abandonar os discursos vazios, as veleidades belicosas e persecutórias, as fantasias ideológicas e a confusão como método. Os primeiros sinais indicam mais um governo tormentoso e menos um governo eficaz.

Aldo Fornazieri, Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP)
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Ciro Gomes - o coronel da ARENA


Giselle Bezerra, companheira de Ciro Gomes, recebe a reportagem no hall de entrada do amplo apartamento em que o casal vive na praia de Iracema, em Fortaleza (CE). A sala, com vista deslumbrante para o mar, tem um mobiliário simples. Gisele comenta que esta foi a última área da casa a ser mobiliada. A varanda foi transformada em playground para a distração do filho caçula, Gael, que Ciro teve em seu casamento anterior, e que passou o fim de ano com ele. Em uma das paredes, fotos dos 4 filhos de Ciro e algumas do casal na Europa. Cinco minutos após minha chegada, Ciro entra na sala com barba por fazer. Diz que aproveitou as férias para descansar a pele do rosto. Afirma que está estudando astrofísica e escrevendo um livro sobre os caminhos políticos e econômicos que se colocam para o Brasil. Durante toda a entrevista, demonstra que tentará ocupar o lugar de principal líder da oposição. “O PT já foi. Agora eles encontraram alguém que tem coragem de encará-los. Eu sou pós PT”, afirma. Perguntado sobre as próximas eleições, diz que o partido pode cogitar seu nome na disputa à presidência, mas que é cedo para falar sobre o assunto, porque os próximos quatro anos serão uma montanha russa. Mas admite que é necessário construir não uma terceira via, mas “a via”. Confessa ainda que aconselhou Lula a pedir asilo político em uma embaixada.

A entrevista com Ciro Gomes foi feita no dia 2 de janeiro. No dia 4, a assessoria do pedetista foi procurada para que falasse sobre a crise de segurança no Ceará, governada por seu aliado Camilo Santana (PT). Ciro informou que preferia aguardar alguns dias para ter mais informações e poder emitir sua opinião.

No discurso de posse, Bolsonaro falou em libertar o povo do socialismo. O que ele quis dizer com isso?

O inquietante é que ele falou isso no discurso de posse, que costuma ser projetado para a história. Não era para ser um arroubo de palanque, mas o que ele repete é um arroubo de palanque que parte da premissa da ignorância do povo. Ele supõe que o povo é burro, incapaz de saber o que é socialismo. E, ao afirmar isso, esconjura na palavra socialismo todo o ranço conservador, que tem dois planos: conservadorismo de costumes e conservadorismo econômico. É uma tragédia, porque significa que o camarada, ao iniciar o Governo, anuncia que vai permanecer no palanque. Fica dizendo bobagens superficiais e se afirma num antipetismo também superficial.

Bolsonaro disse que não vai aceitar corrupção. Mas antes da posse, sua família já estava envolvida em suposto escândalo de corrupção. Agora que é presidente não seria bom que este caso fosse bem esclarecido?

É imperativo, especialmente para quem assentou na sua identidade o moralismo e que tem a presença simbólica do (Sérgio) Moro, um juiz exibicionista, chibata moral da nação. E tem coisas práticas: Bolsonaro, como deputado, já malversou verba do seu gabinete. O caso do Queiroz, agora, trata-se de uma notícia crime em potencial. É uma questão de moral e de decência esclarecer isso. Até porque esta foi a pedra angular da campanha que deu ao Bolsonaro o mandato como presidente. Se Bolsonaro emprestou dinheiro ao tal Queiroz, cadê o cheque? Que dia foi? Essa foi uma nova operação Uruguai como a do Collor? Foi antes ou depois do escândalo, para tentar cobrir o episódio? Se foi um empréstimo, de onde saiu o dinheiro do Bolsonaro para emprestar? São coisas concretas relativas ao presidente. Sérgio Moro está obrigado a esclarecer isso à nação brasileira. Eu quero dar um tempo. Não quero ser um trombeteiro que nem um petista raivoso, que é o tipo mais parecido com um bolsominion. Deixa o Bolsonaro tomar pé das coisas. Mas daqui a uns 100 dias, tenho toda uma plataforma por onde vou começar a cobrar. Porque foi este o papel que a nação deu a mim. O papel da oposição é estimular Bolsonaro ao jogo democrático, obrigá-lo a seguir a institucionalidade democrática.

O senhor acha que Bolsonaro construirá um pacto de governabilidade para aprovar as reformas no Congresso?

Ele tem essa força. A coincidência da mudança de ano com a mudança de governo predispõe a sociedade brasileira a ajudar. O Parlamento fica vulnerável a este expediente da rua que diz: "Ajuda o homem! O homem foi eleito, ajuda ele, não atrapalha". E nós temos que ter essa sensibilidade. Não em respeito ao Bolsonaro, mas em respeito ao milhões de brasileiros que deram a ele a maioria. Mas não sei se ele conseguirá fazer um pacto de governabilidade. Eu, Ciro Gomes, não conheço uma única proposta do Governo Bolsonaro.

A não ser a legalização das armas.

A retórica da legalização das armas está aí, mas eu duvido da legalidade disso por Medida Provisória. O Supremo tenderá a dizer que é inconstitucional. Bolsonaro trabalha com duas agendas. Uma ele vai reinar mais facilmente, que é a agenda de costumes: redução da maioridade penal, facilitar o acesso à arma, agravar a legislação de execução penal. Porque a sociedade está cansada da violência e predisposta a experimentar inovações. São equívocos simplificadores, grosseiros, mas ele vai tentar e, com isso, demonstrará que está tentando cumprir a promessa e manterá o capital político dele com uma certa sobrevida. A outra agenda, que é para a qual devemos chamá-lo, é a do emprego, palavra que ele não citou uma vez sequer, nem no discurso oficial. Devemos chamá-lo para a questão dos juros, da inadimplência de 63 milhões de brasileiros que estão com o nome sujo no SPC. Para discutir a questão da aposentadoria. Precisamos discutir aqueles assuntos que ele vai fugir deles. Aqui tem dois problemas: o primeiro é que são questões muito graves. O segundo é que ele não entende o problema, a equipe dele não entende o problema e, quando entende, interpreta de forma equivocada. Portanto, o remédio que vão propor será o remédio errado, que tenderá muito mais a agravar a doença socioeconômica do Brasil do que mitigá-la. Seria um grave erro a gente aceitar a provocação do Bolsonaro de discutir identitarismos. A esmagadora maioria do povo brasileiro, que é pobre, está desempregada, assustada com a violência, maltratada na rede de saúde... Essa gente tende a entender nossas razões se estas razões forem discutidas. Mas se a gente for discutir "kit gay"... não que o assunto não mereça discussão. Estou só dizendo que o Bolsonaro não pode escolher o campo de batalha.

O senhor tem se colocado como nova liderança da oposição. Aceitaria o PT numa frente de oposição ao novo Governo?

Acho que sim. Nosso inimigo não é o PT. Agora, nós precisamos não nos comprometer. Estou falando sob o ponto de vista histórico. Precisamos dar ao jovem brasileiro uma plataforma em que ele não precise de um salvador da pátria, de um guru, de um líder carismático que, preso, de dentro da cadeia, fica mandando recado. Isso é o fundo do poço. Não quer dizer que a gente abandone o Lula. A questão central do país não pode ser identitarista ou o salve Lula. Enquanto a agenda for esta, estamos fazendo exatamente o que o Bolsonaro quer que a gente faça. Ele não ganharia em hipótese nenhuma no Brasil que eu conheço se não fosse o antipetismo que o petismo cevou. O Palocci é réu confesso. E não é um petista periférico. Foi o homem que Lula escolheu para comandar a economia do Brasil por 8 anos e a Dilma escolheu para comandar o governo. O Levy foi escolhido pela Dilma. O Michel Temer foi escolhido pelo Lula. Se a gente ficar alisando essas coisas pela dor que tem do Lula estar onde está, não vamos pensar na questão brasileira. Cabe a oposição vigiar, cobrar. O que faz a burocracia do PT? Se retira da posse. Ora, quando o Aécio Neves nega o reconhecimento do sucesso eleitoral da Dilma, começa a plataforma do golpe. E o PT soube denunciar isso. Como é que se explica agora para o povo brasileiro que um adversário nosso, por mais deplorável que seja, não é reconhecido como vitorioso?

O senhor fez parte dos Governos Lula e Dilma. Por que só agora descobriu estes problemas do PT?

Eu fiz parte do primeiro mandato do governo Lula. Quando eles começaram a errar eu não aceitei mais ser ministro. Eu votei na Dilma contra todas as contradições, porque o outro lado era o PSDB e o Aécio, que eu sabia quem era. O que fiz desta vez? Disse: campanha pra eles eu não faço mais. Votei no Haddad como cidadão, mas não voto mais nesta burocracia do PT. Não faço campanha com eles nunca mais. De lá pra cá eles se corromperam. Essa é a triste, dura e sofrida realidade. Apodreceram. Tomaram gosto pelas benesses do poder.

Por que você, que já esteve tantas vezes junto com o PT, não apoiou o Haddad?

Por que já tinha feito isso com a Dilma. Lá atrás, a Dilma era uma pessoa sem nenhum treinamento, sem nenhuma vivência, nunca disputou uma eleição. E o Lula, aproveitando a justa popularidade que tinha, resolveu impor a Dilma contra todos nós. Estávamos eu, com predileção nas pesquisas, Eduardo Campos... E o PT não tinha nenhum quadro. E ele escolheu uma pessoa que nem tradicionalmente do PT era. Por que? Pra mandar. Todas as pedras do caminho sabiam que Lula não podia ser candidato pela lei da ficha limpa. E eles impõem a candidatura do Lula, mentem para a população brasileira explorando a boa fé do nosso povo mais pobre para comovê-lo até o limite da eleição e botar uma pessoa sem autoridade.

Lula é preso político ou comum?

Preso comum. Se Lula fosse um preso político, não tinha que recorrer aos tribunais. Lula não é condenado pelo Sérgio Moro, que eu sempre critiquei. É condenado por unanimidade pelo Tribunal Regional Federal. Tentou diversos recursos no STJ e STF. Portanto, por definição, é um preso comum. Mas se ele entende que é um preso político, não podia estar recorrendo às instâncias formais. Eu acho a sentença que o condenou frágil. Mas isso não o transforma num preso político, porque ele aceitou a dinâmica. Eu, por exemplo, fui violentamente criticado – e isso o PT esquece – quando propus, quando ele sofreu uma prisão coercitiva injusta, ilegal, que se a gente achasse que ele era um preso político, deveríamos subtraí-lo desta arbitrariedade, colocá-lo numa embaixada e pedir asilo político.

O que o senhor imagina para o seu futuro?

A minha missão hoje é ajudar o jovem brasileiro a entender o nosso país e a formular um caminho. Estou fazendo palestras e vou lançar um livro que é uma plataforma que compreende o Brasil, chamando o debate para a inteligência e não para estas mistificações superficiais. Porque o bicho mais parecido com o bolsominion (nome pejorativo para os seguidores de Bolsonaro) é o petista fanático. Tanto para o bolsominion como para o fanático do PT pode acontecer o diabo que eles relativizam o diabo. Quando o Aécio nega a legitimidade do mandato da Dilma, é golpe. Quando Renan Calheiros, liderando o Senado, faz o golpe...é golpe. Depois o Haddad se apresenta aliado do Calheiros. Aqui, no Ceará, Eunício de Oliveira, meu adversário, e com quem eu briguei por causa do PT, porque votou no impeachment, era golpe. Agora, o Lula impediu a Dilma de ser candidata aqui no Ceará, para qual ela tinha sido convidada e tinha aceito, para impô-la em Minas Gerais onde ela desmontou a aliança do Fernando Pimentel, para apoiar o Eunício Oliveira. A quem o Lula e o PT deram 1 bilhão de reais em contratos sem licitação na Petrobras. Vai pro diabo a burocracia do PT. Tudo picaretagem da pura. O Sergio Machado metia a mão na Transpetro, eu cansei de dizer isso ao Lula. Então, PT, vai devagar comigo, porque eu não gostaria de transformar o PT em meu adversário.

Mas você está transformando...

Não estou, não. Mas cada vez que eles vierem com uma dessas, e agora veio da sua pergunta, não porque você interpreta, mas porque eles estão dizendo, eu vou dizer porque eu não pude mais apoiar o PT. Eu engoli tudo o que eu podia engolir. E regozijei.

Você não acha que na disputa entre Haddad e Bolsonaro não era importante dar apoio ao Haddad para evitar o retrocesso no Brasil?

Não estava na minha mão. Quando eles se impuseram, da forma como se impuseram, todas as pesquisas indicavam com muita clareza que esta era uma eleição perdida. Todo mundo estava vendo isso. Haddad teve 70% dos votos no segundo turno aqui no Ceará. Portanto eu apoiei o Haddad. O que eu não faço mais é campanha com esta quadrilha. É bem diferente. Se eu achasse que ia fazer diferença, eu engolia de novo, como engoli lá atrás. Agora, me obrigar, por uma solidariedade ao campo progressista... o Haddad é progressista, sem dúvida. Mas o PT é uma força corrupta. Estou falando da cúpula do PT, não da sua base.

E como é que fica a união de forças de oposição no Congresso?

É uma agenda prática. Eles resolveram se omitir na posse. Nós ficamos. Quer dizer que nós temos algum compromisso com o Bolsonaro? Não. Temos o compromisso com a democracia, com os ritos, com os valores.

Mas isso não fragiliza o campo progressista?

Depende. Por que o PT não se comporta? Porque que não abre a conversa com os outros? Quer tudo na imposição de uma hegemonia podre. Já foi. Agora eles encontraram alguém que tem coragem de encará-los. Eu sou pós PT.

Você acha que é muito cobrado por isso?

Eu sou, mas estou disposto a explicar para todo mundo. E nisso é que eu quero criar uma corrente de opinião, que livre o Brasil desta burocracia corrompida do PT.

Você chegou a conversar com o Lula antes do primeiro turno para ser o vice dele?

Não. Ele me chamou para esta farsa. Ora, se eu estou denunciando uma farsa, uma fraude, e ele me chama para aperfeiçoar esta fraude, que tipo de homem eu sou, que tipo de líder eu seria no Brasil se eu, por qualquer tipo de ambição pessoal, fosse cumprir este papel imundo? Mandei dizer pra ele que me sentia insultado.

Você pretende ser candidato à presidência novamente?

Quem conhece o Brasil, que tem a experiência que eu tenho, afirmar que é candidato, é pura temeridade. O que vai acontecer no país nos próximos quatro anos é uma verdadeira montanha russa. Eu aceito que o meu partido cogite a minha candidatura, não vou excluir isso, mas acho que eu tenho um papel a cumprir fora de processo eleitoral. Escrever, falar, organizar o movimento. Dar referência para a juventude brasileira. Só existe o Bolsonaro porque existe este tipo de petismo. Você acha que o Bolsonaro achou o que desta atitude infantil, antidemocrática, burra, de o PT se omitir do ato solene de posse do presidente eleito? Você acha que o Bolsonaro achou ruim isso? Bolsonaro amou. Ele está dizendo: “O Governo não pode fracassar porque se não o PT volta”. E eles se amam, na prática. E eu vou quebrar esta brincadeira, se não o Brasil não aguenta.

Você acredita que pode ser a terceira via?

Não a terceira via. Nós precisamos construir a via. Sim, porque o PT imitou, no bom e no mau, o PSDB. Quem formulou, no Brasil, foi o Fernando Henrique. E formulou em linha com a onda internacional, neoliberal, pseudo modernizante, do Estado mínimo, de câmbio flutuante, de superávit primário... e qual foi a política econômica do PT? Rigorosamente a mesma. Quer dizer que não foi um Governo bom? Foi, tanto que eu ajudei. O salário mínimo melhorou, o crédito melhorou, a assistência social, com as políticas sociais compensatórias, melhorou muito. Expandiu o ensino público universitário. Tudo isso são coisas boas, mas foram feitas no marco de uma economia política conservadora que encheu o rabo da banqueirada de ganhar dinheiro. É nas mãos do PT/PSDB que o Brasil faz a mais grave concentração bancária do mundo capitalista. Enquanto a América do Norte, epicentro do capitalismo, tem 5 mil bancos disputando o cliente com juros mais baratos, com preço de tarifa mais barata, essa gente entregou o Brasil a três bancos particulares, que tem lucro 78% maior do que qualquer banco na história da humanidade. Isso é o que importa. Porque num regime não inflacionário, o dinheiro que falta no bolso do povo, essa inadimplência que humilha tanto as pessoas, esse é o dinheiro que está sendo levado todo pra mão dos banqueiros. Durante o governo do PT/PSDB, nós criamos o seguinte fenômeno: seis brasileiros tem a renda equivalente a fortuna que somam 100 milhões de brasileiros. Aí estes 100 milhões de brasileiros estão obrigados a se conformar com o Bolsa Família. Isso é irrelevante? Não, é muito importante. Mas o país que eu sonho vai emancipar seu povo pelo trabalho decentemente remunerado e pela educação emancipadora.

Florestan Fernandes Júnior
No El País
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