6 de jan. de 2019

“Marxismo cultural”, obsessão dos bolsonaristas, foi invocado por neonazi para matar 77 na Noruega

AdiciBolsonaro e Rodriguez, novo ministro da Educaçãoonar legenda
Há uma bandeira que une os mentores intelectuais (sic) do bolsonarismo: a luta contra o chamado “marxismo cultural”.

Essa batalha é travada com força e com vontade pelo chanceler Ernesto Araújo, seu colega ministro da Educação, o colombiano Ricardo Vélez Rodriguez, e demais olavistas do governo.

Num artigo lelé da cuca intitulado “Trump e o Ocidente”, publicado em seu blog, Araújo escreveu que o presidente dos EUA estava salvando a civilização do “marxismo cultural globalista” ao defender a “identidade nacional, os valores familiares e a fé cristã, enquanto a Europa não o faz”.

Rodriguez tem uma página na internet denominada, sugestivamente, “Rocinante”. No caso, o cavalo de Dom Quixote. Ainda assim, um cavalo.

Em discurso proferido durante sua posse na quarta feira, dia 2, afirmou que quer acabar o “marxismo cultural” e a “ideologia de gênero” nas escolas.

“A ideologia globalista passou a destruir um a um os valores culturais que regem o país, família, igreja, Estado, pátria e escola”, afirmou.

“O marxismo cultural é uma coisa que faz mal para a saúde. A saúde da mente, do corpo e da alma. Porque secciona o ser humano, o torna massa, o torna coisa. Então, é uma tentativa de buscar uma abordagem cultural que lê a pessoa na sua integralidade, integridade, inteligência e individualidade.”

Tanto Jair quanto seus filhos patetas papagueiam tio Olavo repetindo essa expressão sempre que julgam necessário parecer, inutilmente, inteligentes.

É um bicho papão da extrema direita no mundo, um factoide como o Jesus no pé de goiaba de Damares Alves.

No New York Times, Samuel Moyn, professor de Direito e História da Universidade de Yale, nos EUA, resumiu o conceito como “um meme de 100 anos de idade”, com “uma história longa e tóxica”.

“Nada disso realmente existe”, afirma, numa excelente análise.

“Mas é cada vez mais popular acusar os efeitos nefastos do marxismo cultural na sociedade – e sonhar com seu violento extermínio.”

Moyn associa essa tese paranoica ao antissemitismo.

Bolsonaro e o futuro chanceler Ernesto Araújo
Sérgio Lima/AFP

Lembra que Anders Breivik, o neonazi terrorista que matou 77 e feriu 51 num acampamento do Partido dos Trabalhadores norueguês, na ilha de Utøya, em 2011, justificou a barbárie mencionando o marxismo cultural, ameaça à “cristandade” moderna.

Destaco alguns trechos para entender em que buraco a inteligentsia bolsonaro-olavista quer atirar o Brasil:

Originalmente uma contribuição americana para a fantasmagoria do alt-right, o medo do “marxismo cultural” vem se infiltrando há anos através de esgotos globais de ódio. (…)

Em junho, Ron Paul tuitou um meme racista que empregou a frase. No Twitter, o filho de Jair Bolsonaro, o recém-eleito homem forte do Brasil, gabou-se de conhecer Steve Bannon e unir forças para derrotar o “marxismo cultural”. (…)

O “marxismo cultural” também é um dos temas favoritos do Gab, a rede de mídia social em que Robert Bowers, o homem acusado de matar 11 pessoas em uma sinagoga em Pittsburgh no mês passado, passou algum tempo. (…)

Em seu manifesto de 1 500 páginas, o norueguês de direita Anders Breivik, que matou 77 pessoas em 2011, invocou o “marxismo cultural”. Repetidamente. “Ele quer mudar o comportamento, o pensamento e até as palavras que usamos”, escreveu. “Até certo ponto, já o fez.”

De acordo com seus oponentes ilusórios, “marxistas culturais” são uma aliança profana de aborteiros, feministas, globalistas, homossexuais, intelectuais e socialistas que traduziram a velha campanha esquerdista para levar os privilégios das pessoas da “luta de classes” à “política de identidade”. (…)

Alguns dos teóricos da conspiração que traçam as origens do “marxismo cultural” atribuem um significado desproporcional à Escola de Frankfurt. (…)

Muitos membros da Escola de Frankfurt fugiram do nazismo e foram para os Estados Unidos, onde supostamente carregavam o vírus do marxismo cultural para a América.

O discurso mais amplo em torno do marxismo cultural hoje se assemelha a uma versão do mito do “bolchevismo judeu” atualizada para uma nova era.

Nos anos após a Revolução Russa, os fantasistas aproveitaram o fato de que muitos dos seus instigadores eram judeus para sugerir que as pessoas poderiam economizar tempo equiparando o judaísmo ao comunismo – e matar ambos com um único golpe. (…)

A defesa do Ocidente em nome da “ordem” e contra o “caos” é um assunto antigo que se apresenta como um novo insight. Isso levou a danos graves no último século. (…)

Esse “marxismo cultural” é uma calúnia grosseira, referindo-se a algo que não existe, mas infelizmente não significa que pessoas reais não vão pagar o preço, como bodes expiatórios para apaziguar um sentimento crescente de raiva e ansiedade.

E, por essa razão, o “marxismo cultural” não é apenas um desvio triste de enquadrar queixas legítimas, mas também uma atração perigosa em um momento cada vez mais desequilibrado.

Anders Breivik faz a saudação nazista em tribunal

Kiko Nogueira
No DCM
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"Para militares brasileiros, Venezuela é uma Síria em potencial"

Paulo Arantes: a partir da redemocratização, violência passou a ser o nexo social central
Em entrevista concedida ao Brasil de Fato, em novembro de 2018, Paulo Arantes, professor de Filosofia aposentado da Universidade de São Paulo (USP), definiu assim o que chamou de “encrenca brasileira”: “abriu-se a porteira da absoluta ingovernabilidade no Brasil”. Nos primeiros dias de janeiro de 2019, Paulo Arantes participou, em Porto Alegre, de uma conversa com um grupo de lideranças políticas, sindicalistas, professores universitários e representantes de movimentos sociais sobre o cenário político que se abre no país a partir da vitória de Jair Bolsonaro nas eleições do ano passado. O ponto de partida dessa conversa foi o detalhamento desta noção de ingovernabilidade que, na avaliação de Arantes, é um fenômeno que não se restringe ao Brasil.

Segundo ele, o Brasil tornou-se ingovernável não no sentido mais tradicional da palavra, de que não possa haver um governo e instituições formalmente funcionando, mas sim em um sentido mais profundo: falta o que governar, o que vai se governar exatamente? Em sua reflexão sobre as raízes dessa governabilidade, Paulo Arantes recua até 1964, quando a democracia foi interrompida no Brasil por um golpe de Estado. Para ele, a ideia de um que país periférico como o Brasil pudesse se tornar uma democracia com desenvolvimento social “foi rifada em 64”. Essa inviabilidade vai se tornar ainda mais evidente com a eleição de Collor, em um momento em que o capitalismo vivia um processo de reestruturação produtiva em nível internacional.

“A partir da redemocratização, violência passou a ser o nexo social central”

Neste momento de “catástrofe nacional”, no entanto, assinala Arantes, emerge um partido de massas, renovando as energias utópicas na sociedade brasileira. Para ele, porém, essa novidade que foi a criação do Partido dos Trabalhadores, ignorou o diagnóstico da inviabilidade de construção de um projeto nacional, estabelecido em 64. “Havíamos batido no teto e a lógica era outra. A partir do período da redemocratização, a violência passou a ser o nexo social central”, sustenta. A sociedade estava mudando radicalmente e isso não foi percebido como deveria ser. O PT cresce, obtém sucessivas vitórias eleitorais e começa a irrigar esse “campo catastrófico” (uma sociedade onde a violência vai se tornar o principal nexo social) com dinheiro, via políticas públicas. “Isso ruiu. Não se governa mais. É disso que se trata”, resume.

No Rio de Janeiro, exemplifica, as milícias tem poder suficiente para esnobar os políticos, já administram vastos territórios e fazem parte da ingovernabilidade. Em São Paulo, o PCC (Primeiro Comando da Capital), os evangélicos, os agentes do Estado e os trabalhadores precarizados habitam mundos incomunicáveis. “A única coisa que os reúne é o dinheiro. Tem que circular uma grande massa de dinheiro nas periferias, se não a coisa explode”. Os governos do PT, na opinião do professor, executaram com primazia um conjunto de políticas compensatórias, apoiadas pelo Banco Mundial, mas esse modelo bateu no teto.

“As periferias estão por toda parte”

Na avaliação de Paulo Arantes, não há mais possibilidade de um planejamento estratégico em um país como o Brasil. “Fazemos parte de uma sociedade global que está se periferizando. A diferença entre o Brasil e a França não é mais tão grande. As periferias estão por toda a parte. O mundo inteiro está nestas periferias. Não temos mais uma sociedade salarial. Quem herdar essa massa falida vai governar o quê? “, questiona. Para o professor da USP, o círculo militar que cerca Bolsonaro tem esse diagnóstico em mente. Ele chama atenção para uma recente entrevista do general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), onde ele disse: “se o governo não der certo, a única coisa que a minha geração terá visto dar certo foi o Pelé jogar bola”. A entrelinha dessa declaração, avalia Paulo Arantes é: essa é a última cartada que nós temos. Há um colapso do sistema andamento e precisamos (nós, militares) entrar em campo. E pensam: Se conosco não der certo….

Ele destaca outra marca importante do diagnóstico que os militares fazem sobre a situação do Brasil e do mundo. A maior parte do staff militar de Bolsonaro é formado por veteranos da contra-insurgência, como é o general Augusto Heleno, que comandou a força militar do Brasil no Haiti. “Eles sabem que poder militar depende de industrialização e que não dá mais. Ficamos muito para trás (com o processo de desindustrialização que o país viveu nas últimas décadas). Além disso, eles preveem que vem aí um grande conflito mundial, envolvendo Estados Unidos, China e Rússia, e que o Brasil precisa se realinhar imediatamente. Para eles, há uma Síria do nosso lado, que é a Venezuela, onde a Rússia, a China e outros países já estão presentes. Se a Venezuela explodir, o conflito vai vazar por todas suas fronteiras. Esse diagnóstico explicaria a velocidade com que o novo governo aderiu à agenda política dos Estados Unidos.

“A construção da sociedade do trabalho foi para o brejo”

Como é que a esquerda pode se contrapor a esse cenário? – questiona Paulo Arantes. O início de sua resposta a essa questão: “não é com um programa de 40 anos atrás”. Para ele, a esquerda de um modo em geral e, em especial, o PT, não deu a devida a atenção para as profundas mudanças que aconteceram na sociedade brasileira. “Acabou a utopia varguista da carteira assinada. Não tem mais solução pelo pleno emprego no mundo inteiro. A construção da sociedade do trabalho foi para o brejo”, opina. A direita e a extrema-direita, por outro lado, entenderam muito melhor o que estava se passando, avalia. “A era de direitos humanos pós-guerra fria está encerrada. O renascimento da política se deu com a extrema direita. Ela reinventou a luta política no mundo.”

O corolário desse avaliação, para a esquerda, conclui Paulo Arantes, passa, entre outras coisas, pela atualização do diagnóstico acerca do tipo de sociedade na qual vivemos hoje, com a formação de crescentes periferias ingovernáveis pelo mundo inteiro. Além disso, esse diagnóstico deve vir acompanhado por novas respostas a questões nada singelas, como, por exemplo: o que fazer, do ponto de vista da luta política de esquerda, em uma sociedade onde a violência passou a ser o principal nexo social?

Marco Weissheimer
No Sul21
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Ataques ao governo unem facções rivais no Ceará

Pacto firmado entre PCC, CV e GDE apontam para união contra inimigo em comum, segundo analistas; mensagens atribuídas aos grupos reforçam pacto temporário

Mensagem deixada em um posto de saúde durante os ataques
Foto: Arquivo pessoal

Um total próximo de 100 ataques a prédios públicos, queima de ônibus e até a explosão de uma bomba em viaduto alastrou o clima de insegurança pelo Ceará desde a última quarta-feira (2/1). Ao menos 100 pessoas estão presas, suspeitas de participarem dos ataques. Todas as ações são fruto de um pacto firmado entre facções criminosas rivais contra o governo estadual após a fala do secretário de Administração Penitenciária, conforme explicam especialistas e apontam “salves” (mensagens) atribuídas aos grupos.

Os ataques no Ceará tiveram início com uma fala de Luis Mauro Albuquerque, escolhido pelo governador Camilo Santana (PT) para assumir a pasta recém-criada. Em seu primeiro discurso no cargo, ele prometeu que não haveria mais a separação de presos no sistema prisional. Hoje, há cadeias específicas para membros de cada grupo, reflexo de outros ataque feitos em 2017 no Ceará após execuções dentro dos presídios no Amazonas – durante guerra das facções CV (Comando Vermelho, natural do Rio de Janeiro) e PCC (Primeiro Comando da Capital, originária de São Paulo).

A ameaça do secretário fez com que as facções rivais compactuassem em dar uma resposta ao governo. Além de CV e PCC, o estado tem atuação da GDE (Guardiões do Estado, grupo local com parceria junto ao grupo paulista) e da FDN (Família do Norte, atuante principalmente na região Norte e de presença mais reduzida no Ceará, além de ex-parceira do CV – rompeu vínculos no ano passado). O pacto de não agressão é transmitido nos “salves”, nome dado para as mensagens com ordens dadas pelos líderes das organizações e repassadas aos demais membros.

“Meus irmãos GDE, nós pede humildemente que vocês entendam que se chegar qualquer liderança, PCC ou CV na nossas cadeias, que os irmãos acolham e der tratamento de um bandido a eles, der água, comida, escova, pasta, roupas e lençol”, diz trecho de um salve atribuído à cúpula do GDE. “Em cima desta situação vamos dá essa trégua porquê é o está que está fazendo isso propositalmente no intuito de nós se matar.

Como nós sabemos disso e da intenção do estado judiciário, nós não iremos satisfazer a vontade do estado.

Iremos recebe-los os nossos inimigos com a dignidade de bandido e esperamos o mesmo feedback do lado deles”, continua o texto.

Outro texto divulgado é atribuído genericamente ao “crime organizado”. “Não iremos tolerar opressão e nem mudança alguma dentro do sistema. Se não estiverem acreditando vão pagar um preço muito alto. Porque não vamos aceitar regime de carrasco de braços cruzados não”, diz o texto, que segue com ameaças ao governo cearense. “Assim que vocês mexer com qualquer um de qualquer facção, a ordem é pra tocar o terror geral, tacar fogo em bancos, Correios, delegacias e derrubar pontes e viadutos. Vamos deixar o estado num estado de calamidade pública”, prometem.

São cinco dias consecutivos de ataques. De lá para cá, o Ceará acelerou a inclusão de 373 novos policiais que estavam na preparação acadêmica, mais 220 agentes penitenciários, além de reforço com 300 integrantes da Força Nacional, enviados pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL) e pedido de suporte de policiais militares de outros estados do Nordeste. A Bahia enviou 100 integrantes e há a expectativa de mais suporte. A Polícia Civil também indiciou mais de 50 integrantes de facções que já estão presos, acusados de divulgarem os “salves”. Esta reação é diferente da adotada em outros momentos.

No ano passado, o Ceará registrou outra onda de ataques também voltado à questões prisionais. Segundo Cláudio Justa, advogado e presidente do Copen (Conselho Penitenciário do Ceará), ações interrompidas quando o estado cedeu e dividiu as facções em presídios diferentes. “O que acontece hoje é diferente do que tivemos em 2016 e abril de 2017. Tem uma reação de rua por parte das facções, que estão nos territórios sobretudo mais vulneráveis. Nas outras ações precedentes, houve um recuo do estado, até com receio de se ter o agravamento da situação e um dano maior, não só ao patrimônio, mas também de perder pessoas”, explica.

Segundo Justa, a resposta diferente do estado fez com que as facções se unissem temporariamente contra o “inimigo comum”. “A preocupação para nós que conhecemos a realidade dos presídio, conhecemos as famílias, estes jovens dão o retrato fiel do que acontece. Vemos que tem disposição de tudo ou nada por parte das facções, não só questão do governo estadual, um tanto indulgente, mas com a presença do governo federal e a doutrina de ‘vamos por a casa em ordem’, ‘extirpar o crime’, essa lógica que assumiu o estado no discurso”, aponta.

Os grupos criminosos são formados por jovens “nem, nem, nem”, como explica o advogado. “São garotos jovens e adolescentes que nem frequentam a escola, nem atividade de comércio ou trabalho, nem estão integrados a qualquer atividade social. Esse é o exército cooptado, regimentado pelas facções. É um volume muito grande, eles não tem nada a perder, conseguem levantar dinheiro que dificilmente conseguiriam dentro de um trabalho lícito”, diz.

Estes grupos estão atuantes sobretudo nas periferias das cidades cearenses, locais apontados como escolha de onde a onda de crimes acontece. “Tenho observado que, no lado rico da cidade, não está acontecendo nada, nem um traque. É um silêncio… O pessoal está em casa. Onde está acontecendo tudo isso é na periferia, são nos bairros mais populosos e distantes do lado rico. As facções conhecem o território, sabe onde entrar, onde sair e onde ficar”, aponta Glauciria Mota, socióloga coordenadora do Laboratório de Direitos Humanos, Cidadania e Ética da UECE (Universidade Estadual do Ceará).

A socióloga explica que há dez anos os governantes que comandaram o estado erraram ao não traçarem políticas públicas que combatessem a entrada das facções. Segundo ela, quando o CV e PCC se propagaram para o restante do país e o Ceará, a escolha foi para negar a existência de grupos criminosos nestes territórios e agir na base do enfrentamento. Ela ainda trata da questão com temor de se expandir.

“Também tememos que esta situação possa desencadear algo nacional ou nas regiões Norte e Nordeste, principalmente porque policiais estão vindo de outros estados. O pacto de PCC, GDE, CV e FDN é para combater o que for. Se houver assassinato, não acredito que será dentro do sistema penitenciário, é contra o estado opressor, segundo eles”, explica, listando dois pontos que fazem o governo agir com mais cautela. “Pode ser que o governo endureça. Por enquanto, tem dado proteção e tentado evitar mortes de agentes de segurança. Tem uma rede muito grande de soldados e não atacou o lado rico da cidade, nem pessoas foram mortas. São dois fatores que colocam o governo mais na retaguarda”, argumenta Glauciria.

Posicionamento oficial

Segundo a SSPDS (Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará), o número de presos por envolvimento nas ações criminosas” é de 110. Três pessoas morreram em suposto confronto com a polícia: duas ao atearem fogo em um posto de atendimento do Detran (Departamento Estadual de trânsito) e trocarem tiros com a PM, na madrugada de domingo (6/1), e uma ao atirar contra policiais na estrada CE-010, na quinta-feira (3/1).

“Entre as autuações, está ainda a de um suspeito, preso em flagrante, pela venda irregular de combustíveis a grupos criminosos. Um caminhão-tanque foi apreendido e o homem foi encaminhado para a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco). De acordo com as apurações, o suspeito vendia cada galão de gasolina a R$ 70”, explica a pasta sobre os presos.

A Ponte questionou a SSPDS sobre os reforços solicitados para as Polícias Militares de outros estados nordestinos (quantos estados foram acionados, quais corporações acataram o pedido e quantos integrantes serão enviados), bem como a confirmação de que 100 PMs da Bahia já estão no Ceará. Contudo, a nota da pasta omite responder estas questões.

Através de sua página no Facebook, o governador Camilo Santana explicou que “o esquema reforçado de segurança continuará, e com mais força ainda, por todo o tempo que for necessário para garantir a ordem e colocar atrás das grades todos aqueles que atentarem contra a sociedade”, garantiu. “Esse tem sido justamente o motivo desses atos criminosos: fazer com que o Estado recue dessas medidas fortes, o que não há nenhuma possibilidade de acontecer. Pelo contrário: endureceremos cada vez mais contra o crime. Criamos uma secretaria especialmente para a atuação rigorosa em todos os presídios, agindo com firmeza, dentro da lei e mostrando que o comando é do Estado”, posicionou-se o petista.

Arthur Stabile
No Ponte
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Governo Bolsonaro se esfacela a olhos vistos


Três dias após tomar posse, Jair Bolsonaro descobre, na prática, que governar um país das proporções do Brasil requer muito mais do que frases de efeito e twitters mal escritos.

O verdadeiro tiro no galinheiro provocado pelas declarações do presidente nessa sexta (4) mostrou, mais do que o seu completo despreparo para todo e qualquer assunto, as fissuras já aparentes no relacionamento interno de um governo fadado ao fracasso.

O desespero em que se viram os membros do primeiro e segundo escalões para amenizar os efeitos da fala do chefe, criaram uma cena pastelão de envergonhar Zélia Cardoso, aquela ministra da economia de Fernando Collor.

Trapalhadas coincidentes, o final já é conhecido.

Para que o circo inteiro fosse armado, não foram necessárias mais do que três frases malfadadas.

Aumento na carga tributária para os mais pobres ao passo da redução de impostos para os mais ricos, titubeio na reforma da previdência e interferência no negócio bilionário da Boeing com a Embraer fizeram sociedade, mercado e investidores terem náuseas coletivas de vômito.

Insatisfeitos gregos e troianos, o jeito foi desmentir tudo.

A manchete óbvia de que a equipe econômica havia desautorizado o presidente da República atestou a condição de reles passageiro para aquele que deveria estar a conduzir a nação.

Uma vez recolhido o presidente à própria insignificância, restou aos vassalos do núcleo duro a disputa pelo cargo de eminência parda num governo que muito bem poderia ser representado pela lenda mítica da mula-sem-cabeça.

Aqui as hienas mostraram os dentes.

Onyx Lorenzoni, Gustavo Bebianno e Paulo Guedes se engalfinham entre eles para provar quem possui mais poder.

Na disputa pela maior influência, o casamento poligâmico de Jair Bolsonaro já enfrenta sua primeira grande crise.

Desentendimentos infantis, ciúmes fundamentados, ganância e traições fazem parte do pacote. Bem ao estilo da tradicional família brasileira.

E nessa palaciana lavação de roupa suja, entre bolas nas costas e facadas no estômago, o Brasil – e o mundo – assistem num misto de incredulidade e estupor o esfacelamento de um governo que, no fundo, nada ofereceu, mas que a maioria votante resolveu burramente o nada aceitar.

Carlos Fernandes
No DCM
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Cortina de fumaça e lacração, podemos e devemos ser melhores do que isso

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2019/01/06/cortina-de-fumaca-e-lacracao-podemos-e-devemos-ser-melhores-do-que-isso/

É preciso ouvir a senhora que vai aos cultos todas as quartas e domingos e trabalha como faxineira seis vezes por semana. Sua condição de evangélica não pode ser usada como forma de oprimi-la e silenciá-la por aqueles que se consideram a elite dos oprimidos. Não basta construir projetos progressistas. Eles precisam ser populares. Saber dialogar com o sentimento de uma nação é o xis da questão.

Há uma nova polêmica em curso. Ela diz respeito a se todos os movimentos do governo Bolsonaro que não digam respeito à economia são ou não cortina de fumaça. Com todo o respeito, o debate vem se construindo de forma muito rasa.

O que está em jogo no Brasil são as suas riquezas, o patrimônio nacional, os direitos trabalhistas, mas também as terras indígenas, os direitos das mulheres e LGBTs e a formação escolar de milhões de jovens e adolescentes. Entre outras muitas coisas, como o que nos restou de democracia.

O governo de Bolsonaro é ultra capitalista. Uma soma de interesses de ruralistas, capital financeiro, milicos e judiciário entreguistas, neo pentecostais pilantras e todo tipo de maluco que só pensa em grana e sucesso.

Esse pessoal tem posição diferente aqui e ali, mas concorda no essencial. O essencial é o discurso anti-esquerda com viés anti-corrupção. E que tem como plataforma a defesa da família.

É neste campo da guerra cultural que se estabelece o consenso. De Paulo Guedes, passando pelo general Mourão, por Malafaia, Moro ou qualquer filho do Coiso, o consenso é o discurso na linha da ministra Damares. Que por incrível que pareça se tornou a referência ideológica da tropa. E que sustenta até as sandices da política internacional do Ernesto Araújo.

Evidentemente que isso não é cortina de fumaça. É muito mais do que isso.

Por ser o que unifica, é a cara popular do projeto Bolsonaro. É o que lhe garante militância. É em nome de acabar com Paulo Freire nas escolas que milhares usaram a camisa com Ustra Vive no dia primeiro do ano.

Se isso for tratado como algo menor, o erro cometido será imenso. Mas a questão é COMO fazê-lo.

O discurso da lacração que impede o diálogo e só aceita a fala de alguns em temas que são estruturantes da sociedade que queremos precisa também ser debatido e questionado. Ele é autoritário e contribuiu para o estreitamento do projeto político progressista. É preciso ouvir a senhora que vai aos cultos todas as quartas e domingos e trabalha como faxineira seis vezes por semana. Sua condição de evangélica não pode ser usada como forma de oprimi-la e silenciá-la por aqueles que se consideram a elite dos oprimidos.

As mudanças estruturais que o Brasil precisa fazer para ser uma democracia menos frágil e um país mais justo passam por criar mais direitos para negros e mulheres, por exemplo. Um projeto estruturante de sociedade que não dê prioridade a isso não é progressista e muito menos de esquerda.

O que não significa que ele não tenha que ser construído em amplo debate e respeitando a imensa multiplicidade cultural e de valores do povo brasileiro.

Não basta construir projetos progressistas. Eles precisam ser populares. Saber dialogar com o sentimento de uma nação é o xis da questão.

E neste ponto Bolsonaro foi muito eficiente ao construir um discurso simples que permite destruir todas as nossas conquistas políticas, econômicas e culturais em nome de que “é preciso mudar tudo, talkey?”

Se aqueles que estão na linha de tiro não conseguirem entender que não há dicotomia entre ser contra o discurso de Paulo Guedes e de Damares, que os dois são faces da mesma moeda e que um sustenta a viabilização da agenda do outro, estamos lascados. A quantidade de derrotas que lamentamos será ainda maior do que imaginávamos quando o resultado das urnas foi divulgado no dia 28 de outubro.
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Carlos Bolsonaro troca acusações com PC Siqueira sobre traição do irmão e ex dá indireta: “nojinho”

Repetindo o comportamento infantilizado e o padrão Pitbull do clã, Carlos Bolsonaro se envolveu em nova confusão nas redes sociais neste domingo (6), desta vez com o apresentador e youtuber PC Siqueira, que retuitou post chamando Eduardo de "Bolsocorno".

Thammy e PC Siqueira

Repetindo o comportamento infantilizado e o padrão Pitbull do clã, Carlos Bolsonaro (ou Thammy Miranda) se envolveu em nova confusão nas redes sociais neste domingo (6), desta vez com o apresentador e youtuber PC Siqueira, que retuitou post chamando Eduardo de “Bolsocorno”.

“O corno do @pecesiqueira espalhando fakenews dizendo que os outros é que seriam cornos!”, rebateu Carlos, ao defender o irmão, que na postagem se referia à ex-namorada, Patrícia Lellis, que “teria sido vista em uma balada LGBT acompanhada de um médico cubano e, como se não bastasse, rebolando até o chão”, escreveu no tuíte Eduardo, com a hashtag @feminismoédoença.

PC Siqueira fez trépica comentando a publicação na página de Carlos, com uma imagem em que está escrito: “aoooooo segura que o corno tá putoooo”.


Citada no tuíte, Patrícia Lellis publicou uma indireta em sua página. “Estudem sobre o feminismo para não acabarem com macho de direita que não faz sexo oral porque tem nojinho de vaginas mas acha que compensa isso postando foto segurando arma. Não é culpa minha se a carapuça servir ai do outro lado da tela”, tuitou.


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Bolsonaro inaugura o presidencialismo de assombração


Comoventes os esforços da cobertura televisiva da posse de Jair Messias Bolsonaro. Fez-se de tudo para isolar nas falas neopresidenciais resíduos civilizatórios mínimos.

Houve mesmo quem destacasse como sinal de alento positivo o juramento do empossado, de compromisso com a salvaguarda da Constituição, em esquecimento de que se trata de texto de leitura e declinação compulsórias, segundo as regras do ritual de entronização. Em ato performático complementar e, no mínimo, ambíguo, o vice-presidente, ao tomar posse, declamou a mesma peça como quem dirigia à tropa uma ordem unida.

Cada um escuta o que quer. Nada a fazer a respeito. Há quem enfatize, ao ouvir o empossado, a vocalização dos lugares comuns de respeito à Constituição e de "governar para todos". Mas em época de hipervalorização do "novo", parece mais apropriado destacar o inaudito: a plena vigência de uma ideologia de combate ao "viés ideológico". Supor que se trate de má-fé, pelo evidente contraditório da expressão, talvez seja conceder aos defensores da novidade generosa hipótese de natureza cognitiva.

Parece haver entre eles crença inamovível de que só há "viés ideológico" nas palavras e nos atos dos "inimigos da pátria". Uma vez denunciado e afastado esse viés, a verdade e a realidade emergiriam de forma límpida, para que o Brasil "se reencontre consigo mesmo", tal como posto pelo novo chanceler.

Descreve-se, assim, o trajeto da consciência alienada, a que busca fora dos termos da realidade o significado de todas as coisas. O reencontro com a pátria repõe natureza objetiva da realidade, com o consequente imperativo de um governo de técnicos.

Cada um escuta o que quer; assim é se lhe parece. Tal como nos ensinou o sábio Pirandello. Mas nada do que se diz, em princípio, pode ser tomado como inconsequente.

Se digo que "amo a humanidade", desse ato genérico de fala nada pode ser diretamente inferido em termos práticos. É um daqueles sentimentos oceânicos, cujas consequências são indeterminadas. Mas, se envio a meu vizinho uma ameaça de morte, compreendo que seja prudente que vá à polícia dar parte da ameaça.

Esse é o limite do relativismo: o arco de consequências "expectáveis" — como bem dizem os portugueses — de nossos atos de fala. Em termos diretos, há atos de fala com relação aos quais é imperativo que se vasculhe o âmbito de suas consequências possíveis.

Sem a intenção de estabelecer qualquer analogia entre regimes políticos, é o caso de lembrar de Victor Klemperer, um professor alemão de literatura românica, e de sua obra-prima a respeito da linguagem praticada pelos donos do poder na Alemanha entre 1933 e 1945 ("A Língua do Terceiro Reich", de 1947, foi publicada entre nós em 2009 pela editora Contraponto).

Judeu e exilado em seu próprio país, Klemperer observou de modo fino a medida em que o vocabulário e a linguagem dos nazistas configuravam uma experiência com a realidade do mundo. A análise da linguagem torna-se, dessa forma, essencial à compreensão do experimento histórico e cultural.

Em termos filosóficos, a relação entre linguagem e formas de vida viria a ser consagrada pelo filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein em suas "Investigações Filosóficas", publicadas postumamente em 1953.

Como disse, não parto de qualquer analogia entre regimes políticos. O que aqui iniciamos, há menos de uma semana e a crer nos mantras de celebração de novidades, é um inédito experimento de presidencialismo de assombração. Algo que começa a ser estruturado como linguagem, dotada de formas próprias de classificação das coisas.

A meu juízo, e de modo não exaustivo, a linguagem do presidencialismo de assombração comporta quatro núcleos, dos quais o primeiro aparece como premissa maior. São eles, pela ordem: o Paradigma da Ponta da Praia (PPP); o Paradigma do Horror à Mediação (PHM); o Paradigma Patriótico (PP); e o Paradigma Antimodernismo (PAM).

O PPP — elemento antigo, implícito e estruturante da visão de mundo presidencial — foi apresentado ao país de modo brutal a poucos dias da eleição de outubro passado. Trata-se de alusão a lugar de "desova" de cadáveres de opositores políticos à ditadura e expressão corrente entre os tipos mais duros dos porões daquele regime.

O então candidato prometeu a seguidores enviar a esquerda "para a Ponta da Praia", facultando, é verdade, as menos incanceláveis alternativas da prisão e do exílio. O PPP é elemento cognitivo e operacional de uma visão eliminacionista da política, pela qual o corpo político é percebido como unitário, mantidas as rígidas distinções entre cores: verde-amarelo e vermelho; rosa e azul.

A figura do "inimigo da pátria" retorna, indicando o não pertencimento da esquerda e dos desajustados ao conjunto da nação. Nossa extrema direita, embora cognitivamente preparada para tal, parece não odiar o imigrante. Mas rejeita o estranho, que começa a ser configurado na forma de um inimigo objetivo, o operador do tal "viés ideológico".

O PHM, Paradigma de Horror à Mediação, foi reiterado, durante a diplomação dos eleitos, por meio de exortação ao poder popular. Elemento cultural estruturante da campanha, fez-se acompanhar de uma celebração dos valores e dos instintos pré-políticos.

O componente de abstração necessário à política desfaz-se em prol de um elogio da autenticidade. Os modos de expressão devem relevar de substâncias verdadeiras e impulsos autênticos, livres da ação de mecanismos de contenção.

É compreensível, nessa chave, o horror ao "politicamente correto", o que indica o quanto do combate cultural incide sobre o campo da verdade. Libertos das restrição do "correto", podemos nos sentir livres para dar vazão aos termos de nossos preconceitos e, se calhar, passarmos ao ato.

O tratamento conferido à imprensa durante a posse presidencial só pode ser entendido à luz do PHM, assim como os atos de hostilidade a veículos específicos e de elogio aos aplicativos de comunicação instintiva e imediata.

O PHM traz consigo a repulsa da representação e a necessária identificação com um Chefe, por vezes teologicamente descrito. Enquanto o vínculo — botânico ou não — com a divindade pode ser facilmente debitado na ordem da alucinação, o desconforto com a representação possui âncora material.

Com efeito, se o Chefe pode ser eleito diretamente, pela expressão majoritária do voto, a representação é, dado o princípio da proporcionalidade, fragmentada. Disto resulta que, a despeito dos déficits representativos do sistema, a representação política é um limite físico interposto à vontade do Chefe que encarna a vontade geral.

O recurso a "bancadas temáticas" nada tem de "moderno": é tão somente o delírio do regresso a um mundo anterior à emergência do sistema partidário, sustentado na pretensão de definir quais são os "temas" verdadeiros a levar em conta, de modo não partidário e sem "viés ideológico".

O antiglobalismo, inscrito no PP (Paradigma Patriótico), é mais que doutrina aplicável ao campo das relações internacionais. Ele decorre de uma oposição moral entre o local/nacional e o global, pela qual os valores positivos encontram-se no primeiro par. É, ainda, a crença básica e propiciadora de todas as guerras conhecidas.

O "globalismo" — ou universalismo — exige abstração; implica suplementação imaginativa capaz de vislumbrar uma humanidade comum, para além de imperativos pragmáticos. É esse núcleo do globalismo/universalismo que parece estar sob foco, já que se está a configurar uma outra modalidade um tanto escalena, composta por curiosa associação global de países antiglobalistas.

Mas o ponto essencial é de outra natureza. O antiglobalismo do chanceler Ernesto Araújo, em nada heterodoxo com relação ao que reza o PPP, indica a primazia do local: da família, do "oikos", da cena doméstica, das associações primárias e verdadeiras, conducentes à nossa reunião no âmbito da pátria. São esses núcleos identitários "naturais" que nos distinguiriam e que, portanto, são incanceláveis.

Jean-Paul Sartre, em novela luminosa, "A Infância de um Chefe", descreveu o processo de "cura" de um jovem desenraizado — que nada sabia de si, de suas vontades e do mundo em geral —, por meio de sua conversão à família, à terra, à pátria. Um elemento essencial e ativo do processo foi representado pelo antissemitismo: a repulsa aos judeus foi condição necessária à descoberta de si do personagem Lucien Fleurier como um sujeito enraizado.

O que ali se manifesta é o estereótipo, generalizado a partir dos processos de emancipação do judeus, do judeu como "desenraizado", como incapaz de dissolver-se na massa do "volk", como estranho ao pertencimento nacional. Foi essa a perspectiva que esteve presente na condenação do também capitão Dreyfuss e que constitui um dos elementos mais fundos do antissemitismo moderno e contemporâneo.

A estrutura cognitiva do argumento antiglobalista é antissemita, ainda que seus propugnadores digam — e creiam — que não o são. O argumento exige bodes expiatórios, matéria, para dizer o mínimo, não estranha ao campo do antissemitismo.

Por fim, há o aspecto antimodernista do experimento do Presidencialismo de Assombração. Com efeito, o PAM — Paradigma Antimodernista —, ao reintroduzir a dimensão teológica no campo político, tal como evidencia a associação entre a eleição presidencial e atos providenciais, vincula-nos a uma experiência de mundo inimiga do duplo, da ironia, da cultura do absurdo e das vantagens cognitivas do espírito de contradição.

Ainda que tenha havido modernistas sisudos, a estética do humor e da distorção foram fundamentais no espírito do modernismo, sob cuja égide temos vivido, de algum modo, há cerca de um século.

Por diferentes caminhos, o espírito modernista configurou nossa experiência de país. Por vezes com ímpeto renovador reduzido, tal como o fizeram notar Mário de Andrade, em revisão crítica do movimento feita nos anos 1940, e Antonio Candido quando mencionou a "rotinização do modernismo".

Mesmo com tais reservas, é contra tal pano de fundo que o PAM, tal como Nêmesis, pretende reinventar o país e, de modo mais direto, desfazer os efeitos dos últimos 30 anos, se calhar, os de maior liberdade política e cultural vividos pelo país.

O Presidencialismo de Assombração é o elemento operador do governo civil-militar ora implantado, decorrente da eleição de 2018.

Possui — ou assim quer nos fazer crer — reservas de ímpeto, ancoradas em valores potencialmente letais ao modo pelo qual praticamos

a democracia. Contém, dessa forma, elementos de inovação, que exigirão energias interpretativas renovadas. Não é brincadeira, a coisa.

Renato Lessa é professor associado de filosofia política da PUC-Rio e pesquisador associado do Centro Roland Mousnier, da Universidade de Paris 4-Sorbonne.
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Um assessor muito especial

Ele ao lado de Thammy Miranda
Em matéria de seu portal, o jornal Folha de S. Paulo destaca que “o presidente Jair Bolsonaro escolheu Filipe Garcia Martins como assessor-chefe adjunto da assessoria especial do presidente”. Segundo a matéria, “Martins é um dos discípulos do escritor Olavo de Carvalho e vinha auxiliando o chanceler Ernesto Araújo no governo de transição”. Ainda de acordo com o jornal, como assessor pessoal do presidente, ele deve atuar especialmente na área internacional.

A surpreendente trajetória profissional e política do jovem talento que, com apenas 31 anos, emergiu em meio aos “congelados” do governo atual, é algo que só a “meritocracia” explica. Uma consulta no site Linkedin mostra que, entre fevereiro de 2015 e julho de 2016, ele foi funcionário da Embaixada dos EUA no Brasil. Aliás, ao que parece, o centro de convergência não apenas dos conceitos políticos adotados pelo novo ministro de Relações Exteriores, como também dos nomes sugeridos.

Diz o Linkedin que, nesse período, o indicado desempenhou diversas funções junto à Embaixadas dos Estados Unidos, em Brasília. O primeiro item em destaque é “responsável pela elaboração de pesquisas, estudos e relatórios sobre a conjuntura política e econômica do Brasil, com ênfase na relação bilateral com os EUA”. Outras tarefas do novato funcionário foram “auxílio na recepção de autoridades nacionais e internacionais, bem como no planejamento e organização de reuniões”.

Em janeiro de 2018, Filipe Martins Garcia assume a Secretaria de Assuntos Internacionais do PSL, o partido do atual presidente, eleito em novembro. Antes da atual nomeação, junto com o deputado Eduardo Bolsonaro, ele desfilou com desenvoltura pelos seletos ambientes da ultra-direita norte-americana. Em seu twitter, postou fotos posando ao lado dos senadores Ted Cruz e Marco Rubio, de Steve Bannon e do genro e assessor de Trump, Jared Kushner.

No Senhor X
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Lavanderia press


É de uma ironia cruel o fato de que, iniciado circo fascista dos Bolsonaros, a turba de jornalistas que mentiu, manipulou, inventou, deturpou e, no limite, se omitiu antes e durante o golpe que derrubou Dilma Rousseff, em 2016, esteja sendo chamada, agora, de esquerdista.

Tudo bem que a designação, usada como adjetivo pejorativo, venha dessa tropa de débeis mentais que dá suporte digital às sandices do Bozo, mas, ainda assim, é uma injustiça que desanda para uma malandragem antiga: a lavagem de biografia.

Na última década, assistimos, não sem alguma estupefação, dezenas de jornalistas brasileiros se alinharem ao antipetismo primário e à manipulação rasteira de informações para achincalhar os governos do Partido dos Trabalhadores, demonizar ações da esquerda e, mais grave, criminalizar os movimentos sociais. A maioria se alistou nesse exército de bajuladores de patrões apenas por sabujismo, puro e simples, certos de que não teriam que se preocupar com o futuro.

Em todas as redações, o sinal verde para atacar e tripudiar o petismo gerou um fenômeno bifurcado: de um lado, jornalistas experientes aderiram à loucura antipetista de olho na sobrevivência e na possibilidade de ascensão, em meio à fulminante decadência do jornalismo impresso e analógico; e, de outro, o surgimento de uma nova geração de monstrinhos competitivos, lapidados nos cursinhos de trainee das velhas marcas de imprensa, adestrados para fazer, literalmente, qualquer coisa que seus chefes mandarem.

O resultado foi a consolidação de um subjornalismo, baseado numa visão unificada e burra da reportagem, ditado pelo baronato de mídia, voltado basicamente para uma classe média historicamente iletrada e apavorada, e para um lumpesinato urbano que começava a migrar para o WhatsApp – terreno fértil para a propagação de mentiras facilmente absorvidas pelas alminhas pequenas que inundam as redes sociais, na internet.

Ao anunciar uma mudança no eixo de alimentação de verbas para o SBT e a Record, desprezando o Grupo Globo, e ignorar completamente os jornalões remanescentes, Jair Bolsonaro forçou os patrões da velha mídia a liberar suas hordas para pressionar o novo governo, de modo a, como de costume, forçá-lo a se submeter a seus habituais caprichos. Mas era tarde demais.

Essa perda de timing, aliada à perda de credibilidade dos veículos de comunicação, ao longo dos últimos 15 anos, tornou ainda mais bizarra essa virada de opinião de certos jornalistas, nas redes sociais. O que antes era naturalizado sem nenhum pudor – o estado policial, as perseguições políticas, as prisões arbitrárias, as condenações sem prova, a corrupção dos amigos – passou a causar horror e indignação.

Gente que babava de ódio contra o PT, jornalistas subalternos que apoiaram o processo criminoso de impeachment contra Dilma para, em seguida, participarem daquela entrevista patética com Michel Temer, no Roda Viva, estão agora no Twitter e no Facebook fazendo textões contra o tratamento que a imprensa teve na posse do Bozo, como se não tivessem culpa direta por tudo que está acontecendo.

Eu, de minha parte, não vou deixar essas madalenas caírem no esquecimento, impunemente.

Leandro Fortes
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Não foi delírio, foi ensaio


O que assistimos bestificados, nessa primeira semana de janeiro, como se a virada do ano tivesse nos levado a outro país, não foi ao início de um novo governo, mas à implantação de um novo regime político, de traço teocrático-militar-fundamentalista e nitidamente ultraliberal na economia. É preciso entender sua natureza e não apostar que terá vida curta.

É ilusão também acreditar que os absurdos da semana inaugural foram apenas expressões de regozijo e júbilo, temperados pelo revanchismo, na chegada ao poder. O presidente Bolsonaro tomou posse e prosseguiu brandindo a retórica de guerra ao “inimigo interno”, especialmente PT, esquerda, jornalistas e veículos de comunicação (exceto as duas TVs amigas). Ao contrário do que alguns esperam, ele não vai descer do palanque nem abrandar o discurso, pois isso é próprio da natureza do regime e faz parte de sua estratégia.

Engolimos com naturalidade a proclamação de inverdades, como a de que ele veio libertar o país do socialismo que nunca passou por aqui, ou a de que foi esfaqueado por “inimigos da pátria”, apesar da conclusão da PF, de que foi obra solitária de um desequilibrado. E tome tuitadas contra ONGs, índios e destruidores da família e dos bons costumes, com ministros da tropa ideológica fazendo coro. Quando se aventurou a falar sobre ações de governo, Bolsonaro explicitou seu despreparo, trombando com a própria equipe: confirmou um falso aumento de imposto, falou em idades mínimas de aposentadoria que desacreditam a reforma pretendida e questionou a fusão Embraer-Boeing, que os privatistas de Paulo Guedes aplaudem.

A semana inaugural não foi um happening de chegada, foi ensaio do que virá. A cruzada contra a esquerda, a imprensa, a ideologia de gênero, o marxismo cultural, a doutrinação e erotização das crianças, entre outras assombrações, vai continuar, enquanto as alas operacionais do governo (militares, Guedes e Moro) fazem seu trabalho. É preciso fidelizar os 39,2% de eleitores que elegeram Bolsonaro (em votos válidos), e danem-se os outros 60,8% que não votaram nele, votando em branco, nulo ou não comparecendo.

As abobrinhas ideológicas entretem, deixando em segundo plano o desmonte de tudo o que significou avanços sociais e civilizatórios. E não estou falando de governos petistas, mas do pacto firmado na Constituição de 1988. Rompido para que o PT fosse tirado do governo, levou à eleição de Bolsonaro. Por tudo isso, ele não vai descer do palanque.

Despedida

Interrompo aqui minha colaboração com o Jornal do Brasil, iniciada há quase um ano, quando voltou a circular impresso para ocupar seu importante lugar na história da imprensa brasileira.

Neste momento político tão incerto e insólito, é grande a responsabilidade de jornais, jornalistas e de todas as mídias livres diante de um governo autoritário, anticultural e avesso ao contraditório. O Congresso será fatalmente amestrado e o Judiciário tende a continuar lavando as mãos, como tem feito desde que começou a ser gestado, com a Lava Jato e o impeachment, o esvaziamento da democracia e a relativização do Estado de Direito. Movimentos sociais estarão sob ataque e a oposição partidária terá força limitada. Caberá, sobretudo, à imprensa a tarefa de fiscalizar o governo, levar seus atos ao debate e iluminar, com informação e verdade, o cenário sombrio.

Assim, é com um travo de pesar que deixo a liça diária para retomar um projeto acadêmico interrompido e atender a outras urgências pessoais. Tenho com o JB o compromisso de retomar a colaboração, se não diária, pelo menos semanal. Ao Omar Peres reitero o respeito pela ousadia empreendedora e agradeço a oportunidade de ter ocupado este honrado espaço. Obrigada aos colegas que, com fibra profissional, vêm sustentando o novo JB: Gilberto Meneses Cortes, Toninho Nascimento, Octavio Costa e Alexandre Machado e toda a valorosa redação. Muito obrigada aos leitores que me honraram com a leitura, a crítica e o incentivo. Até breve.
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Paulo Guedes foi “fiador” de empresa suspeita de fraude

Negócios causaram prejuízo a fundos de pensões de estatais


Da Fel-lha:

Guedes foi fiador de empresa de prateleira, segundo Procuradoria em Brasília

Documentos de fundos de pensão, sob análise do MPF (Ministério Público Federal) em Brasília, mostram que o ministro da Economia, Paulo Guedes, atuou como uma espécie de fiador de negócios suspeitos de fraude, feitos por uma de suas empresas com entidades de previdência patrocinadas por estatais. (...) Pelos relatórios da Funcef, fundação previdenciária dos empregados da Caixa, a experiência de Guedes compensaria a falta de segurança e de garantias dos investimentos.

O ministro é descrito como pessoa-chave no controle da destinação dos recursos. Caberia a ele, segundo os documentos, “participar ativamente das estratégias de investimento e desinvestimento”.

Guedes é alvo de três investigações, na Polícia Federal e na Procuradoria da República no Distrito Federal, para apurar indícios de gestão fraudulenta ou temerária ao captar e aplicar, a partir de 2009, R$ 1 bilhão de sete fundos de pensão. Além da Funcef. estão Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras) e Postalis (Correios).

O dinheiro foi aportado nos fundos de investimento em participações (FIPs) BR Educacional e Brasil de Governança Corporativa, por ele criados, e usado em projetos diversos. (...) a suspeita é que transações com eles geraram ganhos excessivos para Guedes, em detrimento das entidades que injetaram o dinheiro, responsáveis pela aposentadoria complementar de milhares de empregados das estatais.

Para administrar os recursos, Guedes criou a BR Educacional Gestora de Ativos. Segundo as investigações, apesar da alta cifra captada, a empresa não tinha experiência, tendo, em 2009, obtido recentemente autorização da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) para operar.

Além disso, a primeira empresa a receber investimentos, a BR Educação Executiva S.A., era, segundo investigadores, “de prateleira”. Havia sido criada em abril de 2009 por um escritório de advocacia especializado em vender CNPJs.

(...) Pelas investigações em curso, a empresa recebeu R$ 62,5 milhões do FIP BR Educacional. Não tinha patrimônio líquido, histórico de faturamento ou qualquer outra garantia.

(...) Guedes atuou nas duas pontas do negócio. Foi presidente do conselho administrativo da empresa, que recebeu recursos dos fundos de pensão. Ao mesmo tempo, era sócio majoritário da gestora, que decidia o destino do dinheiro. Para os investigadores, esse duplo papel pode configurar um conflito de interesses. (...)

O roteiro do investimento de R$ 62,5 milhões, iniciado em 2009, terminou em 2015 com prejuízo de R$ 22 milhões aos fundos de pensão (valores atualizados pela Selic, a taxa básica de juros da economia), de acordo com a força-tarefa. (...)

No CAf
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Dilma: A “inteligência” na qual não se deve acreditar

Ex-presidenta rebate declarações do senhor Heleno e aponta falhas do GSI na espionagem realizada pela NSA, no grampo feito no Planalto e no atentado na campanha presidencial


A “senhora Rousseff não acreditava na inteligência”. A declaração é do “senhor Heleno” ao assumir o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. Tal afirmação vem sendo feita pelo “senhor Heleno” em todas entrevistas dadas à imprensa. Em vista disso, é inevitável tratar do assunto.

De fato, durante meu mandato, tive várias situações de manifesta ineficácia do GSI e do sistema de inteligência a ele articulado.

Houve falha, por exemplo, ao não detectar e impedir o grampo feito ilegalmente no meu gabinete, em março de 2016 – sem autorização do Supremo Tribunal Federal –, quando foi captado e divulgado meu diálogo com Luiz Inácio Lula da Silva, às vésperas dele ser nomeado para a Casa Civil

O caso mais grave, entretanto, ocorreu em 2013, por ocasião da espionagem feita em meu gabinete, no avião presidencial e na Petrobras pela National Security Agency (NSA), a agência de inteligência dos EUA.

Os setores da inteligência brasileira não só desconheciam que a interferência vinha ocorrendo há tempo – só souberam após o caso Snowden – como sequer sabiam os meios necessários para bloqueá-la. Nem mesmo sabiam o que havia sido captado pela NSA nos referidos grampos.

Uma “inteligência” ligada à Presidência da República que não tem conhecimento, capacidade e tecnologia para enfrentar a moderna espionagem cibernética não é crível.

Na verdade, a própria defesa da soberania do país exige que nela não se acredite para que se possa tomar todas as medidas necessárias para torná-la efetiva e contemporânea. Negar tal fato só atrasa o processo.

Aliás, a falha mais recente ocorreu no governo Temer, o que evidencia que tudo continua igual no setor de inteligência. Durante a campanha, quando o atual presidente, então candidato, foi alvo de atentado em Juiz de Fora, a “inteligência” já supostamente reconstruída, desconhecia a ameaça e, portanto, não pode impedi-la.

Tais exemplos mostram que a inteligência do governo ainda não é credível.

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O banquete dos vitoriosos, militares e juízes


Para os que perdem o sono com a expectativa de ampliação e a institucionalização do poder militar, não se enrolem em dúvidas: já se está em pleno processo a institucionalização do poder militar. Ou seja, é fato.

É curioso acompanhar jornalistas escandalizados com as afirmações bizarras dos generais Augusto Heleno e Eduardo Villas Boas, de que Bolsonaro foi o caminho utilizado pelas Forças Armadas “para libertar o Brasil do socialismo”. Jornais e jornalistas que chegaram a incluir o decreto da participação social na relação das medidas bolivarianas, que escandalizaram meras intervenções na Wikipedia como sinais da ameaça totalitária, agora se espantam com o fato de os militares terem acreditado em seus fakenews.

Em sua entrevista à Globonews, o general Augusto atribuiu a um genérico “direitos humanos” o fato de haver traficantes armados de metralhadoras. Ninguém ousou questioná-lo, lembrando do papel das milícias, compostas por ex-PMs e ex-militares, ou indagando dele que organização de direitos humanos, cáspite!, defenderia traficante armado. Pode uma afirmação dessa gravidade, do segundo homem da hierarquia do governo, passar sem nenhum questionamento? E nenhuma objeção aos episódios narrados, que supostamente demonstrariam a propensão bolivariana de Dilma: uma suposta intenção de interferir nos currículos dos colégios militares

O governo Dilma era tão temeroso em relação aos temas militares, a ponto de abafar os trabalhos da Comissão da Verdade, da Anistia e dos Desaparecidos. E recuar rapidamente no projeto dos conselhos populares, um avanço democrático (e gerencial) fantástico, assim que foi taxado de “bolivariano” pelo jornalismo de guerra.

O general acertou em cheio, no entanto, quando indagado sobre os malefícios para o governo Dilma da extinção do Gabinete de Segurança Institucional (GSI): “Ela ficou sem informação e perdeu o mandato. Preciso falar mais?”. Claro que não. Foi o mesmo erro no qual incorreu Fernando Collor, ao fechar o SNI (Serviço Nacional de Informações), ao invés de direcioná-lo para estratégias de defesa do Estado e da presidência.

Há muito tempo as Forças Armadas já trabalhavam com o conceito de guerra híbrida especializaram-se em guerra eletrônica. No antigo Brasilianas, entrevistei especialistas da ABIN e do Exército, sobre esse novo campo. E, em uma guerra que foi fundamentalmente de informações, nem o governo Dilma, nem o PT, cuidaram minimamente de uma estrutura especializada para esses jogos, nem após a revelação da espionagem da NSA.

É óbvio que a criação do fantasma do chavismo foi peça central em um jogo de tomada de poder, assim como a bandeira da luta anti-corrupção foi um mero pretexto para juízes escalarem a carreira política.

Militares e juízes foram essenciais para a eleição de Bolsonaro, mantendo Lula fora do jogo: o desembargador João Pedro Gebran Neto, com a condenação em segunda instância; o general Villas Boas calando qualquer manifestação do STF com um mero Twitter. E sempre jogaram estrategicamente com vazamentos, como foi o infausto grampo do diálogo entre Dilma e Lula.

Depois de conquistado o poder, com Bolsonaro, todos passam a se comportar como conquistadores, novos-ricos do poder, curtindo com regalo a tomada da cidadela Brasil.

É o caso do juiz Marcelo Bretas, celebrando a vitória com o novo governador do Rio, Wilson Witzel, inclusive aceitando sua carona para a posse de Bolsonaro. Ou o desembargador Gebran Neto sendo homenageado pelo novo governador do Paraná e exibindo a companhia de Joice Hasselman, YouTuber que se notabilizou pelo antipetismo. E, no caso mais emblemático, Sérgio Moro assumindo formalmente seu espaço no novo latifúndio.

Não se parou nisso. A criação de versões fantasiosas da realidade tornou-se uma indústria disseminada. Não há mais divisão entre a realidade e a fantasia, fatos e versões. Vive-se um período de absoluta irracionalidade, um mundo de alucinações, de pesadelos, sem nenhuma âncora nas avaliações racionais, uma espécie de Labirinto de Creta no qual a única certeza é encontrar um Minotauro no final do caminho.


Agora, o grupo que pretendia “refundar” o país, implantar o “Iluminismo”, apud Ministro Luís Roberto Barroso, conseguiu implantar um governo que se baseia em 4 paradigmas, de acordo com a definição do cientista político Renato Lessa:
  • Em vez da democracia popular do PT, o Paradigma da Ponta da Praia, a menção ao local de desova de corpos na ditadura.
  • Em vez do republicanismo ingênuo, o Paradigma do Horror à Mediação.
  • Em vez do projeto nacional, o Paradigma Patriótico, antiglobalização, anti diversidade, alicerçada na mais rotunda religiosidade.
  • Em vez das políticas de diversidade, o Paradigma Antimodernismo, instituindo a teocracia no comando do país.
Agora é esquecer o leite derramado e montar uma frente contra o obscurantismo.

Luís Nassif
No GGN
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O time de guardiães

Os primeiros passos do governo, e do próprio Jair Bolsonaro, parecem planejados para preocupar os militares. O descritério da entrega de cargos na problemática Educação e nas complexas Relações Exteriores, por exemplo, não precisaria ser acompanhado pelo coro de desvarios, vindos de vários ministros, para indicar o perigo à frente.

Já esses dias iniciais desacreditam muito o propalado sistema de contenção de desvarios operado pelos 11 militares do governo.

O problema prático é o alto risco de embates internos, com potencial de crises. Em sentido mais amplo, o que está em jogo para os militares, se a contenção falha, é o comprometimento das Forças Armadas como responsáveis pelo governo desnorteado.

Por intermédio de generais reformados, o Exército aceitou esse risco, curvando-se outra vez à ilusão primária de salvador da pátria.

Não teria como negar sua responsabilidade, tanto na identificação que permitiu a um oficial excluído, sem credencial alguma para tal crédito, como na participação associada à condição de militares.

Na formação dessas linhas cruzadas, Marinha e Aeronáutica mantiveram-se à distância, entregues a um profissionalismo exemplar. Talvez jamais tenha havido aqui outro período de tão correta conduta militar como a dessas duas instituições, nos últimos tempos.

Por isso a generalização da palavra militares, em assuntos políticos atuais, é uma utilidade imprecisa e injusta. Militares da Marinha e da Aeronáutica não estão nos jogos da política. Não deixam de ser incógnitas, porém, na eventualidade de um insucesso governamental que pesaria, por certo, no conceito das Forças Armadas em geral. Mais uma vez.

Militares que entrem na política têm que ser políticos. Sempre existiram. A dubiedade nunca levou a bom resultado. É esta, no entanto, a propensão visível nos desvarios que já escandalizam. Inaugurados, por sinal, pelo próprio Bolsonaro: sua primeira medida na Educação foi de cunho religioso e antiescolar, liberando para faltas os alunos que invoquem motivo religioso.

Celestial

Na trapalhada sobre impostos, cuja alteração Bolsonaro divulgou, ou não sabia o que é IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), ou não sabia o que assinou. Ou os dois desconhecimentos.

Mas ficou o mistério: de onde ele tirou a ideia de que assinara as duas alterações, e ainda explicou a razão de ambas?

O secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra, disse que nada há a respeito das alterações. Onyx Lorenzoni o confirmou. Bem, pode ter vindo diretamente do céu.

Sem remédio

Passadas apenas 48 horas da rescisão cubana com o Mais Médicos, o governo Temer informou e Bolsonaro reafirmou já haver inscritos para 80% das substituições. Das vagas de 8.332 médicos cubanos, só 5.846 substitutos se apresentaram até agora (Folha, 4.jan). Quase um terço das vagas continua em aberto.

O que as “autoridades” e assemelhados mentem no Brasil não os condena, jamais. Condena a imprensa.

Os médicos cubanos, argumentou o humanitário Bolsonaro, eram escravizados. A julgar por suas bagagens de volta — tantas tevês enormes, computadores, equipamentos de som, roupas, tralhas a granel, expostas nos jornais como coisa normal —, aqui é melhor ser escravo. O salário mínimo agora “corrigido”, para 2019, aumenta pouco mais de R$ 1 por dia.

Não é correção, é humilhação.

Janio de Freitas
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ZéDirceu entrevistado por Bob Fernandes


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