3 de jan de 2019

Maduro entrevistado por Ramonet


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Reunião do ministério, economia de palitos e gasto de inexperiência


O resultado da reunião do ministério Bolsonaro com o ‘chefe” foi pífio para um governo que, afinal, está há três meses em organização.

Diz a Folha:

O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmou nesta quinta-feira (3) que o governo identificou “uma movimentação incomum de exonerações e nomeações e recursos destinados a ministérios” no apagar das luzes da gestão Michel Temer (MDB) e quer a revisão delas. Após o encontro de Bolsonaro e do vice-presidente, general Hamilton Mourão, com os 22 novos ministros, nenhuma medida concreta foi anunciada. 

Nomeações e exonerações, obrigatoriamente, têm de ser publicadas no Diário Oficial – sem o que não possuem validade – e é difícil crer que, com centenas de funcionários no gabinete de transição não tivesse um coitado que, todo dia, contabilizasse e registrasse isso.

Isso se cada ministro indicado, com água na boca, não estivesse mapeando os cargos vagos em sua área, para nomear “os seus”.

Picaretagens, como a nomeação de Carlos Marun para o conselho da Itaipu Binacional, são logo vistas. E, neste caso ao menos, confirmadas.

Economia com cargos comissionados é necessária, mas é “economia de palitos” diante das despesas federais, até porque os cargos que ficam vagos acabam sendo transformados em outros, em outros lugares. Para ser economia, precisam ser extintos, o que não foram.

Quanto à movimentação de recursos é, provavelmente, algo que surgiu do desconhecimento de como a gestão pública funciona: no final do ano, em função da execução orçamentária, recursos de “programas de trabalho” (que são as áreas de destinação dos gastos) não utilizados são anulados e viram reforço para outros onde a dotação está insuficiente. E  todas as despesas que não são empenhadas (isto é, recebem uma “autorização de despesa, com o apontamento da origem dos recursos) têm de ser anuladas.

Isso não quer dizer que sejam pagas – tecnicamente se dá o nome de “liquidadas” – e seu valor fica condicionado aos famoso “Restos a Pagar”, para o ano (ou anos) seguintes.

Em boa parte das repartições pública, por isso, desde que o mundo é mundo, há uma correria para empenhar verbas orçamentárias nos últimos dias, sem que isso queira dizer roubalheira. Um exemplo recentíssimo é dos próprios militares do Gabinete de Intervenção Federal no Rio: No dia 3 de dezembro, só haviam conseguido empenhar 28,3% dos R$ 1,2 bilhão a compra de materiais para a área de segurança, ou R$ 340 milhões. Quando chegou o dia 31 de dezembro, o empenho havia chegado a R$ 1,171 bilhão, ou 98,7% do total. Mais de R$ 800 milhões empenhados em 27 dias, apenas.

Ainda bem que Moro não é mais juiz, senão ia sobrar “cognição sumária” para os generais da intervenção.

É óbvio que nem em todo lugar é assim,  mas empenhos expressivos em dezembro não são a fonte de roubalheira. Roubalheira tem de acontecer antes do empenho – que, repito, não é pagamento, se não houver a liquidação da despesa – na licitação e, depois, na liberação dos recursos. Ah, sim, e nos famosos “convênios”, estes sim fonte de inúmeras irregularidades.

Quanto aos imóveis da União, o número sempre foi conhecido e muitos dos 5% deles que estão vagos ficam assim por falta de dinheiro para reformá-los. De novo, basta ao governo Bolsonaro se informar com sua multidão de militares: um dos maiores, o bloco “O” da Esplanada dos Ministérios, com capacidade para 1,7 funcionários, era a sede do Ministério do Exército, iria para o Ministério da Defesa e está vazio há vários anos, esperando dinheiro para obras. A reforma foi licitada no Governo Dilma em 2015, licitação reaberta em 2016 por razões legais e até o final do ano passado a Secretaria de Patrimônio da União procurava um órgão capaz de assumir o “abacaxi” das obras.

O Governo Bolsonaro precisa descobrir que, na administração pública, não é só mandar o Fabrício ir lá resolver.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Primeira crise à vista no Congresso: a aliança PSL-Maia


De um observador da cena política de Brasília

O acordo surpreendente de Rodrigo Maia com o PSL, na realidade é uma aliança formal do DEM com Bolsonaro. Nessas condições tanto faz o presidente da Câmara ser Rodrigo Maia ou Joyce Hasselman.

Se eleito, o Maia vai estar atrelado ao Planalto a quem entregará as duas principais Comissões da Câmara, a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e a de Finanças. Na prática, o Planalto controlará a Câmara. Com isso o Centrão e as esquerdas ficam neutralizadas e não terão nenhum incentivo para votar no Maia, que até esse acordo era visto como uma barreira ao Planalto e não como aliado dele. 

Na minha percepção o Congresso, por instinto de sobrevivência, não vai se entregar assim facilmente ao bolsonarismo.

Poderá haver suas consequências:
  1. Maia vai ter como certos os votos do PSL e do DEM, insuficientes para
    elege-lo.
  2. Essa aliança deve ter desdobramentos e favorece a eleição de Renan no Senado.

Luís Nassif
No GGN
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“Nova democracia”: o plano do general Villas Bôas que levou Bolsonaro à presidência

Bolsonaro e general Villas Bôas na posse do novo ministro da Defesa
Jair Bolsonaro foi sincero quando disse, na posse do novo ministro da Defesa, general  Fernando Azevedo e Silva, que deve sua eleição ao general Eduardo Villas Bôas.

“Eu não precisava falar, mas hierarquia, disciplina e respeito é que fará (sic) do Brasil uma grande nação. Meu muito obrigado, comandante Villas Bôas. O que nós já conversamos morrerá entre nós, mas o senhor é um dos responsáveis por estar aqui. Muito obrigado mais uma vez”, disse.

Ao ouvir, Villas Bôas chorou, como mostra a imagem de TV.

A eleição de Bolsonaro é um plano que começou a ser arquitetado no Exército em 2014, quando se completaram 50 anos do golpe de 64.

A revelação é de uma reportagem publicada na prestigiada publicação Letra P, da Argentina, em outubro do ano passado, três dias antes do primeiro turno das eleições.

O enviado especial Marcelo Falak entrevistou um militar de alta patente, sob a condição de anonimato, e relatou, em detalhes, como o plano Bolsonaro foi preparado.

Segundo ele, na caserna, a eleição de Bolsonaro é definida como o primeiro passo de uma “nova democracia”.

E o que significa isso?

A fonte do Letra P explicou:

A idéia é testar uma “terceira via”, que é algo diferente de uma situação em que os militarem sejam cabeças de um regime próprio ou subordinados passivos a autoridades civis. Queremos ser aceitos como cidadãos. É por isso que estamos falando de uma nova democracia.

Nele, não deve haver restrição à participação de oficiais militares em cargos públicos.

Estamos nos esforçando para que a sociedade, a classe política e a imprensa se modernizem e parem de nos considerar cidadãos de segunda classe. Oficiais militares são pessoas muito qualificadas, somos competentes, conhecemos idiomas, temos pós-graduações. Nós devemos terminar com o fato de que nós não podemos ser ministros

Quando os militares começaram a conversar com Bolsonaro sobre este plano, a imagem do capitão da reserva não era uma unanimidade positiva entre os oficiais do Exército.

O general Ernesto Geisel, um dos ditadores pós-64, se referiu a ele como um “mau militar”, na entrevista que concedeu a um projeto de memória da Fundação Getúlio Vargas.

Em 1986, quando estava na ativa, Bolsonaro conseguiu espaço na revista Veja em que publicou um artigo para reivindicar aumento de salário e espinafrar o então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves.

Na gestação da “nova democracia”, a partir de 2014, os militares o teriam convencido de que precisava mudar.

“Ele mudou muito pessoalmente, casou com sua terceira esposa, teve uma filha e, algo que ninguém sabe, ele fez psicanálise por dois anos”, disse a fonte.

Mas a mudança que eles mais queriam era da visão sobre a economia.

Segue o que disse o militar de alta patente:

Bolsonaro estava aberto ao diálogo e, dia a dia, vimos que ele mostrava valores importantes, como disciplina, respeito e muita humildade. Ele aceitou nossas sugestões e mudou muitas de suas posições anteriores. Por exemplo, passou do nacionalismo econômico que anteriormente defendia ao liberalismo. Isso, o que é visto na campanha, foi o produto do diálogo que o Exército abriu com ele, não tem dúvidas.

O capitão Exército já chegou a ser um nacionalista extremado, quando andava ao lado de Eneas Carneiro, e falava sobre a necessidade de fortalecer as estatais.

Acertados os ponteiros, militares e Bolsonaro marcharam juntos, alicerçados na ideia de que os antigos partidos não eram o caminho para a volta dos militares ao poder.

A elite nunca se importou com a nação, desde a época do império. Ela só pensava em si mesma e nunca fazia o que o país precisava. Então, ficamos claros que os partidos do centro não se uniriam para enfrentar a esquerda.

Por isso, nessa entrevista, três meses antes de Bolsonaro relatar a existência da conversa entre ele e Villas Bôas que levará para o túmulo, a fonte declarou como estratégicas duas manifestações do comandante do Exército durante o ano de 2018.

Em abril do ano passado, na véspera do julgamento pelo STF do HC que poderia impedir a prisão de Lula, Villas Bôas publicou dois tuítes que podem ser considerados como ameaça aos ministros do Supremo.

Em setembro, na véspera do julgamento pelo TSE do registro da candidatura de Lula, ele concedeu entrevista para o Estadão para dizer que o Brasil não aceitaria a candidatura de um político enquadrado na lei da ficha limpa.

São manifestações golpistas, como lembra o enviado especial da publicação argentina, que seriam inadmissíveis no seu país, mas a fonte considera que não. Segundo ela, se Haddad tivesse vencido as eleições, assumiria.

Não porque as Forças Armadas gostariam, mas porque haveria pressão popular. “Em 64, não havia Facebook, o mundo era diferente. Um golpe não ocorrerá em nenhum caso, afirmou.

Então, quando pressionou as instituições democráticas, Villas Bôas estaria apenas blefando?

Lamentavelmente, o STF cedeu.

A ministra Rosa Weber era (e ainda diz ser) favorável ao princípio da presunção de inocência, isto é, contrária à prisão a partir de decisão de segunda instância.

Mas, no julgamento do HC, votou contra, numa manifestação confusa, em que ela começa dando inclinações de que atenderia ao pedido da defesa do ex-presidente, mas conclui com um cavalo de pau, em que coloca o princípio da colegialidade acima de sua convicção pessoal.

Na prática, foi a primeira vez em que a maioria aceitou perder para a minoria. Pelas manifestações dos ministros, havia, na ocasião, seis votos contra a prisão de segunda instância, e cinco a favor.

A concessão dessa importante entrevista a um jornalista da Argentina parece também indicar um movimento para que o exemplo brasileiro se espalhe pelo continente.

“Falamos sobre essas questões (a doutrina da ‘nova democracia’) com nossos colegas uruguaios, mas infelizmente não com as da Argentina, que ainda sentimos deprimidos demais. Eles têm um treinamento que é muito bom, mas a falta de apoio da sociedade significa que eles ainda não desenvolveram uma perspectiva política”, comentou o militar.

Na perspectiva da “nova democracia”, o adversário eleito é o PT, “a besta fera”. A fonte do Letra P admite que a bandeira do nacionalismo econômico agora é exclusividade dos petistas, mas, para ele, isso não é importante.

Se abandonaram a bandeira do nacionalismo, por que se mobilizaram tanto pela eleição de Bolsonaro como caminho para recuperar espaço no poder?

É uma questão relacionada ao sentimento dos militares que eram de média patente quando o movimento das diretas os mandou de volta aos quartéis.

Com Bolsonaro, contemporâneo deles na Academia Militar de Agulhas Negras, estão de volta.

E a tendência, como ocorreu a partir de 64, é que procurem ocupar cada vez mais espaço. Na época, se dizia que, depois de Castelo Branco, devolveriam o poder aos civis.

Isso não aconteceu.

E o Brasil mergulhou num período tenebroso, sem liberdade política e crise na economia, que terminou com uma recessão profunda (a base da chamada década perdida, a de 80) e com altos níveis de corrupção.

O país não pode permitir que esta tragédia se repita.

Já está em andamento, mas pode ser evitada.

O Brasil é muito maior do que a turma que se formou com Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Discursos de Bolsonaro confirmam ditadura civil-militar no Brasil


Os 500 mil brasileiros esperados na posse do capitão de extrema-direita não apareceram. Muito menos gente presenciou a cerimônia de um presidente que promete um retrocesso sem precedentes. Quem escapou foi ao menos poupado de discursos rasteiros, mas cheio de significados.

Destruição do ensino livre e desimpedido, saudação ao obscurantismo, combate ao socialismo vigente (?), ataque ao politicamente correto (entenda-se, ao respeito à diversidade e minorias), sangue dos adversários na bandeira, luta contra a corrupção (menos a do Queiroz, o laranja da “famiglia”), faxina ideológica (desde que não seja a da extrema-direita), distribuição indiscriminada de armas, política externa de status colonial.

Termos como social, combate à miséria, defesa dos direitos da maioria assalariada, das minorias, a tragédia do desemprego galopante, o escândalo da desigualdade de renda –nada disso ocupou espaço relevante nos lacônicos pronunciamentos do militar presidente. Pudera: na visão do novo governo, isso é tralha politicamente correta que precisa ser liquidada.

Não por acaso, uma das primeiras providências foi colocar a FUNAI sob o guarda-chuva do ministério do agronegócio, inimigo de morte das reservas indígenas. Simbólico: é como se o Brasil estivesse retroagindo mais de 500 anos e devolvendo o Brasil aos colonizadores portugueses que massacraram os nativos para se estabelecer por aqui. Mudaram os algozes; o sentido, porém, é o mesmo. E é só o começo.

Nos Estados alinhados com a extrema-direita, a toada é a mesma. Em São Paulo, o ano começa com aumentos de tarifas de transporte. Um secretário-chave, Gilberto Kassab, assume pedindo licença do cargo para escapar do xadrez. Assim como na posse do capo da “famiglia”, o trabalho da imprensa está sendo cerceado. Uma gestão que proíbe maçãs, confina profissionais como gado e ameaça jornalistas com snipers diz bem a que veio.

Parece má vontade. “Ora, Bolsonaro mal tomou posse”, esbravejam colunistas subservientes e a imprensa oficial. Fazem o seu papel, vergonhoso, mas fazem. Numa visão complacente, esta gente deixa o cérebro na portaria ao passar pela catraca e retoma o que sobrou ao retornar para casa –isso quando ainda há neurônios a funcionar.

A hipótese do “benefício da dúvida” quanto ao futuro valeria caso houvesse alguma inflexão no discurso e objetivos deste grupo que assumiu o país. Mas não. Com outras palavras, Bolsonaro reafirmou em alto e bom som que pretende implantar uma “ditadura civil-militar”, com um gabinete tingido de verde-oliva e civis obedientes a uma cartilha que já afundou o Chile, destrói a Argentina e incinera o antes festejado Macron na França.

Juras de defesa da Constituição em cerimônias protocolares só podem enganar os escrivães do Congresso. São pagos para isso. Acresce que a Carta de 1988 vem sendo esmigalhada desde o golpe de 2016. Não será agora que será ressuscitada. Ao contrário. Pelo cheiro da brilhantina que engoma a cabelereira do presidente do STF, será ainda mais pisoteada.

O governo Bolsonaro e sua “famiglia” devem ser tratados como são: inimigos da democracia, um retrocesso de corte neo-fascista em todos os sentidos a quem cabe combater sem tréguas nem clemência, sem que se precise a recorrer às atitudes trogloditas dos bolsonaristas. Agir como se tudo fosse “normal” é ser cúmplice de um dos momentos mais tenebrosos da história do Brasil.

Ricardo Melo é jornalista, presidiu a EBC e integra o Jornalistas pela Democracia
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Bolsonaro não descerá do palanque


É tocante ver a expectativa ansiosa com que a imprensa e certos setores políticos esperam algum gesto republicano, de conciliação, de comprometimento democrático, ou mesmo de mínima civilização por parte de Bolsonaro et caterva.

Mesmo após serem tratados como porcos em chiqueiro, há veículos e profissionais que dizem torcer pelo “êxito” do governo neofascista, que candidamente preveem que Bolsonaro deverá “governar para todos”, que ele fará concessões “em nome da governabilidade”, que ele terá de “conviver com as instituições democráticas”, que as “perspectivas para a economia são boas”, que isso tende a “distender o ambiente político”, que o “mercado está otimista” etc.

Vaticinam, enfim, que, ao ter de governar, Bolsonaro será um presidente “democrático” como outro qualquer e terá, eventualmente, de “descer do palanque” e abandonar a sua “retórica” belicosa e intolerante. Tal vaticínio panglossiano é compartilhado até mesmo por setores da oposição, que fizeram do PT seu inimigo principal e consideram que Bolsonaro não representa “um perigo para a democracia”.

Porém, isso jamais acontecerá. Bolsonaro não “descerá do palanque”. Fascistas nunca “descem do palanque”. Ao contrário, fascistas constroem imensos palanques e, de lá, mandam a democracia às favas.

Fascistas chegam ao poder e nele se mantêm pelo recurso ideológico à guerra contra o inimigo. Fascistas chegam ao poder e nele se mantêm pelo recurso político da destruição da democracia e de seus direitos e instituições.

Em condições de normalidade democrática, Hitler, um ex-cabo, não teria passado daquele indivíduo patético que fazia discursos de animada histeria em cervejarias de Munique. Em condições de normalidade democrática, Hitler não teria convencido a população alemã de que judeus e “bolcheviques” eram seus grandes inimigos e de que ele poderia livrá-los dessas “grandes ameaças” enviando “essa sujeira” para grandes fornos crematórios.

Em condições de normalidade democrática, Bolsonaro, um ex-capitão, não teria passado daquilo que sempre foi, um deputado do baixo clero cujos discursos eram incapazes de motivar até mesmo a plateia bêbada de uma cervejaria de Munique.

Não vivemos mais numa democracia e o bolsonarismo é uma forma de fascismo. Quem ainda não entendeu isso, não entendeu nada.

Bolsonaro é fruto direto de um processo que, em nome do desejo de tirar o PT do governo, levou de roldão o pacto democrático instituído pela Constituição de 1988 e o ciclo político da Nova República.

Vivemos hoje não num novo governo, como outro qualquer, mas num novo regime político, num brave new world, no qual a democracia é simulacro e no qual a governabilidade não se exerce mediante a negociação, mas pela guerra implacável ao “inimigo”.

É por isso que Bolsonaro e seus ministros fizeram discursos raivosos, de ódio, em suas posses. Não fizeram gestos de conciliação, de republicanismo, de civilização. Ao contrário, assestaram suas baterias belicosas contra o petismo, o “marxismo cultural”, o “politicamente correto”. Ameaçam “acabar”, “destruir” e “expulsar” os “inimigos”. Prometem guerra sem trégua contra aqueles que querem que “a bandeira brasileira seja vermelha” e “derramar o sangue” de quem se oponha ao novo Brasil “cristão”, “limpo” e “sem ideologias” que ora se ergue.

Esse novo Brasil não admite diálogo e conciliação democrática de divergências. Ame-o ou deixe-o. Ou então, morra. Afinal, o Brasil das milícias está no poder.

É por isso que o governo agora passa um “pente fino” entre servidores para identificar os “inimigos”. Quem tiver feito alguma homenagem a Marielle Franco será sumariamente demitido. Quem tiver feito alguma crítica a Bolsonaro também.

Pouco importa se o inimigo é imaginário ou inexistente. O novo ministro da Casa Civil assumiu prometendo “despetizar” a máquina, equiparando petistas a insetos, como os hutus fizeram com os tutsis. Ele sabe muito bem que os petistas, inclusive os garçons, há muito foram escorraçados do Planalto. Ele sabe bem que o PT deixou de governar, de facto, desde meados de 2015, quando Eduardo Cunha passou a mandar e desmandar no Brasil.

Mas ele sabe também que é necessário manter o antipetismo vivo. Ele sabe que essa é a muleta ideológica do bolsonarismo. Ele sabe que, sem os “inimigos” do PT, do “marxismo cultural”, do “politicamente correto”, do “bolivarianismo”, do “ambientalismo”, do “feminismo”, o bolsonarismo não se sustenta. Até mesmo porque o fascismo tupiniquim não tem nada de novo e concreto a propor, só tem um passado idílico e quimérico a restaurar.

É por isso que Bolsonaro fala em fazer o Brasil voltar ao que era há 50 anos. Mais ambicioso, o chanceler templário fala saudoso de um passado pré-iluminista, quando a Terra era plana e o Sol, contrariando o “marxismo cultural” de Copérnico e Galileu, a orbitava.

Observe-se que a selvagem pauta ultraneoliberal do Posto Ipiranga, destruidora de direitos e do pacto social plasmado na Constituição, representará fator complicador, ou mesmo impeditivo, para a tradicional governabilidade democrática.

Num contexto interno de frontal enfrentamento de classes e num provável cenário externo de novo colapso financeiro, talvez seja melhor, do ponto de vista dos grandes interesses internos e externos que apoiam Bolsonaro, apostar na governabilidade de guerra do neofascismo.

Nesse sentido, acredito que a ruína da nossa democracia e do nosso sistema de representação, que deu origem à atual excrecência política, talvez não tenha sido mero acidente de percurso, como afirmam alguns, mas algo dissimuladamente intencional. Isso explicaria porque tratam um fenômeno político inteiramente anormal como se fosse parte da “normalidade democrática”.

Com toda certeza, os interesses externos articulados na nova ultradireita mundial de Steve Bannon, que tornaram o Brasil mero peão geopolítico a serviço da restauração da hegemonia dos EUA no mundo, apostam na governabilidade bélica do neofascismo brasileiro. Para tais interesses, nada mais funcional que um governo que despreza a soberania e faz dos interesses populares os inimigos a serem batidos.

Como corolário, um governo como esse também poderá tentar se afirmar e se legitimar contra “inimigos externos comuns”. Assim, uma intervenção na Venezuela, ainda que restrita à dimensão econômica e diplomática, poderá ser útil à governabilidade bélica do bolsonarismo.

Não se espere racionalidade e pragmatismo político de um governo assentado no fundamentalismo cristão e no neofascismo. Não se espere governabilidade democrática e republicanismo de quem elogia ditadura e tortura e de quem prometeu o extermínio de opositores.

Bolsonaro não descerá do palanque. Erguerá um imenso palanque político e digital de ódio, propaganda e fake news, de onde governará perseguindo adversários. De onde governará perseguindo seu principal “inimigo”: o povo do Brasil.

Bolsonaro sabe que, se deixar de pedalar a bicicleta do ódio e da intolerância, cairá.

Marcelo Zero
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Diplomatas estão constrangidos e envergonhados com chanceler


Em um discurso com várias críticas à própria casa que vai comandar, o novo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou, ao assumir o cargo nesta quarta-feira, que a política externa brasileira se atrofiou nos últimos anos por medo de ser criticada e que lutará para reverter o globalismo e provar que é possível ter comércio exterior com ideias e valores.

"Lembrar-se da pátria não é lembrar-se da ordem global, do que diz o último artigo da Foreigner Affairs ou da última matéria do New York Times. Não estamos aqui para trabalhar pela ordem global. Aqui é o Brasil e não tenham medo de ser Brasil", disse o novo chanceler.

"Acho que nossa política externa vem se atrofiando por medo de ser criticada. Não tenham medo de ser criticados."

Para uma plateia basicamente formada por diplomatas de carreira e alguns poucos convidados externos, como o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro, Araújo afirmou que o Brasil havia perdido sua voz e falava para agradar os administradores da ordem global.

"Queríamos ser um bom aluno na escola do globalismo e achávamos que isso era tudo. O Brasil volta a dizer o que sente e sentir o que é", afirmou.

Em longo discurso na cerimônia de transmissão de cargo, que começou com o versículo da Bíblia de João 8:22, um dos bordões da campanha de Bolsonaro — "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" —, Araújo fez largos elogios ao novo presidente. Para ele, Bolsonaro está libertando o Brasil e agora eles irão libertar a política externa brasileira.

Citou, também, o escritor Olavo de Carvalho, a quem atribuiu o papel de estar mudando o país junto com Bolsonaro. Diplomata de carreira, Araújo se aproximou de Carvalho e, através dele, dos filhos de Bolsonaro.

Por ser embaixador há menos de um ano e não ter comandado nenhuma embaixada no exterior, o novo chanceler não teria, de acordo com a praxe hierárquica do Itamaraty, estatura para ocupar o cargo. No entanto, a proximidade com a família Bolsonaro e a disposição de seguir as ideias do novo presidente lhe garantiram o posto.

Em seu discurso de posse, Araújo desfilou temas e ideias que já vinham sendo exploradas em um blog que criou em julho deste ano e em artigos que escreveu. Entre eles, o ataque ao chamado globalismo e a teoria de que há uma política internacional querendo acabar com as nações e suplantar o conceito de Deus entre a população mundial.

"O globalismo se constitui no ódio através das suas várias ramificações ideológicas e seus instrumentos contrários à nação, à natureza humana e ao próprio nascimento humano", afirmou. "O problema do mundo não é a xenofobia. É a Oikofobia, é odiar o próprio lar, o próprio povo."

Araújo também citou a "teofobia", o ódio a Deus, que, segundo ele, perfaz toda a "agenda global". "Para destruir a humanidade é preciso acabar com as nações e afastar o homem de Deus. É isso que estão tentando e é contra isso que nos insurgimos", disse.

Durante o longo discurso, Araújo foi aplaudido apenas em um momento, quando afirmou que Bolsonaro está libertando o Brasil e que "vamos libertar a política externa e vamos libertar o Itamaraty".

Os aplausos, no entanto, foram concentrados nos convidados. Do lado dos diplomatas, o silêncio se manteve.

O discurso do novo chanceler foi recebido com claro constrangimento entre os presentes. Ao final, puxados por alguns convidados, alguns se levantaram, mas nem sequer aplaudiram. Outros, o fizeram claramente sem vontade.

No Reuters
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Spanish Revolution


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Foi Deus

Todo governo tem seu núcleo duro. É aquele pequeno grupo ao qual um presidente se recolhe informalmente, quando quer soltar a gravata, tomar um uisquinho e falar mal da imprensa, sem medo de consequências. O grupo pode ser pequenininho: o do Temer era um trio, formado pelo Moreira Franco e o Padilha, que mantiveram a condição de amigos e confidentes do presidente até o fim do seu governo, mesmo tendo que se esquivar de algumas suspeitas flutuantes. Companheiros de descontração não são necessariamente conselheiros, mas sabe-se muito sobre os caminhos de um governo sabendo-se com quem ele anda, e conversa.

O novo ministro e Relações Exteriores do Brasil, e o ministro mais polêmico até agora, Ernesto Araújo, escreveu um artigo em inglês para a revista New Criterium, americana de direita, sobre o que acontece no País, que ele vê como uma intervenção da Divina Providência na nossa História. Segundo Ernesto Araújo, foi Deus que proporcionou o encontro entre o candidato Jair Bolsonaro, o novo moralismo nacional evidenciado pela operação Lava Jato e pela prisão de corruptos, e as ideias políticas de Olavo de Carvalho e econômicas de Paulo Guedes.

Esse núcleo duro do novo governo representa suas crenças básicas, não se sabe ainda se inflexíveis ou não. De qualquer maneira, Araújo nos deu uma ideia do pequeno grupo a que Bolsonaro pode recorrer quando precisar, ele mesmo, relaxar e entender o que se passa. Reuniões informais do grupo seriam um problema, com Deus e Olavo de Carvalho disputando o direito de escolher onde seriam os encontros – um impasse decidido por Donald Trump, com sua determinação que seriam em Mar-a-Lago, sua propriedade na Flórida, onde poderia jogar um pouco de golfe.

Espera-se que o Deus providencial de Ernesto Araújo interfira mais vezes na nossa história. Há mais milagres a serem feitos, mesmo para quem acredita em outros deuses.

Luís Fernando Veríssimo
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Conversa secreta, não é tão secreta



A manfestação de Gleisi é a propósito da declaração de Bolsonaro, na posse do novo ministro da Defesa, conforme registro da agência Reuters:

O presidente Jair Bolsonaro disse nesta quarta-feira que o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, foi um dos “responsáveis” por ele estar na Presidência da República, mas não detalhou, em evento de transmissão do cargo de ministro da Defesa, que tipo de ação ele teria tomado nesse sentido.



“General Villas Bôas, o que já conversamos ficará entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”, disse Bolsonaro no evento de posse do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva.

Em abril passado, na véspera de um julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) que poderia levar à liberdade o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Villas Bôas causou polêmica ao publicar duas postagens em sua conta do Twitter.

“Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do país e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais? Asseguro à nação que o Exército brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”.

No julgamento, o ministro mais antigo do STF, Celso de Mello, chegou a questionar a publicação. “Alguns pronunciamentos manifestados no dia de ontem, especialmente declarações impregnadas de insólito conteúdo admonitório claramente infringentes do princípio da separação de Poderes impõe que se façam breves considerações a respeito desse fato, até mesmo em função da altíssima fonte de que emanaram”, disse Celso, sem citar diretamente o comandante do Exército.

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Impeachments de Trump e Netanyahu podem desmontar governo Bolsonaro

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2019/01/03/impeachments-de-trump-e-netanyahu-podem-desmontar-governo-bolsonaro/

Informações que o blogueiro recebeu de uma importante liderança política brasileira que esteve recentemente nos states é de que no establishment já discute sem cerimônia o impeachment para este ano. Trump teria perdido base social.


Não foi só a baixa participação popular na posse de Bolsonaro – que o GSI estimou em 115 mil pessoas e alguns veículos deram como número real (pausa para rir) – que teve pouco destaque na mídia em geral. Mas, principalmente, a baixíssima participação de delegações internacionais e de chefes de Estado no ato de transmissão do cargo.

Alguns comentaristas políticos atribuíram isso em razão do dia 1º de janeiro ser um feriado (pausa pra rir 2). Desde 2003 tem sido assim. Com Lula foram 120 delegações presentes. Com Dilma em 2011, 130. Com Bolsonaro 47.

Os mais importantes líderes a participarem do ato foram Benjamim Netanyahu e Evo Morales. Trump mandou um twitter. Que foi tratado como um gol de placa num Maracanã lotado.

Esse é um dado que deveria mostrar como começa internacionalmente isolado o governo Bolsonaro. Algo que tende a se aprofundar se a política do tal Ernesto Araújo, do Itamaraty, for à cabo.

Mas há um outro elemento que pode fazer deste 2019 um ano ainda mais complicado para Bolsonaro. Avança a passos largos nos EUA a possibilidade de um processo de impeachment de Trump. Ele perde força entre seus aliados republicanos no Senado. E já não tem maioria na Câmara, onde os democratas têm mais deputados.

Informações que o blogueiro recebeu de uma importante liderança política brasileira que esteve recentemente nos states é de que no establishment já discute sem cerimônia o impeachment para este ano. Trump teria perdido base social.

Muitos dos republicanos eleitos obtiveram mandato com discurso crítico a ele. E antigos aliados do capital já o teriam abandonado com medo das consequências de suas decisões estabanadas, como a de parar o governo por conta do muro na fronteira com o México.

O outro grande aliado de Bolsonaro, Benjamim Netanyahu, também está na berlinda. Pode ser condenado em processo judicial por corrupção nos próximos dias e, pela lei de Israel, teria de renunciar ao cargo. Mas está se negando a isso e como escapatória tentando antecipar a eleição presidencial para abril.

Um presidente em vias de ser condenado judicialmente por corrupção foi o grande astro da festa de Bolsonaro.

Evidente que a depender do que vier a acontecer nos EUA e em Israel, Bolsonaro pode ficar falando sozinho no mundo.

As quedas desses governantes ainda são hipóteses um tanto remotas. Mas já precisam estar no radar. E se avançarem podem significar uma enorme mudança nos destinos do mundo. E do Brasil.
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Com Bolsonaro, JN volta ao jornalismo declaratório do tempo da ditadura


Jornal Nacional de hoje

1) Jair Bolsonaro aumentou o salário mínimo de tanto para tanto. Isso. Aumentou e não diminuiu o previsto e aprovado pelo Congresso, como qualquer paquiderme que acompanhou as notícias de hoje sabe.

2) Falou do encontro do presidente eleito com o secretário de estado americano. Só as flores. Não falou da gafe da Secom e o puxão de orelha da embaixada dos EUA.

3) Reproduziu, ipsis literis, as atrocidades que Bolsonaro publicou no Twitter sobre terras indígenas e quilombolas, como que são desperdício e controladas por ONG’s. Nada mais. Nenhuma voz de pessoas que trabalham ou representam essa gente.

4) Com Moro, uma assessoria de imprensa, com direito a destaque para uma fala que insinua decisão do Governo Lula para, então, claro mostrar o arqui-inimigo comum em chave negativa. Nadinha de contraditório. Foi decisão político-partidária no caso Batisti.

5) Não. Nada de Queiroz. Isso é coisa do passado, gente. Parem de querer atrapalhar o avanço do Brasil. Corrupção agora é coisa menor e do passado. Olhemos para frente.

Enfim, um telejornal que passou a última década com uma postura tão crítica e combativa, agora virou um telejornaleco declaratório.

Camilo de Oliveira Aggio
No DCM
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Xadrez dos primeiros dias do governo militar


Passo 1 - juntando as peças do jogo

Vamos juntar algumas peças dos discursos de posse e das declarações do novo governo Jair Bolsonaro.

* Sua promessa de extirpar o socialismo e o marxismo do país.

* A proposta de unificar a Nação.

* A proposta do Ministro das Relações Exteriores de abrir a estrutura do Itamarati a não diplomatas.

* A proposta do Ministro da Educação de transformar as escolas municipais em escolas militares.

* A entrega da demarcação das terras indígenas, dos quilombolas e o manejo florestal aos ruralistas do Ministério da Agricultura.

* As promessas de enxugamento radical do Estado e de abertura comercial.

* O tratamento conferido à imprensa no dia da posse.

* O anúncio de caça às bruxas em cargos de confiança e a nomeação de nomes fieis à causa, conforme explicação de Onix Lorenzoni, o pecador absolvido por Sérgio Moro.

* A inclusão de quadros militares em várias áreas da administração, incluindo a Caixa Econômica Federal.

* Na posse do Ministro da Defesa, Bolsonaro deixou escapar que houve articulações com o general Eduardo Villas Boas, comandante-chefe das Forças Armadas, que estimularam sua candidatura. Ou seja, o Poder Militar e o Poder Jurídico se juntaram para manter Lula fora do jogo e viabilizar a candidatura Bolsonaro.

* As declarações de Paulo Guedes sobre a reforma da Previdência, colocando como fator de iniquidade os benefícios para o Judiciário e para a alta administração pública.

Passo 2 - as conclusões iniciais

As conclusões que se tiram:

Conclusão 1 - o que se configura pela frente não é o despotismo, isto é, o governo despótico de um indivíduo, uma família ou grupo. O poder, agora, está com as altas patentes militares, que se veem imbuídas de uma missão salvacionista. É poder que veio para ficar. O salvacionismo consiste em matar o mal pela raiz, interferindo em todos os sistemas que permitem a propagação do socialismo e da corrupção. Portanto, não é discurso restrito a Bolsonaro.

Conclusão 2 -  No tocante às relações externas, há clareza sobre o chamado interesse nacional.  A racionalidade militar impedirá tolices fundamentalistas de Bolsonaro, como a adesão incondicional a Israel e aos Estados Unidos.

Conclusão 3 - Em relação ao quadro interno, há sintonia com o pensamento de Bolsonaro. Acredita-se piamente na ameaça vermelha, no marxismo nas escolas, nos barbudinhos comunistas do Itamaraty.

Quando se fala em coesão nacional, portanto, não se está pensando em conciliação em torno de objetivos maiores, admitindo a pluralidade de ideias, só possível dentro de um quadro de normalidade democrática. Persegue-se a coesão excludente, na qual só caberão os homens bons, que se unirão no combate aos pervertidos.

Passo 3 - a estratégia de legitimação

Na fase inicial do governo Bolsonaro, há alguns fatores de legitimação pela racionalidade:

1. Atualmente, os militares no governo atuam como um freio às pirações do fundamentalismo-religioso da família Bolsonaro.

2. Atuam como uma barreira aos negócios engendrados pela ala dos financiadores de Bolsonaro. A indicação de militares para o Ministério da Infraestrutura e para a presidência da Caixa Econômica Federal, por exemplo, foi vista com alívio por quem acompanha os jogos de lobbies na área pública.

3. Depois do completo abandono da área de segurança, pelos ex-Ministros José Eduardo Cardoso, Alexandre de Moraes e Torquato Jardim-Roberto Jungmann, por justiça reconheça-se que a reestruturação do Ministério da Justiça, por Sérgio Moro, pelo menos no papel, mostra uma retomada dos conceitos originais do Plano Nacional de Segurança. Permanecem as ameaças de uso político do Ministério e do COAF, mas que não afeta a base de apoio de Moro.

4. Um discurso surpreendentemente cidadão do Ministro Paulo Guedes, sobre a reforma da Previdência, explicitando de forma corajosa uma realidade, em geral, escondida pelo pensamento liberal (https://goo.gl/CRUjuh):  “A Previdência é uma fábrica de desigualdades. Quem legisla tem as maiores aposentadorias. Quem julga tem as maiores aposentadorias. O povo brasileiro, as menores”. Das palavras aos fatos, há várias montanhas a serem escaladas.

Os dois pontos centrais de legitimação do novo militarismo, portanto, são a volta do crescimento e a segurança pública.

Antes de voltar ao caso brasileiro, algumas lições da história.

Passo 4 - os militares e a política

Montesquieu, o pai da ciência jurídica, o pensador que imaginou o sistema de “freios e contrapesos” na democracia, desenvolveu seus estudos a partir da análise da glória e decadência do Império Romano, na obra “Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e da sua decadência”.

Dois fatores ajudaram na coesão da nação.

O primeiro, a democracia romana, a divisão do poder, do qual o Povo participava do processo legislativo e da escolha dos Magistrados. E, com os poderes se fiscalizando, havia mais preocupação com o bem-estar da população, com o fortalecimento do conceito de Nação e com a busca da legitimação que fortalecesse a coesão interna.

A ideia aglutinadora era o da expansão infinita do Império Romano. As conquistas asseguravam aos militares a propriedade de terras e aos cidadãos a entrada de mais riquezas, com o controle de novas rotas de comércio.

Com a concentração de poder, que começa com a era César, cai a legitimidade do Senado e do Judiciário. Entra-se em um período de grande segurança interna, agravada pela violência militar, da qual o exemplo mais atrabiliário eram os centuriões; e pela insegurança jurisdicional, com os julgamentos dependendo da corrupção ou intimidação dos juízes. É o início da decadência.

E, aí, comprova-se a máxima de Montesquieu: “Todo homem que tem poder é levado a abusar dele”.

Passo 5 - o caso brasileiro

Vamos transplantar a velha ordem romana para o caso brasileiro. A próxima fase sugere um sistema de poder desequilibrado, com o estamento militar se sobrepondo ao político e ao jurídico.

A lógica militar não comporta a presença do déspota - individualmente ou em grupos. O governo autoritário só se legitima, perante a tropa, se houver a alternância de mando.

Assim como no caso romano, trata-se de um modelo que só se sustenta pela expansão do império, distribuição das benesses e perspectiva, de militares que estão de fora, de, em algum momento, ser aceito no baile.

No caso brasileiro, não significa a conquista de outros países, mas a ampliação do controle do Estado. Conquistam-se mais territórios na máquina, abre-se espaço para a colocação de mais companheiros.

Trata-se de uma lógica de grupo, inexorável, que independe das melhores intenções manifestadas no começo do processo.

Essa dinâmica fará com que, cada vez mais, se amplie a influência militar na máquina pública.

A lógica militar, com sua disciplina e normas, é incompatível com formas difusas de organização política e econômica. No caso da política, na fluidez e nas formas de articulação da democracia. No caso da economia, da auto-regulação dos mercados. Faz parte da formação militar procurar manter todos os fatores sob controle.

Em breve, os fatos atropelarão o discurso do livre mercado.

Mas a permanência, ou não, no poder, dependerá do que entregarem à população.

Passo 6 - os desafios para a militarização

Tome-se a reforma da Previdência. O discurso de Paulo Guedes tem legitimidade, senso de justiça. Mas, colocado em prática, significaria um rompimento radical com o estado patrimonialista. E parte desse Estado é elemento integrante do governo Bolsonaro.

Vamos repetir sua declaração, por surpreendente: “Quem legisla (os políticos) tem as maiores aposentadorias. Quem julga (o Judiciário) tem as maiores aposentadorias”. E onde entram os militares? Segundo o general Hamilton Mourão, o verborrágico vice-presidente, é necessária uma conversa com o Supremo (para mostrar o peso do Judiciário no orçamento), mas o custo das Forças Armadas não pode ser visto como privilégio, mas compensação pela vida dura nos quarteis. Mas como ficariam as aposentadorias herdadas por filhas de militares? E a lógica do militar passar para a reserva com aumento do soldo, na forma de promoção?

Faz parte de quem se torna poder, exerce-lo em sua plenitude.

Será difícil para Guedes atingir seus objetivos abrindo essa exceção para os militares. Significaria se indispor com peças essenciais do sistema de poder que levou Bolsonaro à Presidência, tendo o principal avalista do sistema – os militares – sem legitimidade para tratar do tema.

Caso falhe essa entrega, sempre restará o álibi intemporal da guerra. Portanto, a saída política para qualquer impasse será caçar os suspeitos de sempre.

Luís Nassif
No GGN
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Poder e dever na imprensa

Tanto quanto dependerá de Jair Bolsonaro e sua trupe ideológica, o Brasil e seus anos vindouros passam a depender da imprensa. Em vista do que o novo Congresso prenuncia e do visto nas altas instâncias da Justiça, quando seria necessário proteger direitos e a própria Constituição, impõe-se a evidência: as instituições oficiais não estão em condições de defender as conquistas democráticas dos últimos três decênios.

A responsabilidade pode ser excessiva para uma imprensa que não supera a vacilação, põe-se como terreno desnivelado de embates entre o interesse público e o interesse privado e, como novidade, já está ameaçada por Bolsonaro.

A rigor, a missão nada excederia, porque já integra a concepção de jornalismo consagrada no século passado. O problema é que essa concepção encontra dificuldades aqui. Tanto no poder econômico, que abomina a liberdade de imprensa, como em vícios remanescentes em parte da própria imprensa. Entre eles, o conflito vivido entre ética e conveniência por inúmeros jornalistas.

A complacência da imprensa com o governo Collor não foi posta em questão, mas foi muito grande a sua responsabilidade pelo desastre.

O plano econômico então imposto foi essencialmente inconstitucional, além de sua violência, e a corrupção regida por PC Farias era o tema do dia e da noite no poder econômico. Mas a imprensa, em geral, calou o quanto pôde.

A administração caótica juntou-se aos desmandos para induzir um atraso de anos incalculáveis ao país. Não é esse o único exemplo da complacência culposa, muito ao contrário. Mas não absorver sua lição, para repelir toda complacência, será condenar a priori a democracia e o país ao desastre.

A defesa dos direitos, da liberdade e demais fundamentos da Constituição exige ser proporcional à ameaça e ao ataque que sofram. Nada menos e, se necessário, mais. Fora disso, é conivência. Essa é decisão de comando empresarial, sim, mas não só.

Os jornalistas brasileiros precisamos rever muitas condutas. Chega das compensações, por exemplo, para um falso equilíbrio de apoio e de crítica. Para compensar a crítica aos discursos inversos de Bolsonaro em sua posse, foi lugar-comum o ataque aos partidos de esquerda por não irem às solenidades ouvir os discursos criticados.

Até por caráter, se a razão política não bastava, os políticos de esquerda não tinham mesmo que prestigiar a posse de quem disse que vai exterminá-los, seja por "acabar com os petralhas", seja mandando os opositores "para a cadeia ou para fora".

Ainda no jornalismo profissional, são em número excessivo os mais realistas do que os reis. Sua "cautela" chega a fazer mais mal do que bem aos jornais e respectivas empresas. O boicote a comentaristas e repórteres, por motivos "ideológicos" ou políticos, é outra prática de chefias que se volta contra o jornal. E quem quiser pegue aí as carapuças, à espera de mais.

Eram 1.500 jornalistas na cobertura da posse de Bolsonaro. Entre serem revistados ao menos duas vezes, obrigados a se apresentar 7 horas antes da posse, serem confinados em cercadinhos sem cadeira, sem alimento, sem direito de ter maçã, iogurte ou garrafa de água; com restrição de acesso a banheiro e bebedouro, o planejado para os jornalistas foi humilhação generalizada.

Nem por isso a dignidade da profissão mereceu mais do que o aborrecimento pessoal. Se respeitada, com a reação proporcional levando à retirada geral, a ausência de cobertura reverteria para Bolsonaro a lição que seu general planejador quis para os repórteres. Mas só uns poucos jornalistas estrangeiros se retiraram.

Depender da imprensa (termo em que incluo também TV, rádio e revistas) é arriscado. Sempre encantada com a imprensa americana, porém, a brasileira tem agora um exemplo diário a considerar: a reação proporcional do Washington Post, do New York Times, da CNN e de outros aos desatinos de Donald Trump. Salvaram a liberdade de imprensa nos EUA e a si mesmos.

A imprensa brasileira talvez esteja condenada a algo parecido: o ódio à imprensa na trupe de Bolsonaro, militar e paisano, não quererá perder a oportunidade. Não é hipótese. É certeza.

Janio de Freitas
No Folha
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É patético!!!


Cuidado! Só para quem tiver paciência e nervos de aço para assistir!



Se você chegou até ao final, candidate-se ao prêmio de uma Olivete de Bolso!
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Coitado, e a mãe dele pensa que ele é alegre!!!


Ernesto Araújo termina discurso com expressão tupi 'anuê jaci´, traduzida como Ave Maria; 'anuê' também é pronunciada como 'anauê', saudação do Integralismo

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Quando a paranóia toma posse


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