2 de jan. de 2019

Bolsonaro, um Salazar brasileiro

 EDITORIAL 

Bolsonaro traz para ideologia oficial do Brasil tudo aquilo que foi a cartilha da ditadura portuguesa, o mesmo ódio às "ideologias", a religião como parte do Estado, a defesa dos valores das famílias ultraconservadoras, o mesmo horror aos "vermelhos".


Os dois discursos que ontem Jair Messias Bolsonaro fez na tomada de posse prenunciam o pior. Já sabíamos, evidentemente, desde o início da campanha, mas o capitão reformado entendeu não desiludir quem o elegeu para o cargo de Presidente do Brasil. O elevado grau de aprovação com que Bolsonaro chega ao Planalto é, evidentemente, um susto para quem defende a liberdade e a democracia no sentido ocidental do termo.

Para nós, portugueses, assistir ontem aos discursos de Bolsonaro, trouxe reminiscências dos discursos de um homem que saiu do poder em 1968, embora isso tivesse acontecido por doença: Oliveira Salazar. Bolsonaro traz agora para ideologia oficial do Brasil tudo aquilo que foi a cartilha da ditadura portuguesa, o mesmo ódio às "ideologias", a religião como parte do Estado, a defesa dos valores das famílias ultraconservadoras, o mesmo horror aos "vermelhos".

Há uma frase que não poderia nunca ter sido usada durante a ditadura, porque naquele tempo a expressão "ideologia de género" era desconhecida, mas é todo um programa: "Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar a religião, a nossa tradição judaico-cristã, combater a ideologia de género, conservando os nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre de amarras ideológicas". A ideologia dos que são "contra os políticos" foi expressa por Salazar na sua época - aliás, a sua ascensão ao poder e o golpe de 28 de Maio de 1926 tiveram, como tem agora Bolsonaro, um esmagador apoio popular.

Tudo naquela cerimónia de posse foi um monumento à tragédia anunciada: o discurso do número 2, o general Hamilton Mourão, foi um regresso às cavernas que o povo aplaudiu em delírio; o fim do discurso de Bolsonaro, quando ergue a bandeira brasileira em conjunto com Mourão e grita: "Esta é a nossa bandeira, que jamais será vermelha, só será vermelha se for do nosso sangue derramado para a manter verde e amarela".

Bolsonaro vem preencher um anseio profundo da população, o da segurança seja de que maneira for. "Temos o desafio de enfrentar a ideologia que descriminaliza bandidos, pune polícias e destrói famílias, vamos restabelecer a ordem no país", disse ontem, já depois de ter prometido liberalizar o acesso às armas. O anseio da "ordem" também foi o que levou Salazar ao poder. A democracia brasileira é demasiadamente jovem, mas também as democracias jovens podem morrer.

Ana Sá Lopes
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Palanque eterno de Bolsonaro


Todos os presidentes do Brasil Democrático, ao tomarem posse - começando por Tancredo Neves, cujo de discurso foi lido por José Sarney, pois fora operado na véspera - fizeram referências à pobreza, à desigualdade e à busca de justiça social.

Estas expressões não apareceram nas duas falas de Jair Bolsonaro ao ser empossado ontem.

Ele falou como quem segue no palanque, fustigando adversários e prometendo combate, apesar de uma promessa paradoxalmente perdida no conjunto: a de “construir uma sociedade sem discriminação ou divisão”.

No Congresso o discurso foi mais institucional, como é de praxe, mas não livre do tom messiânico e belicoso, que ficou mais agudo e estridente na fala ao povo no parlatório do Planalto: definiu sua posse como “o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto.”

O socialismo então passou por aqui e só ele viu.

Todos foram incentivados a dizer coisas que ofendem o outro, a revelar os mais escabrosos sentimentos, como o racismo e o preconceito. Deve ser isso que significa a libertação do politicamente correto.

Indicações concretas sobre os rumos do governo continuaram em falta mas sobraram certezas de que será um governo de confrontos.

Ele começou o discurso no Congresso repetindo o agradecimento a Deus por ter sobrevivido à facada, que mais adiante atribuiu a “inimigos da Pátria, da ordem e da liberdade”.

Quem vai mandar na Polícia Federal pode agora esclarecer quem são eles, além de Adélio Bispo.

Pediu o apoio e a ajuda de cada congressista, mas resvalando para a picuinha política: ajuda para reerguer a Pátria, “libertando-a, definitivamente, do jugo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade econômica e da submissão ideológica”.

Ora, o PT já se foi do governo há mais de dois anos, e a referência só pode ter sido a ele, não a Temer, é claro.

Falou em partilhar o poder, mas não foi com o Congresso, e sim com estados e municípios, “de Brasília para o Brasil”.

Espremido, o discurso se compromete com quatro eixos de ação: a batalha ideológico-cultural, o enfrentamento da criminalidade (com referência a liberação da posse de armas), o combate à corrupção e medidas liberalizantes para dinamizar a economia, prometendo austeridade e respeito a regras e contratos.

Enunciou princípios, não medidas.

Mas palanque mesmo virou o parlatório do Planalto, onde os discursos sempre foram mesmo mais emotivos, mas nunca tão beligerantes.

Sobraram farpas para o Congresso, com a lembrança de que formou um governo de técnicos, “sem conchavos ou acertos políticos”. Vamos ver no que dará essa nova forma de governar ao largo dos partidos.

O discurso não foi a “caixinha de surpresas” anunciada pelo filho Eduardo.

Tudo já fora dito na campanha, mas na posse, soava a palanque, como no chamado do povo a uma cruzada contra a “ideologização de nossas crianças, o desvirtuamento dos direitos humanos e a desconstrução da família”.

Prometeu, é claro, ampliar a infraestrutura, reduzir o Estado, garantir a todos acesso a uma vida melhor.

Todos têm direito a ela mas, no Brasil, alguns já têm o que é negado aos milhões de pobres e miseráveis.

Sobre a desigualdade e a pobreza, nada.

Depois de algumas referências aos que derrotou, tomou a bandeira que providencialmente estava a seu alcance para dizer, parece que improvisando, como numa declaração de guerra: “esta é a nossa bandeira, que jamais será vermelha. Só será vermelha se for preciso o nosso sangue para mantê-la verde e amarela”.

No Congresso, foi o vice Mourão que contentou os saudosos do poder militar, pela entonação com que leu o juramento de posse: quase gritando, como se cortasse o ar com uma espada.

Quem esperava um Bolsonaro moderado como presidente encontrou foi o candidato em plena liça.

Quando tudo virar realidade, ninguém pode dizer que não sabia. Estamos avisados.
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Uma radiografia histórica do governo de extrema direita de Jair Bolsonaro


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Discurso de Bolsonaro sinaliza guerra permanente contra opositores do regime


Nos discursos de posse no Congresso e no Parlatório do Palácio do Planalto, Bolsonaro optou por uma retórica de guerra.

É improvável que tenha sido uma escolha acidental ou tresloucada. A probabilidade maior, ao invés disso, é de que por trás dessa escolha tem cálculo político e projeção estratégica.

Teoricamente, Bolsonaro mais perderia do que ganharia com esta pregação odiosa e agressiva logo no primeiro ato como presidente empossado. Em regra, todo governo que assume o poder naturalmente conta com a trégua e a relativa parcimônia inicial da imprensa, da sociedade e até mesmo da oposição.

Desaproveitar essa premissa, e da maneira acintosa como foi no discurso e no descaso com a imprensa, em tese beneficia a oposição e prejudica o governo.

O bolsonarismo, entretanto, calcula que a reiteração do discurso de guerra da campanha funciona como ímã que fideliza seus seguidores, muitos deles fanatizados e dispostos a práticas milicianas, para o combate ao inimigo encarnado nos movimentos sociais, nos símbolos, nas políticas e nos partidos progressistas, socialistas e de esquerda.

Diante de fanáticos que acompanhavam o discurso no Planalto aos gritos de “Mito, Mito” [nos anos 1920 na Itália, as massas ovacionavam Mussolini como “Duce, Duce”], Bolsonaro prometeu, para delírio e transe geral dos seus seguidores: “Nossa bandeira jamais será vermelha! Só será vermelha se for preciso o nosso sangue para mantê-la verde e amarela”.

A guerra permanente contra os opositores do regime será a estratégia deste governo de extrema-direita com tendências nitidamente fascistas.

O cenário que se anuncia pede muita luta, muita unidade política e social para resistir ao macarthismo e às perseguições, à restrição da liberdade de imprensa e de expressão e, em especial, à instauração da violência, da repressão e do terror estatal contra a cidadania e as organizações populares.

É só com a repressão brutal e o aniquilamento da oposição que o regime conseguirá aplacar as resistências do povo aos retrocessos e desmontes observados já nos decretos do primeiro dia do governo.

A execução do programa ultraliberal não se viabiliza em contextos democráticos; ele precisa de um ambiente ditatorial e de forte déficit de democracia, como aconteceu no Chile do Pinochet.

Para o establishment, a superação do conflito distributivo agravado pela crise do capitalismo em 2008 pressupõe

[1] o rompimento do pacto social de 1988 – daí o golpe e a instauração do regime de exceção com a Lava Jato;

[2] um novo pacto de dominação burguesa, que se materializa num programa executado por qualquer governo no qual não caibam políticas distributivas e de igualdade social – daí o imperativo da farsa jurídica contra o Lula, e

[3] o consenso, no seio das classes dominantes, de que a selvageria ultraliberal é o remédio prescrito para o atual estágio do capitalismo periférico do Brasil.

Não se trata de algo trivial. Este novo pacto de dominação burguesa devasta a economia nacional, transfere riquezas, reservas e bens públicos ao capital estrangeiro, aprofunda o desemprego e a recessão e converte o Brasil num consulado sul-americano dos EUA. Um programa, enfim, que rima com autoritarismo, subserviência e neocolonialismo.

Jeferson Miola
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Várias omissões e uma grande fraude do presidente incapaz da verdade


Foram discursos de candidato ainda em caravana eleitoral. Não foram discursos presidenciais. Nem na cerimônia de posse no Congresso Nacional, nem pronunciamento no mais arriscado pronunciamento no parlatório, o agora empossado presidente Bolsonaro anunciou nem sequer uma medida prática para resolver problemas. O tom continuou a ser o mesmo que deu o tom nos palanques eleitorais.

Bolsonaro não propôs aliviar as divisões criadas durante a disputa eleitoral. Não anunciou que pretende ser o presidente de todos os brasileiros, mas sim que pretende governar com a “maioria” do povo brasileiro que o elegeu. A referência à maioria é fraudulenta, pois na verdade Bolsonaro foi eleito com 39% dos votos do conjunto do colégio eleitoral, computados aí nulos, brancos e abstenções. Não acenou com pacificação, mas com o combate ao que chama de viés ideológico na educação e na diplomacia.

Prometeu também combater o “politicamente correto” e a “ideologia de gênero”. Ressuscitou no parlatório diante do Palácio do Planalto, na parte não lida, mas “improvisada” de seu discurso, os antigos temas de campanha. Disse que vai libertar o Brasil do “socialismo” e que a bandeira brasileira “jamais será vermelha”, a não ser com o sangue dos que saírem em defesa da pátria.

Tanto no pronunciamento no interior do Congresso como no discurso na Praça dos Três Poderes, que parecia relativamente esvaziada na comparação com outras cerimônias do tipo, predominou o sentido de governar fascista, ou seja, diretamente “com o povo”. Mencionou sim apenas de passagem o respeito “aos fundamentos” da democracia e da “Constituição”. Pregou um “pacto” com Legislativo e Judiciário, mas não exatamente união.

Não mencionou os seus candidatos adversários da campanha eleitoral, nem mesmo os partidos políticos, senão indiretamente para dizer que seu ministério é “técnico”, sem “o tradicional viés político”, e não resulta de negociação com os partidos. Convicção mesmo mostrou ao abordar a proteção às forças policiais no “combate aos bandidos”.

Nem mesmo a anunciada cruzada contra a corrupção mereceu mais do que alusão passageira. Causa dúvida a referência à sua intenção de “resgatar a legitimidade e a credibilidade do Congresso Nacional”. Difícil saber como Bolsonaro pretende realizar essa tarefa, que aliás nem cabe a ele, ignorando em seu governo as forças presentes no Parlamento. O trecho mais enigmático e perigoso das duas falas de Bolsonaro, porém, foi emitido no Congresso, quando disse, mentirosamente, que “inimigos da pátria, da ordem e da liberdade tentaram pôr fim à minha vida”. Nenhuma investigação séria confirma essa versão.

Na boca da autoridade presidencial, ela já abre em si um espaço de falsidade inaceitável, que desmoraliza sua credibilidade.

Talvez seja porque Bolsonaro afinal só fale mentiras. Talvez seja por isso que a praça estivesse relativamente vazia. E talvez também seja por isso que a maioria que não votou no capitão da mentira esteja em casa, sem comemorar, só olhando para ver se ele vai sentar na cadeira e governar.

Ou melhor não.

Mário Vítor Santos é jornalista. Foi ombudsman da Folha e do portal iG, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasilia da Folha.
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Bolsonaro dispensa tom conciliador e difunde 1ª fake news como presidente

https://www.blogdokennedy.com.br/bolsonaro-dispensa-tom-conciliador-e-difunde-1a-fake-news-como-presidente/
Ele disse que sua posse liberta povo do socialismo

O presidente Jair Bolsonaro dispensou o tom conciliatório tradicional dos vitoriosos em discursos de posse e difundiu hoje a primeira fake news de sua administração. Numa fala típica de campanha eleitoral, ele disse que a sua posse foi o “dia em que o povo começou a se libertar do socialismo”.

Nunca houve socialismo no Brasil. É uma mentira dita pelo presidente no primeiro dia no cargo.

Bolsonaro não desceu do palanque nos dois discursos de hoje. No primeiro, na posse oficial no Congresso, falou em combater a “ideologia de gênero”, responsabilizou “inimigos da pátria” pelo atentado que sofreu na eleição, defendeu maior liberdade para posse de armas e repetiu bordões de campanha. No segundo discurso, no parlatório do Palácio do Planalto, adotou tom agressivo, afirmando que implementaria a agenda aprovada pela maioria na eleição.

“É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil e me coloco diante de toda a nação neste dia como um dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.

Segurando a bandeira do Brasil com o vice, Hamilton Mourão, ele disse: “Nossa bandeira jamais será vermelha… só será vermelha se for preciso nosso sangue para mantê-la verde e amarela”. Foi ovacionado por um público aguerrido, mas que compareceu em número bem inferior ao projetado por seus aliados.

A imprensa recebeu tratamento desrespeitoso, com confinamento de jornalistas durante horas, impedimento para deslocamentos, ameaças de ser alvo de atirador de elite e restrições para alimentação e até idas ao banheiro.

No primeiro dia de governo, Bolsonaro deu mostra de que a sua relação com a imprensa continuará ruim e dispensará prestação de contas por meio do jornalismo.

A agenda econômica não ficou clara em nenhum momento. Falta estratégia para aprovar a reforma da Previdência, por exemplo. Sobra improviso. Nos discursos do presidente, houve mistura nociva e excessiva de religião com assuntos de Estado. Em resumo, Bolsonaro é o político mais despreparado a se sentar na cadeira presidencial.
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De um juiz, para Lula: é a primeira vez que escrevo a um preso


Depois de ter passado o dia ouvindo barbaridades, bem que merecemos ler algo menos medíocre, mais generoso.

Luis Carlos Valois é juiz federal no Amazonas. Não apenas juiz, mas juiz da Vara de Execução Penal do Estado, condição na qual convive com toda a brutalidade do sistema carcerário. Não ser um bruto, também, passou a ser um pecado para Valois, que sofreu abusos e “investigações” apenas por ser respeitado pelos presos.

Escrita com a simplicidade que salva o ser humano do “juridiquês”, a carta de Valois, sem acusações, lembra Lula o efeito de uma escolha errada do governo Dilma, supostamente conciliatória, que deu ao inqualificável Luiz Moradia Fux o lugar que deveria ser, como atentou este blog em 2013, de um dos maiores penalistas do país  e outra exceção à regra da mediocridade jurídica do país, no Supremo Tribunal Federal: Nilo Batista.

Valois chama a atenção sobre o caminho de legitimação que o Judiciário tem escolhido: o de confundir-se com polícia, o de querer ser um meganha togado:

“O juiz não pode ser respeitado por preso, juiz deve ser odiado, essa é a imagem com a qual o poder judiciário tem buscado legitimidade frente a uma população sofrida por causa da criminalidade crescente, demonstrando-se rigoroso, mais um temido órgão de repressão.”

O texto é um alento e uma esperança, provavelmente vã, na recuperação da consciência jurídica deste país:

Carta ao Presidente Luiz Inacio Lula da Silva

Luís Carlos Valois, juiz federal, no Facebook

Lula, meu caro, faz tempo que estou querendo te escrever. Esse pessoal do meio carcerário tem uma espécie de tara por proibir as coisas, então não sabia se minha carta ia chegar a ti, já que muita gente importante sequer conseguiu entrar para trocar umas palavras contigo, razão pela qual resolvi escrever por intermédio da internet mesmo, um dia tu vais ler.

Cara, eu sei que tu não és santo, nem eu sou, nem ninguém é, então todos nós temos um monte de culpa por aí, mas o crime que tu cometeste realmente ninguém sabe até agora qual foi. Bem, você sabe disso, você já disse que aceitaria a pena tranquilamente se te mostrassem provas de um crime, só estou repetindo porque a carta será publicada e porque quero ressaltar uma coisa.

Hoje em dia com tanta culpa por aí, já nem precisa de crime para se condenar uma pessoa, basta querer condenar alguém que todo mundo já acha esse alguém culpado. É como um juiz me falou certa vez, que ele não sabia porque estava condenando o cidadão, mas o cidadão sabia porque estava sendo condenado. É mais ou menos assim que estamos vivendo, e é cada um por si.

No teu caso, um recibo de pedágio, a tua visita a um apartamento, mais dois ou três presos dedos-duros loucos para ganhar a liberdade, e pronto, está formada a prova necessária para a tua condenação, mesmo que ninguém diga onde está o teu dinheiro, onde está o benefício que tu tiveste nisso tudo, ninguém diz. E ninguém quer saber.

Xará (acabei de me tocar para o fato que temos o mesmo nome…rs…), a coisa tá difícil. Não quero entrar aqui na questão política, se fizeram tudo para te tirar da eleição, se têm ódio de ti porque és nordestino, um nordestino que teria chegado onde incomoda muita gente, e feito outros tantos nordestinos incomodarem mais gente por chegarem onde chegaram, não quero falar dessas questões políticas, quero conversar contigo sobre a tua situação atual.

Tenho trabalhado com presos a vida inteira e sei o quanto é difícil, principalmente em situação de isolamento, o encarceramento. Eu queria inclusive, com esta carta, te mandar uns livros, mas também não sei se chegariam até ti, são meios subversivos, acho que tu tens que ler algumas coisas subversivas, sabe? Tu tens que conhecer o sistema a fundo para entender a tua própria situação de encarcerado.

Um dia Nilo Batista disse que todo preso é um preso político. Pena que a maioria dos presos não sabe disso. O sistema, nele incluído o sistema penal, tem uma função primordial em fazer todos acreditarem, inclusive os próprios presos, que tudo funciona na mais perfeita ordem e, se tu estás preso, é porque devias estar preso.

Aliás, falando em Nilo Batista, e desviando do assunto novamente para a política, esse sim era um nome que tu devias ter nomeado para o Supremo. Poxa, tu não nomeaste nenhum penalista, e agora o que acontece, acontece que a maior parte dos integrantes do Supremo não sabe o que é uma prisão, dá para manter todo mundo preso sem um pingo de peso na consciência, convalidam mandado de busca e apreensão como se fosse um mandado de penhora, permitem condução coercitiva como se fosse uma intimação para depor em juizado, autorizam execução antecipada da pena como se ninguém corresse um grande risco de morrer, assassinado ou por doenças, atrás das grades.

Eu sei, eu sei, tu vais dizer que já percebeste isso, afinal estás preso e muitos dos que te mantiveram preso foram nomeados por ti. Eu também sofri na pele uma medida policial, uma busca e apreensão na minha casa autorizada à Polícia Federal por um magistrado nomeado por ti, mas até agora, pelo menos após a violência da busca, não tenho nada para dizer do juiz, apenas que ele não é da área penal, e ser da área penal é muito importante, porque o direito penal é como uma metralhadora, só serve para provocar dor e mortes. Não basta boa vontade para manusear uma metralhadora.

Qual a justificativa dessa medida contra mim? Alguns presos me elogiavam em interceptações telefônicas. O juiz não pode ser respeitado por preso, juiz deve ser odiado, essa é a imagem com a qual o poder judiciário tem buscado legitimidade frente a uma população sofrida por causa da criminalidade crescente, demonstrando-se rigoroso, mais um temido órgão de repressão. Mas depois eu volto a falar dos presos, dos outros presos.

Olha, esse fato acima parece irrelevante, mas é a prova de que eu podia muito bem achar bem feito o que aconteceu contigo, querer te ver preso, mas não, não quero. Seja pela tua idade, seja pelo que você representou para o Brasil, seja porque prisão não resolve nada, seja porque ainda não vi efetivamente o que tu usufruíste do crime, que também não sei qual é, que te imputam.

E, pior, nessas horas eles alegam o princípio da presunção de inocência, o devido processo legal, a ampla defesa, essas garantias jurídicas facilmente manuseáveis, principalmente em uma sociedade de memória fraca.

Sabe o que é, Lula, o sistema capitalista é feito de dinheiro, status, aparência e malícia, muita malícia, mas acima de tudo o sistema é feito de instituições, todas funcionando sob a mesma base, a que privilegia o acúmulo de capital, a que privilegia o mercado financeiro, em detrimento dos pobres.

Lá estou eu falando de política novamente. Nesse assunto, do mercado financeiro, nem quero tocar mesmo, porque seria a única coisa que estragaria esta carta, pois poderia falar coisas mais pesadas, a ponto de te deixar chateado comigo. Fostes muito bom para os bancos, para o mercado financeiro. Bem, deixa pra lá, pode ser que tu não tenhas tido outra saída, pois, afinal, ninguém ajudou mais os pobres do que você.

O fato é que tu és, além de tudo, um cara simpático. Não sei se vou te conhecer pessoalmente um dia, mas se isso acontecer, tenho muito mais coisa para te falar do que permite uma carta, “privada” (na condição em que tu estás nada é privado, e esse é um agravamento da pena, os presos perdem além da liberdade, a privacidade) ou principalmente pública, como essa que escrevo gora.

O que é importante é ter força, cara, as coisas mudam muito rapidamente nesse mundo. Nunca abaixe a cabeça, porque a esperança combina com cabeças erguidas, e há milhares de pessoas que ainda acreditam em ti, estão te esperando aqui fora, e isso deve ser capaz de te dar uma força tremenda.

Já recebi, na vida, milhares de cartas de presos, e em resposta a quase todas eu vou até o presídio e falo pessoalmente com o preso, mas essa é a primeira vez que escrevo a um preso. E não podia encerrar sem te dizer isso, Lula, mesmo que você tivesse cometido o crime mais bárbaro do mundo, todos os presos são seres humanos, todos os presos têm, acima de tudo, direito, se não porque são seres humanos, porque esse direito está na lei e na Constituição, de serem tratados com dignidade.

Falo isso porque tu és e ainda é um porta-voz do povo, de boa parte do povo, brasileiro, e grande parte desse povo está atrás das grades.

No mais, quero te desejar sorte, muita sorte. Que as pessoas que te odeiam, que também não são poucas, percebem a covardia que é espezinhar de uma pessoa presa, porque, acredite, Lula, não há limites para o ódio à pessoa encarcerada. Sorte, meu caro, não só tu como todos os brasileiros vão precisar neste novo ano de sorte. Não sou um cara religioso, posso até me considerar um ateu, embora essa conceituação não seja lá de muita importância para mim, mas te desejo muita sorte e, ainda com pouca fé, que tu fiques com Deus.


Grande abraço,

Luís Carlos Valois

Fernando Brito
No Tijolaço
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Este já não mais é o meu país

Muito estranho, mas é verdade: estou me sentindo uma espécie de "estrangeiro" onde nasci e sempre vivi.

Esta inadaptação pode resultar um pouco da minha idade. O velho não tem muita paciência e se torna muito exigente com as coisas em geral.

O fato é que não gosto da nossa imprensa empresarial; não mais gosto do que faz o nosso sistema de justiça criminal; detesto a maioria dos governantes que hoje tomam ou tomaram posse; nunca gostei do nosso modelo de sociedade, injusto, capitalista, desigual, individualista e hipócrita; estou decepcionado com o nosso povo que escolheu, para Presidente da República, uma pessoa asquerosa (adepta da tortura e do extermínio de seus adversários).

Acho que estou assistindo à derrocada de quase todos os valores que sempre estiveram presentes em minha vida, pelos quais sempre lutei.

Enfim, não gostaria de terminar a minha existência no seio de uma sociedade tão ruim como esta.

Não posso deixar de registrar o meu desencanto com a "comunidade jurídica", onde me realizei profissionalmente. Explico.

Salvo as sempre existentes exceções, os juristas de meu país estão absolutamente omissos diante da chegada de algo muito parecido com o fascismo.

Muitos a tudo se submetem, por opção ideológica mesmo, outros por mero oportunismo e carreirismo. A maioria dos advogados não quer comprometer sua atividade profissional e continua a bajular ministros e desembargadores ou poupa de críticas as mazelas do nosso Poder Judiciário.

A maior parte da juventude, mormente os estudantes, está alienada e só pensa em seus interesses mais imediatos. Viciados em tecnologia, as novas gerações se afastam, cada vez mais, da cultura, do conhecimento científico, das lutas sociais e do conhecimento histórico. Justiça social não é, nem de longe, uma de suas principais preocupações. Mais importante é trocar o celular por um de última geração... Os outros ... são os outros ...

Nos atuais dias, poucos se preocupam com a dor alheia, poucos se preocupam com o sofrimento dos outros.

Hedonismo e individualismo estão cada vez mais predominando em nossa sociedade, competitiva e alienante.

A minha derradeira esperança, para mudar todo este deletério estado de coisas, era a rebeldia dos jovens, que pouco teriam a conservar. Decepção. Dentre eles, não é muito fácil encontrar uma consciência verdadeiramente crítica.

Nos dias de hoje, muitos jovens são levados, facilmente, pelos modismos criados pelos projetos empresariais, muitos destes projetos comerciais são concebidos no estrangeiro. As crianças estão robotizadas pela gananciosa propaganda, sob os olhares complacentes de seus pais infantilizados.

Seria infindável a minha "choradeira". Mas quero terminar lamentando o crescente fundamentalismo religioso que, indevidamente misturado com a política, cria condições para uma sociedade obscura, conservadora e inimiga da cultura e do conhecimento científico. A razão perde espaço para as crendices. A lógica perde espaço para o raciocínio de difícil entendimento.

Mais uma vez confesso que não sei o que fazer. Entretanto, sei que não posso deixar de fazer alguma coisa. Estou achando que aqui não é o meu lugar. Parentes, alguns poucos amigos e vocês, leitores desta página, ainda me dão alguma esperança de eu poder fazer alguma coisa útil neste ambiente tão hostil.

Como disse em mensagem anterior, parodiando uma linda música de Victor Heredia, ouso dizer que ainda sinto estar "vivo entre tantos mortos". Enquanto continuar achando que realmente a vida vale a pena, vou continuar tentando ressuscitar alguns destes zumbis ...

Afrânio Silva Jardim, professor associado de Direito da Uerj (por pouco tempo)
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Líderes estrangeiros não estão nem aí para o Bolsonaro!

Cerimônia de posse teve menor número de dignatários em trinta anos

Donald Trump, ídolo do Bolsonaro, não veio nem para a posse, nem para a "possession"...
Reprodução: Twitter
Do Broadcast Político do Estadão:

Posse de Jair Bolsonaro contabiliza o menor número de delegações estrangeiras desde Collor


Os festejos da posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República contabilizaram o menor número de delegações estrangeiras em cerimônias de primeiro mandato em quase três décadas. Neste ano, 46 delegações estrangeiras vieram à capital federal, segundo informou há pouco o Itamaraty. Desses, dez vieram lideradas por seus chefes de Estado ou governo.

Levantamento feito no acervo do Estadão mostra que à posse de Fernando Collor de Mello, em 1990, vieram 72 delegações estrangeiras. O jornal da época mostra que a grande estrela dessa festa foi o mandatário de Cuba, Fidel Castro, que fazia sua primeira visita ao Brasil. (...) Para a posse de Fernando Henrique Cardoso, em 1995, vieram 120 delegações. Fidel novamente prestigiou a festa, que teve direito a show de Daniela Mercury.

(...) Novidade no cenário internacional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mereceu o deslocamento de 110 delegações estrangeiras para sua posse. (...) os Estados Unidos enviaram seu representante comercial, Robert Zoellick, que havia se envolvido em um bate-boca com Lula na campanha eleitoral. O brasileiro ameaçava paralisar as negociações para formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Zoellick afirmou que, fazendo isso, o Brasil poderia fazer comércio com os pinguins da Antártida. Ao que Lula o classificou de “sub do sub”.

A posse mais prestigiada em termos de presença estrangeira foi a de Dilma Rousseff, em 2011. O jornal do dia registra a presença de 130 delegações estrangeiras, das quais 32 lideradas por chefes de Estado ou de governo.

Em tempo: fontes oficiais e perfis pró-Bolsonaro nas redes sociais esperavam que cerca de 500 mil pessoas acompanhariam a posse na Esplanada...


Reprodução: Rede Globo

No CAf
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Raúl Castro: "Após 60 anos, Cuba é um país livre, independente e dono do seu destino"

Raúl também comentou o fim da participação de Cuba no programa Mais Médicos e afirmou que novo governo do Brasil serve a interesses da ultradireita da Flórida


O ex-presidente de Cuba Raúl Castro disse, durante discurso em comemoração aos 60 anos da Revolução Cubana – completados nesta terça-feira (01/01) –que o país, depois de seis décadas, é livre, independente e dono do seu destino.

“Após 60 anos de lutas, sacrifícios, esforços e vitórias, vemos um país livre, independente e dono de seu destino. Ao imaginar o amanhã, a obra realizada nos permite vislumbrar um porvir digno e próspero para a pátria”, afirmou.

O evento aconteceu no Cemitério de Santa Ifigênia, onde se encontram os mausoléus de líderes revolucionários como Fidel Castro, José Martí e outros. O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, que sucedeu a Raúl, também estava presente.

“O povo heroico de ontem e hoje, orgulhoso de sua história, comprometido com seus ideais e a obra da Revolução, soube resistir e vencer nas seis décadas ininterruptas defendendo o socialismo”, disse Raúl. “A autoridade política e moral de Cuba está sustentada na história”.

“A Revolução não envelheceu”, disse, ao falar sobre o papel da juventude do país. “Sentimo-nos profundamente satisfeitos, felizes e confiantes ao ver, com nossos próprios olhos, como as novas gerações assumem a missão de construir o socialismo, “única via para a independência”.

Brasil

Raúl também comentou o fim da participação de Cuba no programa Mais Médicos, do qual Havana se retirou por não concordar com as exigências do hoje presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

“Há poucas semanas, retornaram dignamente, com o reconhecimento e o carinho de milhões de pacientes, sobretudo os em zonas rurais e populações indígenas, milhares de médicos cubanos que prestaram serviços no Brasil, a quem o novo presidente caluniou e repudiou, com o propósito de destruir esse programa social e, assim, cumprir as orientações da ultradireita da Flórida, que sequestrou a política dos EUA com Cuba para o beneplácito das forças mais reacionárias do atual governo norte-americano”, afirmou.

O ex-presidente cubano também pediu que se cessem o que classificou como “ataques” às ex-presidentes Dilma Rousseff, do Brasil, e Cristina Kirchner, da Argentina.

“Promoveram processos judiciais arranjados e motivados politicamente, assim como campanhas de manipulação e descrédito contra dirigentes e organizações de esquerda, fazendo uso do controle monopólico sobre os meios de difusão massiva. Desta forma, conseguiram encarcerar o companheiro Lula da Silva e o privaram do direito de ser candidato presidencial do Partido dos Trabalhadores, para evitar sua vitória segura nas últimas eleições. Aproveito a ocasião para fazer um chamamento a todas as forças políticas honestas do planeta para pedir sua liberação e que cessem os ataques e a perseguição judicial contra as ex-presidentes Dilma Rousseff e Cristina Fernandéz de Kirchner”.

Leia íntegra do discurso de Raúl (em espanhol):

Santiagueras y Santiagueros;


Compatriotas de toda Cuba:


Nos reunimos hoy para celebrar el aniversario 60 del triunfo revolucionario del Primero de Enero, y lo hacemos nuevamente en Santiago de Cuba, cuna de la Revolución, aquí en el cementerio de Santa Ifigenia, donde se veneran los restos inmortales de muchos de los mejores hijos de la nación, muy cerca de las tumbas del Héroe Nacional, del Padre y la Madre de la Patria y del Comandante en Jefe de la Revolución Cubana.


No vengo a aquí a hablar a título personal, lo hago en nombre de los heroicos sacrificios de nuestro pueblo y de los miles de combatientes que ofrendaron su vida a lo largo de más de 150 años de lucha.


Parece increíble que el destino nos haya reservado el privilegio de poder dirigirnos a nuestros compatriotas un día como hoy, al conmemorar seis décadas del triunfo, ocasión en que, bajo el mando de Fidel, por primera vez el pueblo cubano alcanzó el poder político y los mambises sí pudieron entrar victoriosos a Santiago de Cuba, coincidentemente 60 años después de que se instaurara el dominio absoluto del imperialismo norteamericano sobre Cuba.


Hace pocos meses, en La Demajagua, nos reunimos para recordar el aniversario 150 del inicio de las guerras por la independencia de Cuba, el 10 de Octubre de 1868, fecha que marca el comienzo de nuestra Revolución, que sobrevivió momentos de amargura y desunión, como el Pacto del Zanjón, y episodios luminosos como el protagonizado por Antonio Maceo en la Protesta de Baraguá.


La Revolución revivió, en 1895, gracias al genio y la capacidad de Martí para aglutinar a los mejores y más experimentados jefes de la contienda de los 10 años y preparar la «guerra necesaria» contra el colonialismo español.


Cuando el ejército colonial estaba prácticamente derrotado, con escasa moral combativa, asediado por los mambises en casi toda la isla y mermado por las enfermedades tropicales, que, en 1897, por solo citar un ejemplo, provocaron 201 000 bajas entre sus efectivos; la victoria fue usurpada con la intervención norteamericana y la ocupación militar del país, lo que dio paso a un largo período de opresión y gobiernos corruptos y serviles a sus designios hegemónicos.


Ni siquiera en esas difíciles circunstancias se apagó la llama redentora del pueblo cubano, puesta de manifiesto en figuras de la talla de Baliño, Mella, Villena, Guiteras y Jesús Menéndez, entre muchos otros que no se resignaron a vivir en afrenta y oprobio sumidos.


Tampoco la Generación del Centenario, que bajo el liderazgo de Fidel asaltó los cuarteles Moncada y Carlos Manuel de Céspedes el 26 de Julio de 1953, estaba dispuesta a tolerar, a 100 años del natalicio de Martí, los crímenes y abusos de una tiranía sangrienta totalmente subordinada a los intereses de los Estados Unidos.


Sobrevinieron entonces momentos de profundo dolor y tristeza luego del revés y el vil asesinato de muchos de los combatientes revolucionarios participantes en esas acciones, denunciado virilmente por Fidel en su histórico alegato «La historia me absolverá», que se convirtió en el programa de la Revolución. A pocos metros de aquí yacen los restos de los caídos aquel 26 de julio y de otros mártires de la gesta insurreccional, incluidos también los valientes jóvenes santiagueros de la lucha clandestina y los hijos de esta ciudad que cayeron en las gloriosas misiones internacionalistas.


En los duros años de presidio y vejaciones no desfalleció el fervor y el compromiso de reiniciar la lucha, creció el prestigio y la autoridad del líder revolucionario para sumar nuevas fuerzas contra la dictadura.


El exilio en México no conoció el descanso; sirvió para preparar la próxima y decisiva etapa de batallar que nos trajo en el yate Granma a las Coloradas el 2 de diciembre de 1956. La demora en arribar a costas cubanas, debido a la azarosa navegación, no permitió la sincronización prevista con el Alzamiento de Santiago de Cuba, el 30 de noviembre, organizado por el audaz y valeroso joven dirigente del Movimiento 26 de Julio, Frank País García, quien todavía no había cumplido los 22 años, edad que tenía cuando fue brutalmente asesinado por los esbirros de la tiranía el 30 de julio de 1957.


Tampoco el desastre de Alegría de Pío, que casi aniquiló a los expedicionarios, pudo extinguir el optimismo y la fe de Fidel en la victoria, convicciones que lo llevaron a exclamar el 18 de diciembre cuando nos reencontramos, con apenas siete fusiles: ¡Ahora sí ganamos la guerra!


Desde Santiago de Cuba, como resultado de los infatigables esfuerzos del movimiento clandestino dirigido por Frank País, recibimos en la Sierra Maestra el primer refuerzo de jóvenes combatientes, armas y municiones, que significó un aporte crucial a la capacidad combativa del naciente Ejército Rebelde.


Prosiguieron meses de incesantes combates, primero en la Sierra Maestra y luego la lucha se extendió a otras regiones con la apertura de nuevos frentes y columnas, y con la derrota de la gran ofensiva de las tropas batistianas contra el Primer Frente dirigido por Fidel, que marcó el inicio de la contraofensiva estratégica y el viraje radical de la guerra que condujo a la derrota del régimen y la toma del poder revolucionario.


Ya el 8 de enero de 1959, a su llegada a La Habana, el Jefe de la Revolución expresaba: «La tiranía ha sido derrocada, la alegría es inmensa y sin embargo queda mucho por hacer todavía. No nos engañamos creyendo que en lo adelante todo será fácil, quizás en lo adelante todo sea más difícil».


Las premonitorias palabras de Fidel no tardaron en hacerse realidad. Se iniciaba una etapa de luchas que estremeció los cimientos de la sociedad cubana. El 17 de mayo, a escasos cuatro meses y medio del triunfo, en la Comandancia de la Plata, en el corazón de la Sierra Maestra, se promulgó la primera Ley de Reforma Agraria en cumplimiento del Programa del Moncada, hecho que afectó a los poderosos intereses económicos de los monopolios norteamericanos y la burguesía criolla, que redoblaron las conspiraciones contra el proceso revolucionario.


La naciente Revolución se vio sometida a todo tipo de agresiones y amenazas, como el accionar de bandas armadas y financiadas por el Gobierno norteamericano, los planes de atentado contra Fidel y otros dirigentes, el asesinato de jóvenes alfabetizadores, muchos de ellos todavía adolescentes; el sabotaje y el terrorismo en todo el país con el terrible saldo de 3 478 muertos y 2 099 incapacitados; el bloqueo económico, comercial y financiero y otras acciones políticas y diplomáticas con el fin de aislarnos; las campañas de mentiras para denigrar a la Revolución y a sus líderes; la invasión mercenaria por Playa Girón en abril de 1961; la Crisis de Octubre en 1962 cuando en Estados Unidos se preparaba la invasión militar a Cuba y una interminable lista de hechos hostiles contra nuestra patria.


Nadie puede negar que la Revolución que nacía aquel Primero de Enero no ha tenido, a lo largo de 60 años, un minuto de sosiego, ya vamos por 12 administraciones norteamericanas que no han cejado en el empeño de forzar un cambio de régimen en Cuba utilizando una u otra vía, con mayor o menor agresividad.


El pueblo heroico de ayer y de hoy, orgulloso de su historia y cultura nacionales, comprometido con los ideales y la obra de la Revolución, que suma ya cuatro generaciones de cubanos, ha sabido resistir y vencer en las seis décadas de ininterrumpido bregar en defensa del socialismo, siempre basado en la más estrecha unidad en torno al Partido y a Fidel.


Únicamente así se puede comprender la hazaña de haber resistido los crudos años de período especial, cuando nos quedamos solos en medio de Occidente, a 90 millas de Estados Unidos. Entonces, nadie en el mundo habría apostado un centavo por la supervivencia de la Revolución; sin embargo, sí se pudo soportar y vencer el reto sin violar ni uno solo de los principios éticos y humanistas del proceso revolucionario y merecer el inestimable apoyo de los movimientos de solidaridad que nunca dejaron de creer en Cuba.


Ahora nuevamente el Gobierno norteamericano parece tomar el rumbo de la confrontación con Cuba y de presentar a nuestro país, pacífico y solidario, como una amenaza para la región. Apela a la tenebrosa Doctrina Monroe para intentar retrotraer la historia a la época vergonzosa en que gobiernos sometidos y dictaduras militares se sumaron al aislamiento de Cuba.


De manera creciente altos funcionarios de la actual administración, con la complicidad de algunos lacayos, difunden nuevas falsedades y otra vez pretenden culpar a Cuba de todos los males de la región, como si estos no fueran consecuencia de despiadadas políticas neoliberales que provocan la pobreza, el hambre, la desigualdad, el crimen organizado, el narcotráfico, la corrupción política, el abuso y la privación de derechos a los trabajadores, los desplazados, el desalojo de campesinos, la represión de los estudiantes y precarias condiciones de salud, educación y vivienda para las grandes mayorías.


Son los mismos que declaran la intención de continuar forzando el deterioro de las relaciones bilaterales y promueven nuevas medidas de bloqueo económico, comercial y financiero para restringir el desempeño de la economía nacional, provocar limitaciones adicionales en el consumo y bienestar del pueblo, obstaculizar aún más el comercio exterior y frenar el flujo de la inversión extranjera. Dicen estar dispuestos a desafiar el Derecho Internacional, contravenir las reglas del comercio y las relaciones económicas internacionales y aplicar más agresivamente medidas y leyes de carácter extraterritorial contra la soberanía de otros Estados.


Reitero nuestra disposición a convivir civilizadamente, pese a las diferencias, en una relación de paz, respeto y beneficio mutuo con los Estados Unidos. También hemos señalado con toda claridad que los cubanos estamos preparados para resistir un escenario de confrontación, que no deseamos, y esperamos que las mentes más equilibradas en el Gobierno norteamericano lo puedan evitar.


Otra vez se acusa a Cuba, cuando está demostrado que la deuda externa, los flujos migratorios descontrolados, el saqueo de recursos naturales son resultado de la dominación de las trasnacionales en el continente.


La fuerza de la verdad ha desbaratado las mentiras y la historia ha colocado los hechos y los protagonistas en su lugar.


Se podrá atribuir a la Revolución Cubana y a la epopeya escrita por este heroico pueblo solo la responsabilidad que emana de su ejemplo como símbolo de plena independencia, resistencia victoriosa, justicia social, altruismo e internacionalismo.


Como parte de Nuestra América, ha sido y será invariable nuestro respeto y solidaridad con las naciones hermanas, en las que han laborado más de 347 700 médicos y trabajadores de la salud cubanos, muchos de ellos en lugares recónditos y difíciles, y se han formado más de 27 200 jóvenes como profesionales. Ello demuestra confianza en Cuba.


Hace pocas semanas retornaron dignamente, con el reconocimiento y el cariño de millones de pacientes, sobre todo de zonas rurales y poblaciones indígenas, miles de médicos cubanos que prestaron servicios en Brasil, a quienes el nuevo Presidente calumnió y repudió en el propósito de destruir ese programa social y con ello cumplir las orientaciones de la ultraderecha en la Florida, que ha secuestrado la política de los Estados Unidos hacia Cuba para beneplácito de las fuerzas más reaccionarias del actual Gobierno norteamericano.


A 60 años del triunfo podemos afirmar que estamos curados de espanto, no nos intimidan el lenguaje de fuerza ni las amenazas, no nos intimidaron cuando el proceso revolucionario no estaba consolidado, no lo lograrán ni remotamente ahora que la unidad del pueblo es una indestructible realidad, pues si ayer éramos unos pocos, hoy somos todo un pueblo defendiendo su Revolución.


El pasado 26 de julio, aquí en Santiago, expliqué que se había conformado un escenario adverso y nuevamente resurgía la euforia en los enemigos y el apuro por materializar los sueños de destruir el ejemplo de Cuba. Igualmente señalé la convicción de que se estrechaba el cerco imperial en torno a Venezuela, Nicaragua y nuestro país. Los hechos han confirmado esa apreciación.


Luego de casi una década de poner en práctica los métodos de guerra no convencional para impedir la continuidad o frenar el regreso de gobiernos progresistas, los círculos del poder en Washington patrocinaron golpes de Estado, primero uno militar para derrocar en Honduras al presidente Zelaya y más adelante acudieron a los golpes parlamentario-judiciales contra Lugo en Paraguay y Dilma Rousseff en Brasil.


Promovieron procesos judiciales amañados y motivados políticamente, así como campañas de manipulación y descrédito contra dirigentes y organizaciones de izquierda, haciendo uso del control monopólico sobre los medios de difusión masiva.


De esta forma lograron encarcelar al compañero Lula da Silva y lo privaron del derecho a ser el candidato presidencial del Partido de los Trabajadores para evitar su segura victoria en las pasadas elecciones. Aprovecho la ocasión para hacer un llamamiento a todas las fuerzas políticas honestas del planeta en reclamo de su liberación y que cesen los ataques y la persecución judicial contra las expresidentas Dilma Rousseff y Cristina Fernández de Kirchner.


Quienes se ilusionan con la restauración del dominio imperialista en nuestra región deberían comprender que América Latina y el Caribe han cambiado y el mundo también.


Por nuestra parte seguiremos contribuyendo activamente a los procesos de consenso e integración en la región, basados en el concepto de la unidad en la diversidad.


Hemos contribuido con el proceso de paz en Colombia, por solicitud expresa de su Gobierno, las Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia y el Ejército de Liberación Nacional, y lo seguiremos haciendo, por encima de riesgos, agravios y dificultades.


La autoridad política y moral de Cuba está cimentada en la historia, la conducta y el respaldo unido, consciente y organizado del pueblo.


Por ello ninguna amenaza nos hará desistir de nuestra solidaridad con la República Bolivariana de Venezuela.


Deben cesar las acciones agresivas contra esta hermana nación. Como hemos advertido tiempo atrás, la reiterada declaración de Venezuela como una amenaza a la seguridad nacional de los Estados Unidos, los abiertos llamados al golpe militar contra su Gobierno constitucional, los ejercicios de entrenamientos militares desarrollados en las proximidades de las fronteras venezolanas, así como las tensiones e incidentes en la zona solo pueden conducir a una grave inestabilidad y a consecuencias impredecibles.


La región se asemeja a una gran pradera en tiempos de sequía. Una chispa pudiera generar un incontrolable incendio que dañaría los intereses nacionales de todos.


Es igualmente peligroso e inaceptable que el Gobierno de los Estados Unidos sancione unilateralmente y proclame también a la República de Nicaragua como una amenaza a su seguridad nacional. Rechazamos los intentos de la desprestigiada oea, Organización de los Estados Americanos, para inmiscuirse en los asuntos de esta hermana nación.


Frente a la Doctrina Monroe, habrá que aplicar y defender, por el bien de todos, los principios de la Proclama de América Latina y el Caribe como Zona de Paz, firmada en La Habana por los Jefes de Estado y Gobierno, que ahora algunos aliados de los Estados Unidos pretenden ignorar.


La mayor enseñanza que los revolucionarios y movimientos progresistas podemos extraer de la situación que se ha configurado es la de no descuidar jamás la unidad con el pueblo y no cejar en la lucha en defensa de los intereses de los oprimidos, por difíciles que sean las circunstancias.


Para nosotros, en la compleja coyuntura internacional, preservan total vigencia las palabras del líder histórico de la Revolución Cubana al presentar su informe central al Primer Congreso del Partido, en 1975, cuando expresó: «Mientras exista el imperialismo, el Partido, el Estado y el pueblo, les prestarán a los servicios de la defensa la máxima atención. La guardia revolucionaria no se descuidará jamás. La historia enseña con demasiada elocuencia que los que olvidan este principio no sobreviven al error».


En correspondencia con ello, continuaremos priorizando las tareas de preparación para la defensa, en todos los niveles, en interés de salvaguardar la independencia, la integridad territorial, la soberanía y la paz, partiendo de la concepción estratégica de la Guerra de Todo el Pueblo, como se recoge en la recién aprobada Constitución de la República.


Es nuestro deber prepararnos meticulosamente con anticipación para todos los escenarios, incluyendo los peores, no solo en el plano militar, de modo que no dejemos espacio al desconcierto y la improvisación que florece en los de escasa voluntad a la hora de actuar, sino que con el optimismo y la confianza en la victoria que nos legó Fidel y en estrecho vínculo con el pueblo sepamos encontrar la mejor solución a cualquier desafío que se presente.


Precisamente un reto que enfrentaremos en el año que hoy comienza, es la situación de la economía, agobiada por las tensiones en las finanzas externas a causa de las afectaciones en los ingresos de las exportaciones y el recrudecimiento del bloqueo norteamericano y sus efectos extraterritoriales.


Como expresó nuestro Ministro de Economía y Planificación en el último período de sesiones de la Asamblea Nacional, el costo para Cuba de esta arbitraria medida, calculado según la metodología aprobada internacionalmente, ascendió el pasado año a 4 321 millones de dólares, lo que equivale a casi 12 millones de daños cada día, dato que pasan por alto los analistas que suelen cuestionar el desempeño de la economía nacional.


Con independencia del bloqueo y su reforzamiento, los cubanos tenemos enormes reservas internas que explotar sin volver a incrementar el endeudamiento externo. Para ello se requiere, en primer lugar, reducir todo gasto no imprescindible y ahorrar más, incrementar y diversificar las exportaciones, elevar la eficiencia del proceso inversionista y potenciar la participación de la inversión extranjera, la cual, como se recoge en los documentos rectores del Partido, no es un complemento, sino un elemento fundamental para el desarrollo.


En ese mismo escenario, en la Asamblea Nacional, el 22 de diciembre, el Presidente de los Consejos de Estado y de Ministros, compañero Miguel Díaz-Canel Bermúdez, pasó balance al estado de la economía durante el 2018 y el plan para el presente año, donde resaltó que la batalla económica sigue siendo la tarea fundamental y la más compleja, y agregaba, es esa la que más exige hoy de todos nosotros, porque es de la que más espera nuestro pueblo.


Con este propósito precisó, que se requiere una actitud más proactiva, inteligente y concreta de los dirigentes impulsando –no trabando ni demorando– soluciones seguras y particulares a los problemas, con la búsqueda continua e intensa de respuestas ágiles y eficientes. Al propio tiempo llamó a ser más coherentes con la Conceptualización del Modelo Económico y Social y más sistemáticos y precisos en la implementación de los Lineamientos de la Política Económica y Social del Partido y la Revolución.


Es oportuno expresar que la dirección del Partido Comunista de Cuba respalda decididamente los pronunciamientos y las acciones acometidas por el compañero Díaz-Canel al frente del Estado y del Gobierno desde que asumió el cargo, incluyendo su sistema de trabajo, basado en la visita a los territorios y comunidades; el vínculo con los colectivos y el intercambio directo con el pueblo, la promoción de la rendición de cuentas de los dirigentes mediante los medios de prensa y las redes sociales, así como el control sistemático de los principales programas de desarrollo y el fomento de un estilo de dirección y conducción colectiva de los órganos estatales y gubernamentales.


Sin el ánimo de hacer una valoración apresurada, puedo afirmar que el proceso de transferencia a las nuevas generaciones de las principales responsabilidades marcha bien, digo más, muy bien, sin tropiezos ni sobresaltos, y estamos seguros de que así continuaremos.


Aquellos jóvenes que tuvimos entonces el privilegio de combatir bajo el mando de Fidel, hace más de 65 años, desde el Moncada, el Granma, el Ejército Rebelde, la lucha clandestina, Girón, el enfrentamiento a las bandas contrarrevolucionarias, las misiones internacionalistas y hasta el presente, junto al heroico pueblo cubano nos sentimos profundamente satisfechos, felices y confiados al ver, con nuestros propios ojos, cómo las nuevas generaciones asumen la misión de proseguir la construcción del socialismo, única garantía de la independencia y la soberanía nacional.


Se cumplen 60 años del Primero de Enero de 1959, sin embargo la Revolución no ha envejecido, sigue siendo joven y no es una frase retórica, es una confirmación histórica, ya que desde los primeros momentos sus protagonistas fueron los jóvenes y así ha sido a lo largo de estas primeras seis décadas.


El proceso revolucionario no está circunscripto a la vida biológica de quienes lo iniciaron, sino a la voluntad y el compromiso de los jóvenes que aseguran su continuidad. Las nuevas generaciones tienen el deber de garantizar que la Revolución Cubana sea por siempre una Revolución de jóvenes, y al mismo tiempo, una Revolución Socialista de los humildes, por los humildes y para los humildes (Aplausos).


En esta significativa fecha no puede faltar el justo homenaje a la mujer cubana, desde Mariana hasta hoy, siempre presente en nuestras luchas por la emancipación de la patria y en la construcción de la sociedad que hoy edificamos.


Compañeras y compañeros:


La Segunda Sesión Ordinaria de la actual legislatura de la Asamblea Nacional del Poder Popular aprobó la nueva Constitución de la República, la cual será sometida a referendo el próximo 24 de febrero.


Previamente, por espacio de casi tres meses, se desarrolló un amplio proceso de consulta popular, en el que los ciudadanos expresaron libremente sus opiniones sobre el contenido del Proyecto, conllevando a la modificación del 60 % de los artículos, en clara evidencia del carácter profundamente democrático de la Revolución, donde las principales decisiones que definen la vida de la nación se elaboran con el aporte de todos los cubanos. Nuestros medios de prensa brindaron una detallada cobertura durante el proceso, lo que me libera de extenderme sobre el tema. En pocos días comenzará a distribuirse en un tabloide el texto definitivo de la nueva Constitución.


Solo deseo añadir la seguridad de que una vez más nuestro noble y aguerrido pueblo demostrará el 24 de febrero en las urnas el respaldo mayoritario a su Revolución y el Socialismo, ratificando la Constitución en el año en que conmemoraremos el aniversario 150 de la primera Carta Magna de Cuba, aprobada en Guáimaro por los iniciadores de la guerra por la independencia.


Tras 60 años de luchas, sacrificios, esfuerzos y victorias, vemos un país libre, independiente y dueño de su destino. Al imaginar el mañana, la obra realizada nos permite vislumbrar un porvenir digno y próspero para la Patria.


Teniendo en cuenta la heroica historia de lucha de los cubanos, en nombre de nuestro pueblo, con total optimismo y confianza en el futuro, puedo exclamar:


¡Viva por siempre la Revolución Cubana!


Muchas gracias.



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A carta brasileira de Benjamin Netanyahu


O Primeiro Ministro de Israel não é político de perder tempo. Já foi várias vezes aos EUA, país que é seu único aliado, lá fica horas e volta para controlar a turbulenta politica israelense, das mais complicadas do mundo, com população muito diversificada, de espectro ideológico de esquerda à extrema direita. Netanyahu é do Partido Likud, conservador, mas precisa de apoio de partidos mais à direita para se equilibrar, está longe de ser uma unanimidade em Israel, é dos politicos mais contestados especialmente pelos israelenses mais cultos e sofisticados intelectualmente, agora enfrenta também serias acusações de corrupção e está com o cargo sob ameaça.

O Brasil deu a esse politico astuto uma ótima carta, um presente no oferecimento de uma improvável aliança ideológica, algo impensável dentro de um conceito elementar de geopolitica.  Países não fazem cortesias, países têm interesses e não se comportam por pura empatia.

Sob o ponto de vista estratégico, a aliança lógica do Brasil é com o mundo arabe, grande comprador de produtos brasileiros no setor de proteína animal, atividade que emprega muitos brasileios tanto na área agrícola como na industrialização. Junto com o Irã, o mundo árabe é o maior mercado para a carne de frango do Brasil, um mercado que levou décadas para conquistar porque depende de métodos de abate ajustados à cultura muçulmana.

A tácita aliança do Brasil com o mundo árabe é antiga, vem da viagem do Imperador Dom Pedro ao Libano em 1870, o que provocou uma grande emigração de sirios-linaneses. A primeira grande diaspora antes da Primeira Guerrra, uma segunda diaspora entre 1920 e 1930 e uma terceira depois dos conflitos provocados pela instalação do Estado de Israel. Por essa grande imigração o Brasil tem hoje a maior colônia árabe do mundo fora do Oriente Médio.

16% da população brasileira tem ascendência árabe, algo como 32 milhões de brasileiros. Em nenhum outro Pais se conheceu a ocorrência de tantos governadores, prefeitos, congressistas de origem árabe. A maior cidade do Pais teve quatro Prefeitos de sobrenome árabe, 11 Estados brasileiros foram governados por descendentes de árabes. Então é uma aliança de interesse econômico, social, populacional e também cultural.

Não há remotamente algo semelhante com Israel, País que compra pouquissimo do Brasil mas quer vender muito. O número de judeus no Brasil é de 130.000, nem remotamente comparável ao da população de ascendência árabe e concentrada em três polos, os árabes estão por todo o Brasil.

A aliança estratégica com o Iraque, estabelecida no Governo Geisel, foi crucial para o Brasil ser abastecido de petróleo enquanto estava em moratória. O Iraque aceitando pagamento em produtos brasileiros. O Brasil desenvolveu sua indústria bélica com encomendas do Iraque e da Arábia Saudita.

No desdobramento diplomátic,o o Brasil segue a linha geral da União Europeia, da China, da Russia e dos paises asiáticos no sentido de respeitar os direitos territoriais do povo palestino. No lado contrário, ignorando esses direitos, só existe um Pais no mundo, os EUA, único aliado de Israel.

Portanto uma aliança diplomática com Israel não tem nenhuma conexão com a lógica da geopolitica brasileira, é algo exótico e onde o Brasil não tem nada a ganhar. Para comprar produtos israelenses basta pagar, não precisa ter aliança, estamos dando de graça vantagens diplomáticas sem contrapartida.

Por essa razão o Premiê de Israel ficou seis dias no Brasil, algo que não é normal na sua apertada agenda. A carta brasileira é valiosa para ele em um momento de baixa e perigo, está tlevando para Israel uma vantajosa aliança DE GRAÇA, não precisou dar nada em troca, o Brasil lhe deu um presente.

André Araújo
No GGN
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PT lança rede para oferecer suporte às vítimas de violência no novo governo

Rede Democrática de Proteção Solidária foi lançada como resposta à "pregação anti-humanista" de Jair Bolsonaro

Vítimas de violência podem realizar denúncias por meio do telefone (61) 3213-1320
Secretarias vinculadas ao Partido dos Trabalhadores (PT) se uniram para lançar, nesta quarta-feira (2), a Rede Democrática de Proteção Solidária "Você Não Está Só", para oferecer suporte jurídico e social às vítimas de violência no novo governo. Segundo os organizadores, o lançamento é uma resposta à "pregação anti-humanista" do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) – empossado nesta terça-feira (1º), com um discurso agressivo.

As vítimas de violência podem realizar denúncias por meio do telefone (61) 3213-1320. A Rede se propõe a fazer o devido encaminhamento jurídico para que as medidas cabíveis sejam tomadas. Além disso, serão realizadas campanhas informativas para auxiliar as pessoas que buscam atendimento em suas regiões.

A escolha do nome “Você Não Está Só” foi baseada no discurso do ex-candidato à Presidência da República, Fernando Haddad (PT), ao final do segundo turno.

A iniciativa foi aprovada pela Executiva Nacional do PT por unanimidade durante a reunião do Diretório Nacional do Partido, em 30 de novembro.

A Rede é composta por juristas, ativistas de direitos humanos e comunicadores voluntários.

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É importante entender as razões que levam Bolsonaro a insistir em discurso de ódio

Ele
É muito importante tentar entender as razões que levam Bolsonaro a insistir em seu discurso de ódio e divisão social e a investir contra valores e conceitos caros à esquerda.

O discurso contra o “socialismo”, contra “ideologia de gênero”, contra a “corrupção” e o “politicamente correto” é feito ao mesmo tempo, junto e misturado. Seriam todos parte de um “grande mal” do qual o Brasil estaria se libertando agora.

O apelo a temas caros à esquerda só pega porque estarem fortemente ligados ao desastre que representou o segundo mandato de Dilma Rousseff.

Quando – por decisão de governo – foi realizado o estelionato eleitoral, seguido do ajuste fiscal que nos jogou numa profunda recessão, o padrão de vida das pessoas desabou entre 2015-16. O desemprego saltou de 4% para 11% em um ano e meio e as condições de vida pioraram rapidamente. Tudo o que estava associado à imagem do PT foi junto.

Socialismo hoje, no imaginário popular, não é uma doutrina que pregue a igualdade. É um conjunto de ideias e práticas que desemprega, mente, ataca direitos etc. etc.

Bolsonaro deve calibrar suas falas com pesquisas de opinião e usa essa percepção popular com competência.

Não se deve “culpar” o PT por tudo e nem solicitar ao partido uma autocrítica. É inócuo.

Mas é essencial saber porque atacar o socialismo e outras bandeiras progressistas passou a render votos e pontos para a direita, coisa que não acontecia anos antes.

Gilberto Maringoni
No DCM
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Virada geral


Ano novo, governo novo, problemas velhos e novos. Temores novos.

A posse presidencial de hoje já vem carregada de sinais sobre a era Bolsonaro. O ritual será o mesmo, mas o esquema de segurança é algo sem precedentes. Os jornalistas vão enfrentar dificuldades inéditas na cobertura, com deslocamentos controlados, em ônibus do próprio governo e o acesso limitado até aos populares. A imprensa terá que aprender a lidar com um presidente que, imitando Trump, hostiliza veículos e jornalistas e prefere se comunicar pelas redes sociais, acreditando que a mediação da imprensa está dispensada graças a ela. Verá que está enganado. Jair Bolsonaro já ameaçou cortar seletivamente verbas de publicidade e tem chamado de fake news reportagens fundamentadas que lhe desagradam. Seus filhos não se cansam de insultar jornais e jornalistas pelas redes. Não vai ser fácil.

A expectativa positiva com seu governo é alta, as interrogações são muitas e faltam respostas para os problemas mais urgentes e graves. Começando pela questão da governabilidade, o governo começa sem que Bolsonaro, eleito “contra tudo que está aí”, tenha se rendido à evidência histórica de que não poderá governar sem uma base partidária consistente no Congresso. De Jango a Dilma, passando por Collor, a história ensina que os presidentes, por mais votos ou popularidade que tenham, descolam-se do chão, podendo cair, se não conseguem se entender com o Congresso. Não conseguirão implementar o programa eleitoral com que se elegeram se não tiverem votos.

A insistência de Bolsonaro na articulação da maioria através das frentes temáticas de parlamentares é arriscadíssima. Janeiro começa com os blocos partidários se alinhando, tendo como eixo a eleição dos presidentes das duas Casas. O pequeno partido dele, o PSL, não tem unidade nem estratégia para obter um resultado minimamente confortável na eleição das Mesas. O mais provável é que as raposas da velha política – Renan Calheiros no Senado e Rodrigo Maia na Câmara – levem a melhor. Ainda que sejam outros os eleitos, Bolsonaro não governará (vide Dilma) se não conseguir um pacto de colaboração com eles.

Bolsonaro herda os velhos gargalos na infraestrutura, o desemprego alto, o déficit fiscal elevado, o caos na saúde e uma economia que se recusa a deslanchar, mas na véspera da posse o que temos não são propostas para estes problemas. É o anúncio de medida que vai ao encontro do eleitorado que ele seduziu com o discurso de que vai “pegar pesado” na questão da violência e da insegurança, a liberação da posse de armas decreto. O Congresso pode tomar como primeira provocação a dispensa de seu aval à alteração da lei do desarmamento. Em verdade, ele deve tentar afrouxar regras previstas no decreto que regulamentou a lei. Legalmente talvez possa fazer isso, mas politicamente é contraindicado. A medida tende a ser judicializada. O PT já estuda o questionamento jurídico do decreto e o Datafolha acaba de apurar em pesquisa uma rejeição crescente à liberação da posse de armas (61%).

É provável que tenhamos uma espécie de governo de duas cabeças. Na área econômica, o ministro Paulo Guedes e equipe implementando medidas ultraliberais com as quais esperam turbinar a economia. Na outra ponta, teremos o presidente tocando uma agenda relacionada com seu discurso ideológico: jogo duro com a criminalidade, contra a esquerda “comunista” e os movimentos sociais, desideologização da escola (sem partido), como se o problema da educação no Brasil fosse este, e não a baixa qualidade e a evasão dos jovens antes de terminarem o segundo grau.

As interrogações são muitas, e nem dá para falar aqui dos resultados da política externa altamente ideológica que ele promete. Mas, passada a posse, começa o tempo das cobranças, e é bom mesmo que cada pasta apresente suas prioridades para os primeiros cem dias, como pediu Bolsonaro. O povo aplaude mas não se alimenta de bravatas ideológicas.
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Venezuela: Maduro afirma que nenhuma ação do exterior vai impedi-lo de assumir um novo mandato


O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, disse que as declarações de países da região e da Europa, em que afirmam que retirarão seus embaixadores para ignorar seu novo mandato, não impedirão sua posse em 10 de janeiro.

"O povo decidiu e vamos cumprir com o povo, não há possibilidade de que qualquer governo diga alguma palavra do exterior para conhecer, reconhecer ou ignorar a legitimidade democrática do governo que presidirei de 10 de janeiro de 2019 a 10 de janeiro de 2025 ", disse o chefe de Estado.

Maduro afirmou ainda que "os projetos neoliberais de direita na América Latina e no Caribe são inviáveis, e eles vão provocar o ressurgimento de uma nova onda de transformações populares". Para ele, os projetos políticos de Jair Bolsonaro, Iván Duque (presidente da Colômbia) e Mauricio Macri (Argentina) fracassarão e serão sucedidos por governos de esquerda. Ele qualificou a administração Bolsonaro de "governo de extrema-direita neofascista".

Maduro fez esta declaração durante uma entrevista com o jornalista espanhol Ignacio Ramonet, que foi ao ar na estatal Venezolana de Televisión.

Em 6 de dezembro, o presidente da Colômbia, Iván Duque, disse que pelo menos 15 países latino-americanos poderiam retirar seus embaixadores e equipes diplomáticas da Venezuela depois de 10 de janeiro.

Após as eleições presidenciais de 20 de maio em que Maduro foi reeleito, vários países ignoraram os resultados, argumentando que as eleições eram fraudulentas.

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MP de Bolsonaro torna terra indígena subordinada ao agronegócio


Todo covarde começa sempre com os mais fracos.

Na Medida Provisória que reorganiza os ministérios, informa Rubens Valente, na Folha, Jair Bolsonaro tira da Funai  e entrega ao Ministério da Agricultura – leia-se, ao agronegócio – a ” a identificação, delimitação e demarcação de terras indígenas no país”.

Na prática, as demarcações passam agora às mãos dos ruralistas, adversários dos interesses dos indígenas em diversos Estados. O Ministério da Agricultura é comandado pela líder ruralista Teresa Cristina, deputada federal pelo Mato Grosso do Sul.
A retirada das demarcações do âmbito da Funai aprofunda o esvaziamento do órgão, criado em 1967 em substituição ao SPI (Serviço de Proteção ao Índio), fundado em 1910.

A equipe de transição de Bolsonaro já havia anunciado que a Funai seria transferida do Ministério da Justiça e passada ao Ministério de Direitos Humanos, comandada pela pastora evangélica Damares Alves. Agora, perde a capacidade das demarcações, submetida a outro ministério.

A partir de agora, terra indígena será onde não for possível por um boi a pastar ou um pé de soja a brotar.

Eu ia dizer que para eles só sobrariam as pedreiras, mas esqueci dos interesses da mineração.

Seria mais prático que demarcassem logo a extensão das terras destinadas aos índios: sete palmos, medidos para baixo.

Estes generais que dão suporte a Jair Bolsonaro não são dignos da sola das botinas do Marechal Cândido Rondon.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Posse de Bolsonaro foi um fiasco

Esplanada vazia
Sob muitos aspectos, a posse de Jair Bolsonaro foi um fiasco.

O primeiro deles é o público.

A equipe do presidente anunciou que colocaria na Praça dos Três Poderes e na Esplanada dos Ministérios mais de 250 mil pessoas — havia assessores falando em 500 mil.

A ideia era quebrar o recorde de público na posse de Lula, em 2003 — 250 mil.

Na festa de Bolsonaro, segundo cálculo do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), compareceram 115 mil.

O segundo fiasco foi o baixo comparecimento das autoridades de outros Estados.

Destacaram-se dois expoentes da direita mundial.

Benjamin Netanyahu, que enfrenta problemas políticos internos muito sérios em seu país, Israel, acusado de corrupção.

O outro é Victor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, comparado a Hitler.

Donald Trump, a quem Bolsonaro faz acenos de submissão, não veio, e seu representante, o secretário de Estado Mike Pompeo, ficou pouco tempo em Brasília.

Ele chegou por volta das 13 horas a Brasília, e fez uma postagem no Twitter:

“Ansioso para testemunhar a transferência pacífica de poder em uma das democracias mais fortes da América Latina.”

Mike Pompeo, no entanto, foi embora no início da noite. Teria permanecido no Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, apenas meia-hora, e saiu sem falar com a imprensa.

O presidente peruano, Martín Vizcarra, deixou Brasília ainda pela manhã, antes da posse. Sua assessoria informou que há uma crise política no país, e ele teve que retornar.

O presidente da Argentina, Maurício Macri, nem colocou os pés em Brasília.

Dias antes, avisou que não compareceria, e mandou no seu lugar o ministro das Relações Exteriores, Jorge Faurie.

O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza, compareceu, mas, pelo que se conta nos bastidores, tinha motivos familiares para estar no Brasil.

Seus netos moram em São Paulo, e ele passou o Réveillon com a família, e de manhã viajou para Brasília.

Perguntado sobre o que achou da posse de Bolsonaro, disse que foi um dia bastante “cheio”, no sentido de que houve muitas solenidades.

No Congresso Nacional, a posse de Bolsonaro também não teve o prestígio que se imaginava.

Deputados progressistas, sobretudo os da bancada do PT, PSOL e PCdoB, boicotaram, em razão das declarações hostis do presidente.

Durante a campanha, ele disse que iria metralhar os petistas e banir do Brasil os opositores.

Mas não foram só eles que faltaram.

Quem acompanha o dia a dia de Brasília notou a ausência de políticos experientes do chamado centrão.

Na prática, deram uma banana para Bolsonaro.

Em política, a ausência de um parlamentar é um sinal eloquente.

É uma declaração de que ainda esperam algum aceno do chefe do Executivo.

Por enquanto, tudo é festa, mas para tocar este transatlântico chamado Brasil Bolsonaro precisará de muito mais do que uma retórica beligerante — aliás, esta só atrapalha.

Não adianta dizer que vai libertar o Brasil do socialismo ou que a bandeira não será vermelha.

Declarações desse tipo deixam excitados os analfabetos políticos, mas não representam nada nas relações institucionais.

São palavras desprovidas de sentido. Quando é que o Brasil foi socialista?

Se gritar muito, Bolsonaro vai ficar rouco, mas não vai conseguir nada.

Só aumentará a rejeição que tem da parte já civilizada da sociedade, brasileira e mundial.

* * *

Em relação à posse de Bolsonaro, Donald Trump se limitou a fazer uma postagem curta no Twitter – o cumprimentou pelo “ótimo discurso de posse”.

Minutos depois, Bolsonaro agradeceu, também pelo Twitter, e chamou o presidente dos Estados Unidos de “Senhor Presidente”.

Muitos eleitores de Bolsonaro se arrependerão rapidamente de entregar o comando do país a um político do baixo clero.

Joaquim de Carvalho
No DCM



Posse é um show de horrores, mas ao mesmo tempo altamente populista


A posse de um presidente vale não pelos rococós que dispensam quase 90% do seu tempo, mas pelo momento em que o eleito sobe no parlatório para falar ao público presente na Esplanada. É ali que se dá o recado de qual será o tom do início do governo. É neste discurso que se estabelecem os marcos do marketing que chega.

E a grande novidade é que Michele Bolsonaro não será uma primeira-dama decorativa. Ela falou antes do novo presidente usando a linguagem de libras. Foi tudo meio patético, mas ao mesmo tempo um golaço de marketing. Ao fazer isso ela estabelece uma relação direta com o público deficiente físico, em especial os surdos. São 25% dos brasileiros com alguma deficiência. E 5,4% de surdos. Não é pouca coisa.

Ao mesmo tempo seu discurso humanizou o marido para o público feminino que era o mais refratário a ele durante a campanha eleitoral.

Já Bolsonaro não desceu do palanque. E deixou claro que vai manter seu tom bélico e de ódio na presidência. Abriu falando que estava com a sua posse libertando o país do socialismo, declarou o fim do politicamente correto, acusou os direitos humanos pelo aumento da violência e para lacrar ainda encerrou com uma bandeira do Brasil na mão dizendo que a nossa bandeira jamais será vermelha e se for preciso derramará sangue para mantê-la verde e amarela.

O público presente na Esplanada foi ao êxtase neste momento. Muitos devem ter comemorado nos sofás de suas casas assistindo à Rede Globo, que aliás, fez uma cobertura absurdamente favorável ao novo presidente. Os comentários, em especial de Heraldo Pereira, foram altamente reverenciais. Como se nada estivesse acontecendo com seus colegas jornalistas que foram tratados, nas palavras de alguns deles, piores do que cachorros na posse.

Os primeiros 100 dias de governo costumam ser de bate-cabeça. Cada ministro buscando ter mais poder do que o outro. Quando dá tudo certo, as coisas se ajeitam lá pela Páscoa. Mas pelo que se pode perceber hoje, o governo que chega tem foco. Será autoritário, mas altamente populista.

E isso pode lhe garantir certo fôlego.

Aliás, não foi à toa que o filho Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro, foi o escolhido para acompanhar o pai no desfile de carro aberto. Ele é o mais bélico de todos. É o que expressa com maior virulência o ódio a todos os valores iluministas e de respeito aos direitos humanos.

Não será tão fácil combater o governo Bolsonaro neste primeiro momento. Porque ampla maioria da população torce para que dê certo. Para que o capitão bote ordem nas coisas e melhore a segurança pública, a saúde, a empregabilidade etc.

Sabe-se que ele não vai conseguir entregar isso de cara e por isso as pessoas darão um tempo para as coisas se ajeitarem. Enquanto isso, Bolsonaro se encarregará de, com um rumo claro nos aspectos políticos e culturais, ir entregando sua agenda autoritária.

O que pode atrapalhá-lo é se o leite azedar na economia. Mas o que dá para prever olhando essa posse é que teremos um governo trapalhão, mas populista e que não titubeará. Fará tudo o que prometeu na campanha em relação a perseguição e ataques a agenda progressista. E buscará transformar cada um desses retrocessos em grandes vitórias para o país.

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