13 de jul. de 2019

Pact, Pact, Pact

Era simples. Apenas uma mudança de acentuação, o samba depurado a uma batida nova. Fácil. Mas então por que era tão difícil? Me lembro dos anos 50, nós vivendo nossos dias de Cuba Libre e grandes ressacas, e tentando aprender. Como era mesmo? Pact, pact, pact, pact-pact, pact...

Não era só a batida, era outro mundo que se inaugurava. Um mundo novo, mas com precursores. Lúcio Alves, Dick Farney e Mário Reis foram exemplos de antitenores que cantavam do mesmo jeito suave do João Gilberto, embora não espaçassem as músicas à sua maneira revolucionária. Nada representava melhor o clima musical da época no Rio do que o Johnny Alf cantando e tocando na boate do Hotel Plaza, na Princesa Isabel, para uma plateia quase toda de músicos. Todas as madrugadas.

Elizete Cardoso, grande dama do samba tradicional, que se apresentava regularmente na boate “Cangaceiro”, contribuiu indiretamente para o nascimento da bossa nova. Foi ela que gravou Chega de Saudade, onde o violão do João fazia sua primeira aparição.

Acho que, forçando só um pouco a comparação, pode-se dizer que Elizete foi no samba o que Miles Davis foi no jazz, um líder de novidades e tendências. Depois do histórico Chega de Saudade ela gravou Elizete Sobe o Morro, inaugurando outra onda, a de sambistas autênticos, muitos esquecidos nos morros. Miles também inaugurou vários movimentos, o também histórico Birth of the Cool, depois uma reação ao “cool”, depois a fusão com o rock, etc. Sempre à frente.

Vi o João Gilberto ao vivo só uma vez. Um grande auditório lotado, em São Paulo. Umas três mil pessoas. Ele sozinho em cima do palco. Demora a começar. Um silêncio tenso da plateia. Nenhuma tosse, nenhum ranger de cadeira. Qual será o problema? Ele nos odeia, é isso. Ele vai nos ... Finalmente, João Gilberto começa a cantar. Todos voltamos a respirar, aliviados. E eu me pergunto que outra pessoa no mundo mereceria aquela reverência?

Luís Fernando Veríssimo

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