9 de jul. de 2019

A terra tremeu

A Califórnia tremeu por esses dias. Os californianos convivem há anos com a expectativa nervosa do “big one”, o grande terremoto que destruirá tudo e varrerá os escombros que sobrarem para uma grande fenda na Terra. Os especialistas dizem que a questão do “big one” não é se ele virá, mas quando.

Qualquer sacudida (e a Terra treme um pouquinho várias vezes por dia na Califórnia), pode ser um prenúncio de tragédia. Na nossa primeira noite na casa que ocuparíamos durante um ano em São Francisco, o chão balançou, os lustres sacudiram e fomos nos deitar em vigília, certos de que o “big one” nos pegara. Pelo menos já teríamos o que contar em Porto Alegre. Mas a imprensa não disse nada sobre o que fora, aparentemente, um filhote de terremoto, só para assustar brasileiro.

O Millôr certa vez falou da sua emoção ao descobrir o lápis n.º 1. Acho que todo homem reproduz, em algum momento da sua vida, a mesma sensação do primeiro pré-humano que enfiou o dedo num favo de mel e depois lambeu o dedo, e teve um vislumbre das dádivas do mundo – enquanto fugia das abelhas. O meu momento foi na Califórnia, com 7 anos de idade, ao ver meu primeiro gibi a quatro cores. Quadrinhos coloridos! A vida tinha doçuras insuspeitadas.

Mas nunca me orgulhei tanto do que fiz como quando construí um projetor com uma caixa de charutos e projetei na parede um filme desenhado por mim em papel de seda. O filme queimou em dois segundos, mas foram meus melhores dois segundos até agora. Meu pai comprara um projetor de verdade, de 16 mm, mas só dois filmes: um de patinação no gelo, com a Sonja Henie, para a minha irmã, e um do Durango Kid para mim. Víamos os filmes sem parar, e sem cansar. Veríamos qualquer coisa projetada na tela improvisada com o mesmo prazer. O que interessava mesmo era aquela mágica: cinema em casa!

Há algum tempo perguntaram a várias personalidades qual era o filme da sua vida. Curiosamente, os dois filmes mais citados, Amarcord e Cinema Paradiso, são evocações da infância em que o cinema é a referência comum. Como não eram filmes tão antigos assim, sua escolha foi uma maneira indireta de a maioria fazer a ligação de cinema e nostalgia, e dizer que nossa relação com o cinema é sempre a da fascinação infantil.

O filme de Giuseppe Tornatore não é sobre outra coisa. O do Fellini é, entre outras coisas, sobre o impacto do cinema e tudo que ele representava na alma provinciana e na imaginação infantil. Crescemos todos num arrabalde de Hollywood, vendo as suas luzes de longe e sonhando em ser, conhecer ou (mais tarde) comer suas estrelas. Amarcord e Cinema Paradiso são os filmes das nossas vidas literalmente.

Não sei se eu teria algum prurido em responder que o filme que marcou a minha vida foi o Gunga Din. Mas se fosse ser sincero e fiel aos meus excessos – devo ter visto o filme umas 20 vezes – votaria em Gunga Din. Depois, claro, Casablanca e vários Hitchcocks, como uma pessoa normal. Mas somos reféns sentimentais dos nossos prazeres mais remotos. Nenhum foi melhor do que aquele do Durango Kid.

Luís Fernando Veríssimo

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