2 de jul de 2019

A cocaína que viajava no avião da comitiva de Bolsonaro

EL PAÍS obtém imagem exclusiva da bagagem que continha 39 quilos de droga que foi levada para a Espanha pelo sargento Manoel Silva Rodrigues no avião da FAB

Maleta com a cocaína encontrada com o militar da comitiva de Bolsonaro
Um, dois, três... assim se contou até que se verificasse a existência de 37 pacotes com pouco mais de um quilo de quantidade cada. Todos enrolados em fita de cor bege, menos um, que apareceu recoberto com uma cor amarela. Todos perfeitamente ordenados em uma mala de mão de cor escura sem nada mais em seu interior. Só cocaína. A apreensão pela Policia Civil em 25 de junho no aeroporto de Sevilha de 39 quilos de droga na bagagem do sargento Manoel Silva Rodrigues, de 38 anos, membro da comitiva do presidente brasileiro Jair Bolsonaro em sua viagem à cúpula do G20, no Japão, ficou refletida em uma fotografia, obtida com exclusividade pelo EL PAÍS. Tirada junto ao raio-x que permitiu que os agentes detectassem, estupefatos, os pacotes a imagem reflete as nulas precauções que o militar tomou para ocultar o conteúdo criminoso.

Rodrigues ingressou um dia após sua detenção no aeroporto na prisão de Sevilha I. Segundo detalham fontes penitenciárias, desde então ocupa uma cela, compartilhada com outro preso, em um dos módulos onde estão enclausurados os internos menos conflitivos. Enquanto isso, a investigação da Policia Civil se centra em averiguar quem recolheria a mala com a cocaína na capital andaluza das mãos do militar brasileiro, que os investigadores consideram uma simples mula ou correio humano. As hipóteses policiais apontam que o agora detento tinha um encontro no hotel onde ficaria com o restante da tripulação do avião para descansar durante a escala em Sevilha, a caminho de sua viagem para a cidade japonesa de Osaka a bordo da aeronave de apoio à que viajava Bolsonaro.

As circunstâncias nas quais a droga foi localizada — sem estar oculta — levantam a suspeita dos policiais espanhóis de que o sargento brasileiro acreditava que não seria submetido a nenhum tipo de controle alfandegário por fazer parte da comitiva do presidente brasileiro em viagem oficial. Equivocou-se. Os dois volumes de bagagem que retirou do avião —um porta terno e a mala de mão onde levava a cocaína— foram passados pelo scanner do aeroporto e os agentes descobriram facilmente os pacotes em forma de tijolo com a droga. A primeira estimativa da Policia Civil, sem a realização de análises químicas para determinar com exatidão o grau de pureza do entorpecente, consideraram em 1,3 milhão de euros o valor da cocaína.

A descoberta do suposto narcotraficante no séquito presidencial causou assombro no Brasil. E o fato de o protagonista do crime ser um militar impactou especialmente Bolsonaro, um antigo capitão do Exército que dedicou sua carreira política a defender os interesses corporativos da categoria e que no Governo se rodeou de mais uniformizados que qualquer um de seus antecessores na democracia. O ultradireitista é, além disso, um estrito defensor da lei e da ordem. De fato, o presidente brasileiro lamentou publicamente em duas ocasiões que o sargento de sua comitiva não estivesse na Indonésia, onde o tráfico de drogas é castigado com a pena de morte. Um brasileiro descoberto com 13 quilos de droga foi executado no país em 2015. O caso “está sendo investigado. Jogou na lama o nome das instituições. Prejudicou um pouco o Brasil, mas isto acontece em qualquer local do mundo, em qualquer instituição”, afirmou o mandatário ao regressar da cúpula do G20.

Bolsonaro afirmou considerar o caso “inaceitável”, em sua live semanal no Facebook, feita de Osaka às sete da manhã. Mostrou-se convencido de que esta não era a viagem de estreia do sargento “porque ninguém em uma primeira viagem leva 39 quilos de droga”. E aproveitou para agradecer as autoridades espanholas. Seu ministro da Defesa, o general da reserva Fernando Azevedo e Silva, limitou-se a dizer que o acusado “será julgado sem condescendência pela Justiça espanhola e pela brasileira”. As autoridades brasileiras da Aeronáutica não quiseram precisar se o suboficial e sua bagagem foram inspecionados antes de subir ao avião reserva em que ele voou de Brasília até Sevilha.

Rodrigues está há 19 anos na Força Aérea do Brasil. Há três anos ele ingressou na equipe que transporta os chefes de Estado e outros cargos de alto escalão. Segundo o Portal da Transparência, seu salário líquido é de 6.337 reais e ele participou de 29 viagens oficiais, incluídas algumas com os então presidentes Michel Temer e Dilma Rousseff. As condenações por drogas foram aumentando nos últimos anos entre os mais de 300.000 membros das Forças Armadas do Brasil. Entre 2010 e 2017, 648 uniformizados brasileiros foram condenados por crimes relacionados a drogas, segundo dados do Tribunal Superior Militar que não precisam quantos são por consumo e quantos por tráfico.

A Presidência lamentou que o flagrante tivesse ocorrido a caminho de uma cúpula internacional, o que amplificou a repercussão. O caso coincidiu, além disso, com uma visita do ministro da Justiça, Sergio Moro, à sede da agência antidrogas dos Estados Unidos, a DEA, o que serviu, como todo o episódio, de matéria prima para inúmeras piadas e memes no politicamente ultradividido Brasil.

Óscar López-Fonseca | Naiara Galarraga Gortázar
No El País

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