19 de jun. de 2019

Sem pescoço e sem cabeça


Quando o Gal. Castello Branco transmitiu o cargo de ditador de plantão para o Gal. Costa e Silva, muitos comentaram que saía de cena um general sem pescoço para entrar em evidência de um general sem cabeça. Já que comecei contando maledicências da história, vamos a mais uma. Conta-se que numa visita ao glorioso estado americano de Iowa, o cientista Albert Einstein, no auge de sua fama, teria sido recepcionado pelo governador e pela vencedora do último concurso estadual de misses que, lá pelas tantas, teria dito a ele: “Dr. Einstein, já imaginou se tivéssemos um filho juntos, ele teria a minha beleza e a sua inteligência”. Einstein teria, então, retrucado: “melhor não arriscar, vai que dá o contrário”. Pois é, a natureza as vezes produz resultados indesejados. O Gal. Augusto Heleno parece ser um desses casos, a lamentável decorrência de uma cruza entre o Gal. Castello Branco e o Gal. Costa Silva: não tem pescoço nem cabeça.

Como disse meu amigo e colega Bruno Reis em um texto no Facebook, sobre a fala afetada do Gal.

Heleno no café da manhã do presidente Bolsonaro com jornalistas:

“Nunca vi general falar assim. Ainda mais quando se pensa que veio no mesmo dia em que caiu de sua cadeira no mesmo Planalto o outro general que lá habitava, depois de bater de frente com o zé ninguém Olavo de Carvalho, que por sua vez havia esculhambado da maneira mais vil o general Villas Boas, que ainda outro dia era o comandante do Exército e que mesmo assim reafirmou seu hábito de intimidação antilulista. Sei não, rogo aos céus para estar errado. Mas minha atual impressão é que, neste momento, balbúrdia para valer é o Exército brasileiro”.

A participação no governo Bolsonaro já está impactando negativamente a imagem dos militares. O Gal. Heleno, contudo, parece estar se esforçando para piorar as coisas. Pelo cargo que ocupa, deveria primar pela discrição, afinal, nunca ouvi falar em um chefe de serviço de inteligência com esse tipo de comportamento afetado.

O ataque destemperado ao líder petista – com a afirmação de que seria desonesto, de que teria desonrado a presidência da República, cargo que jamais teria merecido ocupar – foi claramente uma reação à afirmação dele, Lula, de que “general que aceita se subordinar a um presidente que bate continência para a bandeira dos Estados Unidos não merece ser general. O Gal. Heleno saiu da sua zona de conforto burocrático(1) no GSI para uma peleja no campo do adversário, a política. Está se arriscando muito. Afinal, escolheu rivalizar com um gênio no assunto (2).
  1. De burocracia os generais sempre entenderam, como bem demonstrou o historiador José Murilo de Carvalho em seu livro “A Construção da Ordem”.
  2. O Gal. Heleno também deveria pensar que a sua falta de discrição leva muitos a desencavarem sua “condenação pelo Tribunal de Contas da União, o TCU, por autorizar convênios ilegais que custaram R$ 22 milhões ao governo – e favoreceram militares conhecidos seus” (https://theintercept.com/2018/11/26/general-heleno-tcu/).
P.S.: Cadê Queiroz?

Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997. Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG
No GGN

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